Nota de editor:
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quantidade de erros tipográficos existentes neste texto,
foram tomadas várias decisões quanto à
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mantida de acordo com o original. No final deste livro
encontrará a lista de erros corrigidos.
Rita
Farinha (Abr. 2008)
MEMORIA
SOBRE A CULTURA, E PRODUCTOS
DA
CANA DE ASSUCAR
OFFERECIDA
A S. ALTEZA REAL.
O PRINCIPE REGENTE
NOSSO SENHOR.
PELA
MESA DA INSPECÇAÕ DO RIO DE JANEIRO.
APRESENTADA POR
JOZE CAETANO GOMES,
E DE ORDEM DO MESMO SENHOR
PUBLICADA
POR
Fr. JOZE MARIANO
VELLOSO.
LISBOA:
Na Offic. da casa litteraria do
arco do
cego.
Anno M. D
CCC.
SENHOR.
A Mesa da Inspecção do Rio de
Janeiro, desejando
conformar-se com os ardentes desejos, que
V. A. R. tem de fazer felices os Habitadores do
Brasil, por huma bem entendida Agricultura, e
desta sorte satisfazer tambem as suas Reaes Ordens,
recomendou a Jose Caetano Gomes, que lhe apresentasse
as reflexões, que os seus vastos conhecimentos
lhe tivessem subministrado, sobre a factura
do Assucar nos Engenhos do Rio de Janeiro, a
que elle satisfez no dia 16 de Março do anno proxime
passado de 1799., lendo perante ella a
presente Memoria, que, sendo dirigida a V. A. R.,
se dignou ordenar-me, que houvesse de a fazer imprimir,
em beneficio de seus fieis vasallos dos vastos
dominios, naquelle Continente.
Como pois André João Antonil no
seu livro
da Cultura, e opulencia do Brasil, não faz mais,
que dar huma simples relação do modo de cultivar
a Canna, extrahir Assucar no Brasil, creio, SENHOR,
ou talvez posso assegurar, que, sobre
este objecto, esta he a primeira cousa, ou a unica
melhor escripta em nossa linguagem pelas sabias,
e luminosas reflexões, com que a enriquece, e que
seu Author he digno das Soberanas vistas de
V. A. R., a cujos pés se prostra
O mais humilde vassallo
Fr. Jose Mariano da
Conceição.
PROEMIO.
Sendo a Provincia do Brasil considerada como
melhor Colonia do Mundo, não se sentindo em
toda ella nenhum dos flagellos da natureza, pois
não há terremotos, furacões,
volcões, fomes, nem
pestes; gozando de hum clima benigno, e, á
excepção
de poucas trovoadas, que servem de depurar
o seu ár, e concorrendo todas as causas fysicas, com
huma vegetação sempre activa, para fazerem a
felicidade
dos seus habitantes, não se poderia comprehender,
o não ter chegado este bello paiz
ao maior gráo de prosperidade possivel, se se não
soubesse, que as causas moraes, podem tanto, ou
mais que as fysicas, para deteriorar o melhor
terreno.
A Agricultura, a primeira, a mais util das
Artes, que nutre a todas, e faz a base da prosperidade,
e força dos Estados, não sahio ainda da
infancia no Brasil; todas as plantas são cultivadas
por costume, e sem principios; as luzes da Europa
culta chegão cá tão fracas, que
não podem
aclarar-nos; as couzas mais triviaes, de que podíamos
ter abundancia, não se sabem trabalhar. A
Canna de Assucar sendo o vegetal mais precioso,
comparado o seu producto, com o que tirão os
Estrangeiros das Antilhas, he menos de ametade.
Entregue a sua cultura á escravos conduzidos por
hum feitor, sem mais talentos que, os que lhe suggere
a sua ferocidade; a manufactura do Assucar,
e da aguardente, executada por ignorantes, que
não sabem a razão dos factos, nem conhecem a
natureza das differentes partes, que constituem
os liquidos, sobre que trabalhão; os donos das
fábricas
olhando com indifferença para todos estes
objectos, julgando-os indignos da sua applicação;
não he de admirar, que desta sorte haja o atrazamento,
que se vê na cultura, e producto da Cana
de Assucar.
Conheço alguns Senhores de engenho, que se
distinguem pela sua instrucção; para estes
não he
que escrevo; a minha obra he dirigida sómente,
aos que sabem ainda menos do que eu, e que estão
inteiramente entregues á disposição
dos seus
obreiros. A cultura actual, respeito á que se
propõem,
faz huma grande differença. Quem está
costumado a plantar Cana na distancia de hum,
a dois palmos, e que assim se dá bem, difficilmente
poderá conceber, que, plantando na de seis,
lucrará mais. Ainda que a razão, e a experiencia
fação conhecer, que as plantas devem ser
afastadas
humas das outras, segundo a sua grandeza,
e a quantidade de succos, de que carecem, não
pertendo que se adopte o novo methodo, sem que
cada hum se convença por si mesmo da sua efficacia.
Plante-se hum quadrado de doze braças,
que deve conter quatrocentas covas de Cana, segundo
o methodo que se propoem; plante-se outro
quadrado igual, na mesma qualidade de terra, segundo
o methodo que se pratica; faça-se assento
da despeza de huma, e outra cultura separadamente;
apure-se o producto destas duas especies
de plantação; deduzão-se-lhe as
respectivas despezas
e a resulta que se achar he o que se deve
seguir. As experiencias em pequeno não arruinão
a alguem, e podem ser seguidas de grandes utilidades.
O que digo sobre a cultura da Cana, e
lembro a respeito ás suas dependencias, manufactura
do Assucar, e aguardente; he o que me parece
melhor; porém cada hum deve ver por si mesmo,
e fazer tudo o que a experiencia lhe mostrar mais
util.
DESCRIPÇAÕ
DA
CANNA DE ASSUCAR,
SEGUNDO A VISTA
QUE APPRESENTA.
A canna de Assucar, tem a apparencia das
outras cannas destituidas de medulla; he huma planta
da familia das gramineas; como ellas, he cheia
de articulações, ou nós, que
distão huns dos outros,
de meia até quatro pollegadas, segundo a bondade
do terreno, produzindo huma folha em cada
articulação, ou nó, cercada de
pequenas raizes,
onde há hum botão, ou olho, destinado a ser
canna,
se se deposita na terra. Estes espaços entre
cada articulação, a que se chama gomos,
são cheios
de huma medulla esponjosa, elastica, succosa,
doce, cuberta de huma casca pouco dura, lenhosa,
que se deixa penetrar pela unha; destinada a
se extrahir della hum sal essencial, que se chama
Assucar. O seu comprimento, ou altura, he de
seis, a doze palmos, segundo o terreno, na Cappitania
do Rio de Janeiro, e de oito, a doze linhas
de diametro. Succede adquirir algumas braças de
comprido, se cahe, e as raizes, que circundão os
nós, introduzindo-se na terra, fazem collos;
porém
só o que sobe ao ár depois da ultima raiz, he
que tem doçura, tudo o mais he perdido. A Natureza
tem destinado dezoito mezes a esta planta
para chegar á sua perfeição; se he
colhida antes,
ou depois deste termo, o rendimento he menor
em proporção que delle se afastão;
porém com
maior prejuizo depois, que antes da madureza. Isto
he relativo á Estação; grandes
sêccas, ou grandes
chuvas, accelerão, ou retardão esta colheita.
Ainda que, como outra qualquer planta, a
Canna de Assucar floreça, e dê semente, a
fórma
de se multiplicar, he lançar na terra pequenas estacas
tiradas da parte superior da Canna, onde
não tem doçura; porém isto
só póde fazer-se, quando
a plantação he ao mesmo tempo, que a colheita,
fóra disto toda a Cana desde a raiz he empregada
em estacas.
Como se cultiva
actualmente a Canna de
Assucar.
Cada plantador de Canna, segundo as suas faculdades,
vai com dez, vinte, quarenta, ou mais escravos
com enxadas, limpar de todas as hervas huma
certa porção de terra, onde quer fazer aquillo
a que se chama partido.
As plantas, ervas, ou capins arrancados, ou
cortados com a enxada, são sacudidos da terra pelos
mesmos escravos, que trabalhão enfileirados,
juntos em pequenos monticulos, para no caso de
sobrevir chuva, não pegarem as raizes na terra.
Depois da terra capinada, ou limpa de plantas,
vão os escravos abrir covas com a mesma enxada;
cujas covas são huma especie de regos, de duas,
a tres pollegadas de profundidade, na distancia
huns dos outros, de hum palmo, a palmo e meio;
e se suppõem a terra muito boa, chegão a dois
palmos. São lançadas nestes regos duas estacas de
Canna, de palmo e meio de comprido, e se cobrem
com a mesma terra, que se tirou da cova. Faz-se
esta plantação em dois tempos; hum quando se
moe para aproveitar os olhos da Canna, que he a
parte superior della, de Junho até Setembro; o outro
em Março, que se tem pela melhor
plantação,
a qual se faz então com as estacas tiradas de
toda a Canna, que se não moeo, com o fim mesmo
de se plantar neste tempo. He de costume a qualquer
das duas plantações dar duas capinas, ou limpas.
A Canna plantada de Junho a Setembro, he
moida no anno seguinte com doze a quatorze mezes;
a plantada em Março, de dezoito a vinte mezes;
huma, e outra se deixa ficar por não se poder
moer, para Canna velha; planta-se, ou moe-se
na safra subsequente. Da Canna, que se cortou,
colhe-se a sócca no anno seguinte, e dahi todos
os annos as ressócas, em quanto no terreno brotão
Cannas. Ainda que se conheça, que estas ressócas
rendem progressivamente ametade, as ultimas
em respeito ás antecedentes, todos as aproveitão
quanto podem. Alguns lavradores, rarissimos, se tem
servido do arado para fazer os regos, e de algum
estrume nas terras já cançadas, porém
o numero
he tão diminuto, que não merece entrar em linha
de conta; o geral he limpar a terra a braço, ajuntar
o capim, fazer covas com a enxada sem ali
huns dos outros, de hum palmo, a palmo e meio;
e se suppõem a terra muito boa, chegão a dois
palmos. São lançadas nestes regos duas estacas de
Canna, de palmo e meio de comprido, e se cobrem
com a mesma terra, que se tirou da cova. Faz-se
esta plantação em dois tempos; hum quando se
moe para aproveitar os olhos da Canna, que he a
parte superior della, de Junho até Setembro; o outro
em Março, que se tem pela melhor
plantação,
a qual se faz então com as estacas tiradas de
toda a Canna, que se não moeo, com o fim mesmo
de se plantar neste tempo. He de costume a qualquer
das duas plantações dar duas capinas, ou limpas.
