Assim se chamaram as tres actrizes que mais dinheiro vampirisaram aos argentarios portuguezes no seculo XVIII.
Petronilla, cantora italiana, representou em Lisboa desde 1739 até 1745. Não era bella, nem artista superior; enguiçava, porém, com philtros diabolicos; fascinava, fulminava, cauterisava o cerebro das mais solidas cabeças, sem respeitar as testas coroadas.
Um dos seus amantes foi D. João V, que orçava então pelos cincoenta. Petronilla, ou Pellatroni (dava por ambos os nomes) não se parecia com as «princezas de comedia e deusas da Opera», consoante Arsène Houssaye denomina as actrizes e dançarinas francezas coevas da amante do nosso Luiz XIV. Era absorvente como as suas parceiras; mas não esbanjava em galanices, equipagens e banquetes o producto liquido das suas transacções mercantis com o rei e os outros. Tão queridas se logravam as actrizes dos fidalgos portuguezes quanto os actores eram desprezados. O fidalgo, que não tivesse uma aventura de theatro, apenas poderia hombrear em proezas de galã com algum frade bernardo de costumes suspeitos. Os frades propriamente, n'aquelle tempo, frechavam do seu camarote o collo despeitorado da Petronilla com settas de amor platonico. Havia no theatro o camarote dos frades, collocado por baixo do camarote das açafatas. Tinha rotulas de pau, por entre as quaes os monges assopravam uns suspiros quentes como as lufadas da Arabia. Mas não passavam d'estes resfolegos os frades.
A porção illicita d'aquelles espectaculos pertencia ao rei e aos fidalgos. Estes gabavam-se de que as actrizes eram petisco, morceau friand,—dizia o cavalheiro de Oliveira—que só aos grandes senhores competia. Na actriz não amavam arte nem belleza: amavam a comediante.
D. João V, acirrado pelos ciumes dos seus camaristas, deixou-se illaquear n'aquelles braços elasticos da Petronilla, e locupletou-a de ouro e pedras.
Quando se passou a Castella, a garrida comica levou trinta cavalgaduras carregadas de riquezas—diz Francisco Xavier de Oliveira—e acrescenta que, no theatro de Madrid, a quantidade e valor da pedraria que ostentou eram taes que as damas de primeira plana se morderam de inveja. (OEuvres mêlées... Londres, 1751, pag. 33). Em Hespanha continuou a enthesourar as crystallisações do seu espirito, amoedando a ternura. A final, quando viu que era tempo do cuidar da alma, visto que a parte menos espiritual da sua pessoa andava em geral descuido, retirou-se capitalista, beneficiou mosteiros, fez capellas de santas, do mesmo passo que o seu real amante D. João V fazia capellas de santos. Ambos comediantes, e ambos, a final, fizeram figas ao embaçado demonio.
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* *
Isabel Gamarra, hespanhola estreme, floreceu em Lisboa dezesete annos antes de Petronilia, escripturada pelo actor e emprezario castelhano Annio Ruiz. Este homem era optimo poeta, philosopho, historiador e cortezão—assevera Francisco Xavier de Oliveira.—D. João V dava-lhe uma pensão annual de 120 moedas de ouro. Não foi estranho aos amores de fina tempera velados pelos reposteiros heraldicos. Tinha espiritos levantados como o seu contemporaneo Dufraisne. Em quanto engodava os fidalgos com as suas actrizes, levava ás fidalgas consternadas a boa philosophia, a boa poetica, e os casos historicos analogos á situação. E assim viveu e medrou longos annos em Lisboa.
Isabel Gamarra floreceu entre nós quando em Paris arrebatava corações e algibeiras outra hespanhola, chamada Marianna Camarro, a celebrada dançarina; mas a nossa, que parecia, com pouca corrupção, a outra, quanto ao appellido, deixou em Portugal memorias dignas de romance de grande fôlego.
Um dos seus amantes foi o marquez de Gouvêa, pai do duque de Aveiro, justiçado como regicida em 1758.
Era casada. O marido, a rogos do marquez, recebeu alguns mil cruzados; e, deixando-lh'a, declarou que a sua alliança não tivera a seriedade matrimonial. Isabel abundou no parecer do marido, e sahiu do theatro.
Amor, zelos, a gangrena que afistulava os costumes do tempo, e o descredito das ordens religiosas femininas, compelliram o marquez a instar com a Gamarra que professasse no mosteiro de Santa Monica, da ordem de Santo Agostinho.
E professou.
