S. Thiago de Creixomil, abbadia do então chamado Couto de Fragoso, demorava no termo de Barcellos.
Ahi vivia o clerigo que affrontára Ayres Ferreira.
Ruy, antes de se avistar com o pai, bateu á porta do abbade, e enviou-lhe o seu nome.
O fidalgo tonsurado desceu ao recio da sua residencia, empunhando a espada de cavalleiro. O soldado da India rejubilou quando viu o adversario armado. Vexava-o ter de matar um inerme. Travaram-se os dous gladios; mas que prelio tão desigual entre o guerreiro experimentado e o fidalgo que sabia apenas a esgrima de curioso! Á volta de poucos botes, o abbade de Creixomil cahiu traspassado do peito ás costas, ouvindo estas vozes frementes de odio:
--Perro! não pozesses as mãos nas barbas de um velho!
E depois foi beijar a mão a seu pai, com quem se demorou algumas horas, e partiu para não perder a passagem das náos que estavam de vela para a India.
E lá foi ceifar novos louros.
Passados annos, o solarengo de Barcellos morreu, e foi sepultado na capella do Santissimo Sacramento da igreja matriz de Barcellos, onde estavam os ossos de seus paes e avós.
Ruy Ferreira voltou ao reino, e succedeu na casa de seu pai.
Ninguem lhe pediu saldo de contas com os descendentes do abbade que naturalmente os tinha, de collaboração com as mais nitidas ovelhas do seu rebanho.
Disputou a posse do morgadio de S. Pedro de Fajozes, no concelho da Maya, a sua prima D. Joanna de Eça, da casa de Cavalleiros. Ganhou a demanda.
Em seguida, casou com D. Philippa de Athaide, filha de Martim Lopes de Azevedo, decimo primeiro senhor da casa e solar d'Azevedo e da Villa de Souto.
Tiveram seis ou mais filhos; parte d'estes morreram na India.
A representação d'esta casa, volvidos 60 annos, estava em Duarte Pacheco Pereira, governador de Ormuz, descendente do heroe desgraçado que teve aquelle nome; porque um bisneto de Ruy, chamado Luiz de Mendonça, casou com D. Guiomar de Albuquerque, neta de Duarte Pacheco Pereira.
Eu não sei se algum dos trinta e quatro barões que conheço, estando no Brazil, e sabendo que seu pai, o tio Antonio da Thereza, foi espancado pelo estadulho do tio Joaquim da Thomazia, seria capaz de vir da rua da Quitanda desaffrontar o seu velho progenitor! Acho que não; e faria muito bem. Ha 300 annos, aquelle Ruy poz o abbade a dormir o somno eterno, cavalgou na sua mula, e lá foi socegadamente para Lisboa, e de Lisboa para a India. Hoje em dia, se o barão de Ranhados matar o Januario do Quinchoso, que lhe bateu no pai, o mulherio grita á d'el-rei, o regedor participa ao administrador, este faz uma circular telegraphica para os quatro pontos cardeaes, e o barão, quando chegar, mais aqui ou mais além, dá de cara com dous policias, e depois bem sabemos o resto.
Mudaram os tempos pela mesma razão que mudaram os fidalgos. Não ha pai por filho nem filho por pai, em quanto se ganha dinheiro.
Entre heroismo antigo e dinheiro moderno está um fosso. Quem quizer palmilhar de salto as duas orlas do abysmo cahe no ridiculo ou... nas mãos da policia.
Cá está outra que me parece mais sensata que a primeira. O premio, infelizmente para o verdadeiro merito, era já distribuido. Não obstante, o snr. Bibliophilo ha de ser galardoado. A minha livraria é pobre: não vejo livro digno de s. s.a; mas vou munir-me de duas joias litterarias, que submetto á escolha do douto letrado.
Disponha, pois, s. s.a do Faust do snr. Joaquim de Vasconcellos, ou dos Originaes opusculos do snr. Jayme José Ribeiro de Carvalho. A primeira, bem que não trate de hygiene, é drastica; a segunda, posto que entenda com a sciencia dos derivativos, corre parelhas com a utilidade da primeira. D'este modo, dou testemunho publico da consideração que me merece o bibliophilo, e fio muito dos dous offerecidos authores a lapidação do seu espirito, que reslumbra e rasga na seguinte carta destinos de nenhum modo chochos.
«Snr. redactor das noites de insomnia.
«Estimo esta occasião de o informar de um caso que succedeu em 1693, e esclarece completamente as suas duvidas a respeito do augusto forasteiro que tres pontifices sentenciaram rei de Portugal.
