Julho, 1913.

Gomes de Brito.



ADDENDA


«Aos cinquo dias do mes de novembro de mil e qujnhentos setenta e hum annos em Lisboa nos estaos na casa do despacho da Santa Inquisiçam estando hi os senhores jnquisidores perante elles pareceo Pero Alberto, flamengo de naçam, natural de Envres de jdade que dise ser de vimte e dous pera vimte e tres annos e dise que hee jmpremidor e trabalha na jmpresã de Marcos Borjes ao Arco de Cramgejo e pera em todo dizer verdade lhe deu juramento dos Santos Evangelhos e prometeu de a dizer e denunciando dise que elle vinha a este Santo Officio pera desencarregar sua consciencia e dizer o que sabja o qual hee que avera oito annos que elle partio desta cidade pera Arrochella com hum João de Leam, frances lyurejro o qual lhe disseram em Castella que estava nesta cidade e que fora ja preso pollo Santo Officio e jsto de preso lhe diseram aquj em Lisboa e tambem ffoj com elles hum cornelio flamengo de naçam, naturall de Olanda que tambem hee jmprimidor e trabalhava en casa da viuva de Germam Galhardo e asj foj com elles hum frances por nome Pierres d'Alltabel casado nesta cidade com hua criada ou paremta de Njcolao Botardo que viuja na rua noua e vende papel e tambem era jmpresor ajnda que o nam usaua muito os quaes todos quatro hiam determjnados pera jmpremjr huas horas de Nosa Senhora em portugues e o João de Leam fazia o gasto e o Pierres e elle confesante e outro hiam por obrejros e chegando Arrochella por lhe nam quererem dar licença pera as jmprjmjr as não jmprimjram e jmprimjram em lugar das oras ha gramatica de Joannes Espauterio e dizendo elle denunciante ao Cornelio em hum domjnguo se jriam ouvir mjssa e ouvindo jsto João de Leam perguntou ao Cornelio que era o que elle denunciante dezja e o Cornelio lhe respondeo que elle denunciante querja jr ouvjr mjssa ao que respondeo o dito João de Leam dizendo que senam podia ouvir mjssa na Arrochella porem queriam a pregaçam e dizendo jsto antes de jamtar ás oito ou noue horas o dito Joam de Leam os leuou todos tres a hua casa grande onde estaua muita gente e muitos banquuos e começarão a camtar por huns libros que tinham nas mãos e dezião Joam de Leam e Cornelio que aquillo que cantavam eram Salmos mas elle denunciante nam entendeo a linguoa e despois se pos hum homem em hua cadejra alta a ler por hum liuro em frances espaço de hua hora e o que leo elle denunciante nam entendeo e acabado de ler se sajram todos da dita casa e se foram a jamtar e dahj a tres ou quatro dias elle denunciante, dejxou a dita companhia na Arrochella e se foj pera Leam de França, perguntado que gente era aquela que estaua na casa da Arrochella onde elle denunciante foj com ho dito Joam de Leam e Cornelio e Pierres ouvjr cantar os salmos, disse que eram lutheranos, perguntado que doutrjna era a que se lia na dita casa ou se lho diseram, dise que Joam de Leam lhe disera que aquela era doutrjna e lej de Christo e toda aquela gente se chamavam ugunotes, perguntado se era aquella doutrjna que aly se jnsinaua a gente a jgreja catholica Romana disse que aquella doutrjna nam era da jgreja Romana porque nem a casa onde se lia era jgreja se nam hua casa sem santos como cavalaryza, perguntado se allgua pesoa o presuadio ou lhe dise que crese aquella doutrjna que alj ensinavã, dise que nam, perguntado com quem entrara na dita casa e onde estiveram sentados dise que com Joam de Leam e Cornelio e o Pierres e todos quatro se sentaram juntos em hum banquo e estiueram todos asj atee o cabo da predica que se sajram perguntado se sabe que allgua pesoa aprouaua a dita doutrjna que se lia na dita casa disse que soomente Joam de Leam lhe disse que aquella doutrjna era muito boa e lej de Christo e que os papistas chamavam aquella gente ugunotes e o mesmo lhe dise Pierres d'Alltabel perguntado quãntas vezes foram a dita casa onde se lia a dita doutrjna dise que hua soo vez foj la com os que dito tem, perguntado se vira jr allgua pesoa aos ditos ajuntamentos majs vezes, dise que nam, que os companhejros nam sabe se tornaram laa majs vezes porque elle se partio como dito tem pera Leam de França e dispois destar seis ou sete meses em Leam de França se tornou a Espanha onde foj preso pollo Santo Officio de Toledo e saio reconciliado com habito que lhe tiraram loguo no cadafalso e lhe deram em pena que estivesse alj em Toledo hun anno o qual esteue e despois pedio licença pera jr trabalhar a Salamanqua e outras partes e lhe diserã que podia andar por toda Espanha e porem que se nam embarcasse pera outro reyno sem sua licença e que ho principall intento que o trouxe a esta casa ffoj por lhe parecer que se podia saber nella que elle foj, estando na Arrochella aquela casa com ho dito Joam de Leam e os companhejros ouvir a doutrjna dos lutheranos por quãoto hum Alexandre Lopez christão novo e outros que a ese tempo la estavam lhe diseram que elle denunciante fora ouvir a dita doutrjna e que se vem dasemto pera trabalhar aquj em seu officio e que ja isto confesou em Toledo com ho majs hall nam dise e do costume dise estava bem com todos e lhe ffoj mandado ter segredo no caso e elle o prometeo sob carguo do dito juramento e por o promottor fiscal requerer a elles senhores inquisidores que por ser o dito denunciante estrangeiro e se poder absentar pera lugar nam certo lhe reteficasemos em fforma elles senhores mandaram chamar os muito reverendos padres frej Belchior de Sam Mjguel e frej Estevam Caveira, ambos da ordem do bem aventurado Sam Domingos e pregadores perante os quaes despois de tomarem juramento de ter segredo em forma o dito denunciante disse que o dito contheudo em esta sua denunciaçam que eu notario lhe li toda de verbo ad verbum e lida e por elle entendida disse que asj o disera e estava escripto na verdade e afirma e ratefica e de nouo torna a dizer e asjnou com os ditos senhores inquisidores e os ditos padres que estiveram presentes por honestas e religiosas pesoas e eu Joam Velho notario appostolico o sprevi, diz no riscado Symam de Saa Pereira e declarou sendo perguntado que na dita casa onde estava o dito ajuntamento de gente segundo seu parecer, Pierres tinha hum liuro na mam e que todos os ditos seus companhejros a saber Joam de Leam e Pierres e Cornelio cantavam com ha majs gente os ditos Sallmos em frances que elle denunciante nam entendia e asynou com elles Senhores padres e eu Joam Velho notario appostolico o sprevi (aa.) Jorge Gonsallvez RibeiroPedro AlbertoSimão de Saa PereiraFrej Belchior de São MiguelFrej Estevão Caveira».