A Canna plantada de Junho a Setembro, he
moida no anno seguinte com doze a quatorze mezes;
a plantada em Março, de dezoito a vinte mezes;
huma, e outra se deixa ficar por não se poder
moer, para Canna velha; planta-se, ou moe-se
na safra subsequente. Da Canna, que se cortou,
colhe-se a sócca no anno seguinte, e dahi todos
os annos as ressócas, em quanto no terreno brotão
Cannas. Ainda que se conheça, que estas ressócas
rendem progressivamente ametade, as ultimas
em respeito ás antecedentes, todos as aproveitão
quanto podem. Alguns lavradores, rarissimos, se tem
servido do arado para fazer os regos, e de algum
estrume nas terras já cançadas, porém
o numero
he tão diminuto, que não merece entrar em linha
de conta; o geral he limpar a terra a braço, ajuntar
o capim, fazer covas com a enxada sem alinhamento,
plantar sem estercar, fazer toda a plantação
em hum, ou dois partidos, fugindo de terras
virgens, porque, assim como as muito estercadas,
ou estrumadas, fazem a Canna, a que se chama
taioba, quero dizer, muito aquosa, muito oleosa,
e pouco assucarada.
Notas
sobre esta fórma de
plantação.
Sendo a Canna de Assucar huma planta, destinada
pela Natureza a alcançar doze, dezaseis, vinte,
e mais palmos de altura, segundo o terreno,
e até pollegada e meia de diametro, não he
possivel
que possa prosperar plantando-se tão junta;
porque rouba huma a substancia da outra. Tambem
as covas, ou regos, em que se planta, não
tem bastante profundidade; duas, ou tres pollegadas
não bastão para a suster.
Plantando-se sem alinhamento, em confusão,
nunca o sol, e o vento podem aperfeiçoar o seu
succo. Fazendo-se a plantação em hum, ou dois
partidos, póde pegar o fogo em ambos, o que succede
algumas vezes, e fica seu dono empobrecido.
A experiencia tem feito conhecer, que todos os
fructos doces carecem do Sol, e ár para alcançar
a sua perfeição, e que o mesmo sol bata a nu
sobre
a terra, que cobre as suas raizes; não se reunindo
estas circumstancias, os fructos se deteriorão
á proporção. Em Portugal as uvas, a
que chamão
de forcado, são sempre imperfeitas, porque
as arvores, que as cobrem, lhes roubão a luz.
As larangeiras no Brasil, cubertas de erva de passarinho,
dão, pela mesma causa, laranjas pouco
doces.
Ainda que estas larangeiras estejão limpas da
mesma herva, ainda que estejão n'hum campo solitarias;
se a terra, por onde estão permeadas as
suas raizes, está cuberta de herva, ou capim, que
impeça a luz de bater sobre ella, os fructos são
sempre azedos.
Nenhum author, que trate da Canna de Assucar,
manda plantalla em menos distancia, que a
de tres pés, e alguns querem seis, e sete, que
são nove, e dez palmos e meio de cova a cova:
isto ha de parecer hum paradoxo aos nossos lavradores,
que até tem hum ditado: quero canna mil,
e não gentil. Porém da
perfeição, com que nas
Colonias estrangeiras se faz esta cultura, a mais
preciosa d'America, he que tem procedido o gráo
de prosperidade, a que se tem elevado, e de que
somos privados, por seguirmos sómente hum trilho
cégo, e sem reflexão.
Theoria para a
cultura da Canna de
Assucar.
O Que vou dizer he hum extracto do que tenho
visto sobre esta materia. Os principios para a cultura
da terra, segundo os Antigos, que suppunhão
as raizes das plantas, como os unicos orgãos para
receber a sua nutrição, consistião em
lavrar a
terra com diversos instrumentos para a pôr bem
movel, estrumalla, e depois de hum certo numero
de colheitas, dar-lhe descanço, quero dizer,
conservalla limpa sem nutrir planta alguma. Os estercos,
e estrumes de que se servião, era toda a
especie de excrementos de animaes, e vegetaes
podres. Os modernos adoptando os mesmos principios,
instão por mais lavras; dão o descanço
nos
grandes intervallos, que deixão entre planta e planta;
estes intervallos são lavrados durante a
vegetação;
além dos estrumes de que se servião os Antigos,
accrescentárão o dos marnes, ou terras
saponaceas,
e o dos rebanhos nas terras que se propõem
cultivar; e alguns Authores não querem esterco,
que substituem com lavras, e mais lavras,
origem da immensidade de instrumentos, que se
tem inventado a este fim. Estes principios são certos
em parte, e em parte diametralmente oppostos
ao fim que se busca. A quem ignorar os descobrimentos
mais modernos, ha de parecer paradoxo
o dizer-se, que a terra natural não concorre
para a vegetação das plantas; que estas
não tirão
della alimento algum, e que só serve de alicerce
para suster a sua corporeïdade. Há terra
vitrescivel,
terra calcarea, terra argillosa, ou barro, marne,
e humus.
A terra vitrescivel absolutamente esteril, he
aquella de que foi composto, e faz a solidez do
nosso Planeta. A terra calcarea he o residuo da
decomposição dos corpos animaes. A terra
argillosa
he o residuo da decomposição dos vegetaes.
O marne, ou terra saponacea, he a combinação
destas duas especies de terra, variado a infinito
com a arêa, ou terra vitrescivel, segundo as
proporções da sua mistura. O humus, materia
tão
preciosa para a vegetação, he a
combinação da decomposição
dos corpos organisados, vegetaes, e
animaes de recente data, que tem a propriedade
de dissolver-se n'agua, pelo oleo animal, e sal do
vegetal, e com este liquido formar hum sabão, que
se transforma em seiba, que he o sangue da planta.
A argilla, ou barro de todas as especies, e as
terras calcareas, são humus envelhecido, a quem
a decomposição dos animaes phlogisticou, e com o
seu gluten, fez tão tenazes as suas partes, que
são impermeaveis ás raizes das plantas;
porém combinadas
com a arêa, ou terra vitrescivel, ficão terras
proprias á vegetação. As plantas
são viventes,
que tem a faculdade de se reproduzir pela semente,
pelo tronco, e pela raiz. A experiencia de
Boyle, milhares de vezes repetida, e sempre
confirmada, prova com evidencia, que tirão a maior
parte da sua nutrição do ár; ellas tem
vasos absorventes
para receberem o alimento, e vasos exhalantes
para se alliviarem do superfluo; ainda que
estes orgãos se não percebão
á simples vista, a
existencia delles he huma verdade. Assim como os
animaes dão pasto a differentes especies de insectos,
tambem os vegetaes sustentão huma innumeridade
delles; cada hum tem os seus. Huma folha
que cahe de qualquer planta, causa a morte a milhares
de entes invisiveis. O fogo, o ár, a agua, o
humus, e a terra concorrem para a vegetação. O
fogo he o motor, o ár o agente, a agua o vehiculo,
o humus o que faz a seiba.
O fogo como calor, e como luz, faz subir os
fluidos nas plantas desde a raiz; a frescura da noite
os faz descer, fazendo assim huma especie de
circulação, e desta sorte capazes de receber
pelos
vasos absorventes das suas folhas, do seu tronco,
da sua raiz, as partes que os meteoros atmosphericos
lhe communicão. A agua muito composta,
como elemento, faz com o gáz, ou ár fixo, a parte
mais consideravel da planta. O ár como atmospherico,
e o receptaculo onde se combinão todas as
emanações da natureza, serve de todas as sortes
á planta; e o humus faz as partes fixas della. A terra
he a matriz da semente, ou planta, que serve de
cadêa, ou alicerce para esta se desenvolver, e
suster; e a fertilidade que se lhe suppõem, he devida
sómente ás partes do humus, que em si
contém,
boa, ou má, segundo a maior, ou menor
quantidade, que encerra desta preciosa materia,
segundo a planta; que deve nutrir; deve ser trabalhada,
dividida, ter toda a facilidade para receber
as aguas das chuvas, dos orvalhos, dos outros
meteoros aquosos, todos os principios fecundantes
espalhados na atmosphera, e deixar-se penetrar
das raizes, que se vão estendendo á
proporção
que a planta cresce. A abundancia do humus
nos terrenos cubertos de mato virgem, quando
este mato se derruba, e se põem a terra em
cultura, faz prosperar extraordinariamente os vegetaes
nella cultivados. Este humus, convertendo-se
nas partes solidas das plantas, vai diminuindo
a pouco, e pouco; e passados annos fica a terra
exhaurida desta preciosa materia, e por consequencia
esteril. A experiencia fez conhecer em
todos os tempos, que os estrumes, e materias estercoraes
reparavão de alguma sorte esta falta, e
se usou delles com bom successo; porém que não
bastando, era preciso dar descanço a esta terra,
descobrindo-a de todas as plantas, lavrando-a muitas
vezes, esperando que a atmosphera a fecundasse.
Isto he hum grande erro, porque o calor
do Sol batendo a nu sobre esta terra, a faz arida,
e vindo depois huma chuva, a pequena porção do
humus, que em si contém, he levado a outra parte,
e por consequencia fica ainda mais empobrecido
o mesmo terreno, que com este methodo
se quer enriquecer. He evidentemente demonstrado,
que para a terra não cançar, adquirir, e
conservar o seu humus, e fertilidade, he preciso
que esteja sempre cuberta de plantas. Devem cultivar-se
aquellas de que se pertende utilidade; quando
estas se colherem, lançar a semente de outras
de prompto crescimento, que tenhão grandes, e
brandas raizes, que cubrão bem a terra, taes como
nabos, rabãos, cenouras,
batatas, aboboras,
etc. e antes de chegarem ao seu total crescimento,
serem lavradas, enterradas; e quando tiverem
apodrecido, ou estiverem reduzidas a humus, plantarem-se,
ou semearem-se aquellas, de que se pertende
redito.
Trabalhando-se continuada, e alternativamente
desta sorte, podem evitar-se todos os estrumes,
e estercos; estes são inventados pelos homens, e
o humus he o da natureza. As vargens que estão
cercadas de serras, collinas, montes, se estas eminencias
se conservão coroadas de matto, são sempre
ferteis, porque o humus, que estes mattos estão
continuadamente depositando na terra, dissolvido
pelas chuvas, vai enriquecer as vargens. As
fraldas destas eminencias podem ser cultivadas para
pequenos vegetaes, se o angulo, que fizerem,
não passar de quarenta, e cinco gráos porque
então só grandes arvores lhes convém.
Os proprietarios destas eminencias, que as
descoroão de mattos, empobrecem o Estado a
perpetuidade; a coroa sendo descuberta, apresenta
huma superficie nua aos raios do Sol, e passados
poucos tempos ficão reduzidas a escalvados; porém
a perda que não se repara mais, he a das chuvas,
que os grandes vegetaes tem a propriedade de chamar.
O humus não basta só para conduzir as plantas
á sua perfeição; ellas carecem ainda
da luz,
3, do ár renovado, 4, de ter a superficie da terra
até onde podem extender-se as suas raizes, despida
de plantas; esta mesma terra revolvida, bem dividida,
e haver entre planta, e planta huma certa
distancia, proporcionada aos succos, de que carecem,
segundo a sua natureza; haver huma escolha
escrupulosa na semente, ou planta, e conhecer
qual he o tempo proprio para se lançar na
terra, etc. etc.
Como se deve
cultivar a Cana de
Assucar.
