Preparo para
manufacturar o Assucar.
Dois parois de cobre bem estanhados, que não
tenhão mais de dois palmos de altura, com sufficiente
largura, e comprimento, para conter cada
hum tanto liquido, quanto caiba na caldeira, sem
sobejar. Devem ser cubertos de taboas, para impedir
o mui livre contacto do ár; com hum furo
na tampa, para dar entrada a hum grosso, e comprido
funil, que recebe da calha o sumo da Canna,
e o deposita no fundo do parol.
Devem ter na parte mais commoda do fundo
hum grosso furo, onde he soldado, hum curto tubo,
que hum comprido torno tapa, para, quando
for tempo, dar sahida ao liquido, que huma calha
conduz á caldeira. Devem ter sua fornalha, que
póde ser commua a ambos, e serem
assentados
nella com huma pequena inclinação, para facilitar
a sahida do liquido.
Duas caldeiras, cada huma com sua fornalha;
assentadas o mais alto possivel, bordadas de
ladrilho, com sua cochinha para receber sómente
espumas. Dois funis grandes de folha de flandres,
com altura, que possão chegar ao fundo das caldeiras.
Hum bangué de tres tachas, cuja
proporção,
e fórma adiante descreverei. Quatro esfriadores.
O esfriador, he huma especie de caixão,
com dois palmos de altura, oito de comprido, e
tres de largo, feito de cossueiras de boa madeira,
bem aplainadas.
Cem fôrmas. A fôrma tem a figura de prisma
triangular, deve ser feita de cossueiras de boa madeira,
bem aplainadas, de quatro palmos de comprido,
dois, ou mais de largura, fazendo huma
abertura de dois palmos, fechando em baxo, e deixando
aberta huma fenda de duas linhas; aplainadas
no fundo, para fazerem hum assento de tres
a quatro pollegadas; as cabeças hão de ser
malhetadas,
e feitas com toda a solidez.
A
Figura II. da
Estampa VII., mostra a
fôrma vista com a boca para cima; e a
Figura
III.
mostra a mesma fôrma com o fundo para cima, e
a fenda aberta para escôo do mel.
Tres baldes de valvula em polé, hum para
servir as caldeiras, outro as duas primeiras tachas,
e o terceiro he para servir sómente a tacha, chamada
de bater. Estes baldes devem ser de estanho,
a valvula, do mesmo metal, assentada em
boa solla; a ponta desta valvula deve conter hum
pequeno aro, onde jogue hum arame grosso de dois
palmos, e meio de comprido; neste arame, que
acaba tambem em aro, prende huma delgada corda,
que, passando na polé, chegando á mão
do
obreiro, facilita-lhe o levantar a valvula, e deixar
cahir o liquido em columna, ou sobre huma calha,
segundo a necessidade. O balde tem dois palmos
de altura, e palmo e meio por cada face, e
póde conter noventa libras de agua; a valvula tem
pouco mais de hum palmo quadrado, e a columna
de liquido, que descarrega, he de hum palmo. O
apoio da polé está em tres palmos, a alavanca he
de seis, e como pésa mais, o obreiro balanceia
o pêso do balde cheio, com trinta e tantas libras.
A
Estampa VI.
mostra o trabalho do
balde. Huma
estufa. Esta casa tão util, absolutamente precisa,
que a negligencia, a ignorancia, a falta de
economia tem despresado, deve ter até vinte palmos
em quadro, feita de paredes mestras, cuberta
de abobada reforçada; com duas aberturas da
altura de hum homem, e cada huma com duas
portas, feitas de cossueiras; huma destas aberturas
communica com a casa de purgar, e a outra
com a casa de encaixe. Deve ter tambem huma
janella alta com dobradas portas, para se abrirem
defóra, quando for preciso refrescar o ár da
estufa.
Todas estas portas devem ter boas chaves. Dentro
desta casa, sobre pontaletes, se fazem tres taboleiros,
com taboas bem sêccas, bem desempenadas,
bem lisas, unidas com meio fio, que fiquem
acima huns dos outros, de seis a oito palmos. O
soalho desta casa, deve ser feito sobre abobada,
ou aterrado sobre ella. Na parte exterior, que
communica com a varanda, tem esta abobada huma
abertura, que dá passagem ao calor, communicado
por huma fornalha, a huma chapa de cobre
circular bem grossa, de tres palmos de diametro.
Esta fornalha tem seu cinzeiro, e he servida com
lenha pelo fornalheiro do Bangué. Quatro ensinhos
para os esfriadores. Este ensinho tem vinte dentes,
dezoito em prisma quadrangular, e os dois
dos lados, em prisma triangular, afastados huns
dos outros, duas linhas, e cada dente tem dois
palmos de altura. A
Figura II.
da
Estampa V.,
mostra os dentes vistos de topo, com a
disposição,
figura, e distancia, que devem ter no seu estado
natural; o escuro da Figura, he a espiga, que se
introduz no taboão, onde se firma o cabo porque
puxa o obreiro.
Alguns pannos, para servir de coadores. Espumadeiras,
Rominhois, Repartideiras, Manteiga
de cacáo, ou qualquer oleo doce, para impedir a
sublevação do liquido. Vasilhas de barro para
decoada,
porque as de madeira communicão-lhe côr.
Quatro raspas de ferro, que tenhão a fórma de
enchós
de martello.
Fórma
de fazer a decoada.
Peneira-se meio alqueire de cal, para separar
todas as partes não calcinadas; deita-se em huma
fôrma, ou qualquer vasilha de bom barro, eleva-se
a hum forno de telha, ou tijolo, ou a qualquer
parte, onde receba grande fogo; o calor, que aqui
recebe, faz evaporar a agua da sua extincção, e
a reduz a cal viva, ou virgem.
Deita-se esta cal virgem n'huma caldeira,
que contenha doze vezes o seu volume de agua;
depois de se demorar hum quarto de hora, tira-se
esta agua com hum rominhol, e se côa para outra
caldeira. Tomão-se duas partes de cinza, que
he hum alqueire (porque a cinza deve ter dobrada
porção da cal) e deita-se tambem n'huma caldeira,
que contenha doze vezes o seu volume de
agua, mexe-se bem com huma espatula, deixa-se
assentar, tira-se esta agua impregnada do sal da
cinza, e côa-se para a mesma caldeira, onde está
a agua de cal. Faz-se fogo a esta agua; a
evaporação
concentra os alcalis da cinza, e cal, faz-se de
vez em quando a prova, tirando n'hum rominhol
huma pouca desta decoada, deitando-lhe hum ovo
fresco em cima; quando este ovo não vai ao fundo,
que sobrenada huma parte delle, e descobre
meia pollegada, pouco mais, ou menos, está feita
a decoada no seu ponto. A cinza que ficou, tambem
não he perdida; deitada, e espalhada debaxo
Deita-se esta cal virgem n'huma caldeira,
que contenha doze vezes o seu volume de agua;
depois de se demorar hum quarto de hora, tira-se
esta agua com hum rominhol, e se côa para outra
caldeira. Tomão-se duas partes de cinza, que
he hum alqueire (porque a cinza deve ter dobrada
porção da cal) e deita-se tambem n'huma caldeira,
que contenha doze vezes o seu volume de
agua, mexe-se bem com huma espatula, deixa-se
assentar, tira-se esta agua impregnada do sal da
cinza, e côa-se para a mesma caldeira, onde está
a agua de cal. Faz-se fogo a esta agua; a
evaporação
concentra os alcalis da cinza, e cal, faz-se de
vez em quando a prova, tirando n'hum rominhol
huma pouca desta decoada, deitando-lhe hum ovo
fresco em cima; quando este ovo não vai ao fundo,
que sobrenada huma parte delle, e descobre
meia pollegada, pouco mais, ou menos, está feita
a decoada no seu ponto. A cinza que ficou, tambem
não he perdida; deitada, e espalhada debaxo
de hum alpendre, ou telheiro, o ár, em poucos
mezes, communica-lhe novos saes, e queimada de
novo, produz mais alcali.