Livro de Denuncias do Santo Officio (n.º 106).




Notas:


[1] O Livro do Lançamento e Serviço que a Cidade de Lisboa fez a El-Rei Nosso Senhor, de que démos abreviada noticia no jornal Novidades, de 9 de junho de 1897, tendo começado em 15 de abril de 1565, e terminado em 6 de setembro de 1567 as operações da cobrança, de que o alludido Livro é muito curioso registo.

[2] «T.o da fr. Da Madalena—Rua Nova dos feros Danbas as bandas» f.o 44, V.

[3] João de Borgonha era proprietario de umas casas na «rua da Gibetaria», que tinham 5 inquilinos. Tinha outras casas na «rua do Terreiro da Portagem», onde eram seus inquilinos um Pedro de Sousa, ourives de ouro, e um João Fernandes, mercador, recem-chegado do Peru.

Os outros dois inquilinos, dos 4 que o predio tinha, não são de importancia.

Finalmente, este abastado livreiro-editor ainda possuia umas «tendas» nas costas do Terreiro do Trigo.

[4] Ás vezes, tambem não eram de todo bem succedidos em suas um tanto arriscadas especulações; testemunha, Alonso de Leon, que, em 1575, foi denunciado á Inquisição por um tal Raphael Perestrello, porque entre os livros de que era mercador, em Lisbôa, vendia alguns, impressos em Flandres ou em França, «e falavam contra o officio divino e contra a missa».

Arch. Histor. Portug. fasc. n.os 75 e 76, pag. 153.

[5] «It Migel darenas liureiro seu obreiro......... avaliado [~e] cinquo mil rs...» (fol. 45 do cit. codice).

Ácerca deste Miguel de Arenas e de seu parceiro João de Molina, assim como de João de Borgonha, e outros livreiros e impressores de que esta Noticia se occupa, leem-se com fructo os artigos que lhes respeitem in Docum. para a Hist. da Typogr. Portug. &, de Venancio Deslandes, Lisboa, Imp. Nac., 1888.

[6] A Recopilaçam tivera, segundo as primordiaes informações de Barbosa Machado, posteriormente ampliadas por Innocencio, duas edições; uma, de Coimbra, por Antonio de Maris, 1569, outra, de Lisbôa, por Marcos Borges, 158O. Nem de uma, nem de outra apparece, desde muito, exemplar algum.

De uma terceira edição,—aquella a que o texto se refere—apenas existia um exemplar na copiosa livraria do convento de S. Francisco da Cidade. Delle se serviu Alexandre das Neves Portugal, para ajuntar á 2.ª ed. das Advertencias dos meios que os particulares podem usar para preservar-se da peste, &, por aquelle naturalista redigidas, e mandadas publicar pela Academia, em 1797 (?)

Exhausta, com effeito, esta 1.ª ed., voltou a douta corporação a fazer reimprimir 2.ª, em 1801, ajuntando-lhe, porém, agora, mas com rosto e paginação especial, o opusculo dos dois medicos sevilhanos, o qual na 1.ª apenas fôra objecto de simples referencia, impressa no Prologo. O formato das duas edições das Advertencias é de 12.º

Ficou, pois, a Recopilaçam em 4.ª ed., copiada da de 1598, conforme se vê na folha do rosto.

[7] Parece ser esta a 3.ª edição, havendo entre esta e a de Ferrara, 1554, uma de Evora, 1557-58. Nas edições de Ferrara, e de Colonia chama-se á novella: Hystoria de Menina e Moça. Veja-se no pref. de Menina e Moça, ed. do Porto, 1891, a Nota 1 de pag. LXXVIII, do punho do nosso consocio, sr. D. José Pessanha. Innocencio não mencionou a ed. de Ferrara, por onde entende ser 2.ª esta de Colonia.

[8] A Imprensa Portugueza no Seculo XVI, cap. 4.º—Livreiros. No Archivo da Camara desta capital ha uma carta de venda, em que interessa a corporação dos livreiros da Irmandade de Santa Catharina, datada de 11 de maio de 1557, e na qual Salvador Martel assigna como testemunha de certas diligencias. Vid. Elem. para a Hist. do Mun. de Lisboa, Tom. II, 584, nota da pag. anter.

[9] T.o da freguezia da See», fol. 9.