A Experiencia tem feito conhecer, que o melhor
tempo de plantar a Canna na Capitania do Rio de
Janeiro, he de Dezembro a Março, para ser moida
de Junho a Septembro do anno subsequente, com
dezoito mezes de idade. Como nestes mezes não
há olhos de Canna, usa-se cortar da Canna, que se
deixou para velha, pequenas estacas; porém esta
Canna velha, que está deteriorada por ter passado
do ponto da sua madureza, tem sim bastante doçura,
porém os botões, ou olhos dos seus
nós, ou
articulações, que he o que deve ser Canna, huns
estão já murchos, outros podres, e por
consequencia
perdidos; e só a parte superior da Canna, que
sempre conserva verdura, pouca doçura, e mesmo
acidez, he o que nasce facilmente.
Ainda que os botões estejão em bom estado,
devem desprezar-se as Cannas velhas, porque em
quanto tem doçura, não nascem, e he preciso hum
mez, e mais tempo para a perderem. Para se fazer
huma plantação perfeita, he preciso fazer a
planta.
No principio da moagem, devem plantar-se os
olhos, ou parte superior da Canna, n'huma terra de
muita substancia, lodosa mesmo, em terreno virgem,
que tenha bem humus, ou seja bem estercado,
para a Canna, que nascer, ser bem ataiobada,
ou selvagem. Desta Canna sem doçura, e bravia,
he que se tirão as estacas para fazer a
plantação;
cujas estacas devem ter o comprimento,
que alcancem quatro nós, que segundo a distancia
de nó a nó, serão mais compridas, ou
mais
curtas. Esta Canna plantada n'hum terreno tão pouco
proprio para se lhe extrahir o Assucar, não he
perdida; além da utilidade da boa planta, no fim
de dois, ou tres cortes, póde servir para Assucar;
porém deve haver o cuidado de renovar a Canna
para a planta. A Canna de Assucar cresce em todas
as especies de terra; porém as que são gordas,
fortes, baixas, lodosas, novamente roteadas, quero
dizer, donde se derrubou matto virgem, a pezar
do comprimento, ou altura, que alcanção, tem o
succo aquoso, oleoso, pouco assucarado, difficil
de cozer, de purificar, sem rendimento. Hum terreno
ligeiro, poroso, profundo, inclinado até quinze
gráos, he aquelle que a natureza tem destinado
a este rico vegetal. Deve-se dividir o terreno destinado
para a Canna em tres partes, e cada huma
destas partes, subdividir-se em pequenos quadrados
de doze braças cada hum; qualquer que seja
a exposição do terreno, sempre estes pequenos
quadrados hão de ser alinhados de Norte a Sul,
de Leste a Oeste.
Veja-se a
Estampa
I. Cultivão-se
estes pequenos quadrados, deixando os lados de
cada hum delles para todas as partes, livres da
planta da Canna; porém podem occupar-se em
mandioca, carás, batatas, feijão, milho,
aboboras,
ervilhas, etc. Cada hum dos quadrados, se
tiver doze braças de frente, e doze de fundo,
deve conter quatrocentas covas, na distancia humas
das outras de seis palmos. Para se fazerem
estas còvas, não he preciso que todo o quadrado
esteja descuberto de capim, basta que seja limpo
pouco mais que o tamanho dellas, que devem ter
dois palmos de comprido, hum palmo de largo,
e seis pollegadas de fundo. Comparadas estas covas
com as que se fazem actualmente, hão de
parecer muito grandes, e muitos fundas; e na realidade
o não são, respeito ás que fazem os
Colonos
das Antilhas, e o mesmo digo sobre a distancia
dellas; pois elles chegão a afastallas humas das
outras, até dez palmos e meio, e a dar-lhe dezoito
pollegadas de comprido, doze de largo, e oito
de fundo. O milho para prosperar de serra acima,
para os seus cultores colherem duzentos por hum,
he preciso fazerem as covas na distancia de cinco
a seis palmos, nas quaes lanção quatro, ou cinco
grãos; ora este vegetal não tem o corpo da Canna
de Assucar, nem como ella carece de tanta substancia,
e alimento; a cova de milho he para quatro,
ou cinco pés, a da Cana para oito, ou dez,
que tantas são as que devem nascer, dos olhos,
os botões das duas pequenas estacas, que se
deitão
nas covas, e se devem conservar, cortando todas
as que demais nascerem, porque como ladrões
lhe roubão a substancia.
He certo que com a enxada, que se usa no
Brasil, que he talvez a primeira que se inventou,
e onde não chegou ainda a enxada de Luca, Franceza,
ou Ingleza, he hum pouco difficil fazer esta
especie de covas; são precisas de vinte a trinta
golpes, quando com qualquer das mencionadas,
bastão tres, ou quatro. A nossa enxada he fatigante,
o trabalhador anda curvado; e tendo o ferro de
cinco a seis libras, elle carrega com vinte, ou
mais nas cadeiras; nesta especie de serviço o homem
baxo tem vantagem ao homem alto, a quem
he preciso maior curvatura, e por consequencia
dobrado esforço. Na Republica de Luca, e em algumas
Provincias de França, não se usa de arado,
nem de charrua, porque a sua enxada equivale ao
trabalho destes instrumentos, e fica a terra mais
bem trabalhada.
No Brasil onde os mesmos instrumentos pouco
uso podem ter, he de huma grande vantagem
o adoptarmos a enxada Luqueza, ou outra com
pouca differença, que he huma especie de
pá,
com dez pollegadas de altura, nove de largura em
cima, oito em baxo, com a grossura de meia pollegada,
a acabar em huma linha, bem temperada
de aço, com hum alvado de seis pollegadas, quatro
a meio ferro, e duas sobresahindo, e com a
vacuidade de pollegada e meia de diametro, que
vai diminuindo insensivelmente, com dois furos no
alvado, para com huma cavilha se fazer firme o
cabo, que deve ter oito palmos de comprido.
Veja-se
a Estampa II. Fig. I. e II. O trabalhador
com este instrumento tem o corpo direito, virado
para o Norte, os calcanhares afastados pouco mais
de meio palmo; a enxada afastada quasi hum palmo
do pé esquerdo; a mão esquerda por todo o
comprimento do braço, pegando no cabo; e a mão
direita pegando no mesmo cabo, quasi no hombro
direito
Fig. III. A
mão esquerda levanta a enxada
até onde póde hir, sem que o antebraço
se desuna
do corpo.
Fig. IV. A mão
direita da altura, a que
chegou, impelle a enxada com toda a força, e a
esquerda deixa escorregar o cabo, segundo a ferida
que a enxada fez na terra. Para se tirar esta
terra, serve de apoio a mão esquerda, e a direita
carregando no cabo, levanta a pá, e ambas a guião
para lançar a terra a qualquer parte; porém deve
ser regularmente para Oeste, ou Leste. No segundo
movimento, deve chegar-se o calcanhar do pé
esquerdo ao do direito, e este ladear para a direita
tanto quanto a enxada cava, e assim progressivamente.
Designados os quadrados para a plantação da
Canna, vão a cada hum vinte trabalhadores; o seu
feitor os deve pôr enfileirados olhando para Oeste,
na distancia de seis palmos huns dos outros; manda-os
andar á direita para ficarem virados para o
Norte; manda-lhe passar o pé direito a perfilar com
o esquerdo, na distancia pouco mais que meio palmo;
e desta sorte principião o trabalho, abrindo
as covas de Oeste para Leste, de manhã até ao
meio dia, servindo de guia a sombra do corpo; e
do meio dia para a noite virados para o Sul fazem
o mesmo; ou tambem podem trocar as mãos, porque
se trabalha para o lado direito, assim como
para o esquerdo; devendo buscar-se de qualquer
sorte o alinhamento perfeito das covas de Norte
a Sul, e de Leste a Oeste, o que he essencial para
a perfeição da cultura deste rico vegetal.
Feitas as covas, devem lançar-se nellas duas
estacas de Canna, que não tenhão menos de quatro,
nem mais de cinco botões, para quando nascerem,
fazerem huma soqueira de oito, ou dez
Cannas. Cobrem-se estas estacas com duas pollegadas
de terra, e quando tem nascido a Canna,
e alcançado dois palmos pouco mais de altura, enchem-se
as covas com o resto da terra. Limpão-se
as Cannas de todas as hervas que podem roubar-lhe
a substancia, á proporção que forem
nascendo.
Esta plantação deve fazer-se de Janeiro
até
Março, e não antes, nem depois. Qualquer que
seja a qualidade da terra, não deve pretender-se
mais, que dois cortes; o primeiro dahi a dezoito
mezes, o segundo a que se chama sóca, dahi a
quinze, ou dezaseis mezes. Depois deste segundo
córte, deve occupar-se o terreno em que esteve
a Canna, com aboboras de todas as especies, que
tem a propriedade de cubrir bem a terra, para que
as raizes da Canna apodreção, e depois de
convertidas
em humus, ficar a terra apta para receber
nova Canna, que dahi a mais de hum anno se lhe
póde confiar. De Janeiro a Março do segundo anno,
cultiva-se a segunda divisão, e no anno seguinte
a terceira. A quarta plantação faz-se nos
mesmos quadrados da primeira; a quinta, nos segundos,
a sexta nos terceiros, a setima nos primeiros
da primeira, a oitava nos da segunda, a
nona nos da terceira, e assim alternativamente;
de sorte que a Canna de cada quadrado tenha intervallo
bastante, que a livre de plantas, que lhe
roubem a luz. Esta fórma de plantação
póde variar-se
a infinito, segundo a quantidade de terreno,
e intelligencia do cultor.
Em lugar de quadrados perfeitos, podem ser
quadrados longos etc., com tanto que se busque
sempre o dar á Canna, a maior quantidade de ár,
e luz possivel; porque a experiencia faz ver com
evidencia, que só a dos aceiros, que recebe continuadamente
a influencia destes dois agentes, he
que alcança perfeição no seu succo; a
que está
para dentro, fica sempre esverdeada, o seu succo
mal digerido, difficil de cozer, e de purificar; por
consequencia o fim do lavrador deve ser quanto
lhe for possivel, fazer todo o Canaveal em aceiro.
Vantagens desta
fórma de
plantação.
Se há fogos por accidente, he moralmente impossivel,
que passem de huns a outros partidos,
tendo tão grande separação entre si.
Nunca os
carros, nem animaes pizão o Cannaveal, quando
se conduz a Canna á fábrica. Há
facilidade para se
verem as Cannas de todos os pequenos partidos,
para se cortarem os filhos que brotão, que como
ladrões lhe roubão a substancia.
Quasi todo o Cannaveal está em aceiro, quero
dizer, está apto para receber a influencia, e
nutrição, que lhe communica a atmosphera. A
renovação,
e correnteza do ár impede a geração, e
propagação de insectos, taes como baratas, e
outros,
que a sua corrupção tem a propriedade de
chamar. Pelo alinhamento de Norte a Sul, de Leste
a Oeste, recebem as Cannas os raios da luz, que
o Sol póde communicar-lhes, e que lhes são
tão
precisos para a depuração do seu succo.
Facilita o tarefar o trabalho, etc. etc.
Córte
das Cannas.