«Tenho a satisfação de possuir um folheto rarissimo que meu avô conseguiu salvar no incendio da livraria do conde da Ericeira, em 1755. É conhecido outro exemplar no Museu britannico. E eu preso-o tanto que não me desfiz d'elle, quando me offereceram em troca as obras completas do doutor Theophilo, e sete menos cinco em dinheiro.
«Intitula-se a minha raridade: Relaçam do sucesso que teve o patacho chamado Nossa Senhora da Candelaria da Ilha da Madeira, o qual vindo da Costa de Guiné, no anno de 1693, huma rigorosa tempestade o fez varar na Ilha incognita. Que deixou escripta Francisco Corrêa, mestre do mesmo patacho, e se achou no anno de 1699, depois da sua morte. Impresso em Lisboa em 1734.»
«Aproveitando as suas insomnias, vou dar-lhe muito resumida a substancia do referido opusculo.
«Conta Francisco Corrêa que, ao avistar as ilhas de Cabo-Verde, toldou-se repentinamente o céo, e logo uma nebrina escura fez noite a bordo, a termos de se não conhecerem os tripolantes. De subito, pegam de esfuziar nas gaveas repellões de ventania, e os relampagos a fuzilarem, e logo as nuvens negras a abrirem-se em jorros de chuva.
«Traquete e mezena voaram. A embarcação fez agua por todas as pranchas descosidas; e, apesar de esforços desesperados, não vingaram cegar os sorvedouros. Quinze eram os nautas que se deram em uma jangada á misericordia divina. Ao abrir da manhã, avistaram a leste uns morros pardacentos; mas como não tinham governo que alli os proejasse, deixaram-se ir na corrente e á mercê de Deus até varar em terra.
«Em quanto se reparava a embarcação, o mestre do patacho, com Manoel Antunes e João de Arruda, embrenharam-se no matagal com os arcabuzes bem cevados. Viram mono de oito palmos, e dentes de duas pollegadas e meia; viram cobras grossas como pipotes de oito almudes; e viram a final uma mulher marinha que Francisco Corrêa descreve d'este feitio:
«Tinha todas as perfeições até á cinta, que se discorrem na mais formosa, e sómente a desfeavam as grandes orelhas que tinha, pois lhe chegavam abaixo dos hombros, e quando as levantava, lhe subiam a distancia de mais de meio palmo por cima da cabeça. Da cinta para baixo, toda estava coberta de escamas, e os pés eram do feitio de cabra, com barbatanas pelas pernas. Tanto que se viu no monte, presentindo ser vista, deu taes berros, que estremecia a ilha, pelo retumbo dos echos; e sahiram tantos animaes, e de tão diversas castas, que nos causou muito medo. Arrojou-se finalmente ao mar pela outra parte com tal impeto, que sentimos nas aguas a sua vehemencia. Todos se assustaram, menos eu, pois já tinha visto outra no cabo de Gué; e tinha perdido o medo com outras semelhantes apparições; e me lembra, que junto a Teneriffe vi um homem marinho de tão horrendo feitio, que parecia o mesmo demonio. Tinha sómente a apparencia de homem na cara, na cabeça não tinha cabellos, mas uma armação, como de carneiro, revirada com duas voltas; as orelhas eram maiores que as de um burro, a côr era parda, o nariz com quatro ventas, um só olho no meio da testa, a bocca rasgada de orelha a orelha, e duas ordens de dentes, as mãos como de bugio, os pés como de boi, e o corpo coberto de escamas, mais duras, que conchas. Uma tempestade o lançou em terra, e taes bramidos deu, que entre elles expirou, e para memoria se mandou copiar a sua fórma, e se conserva na casa da cidade d'aquella ilha.»
