«Mulher pura e fiel não ha, nem houve!
......................................
Raça infame de viboras dolosas
Podesse uma só nau contel-as todas,
E o piloto fosse eu...................13

que havia de fazer? deixa lá dizer ao poeta o que quizer; mas crê que se elle fosse o piloto guiava de certo a náu a porto de salvamento. Não ha gente mais trovejadora em suas iras que são os poetas; com a penna na mão todas as vezes que se enfurecem temos vesperas sicilianas; mas, chegada a occasião, vem logo absolvição papal. Embora te diga que não ha mulher, nem houve, pura e fiel, não é cousa em que elle creia; o poeta é todo coração; coração de poeta, se não amasse, morria-lhe no peito, e amar sem crer na mulher é impossivel. Não sei se Milton disse mal das mulheres, o que sei é que elle casou tres vezes.

Elysa, poetas são outra casta de gente que não são os philosophos.

Queres tu ver como elles fallam quando não é o ciume que os inspira? queres ver com que delicadeza se elles desculpam das faltas passadas? ouve:--«Um sôpro divino formou a alma do homem, a da mulher de um beijo delicioso deveu ser formada.... custa a crer como um ente, que é metade da nossa especie, que das duas é a mais amavel metade, a mais carinhosa, em tantas cousas nosso egual para nos attraír, mas com tantas differenças de nós para se nos unir ainda mais; que, se tem defeitos, de nós os recebe, e nos dá em troca sem o cuidar tantas das virtudes que possuimos, custa, digo, a crer como um tal ente, a quem sua propria fraqueza devêra tornar inviolavel, pôde ver-se em todos os tempos, e provavelmente continuará a ser até ao fim dos seculos, alvo e emprego das criticas mais desabridas, e mais grosseiras calumnias......... Qual póde ser a causa d'esta mais que montezinha ferocidade?....... é a causa o mesmo natural instincto, que faz que os soldados em tempo de guerra, seroando entre as armas á fogueira ociosa do seu rancho, encareçam as derrotas do inimigo, e lhe assaquem fraquezas que não tem, para a si proprios accrescentarem animos e determinação para as futuras pelejas--»14.

Ora eis ahi a linguagem dos poetas quando transfugas dos arraiaes dos levantados se recolhem ás trincheiras d'ellas;--todos esses libellos, que lhes saem das mãos, não são d'elles; é o anjo negro, diabolico, sinistro do ciume que lhes espremeu fel no tinteiro, e escreveu em nome e por conta dos pobres poetas.

E quem não perdoará os furores do ciume?! não sei até se elles são necessarios. Ovidio, que passa por mestre em taes materias, aconselhou-os porque traziam comsigo a redintegratio amoris, a doçura da nova paz; e tão longe leva elle o conselho, que permitte chegar o amante enfurecido a despedaçar os vestidos da sua bella ingrata; tambem Moliére, que não foi sempre francez com as damas, tambem elle os desculpa e se desculpa dizendo:--«ne savez vous pas que les injures des amants n'offensent jamais; qu'il est des amours emportés aussi bien que des doucereux; et qu'en de pareilles occasions les paroles les plus étranges, et quelque chose de pis encore, se prennent bien souvent pour des marques d'affection, par celles même qui les reçoivent?--»15.

Não sei se Moliére quiz adoptar o principio de Ovidio naquelle quelque chose de pis encore; mas o que um e outro quizeram foi cobrir o ciume com as azas do amor: se eu pretendesse para isso uma auctoridade mais competente do que aquelles dous poetas talvez a tivesse16. O que é certo porém, Elysa, e seja com isto que eu dê mate á minha defesa, o que é certo é que por isso mesmo que na mulher se pretende a perfeição, é mister não a lisongear sempre; e o achar todas egualmente sem defeito não sei se é maior prova de indifferença que de amor.

Está pois decidido que os poetas são muito melhores do que os philosophos, e que no seu dizer mal não ha injuria comparavel áquella injuria fria, tremenda, meditada, e infinitamente falsa de que as mulheres não pertencem ao genero humano:--quem os tivera feito nascer das hervas! Estes taes não quizera eu nem que as tetas das lobas os alimentassem.

  Nunca taes homens souberam
Ler na face da mulher,
Em seus olhos aprender
Nunca taes homens quizeram.

  Não viram manar-lhe a flux
Dos labios celeste riso?
Não viram do paraiso
Nos olhos accesa a luz?