[10] A «rua da Costa», da relação de Christovão, na freguezia da Magdalena. Nesta freguezia dá a mesma relação «Duas travessas que não tem nome». Uma destas poderá ser aquella onde estavam estabelecidos os dois livreiros.

[11] Como se vê por este exemplo e o outro supra, Bastião de Lucena, escrivão deste recenceamento, obrigava a syllaba «gi» a soar como «gui», o que não é peregrino entre a gente menos letrada deste seculo.

A Fonte da Preguiça ficava «além da Porta do Mar», para oeste das casas de Affonso de Albuquerque «que tem as pontas de diamantes», e logo a seguir a outras que pertenciam á Cidade, segundo o que se lê no L.o 1.º do Tombo das propriedades foreiras á Camara, codice do Archivo Municipal.

Sobre a fonte erguiam-se umas casas, onde, na occasião deste arrolamento (1565), morava um tal Francisco d'Arruda, de quem, infelizmente, Bastião de Lucena não mencionou a occupação.

[12] Temos a opinião de que o Summario não sahiu a lume antes de 1554, embora se haja inferido das expressões de seu antes compilador, do que auctor, a data de 1551.

[13] É forçoso confessar que Bastião de Lucena, o escrivão deste recenseamento, teria feito, se de tal se lhe quizesse suppôr o proposito, quanto houvera sido preciso para negar á posteridade a existencia do velho Johanes Blavius, tão mal affirmada nas folhas amarelladas do codice, onde lhe foi desfigurado o nome.

O respectivo lançamento diz, com effeito, e em verdade, o seguinte:

«It cladio colon Inprimidor em cassas de bento giz avdo [~e] tres mill rs paguara xxj rs»

Ora, não só não houve nenhum impressor estabelecido, deste tempo, que se chamasse Claudio, querendo ver a falta de um «u» no nome proprio escrito por Lucena, nem o «imprimidor» arrolado era simples «obreyro»; isto é, official typographo, para nós desconhecido, porque, nesse caso, o escrivão do recenseamento o declararia tal, como o fizera a respeito de Miguel de Arenas, e o fez, referindo-se a Marcos Borges, segundo adiante veremos.

O presumivel, pois, será que Bastião de Lucena haja desfigurado o nome de João Blavio, reunindo em dois inintelligiveis vocabulos o appelido do impressor, e a indicação da sua terra natal.

[14] De certeza, temos que a «Primeira Parte da Chronica dos Menores», de Fr. Marcos de Lisboa, que João Blavio imprimira em 1557, editada por João de Borgonha, foi reimpressa por Manoel João, em 1566. Pareceria curial que o impressor da 1.ª edição, estando ainda vivo, e estabelecido, como o vemos pelo texto, fosse o encarregado da reimpressão, tanto mais que foi o mesmo João Blavio que em 1562 imprimiu, por conta daquelle opulento editor, a Segunda Parte da indicada Chronica.

Pelo numero de obras, de que ha noticia terem existido, sem que chegassem até nós, se póde fazer idéa de quantas se terão perdido, em edições que se não repetiram, e não conheceremos jamais.

Não anda liquido qual fôsse a 1.ª ed. do Palmeirim, em linguagem portuguêsa, sendo certo que, se o conselheiro Macedo teve a que dizia ser 3.ª ed., impressa em 1564, outras duas anteriores houvera já, que assim como esta, se não conhecem.

Tampouco se conhece a 1.ª ed. da Aulegraphia, de Jorge Ferreira de Vasconcellos, deduzindo-se apenas pelo titulo da de 1561 dever ser esta a 2.ª, pelo menos.

Da Comedia Ulysipo, do mesmo Jorge Ferreira, tambem se não conhece a 1.ª ed., muito anterior, por certo, á que seu genro D. Antonio de Noronha emprehendeu em 1619. Quanto aos Triumphos de Sagramor, do mesmo Ferreira, resta saber se as conjecturas de Innocencio, ácerca da existencia desta obra prevalecerão, ou não.

Enfim, uma prova, ainda que indirecta, de que se imprimiram no seculo XVIº. obras, de que nenhuma noticia resta, é que ha, applicados a outras obras conhecidas, frontispicios que decerto não foram feitos para ellas, senão para outras, em que pela primeira vez appareceriam, sem se saber quaes fossem, e quem hajam sido seus autores.

[15] Obras do Poeta Chiado, colligidas, &, por Alberto Pimentel.

[16] «To Da freguesia De San Nicoláo», fol. 176.

«It Marcos Borjes Inprimidor obreyro em cassas da molher do doutor anto medis/Bracal paguara x b j i rs»

[17] Eis o texto completo do rosto desta obra:

«Paradoxo ou sentença philosophica contra a opinião do vulgo: Que a natureza não fez o homem senão a industria. Dirigido ao muy alto & inuictissimo Rey de Portugal dom Sebastião Primeyr (sic) deste nome. Por Jo Cointha Senhor des Boulez Fidalgo frances... Agora nouamente, feyto & impresso nesta cidade de Lixboa em casa de Marcos Borges empressor del Rey nosso senhor. Ao primeyr (sic) de Janeyro de 1566. Vede se na empressão detras de nossa senhora da Palma».

Em 29 quartos de papel, sem numeração. Innocencio descreve o exemplar deste raro opusculo pertencente a Figanière.

[18] «Arcos por traz da Ermida da Palma.» Lado de L. 4 propriedades; lado do S. outras 4. Tombo do Bairro do Rocio, fls. 156 e 156 v.o

Como simples esclarecimento, que facilite o ajuisar da situação desta ermida, diremos que ficava por muito proximo do pequeno largo ainda agora conhecido por largo dos Torneiros, rasgando-se na rua dos Fanqueiros, na extrema L. da rua de S. Nicolau.

