Title: O Descobrimento do Brazil
Author: Manuel Ferreira Garcia Redondo
Release date: January 17, 2008 [eBook #24344]
Language: Portuguese
Original publication: São Paulo: Casa Vanorden, 1911
Credits: Produced by Ricardo F. Diogo, Júlio Reis and the Online Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was produced from images generously made available by The Internet Archive)
O DESCOBRIMENTO DO BRAZIL
NOTAS
NOTICIAS
Notas de transcrição:
(DA ACADEMIA BRASILEIRA)
Primeira conferencia da serie organisada pelo Centro Republicano Portuguez de São Paulo, realizada no Instituto Historico e Geographico de S. Paulo, na noite de 3 de Junho de 1911
SÃO PAULO
CASA VANORDEN
1911
(DA ACADEMIA BRASILEIRA)
Primeira conferencia da serie organisada pelo Centro Republicano Portuguez de São Paulo, realizada no Instituto Historico e Geographico de S. Paulo, na noite de 3 de Junho de 1911
SÃO PAULO
CASA VANORDEN
1911
Assistiram a esta conferencia, além do ministro de Portugal, Snr. Dr. Antonio Luiz Gomes, e do seu secretario, Dr. Bartholomeu Ferreira, que do Rio de Janeiro vieram especialmente para esse fim, o consul da França, Snr. Jacques Dupas e sua familia, os consules de Portugal em S. Paulo e Santos, os consules do Paraguay e da Guatemala, os representantes do Governo do Estado e do Governo Federal, a directoria e membros do Centro Republicano Portuguez de S. Paulo, o director e muitos lentes da Escola Polytechnica, uma parte da directoria e muitos socios do Instituto Historico e a fina flor da sociedade culta e da colonia portugueza de S. Paulo.
Esta conferencia é impressa no formato do livro Conferencias do auctor para que possa ser annexada a esse livro.
O orador, depois de agradecer a presença do numeroso e luzido auditorio, que affluiu ao salão do Instituto Historico para ouvir a sua palavra rude e, depois de varias explicações que deu sobre o grande mappa que organisou para illustrar e esclarecer a sua conferencia, diz:
Minhas senhoras, meus senhores:
Na minha ultima viagem ao Velho Mundo, em 1906, achando-me na Suissa e querendo visitar a exposição internacional de Milão, em vez de fazer a viagem directa e curta, indo de Genebra, onde estava, a Montreux e de Montreux a Milão, preferi fazer uma grande volta, indo de Genebra a Lyon e a Marselha e percorrendo depois toda essa extensa e deliciosa costa do Mediterraneo que se chama Côte d'Azur.
Para que? Para entrar na Italia por Genova e prestar, antes de tudo, a minha homenagem de americano á memoria de Christovam Colombo, visitando a casa onde elle nasceu.
Alli fui, pois, e alli estive no vetusto predio, onde, em 1450, viu a luz do dia o audacioso genovez, conforme reza a placa commemorativa collocada entre duas janellas antigas desastradamente vestidas á moderna com venezianas verdes.
Até então, eu suppunha, pelo que sabia, pelo que havia lido, que Christovam Colombo era o descobridor da America, assim como suppunha tambem que Pedro Alvares Cabral era o descobridor do Brazil.
Mas, veio-me depois ás mãos um livro—A descoberta do Brazil—do sr. Faustino da Fonseca, e esse livro precioso, feito com o nobilissimo intuito de reivindicar para Portugal a gloria completa do descobrimento do Novo Mundo, livro que, em abono da civilização portugueza, que, em abono dos nossos maiores, deveria ser traduzido em todas as linguas vivas para ser distribuido em todas as escolas do universo, veio mostrar-me, á luz de documentos authenticos e irrefutaveis, que nem o navegante genovez foi o primeiro a chegar ao Novo Mundo, nem Cabral o primeiro a achar essa parte do Novo Mundo que se chama o Brazil.
Colombo e Cabral—o primeiro ao aportar, em 1492, ás Antilhas, e o segundo, em 1500, á costa brazileira, não fizeram mais do que reconhecer e tomar posse officialmente de terras que muitos annos antes já haviam sido descobertas por navegantes portuguezes.
Baseia-se o precioso livro do sr. Faustino da Fonseca em doações feitas pelos reis portuguezes aos primeiros navegantes que sulcaram o Atlantico, em tratados de limites, em correspondencias officiaes, roteiros, mappas, relações, cartas de testemunhas dos acontecimentos e outros documentos que o autor, no seu louvavel ardor patriotico, foi descobrir e copiar com uma paciencia de benedictino nos archivos hespanhóes e açorianos e na Torre do Tombo.
É com esse fanal em punho, que dá por terra com todas as lendas, todos os erros e embustes dos historiadores que precederam o sr. Fonseca, que eu venho, hoje, na medida das minhas fracas forças, ajudal-o a reivindicar para Portugal, não a gloria de haver descoberto o Brazil sómente, mas tambem a gloria de haver descoberto a America.
Oxalá seja esse meu auxilio efficaz, oxalá possa elle levar a convicção ao animo dos que me ouvem e dos que me lerem, para que possamos dizer todos, una voce, e fazendo a justiça tardia a que tem direito a velha civilização portugueza: Gloria a Portugal, descobridor do Novo Mundo!