  Não é d'anjo a voz macia,
Que, vencendo almo pudor,
Te diz ternura e amor
Com tão mimosa harmonia?
Aquelle encanto só seu,
Graças e mimos só d'ella,
Aquella rosa tão bella
Não vem do rosal do céo?

  A quem á terra só veiu
Por te servir, por te amar,
D'irmã tua lhe chamar
Parece que tens receio?17
Se o teu orgulho não quer
Chamar anjo á formosura,
Deixando ingrata loucura,
Chama-lhe ao menos mulher.

  Não pertence á humanidade
Dizes tu, impio! e não vês
Do seio caír-lhe aos pés
Humanada a Divindade?!
Se em ti a crença inda tem
Algum poder, pensa n'isto,
Pensa tu que Jesus-Christo
Foi homem por sua mãe.

O que é admiravel, Elysa, é que na mesma epocha em que se dizia em França que a mulher não tinha alma, appareceram Isabel de Baviera e Joanna d'Arc: aquella entregou a França á Inglaterra para mostrar o poder d'uma mulher; esta deu de novo a patria aos philosophos para mostrar a generosidade feminina; foi Deos que se encarregou de as desafrontar.

Se philosophos e poetas tivessem estudado a mulher: a mulher physica, a mulher intellectual, a mulher moral, já nem syllogismos nem versos lhe seriam tão contrarios; mas que? são como o Marquez que Moliére nos pinta; nem se dão ao trabalho de examinar o que sentencêam, e depois--«je la trouve détestable, morbleu! détestable, du dernier détestable, ce qu'on appele détestable--»18.

A mulher physica achal-a-hiam na physiologia moderna (na de Hippocrates não), achal-a-hiam tão perfeita como o homem; e se algum d'estes entes deve ser preferido pela delicadeza e maravilhoso da organisação, essa preferencia cabe á mulher, sem contar todavia a belleza externa, nem a graça das fórmas.

A mulher intellectual haviam de encontral-a em Sapho, Heloiza, Catharina, Semiramis, Staël, Sevigné, Coulanges, Lafayette, Bernier, Flaugergues, e tantas outras, que têm regido o sceptro ou a penna com gloria mais que varonil: os preceitos do bello inspirava-os Aspasia a Socrates e Pericles, Ninon de Lenclos a Condé e La Rochefoucault:--sem a mulher os conhecimentos do homem seriam imperfeitos; elle descobriria o que na natureza ha de forte, de grande, de sublime; mas a graça, o mimo, a delicadeza só pela mulher podia ser descoberta. A litteratura carece de imaginação, e a mulher tem na imaginação a principal natureza da sua alma; aqui a vantagem é toda d'ella:--até se não for ella quem povôe o coração do homem das illusões do amor, aonde irá elle encontrar as galas da sua litteratura? Entregue ao positivismo da vida material, sem o fogo imaginativo, de que flores ha de encher os seus livros?

A litteratura e as artes têm sempre devido á mulher ou joias suas, que lhes façam o diadema, ou protecção e influencia, que as augmentem e desenvolvam: foi na côrte de Catharina de Médicis que Henrique o grande, aprendendo a amar, aprendeu tambem aquellas maneiras nobres e cavalleirosas, que distinguiram o seu reinado, dando á sua lingua uma graça e polidez, que não tinha. O gosto e sentimento delicado para as lettras e artes, que Maria e Catharina de Médicis levaram da Italia para França foram a origem do desenvolvimento das artes e das lettras do seu tempo. E não seria á influencia que as mulheres tiveram na côrte de Luiz XIV, que se deveu então essa lista immensa de homens celebres, com que a França se honra, e que o mundo estuda e admira? E não será para agradar á mulher que o homem gera a industria, inventa o canto, a dança, a pintura, amenisa a linguagem com as flores da poesia, traja com esmero, e torna affaveis e doces suas maneiras e costumes? A mulher intellectual não existe só em si, existe nos outros tambem; não se contenta com as suas creações, instiga os outros a crear; e é considerando reunido o que a alma da mulher pode tirar de si propria, e o que a mulher concorre para as producções da alma do homem; é considerando reunido num só ponto o que a mulher é em si e no homem, que eu a vejo tão sublime, tão elevada, que, senão tivera o lado moral para a olhar, já por este lhe podia chamar anjo.

