É o snr. Antonio Augusto Teixeira de Vasconcellos que m'as envia. Irei levar-lh'as. Conheço a valia que principia a hervecer. As côres alegres da esperança cobrem a podridão.
Estão como a dizer-nos que o viver é olhar para diante e para os vivos; e nada de mortos nem de saudades. Iremos levar-lhe as flôres do seu amigo da mocidade.
Antonio Augusto escreveu, a respeito de Ferreira Rangel, no seu Jornal da Noite, uma pagina assignaladamente formosa e triste. Alli ha coração, ha lagrimas, ha o que quer que seja que resgata o delicto da imprensa, silenciosa, na morte de um valoroso obreiro da liberdade, e modesto cultor das letras. E, ao proposito de letras, acrescentarei que Ferreira Rangel, nos derradeiros annos da vida, tinha uns cem volumes de obras portuguezas mais de sua feição; e, quando expirou, esses cem volumes estavam empenhados para o custeio dos ultimos caldos.
Indemnise-se a indigencia d'este homem de bem com a riqueza do alto louvor que lhe apregôa um brilhante espirito a quem não se escondem as desventuras alheias, nem esmorece o brado a favor dos desvalidos.
Estas são as palavras pungitivas e eloquentes do grande escriptor:
«Não succedeu porém outro tanto com o artigo intitulado Ferreira Rangel. Ahi assaltou-nos a saudade do homem, a recordação de obsequios recebidos, a magoa da sua desventura, e não podémos, nem quizemos conter as lagrimas. Se é vergonha chorar, diga-se que é a mais viciosa vergonha inventada por homens.
«Conhecemos aquelle Francisco Ferreira Ribeiro Pinto Rangel em 1834. Ainda morava a Santo Antonio do Penedo em uma especie de ilha sem mar entre o convento de Santa Clara e o palacio dos Vieiras de Mello, então habitado pelo visconde de S. Gil de Perre, depois marquez de Terena, e agora pelo snr. visconde de Azevedo. A supposta ilha era formada, se a memoria nos não engana, pela capella de Santo Antonio e pela casa do chamado escrivão fidalgo cujo brazão recentemente collocado alvejava na frontaria.
«Ferreira Rangel tinha servido em um dos batalhões do Porto durante o cerco, e era liberal enthusiasta. Ainda trajava o uniforme militar, e apparecia nos theatros, nos passeios e em todas as reuniões. Não lhe chamavam janota porque a palavra estava por cunhar na casa da moeda da vernaculidade. Os seus principaes companheiros eram Nicolau Coquet Pinto de Queiroz que foi depois empregado da camara municipal, e talvez já não viva, e Antonio Joaquim Carneiro Homem que foi acabar a vida em Moçambique, provido no mais reles emprego da provincia em recompensa de varias feridas recebidas no cerco e de ter gasto na defeza da liberdade toda a sua fazenda. O ministro que o despachou, envergonhava-se de empregar tão mesquinhamente homem de taes serviços. Era o snr. Mendes Leal. Mas não havia outro emprego, e o pobre voluntario liberal não podia esperar. Tinha mulher e filhos, e já não tinha pão nem calçado.
«D'esses tres homens o que tinha imaginação mais viva, enthusiasmo vigoroso, e propensões litterarias era Ferreira Rangel. O seu amor á liberdade não tinha limites, e como era amor sincero, muitas vezes o impelliu a expôr a vida para salvar da furia brutal dos exaltados os proprios adversarios contra quem lutára havia pouco nas linhas do Porto. Alguns cavalheiros das provincias do norte lhe deveram n'esse tempo assignalados serviços. A generosidade do coração era n'elle igual á coragem e valentia.
«Uma noite desciamos a rua do Bomjardim onde moravamos, e ao dobrar a esquina da rua do Bolhão vimo-nos cercados por quatro scelerados que tomando-nos, apesar de imberbe, por algum temeroso capitão das hostes realistas, iam demonstrar-nos com argumentos de carvalho-cerquinho a excellencia do governo liberal, e induzir-nos a crêr que os caceteiros azues e brancos não ficavam a dever nada aos seus predecessores azues e encarnados.
«Subia a rua Ferreira Rangel e chegava ao sitio do combate; quando o rapaz de 18 annos principiava a rebater, como podia, a crua dureza d'aquelles argumentos. O mesmo foi advertir no caso que saltar ao meio do grupo, deitar por terra um dos aggressores, ferido de tremenda bofetada, e obrigar os outros a fugirem, envergonhados mas resmungando.