Os conhecimentos geographicos dos antigos eram limitadissimos, não conhecendo os europeus mais do que duas terças partes do seu continente, o norte da Africa e o sudoeste da Asia, acreditando Ptolomeu que a Africa se estendia até ao polo antarctico, reduzindo assim o Oceano Indico a um simples lago ou pequeno mar interior. Nessa época, o que se chama India comprehendia a Indo-China, o Indostão, as ilhas e regiões do extremo Oriente. Era a India considerada como um paiz de fabulosas riquezas e nella dizia-se que habitava o Prestes João, soberano Christão, que reunia o poder temporal ao espiritual e era o summo pontifice do Oriente.
O Oceano Atlantico era tratado por mar tenebroso e considerado innavegavel, povoado por monstros, coalhado de escolhos, coberto de nevoa densa. Era um mar onde, para uns, reinava a eterna calmaria podre, para outros, era constantemente açoutado por violentos tufões, de sorte que era uma barreira á communicação entre os dois hemispherios.
Não contentes de limitar a tão pouco os seus conhecimentos geographicos, os antigos inventavam lendas, semeavam o oceano de ilhas imaginarias, de estatuas e de columnas, que impediam os navegantes de marchar.
As columnas de Hercules fechavam o caminho do Atlantico, outras duas columnas erguiam-se num estreito, impedindo a entrada do mar da India. A phantasia não tinha diques e os mappas, principalmente o de Marco Polo, marcavam milhares de ilhas em algumas das quaes se localizava o paraiso, o purgatorio e o inferno! Na ilha de Salomão, onde se dizia estar o cadaver desse rei mulherengo, num maravilhoso palacio, tres estatuas faziam retroceder o navegante sob pena de morte. O cabo Bojador era um ninho de serpentes e na ilha de Ceylão estava o tumulo de Adão!
Ainda em 1375 a costa africana só era conhecida de Ceuta até ao Cabo Bojador, e ainda em 1436, já em pleno seculo XV, o mappa de André Bianco, um mixto de christianismo e de paganismo, reproduz as lendas e figuras da edade média, collocando Jerusalém no centro do mundo e determinando o local do paraiso terrestre!... Toda a terra conhecida resumia-se num unico continente. Tudo mais eram ilhas entre as quaes estava a de Cypango, onde Colombo julgou ter chegado em 1492, quando aportou ás Antilhas.
Lendas de origem portugueza só havia duas—a do gigante Adamastor, no Cabo das Tormentas, que o grande épico dos Lusiadas tão lindamente narrou em verso sonoroso, e a do cavalleiro de pedra, na ilha do Corvo—mas este, ao contrario dos outros que intimavam o navegante a retroceder, mandava-o avançar, apontava-lhe o caminho a seguir, demandando novas regiões.
Taes eram os conhecimentos geographicos até ao primeiro terço do seculo XV.
Foi então que appareceu o famoso projecto do infante d. Henrique, projecto que revolucionou o systema do mundo.
Até ahi só se conheciam dois caminhos para chegar ao Oriente, ambos por terra, ambos partindo do Mediterraneo. Conhecida a India como um paiz de riquezas fabulosas e tendo cessado para os portuguezes, com a tomada de Ceuta, o trafico dos generos do sertão pelo Mediterraneo, cogitou o infante d. Henrique em chegar á India por um outro caminho—a via maritima, pelo occidente. Mas, para isso, tinha de affrontar o Mar Tenebroso, esse oceano inçado de escolhos e de monstros, impenetravel e mysterioso. Como o seu intuito era explorar as riquezas indianas e levar a fé aos musulmanos, com os quaes esperava combater, elle sentiu a necessidade de um alliado e o alliado natural era o Prestes João, o summo pontifice da christianidade indiana.
Era preciso, pois, procural-o, mas seguindo pela via maritima.
«Provêm desta origem, diz o sr. Faustino da Fonseca na sua obra admiravel, as explorações para o sul e para o occidente; as grandes viagens do occidente e do oriente; o encontro de duas passagens a leste e a oéste,—o Cabo da Boa Esperança e o estreito de Magalhães; as descobertas da costa da Africa e das ilhas do Atlantico, da America do Norte e do Brazil.»
«Obedece tudo a este proposito, subordina-se tudo a este projecto, são tudo soluções ao problema: os conselhos de Toscanelli e de Monetario, o erro de Colombo, a audacia de Magalhães.»
Não é difficil provar que Colombo não descobriu a America e que quando chegou ás Antilhas, em 1492, já a America havia sido descoberta pelos portuguezes, muitos annos antes. O difficil seria provar hoje, em face dos documentos encontrados pelo sr. Faustino da Fonseca e dos quaes me vou soccorrer nesta conferencia, que o ousado genovez fez tal descoberta.
Esmiucemos o interessante assumpto.
Quando o infante d. Henrique fundou a escola de Sagres com observatorio astronomico, para o qual fez vir cosmographos e mathematicos estrangeiros, e mandou construir nos seus estaleiros as primeiras caravelas e ordenou que ellas sahissem, para o mar tenebroso e pelo occidente, dizendo aos capitães que avançassem sem receio, fazendo-se ao largo, já Gonçalves Zarco havia descoberto a ilha da Madeira e já o infante conhecia o livro de Marco Polo, que existia em Portugal desde 1418, trazido pelo infante d. Pedro, que o recebera como dadiva do senado de Veneza, assim como conhecia tambem o mappa do mesmo Marco Polo onde se veem as regiões do oriente muito proximas das do occidente. No seu livro, Marco Polo assegurava que Catay estava no Atlantico (que elle chama o mar de Cyn) a pequena distancia da Europa e que, no Atlantico, estavam tambem Cypango e outras ilhas de especiarias.