[19] «A Imprensa em Portugal no seculo XVI», artigo de Sousa Viterbo in Diario de Noticias, de 5 de setembro de 1898.

[20] O segundo destes valiosos estudos foi dado a lume na Archeologia Artistica, 1.º anno, vol. I, fasc. II, publicada pelo sr. Joaquim de Vasconcellos—Porto, 1873.

[21] Manoel João rubricou os fêchos do 1.º e do 2.º Livros desta compilação, imprimindo «Manoel», empregando, comtudo, o «u» nos tres ultimos. Notemos que Tito de Noronha é tambem um de nossos diversos auctores modernos que seguem o exemplo dos que, nomeadamente no seculo XVII.º, adoptaram o «o» na graphia do nome proprio «Manoel», distinguindo-o assim, e crêmos que bem, do seu igual castelhano.

Francisco Manoel, Bocage, que adoptou para distinctivo academico o anagrama do seu baptismal: Elmano, e já bem proximo a nós o estadista Manoel da Silva Passos, ortographaram com «o» o seu nome proprio. A mesma pratica se observa entre as familias nobres que usam deste nome proprio, por appellido ou sobre-nome.

[22] Uma anterior edição deste Regimento, datada de 1542, sahira dos prélos de Germão Galharde. Innocencio cita-a na letra A (Artigos), e Tito igualmente se lhe refere na monographia Ordenações do Reino, pag. 82.

[23] O pobre do guarda-roupa, improvisado pregoeiro das grandezas de Lisbôa, não attendendo a mais nada, sommou os «roles» das vias públicas das 23 freguezias que os tiveram (porque S. Martinho não teve «role»), e achou o total das 521, das tres categorias, que pormenorisou quasi no final do livro, sem contar as 2 calçadas e alguns «adros» que elle, ou outrem, fez entrar na especial dos «62 Postos», a que no texto se fez referencia.

Não attentou, porém, o diligente chronista lisbonense na compartilha parochial, e sommando, sem mais exame, as 23 relações de vias públicas que os priores e curas da cidade lhe facilitaram, por ordem do Arcebispo, não deu porque 38 destas, obedecendo áquelle sistema, se apresentam 80 vezes repetidas por 2 e 3 freguezias, o que reduziu, por conseguinte, a 479 o numero verdadeiro das vias públicas constantes do Summario.

Deve porém advertir-se que na Lisbôa do tempo deste livro havia já muito antigas vias públicas que, por qualquer circumstancia, nelle não figuram. Daremos para exemplo, por ter adquirido a particular notoriedade que lhe vem de figurar no Monge de Cister, a celebre «rua de D. Mafalda», que os lançadores de 1565 arrolaram, «com suas travessas e hospital» (o dos Palmeiros), na freguezia da «Madanela».

[24] Já deixámos explicado como o vocabulo «congro» traduz, neste caso, um acentuado barbarismo. Ao vulgo, é mais que certo, escapou naturalmente o termo letrado «combro», de que poucos estariam, neste tempo; como ainda agora, no caso de alcançar o significado. A ignorancia dos letreireiros que, ao alvorejar o seculo transcurso, foram encarregados pela Administração Geral dos Correios de appôr os disticos nas vias públicas da nossa capital, foi origem a muitos desconcertos desta ordem. Assim, o Pateo do «Porcili», appelido italiano, foi convertido em Pateo do «Pocildes», o beco dos «Beguinos» ficou-se chamando beco dos «Biguinhos»; outro beco, o da «Calheta», transformou-se em beco da «Galheta», a Praça dos «Remolares» foi muito tempo conhecida por Praça dos «Romulares», &. Infelizmente, não occorreu verificar se a graphia dos artistas saíra triumphante da prova, e por isso, ainda agora se andam remediando estas aberrações ortographicas municipaes.

[25] Este Conde era um Domingos Fernandes, que tinha por alcunha «o conde». Era «porteiro do concelho», e morava na rua a que déra a alcunha, em casas suas.

Pela coincidencia, notaremos que, ha quarenta e tantos annos, estacionava na então denominada Rua de S. Francisco, um moço de fretes, chamado tambem Domingos Fernandes, e que tendo sido criado de Almeida Garrett, era conhecido pela alcunha: o visconde, do titulo daquelle que fôra seu patrão.


[26] Não se nos afigura fóra de proposito esclarecer que o Chão d'Alcamim («Alcamim, hortaliça sêcca», segundo Fr. João de Sousa, in Vestigios da Lingua Arabica), antigo cemiterio mourisco, e posteriormente provavel cemiterio da freguezia de S. Mamede, formava a divisoria territorial das duas freguezias, esta, e a de S. Christovão, uma das suas convisinhas. Ficava sobranceiro ao modesto mas antiquissimo edificio parochial daquella invocação; isto é, occupava o terreno por onde agora discorre a calçada do conde de Penafiel, e ligava-se á Costa do Castello, tal qual esta calçada se liga á juncção da extrema da rua do Milagre de Santo Antonio com o principio da sobredita Costa. A igreja parochial de S. Mamede assentava no sitio da meia laranja, denominada Largo do Correio-Mor.

Ainda em principios da segunda metade do seculo passado, o terreno montuoso onde fôra o Chão d'Alcamim era vulgarmente conhecido pela denominação de Entulhos da rua de S. Mamede. No alto da rampa que se rasga sobre a Costa, e no rez-do-chão do predio que para ella faz esquina, á esquerda de quem sobe, estava estabelecida, na face de leste, sob o n.º 5, a tipographia de Luis Correia da Cunha, onde se imprimia, em 1860, a edição em 16.º dos Lusiadas, de Luis de Camões, adoptada para texto poetico nos Institutos de ensino livre, daquella época. Esta edição foi repetida pelo mesmo tipographo, em 1864, em formato igual, e igual numero de paginas.