A Canna de Assucar gasta dezoito mezes a chegar
ao seu ponto de perfeição, porém se
há seccas,
anticipa-se; o gosto, e a vista he que decidem
a colheita; quando está bem doce, e tem a
côr amarellada, he tempo de cortar. He sabido de
todos, que principia a ser doce do pé, e que esta
doçura vai diminuindo gradualmente para a parte
superior, e que junto á bandeira, ou olho, não
só não tem doçura, porém
mesmo tem acidez, e
he por consequencia hum erro, o aproveitalla até
ás folhas. Deve sim cortar-se bem rente á terra
sem ferir as raizes, porém o palmo junto ás
folhas,
deve-se desprezar. Segundo a sua grandeza,
se ha de cortar em huma, duas, e talvez tres
partes, servindo de ballisa, o não ter mais de cinco,
ou seis palmos, para se appresentar á moenda.
Usa-se, quando se corta, fazer feixes de seis, ou
oito Cannas, segundo a sua grossura, cujos feixes
são amarrados com os olhos das Cannas que se
cortárão. Esta especie de atilhos he tirada dos
feixes
de Canna, quando se appresentão á moenda,
porém escapão muitos, que se espremem com a
Canna; ora, tendo elles acidez, vão deteriorar o
sumo, de que se ha de fazer Assucar, gastar mais
decoada, e lenha, além do tempo, e serviço que
se perde; porque no acto de cortar a Canna, são
precisas quasi tantas pessoas para amarrar, como
para cortar; e para a conducção tanto importa
estar
em feixes, como solta, e o mesmo para se meter
na moenda, onde o trabalhador póde regular
o pegar em seis, ou oito, doze, ou dezaseis, para
as appresentar. Deve haver cuidado de não se
cortar mais Canna, que a que póde moer-se em
vinte e quatro horas, principalmente se o calor he
intenso, porque o sumo fermenta na mesma Canna,
o que arruina a sua qualidade.
Construcção
dos engenhos
actuaes.
Todos os engenhos de fazer Assucar na Capitania
do Rio de Janeiro, qualquer que seja a potencia,
agua, bestas, ou bois, tem a mesma construcção,
á excepção de tres modernamente
feitos,
que reunem algumas vantagens, todos os mais
he hum grande pião, que faz fazer huma casa de
sessenta palmos livres, acabando em varandas á
roda, algumas subdivididas; cujas varandas são
maiores, ou menores, segundo o destino, que se
lhes dá, de picadeiro, casa de caldeiras, casa de
purgar, casa de encaixe, casa de aguardente, fornalhas,
e varandas de carros; com algumas trapeiras
para dar sahida ao fumo, e luz. No centro desta
grande casa de sessenta palmos, se o engenho
he moido por animaes, está a meza com as moendas;
na moenda do meio, vulgarmente chamada
a moenda grande, que pela sua dentadura faz moer
as dos lados, há quatro aspas, ou almanjarras, a
cada huma das quaes puxão dois animaes, formando
hum circulo á roda da meza, de cincoenta
e seis palmos de diametro, vindo a ter as almanjarras
por onde puxão os oito animaes, vinte e
oito palmos de comprido; os dois palmos que faltão
para os trinta, ou quatro para sessenta da capacidade
da casa, he folga para os animaes, que não
devem roçar pelas paredes.
Se o engenho he de agua, na moenda do
meio há huma grande roda, de trinta e seis a quarenta
palmos de diametro, a qual está n'hum eixo
horisontal, e nelle huma roda vertical, de trinta
a trinta e seis palmos, que nos cubos da sua circumferencia
recebe a agua, que he a potencia.
Há hum engenho de agua com rodizio, ou roda horisontal,
que reunindo a vantagem de tocar dois
ternos de moendas, e ser obra tão perfeita neste
genero, não tem tido imitadores, por parecer á
primeira vista, ser a roda vertical de maior força
que a horisontal, o que he engano, como farei ver.
Notas sobre
esta fórma de
construcção.
Para se fazer huma casa de sessenta palmos livres,
são precisas vigas de sessenta e quatro palmos
de comprido, que ficão fracas, se não tiverem
dois palmos por cada face; he custoso achar
estes madeiros, difficultosa a sua conducção,
perigoso
o levallos acima do edificio, que fica sobrecarregado
com este desmarcado pêso, e por
consequencia
fraco. As trapeiras, de que usão para
dar sahida ao fumo, e entrada á luz, são
insufficientes,
e há occasiões, em que quasi se he suffocado
pela fumaça, e sempre he precisa a candêa
para se verem os objectos. Os animaes no seu
giro, circulando as moendas, estorvão a passagem,
aos conductores da Canna, que algumas vezes succede
serem atropellados; os picadeiros de sobrado,
que se fizerão n'hum engenho, para evitar estes
accidentes, não tiverão imitadores; e o mesmo
engenho os abolio por incommodos. O sumo,
que sahe das Cannas pela expressão das moendas,
he conduzido por huma calha ao parol, a que chamão
de caldo frio; no circulo, que fazem as bestas,
atravessão esta calha, o que fórça
pôlla junto
á terra, e o dormente dos moendas com pouca
altura, e por consequencia o não se poder moer
Canna, como deve ser. Ainda que o engenho seja
de agua, como estas fábricas forão feitas por
imitação
de humas a outras, o prospecto he o mesmo,
e não tem os commodos, que se devião buscar;
multiplica-se serviço, por ser preciso usar de
pótes, e barris para levantarem os liquidos, que
devião ser conduzidos por bicas, ou calhas, até
cahirem nos alambiques.
Nova
construcção de
engenhos.
Em mechanica o ser senhor da potencia, para
augmentar, diminuir, e modificar a força ao seu
arbitrio; ajuntar a estas vantagens a da elegancia,
commodo, e economia, parece que he tudo, quanto
se póde desejar.
O engenho, que se propõem para modello,
não tem hum páo de maior comprimento, que o
de quarenta e quatro palmos, com huma face de
palmo e meio, e outra de hum palmo, e estes
são os tirantes; todos os mais páos
são de hum
palmo, tres quartos, meio palmo, com menos comprimento,
á excepção dos esteios, com palmo e
meio de face, e de quarenta para cima de comprido.
O edificio por dentro, debaxo de huma cumieira,
tem cento e sessenta palmos de comprido,
quarenta e dois palmos de largura, e trinta e
tres de altura em pé direito.
Na altura de trinta palmos está hum segundo
frechal, que cinge todo o edificio, e serve sômente,
para encabeçar os caibros das varandas, e
deixar hum claro de tres palmos, para dar luz, e
sahida ao fumo.
Este engenho he para o trabalho de bestas,
ou bois, porém a sua construcção he,
como se fosse
para agua, girando tudo sobre pião. Na moenda
do meio tem huma roda com oito aspas, a que
se chama bolandeira, com trinta e seis palmos de
diametro de centro de dente, a centro de dente,
e noventa e seis dentes na sua circumferencia,
que ficão na distancia de pouco mais de palmo
huns dos outros; os dentes desta roda são de coroa.
Esta roda he movida por hum rodete estrellado
de trinta e dois dentes, cujo eixo em pião
tem duas almanjarras; da ponta de cada huma das
quaes ao centro do eixo, são quatorze palmos.
Os animaes trabalhão nesta máquina, em huma
especie de pôço calçado, com
oito palmos de
profundidade (póde ser mais, ou menos) cercado
com huma varanda. Esta especie de pôço he
formada pelo aterro da casa, onde gira a máquina,
e estão as moendas. Já se vê que, tendo
o
rodete a terça parte da bolandeira, he preciso que
dê tres voltas para a bolandeira dar huma; e, como
os animaes puxão na distancia de quatorze palmos
do centro, devem fazer tres circulos de vinte
e oito palmos de diametro, que fazem oitenta
e quatro palmos, para as moendas darem huma volta, o que faz puxar por
huma almanjarra, ou
alavanca de quarenta e dois palmos. He certo que
oitenta e quatro palmos de diametro fazem oitenta
e quatro passos de circumferencia; e, tendo os
engenhos communs as suas almanjarras em cincoenta
e seis palmos de diametro, que fazem cincoenta
e seis passos de circumferencia, parece
que farão em menos tempo virar as moendas; porém
não he assim; porque a pezar de serem oito
os animaes, que puxão estas almanjarras, e poderem
só quatro, e menos puxar as outras, por
ter a sua alavanca mais quatorze palmos de comprido;
attendendo ás paradas, que os oito animaes
fazem a cada passo, para vencer a resistencia, e
á suavidade, com que os quatro
andaráõ, sem nunca
achar obstaculo, que faça retardar o seu passo
natural, fica igualado o serviço, e talvez superior
o dos quatro: além disto, ainda que eu não
conheça
no Rio de Janeiro, quem possa occupar sempre,
e no seu devido tempo, esta máquina trabalhando
assim, mettendo Canna como deve metter-se;
quem quizer andar mais veloz, encurte as almanjarras,
e augmente o numero de bestas, e póde
levar isto ao ponto, que lhe parecer; vantagem
de que são privados os engenhos actuaes, que hão
de restringir-se ao numero de oito sómente.
Por esta nova fórma cada hum póde trabalhar,
segundo as suas forças: se em lugar do rodete
pela terça parte, o fizer pela quarta, conservando
as almanjarras no seu comprimento, faz puxar
as bestas por huma alavanca de cincoenta e
seis palmos, e se ha de moer com quatro, póde
fazello com duas, e mesmo huma. Assim como
póde diminuir; se fizer o rodete por ametade, augmenta
o movimento, e fica a almanjarra de vinte
e oito palmos, e tem a vantagem de meter oito,
dez, doze, dezaseis bestas, o que não póde
fazer na construcção actual; porque
então não terião
passagem os carregadores de Canna para as
moendas, que estão sempre desembaraçadas na
construcção, que se propõem;
porém a proporção
da terça parte, he, segundo o meu cálculo, a mais
ajustada.
Veja-se a Estampa III.
Sobre o
movimento das moendas.
Eu não tenho noticia de que houvesse ainda quem
regulasse o movimento das moendas, para fazerem
o maior effeito possivel n'hum termo dado,
sendo isto hum objecto, que merece toda a
ponderação.