As primeiras caravelas, construidas e equipadas pelo infante em 1431, começam a perscrutar o mar vasto e, um dia, de uma dellas, Gonçalo Velho Cabral descobre as Formigas. Um anno depois, em 1432, descobre ainda Santa Maria. As expedições maritimas portuguezas, desde então, succedem-se ininterruptamente e, annos depois, é descoberta grande parte das ilhas do archipelago dos Açores pelo mesmo Gonçalo Velho e depois as do Cabo Verde (1460) por Antonio Gomes e Diogo de Nola.
Em 1435, já o mappa-mundi de Bechario representa a Antilia e outras ilhas, a oéste dos Açores, acompanhadas da seguinte legenda:—Insule de novo reperte (ilhas recentemente descobertas.)
Em 1436, um anno após, apparecem o mappa-mundi de André Bianco e o seu portulano cujas cartas já representam o mar de Baga, o mar dos Sargaços, as Antilhas e o Brazil, figurando este como se fosse uma grande ilha. Em 1447, uma nau parte do Porto e descobre a Groelandia aonde os marinheiros desembarcaram.
No entretanto, do celebre promontorio de Sagres, o infante d. Henrique vê sumirem-se no mar intermino as caravelas, que successivamente iam partindo á descoberta, e já em 1448, numa carta do portulano de André Bianco, tratando dos descobrimentos dos portuguezes, se regista o Brazil de uma forma precisa, na parte oéste e sul do Cabo de S. Roque, ao sul das ilhas do Fogo e Brava de Cabo Verde, na sua verdadeira posição, em frente á costa africana, sendo designado por ilha authentica e assignalada a sua distancia exacta de 1500 milhas do archipelago de Cabo Verde.
Esta carta do portulano de Bianco, bem como os anteriores de 1436 mostram, pois, meus senhores, que o Brazil foi descoberto em 1435, ou antes, por navegantes portuguezes e que até das Antilhas já havia noticia nessa época.
Mas, não fica nisto. As caravelas portuguezas continuam a singrar o mar tenebroso e, em 1452, Diogo de Teive e seu filho João de Teive descobrem as ilhas Corvo e das Flores e chegam á latitude da terra que se chamou mais tarde «do Lavrador» (porque a descobriu um portuguez deste nome) não desembarcando nella com receio do inverno.
Em 1460 morre o infante d. Henrique, deixando reconhecida toda a costa africana até Serra Leôa e legando ainda á sua patria os descobrimentos dos archipelagos dos Açores, de Cabo Verde e do Brazil.
A morte do infante não faz, porém, arrefecer o enthusiasmo lusitano pelos descobrimentos e já dois annos depois, em 1462, d. Affonso V, por carta regia de 29 de outubro, faz doação a seu irmão o infante d. Fernando, filho adoptivo de d. Henrique e seu herdeiro universal, de uma terra achada no mar alto, a noroeste das ilhas Canarias e da Madeira, que Gonçalo Fernandes havia descoberto. Essa terra não podia ser outra senão a America.
Mezes antes, por carta régia de 19 de fevereiro, esse mesmo Affonso V havia feito doação a João Vogado de duas ilhas por elle descobertas no mar oceano, ás quaes dera os nomes de Lono e Capraria. Nos documentos da época, a expressão mar oceano era usada para designar o mar que banhava a America, que então ainda não tinha esse nome. Esta doação a João Vogado prova que as duas ilhas Lono e Capraria eram ilhas ou pontos da costa americana.
Onze annos depois, em 1473, d. Affonso V, por carta régia de 12 de janeiro, faz doação á sua sobrinha d. Beatriz, filha do infante d. Fernando, de uma ilha que apparecera, em 1468, através da ilha de Santiago, e que era uma das Antilhas, aonde só 24 annos depois aportou Colombo. Convém notar que esta descoberta é feita por navegadores portuguezes 5 annos antes da chegada de Colombo a Lisboa.
Do exposto se conclue que as proprias Antilhas já tinham sido descobertas pelos portuguezes muitos annos antes de Colombo lá ir tomar dellas posse para a corôa da Hespanha.
Todas estas consecutivas viagens para o occidente formam uma série que já constitue uma brilhante e indiscutivel documentação da prioridade dos portuguezes na descoberta da America.
Mas ha ainda outros e valiosos documentos que melhor provam esta asserção áquelles a quem ella possa parecer um pouco vaga.
Vejamos quaes são.
Em 1472, tendo vagado a capitania da Ilha Terceira por fallecimento de Jacome de Bruges, a infanta d. Beatriz fez doação a João Vaz Côrte Real da capitania dessa ilha, na parte de Angra, doando a parte da Praia a Alvaro Martins.