Descripção,
e
proporções do
Bangué.
O Bangue deve conter tres tachas, a primeira,
a que chamão de receber, tem quatro palmos de
diametro na boca, a segunda tres e meio, e a terceira
tres. A primeira tacha, tem a boca quatro
palmos acima da superficie da casa, chamada de
caldeiras; a segunda tacha, seis palmos, e meio,
e a terceira oito palmos, e meio; o que faz precisar
haver degráos da primeira para a segunda, e
desta para a terceira; e huma rampa da ultima,
para a conducção da calda. A
disposição das tachas
desta fórma, he para a columna do fogo arrastar
pelo seu fundo, por huma linha de trinta gráos.
A boca da fornalha tem palmo, e meio, ou hum
pé quadrado, deve ser feita de ferro vergalháo
bem
grosso, e ter huma porta de ferro, que só deve
abrir-se, quando se servir com lenha. Da porta desta
fornalha, pela abobada, que cobre o cinzeiro,
se descreve huma linha de quinze gráos, até dez
palmos do interior della, onde fórma hum resalto
de dois palmos, e dahi se descreve outra linha de
trinta e cinco gráos, que tambem tem dez palmos
de comprido, e acaba na parede, que fórma a
chaminé.
Esta chaminé he hum quadrado de oito
pollegadas por cada face, que corresponde ao centro
da fornalha.
Na abobada, que cobre o cinzeiro, há hum
buraco de seis pollegadas em quadro, que corresponde
ao centro do fundo da primeira tacha, e
deve ser formado por huma barra de ferro vergalháo
grosso, quadrilaterado.
A boca deste cinzeiro, deve ter dois palmos
quadrados, e elle ser ladrilhado. A
Estampa
V.
Fig. I. mostra o bangué com as paredes
dos
lados
abatidas, para se ver facilmente todo o seu interior,
e proporções.
Num. 1, 2, e 3, as tres tachas; 4, a boca
da fornalha; 5, o vão da fornalha; 6, o resalto
de dois palmos; 7, a boca da chaminé; 8, a boca
do cinzeiro; 9, o vão do cinzeiro; 10, a
communicação
do cinzeiro, com a fornalha.
A linha de 4 a 7, he de 30 gráos: A linha de
6 a 7, he de 35 gráos: A linha de 4 a 6, he de
15 gráos: O cheio, são paredes de tijolo: O
ponteado
he o aterro.
Esta fornalha he a de Macquer, adoptada no
modo possivel á fábrica do Assucar. Servida com
lenha, o fogo accêso, a boca tapada, o ár
rarificado
dentro pelo calor, com tão prompta sahida
pela chaminé, absorve, pelo canal do cinzeiro, huma
columna de ár, com maior, ou menor rapidez,
segundo a sahida que tem.
Este ár, alimentando o fogo, o faz subir tambem
em columna ao centro do fundo da primeira
tacha, e daqui corre, arrastando o fundo da segunda,
e terceira, para sahir pela chaminé. Esta
sahida, que he de sessenta e quatro pollegadas
quadradas, respeito á da entrada, pelo cinzeiro,
que he de trinta e seis, augmenta extraordinariamente
o movimento, e por consequencia, a intensidade
do calor. Este calor, com dois tijolos na boca
da chaminé, modera-se, segundo a precisão.
Estando todo o vacuo da chaminé aberto, e a fornalha
com lenha sufficiente, he o maior calor possivel;
e com a mesma quantidade de lenha, tapando-se
mais, ou menos, a boca da chaminé,
diminue proporcionalmente. A fórma de alimentar
o fogo desta fornalha, he lançar-lhe dentro hum
páo, que tenha até seis pollegadas de diametro,
pouco mais, ou menos, com oito palmos de comprido,
cuja ponta se faz chegar até ao resalto, e
alguns feixes de bagaço; este páo se puxa com hum
gancho de ferro, a chegar a ponta a cobrir a
communicação
do cinzeiro, com a fornalha, á
proporção,
que o fogo a devora; e assim se continua,
A Estampa mostra tambem o fogo.
Preparo do
barro para clarificar o
Assucar.
O tanque de preparar o lodo, com que se ha de
clarificar o Assucar, he o actualmente praticado;
porém em lugar de barro cinzento escuro, deve,
usar-se de barro branco, de que há abundancia
em todas as partes, com o cuidado de o depurar
da arêa, e pirites. Piza-se, que fique em pó, huma
porção de barro branco bem sêcco,
deita-se
este pó n'hum cocho cheio de agua, agita-se com
hum rodo, e dá-se tempo a que as pirites, e arêas
como mais pesadas, se precipitem ao fundo. Esta
agua impregnada das particulas barrentas, tira-se
com hum rominhol para o tanque de preparar o
lodo. Continua-se o mesmo serviço, torna-se a
passar a agua impregnada do barro; e quando há
sufficiente quantidade, deixa-se assentar, e tira-se
a agua superabundante; e deste barro assim purificado,
he que se fórma o lodo, para clarificar o
Assucar. Se a agua, depois de precipitado o barro,
conserva alguma côr, deve-se tirar, e lanç
O tanque de preparar o lodo, com que se ha de
clarificar o Assucar, he o actualmente praticado;
porém em lugar de barro cinzento escuro, deve,
usar-se de barro branco, de que há abundancia
em todas as partes, com o cuidado de o depurar
da arêa, e pirites. Piza-se, que fique em pó, huma
porção de barro branco bem sêcco,
deita-se
este pó n'hum cocho cheio de agua, agita-se com
hum rodo, e dá-se tempo a que as pirites, e arêas
como mais pesadas, se precipitem ao fundo. Esta
agua impregnada das particulas barrentas, tira-se
com hum rominhol para o tanque de preparar o
lodo. Continua-se o mesmo serviço, torna-se a
passar a agua impregnada do barro; e quando há
sufficiente quantidade, deixa-se assentar, e tira-se
a agua superabundante; e deste barro assim purificado,
he que se fórma o lodo, para clarificar o
Assucar. Se a agua, depois de precipitado o barro,
conserva alguma côr, deve-se tirar, e lançar
outra, e agitar com o barro precipitado, até que
fique cristallina, para que não vá incorporar,
com
o Assucar, a côr, que o barro póde communicar-lhe.
Isto he trabalho, que se faz por huma vez,
porque este barro póde durar sempre.
Methodo para
trabalhar na fábrica do
Assucar.
Assim que o caldo da Canna espremida nas moendas
cahe da bica no funil, que o conduz ao fundo
do parol, accende-se logo fogo na sua fornalha,
cujo fogo se entretem gradualmente, de sorte,
que o liquido nunca chegue a levantar fervura;
porém que a mão não possa supportar o
seu
calor, o qual se conserva, em quanto os parois
contiverem liquido. Quando, depois de cheio o
primeiro, passa a bica para encher o segundo,
trata-se este segundo da mesma sorte que o primeiro.
Cheio o segundo parol, passa o liquido para
a primeira caldeira, por huma calha, que se
ajusta ao seu fundo, na parte, onde está o tubo
de descarga; e antes do torno se tirar, põem-se
hum coador sobre a calha, para não passar á
caldeira
mais que o liquido; devendo haver o maior
cuidado, quando se aproximar ao fundo o gusmo,
a que se chama cachassa, que o calor fez subir á
superficie, de tapar logo, para que á caldeira
não
vá parte alguma delle. Deita-se então agua neste
parol, e lava-se, cuja agua se mistura com o gusmo,
e o ajuda a correr por huma calha, ao seu receptaculo,
na casa da aguardente. Depois de cheio
segunda vez o primeiro parol, passa o liquido do
segundo para a segunda caldeira, com as mesmas
precauções do primeiro, e assim continua o
trabalho,
não se despejando nunca hum, sem que o
outro esteja cheio. Ficando a caldeira quasi hum
palmo por encher, lança-se fogo na fornalha, para
fazer ferver o liquido, havendo sempre a lembrança,
que, chegando a levantar fervura, he escusado
deitar mais lenha, porque he perdida; porém
esta fervura deve-se entreter. Principia agora
o uso da decoada. Introduz-se na caldeira hum dos
dois grandes funis, e por elle he que se lança a decoada,
para os alcalis fazerem subir do fundo á
superficie, o oleo, e acido superabundantes, em
fórma de espuma, que se separa, assim que aparece.