«Conservamos sempre relações com este excellente homem. Depois de 1839 nas ferias da universidade, iamos sempre visital-o quando passavamos no Porto. Desde 1850 nunca mais tivemos noticias d'elle. Quando agora lêmos no livro do snr. Camillo Castello Branco a commemoração da morte de Ferreira Rangel, desvalido, ignorado, e conduzido na tumba dos pobres entre quatro tochas desde a rua Chã até ao Prado, sentimos não ter estado no Porto n'esse dia para acompanhar á derradeira morada aquelle homem desditoso.
Está explicada a sensação que nos causou o artigo Ferreira Rangel. Permitta o snr. Camillo Castello Branco que entre o ruido surdo da enxada do coveiro alizando o comoro de terra sobre as taboas chuviscadas do caixão, e o silencio eterno do mundo, se levante a nossa voz a prestar á memoria do morto a homenagem da gratidão que lhe deviamos.
«D'esta vez a alçada da imprensa chegará até ao esquife do defunto, e derramará sobre elle sinceras lagrimas de saudade e de reconhecimento.»
No estimavel livro das Cartas familiares de D. Francisco Manoel de Mello, ha uma que estimulava fortemente a minha curiosidade, sempre que a lia. É a LXXIV da centuria segunda, escripta a um amigo que passava á provincia da Beira. A carta é breve, e diz assim:
«Que vos hei de dizer? senão que vos vades embora, que estejaes pouco, que vos lembreis de mim. Não sei certo se se diz mais nas partidas: que eu, de puro estar, já não sei se como a gente se despede[17]. Só vos peço que, pois ides para terra de muitos castanheiros, me não caseis lá com alguma Maria Castanha; cujo tempo parece que tornou agora, porque aqui entre nós o fez assim.... Mas que muito, se traz o diabo aos pés, que o fizesse resvalar e cahir? salvo na conta. Ide com Deus, senhor meu, e tende em tudo tão bom successo, que vos pareça a Beira mal, e volteis logo. Nosso Senhor, etc. Torre em 15 de maio 1646.»
As palavras grifadas eram o meu enleio. Toda a minha scisma laborava em saber o nome rebuçado n'aquellas reticencias, a razão por que o sujeito trazia o diabo aos pés, e que casta de pessoa era aquella Castanha casada com o anonymo, forçosamente individuo de alta prosapia.
As pessoas de siso, que leram esta carta enigmatica, de certo não moêram sua paciencia a farejar-lhe o escandalo; eu, porém, que não posso dormir, e acordo os mortos para conversarem commigo á hora em que os vivos dormem, necessito saber por inteiro o viver das pessoas com quem estou relacionado.
E, por tanto, á custa de muito averiguar, e bisbilhotar com os contemporaneos do illustre encarcerado da Torre Velha, logrei decifrar-lhe a carta.
As reticencias encobrem o nome de Francisco Botelho, primeiro conde de S. Miguel. Por ser de S. Miguel, é que D. Francisco lhe põe o diabo aos pés.
Temos o nome do mysterioso personagem.
Saibamos agora quem era a Castanha.
Era Ignez de Almeida, filha de Manoel Castanha, escrivão em Lisboa.
Ignez era formosa e honesta.
O conde de S. Miguel, já viuvo de D. Isabel de Mendonça, filha do segundo conde de Penaguião, apaixonou-se por Ignez. Frustrados na esquivança da moça todos os artificios do ouro com o prestigio da pessoa, o conde accedeu á condição que ella estipulou: o casamento.
Divulgou-se em Lisboa o disparatado consorcio, que toda a fidalguia censurou, e D. Francisco Manoel metteu a riso, dando o noivo como resvalado e cahido por cambapé que lhe fez o diabo.
No entanto, o escrivão Castanha rejubilava por se vêr tão egregiamente aparentado.
Volvidos dous annos, apaixona-se o conde por D. Isabel Cecilia de Tavora, filha herdeira de Alvaro Pires de Tavora.
Este fidalgo com os da sua parentella, e com os estranhos, escandalisam-se do proceder deshonrado do marido da Castanha, o qual ousa requestar uma donzella de primeira linhagem.
O conde defende-se, publicando que não é legitimamente casado com Ignez Castanha.
E, feita a infame declaração, separa-se d'ella e do filhinho, que se chamava Nuno.
Ignez, ferida no coração e na honra, protesta que é legitima esposa do conde de S. Miguel.
Instaura-se demanda.
O conde confessa então que, na verdade, fizera um simulacro de casamento, mediante um padre fingido, que era seu criado, com corôa rapada, e vestido sacerdotalmente.