[27] Como estamos no terreno resvaladio das supposições e das probabilidades, seja-nos permittido aventurar a supposição de que este dr. João de Barros possa ser o proprio homonymo do auctor das Decadas, com quem alguma vez foi confundido, e que em 1540 deu a lume na cidade do Porto o Espelho de Casados, impresso por Vasco Dias Tanco de Frexenal. Dr. João de Barros ou nasceu no Porto ou em Braga, e vivia ainda em 1553, mas, se como informa Barbosa Machado, elle foi do Desembargo do rei D. João III, e seu escrivão da camara, não sería impossivel que, fixando residencia, por tal facto, era Lisbôa, adquirisse para sua habitação a casa onde Manoel João estabeleceu a sua officina.

[28] É patente que todo aquelle plaino, aquella achada de que ahi perto se perpetúa a secular recordação (largo e rua assim denominados) passou, e por mais de uma vez, por grande transformação, depois do terremoto de 1755. Os antigos paços de S. Christovão, que occupavam na parte posterior muito maior area, do que a do actual palacio que foi dos Vagos, ficaram circumscriptos ao que ahi vemos. O lado esquerdo das ruas do Regedor e de S. Christovão foi refeito. O proprio adro da parochia, onde havia dois cruzeiros, foi modificado. A medieval «travessa do monturo do benete» converteu-se, se não no todo, em parte ao menos, nas Escadinhas de S. Christovão; o «arco de João Corrêa», que se encostava á esquina dos velhos paços, donde a gentil princeza, irmã de Affonso V, sahiu desposada para Allemanha, refeito com o palacio novo, desappareceu posteriormente, deixando por testemunha da sua existencia ali o grande chanfro que modificou o cunhal do palacio, tal qual o lá vemos.

[29] Esta noticia, transcripta como no texto advertimos, do livro opportunissimo de Venancio Deslandes, e se lê a pag. 42, nota 1, conjugada com os largos esclarecimentos da pag. 63 e seg. nota 1, da mesma obra, ácerca do rarissimo Tratado de Bento Fernandes, vem esclarecer o intrincado caso a que Innocencio se refere, ao registar este auctor, no vol. II do seu Diccionario.

Após ter inscripto a obra, sob o n.º 1858, seguindo a indicação de Antonio Ribeiro dos Santos, que em suas Memorias, a pag. 108, déra noticia della, como impressa no Porto, em 1541, por Vasco Dias Tanco de Frexenal, parecendo, todavia, não a ter visto, nota, com effeito, o experiente bibliographo que Barbosa já se referira a esta mesma obra, como impressa em 1555. Innocencio fecha a sua noticia, confessando que tambem nunca vira o Tratado, nem sabia onde existisse.

Agora se concilia, pois, tudo. Bento Fernandes terá, com effeito, dada uma 1.ª edição em 1541, tirada dos prélos de Vasco Dias Tanco, repetindo 2.ª no proprio anno em que parece ter fallecido, a julgar pelo que escreveu o auctor da Descripção Topographica do Porto; isto é, em 1555, utilisando agora os serviços de Francisco Corrêa.

Accrescente se que Noronha, no final das Tabellas da Imprensa Portugueza no Seculo XVI, pag. 29, assigna a Vasco Dias Tanco os annos de 1540 1541, como os da sua permanencia no Porto, onde teria impresso 3 obras. Do mesmo modo, na Introdução do Espelho de Casados, do dr. João de Barros, fol. 7, v.o, regista a presença de Francisco Corrêa naquella cidade em 1555.

Vê-se, pois, que os dois auctores estão perfeitamente concordes, no tocante a cada uma das phases da vida dos dois tipographos, supra alludidas.

[30] «T.o da fr. da Magdalena», f.o 82 v.o

[31] Aliás Lisarte, de que, definitivamente, veíu a formar-se Lisardo, por ex. «Silvya de Lysardo» (1597), passando assim o que parece ter sido nome proprio a appelido, como o seu consimilhante Jusarte, que de ambos os modos foi, de frequencia, empregado.

A Jusarte Pacheco, morto no accomettimento de Calecut, filho do grande Duarte Pacheco, chama Gaspar Corrêa «Lisuarte Pacheco», segundo se lê na Lenda de Affonso de Albuquerque, pag. 19. Na descendencia do genovês «Salvago», naturalisado pelo rei D. Manoel, anda um Jusarte Salvago, a quem D. João III nomeou Almoxarife dos Armazens de Lisboa.

De Jusarte, appellido, se deriva Zuzarte, e assim o nota o sr. Anselmo Braamcamp Freire, descrevendo o Brasão dos Jusartes na Armaria Portuguesa, pag. 284, da folha appensa ao Arch. Hist. Port., vol. VIII, fasc. 87 e 88.

Ao passo, porém, que Jusarte alterna com Lisuarte ou Lisarte, como nomes proprios, vêmos Jusarte empregado n'este mesmo seculo, e muito proximo aos tempos dos Pachecos, na India, como appelido.

Assim, o proprio Gaspar Corrêa, além de outros de menos nomeada, se occupa extensamente na Lenda do 5.º Governador D. Duarte de Meneses, de Martim Affonso de Mello Jusarte, capitão de Ormuz, cujos trabalhos em Malaca e outras partes narra com individuação.