O marquez não despegava das grades, senão para servir o rei como mordomo-mór. Tinha esposa e filhos, já homens. Um foi o que fugiu com D. Maria da Penha de França e não voltou; o outro, já tambem sabem que tragico destino teve. Não tinham tido pai, senão para lhes dar o exemplo da libertinagem, com cabellos brancos.
E, por isso, a freira monica o ralava com impertinencias, instillando-lhe no peito bravos ciumes, que eram a vingança da moral.
O marquez recebeu um dia simultaneamente duas ordens: o rei chamára-o ao paço, e Soror Isabel ao convento. O mordomo-mór oscillou alguns minutos quando já ia caminho da côrte, e mandou retroceder o coche para Santa Monica.
—Vês tu quanto te amo?—disse o marquez—dei-te a preferencia, entre ti e o rei.
—Se fizesses outra cousa nunca mais me verias—replicou ella abespinhando-se.
—Mas olha que me arrisco a muito, obedecendo-te!...
—O teu dever é esse... Antes que todo es mi dama, diz Calderon de la Barca; e, se te não arriscares, e tudo sacrificares ao meu prazer, fraco amor me tens.
J'ai entendu moi-même tout ce petit dialogue, où il n'y a pas un seul mot de ma façon, diz o cavalheiro de Oliveira, (OEuvres mêlées, t. 3.º p. 34).
Isto é apenas irrisorio, mas desculpavel. Todos temos na vida a má digestão de um pedaço de Gamarra. O que excede toda a piedade, que uns merecem os consocios de infortunio, é que ella o trahia com um Valentim da Costa Noronha, rapaz galante, valente, o unico por quem ella sentira alguma cousa que a indemnisava da repugnancia do habito. O cavalheiro de Oliveira conta-nos assim as miudezas d'aquelles amores, que levaram o velho marquez á cova:
«Conheci Gamarra melhor que ninguem. A estreita amizade, que tive com o Noronha, me occasionou durante dous annos ensejo de vêl-a, conversal-a, e conhecer-lhe os merecimentos e defeitos. Noronha, apaixonado por ella quanto cabe em peito de homem, sacrificou á intriga d'esta actriz monastica tudo que mais caro lhe era no mundo. A estima devida á esposa, o respeito paternal, o affecto dos melhores amigos, o porvir dos filhos, socego, interesses, em fim, a propria vida que expoz em muitos lances á vingança do marquez, cujo respeito benemerito soffreu muitos desfalques de encontro á coragem intrepida de Noronha... Era elle, porém, o possessor unico da ternura de Gamarra. O marquez traçou perdêl-o. Duas vezes projectou matal-o. Estava eu com Noronha, uma noite, quando o aggrediram: felizmente repulsamos os assassinos. A final, o marquez, authorisado pelo rei, logrou encarcerar Noronha no Limoeiro, onde esteve nove mezes; e com muita difficuldade obteve soltura depois da morte do marquez. Fr. Gaspar, tio d'aquelle senhor, e valido do rei, fêz quanto pôde por demorar tão injusta prisão, vingando d'est'arte os manes do marquez, seu sobrinho.» (Obra cit., pag. 34 e 35).
O mordomo-mór estava na idade critica dos cincoenta em que as paixões atabafam o coração como aos dezesete. Os velhos, quando amam, teem a sensibilidade das meninas que principiam a amar. Se não se percatam e escudam com o arnez da paciencia e da dignidade das cãs, maus bichos os comem, como disse o Sá de Miranda.
Maus bichos começaram a desfazer o corpo, que tão regaladamente vivêra, d'aquelle D. Martinho de Mascarenhas, terceiro marquez de Gouvêa, sexto conde de Santa Cruz, assassinado pela perfida actriz de Santa Monica no dia 9 de março de 1723.
O derradeiro golpe recebera-o com a noticia de que ella havia dado a Valentim de Noronha o retrato que lhe elle dera engastado em moldura de brilhantes... Il me fit voir (diz o amigo de Noronha) entre ses propres mains ce même portrait du marquis, le même jour qu'il en avail fait présent à son infidele Gamarra.
Se era formosa? Responde o cavalheiro que diz tel-a conhecido a preceito, mieux que personne:
«Era com certeza a mais formosa actriz que vi no theatro de Lisboa: era moça, azevieira, travessa, vivissima, espirituosissima, feiticeira em todos os seus requebros. Tinha um só defeito: era ser treda. Atraiçoava igualmente o marido e o amante. Por um tinha aversão, por outro sómente estima. Se amou rasgadamente alguem, foi Noronha.» (Obra cit., pag. 35).