A mulher moral porem é que é a mulher, ou a mulher da mulher. Ou a nós vejamos na sua condição de amante, de irmã, de filha, de mulher e de mãe; ou a consideremos no prazer ou na dor, na ventura ou na miseria; ou contemplemos o que pode pela mulher ser o homem, em quem é sempre ella que imprime a virtude ou o vicio no coração; ou a analysemos no seu throno, que é na vida de familia, ou na hasta publica da vida de sociedade; ou a vejamos na infancia ser a alegria da casa, na juventude ser as delicias do amor, na madureza ser a consolação da alma, e na velhice ser a mestra da virtude; ou seja que nos abrace ou que nos fuja, que nos afague ou que nos reprehenda, que nos ame ou que nos aborreça, a mulher moral é a parte mais augusta da creação.

--«A mulher moral é o infinito--» disse um illustre escriptor19; e na verdade só assim se pode definir o mysterio da mulher moral!

A mulher é o elemento mais poderoso da ventura social, mas a mulher moral é o elemento dos elementos. Indagae a origem dos ciumes e, com leves excepções, achal-a-heis na educação, isto é, na mulher; vêdes uma boa acção? Procurae-lhe a fonte, e encontrareis a mulher; talvez que não haja no mundo um só facto, cujo principio ou fim, se bem o averiguarmos, não seja a mulher:--«os homens serão sempre o que as mulheres quizerem que elles sejam--» disse Rousseau20, e disse uma grande verdade; porque antes que o homem seja cidadão é filho primeiro. A mãe dos Gracchos e dos Corneilles tinha uma alma nobre, grande e severa; a mãe de Voltaire era escarnecedora e de garridas maneiras; a de Byron, até nem os defeitos physicos do filho escapavam á sua maldade; Kant dizia que fôra sua mãe quem lhe lançara na alma o germen do bem e quem primeiro lhe inspirara o amor do Creador, explicando-lhe o que sabia das maravilhas da natureza21; Cuvier deveu a sua mãe os successos brilhantes da sua vida illustre22; Barnave já com um pé sobre o cadafalso bemdiz sua mãe, que lhe deu na infancia o valor que alli o anima; Lamartine aprendeu nas harmonias do coração materno as harmonias da sua harpa piedosa; em fim, Elysa, se após estes nomes tão respeitaveis e tão illustres é permittido citar o meu pobre e desconhecido nome, sirva elle de mais uma prova, porque o pouco, o muito pouco, de bom que em mim tenho é unicamente a minha mãe, é a ella só que eu o devo.

Que augusta não é pois a missão da mulher sobre a terra! Ah! que se philosophos e poetas meditassem bem no que é a mulher, e, sobre tudo, no que ella pode ser, não haveria um só que não visse nesse ente o oásis mimoso dos desertos da vida! Mas elles não curam de tal: arrancam desapiedados as pennas alvissimas ás azas do cherubim, e depois, vendo-a assim tão ao nivel das cousas da terra, descrêem d'aquillo mesmo em que não souberam crer; andastes errados: acreditae primeiro, sabei o que é a mulher, e depois julgae-a.

Em quanto não fizerdes isto, sereis sempre uns inimigos desleaes e traiçoeiros; tomareis a nuvem por Juno, e direis do phantasma da mulher o que pensais dizer da mulher como ella saiu das mãos de Deos, quando viu que não era bom que o homem vivesse só:--dizei embora o que quizerdes, mas da mulher como a concebo e como ella existe, por mais rios de tinta que derrameis, nunca podereis provar a maldade senão com aquellas razões com que o citado Marquez da peça de Molière provava a maldade de L'École des Femmes--» elle est détestable parce qu'elle est détestable--»23.

Em toda a parte em que o teu sexo, Elysa, não occupa o logar que lhe a natureza marcou, ahi os povos são escravos, a ignorancia é profunda, e os costumes são barbaros. O adorador de Mafoma compra a mulher, veda-lhe a entrada no céo, prohibe-lhe a leitura dos livros religiosos, afasta-a do tracto commum, e deixa-lhe só nos ferros do harem os erros da superstição e os absurdos da feiticeria: que se segue d'aqui?--que a tyrannia é no Oriente um principio, que a civilisação é nulla, e que a moral é uma palavra sem significação. Cuidou o Musulmano que, fazendo da mulher uma machina, tinha creado a felicidade para si; a felicidade só ella a ha de crear, mas é mister que livre e desassombrada, rainha e não escrava, possa, como a pomba da primavera, adejar sobre a cabeça do homem, ensinar-lhe as aguas mais puras onde deve matar a sêde, e a relva mais macia onde se deve assentar; só a mulher sabe, como a abelha, quaes são as flores que dão mel, mas não lhe hão de crestar as azas na chamma da impureza, que então, materialisado o amor, o homem e a mulher perderão a faisca da divindade que os extremava do resto da creação;--«ou os povos se hão de embrutecer em seus braços, ou civilisar a seus pés--»24. Não é com todos os pensamentos cravados na materia que a mulher pode dar ao homem a felicidade; o Oriente não comprehendeu a mulher.