Este appelido, revivescendo no seculo XVII na pessoa do escriptor Fr. Pedro da Cruz Jusarte, vem até nossos dias ligado a uma das familias mais consideradas do Alemtejo; a dos Condes de Avillez, cujos antepassados e descendentes o empregam logo a seguir ao sobrenome—p. ex.: «Jorge d'Avillez Jusarte de Sousa Tavares de Campos».

Quanto ao ramo dos Zuzartes, vemos, ainda no Tombo Pombalino D. Marianna da Silva Zuzarte, proprietaria em 1755 de casas no beco do Bugio. Quando, posteriormente, se formou a rua da Saúdade, derrubada a parte do beco onde taes casas eram, foi-lhes marcado terreno e alinhamento na nova rua, para a reconstrucção, que veiu a receber o numero de policia 8. Em nossos dias, era proprietario d'estas casas um cavalheiro Araujo Zuzarte, antigo administrador de um dos Bairros d'esta Cidade.

[32] Isto é: 455 réis.

[33] Este «Ilusuarte Peris», cujo nome e appelido parecem ter soffrido a truculenta sorte de João Blavio de Agripina Colonia, sob a pena barbara de Bastião de Lucena, era proprietario na rua que tinha o seu nome, sendo elle que, provavelmente, a fundou, á semelhança de outros muitos exemplos mais, quer por aforamentos feitos á corôa dos terrenos onde se edificavam as primeiras casas, quer por qualquer outro modo que attribuísse aos fundadores um tal qual direito de propriedade no denominar das vias públicas.

As casas de Ilusuarte Peris constam dos lançamentos 27 a 29 do grupo comprehendido no titulo expresso no texto, e tinham por inquilinos:

«Margaida Ribeyra, Francisca Anriquez, molher cortezan e Eytor Fernandes, Indio».

O mesmo Ilusuarte Peris tinha tambem outras casas na «rua das Cristaleyras» e ahi eram seus inquilinos uma viuva e um tintureiro. Esta rua apparece já nos roes de Christovão (1554?). A de «Ilusuarte Peris» deve ter-se formado nos annos que separam a obra do guarda-roupa do Arcebispo lisbonense do recenseamento que estamos examinando.

[34] Em qualquer das duas edições da Pratica Darismetyca (1519 e 1530), impressas por Galharde, se declara este «frãcez», passando a primeira por ter sido a sua estreia, como chefe de officina. Por igual lhe declara a nacionalidade a subscripção do Livro 2.º das Ordenações, bem como a do 3.º, e ainda a dos Statutos da Ordem de Santiago, não sendo difficil que se registem mais exemplos.

Tambem no Memorial de Pecados, de Garcia de Resende, impresso em 1521, apparece o appelido d'este impressor composto, em parte, á francesa;—«Gaillarde», e nas Ordenações, «Galhard». Além d'estas, ha outras variantes, taes como, a da Cronica llamada el triunfo, &, onde parece que se lê «Gallarde», e a do Cerimonial da missa, que imprime «Gallardo». Na Cartilha que cont[~e] breuem[~e]te é que o appelido do celebre impressor apparece como veiu a ficar:—«Galhardo».

Na diplomatica de D. João III chama se-lhe: «Germão Galharte».

[35] Affirma-o, como facto por elle proprio verificado, o conspicuo bibliographo Tito de Noronha, in Ordenações do Reino—Seculo XVI, apud Archeologia Artistica, 1.º anno, vol. 1, fasc. II, cap. XI, pag. 76 (1873).

Repetiu a affirmativa in A Primeira Edição dos Lusiadas, Porto, 1880, a pag. 80, nota (68), in fine.

[36] Jornal do Commercio, de 2 de maio do 1871.

[37] Mais outra vez vem a lume o titulo d'este livro quasi quatro vezes secular. É como segue:

«Missale secumdum consuetudinem Elborensis ecclesiae noviter impressum».

Na subscripção final lê-se:

«Impressum Ulixipone expensis magistri Antonii Lermet Elborensis civitatis librarius per Germanus Galhardum. Anno salutis nostre millessimo quingentessimo nono. Pridie Kalendas martii. Deo Gratias».

Assim, pelo plausivel alvitre de Tito de Noronha, entre «quingentessimo» e «nono» devia ter-se composto vigesimo, falta que só quem não sabe quanto é facil de escapar, ainda ao mais attento revisor, o salto da composição de um vocabulo entalado entre outros, e n'uma data, principalmente, não comprehenderá. No texto se exemplifica um curioso similhante caso de nossos dias.

[38] Em sua Bibliographia Historica Portugueza consigna Figanière ter visto em um exemplar da terceira Decada da Asia, de João de Barros, impresso por João de Barreira em 1563, a omissão typographica M. D. LIII.

[39] Isto é, em 1513-«Ordenações do Reino—Seculo XVI», pag. 31.

Adiante veremos que a conjectura não se confirma.

[40] Gaspar Nicolas, natural de Guimarães, foi escrivão da tabola de Coimbra e das cizas da mesma cidade, como consta de varios diplomas de nomeação e quitação, das chancellarias de D. Manoel e D. João III, no Arch. Nac. da Torre do Tombo.

Era, pois, como hoje diriamos, um funccionario de fazenda, e, portanto, no caso de se occupar da materia que foi assumpto ao seu, desde seculos, rarissimo livro.

Tito de Noronha determinou, em 1874, o começo da actividade officinal de Germão Galharde, pelo conhecimento que teve do exemplar e edição citados no texto; exemplar, pertencente, ou que veiu a pertencer ao sr. visconde de Azevedo. Innocencio, porém já em 1859 notava que no catalogo da livraria de Joaquim Pereira da Costa andava descripto um exemplar da Pratica Darismetyca, com a data de 1519. Ao diligente bibliographo, parecia, comtudo, erro semelhante data, e aqui vêmos como se enganou!