«Ao terceiro dia, 8 d'agosto de 1693, ouviram uma voz lá dos reconcavos da serra, a bradar: Portugal! Castella! Seguindo a toada das exclamações, toparam um homem de venerando aspecto, que lhes fallou assim:
«Graças a Deus Senhor; infinitas graças vos dou, por me chegardes a tempo, depois de tantos annos, em que eu visse gente da Europa; e logo olhando gravemente, e cortez para nós, disse: Senhores, de que nação sois? Nós pasmados, não acertavamos a responder; e conhecendo elle o nosso susto, nos animou brandamente, rogando-nos para a sua pobre habitação, aonde entrámos, e sentados em um tosco pau, nos fallou com taes palavras:
«Senhores, sois portuguezes, ou castelhanos? Respondei sem susto; que não tendes, quem n'esta ilha se opponha aos vossos designios. Se me procuraes, para acabardes com a minha vida, aqui me achaes sem resistencia, e sem defensa mais que a de Deus; e como de tanto viver estou aborrecido, grande favor me fazeis em me alliviardes de tão grande penalidade. Eu, que respeitava a sua pessoa, desejando satisfazer á sua pergunta, o certifiquei de que eramos portugueses, que arribáramos com um grande temporal áquella ilha: do que, tanto que me ouviu, posto de joelhos, levantadas as mãos, pondo os olhos no céo, soltando as lagrimas, deu graças a Deus, dizendo: Ah bom Deus, quão grande é a vossa infinita Providencia! E levantando-se, nos abraçou, e saudou, dizendo: Meus portuguezes, meus portuguezes; sem que as lagrimas cessassem: e levando-nos para o interior da cova, nos fez sentar junto a si, perguntando-me pelos companheiros, e pelo nosso infausto successo, de que lhe démos larga conta. Perguntou-nos quem reinava em Hespanha, e sabendo que em Castella reinava Carlos II, e em Portugal D. Pedro II, suspirando com alvoroço, disse: E Portugal tem rei! Oh Deus immenso, que te lembraste do teu reino! E dizendo-lhe nós como fôra acclamado el-rei D. João IV, e os milagrosos successos d'aquelle dia, não cessava de mostrar o gozo, que interiormente sentia: e logo repetindo novas lagrimas, suspiros, e soluços, nos perguntou pela conquista de Africa, ao que respondemos dando-lhe conta, do que sabiamos, e como desde a batalha, que perdera el-rei D. Sebastião, se não continuára, tomando-se horror a tal terra: e desejosos nós de sabermos com quem tratavamos, lhe pedimos nos consolasse, dizendo-nos, quem o levára áquella ilha incognita, e não arrumada nas cartas, e roteiros; ao que satisfez com taes palavras:
«No tempo, que Philippe II entrou com violencia em Portugal, se retirou muita gente, por não vêr o seu reino recuperado das mãos dos mouros pelos nossos ascendentes, sem ajuda dos visinhos, sujeito a principe estranho. Muito tempo andei retirado, discorrendo pelo interior da Africa, passei á Palestina, e outras terras, tendo tantos trabalhos por muito suaves, na consideração, de não vêr com os meus olhos o quanto padeciam os meus naturaes; e passados alguns annos, passando á Europa, cahi nas suas mãos; e entregando-me a certos homens, me levaram a uma embarcação na bahia de Cadix, que promptamente se fez á vela. Tinha o cabo ordem particular para que em certa altura me lançassem ao mar, sem que me ouvisse, nem me deixasse fallar; e notando elle as minhas acções, e innocencia, suspendeu a execução; até que na altura de Cabo Verde, me intimou a ordem com tanto pezar, que bem entendi o desejo que tinha de me favorecer. Preparou-se uma lancha, o melhor que se pôde, e n'ella se pôz mantimento para tres dias. Entrou logo a animar-me, exhortando-me a que confiasse em Deus, que me poderia livrar do perigo, a que me haviam de expôr: e me mandaram baixar á lancha, o que não quiz executar, sem me confessar, e me preparar espiritualmente, para entregar a alma a Deus; que tudo se me concedeu; e tanto que baixei, cortaram o cabo, e me entregaram á disposição das ondas. Não perdi o animo, antes constante soffri este golpe, esperando, que Deus olhasse para a minha causa; e nadando a lancha livremente, na manhã seguinte de 4 de outubro, cheguei por acaso a esta ilha, em que habito sem que no discurso de tantos annos visse alguma creatura racional. Penetrei o interior, encontrando a piedade nos brutos, que não experimentei nos homens; e descobri esta concavidade, que a natureza devia ter obrado para meu abrigo. Aqui me recolhi, aqui tenho passado tantos annos, sustentando-me com datiles, e outras frutas. Vivo, e não sei para o que vivo; Deus sabe o para que.»
«O testemunho do narrador, confirmado por Manoel Antunes e João de Arruda, assevera-me que se alguma vez houve D. Sebastião era aquelle. Muito instaram os nautas que se deixasse levar a Portugal; «mas elle--acrescenta o mestre do patacho Nossa Senhora da Candelaria--encarecidamente nos pediu com as lagrimas nos olhos, que o não precisassemos a tal jornada, pois não chegára ainda o tempo de passar a Portugal; que pelo amor que nos tinha, o lançassemos, terra firme, em qualquer parte da Africa; e que debaixo da palavra que lhe haviamos de dar como portuguezes partiria comnosco; o que lhe juramos. Perguntamos-lhe se tinha alguma cousa na sua cova, que embarcasse; e respondeu, que desde que n'ella entrára não cuidára mais que viver para Deus; e que todos os annos lavrava por suas mãos uma tunica de folhas de palma, para cobrir honestamente o corpo; na cova não tinha mais que uma cruz, que por suas mãos fizera de madeira; e que essa deixassem, para que n'aquella terra ficasse o signal da nossa redempção; e quando ella se povoasse nos tempos futuros se acharia tambem a noticia do seu habitador. Embarcou-se comnosco, beijando a terra, com muitas lagrimas; e fazendo-nos á vela, esteve em nossa companhia dous dias e meio, em que nos contava monstruosidades d'aquella ilha; e satisfazendo ao seu pedimento o lançamos em terra duas leguas distante de Arguim, expondo-lhe os perigos a que se expunha, sem que o podessemos persuadir a suspender o desembarque em terra de barbaros; ao que respondia, que Deus que o conservára até aquelle tempo, o livraria de todos os perigos.