Vendo que em hum engenho movido por
bois, dão as moendas huma volta por minuto; n'hum
por bestas quasi volta e meia; nos de agua duas,
tres, quatro, e mais voltas; pensando todos geralmente,
que quanto maior numero de voltas der
em menos tempo, mais moerá, fiz exame a este
respeito, e achei que o movimento de duas voltas
por minuto, he o ponto de perfeição; e que
tanto menos se moerá, quanto se afastarem delle
para mais, ou para menos. Quando boas bestas,
e descançadas, excitadas pelo açoite
puxão pelas
almanjarras a trote, e fazem dar ás moendas duas
voltas e meia por minuto, a Canna fica esmagada,
e não espremida; porque o sumo não tem
tempo da cahir, e passa em cima da Canna para
a outra parte; e como ella he hum corpo esponjoso,
e elastico, logo que cessa o aperto, torna
a beber o mesmo sumo, do qual só numa pequena
parte cahe na meza; e se em duas voltas e meia succede
isto, peior em tres, quatro, e mais. N'hum
engenho movido por bestas, não póde haver excesso
no movimento, poderia talvez prejudicar por
defeito, se houvesse quem tivesse forças para fazer
de dez a doze mil arrobas de Assucar annualmente,
o que nunca succedeo; porém havendo quem
possa fazellas, ou ainda mais, póde pôr dois
ternos
de moendas, que o mesmo rodete faz moer,
segundo o modello que se propõem. Com a roda
vertical dos engenhos de agua, he hum pouco dificultoso
regular o movimento das moendas; só se
a agua he muito alta, o que raras vezes succede;
sendo baxa, e muita, que possa dar-se-lhe
toda a força que se precisa, o rodete he muito
grande, e faz que a bolandeira dê tres, e quatro
voltas por minuto, o que retarda o serviço, como
acima se diz; só se a roda vertical tivesse de cincoenta
a sessenta palmos de diametro, o que não
póde ser sem muito incommodo. Com a roda horisontal,
vulgarmente chamada rodizio, he facil graduar
o movimento.
O maior, ou menor declivio na bica de ferir
as pennas; maior, ou menor diametro no rodete,
ou no mesmo rodizio, faz conseguir o que
se quer sem custo.
Comparação
da roda vertical
com
a horisontal.
He sabido de todos, que em qualquer máquina,
a agua obra sómente pelo seu pêso. Supponho
ter huma bolandeira com trinta e seis palmos
de diametro, movida por
hum
rodete de
oito; a
roda vertical de trinta e seis; a agua na altura de
vinte palmos, com quatro pollegadas cubicas, que
são sessenta e quatro, e pesão quasi tres libras.
Onde a vertical recebe o impulso com a maior força,
he no semidiametro, e fim da linha horisontal
do eixo, em dezoito palmos; a agua cahe com
dois palmos de ferida, e doze libras de pêso no
principal cubo; nos que se enchêrão,
pésa com tres
libras em linhas mais curtas. Se os cubos tem capacidade
para receber mais agua, e o pêso
desta
nos mesmos he preciso para o movimento, fica a
máquina vagarosa, e sem o effeito que se quer.
Tem mais o defeito de ficarem as moendas baxas;
não se poderem dar as proporções que
se precisão;
estar tudo cheio de agua, e a roda afeiando
o edificio, estorvando passagens, etc. O mesmo
diametro na bolandeira, e na horisontal, quero
dizer, trinta e seis palmos o diametro da bolandeira,
e trinta e seis o do rodizio, o rodete deve
ter a oitava parte, ou doze dentes estrelados, tendo
a bolandeira noventa e seis de coroa, e a agua
na mesma quantidade, e altura. Vinte palmos que
a agua tem de altura, são quarenta vezes tres libras,
ou cento e vinte libras, que pésão sobre as
pennas do rodizio com hum jacto de quasi vinte
palmos, se sahisse horisontalmente, porém como
deve ter quinze gráos de declivio para ferir as pennas,
fica em dezaseis.
Este jacto de quinze gráos communica hum
movimento mui veloz ao rodizio, que póde ser
moderado, segundo a necessidade, e o podemos
levar até quarenta e cinco gráos com toda a
vantagem.
Podemos augmentar o diametro do rodizio;
diminuir, ou accrescentar o do rodete; levantar,
ou abaxar as moendas á nossa vontade,
fazendo mais curto, ou mais comprido o eixo do
rodizio; cujas pennas, sendo feitas de páos firmes,
tudo cerne, com tres palmos de comprido, e hum
em quadro, as cavas em meia lua, para receber
a agua, com seis pollegadas pelo comprimento da
penna, cinco na largura, e cinco em profundidade,
tem toda a solidez, e duração possiveis; quando
pelo contrario a roda vertical, composta de
muitas taboinhas, e pequenas juntas, em poucos
tempos fica fóra de serviço.
O modello, que se propõem, para moerem
bestas, serve para o de agua com rodizio, só com
a differença do rodete ser mais pequeno, e a especie
de pôço ser cuberta de sobrado, que dá
passagem
ao eixo; reunindo esta fórma de máquina
além das mais vantagens, a de poder ser movida
por animaes, se por accidente falta a agua, o que
succede algumas vezes, e causa prejuisos.
Não fallo nos engenhos de vento para moer
Canna, porque a instabilidade, e irregularidade
deste agente no Brasil, o faz inutil. Ainda mesmo
os de agua, se esta for difficultosa, ou que faça
precisar grandes despesas; pondo-se em prática o
modello, não causará muito pesar o moer sem
ella.
A Estampa III.
mostra o interior, o
plano,
e o exterior da casa do engenho.
Preciso sobre
a dentadura das rodas.
A falta de conhecimento de mechanica nos mestres
de engenhos do Rio de Janeiro, aos quaes com
mais propriedade se pódem chamar curiosos, á
excepção
de alguns, e bem poucos, que tem merecimento,
me faz dizer o que sei a este respeito,
por me parecer que será de alguma utilidade. Quero
fazer huma roda grande, que tenha trinta e seis
palmos de diametro, de centro de dente, a centro
de dente; sabe-se que a devo armar de oito
curvas, ou cambótas, que tenhão de testa, a testa
trinta e sete palmos; porque a dentadura devendo
estar no centro da cambóta, para esta ficar com
fortaleza, deve ter meio palmo para dentro, e meio
para fóra. Huma roda com este diametro não se
póde fazer sem oito aspas. Devo repartir o circulo
em oito partes perfeitamente iguaes, que assignallo;
e como quero pôr neste circulo noventa e seis
dentes, já se vê que pertencem doze a cada oitavo.
O sintel tem feito descrever a linha onde
devem ser postos; reparto em doze partes o oitavo,
e assignallo cada huma com seu ponto, que
serve de centro ao furo para o dente, cujos pontos
ficão distando huns dos outros nove pollegadas
e meia com pouca differença.
Deve haver o maior cuidado, em que estes
pontos fiquem perfeitamente iguaes, e que não
desmintão nem a grossura de hum cabello; e que
os furos, que se fizerem para os dentes, fiquem
perpendiculares.
O circulo deve ser fixo nas aspas por cavilhas;
quatro destas aspas o sustem, e as outras
quatro prendem-no.
Estas aspas devem assentar no circulo entre
os dentes com huma medida perfeitamente justa,
para a roda não ficar com o que se chama peito.
Se quero fazer huma roda mais pequena, que não
careça de oito aspas, e sim de seis, reparto o circulo
em seis partes iguaes, e procedo da mesma
sorte que para a antecedente; lembrando-me sempre
de não fazer os pontos para os dentes em menos
de nove pollegadas, e podem hir a dez, que
he erro fazellos mais proximos, porque fica a cambóta
fraca; e que nunca deve haver dente, onde
a aspa assentar. Regra geral, o numero das aspas,
he o das divisões, e em cada divisão hum numero
certo de dentes, o que faz ver que nenhuma roda,
tomada no todo, tem os dentes impares. He
sabido de todos, que duas rodas, tendo huma de
fazer mover a outra, ainda que as dentaduras sejão
certas, se forem perfeitamente iguaes, não
podem trabalhar; he preciso que aquella, que está
unida á potencia, tenha huma certa folga nos
dentes, que devem ficar mais largos, que os da
outra, para trabalharem suavemente; a esta folga,
ou maior distancia dos dentes de huma, respeito
aos dentes da outra, he ao que os mestres chamão
compasso. Ora para acharem este compasso
nas medidas, que fazem, usão das maiores extravagancias;
e o que tem encontrado melhor, depois
de muitos erros, encobrem-no com mysterio
até aos seus aprendizes. Depois de ter feito a roda,
e graduado os seus dentes, para compassar os
do rodete, ou roda que trabalha com a potencia,
abro o compasso (cujas pontas devem ser bem agudas)
e com toda a certeza as assento nos pontos
de dois dentes, o que me dá a distancia de dente
a dente. No centro de huma regoa comprida traço
huma linha, e por esta linha messo, ou conto
quinze compassos; a distancia destes quinze compassos
deve ser signalada por dois pontos. Abro
agora o compasso mais, e a linha descripta dos
quinze divido em quatorze; esta pequena differença
de quatorze a quinze he o apartamento, ou
folga, que devem ter de mais os dentes do rodete,
respeito aos da roda. Se tenho graduado o rodete
primeiro, faço o mesmo que na roda; mésso pelo
compasso a distancia de hum dente a outro; na
linha traçada conto quatorze compassos, aperto
o compasso hum tanto, para que a distancia dos
quatorze se reduza a quinze: esta pequena
diminuição
he, o que devem ter de menos distancia,
os dentes da roda aos do rodete.
Devo lembrar, que estas medidas devem ser
exactas, e que os pontos signalão o centro dos
dentes. Se as rodas, ou rodetes tem os dentes em
coroa, a medida, ou compasso deve ser tomado
na cambóta; se os dentes são em estrella, deve
o compasso ser tomado no centro da ponta do dente.
Segundo o destino da máquina, que se quer
fazer, póde o rodete ser pequeno, e a roda grande;
o rodete ser grande, e a roda pequena,
ou
ambos de igual tamanho; porém he regra geral,
que a roda, onde trabalha a potencia, seja
grande, ou pequena, he a que deve ter folga nos
dentes, quero dizer, serem mais apartados, o que
vai de quatorze a quinze, que a outra roda, qualquer
que seja a grandeza.
Os dentes das rodas podem ser todos de coroa,
e todos estrelados; em humas, de coroa, e
em outras estrelados; porém observando-se as regras
dadas, he facil fazellos de qualquer sorte.
He indifferente, que os dentes de qualquer roda
sejão delgados, ou grossos, com tanto que sejão
iguaes em grossura. Hum terno de moendas com
tres palmos de diametro, e oito dentes cada huma,
graduados estes dentes pelo centro da sua ponta,
regidos pela moenda do meio, que he a motora,
e a que deve ter a folga, podem ser os dentes
de cada huma desiguaes, respeito ás outras,
sem defeito no trabalho; todos os dentes da moenda
do meio podem ser muito grossos; menos grossos
os da de hum dos lados, e mais delgados os
da outra, e assim mesmo podem trabalhar com
perfeição. Os dentes das rodas de coroa devem
ser redondos a torno; os em estrella tambem a
sua ponta deve ser redonda, acabando em semicirculo,
segundo o seu diametro. O aguilhão do
eixo, onde anda o rodete, não deve ser fixo nelle,
ha de andar junto n'huma caixa de bronze;
porque, como se ha de gastar pelo movimento, para
o recalçar, basta levantar com huma alçaprema
o mesmo eixo, e logo o aguilhão cahe,
oppõem-se-lhe
outro, que deve haver de sobrecellente. As
almanjarras hão de ficar n'huma altura tal, que os
tirantes, por onde puxão as bestas, corrão em
linha
horisontal ao seu peito; puxão mais desta sorte,
e fatigão-se menos. A besta puxa com o seu
pêso, e o esforço dos seus musculos serva para
renovar
este pêso, se os tirantes estão muito baxos,
o pêso, que devia empregar-se a puxar, perde-se
em levantar o eixo, e se estão muito altos, a besta
he levantada por diante, e as suas mãos não
achão na terra hum apoio sufficiente para renovar
o seu movimento.