Quando se não vem mais espumas escuras,
julga-se limpa a caldeira, e principia a simples
evaporação;
porém o liquido desta caldeira não passa
ás tachas, sem que a outra caldeira esteja tambem
com o seu liquido depurado. Estando o liquido de
ambas as caldeiras prompto, passa ás tachas o da
primeira, para renovar o trabalho com o segundo
liquido do primeiro parol, e assim vai continuando;
de sorte, que as caldeiras tem tres usos: são
vasos depuratorios, vasos evaporatorios, e parois
de caldo quente. O liquido da caldeira, sobe no
balde de valvula, que por huma calha o conduz á
primeira, e segunda tacha; este balde serve tambem
de augmentar a evaporação, levantando o liquido,
e deixando-o cahir em columna, se há necessidade
de accelerar este serviço nas caldeiras.
As tres tachas do Bangué, devem ser consideradas,
como vasos evaporatorios. A primeira, chamada
de receber, e a segunda de coser, recebem
o liquido da caldeira; depois de engrossar nellas
hum pouco, passa para a tacha, chamada de bater;
nesta ultima he, que o liquor alcança a sua
perfeição; para o concentrar, deve ser levantado
no balde muitas vezes, e deixallo cahir em columna.
Quando desta fórma tem alcançado o ponto,
passa para o esfriador. Estas tres tachas podem
ser todas, de receber, de coser, e de bater,
tendo cada huma seu balde, e passar a calda de
cada huma dellas para o esfriador; porém, como a
primeira tacha recebe mais fogo, que a segunda,
e esta, que a terceira, e o fogo, se he violento,
queima o Assucar, que reduz a mel, he melhor
fazer a concentração na terceira tacha, sempre
com o cuidado, de que a fornalha não tenha mais
fogo, que o preciso para levantar fervura.
Distingue-se o ponto da calda de Assucar em
tres estados, que são ponto fraco, ponte forte, e
ponto muito forte. Conhece-se o ponto fraco, quando,
tomando huma pouca de calda com o dedo
indes, e unindo esta calda ao pollegar, e apartando
estes dedos, a calda não faz fios.
O ponto muito forte he, quando, tomando
a calda da mesma sorte, e ella se estende em fios
por todo o apartamento dos dedos, sem quebrar.
O ponto forte, ou bom ponto he, quando se
fórmão estes fios, e, antes de chegarem a todo o
apartamento dos dedos, quebrão a duas, tres, ou
quatro pollegadas. A grossura dos olhos, que fórma
a calda, fervendo na tacha, mais, ou menos
grossos, indica a sufficiente concentração. Isto
he
huma cousa conhecida, e facil, porém que o uso
ensina mais, que todos os discursos. Estando a
calda no ponto forte, passa em repartideiras para
o esfriador.
O ár, que bate na superficie desta calda, e
refresca continuadamente as paredes do esfriador,
faz coalhar o Assucar n'huma especie de costra, a
qual se engrossa cada vez mais, até incorporar tudo
o que he Assucar, deixando apartada a parte
melosa; porém este Assucar, coalhado tão
promptamente,
alcança tanta dureza, e a sua gran he
tão unida á outra, que faz impossivel a passagem
da agua para a sua clarificação. A espatula, de
que
se usa, para o remexer nas fôrmas conicas, não
sendo sufficiente, he indispensavel o uso do ensinho
já descripto; hum obreiro com este util instrumento,
em huma das cabaças do esfriador, puxando-o
a si, e impulsando-o para a outra cabeça;
encostando-o no puxar, a huma das paredes, no
impulsar á outra, impede a aggregação
mui prompta
da gran do Assucar, para a agua, que o barro
largar, fazer o seu effeito. Este esfriador, segundo
a sua grandeza, não póde encher-se com o primeiro
cosimento, e carece, que se lhe ajuntem outros;
porém o uso do ensinho principia desde o primeiro,
até se encher, e sahir o Assucar para as fôrmas.
Não há necessidade, de que o obreiro esteja
sempre com o ensinho na mão; deve trabalhar de
vez em quando, porém sem descuido. He essencial,
que o Assucar não vá para as fôrmas
frio, e
sim n'hum gráo de quentura, que permitta o meter-lhe
o dedo.
As fôrmas molhadas, assentadas n'huma taboa
desempenada, podem receber o Assucar, sem
que pela fenda de duas linhas, que tem no seu
fundo, elle possa cahir. O Assucar deve ser deitado
nellas com espumadeiras grandes; esta operação
deve ser prompta, e ao mesmo tempo vagarosa;
prompta, em que he preciso varias espumadeiras,
sem descuido no trabalho; e vagarosa, porque
tirando as espumadeiras o Assucar, carece demorado
algum tempo sobre o esfriador, para deixar
cahir dentro muita parte do mel, de sorte que
para as fôrmas vá o menos possivel.
A fôrma deve ficar meia pollegada, por encher,
e depois de esfriar nella o Assucar, tirada
da sua taboa, e esgotado o mel, que ajuntou no
seu fundo, passa para a casa de purgar, em paviola.
Esta casa basta que tenha quarenta e dois
palmos de largura, e sessenta de comprido; o seu
sobrado na altura de doze palmos; as vigas de hum
palmo de grossura, afastadas humas das outras,
quatro palmos, e meio; as taboas do soalho, da
largura de dois palmos, ou mais, com o vão entre
taboa, e taboa, de duas pollegadas.
A coxia desta casa póde ser ladrilhada, para
mais aceio. Se parecer fraco o vigamento, pontaletes
o fazem firme. Esta coxia deve estar bem
munida de calhas, para cahir o mel das fôrmas.
As calhas são mui simples, e podem ser feitas
de taboas de seis pollegadas de largura, e duas
de grossura, cavado o centro na profundeza de huma
pollegada a diminuir para os lados; são firmadas
na viga, defronte da abertura de duas pollegadas
do apartamento das taboas do soalho, com
declivio a acabar na altura de hum barril, que recebe
o mel que nellas cahe, e o leva a huma pipa,
que o guarda.
Cada barril, que deve ter seu funil de folha
com rallo, recebe o de duas calhas, e estas, o de
muitas fôrmas.
As calhas assim dispostas, fazem a vista de
zigzag vertical. Chegando a fôrma á casa de
purgar,
he assentada entre viga, e viga, que fique a
fenda de duas linhas do seu fundo, no meio do
apartamento de duas pollegadas, que tem as taboas
do soalho.
Raspa-se a superficie desta fôrma, para igualar
o Assucar; enche-se do lodo branco, que está
preparado; e quando este lodo sécca, tira-se, para
diluido tornar a servir. Com huma raspa se tira
desta fôrma o Assucar embranquecido, e quando
vai ficando trigueiro, sobre este mais escuro se
lança novo lodo; raspa-se outra vez, e torna-se
a lançar mais lodo, e assim até ficar o Assucar
desta
fórma todo branco.
O fim desta operação he impedir, que ao
Assucar já branco não passe mais agua; porque,
não tendo partes melosas, que precipitar, dissolve
o Assucar, que confunde com o mel, e o faz
esvaido, ou sem força, e ainda que fique muito
alvo, não indemniza a perda.