Na carta de doação, encontram-se as seguintes palavras: «havendo eu, por informação, estar ora vaga a capitania da ilha Terceira de Jesus Christo... por se affirmar ser morto Jacome de Bruges... houve por bem de a partir entre o dito João Vaz e o dito Alvaro Martins, mandei ao dito João Vaz que escolhesse e elle escolheu a parte de Angra... E considerando eu, de outra parte, os muitos e grandes serviços que o dito João Vaz Côrte Real, fidalgo da casa do dito senhor meu filho, tem feito ao infante meu senhor e seu padre que Deus haja (é o infante d. Fernando), e depois a mim e a elle, em galardão dos ditos serviços, lhe fiz mercê da dita capitania da ilha Terceira.»
Annos após, em 1488, confirmando essa doação, o duque de Vizeu, filho de d. Beatriz, alludiu aos grandes serviços de João Vaz Côrte Real a seus paes, dizendo: «querendo lhe fazer graça e mercê pelos muitos serviços que tem feito ao infante meu senhor e padre, que Deus haja, e a mim, espero que ao deante fará.»
Quem era esse João Vaz Côrte Real, que assim era galardoado e que serviços relevantes eram esses que havia prestado para receber tal galardão?
Era um homem que, nesse mesmo anno de 1472, vinha de chegar da Terra Nova ou Terra dos Bacalhaus, trazendo essa nova descoberta americana para a corôa portugueza, vinte annos antes de Colombo aportar ás Antilhas.
As provas desta descoberta de João Vaz não escasseiam e encontram-se:
1.º—Na carta relativa á America do Norte do Atlas de Fernão Vaz Dourado, existente na Torre do Tombo, onde se lê, na parte referente á Terra Nova, a seguinte designação: B. de João, Terra de João Vaz.
2.º—No mappa-mundi do Atlas de Jomard, feito em pergaminho por ordem de Henrique II da França (1547-1559), onde a mesma designação para a Terra Nova se encontra.
3.º—No mappa-mundi de Mercator, do mesmo Atlas de Jomard, onde vem por extenso, designando a Terra Nova—Terra de Joam Vaz, Rio de Joam Vaz.
4.º—Num manuscripto feito entre 1672 e 1711 nos Açores, onde melhor se conheciam os descobrimentos de João Vaz, no qual é encontrada a seguinte referencia á doação de d. Beatriz a João Vaz: «Estando as cousas nesta forma, morreu o capitão Bruges, não deixando herdeiros. Chegaram então á ilha dois fidalgos que vinham de descobrir a Terra do Bacalhau; estes pediram a ilha a d. Beatriz, mulher do infante d. Fernando, por serviços que lhe tinham feito, lhes fizesse mercê da capitania da ilha Terceira, a qual ella lhe concedeu. A João Vaz Côrte Real, que era um destes fidalgos, ficou a de Angra.»
5.º—Finalmente, nestes trechos das Saudades da Terra, de Gaspar Fructuoso, nascido nos Açores em 1522: «João Vaz Côrte Real, primeiro capitão da ilha Terceira da parte de Angra, por serviços que fez a el-rei de Portugal nas guerras contra Castella, andando por capitão de grossa armada; do qual dizem que foi tão grande aventureiro no mar que neste Reino não tem segundo; e alguns querem dizer que descobriu a mesma ilha Terceira e algumas partes do ponente e do Brazil, Cabo Verde, onde foi o primeiro que houve vista da ilha do Fogo... e vindo, como atrás tenho dito, João Vaz Côrte Real do descobrimento da Terra dos Bacalhaus que, por mandado de el-rei foi fazer, lhe foi dada a capitania de Angra, da Ilha Terceira e da ilha de S. Jorge... Dizem alguns que Jacome de Bruges, primeiro capitão da ilha Terceira de Jesus Christo, era flamengo... e, estando-a povoando veio ter ahi João Vaz Côrte Real... e vinha do descobrimento da Terra Nova do Bacalhau e o Jacome de Bruges o recolheu e lhe disse que lhe largaria metade da ilha, a qual acceitou, e depois Jacome de Bruges se foi para sua terra e desappareceu, de maneira que não tornou mais, e a infanta d. Beatriz, por vaga, deu a ilha ao dito João Vaz Côrte Real.»
Não ha nada de mais positivo, de mais claro e comprovante, do que estes cinco documentos, que venho de citar, no ultimo dos quaes se allude, nada menos de trez vezes, ao descobrimento feito por João Vaz Côrte Real da Terra Nova ou Terra do Bacalhau, na America do Norte, em 1472, vinte annos antes de Colombo aportar ás Antilhas.
Mas, não foram sómente João Vaz e outros navegadores portuguezes, já citados, os precursores de Colombo na descoberta da America.
João Vaz Côrte Real tinha tres filhos—Vasco Annes, Miguel e Gaspar Côrte Real—os quaes, como o pae, foram ousados navegantes, principalmente o ultimo, Gaspar, que ficou captivo dos indigenas numa das suas viagens á America. A carta regia de 12 de maio de 1500, fazendo doação a Gaspar Côrte Real de terras que vae descobrir (carta passada poucos dias após a chegada de Cabral ao Brazil, chegada essa de que ainda não havia noticia em Portugal) regista importantes trabalhos do mesmo Gaspar, anteriores ás duas viagens suas de que ha noticia e refere-se ás suas explorações maritimas feitas com muito trabalho, despeza e perigos, realizadas por Gaspar á sua custa com seus navios e homens. Diz ainda essa carta de doação que elle vae continuar a descobrir ou reconhecer ilhas e terra firme das quaes lhe são outorgadas as capitanias.
A expressão vae continuar a descobrir, empregada na carta regia, significa que Gaspar já havia anteriormente feito descobertas.