A justiça aceitou a confissão do conde, confirmada pelo parocho fingido e pelas testemunhas da tromoia.
Sentenciada a nullidade do casamento, cuida o leitor que o conde foi obrigado a revalidal-o, ou a seguir o seu criado e as testemunhas para o degredo?
Não, leitor pio.
A fidalguia restituiu ao seu parente a dignidade abalada pelo supposto consorcio com a Castanha.
A lei desquitou-o da pobre senhora, cujo delicto estava santificado por ignorar que no mundo havia tamanho infame.
Porém, como ella tivesse um filho, a sentença mandou que esse menino, D. Nuno Alvares Botelho, fosse considerado legitimo filho do conde de S. Miguel.
Ignez lá se foi amparar nos braços de seu pai, o plebeu, a quem Deus inspiraria ternuras que despontassem os espinhos da sua corôa de condessa ridiculisada pela sociedade.
Desembaraçado e readmittido á estima dos Tavoras, o conde casou com a tal Isabel Cecilia, de quem houve um filho que foi segundo conde de S. Miguel.
Quanto ao filho de Ignez, sabemos que viveu com pouco luzimento e escassos haveres. Casou com D. Luiza de Moura, filha de Antonio Castanheira de Moura. Teve dous filhos e cinco filhas. Um dos rapazes chegou a general na India. O outro casou com uma filha do capitão-mór de Goes, Antonio Barreto Perdigão. Uma filha casou, e das outras quatro ignoro o destino.
Esta linha, derivada da fraude e do vicio mascarado com a batina e sobrepeliz, desappareceu: era justo. Na outra, que é a legitima e consagrada pelo padre authentico, é que está o setimo conde de S. Miguel, que--ainda bem!--não tem que vêr com a Castanha, zombeteada por D. Francisco Manoel.
Ora eu presumo que este fidalgo, que escreveu tão piedosas cousas a respeito de Santo Agostinho, quando soubesse que a supposta condessa de S. Miguel fôra apenas uma inconsciente concubina do seu torpe seductor, espantar-se-hia de se vêr a si entre ferros, e ao outro nos braços de D. Isabel de Tavora!
[17] Ia no seu 4.º anno de prisão D. Francisco Manoel.
Brindo o leitor com o capitulo primeiro d'um livro que ha de chamar-se os salões.
Firma-o--escuso apresental-o--um nome que, ha vinte annos, alvoreceu por entre duas formosissimas auroras: a das letras amenas, e a dos triumphos forenses.
O visconde de Ouguella esteve já a meio caminho da montanha fragosa por onde se trepa a outra ordem de mais estrondosa celebridade. Por um triz que o não enxertam na estirpe tyrannicida dos Harmodios e Catões.
O governo, o delegado, a côrte e o Moraes do Mosquito principiavam a desbastar-lhe o marmore para o nicho no templo da Memoria, quando vem o jury, e nos diz que o visconde de Ouguella nem queria matar el-rei nosso senhor, nem vender-nos a Castella, nem frigir em petroleo as nossas carnes, mais ou menos pingues.
Esta decisão abriu um sorriso de socegado contentamento desde o poço do Borratem até á rua da Betêsga, não ha duvida; mas o visconde achou-se de repente reduzido sómente á celebridade que tinha: a do talento.
Um d'estes dias fui vêl-o a Lisboa. Achei-o na sua livraria, entre dous bustos de bronze que projectavam sobre elle umas sombras verde-negras, que lhe davam toques de luz sinistra. Os bustos figuraram-se-me de Ravaillac e Fieschi--os regicidas.
Passados alguns minutos, afiz-me áquella meia luz crepuscular descórada pelos bronzes, e o meu coração e o meu figado aquietaram-se. Os bustos representavam a primor os dous estadistas mais philodynastas que deu Portugal: o duque de Palmella e Rodrigo da Fonseca Magalhães. O visconde, que, ao principio, me pareceu, nos tufos hirtos e espessos do seu cabello, o que quer que fosse de Mirabeau, já me transluzia no semblante o sorriso amoravel com que alumia o caminho de sua alma aos que lá sabem ir pela lealdade do coração.
Relancei os olhos, ainda suspeitosos, á sua banca, e vi papeis escriptos recentemente. Com a liberdade de condiscipulo desde a escóla, inclinei-me sobre o manuscripto, e li no alto de uma folha de almasso: os salões. Depois li o capitulo, que era o primeiro; dobrei-o, metti-o na algibeira, resolvido a estampal-o entre as minhas insomnias, como um despertar alegre, lucido e côr de rosa, entre dous pesadelos.