Assim que o finado marquez a dispensou do capricho do habito, quiz sahir do convento, e naturalmente visitar Valentim no Limoeiro. A prelada oppoz-se. Mandou chamar o marido, que ainda não era frade. Communicou-lhe o proposito de se declarar casada e passar-se ao dominio de seu homem, como era de justiça. O marido sondou a profundidade do seu direito e a profundeza do peculio da mulher. Requereu, disputando-a ao patriarcha Santo Agostinho. Sahiu-lhe a igreja com embargos á annullação dos votos da freira. A religião permittia que ella os transgredisse com o marquez e com o Valentim; mas que os annullasse para se tornar ao marido, isso era feio. A final, Soror Isabel safou-se do mosteiro, metteu-se em Castella, e voltou a representar com o marido no theatro de Madrid. (Obra cit., pag. 33, nota A).
Quanto a Valentim, não lhe faltou medo que D. João V o mandasse enforcar como fizera áquelle gentil rapaz que ousára disfarçado em carvoeiro visitar-lhe, no convento da Rosa, a cigana Soror Margarida do Monte, a quem o rei mandára vestir o habito. O desgraçado ficou na tradição com o nome de carvoeiro da Rosa. Ao proposito d'esta perigosa cigana, escreve o tantas vezes citado cavalheiro de Oliveira:
«Vi o proprio monarcha arrastar duros grilhões, e longo tempo captivo da astucia ou do magismo de Margarida do Monte. Quantas desordens, quantos desterros e mortes causados por intrigas d'aquella mulher! Morreu enclausurada no mosteiro da Rosa, como freira da ordem de S. Domingos. Este pai, que lhe foi imposto á força, não lhe incutiu mais juizo. Induziu ella um galã a visital-a na cella. Fez-lhe a vontade o desgraçado; foi preso lá dentro, e pouco depois enforcado.» (Obra cit., pag. 66).
O encarregado da prisão foi o desembargador Marques Bacalhau, homem de cruas entranhas, chamado sempre a funccionar nos dramas que terminaram pela catastrophe da forca.
Correram então em Lisboa umas insipidas quadras de queixume de Margarida do Monte contra o desembargador aguazil do carvoeiro. Diziam assim:
Um amigo, que me ouviu lêr estas noticias do theatro do seculo XVIII, perguntou-me se eu as bebi nos livros do snr. Theophilo Braga.
—Que livros?
—A Historia do theatro portuguez, onde elle conta pouco mais ou menos essa historia. A paginas 8 do 3.º tomo diz elle o que vossé diz do actor hespanhol Antonio Ruiz.
Possuo com singular curiosidade os livros originaes d'aquelle sabio. Abri a obra citada e li. Effectivamente copiei o doutor Theophilo, como o leitor vai observar. Em expiação da minha fragilidade, confesso a culpa, confrontando o original e o plagiato.
ELLE
(em 1871)
Antonio Rodrigues hespanhol sustentou-se com felicidade muitos annos no theatro de Lisboa. Era bonissimo poeta, philosopho, historiador e palaciano. Era homem de bem tanto ás direitas como actor de merito. Do seu porte honrado redundou-lhe uma pensão annual de cento e vinte moedas de ouro que lhe dava o rei. Querido das mulheres, estimado da nobreza, e relacionado com muitos prelados do reino, até do povo se fez idolatrar.
Hist. do theatro port.
EU
(em 1866)
Antonio Rodrigues, hespanhol, sustentou-se com felicidade muitos annos no theatro de Lisboa. Era bonissimo poeta, philosopho, historiador e palaciano. Era tão homem de bem quanto actor de merecimento. Do seu proceder honrado resultou-lhe uma pensão annual de cento e vinte moedas de ouro que lhe dava o rei. Querido das mulheres, estimado da nobreza, e relacionado com muitos prelados do reino, até do povo se fez idolatrar.
O judeu (romance).