Infelizmente, Gaspar Côrte Real, partindo de Lisboa em 1501 para uma nova exploração na America, por lá ficou captivo dos naturaes, voltando todavia ao reino os dois navios que o haviam acompanhado. Em 1502, seu irmão Miguel sahiu com outros dois navios no intuito de o procurar e remir, mas tambem não regressou. Vasco Annes quiz ainda ir em busca dos dois irmãos, mas D. Manoel não lh'o consentiu.
Documentos posteriores ao desapparecimento dos dois irmãos, Gaspar e Miguel Côrte Real, registam os seus feitos e os de seu pae João Vaz. Taes são: a carta régia de 17 de setembro de 1506 e principalmente a 4 de maio de 1567, de doação a Manoel Côrte Real, filho de Vasco Annes e neto de João Vaz, na qual se encontra a seguinte phrase: «seu pae e tios mandaram descobrir a Terra Nova».
Mas, anteriormente, a carta régia de 4 de novembro de 1501, de d. Manoel—o venturoso—filho do duque de Vizeu e de d. Beatriz, concedendo a tença de 30.000 cruzados a Miguel Côrte Real por serviços feitos a d. João II, que falleceu em 1495, fixa ás viagens maritimas dos Côrtes Reaes uma data anterior a 1495.
Ora, a sete de junho de 1494, d. João II assignou com a Hespanha o tratado de Tordesillas, abrangendo na demarcação portugueza não só a costa do Brazil (aonde Pedro Alvares Cabral só aportou 6 annos depois) como a terra dos Côrtes Reaes, isto é, a Terra Nova ou dos Bacalhaus, o que prova que a descoberta dessa terra é anterior ainda a 1494. Por ultimo, Bartholomeu las Casas, amigo de Colombo e companheiro do genovez numa das suas viagens ás Antilhas, na sua Historia das Indias, apontando ingenua e sinceramente as indicações que Colombo teve para ir ás Antilhas, indicações, aliás, confessadas pelo proprio Colombo, cita, entre outras, as viagens dos Côrtes Reaes, empregando estas expressões: «Os Côrte Reaes que foram em diversos tempos buscar aquella terra.»
E isto prova ainda que o descobrimento da Terra Nova ou dos Bacalhaus e, portanto, da America, é anterior á primeira viagem de Colombo ás Antilhas, isto é, anterior a 1492 e mesmo anterior a 1484, porque foi em 1484 que Colombo sahiu de Portugal, onde obteve taes indicações e onde viu e conheceu Miguel e Gaspar Côrte Real, filhos de João Vaz Côrte Real, e Affonso Sanches, que descobriu as Antilhas de 1473 a 1484. As expressões que Las Casas emprega, referindo-se ás confissões feitas pelo seu amigo Colombo são as seguintes, que reproduzo textualmente: «Disse, pois, Christovam Colombo entre outras cousas que poz em seus livros por escripto... e accrescentou mais que tinha visto dois filhos do capitão que descobriu a ilha Terceira, que se chamavam Miguel e Gaspar Côrte Real, ir em diversos tempos a buscar aquella terra.»
Aquella terra era a Terra Nova ou Terra dos Bacalhaus.
Ainda relatando Las Casas as indicações e informações que conduziram Colombo ás Antilhas, cita a viagem de Vicente Dias e mais uma outra a respeito da qual assim se exprime: «uma caravela ou navio que tinha sahido de um porto de Hespanha (não me recordo ter ouvido indicar qual fosse, ainda que creio que do reino de Portugal, se dizia)... veio... parar a estas Antilhas e que esta caravela foi a primeira que as descobriu. Que isto assim acontecesse alguns argumentos ha para demonstral-o.»
E ajunta que o piloto dessa caravela, «que alguns escriptores hespanhóes chamam Affonso Sanches e dão como natural de Cascaes, recolhido por Colombo em sua residencia na ilha da Madeira, ao sentir perto a morte lhe revelara o segredo e lhe dera por escripto os rumos e caminhos que tinham levado e trazido por carta de marear e pelas alturas e paragem aonde estava a ilha.»
Esta confissão de Las Casas, amigo e companheiro de viagem de Colombo, é importantissima.
Diz ainda Las Casas que, quando foi com Colombo ao primeiro descobrimento de Cuba, «os indios vizinhos daquella déram noticia de terem chegado a esta ilha Hespanhola outros homens brancos e barbados, como nós outros, antes que nós outros não muitos annos.»
Mas, não fica nisto.
Em 1501, Pietro Pasqualigo, referindo ao senado de Veneza a segunda viagem de Gaspar Côrte Real á America, disse que Gaspar e seus companheiros acreditavam que «a terra achada era firme e estava ligada com a outra (Terra dos Papagaios ou Brazil) que o anno passado (1500) foi descoberta por outras caravelas de S. Magestade, acreditando estar ligada com as Antilhas.»
Humboldt confirma este conceito, quando diz «que antes mesmo das viagens de Colombo a Honduras e Veragua, em outubro de 1501, já se sabia em Portugal que as terras do norte eram cobertas de neve e gelo, contiguas ás Antilhas e á terra dos Papagaios novamente achada.»
E admiradissimo, Humboldt accrescenta: «esta adivinhação que proclama, apesar da ausencia de tantos élos intermediarios, uma ligação continental entre o Brazil e as terras geladas do Lavrador é muito surprehendente.»