Como se moe
Canna actualmente.
As moendas, de que actualmente se usa na Capitania
do Rio de Janeiro, tem de tres a quatro
palmos de diametro, e outro tanto, pouco mais
de altura.
A sua dentadura he no meio da moenda;
alguns engenhos, rarissimos, tem as moendas dentadas
na parte superior, e aguilhões inteiros de
ferro; porém o commum he terem os dentes no
meio do corpo da moenda, e meios aguilhões de
ferro, e na parte superior hum pescoço, que faz
as vezes de meio aguilhão, feito de hum páo
solido.
Saõ chapeadas de ferro meio largo: estas
chapas tem hum palmo de comprido, e são afastadas
humas das outras a quarta parte de huma
pollegada, ou tres linhas; e pregadas no madeiro
da moenda com seis pregos curtos, e grossos. A
meza, em que estão assentadas estas moendas, não
tem mais altura, que a de quatro a cinco palmos.
Qualquer que seja a potencia que as faça mover,
a Canna he sempre mettida nellas da mesma sorte.
Hum Escravo appresenta hum feixe de Canna
pela sua ponta em linha horisontal, entre a moenda
do meio, e huma das dos lados; continua a
metter segundo, terceiro, quarto, quinto, e sexto
e outro Escravo da parte opposta, á
proporção que
os feixes de Canna passaõ, depois de espremidos
na primeira, os appresenta da mesma sorte á segunda:
tornão a passar pela primeira, e repassar
pela segunda, o que faz que esta Canna seja espremida
quatro vezes, sempre em linha horisontal.
Em alguns engenhos chegão a passar cinco, e
seis vezes, porém o commum são quatro. Sobre
estas quatro passagens, e suppondõ tres palmos
de diametro nas moendas, he que eu faço o meu
cálculo; e tambem supponho, que hum carro de
Canna contém cento e cincoenta feixes; de seis
Cannas, se são grossas, de oito, se saõ delgadas,
e do comprimento de seis palmos. Tres palmos de
diametro são nove de circumferencia, dando quatro
voltas a moenda, tem passado, e repassado os
seis feixes; dando outras quatro voltas, tem feito
passar os seis feixes reduzidos a bagaço, por consequencia,
para se espremerem seis feixes de Canna,
he preciso que as moendas dem oito voltas,
as quaes n'hum engenho de bestas bem corrente
se não dão em menos de seis minutos, o que
faz
precisar duas horas e meia para se moer hum carro
de Canna, com o numero de feixes, e comprimento
acima ditos, e nove para dez carros, em
vinte e quatro horas.
Notas sobre
esta fórma de
moer
As moendas tem pouca altura da dentadura para
baxo, onde anda a chapeação, e póde
metter-se
Canna, que não deve chegar aos dentes; e para
isto se conseguir, he preciso que os feixes se appresentem
á moenda em linha horisontal. A meza
he muito baxa, e como o Escravo, curvando-se
hum pouco, chega com as mãos á moenda, onde
as costuma ter para amparar, e empurrar as partes
minimas da Canna, a que se chama bagaço, he
causa de accidentes, e de muitos Escravos ficarem
sem mãos, o que todos os annos succede em hum,
ou outro engenho.
A chapeação das moendas he grande erro;
huma moenda de tres palmos de diametro, que
fazem nove de circumferencia, precisa de vinte
chapas; a seis pregos, são cento e vinte pequenas
cunhas, que mettidas com muita força pelo comprimento
do madeiro da moenda, a faz abrir em
pequenas raxas, onde póde introduzir-se alguma
porçaõ de sumo de Canna, e não
póde chegar a
lavagem; porque he agua simplesmente lançada,
e a quem falta o aperto, que soffre o sumo da
Canna entre as moendas.
Esta pequena porção de sumo huma vez introduzida
nestas raxas, azéda, e serve de fermento
para fazer desmerecer o sumo que se espreme;
e todos sabem, que huma mui pequena porção de
acido impede o fazer Assucar, e deteriora a sua
qualidade. Ainda mesmo que o madeiro esteja perfeito,
sempre o sumo se introduz por baxo das
chapas, e a agua da lavagem não póde
lá chegar.
Esta chapeação não impede que as
moendas
sejão torneadas todos os annos, ou todos os dois
annos; he preciso arrancar as chapas, e depois de
torneado o madeiro, repregallas em outro lugar,
tapando com tornos, os buracos, onde estiverão os
pregos; por mais solido que elle seja, não póde
resistir a tres, ou quatro operações destas, sem
que fique fóra de serviço. Vinte chapas, de mais
de duas linhas de grossura, são quarenta angulos,
ou cunhas, que cortão, ou mordem as Cannas,
que á terceira passagem ficão reduzidas a partes
minimas, cujo bagaço, para passar a quarta vez, he
preciso que o Escravo o empurre, e ampare com
as mãos entre as moendas, para poder espremer-se,
e ainda nesta quarta passagem sahe humido. As
ultimas vezes, que este bagaço passa nas moendas,
faz tanta resistencia, que se são de meios
aguilhões,
succede aluirem para os lados, e se são inteiros,
quebrarem. O bagaço, quasi reduzido a pó,
só serve
para estrume depois de ter apodrecido na bagaceira,
o que infecta o ár, que se respira á roda da
fábrica, e faz sempre sentir hum máo cheiro.
Nova
fórma de moer.
As moendas devem ter tres palmos, e pouco
mais de altura, até á dentadura; devem ter tres
palmos de diametro, ser feitas de hum páo bem
firme, e bem lisas, sem chapeação. A meza deve
dar pelos peitos de hum homem, e ter cinco palmos
de largura, inclusos os taboleiros. A Canna
ha de ser appresentada á moenda em linha obliqua,
fazendo hum angulo de quarenta e cinco gráos,
com pouca differença, e perto da dentadura. Assim
que esta Canna passou, o Escravo da parte opposta
deve dobralla, e appresentalla á moenda pela
sua curvatura, tambem em linha obliqua. Com estas
duas passagens fica a Canna melhor espremida,
que com as quatro, ou mais, que actualmente se
usão.
Para que este serviço continue sem
interrupção,
he preciso que o Escravo, que mette Canna,
appresente á moenda de doze a dezaseis de
cada vez, segundo a sua grossura; o Escravo, da
parte opposta, pega em seis, ou oito destas Cannas,
dobra-as, e appresenta-as á moenda pela sua
curvatura, e faz o mesmo ás outras seis, ou oito,
e assim continua o serviço; porque tendo a Canna
seis palmos de comprido, dobrada fica em tres, e
he preciso que as moendas estejão sempre cheias.
Por mais molle que seja hum páo proprio para moendas,
sempre he muito mais duro que a Canna,
que, sendo hum corpo esponjoso, deprime-se facilmente;
o muito uso poderá gastallo, e será preciso
torneallo, porém creio certamente, que ha de
precisar muito mais tarde deste beneficio, que as
moendas chapeadas, e ha de conservar mais annos
a sua solidez. Conheço huma fábrica de Estampas,
que imprime de oito a dez mil todos os annos,
e trabalha há mais de vinte; que os dois cilindros,
que fazem a fieira, e apertão entre duas
taboas a chapa da impressão, ainda não
forão torneados,
nem o precisão; accrescendo ser isto hum
trabalho de páo contra páo, muito differente da
Canna, que he hum corpo muito mais molle. A
Canna, appresentada em linha horisontal, faz aperto
n'huma parte da moenda sómente, e, appresentada
em linha obliqua, trabalha com todo o corpo.
He certo que as moendas de páo são hum remedio;
devião ser tambores, ou cilindros de ferro, assim
como se pratica nas Antilhas, despesa que se faz
por huma vez, porém em quanto se não
põem em
prática, deve degradar-se a chapeação,
por ser
desnecessaria, e nociva.
Comparação
da moagem actual
com
a que se
propõem.
Pelo methodo usado, dando a moenda quatro
voltas; são trinta e seis palmos de superficie; tendo
os feixes seis palmos de comprido, e, appresentando-se
em linha recta, ou horisontal, passaõ, e
repassão seis feixes; dando outras quatro voltas,
passão, e repassão em bagaço,
são precisas oito
voltas para moer seis feixes de Canna, o que não
póde fazer-se em menos de seis minutos. He certo
que estes feixes de Canna só tem os seis palmos
de comprido na primeira, e segunda passagem,
ficando reduzidos a pequenas partes para a terceira,
e quarta, o que fará parecer gastarem menos
tempo nas duas ultimas; porém isto deve considerar-se
nullo, pelas paradas que nestas occasiões
fazem as bestas, por ser preciso redobrar o seu
esforço para vencer a resistencia, que o bagaço,
ou Canna, reduzida a pequenas partes, lhe offerece.
Pelo methodo proposto, appresentando-se a Canna
á moenda em linha obliqua, tendo seis palmos de
comprido, fica reduzida a quatro e meio, e he preciso
nas quatro voltas fazer oito entradas, para ganhar
a superficie das moendas, cujas entradas sendo
de doze a dezaseis Cannas, que são dois feixes,
fazem dezaseis; e como passão, e repassao simplesmente,
em quanto nos seis minutos, pelo methodo
usado se moem seis feixes; moem-se pelo
methodo proposto trinta e dois, e por consequencia
hum carro de cento e cincoenta feixes em
menos de trinta minutos, que em vinte e quatro
horas faz mais de cincoenta carros. Pelo methodo
usado, hum feixe de Canna, appresentado á moenda
em linha horisontal, o aperto que soffre faz,
que estas Cannas fiquem sobrepostas humas acima
das outras; ellas, que tem huma pollegada pouco
menos de diametro, ficão bem espremidas, passando
por huma fieira de huma a duas linhas; porém
do sumo que espremem, que tem de circumdar
a superficie de quasi todas as Cannas, sò huma
pequena parte cahe na meza, e a maior parte,
fluctuando por cima dellas, logo que cessárão de
soffrer a compressão, sendo de natureza esponjosa,
e elastica, tornão a beber o sumo espremido.
Na segunda passagem pouco aperto percebem; porque
passão por huma fieira igual á primeira, e por
consequencia he preciso que sejão reduzidas pela
chapeação a partes minimas, para se lhe
aproveitar
o sumo. Pelo methodo proposto, appresentando-se
a Canna em linha obliqua, quando recebe
o aperto, dá sahida ao sumo pela mesma Canna,
e deposita na meza todo, o que espreme.
Quando acabou de passar a Canna, e o Escravo
da parte opposta a dobra ao meio, para a
appresentar na mesma linha obliqua; pelo seu angulo,
ou curvatura, recebe na fieira da moenda
hum aperto maior que o primeiro; porque em igual
ou superior volume, tem partes mais solidas que
comprimir, faz ficar o bagaço sècco, inteiro,
apto
para se fazer em feixes, que podem servir para as
fornalhas; o que he impossivel no methodo usado,
porque fica reduzido quasi a pó. A differença
de hum a outro methodo he de nove a cincoenta,
vantagem inapreciavel em semelhantes
fábricas.