Pour connaitre les hommes, pratiquer les femmes; pour connaitre les femmes, pratiquer encore les femmes: c'est la sagesse des nations folles.
La femme est le dernier mot du Créateur. Le grand maitre avait d'abord sculpté les mondes, puis le mastodonte, puis l'aigle, puis l'homme; il termina par la femme. Ce fut alors qu'il se reposa pour se contempler dans son oeuvre.
ARSÈNE HOUSSAYE.
O esboço é tudo.
A esculptura, a sciencia, a pintura, a litteratura e a propria vida começam pelo embryão.
Deus mesmo não cria de repente uma obra prima:--como todos os artistas, principia pelo esboço.
A propria luz tem os seus arreboes, annuncia o seu alvorecer, tem as suas auroras, prepara-nos as suas alvoradas, insinua-se pelos cambiantes anacarados dos tons pallidos e transparentes da madrugada, formula o fiat lux biblico, antes de se espargirem os seus opulentos e brilhantissimos raios por sobre as magnificencias do universo.
Começar pelo esboço--no presente livro--era consultar as sibyllas da cidade antiga, as pythonissas que enunciavam a palavra divina, escutar os oraculos dos templos de Delphos e de Epheso, ouvir as Egerias do porvir, antes de dar a lume o manuscripto de João Aleixo de Castro Pimentel e Figueiredo.
Assim fiz.
Conta-se d'um povo d'Asia, que promettera o diadema de rei ao primeiro que, em determinado dia, visse nascer o sol. Correram á praça publica os ambiciosos da purpura real, e em quanto todos filavam o oriente, houve um, dos mais avisados, que, voltando costas ao berço do luzeiro esplendido da terra, pregou os olhos nas arrendadas cupulas d'um elegante e sumptuoso edificio, que demorava ao occidente.
Foi este que alcançou a corôa. As primeiras frechas de ouro, arremessadas pelo astro supremo do dia, vieram cravar-se no topo das elevadas torres d'aquelle templo pagão.
O passado vencera, aqui, o futuro.
Sirva a lenda, n'este estylo e perfume oriental, para explicar o meu singelo proceder.
Quiz ouvir os murmurios das épocas, que passaram, e que vão perdidas na escura noite dos tempos. Desejei escutar o trabalho ruidoso dos seculos que vem, as promessas do futuro, os periodos que se desdobram, e desenrolam nos horisontes rasgados da nossa idade, pela voz authorisada e prophetica dos que riram, e dos que soffreram.
Foi por isso, que consultei a marqueza de ***, e a condessa de ***.
Uma é a religião austera do passado, cheia de nobilissimas tradições, personificação viva da côrte antiga, reflexo ainda esplendoroso da fidalga portugueza, na altivez das fórmas, na elegancia do dizer, na familiaridade estudada do trato, na urbanidade singela das maneiras, e no preito pago constantemente a tudo quanto é grande, nobre e generoso.
A outra, a condessa, senhora da mesma época, nascida, e educada no centro da mesma sociedade--permittam-me este desalinho de phrase--é, como a estatua da liberdade, erguida sobre um pedestal de marmore de Carrara ou de Paros, esquecendo a proposito os pulverulentos pergaminhos d'outras eras, e os emblemas heraldicos da sua nobillissima familia, para se lembrar sómente que é ella, esta excellente senhora, uma das mais illustres victimas das tremendas e formidaveis lutas de emancipação, por que combatemos e batalhamos ha um seculo.
Sentei-me a seu lado, e escutei-as alternadamente.
Uma fazia-me curvar de joelhos, respeitoso, e reverente, ao rememorar o passado. A outra robustecia, em mim, este preito, que eu presto diariamente á imagem sacrosanta da liberdade.
A distincção, a grandeza do porte, a inimitavel polidez, a admiravel cortezia, a elegancia incomparavel, e as fórmas obsequiosamente aristocraticas são as mesmas.
Mas a marqueza soffreu, e soffreu muito pelo antigo regimen.
A condessa habitou, em tristezas amargas, e com dôres excruciantes, as cadêas da côrte pela liberdade.
Uma é a vestal antiga, espiando, sentinella irreprehensivel, junto do fogo sagrado, se a scentelha divina vai apagar-se, e prompta a acudir-lhe, solicita, para que o facho se conserve acceso, e immaculado, na urna etrusca em que brilha e resplandece.