Nem foi adivinhação nem cousa para surprehender; os élos intermediarios, estabelecendo a ligação continental entre o Brazil e as terras geladas do Lavrador, existiam e eram conhecidos dos portuguezes pelas viagens e descobrimentos que haviam feito na sua pertinancia de procurar o caminho para a India, navegando constantemente para o occidente e para o sul, desde 1431. Ora, todos os documentos que citamos demonstram de um modo cabal e decisivo que os descobridores da Terra Nova e portanto da America do Norte foram João Vaz Côrte Real e seus filhos e que este descobrimento foi feito muitos annos antes que Colombo aportasse ás Antilhas.
Mas o estudo dos documentos portuguezes e castelhanos que o sr. Faustino da Fonseca exhumou da Torre do Tombo, dos archivos açorianos e hespanhóes e a que deu publicidade no seu luminoso livro, referentes ás viagens maritimas dos seus antepassados, provam de um modo incontestavel que desde 1435, ou antes havia em Portugal conhecimento perfeito de terras americanas (o Brazil ou terra dos Papagaios com a sua posição determinada no mappa de Bianco e a sua distancia de 1500 milhas entre as ilhas de Cabo Verde e o Cabo de S. Roque precisamente marcada no mesmo mappa) e tambem que, desde 1475, as viagens dos portuguezes para o occidente já se realizavam, não tanto no empenho de procurar por ahi o caminho para chegar á India, como no de «colonizar, de aproveitar as terras americanas e nellas commerciar, como se commerciava na costa africana e nas ilhas dos seus mares.»
Era pelo sul da costa da Africa que os navios da corôa portugueza procuravam o caminho do oriente e as viagens á Guiné eram então privativas dos navios reaes, não podendo os particulares emprehendel-as. Já para o occidente a navegação era francamente aberta ás naus dos particulares, dando-lhes ensejo ás descobertas e explorações commerciaes.
A carta de doação a Fernão Dulmo, em 1486 e a confirmação do seu contracto com João Affonso Estreito, feita pela carta regia de D. João I, vem demonstrar de um modo cabal, como muito bem diz o sr. Faustino da Fonseca, «a existencia de trabalhos de mór importancia relativos á America em que se não trata já da descoberta, mas da posse effectiva, da conquista, da occupação.»
Nessa carta de doação diz o rei que Fernão Dulmo, capitão da ilha Terceira, «lhe queria dar achada ao occidente uma grande ilha, ou ilhas, ou terra firme por costa», ilha essa que se presumia ser a das Sete Cidades, e isto prova «que não se julgava ser a India, como pensava Colombo, nem Catay, nem Cypango, terras do oriente, que o genovez procurava e que até morrer julgou ter descoberto.»
Era uma outra terra a que se dava o nome de Sete Cidades por causa de uma velha lenda. Effectivamente, o que Fernão Dulmo queria dar ao rei achada era, não uma ilha, mas terra firme, isto é, um continente.
Dava-lhe a carta regia poder e autoridade para tomar posse real e autual de todas ilhas e terra firme que descobrisse, «podendo enforcar, matar e applicar toda outra pena criminal» e accrescentava que, «se as ilhas e terra firme não quizessem sujeitar-se, elle rei mandaria com Fernão Dulmo gentes e armadas de navios para as sujeitar.»
Tão amplas eram as autorizações e poderes conferidos a Fernão Dulmo, contrastando com as restricções feitas nas doações anteriores, nas quaes a corôa reservava para si «a alçada de morte ou talhamento de membro,» que taes concessões levam a crer, com relativa segurança, que na terra, que Dulmo queria dar achada ao seu rei, já elle havia estado, havendo encontrado resistencia á occupação por parte da população indigena.
Nessa terra do occidente, ou America, que Dulmo queria dar achada á corôa portugueza, já elle estivera, portanto, em 1486, ou antes. Que tinha havido luctas na America entre os donatarios e os indigenas prova-o ainda a carta de doação a Vasco Annes Côrte Real na qual se refere que Miguel Côrte Real (irmão de Vasco Annes), ao partir, em busca de seu irmão Gaspar, que ficara captivo das tribus americanas na terra onde aportara, ia «buscar, achar e remir o dito seu irmão.» Que Fernão Dulmo estivera na America em 1486, ou antes, prova-o ainda o contracto por elle feito com João Affonso Estreito pelo qual este fazia todas as despesas da expedição, e ainda o prazo marcado para irem e voltarem, ficando Dulmo com o commando da frota durante os primeiros 40 dias e assumindo-o João Affonso após esse tempo, o que significa que Fernão Dulmo estava seguro de attingir a terra achada em 40 dias e que João Affonso não receiava empregar o seu capital numa empresa temeraria, seguindo com o seu socio para o desconhecido.
Estabelecia o contracto que as caravelas seriam abastecidas para 6 mezes ou 180 dias approximadamente. E dahi se deduz que, sendo precisos 80 dias para a viagem de ida e de volta, ficavam 100 dias para a permanencia na America, para a exploração, marcação e divisão das capitanias de que eram donatarios os dois associados e, finalmente, para a sujeição dos indigenas.
A confiança de João Affonso Estreito na expedição era tal que, além de todas as despesas com o abastecimento das caravelas e sua equipagem, ainda deu 6.000 reaes brancos a Fernão Dulmo.