«Despediu-se de nós com tantas lagrimas, e gosto, que bem mostrava as saudades, que de nós levava, e o quanto se alegrava de passar áquella terra. Abraçou-nos a todos, e saltando em terra, a beijou, e levantando as mãos agradeceu a Deus as mercês que lhe fizera, e esperava receber da sua piedosa mão; e penetrando aquella costa inculta, nos deixou sentidos pela falta da sua companhia. Jámais podemos alcançar, o sabermos d'elle, a sua patria, e nome; divertindo a resposta politicamente com tanta gravidade, que nos não dava confiança, para instarmos; e sómente ao despedir me disse, que a seu tempo o saberiam os nossos descendentes; e dizendo-lhe eu nos consolasse ao menos declarando o tempo, nos disse: que Deus o sabia.
«Varios discursos fizemos sobre este homem, conservado por tantos annos n'aquella ilha, e agora caminhando por taes desertos; e nos persuadimos ser cousa maior. Deus o leve, e traga a salvamento.»
«Confronte agora v. as datas das sentenças dos tres pontifices, e deprehenda que D. Sebastião, tendo corrido a Palestina e varias terras como elle disse aos marinheiros, muito é de crêr que estivesse em Roma nas tres épocas assignaladas na sentença.
«Quanto á circumstancia de estar então o rei bastante avançado na idade--pois tinha 137 annos--isso é controversia que pertence á alta philosophia e não ao calendario decidir. São os porquês de Deus, dos quaes, sobre o mesmo assumpto, escreveu o doutissimo padre Antonio Vieira:
«Demais que os porquês de Deus são incomprehensiveis, e das suas razões não póde o entendimento humano dar razão; quanto mais, que Deus Nosso Senhor sempre faz as suas cousas grandes, e com grandes milagres. Bem podia Deus dar no tempo do Anti-Christo padres, que a este prégassem, e com tudo guarda ha tantos annos a Enoch e Elias: outras paridades podéra trazer se a brevidade as permittira.
«... Ou este rei morreu, ou não! Se morreu, aonde? Na batalha, ou fóra d'ella? Se fóra d'ella, quem o testemunhou? Se morreu na batalha, como não acharam os mouros o despojo, que tanto desejavam, e procuravam? Se morreu no rio, como veio a sua espada? Como mandou o cardeal D. Henrique aos que se fingiram reis inquirir e perguntar se eram o verdadeiro rei? Se lhe a elle constára a sua morte, nunca fizera tal inquirição; e a quem melhor podia constar, senão a elle? E bem se viu, que lhe não fez exequias, nem officios, sendo um ministro da igreja, a quem verdadeiramente tocava como rei, como tio, como prelado e por obrigação. Mais: se morreu, como esteve depois em Veneza, e Napoles, preso e desprezado, o que consta evidentissimamente, o qual successo refere Lucio Floro nos seus Annaes, e D. João de Castro, que foi testemunha de vista, o escreveu; e todas as circumstancias d'isso, e os prodigios, que então succederam o confirmam, os quaes no quarto fundamento d'este discurso mostraremos? Mais: que o snr. rei D. João IV o testificou e contou, o que é uma mostra de evidencia certa, e outras muitas, que é trabalhoso o referil-as por papel.»
«Responda-lhe, se póde.
«Muito venerador
«Bibliophilo.»
Não tenho que responder. S. s.a cuidará que eu sou menos sebastianista que a sua pessoa?
Já lhe disse que escolha uma das obras citadas, e... sabe que mais? mande-as buscar ambas, que as merece.
Tantas vezes o noticiarista repete que eu sou assignante do seu papel, que parece estar-me convidando a declarar a razão por que assignei.
Eu lh'a digo ao noticiarista. Foi para me regalar com as inepcias do folhetinista.
Quer-me parecer que os dous são um e mesmissimo tolo (com licença: não diga que sou incivil).
Se os dous não são homogeneos, então tenho centauro pela frente. Em cima, no noticiario, está a porção humana do aborto; em baixo, no folhetim, está (com a devida cortezia) a porção bestial do mesmo centauro.