A outra é a musa da democracia--risonha, serena, e impassivel, quer no carcere, gemendo pela ousadia das suas crenças liberaes, quer a cavallo, com os cabellos desprendidos ao vento das batalhas, sofrega do ruido, e do pó e fumo dos combates, ao lado do homem, que o seu coração elegeu para esposo, e que foi, Achilles d'esta Iliada, um dos heroes nas epopêas da nossa liberdade.
E com o mesmo respeito, com a mesma attenção, e com a mesma homenagem li a estas duas illustres senhoras o manuscripto achado na gaveta do meu contador.
Eu respeito todas as crenças.
Onde ha uma alma, que se eleve nas aspirações grandiosas do futuro, onde ha um coração, que saiba palpitar, com enthusiasmo, na vasta arena de todas as religiões do sentimento--ha, ahi, de certo, uma individualidade marcada com o sello divino.
O Senhor, na omnipotencia dos seus impenetraveis designios, curvando-se, em toda a sua magestade, no centro do universo, escuta o ruido surdo, e imperceptivel para ouvidos humanos, da herva ignorada, e rasteira, que rasga a custo os seios da terra, e ouve a prece fervorosa, e ardente da alma, que, em effluvios d'amor, se desprende das vaidades do mundo, e sobe até ao seu throno de gloria.
Só a hypocrisia, e o scepticismo são vis.
Não condemnemos crenças, nem aspirações.
Tenho medo que o credo de hontem seja o anathema de ámanhã.
Apavora-me o receio de que o axioma de hoje, da actualidade, seja a mentira, e a blasphemia do futuro.
Depois de Platão, d'Aristoteles, de Socrates e de Christo, que sabemos nós mais do mundo moral?
Newton, Galileu, Harvey, Cuvier, Laplace, Spinosa, Kant, Proudhon e tantos outros, n'essa pleiade immensa de illustrações, que vão atravessando os seculos, e renegando symbolos e credos, que passaram, são, para mim, a demonstração irrespondivel d'este clamor da consciencia.
Basta.
Volto ao manuscripto.
No pendor d'uma das montanhas sobre que está edificada Lisboa, no ponto mais suave da encosta, levanta-se um palacio, cuja apparencia é modesta.
Ahi vive a marqueza.
Sobe-se uma escada de marmore á esquerda d'um pateo, que conserva todas as tradições arabes. No patamar superior rasga-se am corredor sombrio, e pouco alumiado, que conduz a uma saleta onde as elegancias modernas nada teem que vêr.
Este aposento não o adornou Gardet, nem o forraram os estofadores mais afamados dos nossos tempos. Foram os seculos, que o vestiram, que o alindaram, que lhe cobriram as paredes, e que lhe deram aquella austeridade de ornamentação, disposta alli por varias gerações. Ligam-se, e ajustam-se uns aos outros, em severas molduras d'ebano, os retratos dos avós d'esta illustre familia. Ao lado d'um camarista de Carlos III, de Hespanha, sorri, em vestuario de côrte, um cavalleiro de S. Thiago, filho segundo d'esta nobre estirpe. Em convivencia com um mimoso pagem do Escurial apruma-se, vigoroso e forte, um rico-homem de Castella, envolto no arrogante e opulento manto de grande de Hespanha. E as senhoras, oriundas de tão distinctos appellidos, adornadas com as telas e estofos preciosos de épocas, que já acabaram, parecem estremecer de jubilo, e anciarem pelo futuro d'aquelles tempos, que são hoje, para nós, o passado, e a cinza d'aquelles cadaveres.
Foi ahi, n'essa saleta, respirando aquelles perfumes do seculo preterito, que li á marqueza o manuscripto de que sou legatario por direito de conquista.
A marqueza, se eu não quizera chamar-lhe a tradição viva, a imagem da luz diffusa, que se vai immergindo no oceano das nossas tradições heraldicas, e dos brasões esculpidos nas abobadas dos paços de Cintra, seria, ainda assim, um reflexo da bondade divina.
Encostada a uma bengala, cujo castão era uma maravilha artistica de Benvenuto Cellini, envolta em vestes negras, que a acompanham desde a sua viuvez, sem lhe occultarem a altivez das fórmas, e a superioridade da mais elevada distincção, ouviu a marqueza, attenta, a leitura dos trabalhos do desembargador. Sorriu-se ao chegarmos á conclusão, e soltou apenas estas palavras, fitando os seus avós:
--Visconde, ouça, e aconselhe-se com as illustrações do seculo. Eu sou o passado. Bata á porta da actualidade.