O Assucar raspado passa á estufa, e he lançado
nos taboleiros della, para seccar. O calor
desta estufa deve ser mais forte que, o que communica
o Sol, que não excede a quarenta e cinco
gráos do thermometro de Reaumur; e na estufa
se póde levar até sessenta gráos,
porém não
mais, porque então o fará trigueiro. Se
não houver
thermometro, deve regular, o poder-se entrar
dentro, e demorar algum tempo; porém se
não se puder entrar, ou parar, he preciso moderar
o calor, porque he forte. Quando o Assucar
está sêcco, o que succede em oito a doze horas,
segundo o calor que recebeo, cessa o fogo; abre-se
a janella, tira-se para a casa de encaixe, sóca-se,
etc.
Como se
trabalha na fábrica da
aguardente.
Todos os Mestres de aguardente sabem, que
hum liquido doce fermenta, que esta fermentação
o faz vinhoso, e que este vinho destilado, produz
aguardente, em maior, ou menor quantidade, segundo
o gráo de doçura, que em si contém
este
liquido. Segundo este principio, a cachassa, ou
fezes do caldo da Canna; as espumas da caldeira,
e tachas, que são materias por si bastantemente
doces, são recebidas em parois; e como levão
comsigo
muito caldo de Canna puro, tem bastante fluidez,
para que, cheio o parol, entre logo em
fermentação.
Estes parois, ou especies de tanques são cavados
n'hum grosso madeiro, e ficão quasi hum,
palmo por encher.
Geralmente são descubertos; e alguma
excepção
que há, com esteiras he, que lhe tirão a
maior communicação com o ár. Assim que
a fermentação
se estabelece, o movimento, que em si
faz o liquido, com hum certo zunido, faz subir
á superficie, huma côdea de materias impuras,
que vai engrossando cada vez mais; porém abre-se
de vez em quando, para dar passagem ao gás,
ou ár fixo, que se desprende, e foge do mesmo
liquido em fermentação. Quando o zunido cessa,
e que a costra se desfaz, e mistura com o vinho,
que neste estado toma o nome de guarápa, he o
ponto, para passar ao alambique.
Alguns esperão ainda, que huma luz se não
apague no vão, que occupa o gás, da superficie
do liquido á borda do parol. Não havendo mais
cachassa,
misturão huma terça parte de mel com
duas de agua, para se seguir o mesmo effeito; ou
misturão mel, cachassa, e agua, porque estas cousas
em si são indifferentes, e seguem-se os mesmos
effeitos. Se succede algumas vezes estar a guarápa
em ponto, e o alambique occupado, deitão
agua na guarápa, para não passar, segundo dizem,
e quando há occasião, vai para o alambique.
Nestes alambiques não há regra, cada hum
tem os seus; porém nas fábricas mais modernas,
o commum he, sèrem os chamados,
tromba de
elephante. Recebem o fogo pelo fundo, até
huma
terça parte da altura da cucurbita, ou caldeira;
outros recebem pelo fundo, e pelas paredes, onde
se pratica huma espiral, que acaba na chaminé.
Todos tem serpentina de cobre, e já vi alguma
de estanho, e nada de refrigerante. O primeiro liquido,
que sahe pela serpentina, que he fleuma,
he lançado fóra; e assim que principia a correr o
espirito, vai para o recipiente, a que chamão balsa;
esta cheia, he levada para a pipa, ou tonel.
A serpentina, que he huma espiral de quatro,
cinco voltas, está firme n'huma grande tina
cheia de agua, sempre quente, devendo ser bem
fria.
Todo este trabalho he feito sem principios;
se alguns se gabão de fazer muita aguardente, não
he, porque saibão aproveitar, sim porque he feita
á custa do Assucar.
Principios,
que devem conduzir o Mestre
Aguardenteiro.
He efficazmente demonstrado, que só a parte
doce, ou assucarada de qualquer liquido, he que
pela fermentação se póde mudar em
vinho, de
que se tira o espirito ardente. Esta mudança, que
a fermentação faz, he em mais, ou menos tempo,
segundo a densidade do liquido, quero dizer
mais, ou menos assucarado.
Se he pouco doce, fermenta mais depréssa,
e assim relativamente; de sorte que se chega a
ter a consistencia de mel, não há
fermentação, ou
ao menos não he sensivel. Há tres especies de
fermentação;
fermentação espirituosa,
fermentação
acida, e fermentação podre, ou alcalina; ou
antes,
só há a fermentação podre,
que passa pelos
dois primeiros estados, de espirituosa, e acida.
Quando hum liquido mucoso doce, pela fermentação
se faz vinhoso, toda a parte assucarada he
decomposta, e mudada em espirito.
Se não se aproveita no alambique, e passa
á fermentação acida, he decomposto
este vinho,
e mudado em vinagre; se então vai ao alambique,
sahe hum acido.
Se se deixa continuar a fermentação, e passa
á alcalina, alcança o liquido hum cheiro
detestavel,
e pelo alambique sahe sómente alcali volatil,
ou o producto das materias podres. Estas mudanças,
ou decomposições, accelerão-se, ou
retardão-se,
segundo o maior, ou menor calor do ár,
que he o principal agente da fermentação.
No gráo de frio, que géla a agua, não
há
fermentação, ou ao menos não he
sensivel; e o
mesmo succede n'hum gráo de calor de sessenta
gráos para cima, do thermometro de Reaumur,
quero dizer, que a mão não póde
supportar. Quando
o calor da atmosphera, ou do lugar, onde se
faz a fermentação, chega a dez gráos
do mesmo
thermometro, ella se estabelece, e se augmenta
cada vez mais até aos trinta e cinco, que he o maximum;
de trinta e cinco para cima, entra a enfraquecer
proporcionalmente, até aos sessenta em
que pára. Estes sessenta gráos para a
fermentação
são iguaes ao zero, ou gèlo de Reaumur. Nunca
o gráo do frio no Rio de Janeiro póde impedir a
fermentação, por ser o calor da atmosphera, de
vinte a trinta gráos; e são raros os dias no
Inverno,
onde chega a quatorze, e nunca menos. Quando
hum liquido entra em fermentação espirituosa,
não a soffre ao mesmo tempo em toda a sua massa;
já algumas partes tem fermentado, e vão passando
a acidas, quando outras ainda não
principiárão;
o que faz precisar hum fermento, que excite
o movimento em todas as suas partes, ao mesmo
tempo.
Este fermento, a natureza o dá na espuma,
e costra, que se fórma sobre hum primeiro liquido,
que fermentou, que mesmo se póde desseccar
para o uso.
Ajudando o calor da atmosphera tão poderosamente
a fermentação, deve o Mestre Aguardenteiro
impedir, quanto lhe for possivel, que com o
gás, que se desprende do liquido, se não dissipem
partes espirituosas; para o que ha de conservar os
vasos, onde ella se faz, com pouca communicação
com o ár; e em lugar de cochos, e abertos, sirva-se
de pipas, e ainda melhor de dornas, com o
fundo largo, a boca estreita, com sua tampa, e
nella hum pequeno furo, e de grandeza proporcionada
aos alambiques. Deve ter tambem o maior cuidado,
em determinar o seu trabalho de sorte, que
não tenha mais guarápa que destilar, que os
alambiques
não possão vencer; e que he melhor, que
estes esperem, que aquella, por não haver meio
de impedir a sua depravação.
O ponto principal, donde depende toda a felicidade,
ou o maior producto possivel da fermentação
espirituosa, he, o saber conhecer precisamente
o instante, em que a guarápa deve passar
ao alambique. O signal infallivel, que designa este
instante, foi descuberto por M. Gentil, Prior de
Fontenet, e membro de muitas Academias, «O
sabor, diz este grande homem, he huma qualidade,
que he o objecto do gosto, e este sentido
não póde enganar-se entre o sabor vinhoso,
e o sabor assucarado; e como o cheiro vinhoso
acompanha sempre o sabor vinhoso, he impossivel
errar sobre a relação destes dois sentidos.