Ora, o conhecimento que temos de Colombo ter gasto, posteriormente, 48 dias na sua primeira viagem de regresso das Antilhas, com atrasos devidos a temporaes e a uma arribada á ilha de Santa Maria, e ainda o facto de Pedro Alvares Cabral ter gasto 43 dias na sua viagem ao Brazil, apesar da calmaria que encontrou, e ainda a circumstancia de ter gasto Colombo, exactamente, 40 dias na sua viagem de Cadiz á Dominica, prova que 40 dias era o tempo, em média, preciso para ir da Europa á America e que, portanto, o facto de tal prazo ter sido fixado no contracto de Dulmo com João Affonso Estreito mostra que Dulmo tinha perfeito conhecimento do tempo que era preciso para chegar á terra achada por elle em 1486, ou antes, e que essa terra era positivamente a America.
Desta expedição de Dulmo fazia parte um allemão chamado Martim Behaim, que o Dr. Monetario, ou Montaro, na sua carta a d. João II, chama Martinho Bohemio. Ora, este allemão, que, de 1484 a 1486, acompanhou Diogo Cão, como cosmographo, rezidindo nos Açores de 1486 até 1490, seguia a opinião dos antigos de que o caminho para a India era pelo occidente. Foi, pois, nesta viagem de Dulmo que Behaim obteve o conhecimento da costa Americana, o qual registou depois no globo que construiu ao regressar á Europa e que tambem representou no mappa, que existia no erario do rei de Portugal e ao qual allude Pigaffeta. Nesse globo terraqueo de Behaim foram representados a peninsula da Florida, o golfo do Mexico e as Antilhas, embora sem estas denominações. Estes trabalhos geographicos de Behaim confirmam que Dulmo estivera na America do Norte e estabelecem de um modo preciso que as terras achadas por elle eram a Florida, as Antilhas e o golfo do Mexico.
Em 1499 fez d. Manuel doação a João Fernandes Lavrador da capitania da ilha ou ilhas que elle descobrir ou achar novamente. Não tendo meios para custear a expedição, João Fernandes Lavrador associou-se a Francisco Fernandes e João Gonçalves, escudeiros, naturaes dos Açores, e com tres negociantes inglezes de Bristol, os quaes, provavelmente, forneceram o capital preciso, e com elles obteve do rei Henrique VII da Inglaterra nova carta de doação das terras que descobrisse.
A expedição seguiu a sua rota e conseguiu descobrir a terra avistada em 1452 por Diogo de Teive e seu filho João de Teive, á qual foi dada o nome de Terra do Lavrador, que era o do seu novo descobridor e donatario.
Ora, João Fernandes Lavrador, quando organizou a expedição, já sabia da existencia da terra que ia achar porque nella estivera com Pedro de Barcellos de janeiro a abril de 1492, e o fim de sua expedição com os negociantes de Bristol não era outro senão tomar posse da terra anteriormente achada.
Portanto, ainda alguns mezes antes de Colombo, que só a 8 de agosto de 1492 partiu para as Antilhas, dois navegantes portuguezes, João Fernandes Lavrador e Pedro de Barcellos haviam estado na America.
Assim, synthetizando esta série de provas de ida e estada de navegantes portuguezes na America, anteriormente a Colombo, encontra-se o seguinte quadro chronologico registador dessas viagens e descobrimentos:
1436—Regista André Bianco nas suas cartas e no seu portulano as descobertas do Brazil ou Antilia, Mar de Baga e Mar de Sargaços.
1447—Um navio parte do Porto e vae á Groelandia onde os marinheiros desembarcam.
1448—Regista André Bianco nas suas cartas a existencia do Brazil á distancia precisa de 1500 milhas comprehendidas entre as ilhas do Cabo Verde e o Cabo de S. Roque.
1452—Diogo de Teive e seu filho João descobrem a ilha das Flores e chegam á latitude da terra do Lavrador.
1472—Descobre João Vaz Corte Real a Terra de João Vaz, ou Terra Nova, ou Terra dos Bacalhaus, na America do Norte.
1473-1484—Affonso Sanches descobre as Antilhas.
1487—Viagem á America de Fernão Dulmo e João Affonso Estreito, acompanhados de Martim Behaim, que registou, depois, no globo terraqueo que construiu e no mappa do erario real portuguez, a existencia da peninsula da Florida, das Antilhas e do golfo do Mexico.
1492—Descoberta, entre 30 de Janeiro e 14 de abril, da terra do Lavrador, por João Fernandes Lavrador e Pedro de Barcellos.
Todas estas viagens, todos estes descobrimentos são anteriores á primeira viagem de Colombo, realizada a 8 de Agosto de 1492 e estabelecem a prioridade dos navegantes portuguezes no descobrimento da America.
A carta do dr. Jeronymo Montaro, ou Monetario, de Nuremberg, a d. João II, em 1493, quando ainda ignorava a primeira viagem de Colombo ás Antilhas, aconselhando o monarcha lusitano a que demandasse a India pelo caminho do occidente, confirma o conhecimento que tinham os portuguezes das terras americanas.