Beijei-lhe a mão, que a marqueza me estendeu com a elegancia da sua primorosa educação, e sahi, curvando-me perante a grandeza d'aquelles nobres instinctos, e suavidade de fórmas, que vão perdidas no nosso seculo.
Ao levantar o reposteiro, onde o brasão de familia, bordado em lãs finissimas, brilha no centro dos panos, que rastejam, em vastas pregas franjadas, n'aquelle recinto, que é um salão de antepassados, um verdadeiro solar, vedado a olhos profanos--ouvi a voz branda, e cadenciada da marqueza, que me dizia de pé, em face do retrato de seu marido:
--Visconde, conte do marquez as historias que lhe narrei.
--Os desejos de v. exc.a são ordens para mim, minha senhora.
E sahi.
No fundo do passeio publico desdobram-se dous largos. Em um d'elles, por meio de casas mais ou menos mesquinhas, levanta-se um palacete no estylo moderno. Ha ahi uma sala, rica de adornos e de todo o conchego, que faz o confortavel da vida intima.
Vive ahi a condessa.
Pendem das paredes e cobrem as étagères varios retratos de familia.
Ha trabalhos de costura, e de crochet estendidos por sobre as mesas; ha, finalmente, todos estes pequenos nadas, que explicam os sentimentos intimos da existencia, e que se traduzem em recordações do lar domestico.
Não era o vestibulo, entre os romanos, a primeira adoração a Vesta?
A condessa envolta, tambem, nos seus crepes negros, viuva do homem, que ajudou a cravar, com o vigor, e robustez do seu pulso, o pendão da liberdade em Portugal--recebeu-me com a semceremonia aristocratica do seu elegantissimo trato.
Apesar dos annos decorridos, a despeito dos desgostos profundos, das lagrimas choradas no lugubre captiveiro, dos trabalhos inenarraveis soffridos em lutas titanicas--conserva a condessa os perfis e contornos da sua antiga formosura, tão puros, e tão correctos, que, se não é a Venus irrompendo do seio das ondas espumosas e crystallinas dos mares da Grecia, na deslumbrante belleza do Olympo pagão, tem, ainda assim, os vagos e recordaveis traços da austera Juno, quando presidia aos festins dos deuses.
Ouviu impassivel a leitura do manuscripto.
--Que me diz v. exc.a a este livro?
Havia um sorriso ironico e espirituoso brincando nos labios da condessa.
--Digo-lhe, que o publique. Mas escute: faltam-lhe ahi os lampejos de fé viva, a crença robusta na liberdade, que animava e esforçava os heroes do Porto. Venha, aqui, por vezes, ouvir, como lh'as tenho contado, as lendas d'essas lutas de gigantes. Perdôe muito, como eu tenho perdoado, aos homens que se esqueceram ou que erraram. Analíse e estude as variadas transicções, que nos trouxeram a estas sinistras épocas de descrença. Consulte o passado.
Abri, para sahir, a porta d'este magico e encantador gabinete na mesma perplexidade d'espirito com que entrára.
--Ouça, visconde--disse-me ainda esta illustre senhora, na phrase breve, e perceptivelmente imperiosa com que parece ordenar.--Não esqueça as historias que lhe tenho narrado. Dê-as como suas ou como escriptas pelo doutor João Aleixo--nem por isso lhe tomará elle contas na eternidade.
Curvei-me respeitoso, e sahi.
A condessa e a marqueza insistiam pela narração das anecdotas do seu tempo. Quanto ao mais, quanto á historia vasta, severa, incisiva, analytica, e verdadeira, como é ou deve ser, mandavam-me estudal-a nos livros, porque não podiam, não queriam ou não desejavam esclarecer-me.
Creio que o seculo XIX envolveu no sudario da agonia as idolatrias da idade media, assim como as lendas do Golgotha amortalharam, para todo o sempre, a mythologia pagã.
Não se repetem agora os clamores sinistros, que reboavam nas florestas da Thessalia, e se ouviam nas clareiras dos bosques sagrados da Grecia e de Roma: «Morreu o Deus Pan!»
Mas vai acabando a democracia com os preitos, que as cruzadas, as côrtes d'amor, os torneios, e as cavallarias feudaes prestavam á mulher, divinisando-a. Quer-me parecer que a ultima Egeria, Madame Rolland, expirou no cadafalso em face da estatua da liberdade. É mais uma realeza que se extingue com tantas outras.
Onde acabava o oraculo começava a crença. Escutei o futuro.
E conservei intacto, sem rasuras, nem entrelinhas, o manuscripto do desembargador.
VISCONDE DE OUGUELLA.