Eu não sei que haja em todo o Brasil, quem reuna
forças para moer esta quantidade de Canna de
Junho a Setembro, que he o verdadeiro tempo,
e são cem dias de serviço; talvez não
haverá meia
duzia de fábricas, que possão fazer ametade,
porque
então farião de seis a sette mil arrobas de
Assucar.
Vejo que há engenhos, que para tres, ou
quatro mil arrobas, principião em Maio, e acabão
em Dezembro, por não poderem mais, empregando
dia, e noite neste trabalho, e assim mesmo
perdem Canna, que não podem moer. Trabalhando-se
desta sorte, os homens, e os animaes se estragão,
o dia he para trabalhar, e a noite para
descançar, esta a ordem da natureza, que se não
inverte impunemente.
Adoptando-se esta fórma de moer, póde a
noite ficar salva. Principia-se das quatro horas da
manhã até ao meio dia, das duas horas da tarde
até ás dez da noite; nestas dezaseis horas de
serviço,
cada hum póde trabalhar, segundo as suas
forças. Suppondo que quer moer dezaseis carros
de Canna, faça appresentar á moenda só
seis, ou
oito Cannas (que he hum feixe) continuadamente,
na repassagem faça dobrar tres, ou quatro,
tudo como acima se diz, e desta sorte póde augmentar,
e diminuir, segundo as suas forças, e
vontade. Nestas duas horas depois do meio dia, e
ás dez da noite, basta que sejão lavadas
ás moendas,
menos que o calor não seja intenso, ou que
haja trovoadas; porque então todas as vezes que
se enche o cocho, devem ser lavadas.
Veja-se
a
Estampa IV.
Descripção
do que
contém a casa de caldeiras
actualmente.
A Casa de
caldeiras, onde se fabrica o Assucar,
he de cinco a oito palmos, mais baxa que a do engenho,
e contém o que se segue. Parois de caldo frio,
Parois de caldo quente, Rominhois, Espumadeiras,
Batedeiras, Repartideiras, Caldeira, e Coxinha,
Bangué com suas tachas, Esfriadeira, Fôrmas
para lançar a calda, de que se faz o Assucar
bruto, Carcanha, Massa de Mamono, Espatulas,
Tanque de preparar o barro, que ha de clarificar
o Assucar, Vasos com decoada, e Vasos com agua.
Parol de caldo frio, he hum cocho, ou especie de
tanque, feito de taboas, e pelo commum cavado
n'hum grosso madeiro, com maior, ou menor comprimento,
e largura, e capacidade de conter tanto
liquido, quanto encha a caldeira, sem sobejar. Há
alguns engenhos, que já os tem de cobre.
Parol de caldo quente, he o mesmo que de
caldo frio, porém maior, por ser destinado a receber
o liquido depurado da caldeira, huma, e
mais vezes, donde passa para as tachas. Rominhol
he huma especie de cassarola de cobre, que pòde
conter de quatro a seis libras de agua; quando tem
hum cabo comprido, e com elle se tira o liquido
da caldeira para o parol de caldo quente, toma o
nome de pomba. Espumadeira, todos sabem o que
he, a que serve nos engenhos, tem hum cabo até
dez palmos. Batedeïra, he huma chapa de cobre
circular, com pouco mais de hum palmo de diametro,
huma concavidade de duas pollegadas no
centro, que vai diminuindo para a circumferencia,
com hum cabo comprido. Repartideira, he huma
especie de cassarola de cobre, que póde conter
até dez libras de agua.
A Caldeira, he pelo commum de ferro, tem
de cinco a seis palmos de diametro na boca, outro
tanto de altura, sendo menos larga no fundo;
he assentada de fórma, que fica a sua boca pouco
mais alta que a superficie do terreno, sendo este
ladrilhado á roda della, com huma pequena
inclinação,
que faz correr as espumas que a Caldeira
lança a hum receptaculo, a que se chama Cochinha.
A Cochinha, he hum pequeno tanque de
taboas, que tem seu registo; o liquido que recebe,
que não são espumas, torna a passar para a
Caldeira; as espumas por huma calha coberta, vão
depositar-se ao seu receptaculo na casa da aguardente.
Bangué, he huma fornalha comprida, com
quatro palmos de altura, que contém tres, quatro,
e cinco tachas de ferro, de tres a quatro palmos
de diametro, da maior á menor, que se distinguem
com os nomes, quando são tres (o que he
o mais commum) de tacha de receber, de cozer,
e de bater. No mesmo bangué está outra tacha
encravada,
que não recebe fogo, que se distingue
com o nome de bacia, ou esfriadeira, e he de cobre,
para onde passa a calda de Assucar em ponto,
e desta bacia he que vai para as fôrmas. As
fôrmas são feitas de barro, de figura conica, de
dois palmos pouco mais de diametro na boca, acabando
para o fundo quasi agudas, com hum buraco
de meia pollegada. A Espatula, he huma especie
de pá de taboa, que serve de mexer o Assucar
nas fôrmas, e impedir a sua mui prompta
condensação.
A Carcanha, he o aparelho de fazer a
decoada, que se faz com a cinza de toda a lenha,
preferindo a de gorarema, ou páo de alho, que se
tem reconhecido ser rica em alcali; a esta cinza
misturão algumas hervas acres, para augmentar o
que chamão queimo da decoada; enchem com
esta cinza, e hervas, doze a vinte fôrmas, que
ficão
levantadas do chão alguns palmos, enfiadas em
buracos proporcionados feitos em taboas; lanção
em cima destas fôrmas agua quente, que, filtrando-se
por entre as hervas acres, e a cinza, cahe pelo
furo da fôrma gotta a gotta, n'hum recipiente,
donde se tira para o uso. A massa de Mamono,
são as sementes deste vegetal bem pizadas. O tanque
de preparar o barro, he hum cocho, no qual
se deita muita agua, e barro, que com hum rodo
se faz dissolver, ficando n'huma especie de lodo,
que se lança em cima das fôrmas de Assucar bruto.
Os vasos, onde está a decoada, e agua para o
uso, são fôrmas com algum defeito, a que se tapa
o buraco que tem no fundo.
Como se
trabalha na fàbrica do
Assucar.
Cheio que seja o parol de caldo frio, do sumo
das Cannas espremidas nas moendas (o que actualmente
se não faz em menos de quatro a seis horas)
corre por huma calha para a caldeira, que fica hum
palmo por encher.
Esta caldeira, que tem sua fornalha particular,
e hum Escravo, que a serve com lenha, principia
a receber hum fogo violento; á
proporção que
o liquido aquece, sobe á sua superficie huma especie
de gusmo, a que se chama cachassa, que
he tirada com a espumadeira pelo obreiro, que governa
a caldeira, e lançada na cochinha para por
huma calha ser conduzida á casa da aguardente.
Esta operação, a que se chama descachassar a
caldeira, dura tanto tempo, quanto tarda o ferver
o liquido, o que pelo commum, segundo o grande
calor que recebe, não chega a meia hora. Logo
que ferve, principia o uso da decoada; lanção-lhe
mais, ou menos rominhois della, segundo que o
sumo da Canna contém mais, ou menos partes oleosas,
e tem maior, ou menor densidade; e se he
muito denso, e rico em sal, interpoladamente se
lhe lança agua, e decoada. Esta decoada, combinando-se
com o oleo, faz hum sabão, que náda
na superficie do liquor em fórma de espuma, que
he tirada á proporção, que se ajunta.
Quando a violencia do fogo, dilatando o liquido,
o faz sublevar acima das bordas da caldeira, às vezes hum, e
dois palmos; huma pitada de
massa de Mamono, lançada em cima, instantaneamente
o faz abater, e reduz a mais de hum palmo
abaixo das bordas della. O signal, para se conhecer
se o liquor desta caldeira tem o cosimento
preciso, a que chamão estar limpa, ou ajudada,
he hum segredo, de que fazem mysterio os Mestres
de Assucar; ora isto he huma gente, pretos,
pardos, ou Indios, que pelo commum não sabem
lêr, e, em quanto a mim, não tem outro merito,
e sciencia, que a de serem fiéis, duros ao somno,
e terem hum pouco de cuidado, por ser preciso
nestas fábricas trabalhar de dia, e de noite. Quando
se julga limpo o liquido da caldeira, passa ao
parol de caldo quente, onde he lançado a braço,
pelo
caldeireiro, com a pomba. Continua o trabalho
com mais caldo frio; estando prompto, passa ao
parol de caldo quente, e quando neste parol há
quantidade sufficiente para passar ás tachas, e, que
depois destas trabalharem, não possão parar
á falta
delle, enche-se a primeira tacha, chamada de
receber, depois de ter aqui engrossado alguma cousa,
passa della a braço para a de coser, e desta para
a de bater. Assim que o liquido passou da tacha
de receber para a de coser, enche-se a de receber,
e assim progressivamente, de sorte que as
tachas não fiquem paradas. Todas estas tachas são
espumadas, e levão massa de Mamono. A fórma
de bater na ultima tacha, he levantar o liquido,
que já está em calda, com a batedeira, e virallo
com inclinação sobre huma parede alta, forrada de
tijolo, que borda, e circumda, mais que ao meio,
a mesma tacha, e quando suppõem ter alcançado
o ponto necessario, he, desta tacha de bater, passado
para a bacia de esfriar, e daqui com a repartideira
vai para as fôrmas, que estão no que se
chama tendal, que he huma especie de anteparo,
cheio de bagaço de Canna, em cima de cujo bagaço
estão as fôrmas, que são no numero de
sete,
a que chamão huma venda; não se enchem de huma
vez, he repartida a calda por todas; e como
a quantidade, que se apurou, não chega para as encher,
completão-se com o segundo, e terceiro cosimento.
Esta calda, lançada nas fôrmas, he mexida
com a espatula, para impedir a condensação,
e agregação mui prompta da gran do Assucar, a
que chamão coalhar.
Quando
as fôrmas ficão cheias,
e o Assucar coalha, tira-se a rolha, que tapa o
buraco do fundo, para dar sahida ao mel, ou Assucar
decomposto, cujo mel he conduzido por huma
calha ao seu receptaculo. O Assucar mui trigueiro,
que contém estas fôrmas, he o que se chama
Assucar bruto. Passão agora do tendal para a
casa de purgar. Esta casa he assobradada, e nas
taboas do soalho há muitos buracos redondos, de
seis pollegadas de diametro, onde se firmão as
fôrmas,
para serem barreadas.
A coxia, ou casa, que fica por baxo deste
sobrado, he ladrilhada com inclinação das paredes
ao centro, onde há hum canal, que recebe o mel,
que as fôrmas de si lanção, e o conduz
a hum tanque,
donde se tira para o uso. Do tanque de preparar
o barro, se tira em huma vasilha, a especie
de lodo, a que he reduzido, e se lança em cima
das fôrmas: este lodo, que conserva a agua em
si, a vai largando a pouco, e pouco, a qual, introduzindo-se
por entre o Assucar, precipita o mel,
para sahir pelo buraco do fundo da fôrma. Sêcco
que seja este barro, tira-se da fôrma, lança-se
segundo,
e ainda terceiro. Com estes tres barros,
se suppõem ficar a fôrma, como chamão,
lavada.