Quem, primeiro que elle e eu, dissera isto em francez foi Francisco Xavier de Oliveira, em um livro que provavelmente o snr. Theophilo nunca viu; mas adivinhou-o, e eu copiei d'elle. Porém, no acto da copia, deslisei da versão do professor de litteratura em tres pontos. 1.º Elle escreveu em 1871: Era homem de bem tanto ás direitas como auctor de merito; e eu escrevi em 1866: Era tão homem de bem quanto author de merecimento. E o cavalheiro de Oliveira tinha escripto: Il étoit aussi homme de bien qu'il etoit Acteur de mérite. O tanto ás direitas do snr. Theophilo é uma perola de estylo de que eu não quiz defraudal-o nem ás tortas. 2.º ponto: Elle disse: do seu porte honrado. E eu, gafando a phrase de francezia, puz proceder em lugar de porte. Foi ignorancia que me pesa como porte ou carreto; mas ainda me fica porte ou capacidade para mais toneladas de materia bruta com que me quero dar porte ou importancia. 3.º ponto da minha divergencia, quando em 1866 eu copiava o que o doutor escrevia em 1871: Elle pôz redundou-lhe, e eu resultou-lhe. Do feitio que elle escreveu a idéa fica mais aceada. Na nova edição do Judeu hei de apanhar-lhe o redundou-lhe que é bom.
No entanto, posto que eu plagiasse este erudito, não sei por que artes lhe armei a sancadilha de chamar Antonio Rodrigues ao actor hespanhol que nunca foi Rodrigues; mas sim Ruiz. Faz-se mister sestro de muito mentir para enganar um homem, de quem se copía o engano cinco annos depois! Parece enguiço! O cavalheiro de Oliveira escreveu Ruiz. Cuidei que era abreviatura de Rodrigues, e lá vai a peta de recochête lograr o doutor que m'a encampou cinco annos antes, a mim, seu copista! Quem me desenganou foi o poeta jocoso Thomaz Pinto Brandão; e contarei ao leitor como e quando, se é que lhe não vou contar o que v. exc.ª já sabe do doutor Theophilo.
Ahi por 1730 chegou a Lisboa a companhia hespanhola, que se hospedou em casa de um clerigo seu patricio chamado D. Hieronimo Cancer. Ao assumpto d'esta hospedagem de raparigas em casa do padre fez Brandão as seguintes decimas:
Digo o mesmo, respectivamente ao sabio que desbalisei do seu trabalho de traductor de um livro que nunca viu. E agora vem de molde penitenciar-me d'um insolente repto que escrevi ha dous annos por occasião de recommendar certo livro escripto portuguezmente:
«Admiro como elle (o author) se manteve austeramente portuguez em meio dos sycambros litteratiços que, áquelle tempo, coaxavam por esses paues! Parece-me que já então por alli era (em Coimbra) contagiosa a sarna letrada do insigne rhapsodista, snr. Theophilo. Este sujeito traduzia as suas cousas originaes em vasconço azado para nos capacitarmos da sua ignorancia dos idiomas neo-latinos. Vislumbrava-se d'aquillo muito lidar com linguas teutonicas; uma construcção que cheirava ao grego, mas fallava mouro. O seu forragear no francez era um justo despique dos latrocinios que elles cá nos fizeram em 1808. Se os não citava, tambem elles lá não disseram cujas eram as patenas e os calices de ouro que nos arrebanharam nas igrejas. Retaliação justa.
«Ainda assim, as rhapsodias d'este philosopho, derrancadas pelo estylo, não tinham cunho d'author escorreito. O polygrapho, chamado ha pouco a ensinar a mocidade, sustenta creditos de original, affirmados e cimentados na singularidade bordalenga com que transpõe idéas peregrinamente formosas para as suas locuções de chouto, coxas, esparavonadas, pragaes infindos, florilegios de absurdos, listrados d'algumas raras clareiras de siso commum, apanhadas de outiva, mas desordenadas no vascolejar d'aquelle craneo legendario onde o enxofre sobrepuja o phosphoro.
«O homem, um dia, traduziu Balzac. Dizia elle que ia traduzir novellas para que o publico soubesse onde os romancistas portuguezes ceifavam, a furto, as suas messes. Era contra mim que o doutor desempolgava a flecha. Ai do Balzac, se o avaliaram na injuriosa versão do meu malsim!
«Eu tinha então oitenta volumes com o meu nome, oitenta provocações atiradas á cara juvenil do prodigio. Lá lh'as deixo estampadas. E prometto lembrar-lh'as.
«Não me ha de ser acoimada como desvanecimento a presumpção de que umas negaças litterarias, que vou tregeitando a este vidente vêsgo, hão de viver tanto como os seus apocalypses, em que a besta é muito mais intelligente e manhosa que a de S. João Evangelista. Eu, por mim, desejo que, lá ao diante, se saiba quo morri na desconfiança de que o snr. Theophilo Braga era um malabar de feira saloia enfatuado com os applausos do gentio lôrpa.»