Sempre que encontrei este nome ligado á vida aventureira de D. Antonio, prior do Crato, me detive a scismar no honrado homem que se chamou assim.
Pedro de Alpoem era portuguez de rija tempera. Seguira o pequeno bando de D. Antonio, quando o duque de Bragança, D. João, primeiro de nome, transigiu com Philippe II, por preço que adiante se dirá. Acclamou-o em Santarem; fêl-o bemquisto da mocidade academica de Coimbra; seguiu-o na fuga, depois da derrota de Alcantara, até Vianna do Minho; e, d'ahi, como o infante se agasalhasse em seguro abrigo, voltou a Lisboa a negociar-lhe a emigração em navio estrangeiro. Colhido de sobresalto n'esta diligencia, foi posto a tormento. Confessou que viera a Lisboa a fim de arranjar a passagem do principe; não lhe arrancaram, porém, as torturas o segredo do escondrijo de D. Antonio. Ameaçaram-no com a decapitação. Pedro de Alpoem sob-poz o pescoço ao cutello do verdugo, e pereceu com o segredo do asylo do seu rei. Estremada probidade, que só por si nobilita o nome portuguez, aviltado pelo maximo da fidalguia bandeada com o usurpador!
Entristecia-me a mingoada noticia que os historiadores nos transmittiram de tão memoravel sujeito. E esse pouco foi dadiva de Herrera (Cinco libros de la historia de Portugal, liv. III), de Faria e Sousa (Europa portugueza, tom. III, part. 1, cap. IV), e do opusculo francez intitulado Briefve et sommaire description de la vie et mort de D. Antoine, premier du nom et dix-huitième roy de Portugal, impressa em Paris, no anno 1629.
Uma vez, folheando a Bibliotheca lusitana, vi o nome e appellido do leal amigo de D. Antonio.
Senti uma d'essas raras alegrias que só entendem os que andam a joeirar o lixo dos seculos por vêr se acham um certo diamante que a maior parte da gente não trocaria por missangas.
A noticia que Barbosa Machado me deu, rezava assim: Pedro de Alpoem Contador, natural de Coimbra, doutor em direito cesareo, collegial do collegio de S. Pedro, aonde foi admittido no 1.º de janeiro de 1578. Na universidade patria regentou a cadeira de Instituta, que levou por opposição a 18 de outubro de 1572, d'onde passou á do Código em 2 de janeiro de 1579. Foi um dos celebres defensores da successão da corôa portugueza a favor da senhora D. Catharina, como tambem do direito que tinha á mesma corôa o snr. D. Antonio, prior do Crato, por cuja causa morreu degolado. Escreveu: Carta ao duque de Bragança D. João, o primeiro de nome, quando Philippe Prudente entrou em Portugal. A data é do Seio de Abrahão a 20 de julho de 1581. Começa: «Obriga-me a escrever a v. exc.a cá d'est'outro mundo de verdades e desenganos.» Acaba: «Conforme a santa lei d'este reino ao qual Deus eternamente tem promettido conservar.» É larga, muito judiciosa, e consta de uma forte invectiva contra o cardeal D. Henrique, por dispôr que os castelhanos se senhoreassem de Portugal, e juntamente contra o mesmo duque de Bragança por seguir o cardeal. (Tom. III, pag. 553).
Alguns annos frustrei esforços em busca da carta manuscripta de Pedro de Alpoem, pois, com certeza, não corria impressa; até que, entre uns papeis pertencentes á rica livraria do jurisconsulto Pereira e Sousa, e havidos por compra em 1873, se me deparou a carta que Barbosa Machado inculcára.
O investigador equivocou-se attribuindo-a ao doutor Pedro de Alpoem. Se reparasse que ella é datada no Seio de Abrahão, deprehenderia logo que, em nome de Pedro de Alpoem, já degolado em 20 de julho de 1581, alguém escreveu aquella carta, como vinda d'além-mundo. E, até no começo da carta, as palavras: Obriga-me a escrever a v. exc.a cá d'est'outro mundo de verdades e desenganos, estão confirmando a ficção.
Posto que o prazer de possuir um inedito de Alpoem se me agorentasse á luz da boa critica, nem por isso desestimei o manuscripto, onde abundam especies historicas não sabidas, traços profundos da physionomia do avô de D. João IV, e alguns lanços ignorados da biographia da nobre victima da amizade e do patriotismo.