Mas ha lanços em que o centauro se cabriola de feitio que a metade debaixo esperneia em cima; e a gente, a meia volta, não sabe já onde está o homem, nem onde está (com a divida venia) a bêsta.
O noticiarista, que me dizem chamar-se Silva Pinto, consinta que eu, por conveniencias da composição e da variedade da fórma, lhe não chame sempre centauro e tolo. Obriga-me a pedir-lhe licença todas as vezes em obsequio á urbanidade. O melhor é chamar-lhe, como variante, Silva Pinto.
O snr. Silva Pinto começou no n.º 16 da Actualidade a traduzir romances de Balzac.
Ai da nomeada do eminente explorador da alma, se Balzac podesse espelhar-se na fusca photographia que lhe tirou este encarvoador de paredes caiadas!
Eu não me despendo em considerações banaes acerca das difficuldades que empecem trasladar a portuguez os livros de Balzac.
Quem entende as galas dos classicos francezes, e as encontra condensadas no author dos Contes drolatiques, ainda que lhe sóbre igual saber da linguagem portugueza, ha de vêr-se em apuros para moldurar em estylo vernaculo as concisões, os idiotismos, a energia, o atticismo de Balzac.
Quem se afoutaria aos espinhos da empreitada? Um sujeito ignorantissimo de ambos os idiomas: o snr. Silva Pinto.
E, sem mais delongas, vou provar-lh'o. O leitor faça-me o obsequio de se prover do n.º 16 da Actualidade, e abrir isso onde começa o martyrio de Balzac. Não me demoro a mostrar-lhe que tudo ahi tresanda bafio francez, sem um torneio de phrase portugueza, sem um resalto que denote primor, ou sequer um dizer que não venha gafado de construcção gallicista. Isso é o menos. Vamos ás tolices mais lerdas:
Balzac, descrevendo um sujeito, a quem os seus amigos chamavam tempo-brusco, dá a razão do epitheto n'estes termos:
Il ne se rencontre en effet chez lui ni lumière trop vive, ni obscurité complete.
E vai agora o snr. Silva Pinto, parvoejando, traduz:
Effectivamente, estão banidas por elle de sua casa tanto a luz demasiado viva como a escuridão completa.
Viram? chez lui--de sua casa. Incrivel!
Balzac, interpretado por um portuguez medianamente versado na sua lingua, quiz dizer:
Não ha que esperar d'este homem grandes luzes nem grandes trevas.
Mas... a casa do homem! Quando quiz Balzac saber se o sujeito tinha luz ou estava ás escuras em casa? Quem estava em escuridão completa sabemos nós.
Adiante.
Balzac descreve uma senhora rodeada de homens desvanecidos, gentis, espirituosos, de notavel fama ou nome illustre, de baixa e alta condição, e acrescenta:
Auprès d'elle tout a blanchi.
O snr. Silva interpreta assim a phrase:
Tudo isto via embranquecer á beira d'ella os proprios cabellos.
Quer dizer: áquelles homens, quando conversavam com aquella senhora, embranqueciam-se-lhes os proprios cabellos.
Esta sandice faz-me compaixão. Se vejo outra assim, emigro.
Balzac queria dizer: todos estes homens de prestigio, de galhardia, de renome, aos olhos d'ella, tout a blanchi, «eram como se fossem velhos». Não lhe inquietavam o coração, não lhe perturbavam a serena indifferença, etc.
Adiante.
Referindo-se á insensibilidade d'esta dama, acrescenta Balzac: Certaines femmes coquettes sont capables de suivre ce plan la. O author quer dizer: Certas mulheres galanteadoras tem artes de dissimularem os mesmos geitos; mas o snr. Pinto, subtrahindo o coquettes que dá o relevo ao confronto, diz espalmadamente:
Ha mulheres capazes de seguir... aquelle plano.
Chatissimo!
Balzac diz que Eugène de Rastignac... avait plus d'une fois regardé la marquise de manière à l'embarrasser.
Traducção do centauro:
Olhava de quando em quando a marqueza de modo capaz de embaraçal-a.
Ha aqui um fartum de rapaz de escola, que faz engulho. Como é que os olhos embaraçam a dama? Com os rudimentos da lingua, um traductor menos soez diria:
Fitou-a algumas vezes de modo que a inquietou, ou enleou, ou perturbou. Abstenho-me de extrahir dos diccionaristas as indecencias subentendidas na phrase embaraçal-a.
Adiante.
Balzac diz que o personagem etait commodément assis, et avait les pieds plus souvent sur ses chenets que dans sa chancelière.
O tal Pinto estraga d'esta arte:
Estava commodamente sentado e aquecia mais frequentemente os pés no brazeiro do que no traste forrado de pelles, destinado para tal fim.
No traste forrado de pelles!