Desdigo-me de tudo que ahi fica para minha eterna vilta. Logo que fui apanhado a copiar do snr. Joaquim Theophilo Fernandes Braga, julgo-me capaz de copiar de toda a gente.
*
* *
Agora, direi da Zamperini.
Cantou no theatro dá rua dos Condes ha 104 annos. É a terceira das forasteiras que mais ouro mineraram em Portugal e mais authenticos documentos levaram da sensibilidade do peito lusitano.
Para o theatro lyrico da rua dos Condes fintaram-se os argentarios em quatrocentos mil cruzados; e no anno seguinte, já não havia dinheiro para pagar ao tenor Schiattini. Adoptaram então os emprezarios um systema que não é hoje bastantemente seguido: como o tenor instasse pela mensalidade, metteram-o na casa dos doudos; mas, em noite de espectaculo, concediam-lhe a lucidez necessaria para cantar de graça. Iam então dous quadrilheiros trazêl-o da enfermaria dos orates em direitura ao camarim. O tenor vestia-se, e era escoltado até ao palco. Ahi, desatava o canto, compondo de sua lavra a letra, que era um desafogo de injurias rimadas aos emprezarios. O povo trovejava gargalhadas, e o improvisador, aquecido pelos applausos, sarjava a epiderme d'aquelles originaes patifes que, no fim da opera, o devolviam ao seu cubiculo no hospital de S. José.
Assim andou baldeado entre o palco e a enfermaria, até que D. José I, condoido do artista, o admittiu á sua real capella. Aos biltres illustres que capitularam de sandeu o tenor, não irrogou censura o rei nem o grande ministro: porque entre elles estava o conde de Oeiras, filho do marquez de Pombal, e um dos varios amadores da cantarina.
Não foi, porém, o primogenito do marquez a mais generosa victima no holocausto de Zamperini. O sagacissimo pai espiára-o até dar-se a crise da logreira dama se manter a expensas d'elle, sem o concurso dos capitalistas. Chegado o momento, Zamperini foi expulsa do paiz, por ordem do ministro.
Em 1772 espalharam-se em Lisboa alguns exemplares de uma reles gravura, figurando a camara de Zamperini. Está a cantora sentada ao pé de uma banca; e, ao lado, estas duas linhas com feitio de versos:
Prenez, belle et charmante coquette, prenes tout,
puis que vous êtes dans un país de fous.
Defronte d'ella está Anselmo José Braancamp, dando-lhe 1:000 peças, que ella recolhe com a mão direita, em quanto o monteiro-mór, ajoelhado, lhe beija a mão esquerda. Da bocca d'este sujeito partem duas linhas em inglez:
The true property of an englishman
T'is to pay and despise.........2
E mais abaixo:
Mylord, dont kiss her hand,
Because she has no face,
But kiss her... her... her...
Kiss her elsewhere3
Á direita, está Ignacio Pedro Quintella com a bolsa aberta, mas, ao que figura, ainda não resolvido a esvazial-a. Correspondem-lhe estes versos:
A quoi pensez, Monsieur? elle encore ne vouz aime;
allons, prenez l'exemple, et vous serez de même.
Á esquerda, Antonio Soares de Mendonça mette a bolsa na algibeira, e dá visos de safar-se, com estes versos:
Lasciate agli altri, amico, la campagna,
questa sol con quatrini si guadagna.
A um canto, está o padre Manoel de Macedo repelindo à sua celebrada ode á cantora, e João da Silva Tello recita-lhe esta quadra:
E assim termina a relamboria semsaboria.
Os casos relativos a esta cantora são vulgares e muito sabidos da ampla nota de Verdier Hyssope. Os netos dos sujeitos que a opulentaram, hoje em dia, são pessoas de muito juizo, de medianas posses, e sorveteiras glaciaes em ternuras de camarins.
1 O snr. Theophilo a pag. 151 e 152 do tom. 3.º do seu Theatro portuguez desmente o Pinto Brandão, dizendo que o Garcez não veio. O doutor, 141 annos depois, estava mais em dia que o poeta, redactor diario dos factos que vai poetisando a seu modo. Theophilo é unico!
2 O que bem caracterisa o inglês é pagar bizarramente e... andar.
3 Mylord, talvez vos désse maior jubilo, em vez de beijar-lhe a mão, etc.
Eu não contava com a gloria e o contentamento de estampar nas Noites de insomnia o livro completo de physiologia social, intitulado—os salões.
Cuidei que o pensador severo e estylista primoroso me daria como brinde tão sómente alguns fragmentos, radiados da idéa geral da obra.