Persisti, assim mesmo, na indagação da linhagem de Pedro de Alpoem, esperançado em descobrir miudezas que realçassem as feições principaes, já de si bastante proeminentes a caracterisal-o. Pouco mais esquadrinhei, senão que foi filho de Antonio de Alpoem, e neto de Pedro de Alpoem, e de uma senhora de appellido Caldeira, filha de Affonso Domingos de Aveiro, instituidor da capella de Santo Ildefonso, na igreja de S. Thiago em Coimbra, da qual o justiçado amigo de D. Antonio era administrador[18]; e, como não deixasse descendencia, o morgadio passou a seus parentes, filhos de Isabel Caldeira, irmã de seu avô, casada com Estevão Barradas.
No fim do seculo XVIII, o possuidor do morgadio de Pedro de Alpoem era Lopo Cabral da Silveira, bisneto de D. Isabel Caldeira. Estas impertinencias genealogicas pouco montam na historia de um homem que se dispensava de avós illustres, bastando-lhe a proeza individual e sua de dar a cabeça ao algoz e legar o nome sem mancha ao coração do principe homisiado; mas seria hoje em dia brasão aos que procedessem d'esse egregio sangue.
D. Antonio captivou na desgraça amigos que lhe sacrificaram haveres, liberdade, honras e vida. Sobrelevam entre outros o conde de Vimioso, o bispo da Guarda, D. Diogo de Menezes,--que o duque d'Avila mandou enforcar em Cascaes, juntamente com Henrique Pereira, alcaide do castello--, Duarte de Lemos, senhor da Trofa, D. João de Azevedo, Antonio de Brito Pimentel, Diogo Botelho, D. Duarte de Castro, D. Manoel de Portugal, Manoel da Fonseca da Nobrega, e D. João de Castro, o visionario, que, morta a esperança no filho de Violante Gomes, resuscitou D. Sebastião na pessoa do calabrez Marco Tullio.
As historias antigas e tambem as modernamente escriptas pelos snrs. Rebello da Silva e Pinheiro Chagas não mencionam um amigo estrenuo do prior do Crato. Era Martim Lopes de Azevedo, 19.º senhor da casa de Azevedo, hoje representado pelo snr. visconde d'aquelle titulo, cavalheiro em quem se alliam as altas qualidades do coração com superiores dotes de provada intelligencia.
Da inflexivel dedicação de Martim Lopes de Azevedo se lembra o principe desterrado na Carta latina que escreveu ao papa Gregorio XIII, e outro sim no seu testamento impresso nas Provas da historia genealogica da casa real, tom. II, pag. 556.
Era, ao tempo, aquelle fidalgo senhor da villa de Souto de Riba-Homem, e outros senhorios e padroados de igrejas. Bandeou-se com o filho do infante D. Luiz, logo que o duque de Bragança offereceu a sua casa como valhacouto seguro aos embaixadores hespanhoes, a quem os partidarios do rei portuguez ameaçavam, depois da morte do cardeal-rei.
Perdidas as esperanças, Martim Lopes de Azevedo provou as angustias do carcere e desterro, até que, volvidos annos, conseguiu perdão de Philippe II, mediante o patrocinio de sua tia D. Leonor de Mascarenhas, que havia sido dama da imperatriz D. Isabel, mãi do rei que lhe perdoou. Todavia, o mais grosso de seus haveres em commendas e senhorios da corôa nunca mais voltou á casa de Azevedo. Todos os conjurados contra a usurpação, cedo ou tarde, se recobraram, e houveram generosas indemnisações dos reis brigantinos; não assim os descendentes de Martim Lopes, cujo representante, em 1874, dos bens de seus avoengos possue apenas o que a rapacissima vingança de Philippe II lhe deixou. Entre os netos de D. Arnaldo de Bayão e os do bastardo de Ignez Pires não tem havido no decurso de tres seculos humiliações de vassallos nem magnanimidade de reis.
Volvendo á suppositicia carta de Pedro de Alpoem, aceitemos de seu author, quem quer que fosse, o bosquejo do duque de Bragança, auxiliar, senão causa primaz, da escravidão de Portugal, da degradação da nobreza, da miseria do povo, do perdimento das colonias, e dos atrozes flagellos que se contaram pelos dias de sessenta annos.
Sirva este papel de vestibulo por onde depois entraremos ao archivo secreto da veniaga que maniatou o duque de Bragança aos calcanhares de Philippe II.
[18] N'esta capella ainda existe a sepultura com epitaphio dos ascendentes de Pedro de Alpoem, mandada construir por seu avô do mesmo nome em 1514.
Pag. 42, linha 3.ª:
Aquillo com que mais se accende o engenho.
Emende:
Aquillo «com que mais se accende o engenho».
FIM DO 3.º NUMERO