Não he preciso suppôr estes sentidos bem
delicados,
e bem exquisitos, nem hum grande discernimento
para fazer a distincção; todo o homem
organisado, como o commum dos homens,
distinguirá o sabor vinhoso, do sabor assucarado,
com tanta facilidade, quanta poderia distinguir
a côr vermelha, da côr verde.... O signal
determinado, e infallivel, que designa de huma
maneira invariavel, o momento, em o qual, a
fermentação tem chegado ao gráo
preciso, e a
que he unida a maior perfeição de vinho; o
momento,
no qual o vinho não he assàs feito, e
depois do qual vem a ser aspero, grosseiro; he
o momento mesmo, onde, depois de muitas
degustações
successivas, nas quaes temos sentido
a diminuição do sabor assucarado. Este sabor,
depois
de se ter enfraquecido gradualmente, desaparece
subitamente; então he o signal preciso,
fixo, e seguro para se tirar o vinho da dorna:
isto he huma ordem irrevogavel, que a natureza
prescreve á arte, e que signala o momento fatal,
a que he unida a perfeição deste liquor....
Fura-se a dorna no meio da altura, que occupa
o liquor, e tapa-se com hum pequeno torno; logo,
que a fermentação se estabelece, tira-se o
torno, e deixa-se correr o liquor n'hum pequeno
copo para o provar. Assim, que se percebe huma
diminuição, marcada no sabor assucarado, e
huma augmentação no sabor vinhoso, que
são inseparaveis,
deve haver cuidado na dorna, fazer
a prova com frequencia, ter os vasos promptos
para receber o liquor; e se o signal aparece no
meio da noite, não differir para o outro dia o aproveitallo;
esta noite segura huma recompensa, que
deve fazer esquecer a necessidade do repouso.
Este signal commum, he proporcionado á intelligencia
de todos; he ainda identico, e invariavel,
para hum mosto de excellente qualidade, como
da mais mediocre; para huma grande quantidade
de liquido, como para huma pequena; para
huma fermentação viva, forte, tumultuosa,
e prompta, como para huma fraca, lenta, etc.
Ou seja o calor do ár proporcionado, ou intenso,
sempre he o mesmo; he preciso sómente,
se a fermentação tem sido mui rapida, ter mais
cuidado na dorna, porque chega mais depréssa
ao ponto, e he de maior prejuiso á passagem.»
Até aqui M. Gentil. Quando a guarápa indica
este ponto, a costra, que a fermentação produzio,
está sobre ella; no tempo que gasta a desfazer-se,
misturar-se com o vinho, dissipar-se o
gás, que a sobrenadava para não apagar a luz,
tem-se evaporado muito espirito, e outro tem passado
a acido, pela fermentação acetosa, que
immediatamente
segue a espirituosa, porque a natureza
não pára hum instante; e daqui se póde
inferir,
o quanto se perde, pela fórma de tomar o
ponto, no estado actual.
Depois da boa fermentação com o seu ponto
tomado a tempo, nada concorre tanto para huma
boa distilação, como a abundancia de agua,
na casa d'aguardente.
Se no refrigerante não corre sempre agua
fria, para a condensação do vapor, e na tina da
serpentina, para fazer cahir frio o liquor no recipiente,
há huma diminuição incalculavel, na
quantidade,
e qualidade d'aguardente.
A falta de principios, nos fabricantes deste
genero, não lhe deixa conhecer esta perda, porque
lhe não he sensivel á simples vista. Olha-se
com tanta indifferença para este objecto, que eu
já vi n'huma fábrica, cujo dono não
passa por
ignorante, querer hum individuo tomar banho com
a agua da tina da serpentina, suppondo-a fria, ou
ao menos tepida; e, tirando a torneira, para lhe
cahir no corpo, estava tão quente, que quasi levantou
vessiculas. Considere-se, quanto espirito se
dissiparia, sendo refrescado com agua neste estado.
Se o engenho he de agua, tem a tina da serpentina
sua bica, porém tão pequena, que eu nunca
vi, que a aguardente deixasse de correr com
quentura. Á excepção de alguns
engenhos, que
tem ao pé huma pequena fonte, o commum he,
o ser a agua carregada ás costas, e ás vezes de
bem longe. Era natural a lembrança de mandar
abrir hum pôço, e com huma bomba tirar a agua
que se precisasse, principalmente neste paiz, onde
em menos de vinte palmos se acha a quantidade
que se quer, porém só tenho visto hum; quando
a despesa, que com elle se fizesse, bem paga
ficava na primeira safra.
O que se vai dizer sobre o gráo de calor para
a distilação, he theoria de Macquer, sobre a
dos espiritos ardentes.
He huma verdade chymica, que a quantidade
de fogo para a distilação, deve ser em
razão da
coherencia, ou apêgo das partes, que se querem
fazer evaporar, aquellas, que são compostas de
principios mais fixos.
Se se expõem á acção do
fogo, compostos,
que contenhão principios volateis, e principios
fixos;
os primeiros, rarificados pelo calor, procurárão
separar-se dos segundos; e se o esforço que
para isto fizerem, for superior ao seu apêgo, a
separação terá lugar, e a
evaporação se fará. Se
se querem distilar substancias mui compostas, mui
capazes de ser alteradas pelo calor, e que contenhão
principios da maior volatilidade, taes como
são muitas plantas cheirosas, os liquores espirituosos,
e outros desta natureza, he preciso usar
do alambique guarnecido de hum banho de maria,
quero dizer, que o alambique não receba mais calor,
que o que póde communicar-lhe hum vaso
com agua fervendo, sobre a qual se assenta o mesmo
alambique. Como na distilação que se faz no
alambique, os vapores dos corpos volateis sobem
verticalmente, e se condensão na sua parte superior,
ou capello, esta sorte de distilação tem sido
chamada
per ascensum. Podem
fazer-se distilar
mui commodamente desta sorte, todas as materias
bem volateis, que possão subir ao gráo de
calor, que não exceda o da agua fervendo; taes
são os espiritos rectores, o espirito ardente, a agua,
e todos os oleos essenciaes, etc.
O que se passa na distilação em geral, he
mui simples, e mui facil de conceber. As substancias
volateis, se fazem especificamente mais ligeiras,
quando soffrem hum gráo de calor conveniente,
reduzem-se em vapores, e se dissiparião
debaxo desta fórma, se não fossem retidas, e
determinadas
a passar a lugares mais frios, onde se
condensão, e tomão a fórma de
liquores, se são
dessa natureza. Como a distilação se faz sempre
em vasos fechados, falta o concurso do ár exterior
ás materias, que se levantão nesta
operação,
o qual he com tudo muito proprio para augmentar,
e accelerar a subida dos corpos volateis. Mas
póde-se dizer, que esta lentura, occasionada pelo
defeito do ár, he antes util, que desavantajosa;
porque em geral, quanto mais huma substancia
volatil, que se separa da outra substancia mais fixa,
se separa com lentura, tanto mais esta separação
he exacta.
Por esta razão, quando se quer distilar, segundo
as regras d'Arte, se he obrigado a conduzir
a distilação de sorte, que a substancia volatil
soffra
só o gráo de calor necessario para a separar;
e isto he sobre tudo indispensavel; quando não há
grande differença no gráo de volatilidade dos
principios
dos corpos, que se querem decompôr pela
distilação. Póde-se estabelecer, como
regras geraes,
e essenciaes á distilação; que se deve
sómente
applicar o gráo de calor necessario, para fazer
subir as substancias, que se devem destilar; e
que a lentura he tão vantajosa, quanto a
precipitação
he prejudicial nesta operação, etc.
Comparando o que diz este grande Chymico,
com a quantidade de fogo, que se atêa na fornalha
do alambique, para distilar aguardente, parece
impossivel, que entre tantos distiladores no Brasil,
não houvesse ainda hum, que, abrindo os
olhos da rasão, e guiando-se por ella, se afastasse
da trilha dos mais, o que augmentaria consideravelmente
a quantidade, e qualidade deste genero,
sem ser á custa do Assucar, nem com a perda
de huma immensidade de lenha. A fornalha,
que se propõem desenhada na
Estampa
VII., he
a do mesmo Macquer, adoptada a esta manufactura.