Que terá a filha do propheta para dar á alma do homem quando os sentidos estiverem saciados?--a ignorancia, as paixões mesquinhas, as astucias, os vicios todos da ociosidade, e, na consciencia da sua inferioridade, a tristeza da escravidão, ou as traições d'um inimigo.

E o amor? Oh! esse nunca; esse não sabe morar num calabouço.

  Ao cioso mahometano
Que vale o fechado harem,
Se amor de escrava a tyranno
Do coração lhe não vem?
Que importam centos de bellas,
Se uma só de todas ellas
Livre em seu gosto não ha?
Que importa matar desejos,
Que importam, louco! esses beijos,
Se só vendidos t'os dá?

  Com alma núa d'esp'ranças,
Como ha de a escrava saber
Que alem de jogos e danças
Tem mais gozos a mulher?
D'esses gozos não sabidos
Como ha de trazer-te enchidos
Os dias que vão e vêm?
Se, dos paes perdida a trilha,
Ella não sabe ser filha,
Como ha de saber ser mãe?

  Embora os astros lhe apontes,
Embora mostres os céos,
E uma a uma lhe contes
As maravilhas de Deos,
Ha de dizer-te--que importa?
Se eu tenho fechada a porta
Que leva ao reino da luz?
Que importa, se em vida e morte
Sou proscripta, e minha sorte
Nunca propicia reluz?

  Lá quando a dor te accommetta,
Quando rir teu coração,
As filhas do teu propheta
Pranto e risos te darão.
Ouvirá co'os teus ouvidos,
Sentirá co'os teus sentidos,
Viverá no teu viver?
Oh que não!--solta-lhe os ferros,
Despe-lhe a alma dos teus erros,
E a escrava será mulher.

FIM

1É crença muito antiga que umas pedras vermelhas, que se encontram na fonte dos amores, devem a sua côr ao sangue de D. Ignez de Castro.

2Não quero dizer que descreio das leis da Acustica; sei que ella não só explica, mas até consegue fazer echos:--a palavra segredo veiu aqui para symbolisar que neste, como em muitos outros phenomenos naturaes, em se o homem remontando um pouco, chega logo ás forças centripetas e centrifugas, ou áquelle celebre opium facit dormire, quia habet virtutem dormitivam.

3Garrett

4Camões.

5Martim de Freitas.

6Sá de Miranda.

7D. Francisco de Lemos, Bispo de Coimbra.

8Este echo do jardim botanico de Coimbra repete um verso heroico inteiro.

9A Rainha Sancta Isabel, mulher d'El-Rei D. Diniz.

10Mulieres homines non esse. Dissert. anonym. d'Acidalius,--Paris 1693, in 12.

11Gregor. Turonens. Hist. Franc.

12D'anciens philosophes et des médecins, tels qu'Hippocrate, Aristote, ont ausai regardé la femme comme un être imparfait, un demi-homme. Virey--De la Femme, chap. 1.er, pag. 15.

13A. F. de Castilho--Ciumes do Bardo.

14A. F. de Castilho--Primavera, Notas á Festa de Maio.

15La critiq. de l'Écol des Femm. Sc. 7.

16Á Sr.a Marqueza d'........ uma das mais instruidas e amaveis damas que tenho visto, ouvi eu que em materia de ciume era permittido a um homem levar a sua colera até alguma pequena acção violenta. O sexo, a madureza da edade, a penetração, e conhecimento do coração humano, que esta senhora possue, dão-lhe direito a ser muito respeitada a sua sentença.

17Até Plinio se não pejou de lhe chamar animal.

18La Critiq. de L'Écol. da Femm.--sc, 6.e

19A. F. de Castilho--Primavera, Notas á Festa de Maio

20Émile--Liv. 5.º

21Schoen--Biograph. de Kant.

22Memoires sur Georges Cuvier--Mistr. Lee.

23La Critiq. de l'Écol. des Femm. sc. 6.e

24Aimé Martin--Educat. des Mér. de Fam..