Germão Galharde, como está registado no começo da nota 1, de pag. 44, fez 2.ª edic. do Tratado sobredito em 1530.

[41] Eis as expressões do fecundissimo polygrapho:

«Duvido se tem V. m. já noticia de outro livrinho que estou imprimindo, e o fiz mais depressa do que a Calsada dos Galhardos. Chamo-lhe Pantheon, terá quatro até sinco folhas, com 2500 versos.»

Bibliot. Nacion. de Lisbôa—MM s.—Fundo antigo, 155. «Cartas de D. Francisco Manuel de Mello a Antonio Luiz de Azevedo, com introd. e notas, por Edgar Prestage—Imp. Nac. 1911». É a n.º 24, e o passo lê-se a pag. 70.

[42] Este pateo é o primeiro, á esquerda, na rua de Santo Ambrosio, tendo o portão que lhe dá entrada o n.º 17. Depois que os Galhardos o largaram, habitaram ahi as Patinhas, isto é, as filhas de um Don José Patiño que exerceu aqui, em Lisbôa, qualquer cargo official do seu país.—Um appelido estrangeiro convertido em assumpto de galhofa.

Morreram as Patinhas, e succedeu na denominação do pateo um tal José Alexandre, que ahi persistiu até ha pouco.

Hoje, o Pateo é Villa, porque os estrangeirismos, ainda que prestem a riso, são-nos mais bem acceitos, do que o que sempre teve sabor nacional. Já o dizia, ainda que por fórma muito mais conceituosa, no seculo XVII, um dos nossos mais distinctos escriptores.

Emfim, a Villa appellida-se «Domingues», e voltará a andar por ali outra vez o dominio castelhano...

[43] Frontispicio:

«Reportorio dos tempos em linguajem português.

Foy impresso em Lixboa em casa de Germão Galharde, Anno 1560.
»

Fecho:

«Acabou-se o Reportorio dos Tempos em linguagem português. Agora nouamente emendado e impresso cõ muytas cousas acrescentadas de nouo, etc., O qual foy impresso em a muy nobre e s[~e]pre leal cidade de Lixboa, em casa da viuua, molher que foi de Germão Galharde [~q] sancta gloria aja. Anno de 1560.»

[44] Reservados da Bibliotheca Nacional—A—443.

[45] Tendo nosso presado amigo, sr. dr. Antonio Baião, publicado no Archivo Historico Portuguez, vol. VII, pag. 150 e seg., (1909) o extracto desta denuncia, como fazendo parte de suas noticias ácerca da Inquisição em Portugal e Brazil, appensaremos aos presentes Estudos o seu teor, na integra, para que nossos benignos leitores possam ajuisar plenamente do valor deste documento, não só quanto ao caso que nos occupa, senão tambem quanto ao que elle revela, sob o ponto de vista do triste estado dos espiritos em Portugal, na época tão bem retratada no predito documento.

Ao nosso presado amigo muito agradecemos o grande obsequio que lhe ficámos devendo, com a copia deste depoimento, que tão amavel quão solicitamente se serviu communicar-nos.

[46] Entre as gravuras frontispiciaes conhecidas do seculo XVI algumas ha que foram executadas para obras que não chegaram até nós. Lembra-nos, por exemplo, a que se vê na Sala dos Reservados da Bibliotheca Nacional, n.º A—149, que deve ter sido expressamente aberta para obra differente daquella em que ali se nos patenteia, e que todavia, se não conhece.

Porventura se terá presente o que, referindo-nos em uma das Notas do Cap. IV, á Primeira Parte da Chronica dos Menores, de Fr. Marcos de Lisboa, se nos offereceu ponderar, a respeito de obras que se sabe terem sido impressas, mas que de todo desappareceram.

[47] Nosso venerado Patrono, Diogo Barbosa Machado, já déra noticia desta obra, com a competente indicação, ipsis verbis, do respectivo titulo.

A ella se referiu, repetindo-o, ainda que menos pontualmente, o incançavel Innocencio, notando, com assás de razão, as imperfeições infelismente commettidas pelo douto Antonio Ribeiro dos Santos, no tocante a este particular motivo.

Ultimamente, o Sr. Anselmo Braamcamp Freire deu a descripção da obra, e seu titulo, imprimindo este com toda a perfeição, in Archivo Historico Portuguez, vol. VIII, n.os 8 a 11 (92 a 95—1911), fielmente transcriptos uma e outro dos que lhe deu a Sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos, por copia do exemplar que a S. Ex.ª pertence. É este mesmo titulo que está presente na occasião, e se transcreve de preferencia aos dois citados supra.

[48] Manda, todavia, a Ordenação, no Liv. II, Tit. 61, «que qualquer pessoa que de nós tiver Privilegio, de qualquer sorte que seja, ou que o tenha por respeito da pessoa com quem viver, em qualquer maneira que pelo Privilegio da tal pessoa guardado fôr, tenha lança de vinte palmos, ou dahi para cima, em sua casa».—Isto é, tenha lança de 4,m40, ou superior a esta medida.

Vê-se, portanto, do confronto dos dois textos que a medida-padrão destas armas diminuira, pelo discurso do tempo, muito perto de 0,50.

Na Europa do XIV.º seculo, a medida mais commum das lanças com que se armava a gente collecticia a soldo de qualquer procer, era, segundo Cibrario, in Economia Politica da Meia Edade, de dezoito pés, o que corresponde a 5,m94.