Succede poucas vezes ser o Assucar desta fôrma
todo branco, o commum he ser branco da superficie,
até huma terça parte da fôrma, menos
branco
a segunda terça parte, trigueiro, dos dois terços
para o fundo. Estas tres especies de Assucar,
se distinguem com os nomes de fino, ou redondo,
batido, e mascavado; este ultimo he ainda subdividido
em diversos mascavados, segundo, que he
mais, ou menos trigueiro.
O Assucar, assim trabalhado, diminue huma
terça parte, pouco mais, ou menos, em quantidade
de sorte, que, se as fôrmas contém tres arrobas
de Assucar bruto, fica reduzido a duas de todas
as qualidades. Depois que o Assucar se suppõem
purgado, passa da casa de purgar para o terreiro,
ou eira, onde he tirado das fôrmas, e com
hum facão divididas as qualidades; e depois de reduzido
a pequenas partes, he lançado em differentes
toldos, ou lençoes de panno grosso, para
que o calor do Sol lhe faça evaporar a humidade,
e desseque.
He dalli conduzido á casa do encaixe, onde
se deita em caixas, que podem conter de quarenta
a cincoenta arrobas; e socado a pilões; e pregadas
as caixas, conduzidas ao armazem, ou trapiche,
onde, depois de julgadas as qualidades pela
Meza da Inspecção, he vendido.
Notas sobre
esta fórma de fazer
Assucar.
Por não se saber moer Canna, gasta muito tempo
o parol a encher-se. Nestas quatro, e mais horas,
que o sumo da Canna, liquido mui composto,
se deixa em repouso, fermenta; o que deprava o
liquor, e diminue a quantidade de Assucar, e sua
qualidade.
Se o parol he de madeira, conserva sempre
em si hum fermento, que ajuda extraordinariamente
esta deterioração. Quando o caldo da Canna
passa do parol para a caldeira, vai frio; esta,
que he de ferro coado, e está muito quente, recebendo
repentinamente huma impressão tão
estranha,
póde rachar, o que muitas vezes succede.
Hum calor moderado, que faz subir á superficie
do liquor, as partes impuras, a que se chama cachassa,
não dura o tempo que he preciso; logo
que a caldeira levanta fervura, todas as partes são
confundidas: a decoada, que se lhe lança, tem
a propriedade de se combinar com as partes oleosas,
e acidas, e de nenhuma sorte com este gusmo,
que incorporando-se com o Assucar, o faz
trigueiro, e perder a qualidade. O obreiro, que
governa esta caldeira, ainda que o descachassalla
não dure meia hora, faz hum trabalho fatigante,
pela postura curva, em que he preciso estar; e
mais se fatiga ainda, quando, julgando-a limpa,
lança o liquido a braço com a pomba, no parol de
caldo quente. Os parois de caldo quente, tem o
mesmo defeito, que os de caldo frio, se são de
madeira; e se o liquido, que nelles se deposita,
chega a esfriar, o que quasi sempre succede. O
bangué, he proporcionado ao pouco, que se trabalha.
A construcção desta fornalha, he positivamente
má, o fogo faz o seu effeito inversamente.
A tacha, chamada de receber, que póde com
mais calor, por ser o liquido que contém, menos
denso, he a ultima proxima á chaminé; a de cozer,
está no meio, a de bater, e apurar o Assucar,
he junto á boca da fornalha.
Para que a tacha de receber tenha maior calor,
descobrem-lhe mais o fundo, menos a de cozer,
e muito pouco á de bater. Ainda que o liquido,
que contém estas tachas, esteja a ferver,
a voz do Mestre de Assucar não cessa de dizer:
Fornalheiro, deita lenha.
Este fogo demasiado decompõem o Assucar,
transforma-o em mel, ou Assucar queimado. Em
algumas fábricas há já
bangués, em que quatro, e
cinco tachas recebem o fogo directamente; porém
os obreiros, que as fazem, gente material, e sem
principios; os Mestres de Assucar, tirados do seu
trilho, sem capacidade para moderar o fogo, que
pela fornalha direta, se augmenta muito; huma
boca mui pequena, que nellas se pôz, e faz precisar
o rachar-se lenha, ou servir-se só de lenha
miuda; hum crivo desproporcionado, a boca da
fornalha aberta, todas estas cousas fazem, com
que a maior parte use das antigas.
A bacia, ou esfriadeira, he inutil. As fôrmas
de barro tem pequena base, e muita altura; ainda
que estes defeitos não fossem bastantes, a sua
fragilidade devia fazellas desprezar. A decoada, e
fórma de a fazer, não póde ser mais
defeituosa;
as hervas acres, só servem de a tingir, e a côr,
que lhe communicão, se incorpora com o Assucar.
Tenho visto parar engenhos, e bem notaveis, por
falta de decoada; ainda que haja cinza, são precisos
dois, e tres dias para se fazer; não há regra,
humas vezes he forte, outras fraca.
A massa de Mamono, quasi sempre he podre,
ao menos conserva hum cheiro detestavel. Não há
escolha no barro para clarificar o Assucar; qualquer
serve, he sempre de hum cinzento escuro,
e quando, depois de sêcco, se tira de cima da
fôrma,
deixa encostrado sobre o Assucar, hum sedimento
negro. A fórma de seccar o Assucar no terreiro,
he pessima; além de ser preciso ter sentinela,
ainda que quem o vigia, seja hum Argos,
não impede, que se furte muita parte; a formiga,
a galinha, o cão, o porco, todos o comem; o vento
faz depositar nelle mil impuresas; se há chuvas
continuadas, o que succede muitas vezes, não podendo
as fôrmas sahir da casa de purgar, mélla o
Assucar nellas; a estufa salta aos olhos, porém
ninguem a pôz ainda em prática. O bater
a calda,
levantando-a da tacha na batedeira, com
inclinação
sobre huma parede, onde cahe muita parte
della, não sei que isto possa servir para fazer Assucar,
vejo que se faz hum encostramento na parede,
que he preciso fação para o arrancar; esta
especie de Assucar encostrado, a que se chama rapadura,
para ter algum valor, he preciso tornar á
primeira tacha, e antes que a ella vá, tem mil
descaminhos. O tanque do mel, além de ser huma
verdadeira sentina, hum aggregado de mil imundicias,
o mel faz apodrecer o tijolo, a que faz
perder pela terra muita parte, que bem acondicionada,
se aproveitaria em aguardente.
Principios,
que devem conduzir o fabricante de
Assucar.
Quando de hum todo, ou composto, se quer
extrahir huma parte, he preciso conhecer esta
parte, e as mais, que com ella fazem o mesmo
todo, e saber a fórma de as separar. O Assucar
purificado, segundo
Cartheuser, he
hum corpo
concreto, salino, formado de huma terra soluvel,
de hum acido subtil (de que huma parte he intimamente
unida a huma base alcalina, e calcarea)
e de huma substancia oleosa inflammavel.
O sumo, ou caldo de Canna, que contém
este sal delicioso, he hum composto de agua,
mel, oleo, e acido; e das materias extractivas,
da casca, dos nós, e das fibras longitudinaes da
mesma Canna.
Deve-se buscar na fábrica do Assucar, o separar
estas tres especies de materias extractivas,
rezinosas, ou feculas (que fazem o que se chama
cachassa) o oleo, e acido superabundantes, e evaporar
a agua.
Estas operações, que são chymicas,
sendo
bem feitas, constituem o bom Mestre de Assucar.
O unico meio, até agora conhecido, para
separar as tres feculas, que fazem a cachassa, he
hum calor, que a mão não possa supportar,
porém
que de nenhuma fórma chegue ao gráo de fervura.
Para separar o oleo, e acido superabundantes, não
se sabe de outro meio mais, que os alcalis, vegetal,
e calcareo, quero dizer, as decoadas de cinza,
e de cal, combinadas.
Qualquer destas duas decoadas por si, tem
a propriedade de se unir aos oleos, e acidos, e fazer
com elles hum sabão, que se mostra na fórma
de espuma; porém Bergman observou, que o alcali
calcareo prefere o acido, e o alcali vegetal o
oleo; o que faz precisar a combinação destas duas
especies da alcalis, para a depuração do Assucar.
Se o sumo, ou caldo de Canna he muito aquoso,
oleoso, acido, pouco assucarado, quero dizer, produzido
por huma Canna taióba, ou selvagem, deve
ser servida a caldeira com decoada pura, no
ponto, em que fica, segundo a fórma de a fazer,
que logo direi.
Se, pelo contrario, he rico em sal, pouco aquoso,
muito denso, produzido por huma Canna de
boa qualidade, deve a decoada ser enfraquecida
com agua pura. Esta maior, ou menor força da
decoada, he relativa ao sumo, ou caldo de Canna,
por ser preciso ter, onde se empregue, para
deteriorar o Assucar, e communicar-lhe hum gosto
lexivial.
A evaporação da agua deve ser feita por hum
fogo graduado, e poupado; por ser fysicamente
demonstrado, que qualquer liquido, chegando a
levantar fervura, tem alcançado o maior gráo de
calor, de que he capaz, e que he em pura-perda,
toda a mais lenha, que se lança na fornalha. Este
calor demasiado, perdido para a evaporação,
decompõem
o Assucar, e o reduz a mel, ou Assucar
queimado. A evaporação de qualquer liquido, he
em rasão da sua superficie; para esta se augmentar,
he preciso levantar o liquido, e deixallo cahir
em columna; tanta he a superficie desta, quanta
a augmentação da
evaporação, respeito á que tinha
na tacha simplesmente fervendo.
Todo o liquido mucoso, doce, tendo fluidez
sufficiente, ajudado pelo calor, e influxo do ár,
entra promptamente em fermentação. Esta
fermentação
decompõem o Assucar, que tranforma em
espirito, de sorte, que certa quantidade de liquido,
que produziria vinte, se chega a fermentar,
póde dar sómente quinze, dez, e mesmo nada, e
esse menos que se fizer, ha de ser de má qualidade.
O gráo de frio, que géla a agua, impede a
fermentação, porém este meio
só a natureza o póde
dar, e no Brasil he impossivel; o que temos na
nossa mão, e facil, he darmos, e conservarmos
hum calor ao liquido, que quasi o faça ferver. A
rasão porque se diz, ser bom trabalhar em quente,
e muito máo em frio, he por este frio ser
o do ár, que no Brasil ajuda prodigiosamente a
fermentação,
e o quente, he o liquido quasi fervendo,
que a impede.
Ora, sahindo o caldo quasi fervendo da caldeira,
e passando ás tachas quasi com esta quentura,
trabalha-se bem, e apura-se o mais possivel;
esfriando no parol, assim que alcança o calor,
que favorece a fermentação, entra logo nella,
porque a natureza não pára; e quanto mais tempo
assim se conserva, tanto mais se deteriora,
perde o rendimento, e custa a trabalhar.