Chancelière,--uma palavra diluida em nove!
Podia elle, avisinhando-se da indole da lingua, traduzir capacho, ou ceirão de félpo, ou guarda-pés, ou pelliça, por analogia com os mantos forrados de pelles; mas... traste! Salvo seja!
E traduzir chenets para brazeiro!
Este brazeiro deu-lhe provisão para tolejar á larga, e afogar no tinteiro as palavras que não percebeu.
Logo em seguida, escreve Balzac:
Oh! avoir les pieds sur la barre polie qui reunit les deux griffons d'un garde-cendre, etc.
Querem vêr o que é uma traducção sovina?
Oh! conservar os pés junto ao brazeiro... E acabou-se.
Áquelles griphos embucharam-no ao bom do Pinto! Passou por aquillo como o leitor e eu pelas legendas arabes da sé velha de Coimbra. Com a sua crystallina ignorancia, privou o leitor de entender o suave sybaritismo do personagem que, refestellado na poltrona, recostava os pés no varandim lustroso que entre-une os dous griphos do cinzeiro. Percebeu elle que os fogões tem um receptaculo, que recebe a cinza, ao través de uma grelha, e que os ha ladeados de figuras que formam entre si o apoio dos pés? Não percebeu nada.
Senhores leitores do Balzac, segundo a Actualidade:
O homem que nos vai apresentar o author da Comedia humana, vestido de farrapos bordalengos, é esse que ahi fica... ás moscas, até ao numero seguinte.
*
* *
Agora, duas palavras graves.
O snr. Theophilo Braga mandou acorrentar este house-dog á porta da Actualidade. Fez mal. Eu tinha-me recolhido mansamente ao silencioso espanto das arrancadas que os cafres faziam no campo arroteado pelos Castilhos, Garretts, Herculanos, e outros somenos lidadores d'essa ala que ahi está exposta ás injurias de tanto biltre. Era meu proposito deixal-os cavar a sepultura d'elles com o seu proprio escoucear phrenetico.
Logo, porém, que o rafeiro mais refilado da matilha me latiu á sombra, quando eu nem sequer o estremava dos anonymos que desprezo, sacudil-o-hei á cara dos que o açulam, e fal-o-hei portador das minhas caricias aos que o alimentam, em conformidade com o proverbio: An hungry dog will eat dirty pudding.
Um é o arranjador dos Musicos e de outras maravalhas.
Outro é Theophilo que tambem é Joaquim.
E tambem é Fernandes.
Expungiu o nome e o appellido, logo que se aforou em letras.
Joaquim Fernandes era a parte chata do sujeito.
Desfez-se d'isto, poz-se ás cavalleiras do genio, e apregoou-se Theophilo Braga[8].
Aviso á posteridade:
Elle era Joaquim!
A fatalidade dera 2 a Portugal, no mesmo seculo.
Gemeos, homogeneos, homonymicos, productos de gravidez longa, parto feito a urros, ferozes no nascedouro, ringindo com dentes anavalhados, ao tempo que a lisonja os lambia, para os ageitar, como a ursa faz aos seus cachorros.
E que cachorros!
*
* *
Nem os sepulcros respeitam.
Remetteram contra um, simultaneamente, os 2 Joaquins.
A sepultura era de gigante que o leitor, se não o viu, ainda o vê na projecção da sua imagem pelas paginas do livro amado.
Chamára-se, n'esta vida, Almeida-Garrett;--e chama-se hoje a gloria imperecedoura de Portugal.
O Joaquim, que se expurgou de Fernandes, para escoucear o cadaver de Cesar, disse...
Mas, antes de reler-se o que elle disse, veja-se o que escreveu o editor de Helena, romance posthumo e incompleto do author de Fr. Luiz de Sousa:
«Acabava o anno de 1854; ás primeiras cerrações do outomno inclinára mortalmente a fronte o snr. visconde de Almeida-Garrett, sentindo no coração os aggravos da doença que, dentro em pouco e para sempre, havia de apagar-lhe a luz dos olhos.
«Cresceu o mal. Imminente o perigo, durante os poucos mezes em que a vida lhe fugia, quiz o nobre enfermo dizer o ultimo adeus ás queridas producções do seu elegante espirito. Era então que a voz quasi infantil da filha idolatrada lhe dizia os seus livros todos; foi então que, revendo o archivo dos seus papeis, elle rasgava os que não deviam sobreviver-lhe, guardando aquelles que, de mão propria, legava á posteridade. Era um sol no occaso, revendo-se na luz immensa com que alumiára a patria.
«Finda a leitura, prompto o legado, extinguiu-se aquella existencia esplendida, abraçada á cruz de Christo, abençoando a herdeira do seu nome, e embalada pelos cantos da sua propria harpa. Fim sublime! Sentiu no ultimo suspiro,--o seu credo, o seu génio e todo o seu coração.»