Ignorando, como Colombo (que até morrer suppoz sempre que chegando ás Antilhas havia chegado á India) que as terras do occidente constituiam um novo continente, formando a parte quarta do universo até então conhecido, o dr. Montaro elogia na sua carta o saber dos mareantes portuguezes, usando das seguintes expressões: «sabios que navegaram a largura do mar, que tomaram o caminho dos Açores por quadrantes chilindricos e astrolabio e outros engenhos, onde nem frio nem calma os anojara e mais navegaram a praia oriental sob uma temperança (temperatura) muito temperada do ar e do mar.»
Nestas expressões—navegaram a largura do mar, tomando o caminho dos Açores—(que era o ponto de partida dos navegantes que iam ao novo continente) põe Montaro em evidencia as viagens dos portuguezes á America, muito embora ignorasse que essa terra era o Novo Mundo. Empregou a expressão praia oriental suppondo sempre que era a India cujo caminho pelo oriente já havia sido descoberto, cinco annos antes, por Bartholomeu Dias, quando em 1487 dobrara o cabo da Boa Esperança, indo em busca do reino do Prestes João.
Não admira que o dr. Montaro estivesse nessa ignorancia quando Colombo permanecia nella e insistia em acreditar que a America era a Asia e que, atravez della, havia um caminho por agua, que abreviava a viagem pelo occidente para a India.
Esse caminho, que o audaz e astuto genovez embalde procurou até morrer, existia de facto, mas, em vez de abreviar, alongava a viagem para a India. Esse caminho, que elle nunca conseguiu achar, descobriu-o ainda um portuguez, Fernão de Magalhães, quando, a soldo da Hespanha, mas com marinheiros portuguezes e com o cosmographo portuguez Ruy Faleiro, transpoz o estreito a que ligou o seu nome, no extremo sul da America, e fez a primeira viagem de circumnavegação, dando a volta ao mundo e confirmando a doutrina da espheroicidade da terra.
De tudo o que fica exposto resulta, meus senhores, de um modo indiscutivel, com uma veracidade esmagadora, que não foi Colombo quem teve a prioridade na descoberta da America e que essa grande gloria cabe de direito e de facto aos destemidos e desinteressados navegantes portuguezes do seculo XV, que á America foram e que na America estiveram muito antes do genovez.
Qual delles, qual desses ousados lusos, precursores de Colombo, foi o primeiro a pôr o pé no solo americano?
Evidentemente, aquelle que, em 1435, ou antes, segundo o registo de André Bianco, descobriu o Brazil. Desse, infelizmente, a historia não guardou o nome. Mas, daquelles que foram á parte norte da America e que lá estiveram, dando-lhe o seu nome, ha noticia; e o que firmou o direito á prioridade na descoberta foi evidentemente João Vaz Corte Real que, em 1472, vinte annos antes de Colombo, descobriu a Terra Nova, que os mappas, portulanos e manuscriptos da época designaram por essa denominação, pela de Terra dos Bacalhaus, pela de Terra de João Vaz e ainda de Terra dos Corte Reaes, em homenagem ao grande navegante luso e a seus filhos, que á mesma terra foram, no mesmo ardor empenhados de engrandecerem a sua patria.
Mas, vejamos agora quem era Colombo e o que fez elle, não para descobrir, mas para chegar á America e de uma parte della tomar posse official para a corôa de Hespanha.
Por uma ironia da sorte, Colombo, nascido em Genova em 1450, veio ao mundo dois annos depois daquelle (1448) em que André Bianco registou no seu mappa a existencia do Brazil a 1.500 milhas das ilhas de Cabo Verde, tres annos depois que um navio portuguez foi á Groenlandia, e apenas dois annos antes daquelle em que o navegante portuguez Diogo de Teive chegou á latitude da Terra do Lavrador, terra americana que João Fernandes Lavrador e Pedro de Barcellos ainda descobriram e della tomaram posse em 1492, mezes antes de Colombo chegar pela primeira vez ás Antilhas.
Filho de uma familia de operarios, era Colombo um tecelão, que apenas apprendera a ler e a escrever e que, até aos 23 annos de edade, se conservara sem fazer estudos universitarios, sem seguir a carreira maritima, sem nada saber de cosmographia nem de pilotagem. Indo para Savone, em 1470, ahi estabeleceu uma taverna e ahi se conservou durante dois annos. Não lhe sorrindo a fortuna como taverneiro, foi, em 1473, para Portugal, e fixou-se na ilha da Madeira, onde abriu uma casa de pasto, e onde casou com uma rapariga portugueza, filha de um tal Bartholomeu Perestrello, mareante, já então fallecido. Na Madeira nasceu-lhe o primeiro filho e na Madeira começou elle a apprender nautica nos documentos, instrumentos e mappas de Perestrello, que a sogra lhe forneceu. Mais tarde, ficou sabedor da exacta situação das Antilhas pelos papeis de Affonso Sanches[1], que as descobriu, que em sua casa de pasto se hospedou e que ahi falleceu. Creio que ainda existe na Madeira essa casa que Colombo habitou. É Bartholomeu de las Casas, o amigo e companheiro de Colombo numa das suas viagens, quem, na sua Historia das Indias, nos dá conta desse episodio da vida do genovez em Portugal. Referindo-se aos objectos de Perestrello, que a sogra dera a Colombo, diz: «eram instrumentos e escriptos e pinturas (cartas e mappas), convenientes á navegação, os quaes deu a sogra ao dito Colombo, que com a vista delles muito se alegrou.» E accrescenta: «com estes se crê haver sido instigada a sua natural inclinação.»