Communica-se ao cinzeiro, por hum buraco
de seis pollegadas de comprido, e duas de largo.
O vão da chaminé, he de quatro pollegadas em
quadro; a boca da fornalha tem hum palmo em
quadro, e sua porta de ferro.
Na Estampa tem as paredes dos lados abatidas,
para se ver a construcção por dentro, e
o petipé faz conhecer as suas dimensões. O fogo
se entretem, e modera da mesma sorte, que no
bangué do Assucar.
Discurso
sobre o alambique
Naõ há instrumento chymico, em que se tenha
tanto trabalhado, como no alambique. Grandes
homens tem buscado em todos os tempos a sua
perfeição, e continuar-se ainda hoje este
trabalho,
prova que ainda não se achou. Parecerá
temeridade,
o arriscar eu as minhas idéas, depois dos
maiores Chymicos terem fallado; porém lembra-me,
que hum grande homem póde procurar huma
cousa, e não a achar, e hum rustico, ou outro
de intelligencia mui limitada, vêla. Tem-se usado
de refrigerantes, e vio-se, que quando a agua desta
bacia era fria, parava a distilação, e que
só
se restabelecia, quando alcançava huma certa quentura.
A rasão convincente deste facto he, que os
vapores subindo á superficie interna do capello, e
condensando-se repentinamente pela frieza, engrossavão
muito, e pelo seu pêso cahião em gottas
na superficie do liquido; e que a agua hum tanto
quente, impedindo esta condensação tão
prompta,
permittia, que os vapores menos engrossados,
se encaminhassem ao canal praticado na circumferencia
do mesmo capello, para sahirem pelo seu
bico.
Daqui se concluio, que os refrigerantes erão
inuteis. Entrão agora as theorias. Huns, crendo,
que a condensação se fazia na serpentina, fazem
subir a ella o vapor por hum gargalo, em fórma
de
tromba de elephante; outros
modificão esta especie
de tromba, e dão hum grande diametro á
caldeira do alambique, com mui pouca altura; e
fazem principiar a serpentina com hum grande
diametro, e acabar n'hum mui pequeno; outros,
em fim, augmentão a superficie do capello; porém
he geral em todos, o fazerem hum pescoço á
caldeira,
maior, ou menor, segundo a sua fantazia,
e só Chaptal quer, que a caldeira seja hum cilindro
perfeito, porém nada de refrigerante. Todos
estes alambiques obrão com maior, ou menor
proveito; e eu tenho visto distilar sem refrigerante,
nem serpentina, o que me prova, que o contacto
do ár no capello do alambique, tem bastante
força para condensar o vapor; não se aproveita
tanto, como com a serpentina, porém he pela
dissipação do liquor, por sahir mui quente do
bico
do alambique. Sendo a evaporação em
razão da
superficie, e subindo os vapores perpendiculares,
de que ninguem duvida, só Chaptal acertou,
tirando o pescoço á sua caldeira, e fazendo-a
cilindrica;
porque a abobada abatida, que nasce das
paredes da caldeira, até onde fórma o
pescoço,
exposta ao contacto do ár, condensa o vapor que
nella toca, e a unica sahida que tem, he tornar
para a caldeira; he por consequencia preciso mais
tempo, e maior fogo, para que o vapor se enfie
por este pescoço, segundo a maior, ou menor superficie
que o ár toca, e o maior, ou menor diametro
do pescoço, mais, ou menos longitude da
superficie, onde se faz a evaporação,
á parte onde,
condensando-se, póde encaminhar-se á serpentina.
O refrigerante he preciso, e indispensavel
para huma boa distilação. Se a frieza da agua
condensa
mui promptamente o vapor, e as gôttas engrossadas
são precipitadas na caldeira pelo seu pêso,
he porque a abobada do capello, sendo muito
abatida, não lhe dá huma facil correntesa; a que
eu tenho visto mais levantada, he a do capello de
Baumé, que faz hum angulo de cincoenta gráos;
ora hum angulo de cincoenta gráos facilita tanto
a cahida, como a correntesa; ha de correr, e cahir
indistinctamente; porém se este angulo for de
sessenta e cinco gráos, por mais grossas que
sejão
as gôttas, tem mais facilidade para correr, que
para cahir, e por consequencia, quanto vapor subir,
tanto se aproveitará.
A caldeira do alambique, que se propoem,
he hum cilindro de quatro palmos de altura, e quatro
de diametro. O capello, que he de figura conica,
deve ter de altura o diametro da sua base,
tirado da superficie externa do canal, ou goteira,
que acaba no bico, para fazer hum angulo de sessenta
e cinco gráos.
Este capello deve ser de estanho puro, porque
o espirito come o cobre; e para ficar mais
barato, e mais duravel, póde ser o estanho ligado
em partes iguaes com o zinco. Proximo á sua
base, tem hum tubo de pollegada e meia de diametro,
que huma tampa do mesmo metal fecha
em rosca, pelo qual se introduz na caldeira o vinho
para distilar; e he cercado de huma chapa
de cobre, soldada na circumferencia, na parte,
onde principia o calor, que se ha de introduzir na
caldeira; cuja chapa fórma hum cilindro da altura
do cone, e serve de bacia, para conter a agua que
esfria o capello, onde se condensa o vapor, e o
canal, que o conduz ao bico. Esta bacia, ou refrigerante,
tem n'huma das paredes, proximo á
sua base, hum pequeno tubo de pollegada de diametro,
para dar sahida á agua, que continuadamente
deve correr sobre a ponta do cone; e tambem
dá passagem ao tubo, por onde se carrega de
vinho a caldeira do alambique. A caldeira tem seu
tubo de descarga, para sahirem as fézes depois da
distilação, cujo tubo deve fechar em rosca na
caldeira,
para, no caso de ser preciso tiralla, não desmanchar
a parede da fornalha; porém que o tape
hum simples torno. A.
Veja-se a
Estampa VII.
Fig. I. A serpentina de oito linhas de diametro,
em espiral de oito voltas. Eu não posso comprehender
as rasões que se dão, para ella principiar
com hum grande diametro, e acabar n'hum tão pequeno;
creio, que a condensação do vapor se faz
no capello, que a frieza d'agua, batendo nelle, a
favorece prodigiosamente, e que a serpentina serve
só de refrescar o liquor, para cahir frio no recipiente;
ora este effeito consegue-se melhor com
o pequeno, que com o grande diametro; porque
a agua tem huma pequena columna de ár que esfriar,
e toca o liquor de mais perto em todas as
partes do canal. Se dou quatro palmos de diametro
á caldeira do alambique, he para que o seu fundo
seja de huma chapa de cobre inteira, e sem
emendas; a altura, qualquer que seja o diametro,
nunca deve passar de quatro palmos. Tambem,
se o diametro for muito grande, fica incommodo
o capello, por ser preciso levantar o cone em
proporção:
e eu não conheço fábrica, que,
trabalhando
bem, possa occupar sempre dois alambiques
assim construidos.
Os alambiques, que contém pipa e meia, e
duas pipas de guarápa, servem mais de
ostentação,
que de utilidade; o seu rendimento em espirito,
não equivale, proporção guardada, ao
dos
mais pequenos. A materia da serpentina, merece
a maior attenção, não deve ser de
cobre, nem de
metal com elle ligado; o espirito corroe o cobre,
dissolve o zinabre, e com a aguardente se engole
hum veneno; eu bem sei, que o espirito o disfarça
alguma cousa, e que he em pequena quantidade
respeito á sua massa; porém o ser pouco,
e sem os terriveis effeitos, que causa dissolvido
pelos acidos, não impede, que ataque a economia
animal, e pouco a pouco a destrua. Desejava que fosse
de prata pura, sem liga alguma de cobre.