Agora sei que todo o livro será meu, será d'estes opusculos que tão benigna e agraciadamente são recebidos e indulgenciados pela bemquerença de 1:000 subscriptores.
E, pois que a publicação dos salões principiou aqui desacompanhada da introducção indispensavel ao complexo dos capitulos, forçoso é que se interponha o soberbo peristylo por onde o leitor mais de grado irá ao entendimento dos trechos que já leu e dos outros que advierem.
Este livro dos salões será a porção mais para durar e sobreviver ás futilidades das Noites de insomnia. O visconde de Ouguella, ainda em annos florentes e vigorosos, póde dizer com o velho e experimentado Rousseau: Je sens mon coeur et je connais les hommes. O seu livro esplende os lampejos sinistros do espirito por onde passaram as duvidas e pungentes ironias de Proudhon—aquelle vidente que Deus mandou apregoar a prophecia da destruição debaixo dos muros da segunda Jerusalem derruida.
A Justiça, a inspiradora do livro que se intitulou graciosamente os salões, apparece-nos ahi sem a venda gentilica, vê pelos olhos da historia—a Fatalidade inflexa—; e emerge á flôr d'estes parceis, que nos atormentam, as evoluções da Providencia.
Não estamos afeitos a taes livros com assignalado sinete portuguez. O melhor romance entre nós é um espairecimento, e o melhor poema uma balbuciação em linguagem nova.
A Poesia ha de vir a ser apostolo, e a trajar insignias circumspectas de Justiça, quando os bons espiritos como Guerra Junqueiro e Guilherme de Azevedo a não descompozerem com a nudeza das tragedias, e as diatribes em que o sarcasmo não suppre o ensinamento affectivo. A «alma nova» não se compadece com uns corações que nasceram velhos.
Livros para este tempo faz-se mister que venham saturados das lições do passado, e se ajustem a entendimentos rudimentares. Aos espiritos cultos pouco ha que ensinar, logo que esses nos admoestam superciliosamente que moralisemos as massas. Mas sejamos todos massas em quanto o povo—a arraia das hortas e das galerias parlamentares—desconfiar que lhe desce do alto o exemplo que a dissolve e acanalha.
O livro do snr. visconde de Ouguella será a historia ideada um pouco á feição do estylo e maneira de Lamennais quando a referia em palavras de crente, e quando as turbas criam e estremeciam ao relampejar do Sinay. Isso passou lá fóra, e estou em crêr que nunca se acclimou aqui. Se alguma hora o fervor politico levantou cachão na consciencia publica, a infamia assignalava as esplosões de civismo com o sangue de Agostinho José Freire. Relampagos de Sinay entre nós são os que flammejam das casernas e reverberam nos gladios dos Quichotes que constituem os reis seus Pansas.
E, como eu me sinta impellido a grandes forragens historicas em terras da Mancha e Barataria, recolho-me ao vestibulo dos salões, e peço ao visconde de Ouguella que nos relate como foi que um providencial acerto lhe deparou o manuscripto do desembargador.
... Elle eut pour lui cette reconnaissance que la perle doit avoir pour le plongeur, qui l'a decouverte dans son écaille grossière sous le ténébreux manteau de l'océan.
THEOPHILE GAUTIER.
Era um dia esplendido de inverno n'este ignoto canto do occidente. Abri o Almanach da agencia primitiva de annuncios, e a paginas dez encontrei o seguinte:
«20 Terça. S. Sebastião, martyr. Festa na sua freguezia, e na igreja do hospital de S. José.»
Perdoem-me os devotos. Nenhuma d'estas festividades me impressionou o espirito.
Resolvi ir á feira da Ladra.
Ás terças feiras, assemelha-se o campo de Sant'Anna a um bazar africano, na selvagem e cynica disposição dos objectos que constituem o mercado.
Estas tristes e lugubres origens berberes demonstram-se sempre, e a cada passo. As magnificencias orientaes, em todo o esplendor e opulencia das inacreditaveis e sublimes raridades da Asia, nos seus soberbos e sumptuosos caravanseraes, não existem aqui. Lêem-se nos livros, aprendem-se nas Mil e uma noites, adivinham-se nas chronicas dos nossos navegadores, estudam-se nos espolios atrozmente mutilados das casas antiquissimas e esplendorosas dos vice-reis da India. Hoje são um mytho. Para nós—pobre povo—empurrado para as vagas espumosas do oceano, pelas civilisações que se apossaram da Europa, e que nos varrem sem piedade nem dôr para a Africa carthagineza, como se nós foramos os numidas das lendas romanas ou os ferozes kabylas das raizes do Atlas.