[49] Carta de 14 de fevereiro de 1530, in Deslandes, Doc. para a Hist. da Typ. Portug.

[50] Este vocabulo, e o seguinte em abreviatura, «morador», denunciam uns restos de barbarismos de concordancia, que ainda nesta epoca já adiantada do seculo, e até no seguinte, transparecem aqui, ali, no commum falar e escrever.

Reinava uma como especie de preguiça em acommodar á fórma feminina os vocabulos em or, e um que outro mais.

A materia foi superiormente versada pelo tão infeliz, quão abalisado philologo Francisco Dias Gomes, que em sua «Analyse sobre a elocução e estylo de Sá de Miranda», deu, entre varios exemplos, um, com o primeiro dos dois apontados vocabulos, tirado de Ruy de Pina:—«E a entregou aa Ifante Dona Briatriz como titor que era do duque Dom Diogo seu filho.»

Correlativamente, os determinativos não acompanhavam a fórma feminina que designavam, como n'aquelle caso que nos occorre do informador de Christovão Rodrigues de Oliveira: «Os dignidades que ha na See.»

A Memoria de Francisco Dias lê-se entre as de Litteratura da Academia, tom. IV, pag. 26 e segg.

[51] A freguezia de Santa Engracia só teve Breve de desannexação da de Santo Estevão em 1568. Só depois de 1606 é que o edificio parochial foi patente ao culto. O parocho de Santo Estevão pastoreou durante trinta e um annos ambas as freguezias cummulativamente; isto é, desde 1576, anno em que começou, emfim, a vigorar a desannexação, até 1607, em que havia já na nova parochia cartorio proprio, e independente da parochia mater. Veja-se o que escrevemos no vol. VIII, pag. 5, do Archivo Historico Portuguez—1910—Art. As Tenças Testamentarias da Infanta D. Maria.

[52] Já temos advertido que o livro do guarda-roupa do Arcebispo de Lisboa não pode ser da data que anda em costume attribuir-se-lhe;—1551. O proprio livro contém em alguma de suas paginas, ao referir-se á Misericordia, e ás esmolas que esta Instituição recebia, a confirmação do que affirmamos.

Como, porém, o auctor conta ter sido no anno de 1551 que o Arcebispo lhe commetteu o encargo de fazer o livro, nada se oppõe a que desde este anno elle começasse a colligir os materiaes para elle, dirigindo-se aos parochos, para alcançar os «roles» das vias publicas, feitos—é evidente—á face das desobrigas. E como entre encommenda-los e o conseguir have-los á mão sempre mediaria algum tempo, sendo 25 os parochos collaboradores n'esta obra de louvores ás grandezas e magnificencias lisbonenses, pareceu-nos que pelos termos que empregámos alcançariamos exprimir com exacção o nosso pensamento.

[53] E portanto atafaneiro. É vóz arabica;—«atahana».

[54] O traçado descrito e os pormenores são os que resultam da leitura do passo respectivo no Tom. VIII dos Elementos para a Historia do Municipio de Lisboa, de nosso tão distinto colega, sr. Freire de Oliveira, aliada á do muito elucidativo texto tecnico da valedora monografia A Cêrca Moura de Lisboa, do nosso prestante amigo sr. Vieira da Silva.

Nossa, é só a conjectura de que os edificadores da cêrca de D. Fernando apoiariam o postigo de Santo André á torre que a barbacã ou cinta muralhada que circundava o monte do Castello ali poderia ter, aproveitando os lanços d'esta para ligarem á velha a nova cêrca, partindo, para a continuação da obra, do baluarte de S. Lourenço. Resta uma pergunta:—Tinha toda a muralha que abraçava o monte do Castello, desde a Porta de D. Fradique até á porta da Alcaçova ou de S. Jorge ou vice-versa, antiguidade egual á do baluarte de S. Lourenço? Por outra, é tudo obra mourisca, ou anterior, se tal baluarte o é tambem?

[55] Villa Quente, que um desagregamento do solo pendurado do monte do Castello subvertera em 1531, e passa, a nosso vêr, menos justificadamente, por um tremor de terra mais, a ajuntar á longa lista dos que tem affligido Lisboa, no decorrer dos seculos, era um punhado de humildes casas, semeadas entre o começo da actual calçada de Santo André, e o «caminho que ía ao postigo do Monis», diante de cuja entrada havia uma «cruz de pao». A rampa que o pequeno povoado occupava para o N. da cinta muralhada que circumdava o monte do Castello, e o abrangia como um annel, em toda a sua circumferencia, estendia-se pelo limitado espaço que servia de recosto á cêrca de Santo Antão (Colleginho), vindo confundir-se com os meandros de betesgas e encruzilhadas que o separavam da Mouraria, constituindo o que alguma vez se chamou «o bairro da rua suja».

[56] Historia de Portugal, vol. I, 3.ª ed. MDCCCLXIII; nota XXIII, a pag. 531.

[57] Aforamento de um chão junto da Porta de Santo André, da banda de fóra, no principio da rua que vai da dita Porta para o postigo de Sam Lourenço, feito pela cidade ao dr. Affonso Figueira, onde este magistrado edificara umas casas que partiam da banda do Poente com muro e torre da cidade, &.

Esta torre é a que suppomos existir já na barbacã do Castello, no angulo formado pelo lanço que devia descer da Porta de D. Fradique a entestar com a parte que se continuava na rua que ia ao baluarte de S. Lourenço.

Deveria jazer pela parte posterior do actual Passo, e terá sido aproveitada para guarda do Postigo de Santo André. Dominava assim a aspera calçada que se lhe desenrolava em frente, e vinha ligar-se á muito antiga «Rua dos Cavalleiros.»