Os Artistas, que trabalhão em prata, tem
mais pericia que os caldeireiros; podem fazer as
chapas de prata com a grossura da folha de Flandres,
reforçada; e, se lhe for mais cómodo, formar
a espiral em poligono de cinco, ou mais angulos;
o effeito he o mesmo. Esta despesa não he
tão grande, que qualquer Senhor de engenho não
possa com ella, e a duração excederá
á da sua vida.
Talvez haverá, quem tenha esta idéa por
extravagancia,
que a escarneça, e teime em usar de
serpentina de cobre; porém o miseravel que isto
fizer, se não for por ignorancia, merece a maior
compaixão, por ter huma alma gangrenada pela
avareza, que lhe faz olhar com despreso, para a
saude, e vida dos homens. Quizera tambem, que
o recipiente fosse hum garrafão, e nada de
complicações,
nem torneiras de chave, faceis de desmanchar,
e difficultosas de concertar, porque me
lembro das pessoas, que lidão nestas fábricas.
Ordem do
trabalho para fazer
aguardente.
Tres quartas partes de agua, huma quarta parte
de mel, são lançados na dórna, a qual
deve
conter sómente, tanto desta especie de mosto,
quanto caiba em dois alambiques, ficando elles
hum palmo por encher. Deita-se neste mosto bastantes
fézes de huma fermentação antecedente,
que
se mistura bem com todo o liquido; tapa-se a dorna,
deixando aberto o pequeno furo da tampa,
para a communicação do ár, e que a
mesma dórna
fique ao menos dois palmos por encher. Assim
que principia a fermentação, prova-se o liquor, e
continua-se a prova, até chegar ao ponto determinado
por M. Gentil.
Ainda que o vinho neste ponto se considere
claro, e se tire por huma torneira, que a dorna
tem no fundo, não deve passar ao alambique, sem
que seja por hum coador, para que não vão nelle
partes grosseiras; porque estas, hindo ao fundo da
caldeira, e recebendo o fogo immediatamente,
queimão-se, e communicão ao espirito, o
empireuma,
ou gosto de queimado, que he indistructivel.
Já se vê, que esta dorna deve estar n'huma
altura tal, que o seu vinho possa correr por huma
calha, que o lança no alambique pelo tubo da sua
carga; em cujo tubo está hum funil de folha proporcionado,
e neste funil he, que se deve pôr o coador.
Como a fermentação se fez com pouca
communicação
com o ár, e o gás, que se soltou, e
fugio do mosto, se conserva na mesma dorna, e
causa promptamente a morte a todo o animal, que
o inspirar, não, porque elle em si seja veneno,
mas porque, sendo incompressivel, e inelastico, o
afoga, assim como a agua; deve haver todo o cuidado,
para prevenir qualquer funesto effeito. Antes
do vinho hir para o alambique, já o refrigerante
deste está cheio de agua, assim como a tina da serpentina;
cuja agua continúa sempre a correr n'huma,
e outra parte, e a sahir pelos seus respectivos
tubos, em quanto dura a distilação. Principia
esta, lançando logo bastante fogo debaxo do alambique,
para sahir a fleuma, que se despreza; e assim
que entra a correr o espirito, modera-se o fogo,
e entretem-se sòmente o que he preciso; havendo
sempre a lembrança de perder antes por
menos, que por mais, e que a lentura he tão proveitosa
para a quantidade, e qualidade, quanto a
precipitação he prejudicial. Assim que cessa de
correr
o espirito, ou corre sòmente, o que se chama
agua fraca, tira-se o fogo ao alambique, e descarrega-se
das suas fézes pelo tubo de descarga; muda-se
a bica do refrigerante, e a da tina para cahirem
dentro delle, e desta sorte ser lavado; e
de dia, tira-se-lhe o capello, para se fazer este
beneficio mais individualmente. Não fallo nas qualidades,
que deve ter a aguardente para ser perfeita,
porque he desconhecido neste paiz o areometro.
A forma de a escolher, he agitalla n'hum pequeno
copo, e a maior, ou menor demora da espuma,
que faz, he, o que lhe mostra a bondade;
e qualquer que ella seja, toda tem sahida.
Sobre o
tratamento do gado, e
bestas.
Todos os animaes de serviço no Brasil comem
no pasto; ainda se tivessem pastos abundantes,
como há muito gado, e bestas baratos (porque estas
nunca excedem a dezaseis, e os bois a oito
mil reis) poderia supprir a quantidade, á qualidade,
e força; porém não succede assim.
Qualquer
engenho tem cem bois, e quarenta bestas;
como a moagem he no tempo da secca, e não há
divisão de pastos, e estes forão feitos
á trinta,
cincoenta, e mais annos, e nunca renovados, a
herva, ou capim, que nelles nasce, não tem substancia,
o Sol a dessécca; e os animaes cançados,
e inanidos vão aos brejos, onde vem alguma
verdura, e com o capim, que póde ser-lhe util,
engolem plantas venenosas, que os matão. Dizem
que isto he peste, porém a fome he, que lhe faz
comer, o que lhe he nocivo. Há annos, em que
a mortandade he tal, que parão engenhos de moer.
A este respeito, assim como de outros, a abundancia
he que faz a miseria. Se hum boi custasse
cincoenta mil reis, huma besta oitenta; vinte de
huns, doze de outras, farião melhor serviço,
sustentados
com o cará, batata, mandioca, guandu,
abobora, e outras muitas cousas, de que com curiosidade
póde haver abundancia, sem contar a
mansidão, que alcanção estes animaes
assim tratados,
podendo-se fazer delles, o que se quizer a
qualquer hora. Ainda não vi hum curral calçado,
nem cuberto; enterrados os bois até á barriga he
o commum. Depois de passarem assim a noite,
vão para o carro em jejum; trabalhão muitas
horas,
sahem esfalfados, e a fome faz-lhe devorar
o que encontrão. Tenho visto gastar horas a meter
bois em carros, e bestas nas almanjarras dos
engenhos; se estes animaes sahissem da estrebaria
com a barriga cheia, hirião para o serviço
mansamente,
não haverião marradas, nem coices, o
que evitaria accidentes que sempre há, além do
adiantamento do trabalho, que a sua braveza estorva.
Ao menos devera ser o campo dividido em
quatro partes, passando o gado de humas para outras,
não se demorar mais de dez dias em cada
huma, e não entrar na ultima, de que sahio,
senão depois de trinta, ou mais dias. Desta sorte
teria tempo de crescer a herva, seria o seu succo
melhor digerido, e por consequencia mais nutritivo
para o animal. Se em lugar do pasto estar dividido
em quatro, fosse dividido em oito partes,
e que o gado se demorasse em cada huma só quatro,
ou cinco dias, ainda seria melhor.
Talvez parecerá, á simples vista, esta
multiplicidade
de pastos divididos, superfluidade, porém
he hum ganho real, porque, além de prosperar o
gado extraordinariamente assim tratado, sendo as
divisões com cèrcas vivas, podem servir os seus
galhos para o fogo das fornalhas; e os mesmos pequenos
pastos, reduzidos a terras lavradas, plantar-se
nelles Canna. Os curraes serem calçados, e
cubertos, e recolhidos nelles os animaes, que devessem
trabalhar de noite, ou de madrugada, os
quaes terião sua ração, não
de olhos de Canna,
sim dos fructos acima mencionados.
Cêrcas
vivas, e mortas.