E o que somos nós? Deus o sabe.
Somos um povo essencialmente temente a Deus, essencialmente catholico, devotado á virgem de Lourdes e á Senhora de la Salette, essencialmente constitucional, e essencialmente ignorante n'estas lutas, que despedaçam thronos e proclamam republicas.
«Tudo quanto Deus faz é por melhor», assevera esta familia lusitana, n'um proloquio de origem celtica, que tem todo o fatalismo e sabor das raças e linguas orientaes.
As lutas do catholicismo e do crescente mourisco crearam uma epopéa grandiosa, que se traduz n'este eclectismo philosophico e religioso, que afoga, em vastas dissertações aristotélicas, e em tristissimas lutas das escólas de Alexandria, estas simples e ingenuas verdades christãs. A graça, evangelisada pelos doutores da igreja, é, talvez, efficaz para apagar estes torneios nas consciencias, e remir peccados de reminiscencias tão pagãs.
E assim vamos vivendo. A phrase é chata e villã. Mas está officialmente reconhecida e estampada nos muito veridicos e piedosos discursos da corôa, tal qual resa e commemora o agiologio parlamentar.
Houve um dia, antes das ordenanças de Carlos X, em que um jornal francez, tão lido que aterrava o throno, terminava o seu principal artigo—esculpido hoje nos bronzes da historia—com esta phrase singela e prophetica: Pobre França, pobre rei!...
Se eu dissera aqui: pobre Portugal!—Não digo.
Entrei na feira da Ladra.
Na entrada do campo, a um dos angulos, em face do convento de Sant'Anna, levanta-se a praça dos Touros. Edificações mais ou menos elegantes, mais ou menos sumptuosas, enfileiram-se, em linha recta, por uma das faces.
Ao fundo está gizado um microscopico jardim que, na louca ambição da sua tristissima Flora, cingindo-se no cinto fanado de um empoeiradissimo buxo, caberia á vontade na mais limitada sala de qualquer nababo das possessões indo-britannicas.
Pelo meio do campo, em deploravel estendal, havia pannos, pranchas de pinho e taboleiros ignobeis, onde jaziam, na mais intima convivencia, os residuos, o lixo e os detritos da geração presente e das que passaram.
Acudiu-me aqui a musa do poeta florentino:
«Lasciate ogni speranza, voi che entrate.»
Achava-me em presença do inventario de uma capital.
Examinei:
Um pires secular de Sèvres, voluptuosamente contornado nas fórmas elegantes do reinado de Luiz XV, escondia-se na penumbra d'uma terrina de faiança, que fôra a ultima aspiração da fabrica de Sacavem. Havia um sacrificio a Diana, em biscuit de Saxe, tombado sobre a espora de prateleira, que fôra triste legado do ultimo marquez de Marialva. Mais longe, espreguiçava-se com a boçal ironia de parvenu, um saleiro da modesta porcelana da Vista-Alegre, sobre os fragmentos de um vaso etrusco, humilhado e melancolico nas mutilações e concertos com que o expunham á irrisão publica. Um espelho de crystal de Veneza, onde os amores brincavam com frechas e carcazes, coloridos sobre o vidro, por mãos de fadas, entre um rosal de perfeito esmalte, n'um berço de verdura e de papoulas, encaixilhado em ebano, aberto a buril, nos cantos, em prata dourada, repousava sobre uma farda de archeiro, coeva dos devaneios da côrte de D. João V, e reliquia marcial, talvez, dos delirios asceticos do mosteiro de Odivellas. A tampa de um assucareiro do mais antigo Saxe, levantando, em relevo, uma deliciosa grinalda de boninas e amores perfeitos, recordava, na suavidade das fórmas e no primor das folhagens, as creações elegantissimas de Vanloo e Bucher. Um prato esmaltado da mais diaphana e transparente porcelana do Japão equilibrava-se sobre um fructeiro de louça das Caldas, onde se traduzia a ridicula vaidade do oleiro, que quizera rastejar no colorido e nos embautidos cambiantes das côres, e pela opulencia dos debuxos e ornatos, com os preciosos trabalhos ceramicos de Bernardo de Palissy.