Agora, Joaquim Theophilo, interpretando com gaiata solercia as palavras de C. G., genro de Garrett e editor de Helena:
«Elle escreve alludindo á morte de Garrett: «Era um sol no occaso revendo-se na luz immensa com que alumiava a patria.» E em seguida: «extinguiu-se aquella existencia esplendida abraçada á cruz de Christo...»
E ajunta o pellitrapo das letras com brutalidade manhosa:
«É de crêr que não haja aqui intenção maliciosa, mas desperta insensivelmente o dito celebre de Rodrigo da Fonseca Magalhães.»
É impudor glosar essa sordicia que ahi fica. Ninguem se demora a observar um cão resêcco, pilharengo, derreado, chagoso, que lambe faminto a sangueira negra de um matadouro.
Até os ossos de Rodrigo da Fonseca lhe serviram á gargalhada!
Nunca o honrado estadista proferira o tal motejo que lhe assacaram, estando Garrett na agonia da morte.
Garrett morreu entre dous amigos e duas irmãs da caridade.
Eu perguntei a um dos intimos de Fonseca Magalhães, ao desembargador Northon, se o seu amigo proferira o gracejo tão celebrado.
--Não--respondeu elle--mal sabe a dôr que eu involuntariamente causei a Rodrigo, quando lhe repeti a proterva zombaria que lhe attribuiam.
*
* *
Agora, o outro Joaquim, o musicógrapho.
Escrevi em um livro estas linhas em fórma de carta a um amigo:
«Sabes tu o que eu queria roubar á gaveta de José Gomes Monteiro? As cartas de Almeida-Garrett, as confidencias d'aquelle immenso genio, que se expandiam na alma e intelligencia de José Gomes Monteiro. Estas seriam as paginas de ouro da biographia de ambos. Uma sei eu que existe em que Almeida-Garrett, em perigo de vida ou previsão de morte proxima, encarrega o seu amigo de defender-lhe a honra e a fama assim que a pedra sepulchral lhe vedar o direito da defeza. Que sublime legado! que legitima e jubilosa vaidade para o coração honrado e generoso de José Gomes Monteiro![9]»
E vai agora, o dos Musicos, péga de Garrett, adormecido, havia 19 annos, no sagrado somno dos mortos santificados por saudade, talento e veneração, e enxovalha-o d'esta arte:
«Sim, senhor, basta isto para nos pintar o janota de 55 annos, que, para brilhar como um vieux vert aos olhos das petites maítresses de ha 30 annos, não teve vergonha de pintar as suas barbas com elixires, dando com a sua vida airada a confirmação de que o genio immenso precisa da bohème para a sua inspiração, etc.[10]».
Alma e linguagem travam-se aqui de mão, e medem a sciencia e a educação do sujeito. Este snr. Joaquim usa gravata, e não me consta que passasse a infancia gandaiando nas escadas dos Congregados. Foi educado na Allemanha, por não caber (diz elle) nos focos de immundicie physica, moral e intellectual de dous ou tres collegios do Porto onde o haviam mettido[11]. Já vêem que o homem é limpo. Depois, veio á patria para se formar em Coimbra; e, como aquillo de Coimbra lhe cheirasse aos collegios do Porto, foi-se embora, e abriu, por sua conta, universidade de frandulagens no Porto, com succursaes em Allemanha, França, etc.
Não só é conhecido mas até soffregamente lido em Paris.
Elle mesmo nos conta esta cousa no livro onde estou esgaravatando:
«Voltamos serenamente aos nossos trabalhos sobre a Archeologia artistica para darmos a nova edição critica do Catalogo da livraria d'el-rei D. João IV que, como sabemos pelo nosso sabio amigo Mr. Ferdinand Denis, é esperada com impaciencia em Paris.»
Viram? com impaciencia.
Era em 1872, quando ainda o coração e o cerebro da França vibravam nas angustias do opprobrio nacional, da luta fratricida, da devastação, do petroleo, da ingente miseria das viuvas e dos orphãos. Pois, em meio de tanto horror, a unica esperança que, a intervallos, dava palpitações de gaudio a Paris era a impaciencia das turbas, com os olhos postos no occidente, á espera do livro do nosso, tão nosso, Joaquim! Cada vez que chegava á capital da França a mala de Portugal, as multidões acotovelavam-se frementes á porta do Mr. Ferdinand Denis, amigo do sobredito, e, ullulando insoffridas, pediam o Catalogo. O sabio francez linimentava com promessas o phrenesi da academia e dos institutos; as massas debandavam; e depois, recolhido ao seu gabinete, Mr. Denis pedia novamente o Catalogo ao lusitano Joaquim, pintando-lhe com termos não encarecidos a impaciencia dos seus.