He notavel o serviço, que se perde em cêrcas,
quasi continuado, e sempre insufficiente. Os
moirões são da madeira, que se encontra, o mesmo
as varas, amarradas a cipó, que antes de seis
mezes apodrece. Se aparece algum bocado de cêrca
viva, he para fazer conhecer a facilidade de se
naturalisar em todas as partes, onde o seu uso póde
ser util. Não há paiz, como o Brasil com tantas
arvores, e arbustos, de que se possão fazer
cêrcas vivas. As de limão, e cidra, são
conhecidas,
porém aparecem como amostra. Todos os páos
brancos de casca leitosa, e grande miolo, pegão
bem de estaca, e são de prompto crescimento. Todas
as especies de figueiras bravas, são excellentes;
com ellas em dois, ou tres annos, podem ficar
as cêrcas impenetraveis, e o decóte annual,
servir de lenha para as fornalhas. Plantem-se as
estacas alinhadas na distancia de dez palmos, que
fiquem na altura de seis. Cortem-se os pimpolhos,
ou brotas, que nascerem para a parte de fora, ou
de dentro, conservando as dos lados, ou comprimento
da cêrca, nas quaes se prenderá algum
pêso,
para as fazer dobrar brandamente; quando cruzarem,
faz-se huma ferida na casca das duas brotas,
enxertão-se, e fazem-se firmes com hum pequeno
espeque, assim como mostra a
Figura
I.
da Estampa VIII. Mergulhão-se
os galhos na terra,
onde tomão raiz, e fazem a vista, que se mostra
na
Figura II.;
haja hum pouco de
cuidado, e
em poucos tempos se verá o effeito. As cêrcas
assim
feitas, hão de ser de arvores da mesma especie;
e de qualquer que sejão mesmo das fructiferas,
podem servir, ainda que com mais demora.
Como há partes, onde as cêrcas vivas se
faráõ
impraticaveis; para se fazerem as cêrcas mortas
com aceio, solidez, e sem perder muito tempo,
quando se fizer alguma derrubada, devem torrar-se
os páos de madeira firme, taes como de gorauna,
ipé, e brasil, etc. no comprimento de doze
palmos para moirões; e os páos de boa qualidade
proprios para varas, no de onze. Quando os
trabalhadores se recolhem do serviço, trazem estes
páos, que depositão n'hum armazem. Em tempo
de chuva, parte dos escravos falquejão estes
moirões dos dois lados, ou os quadrejão; outros
lhe fazem buracos, distantes por huma bitola de
dois palmos, que passem de parte a parte, e cada
moirão deve levar quatro, principiando de meio
palmo da cabeça para baxo; e outros escravos
proporcionão
as pontas das varas, a caber nos buracos
dos moirões até meio páo; cujos
buracos não
devem ter menos de duas pollegadas em quadro.
Depois de haver huma boa provisão de moirões,
e varas, querendo-se fazer qualquer cêrca,
mandão-se
fazer os buracos na terra alinhados, e na
distancia de dez palmos livres, com dois e meio
de fundo. Quando estiverem feitos, no acto de
hirem os trabalhadores para o serviço, carregão
as
varas, e moirões, lançando estes cada hum em seu
buraco; ficão só dois escravos endireitando-os, e
firmando-os na terra. He visivel, que desta sorte
tem as cêrcas outra duração. A
Figura III. mostra
os moirões, e varas.
Lenhas.
He quasi geral a falta da lenha nos engenhos dos
suburbios do Rio de Janeiro; alguns já a comprão,
e outros não tardaráõ a fazello. Nos
campos dos
Goitacazes, antes de dez annos pararáõ mais de
ametade das fábricas á falta della. Se
há paiz, onde
isto se não devêra temer, he todo o Brasil, pela
immensidade de arvores, que pegão bem de estaca,
e em poucos annos alcanção a maior grandeza.
O cajá, o cabui, a mangueira, as figueiras,
geralmente todos os páos brancos pegão com a
maior
facilidade.
Os pinheiros, que são espontaneos de serra
acima, nascem bem de serra abaxo, semeando-se
os pinhões de vez, e em poucos annos se fazem
grandes arvores, que podem servir a infinitos usos.
O guandu, ou hervilha de Angóla, arbusto, que
tem a propriedade de nascer, e prosperar em toda
a qualidade de terreno, mesmo no que se suppõem
peior; depois de colhido o fructo, de Junho até
Agosto, que he excellente legume, póde decotar-se
pelo pé, operação de que carece, para
a reproducção
de outro; de cujas folhas são avidos todos
os animaes herbivoros, e cujos troncos, e ramos,
podem servir para as fornalhas.
Deve haver o cuidado de tirar as estacas para
plantar, de hum terreno analogo áquelle, onde
se devem plantar; se o terreno for sêcco, devem
ser tiradas de sequeiro, e o mesmo, se for humido.
Ainda que haja mattos virgens, sempre as lenhas
se devem plantar; os páos de matto virgem
fazem só brazas, e para as caldeiras, onde se precisa
hum fogo activo, os ramos, os galhos são melhores;
çapé mesmo feito em
feixes, o bagaço da
Canna, dão hum calor mais forte, que madeira
dura, principalmente se he em grossos tóros, como
se usa commummente. Talvez parecerá isto
paradoxo a quem não tem idéa do como se queima
em Portugal o tijolo, a telha, a cal, onde se
emprega sómente tojo, carqueja, rama de pinho,
e mattos carrasqueiros. As estacas, para plantar,
tambem podem ser tiradas das raizes das arvores,
fazendo-as de hum palmo de comprido, havendo
o cuïdado de não ferir a sua casca, e de as plantar
n'hum terreno bem estrumado; desta sorte não
falhão.
Carros.
Ainda não lembrou a ninguem na Capitania do
Rio de Janeiro, o fazer uso da carreta, em lugar
do carro, sendo a vantagem tão visivel. As rodas
do carro, tem o trilho de huma a duas pollegadas,
com cinco a seis palmos de altura; o trilho
das da Carreta, he de quatro a cinco pollegadas,
com nove a dez palmos de altura. Ora n'hum paiz
de caminhos não calçados, pantanosos, he
infinitamente
melhor a carreta, cujas dão tanta folga
aos animaes, além de não se enterrarem tanto, e
facilitarem o virar de hum para outro lado, sem
forcejar no cabeçalho; custando menos na sua
construcção,
por haver maior quantidade de madeiras
que lhe sirvão, não precisar tanto ferro, e mesmo
se póde fazer sem elle; e onde dois bois puxão
mais
sem tanta fadiga, que os seis do Carro. Devo lembrar,
que os raios da roda da Carreta, não devem
ser inclinados para fóra, como os das rodas de
sege; hão de ser perpendiculares ao cubo, o que
lhe conserva toda a fortaleza.
Capinas.
Hum dos objectos, que merece toda a atenção,
e que dá grande trabalho aos Lavradores do Brasil,
são as capinas, ou limpas das hervas gulosas,
que pullulão extraordinariamente, e roubão a
substancia
destinada ás plantas, de que pretendem
utilidade. A fórma de fazer esta limpa, he muito
defeituosa; a enxada, de que se usa, não dá
bastante
expedição; o seu ferro fere a terra, formando
hum angulo de mais de sessenta gráos, e não
tem a propriedade de arrancar as pequenas raizes,
sem a perda de muito tempo.
Em lugar da enxada, deve-se adoptar hum
raspador, cujo ferro tenha seis pollegadas de alto,
e doze de comprido, temperado de aço, e cortante;
que tenha o cabo reforçado, e encavado de
sorte, que na mão do obreiro faça formar ao corte
hum angulo até quinze gráos. O trabalhador pega
com a mão esquerda na ponta do cabo, e com
a direita na altura a que chega, carrega sobre o
mesmo; e tendo o corpo de perfil, com inclinação
para a direita, balancêa-o para a esquerda, forcejando
sobre o raspador, e faz arrastar o seu corte
quasi dois palmos, e assim continua, sem nunca
o levantar; parece, que desta sorte cortará mais
capim, que dez enxadas. Para arrancar as pequenas
raizes, se há precisão de o fazer, tem mais
propriedade
hum ensinho, com seis dentes de ferro
curvos, firmados n'hum grosso madeiro, onde prenda
hum cabo reforçado; cujos dentes devem sobresahir
até tres pollegadas, e serem afastados,
huns dos outros, duas; he visivel, que arrancará
mais raizes, que muitas enxadas. A
Figura
II. da
Estampa VI. mostra o raspador. A
Figura III.,
o
mesmo raspador visto de perfil com o seu cabo.
A
Figura IV.,
he o ensinho com
dentes de
ferro curvos para arrancar pequenas raizes.