Aqui está quem é o homem lá fora, e cá dentro.
Elle embirra com a maioria do publico portuguez; e justifica a birra n'estes termos:
«Porque lhe antepomos um ideal que elle não quer ter[12].»
Então? fazem favor de aceitar o ideal que lhe antepõe o snr. Joaquim? Elle não sabe a significação do verbo ante-pôr; mas imagine-se que quer dizer o que a palavra não diz; presuma-se que nos offerece um ideal, por um preço razoavel. Que duvida temos em haver ás mãos isso que o rapaz nos trouxe de Hamburgo, em vez de nos trazer dous costaes de queijos? Ha de haver muito quem antes quizesse, em vez do ideal anteposto, uma idéa de servir; mas, se Joaquim dá ideaes, peguem n'elles, antes que o homem os exporte, como cá fazem aos bois gordos que os nossos magarefes não aceitam pela taxa de Londres, posto que lh'os anteponham.
É o diabo este homem! Má mez p'ra elle!
Lá que o rapazola verbere os escriptores vivos que lhe não aceitam o ideal, é bem feito. De Mendes Leal, por exemplo, diz que é uma antigualha que só apparece nos leilões dos burguezes de ha 40 annos. De Castilho diz que lhe riscára o nome, depois que o outro Joaquim lhe applicou o processo. (Ai d'aquelles a quem o outro applica processos! Eheu!) De Herculano diz: «está decrepito». Todos estes e outros de menos porte são os relapsos do ideal de Joaquim; mas Garrett e Rebello da Silva? Um era já morto; o outro fallecia quando o enxovedo alvorejava n'este novo dia da sciencia patria. É crueza injurial-os, posto que Joaquim Theophilo Fernandes lhes haja applicado o processo.
Este Fernandes já processou o Herculano, e disse: «O snr. Alexandre Herculano nunca teve vocação litteraria[13].» E o Eurico? E a Abobada? E o Monge de Cistér? E o Bobo? e a Historia de Portugal? e a da Inquisição! e a Harpa do crente? Cuida o leitor que é mister vocação litteraria para escrever estas cousas? Não, senhor. Estes livros só os escreve quem a não tem. O snr. Herculano, se tivesse vocação litteraria, fazia umas botas.
Parte d'aquellas obras diz Fernandes que é glosa da Notre Dame de Victor Hugo.
Eurico é a variante do typo de Claudio Frollo;
O Monge de Cistér é variante da paixão de Esmeralda e de Phebus;
O Bobo é o desenvolvimento de Pierre Gringoire;
A Historia de Portugal é apenas a historia dos concelhos precedida da biographia dos reis.
Depois, escalpella-lhe a linguagem, e diz que o seu estylo só se admitte nos rapazes de escóla[14].
O leitor está em dizer que este Joaquim parvoeira tão fóra dos termos concedidos aos sandeus que a policia não deve ser estranha ao escandalo.
Mas, n'este comenos, apparece um tal Adolpho Coelho, e diz:
É Theophilo Braga evidentemente um dos homens mais notaveis que Portugal tem produzido n'este seculo[15].
--E quem é Adolpho Coelho?--pergunta o leitor.
Vem Theophilo, e responde:
É o introductor da sciencia da philologia comparada em Portugal[16].
Todos estes Joaquins é que sabem lá uns dos outros.
Juntam-se ás vezes e perguntam entre si:
Theophilo a Coelho: Quem és tu, ó aquelle?--Resposta: Eu sou o introductor da philologia comparada em Portugal.
Coelho a Theophilo: E tu?--Resposta: Sou um dos homens mais notaveis que Portugal tem produzido n'este seculo.
Joaquim dos Musicos a Joaquim dos Mosárabes: Quem sou eu?--Resposta: És o musicógrapho, e o inventor dos imperativos sejai e estejai.
O 2.º ao 1.º Joaquim: E eu?--Tu applicas processos, e eu risco os nomes.
Ó pandegos, ó lombrigas que roeis o intestino recto da Minerva! Ó Joaquins! Eu vos arrenego!
[8]No Diccionario bibliographico do snr. I. Francisco da Silva, é conhecido por Joaquim Theophilo Fernandes Braga. (Veja Supplemento).
[9] Esboços de apreciações litterarias.
[10] O consummado germanista, por Joaquim do Vasconcellos, pag. 50.
[11] Obra cit., pag. 2.
[12] Obra cit., pag. 9.
[13] Bibliographia critica, pag. 106.
[14] Obra cit., pag. 200 e 201.
[15] Obra cit., pag. 215.
[16] Obra cit., pag. 253.