Mais adiante, por entre uma selva de martellos partidos, fechaduras quebradas, correntes de ferro em completa oxydação, e chaves e cadeados de varias dimensões, dei com o retrato de el-rei D. José, pintado a óleo, em vestuario de côrte, com o globo de ouro e sceptro cinzelados, no estylo classico das monarchias absolutas. Pendia o quadro sobre um candieiro de latão, pharol de tres lumes, contemporaneo, talvez, da lampada a cuja luz Paschoal José de Mello escrevera o seu livro de direito criminal. Após estes primores archeologicos desenrolava-se uma fileira incommensuravel de botinas, sapatos, babuches, chinelas, tamancos, galochas e alpercatas, que se perdiam n'uma extensa linha, talvez a ultima illusão dos seus possuidores. Sic transit gloria mundi, clamavam os escravos, queimando estopa, detraz dos carros dourados dos triumphadores romanos.
Desde o vestuario tragico, que acompanhava em scena os heroes do atheniense Sophocles até ao sóco plebeu da comedia vulgar, onde se expandia o riso de Aristophanes, havia tudo n'este bazar immenso das gerações extinctas. Gigantes e lilliputianos, heroes, semi-deuses e proletarios poderiam calçar-se, afoutos, n'aquelle cháos de todas as civilisações.
Havia a bota de canhão, séria, grave e irreprehensivelmente lustrosa—despojo venerando de algum desembargador da casa da supplicação, de par com a chinela phantastica e imaginosa da cortezã mais desenvolta e elegante. Por entre colchas da India, recamadas de lentejoulas, esmaltadas em mosaicos de fios de ouro, entretecidos em variados matizes, lençoes de Bretanha, finissimos, arrendados em arabescos nas orlas das cabeceiras, columnas de carvalho do norte, abertas a buril, em que pousavam passaros esculpidos sobre pampanos e hastes de videira, no meio de fragmentos de apparatosos biombos de charão escarlate da phantastica China, onde aves e dragões dourados surgiam de vasos idealisados pela imaginosa creação do artista, através de crystaes de Bohemia, partidos e mutilados, enunciando todas as côres do prisma, e de envolta com vassouras de piassaba, modestas e envergonhadas em toda a humildade da sua burguezia, avistei um contador de Boule, moldado em tartaruga, envolto em festões de grinaldas de cobre dourado, no mais correcto estylo Pompadour, e arremedando, na ousadia do desenho e na elegancia e recortes das folhas de metal, as sublimes inspirações de Benvenuto Cellini.
Por detraz d'este contador, que era a joia, o talisman, a maravilha, no seio d'aquelle crapuloso e hediondo bazar, equilibrava-se de cocoras, formando como novello, uma velha octogenaria, que se poderia descrever por uma ruga inteira, que em zig-zag ou em grega lhe cortava as faces, e ia perder-se, em espiral, n'uma garganta, que parecia a pelle abandonada por uma serpente do deserto. Encarei-a a medo, e com um pavor inexcedivel. Pareceu-me dar de rosto com uma das feiticeiras de Macbeth. Envolvia-se n'um cafran ou burnus—uma especie de farrapo de panno, que lhe cingia o tronco, deixando solta a cabeça, que apparecia envolta n'um lenço asqueroso, injuriado pelo tempo, e que emmoldurava dous olhos negros scintillantes e vivos, n'uma physionomia baça e livida, como um pedaço de cera amollecido entre os dedos.
Dirigi-lhe a palavra em phrases breves. Cheguei a ter receio do despertar d'aquella sphinge. Ouvi, depois, um ruido surdo, como de um movel, que se arrasta, uns sons roucos e gutturaes, na melopéa arabe, uma voz cavernosa, e sahida dos abysmos, como se fôra uma das pythonissas da velha Escocia. Afigurou-se-me que lhe ouvira a saudação feita ao heroe de Shakspeare: Salvè thane de Glamis, e de Candor!
A fascinação, que me produzira o cofre, explica, de certo, estas allucinações e devaneios acusticos.
Enchi-me de animo, e perguntei-lhe de novo: quanto custa este contador?
A velha, a sibylla, a bruxa, o que quer que era, remexeu-se, por entre os farrapos que a cobriam, rumorejou por duas ou tres vezes algumas phrases, que não chegaram aos meus ouvidos. Alguma invocação infernal, algum preito a Satanaz,—e depois accentuou em voz clara e cadenciada as seguintes palavras:
—Dê-me dez libras, e leva-o de graça.
—E a chave?
—A chave não a tenho. Perdeu-se. Ha papeis dentro. Bem sei que os ha. São comedias, entremezes ou seja lá o que fôr. Doudices do dono. O desembargador João Aleixo de Castro Pimentel e Figueiredo escrevia muito nos ultimos annos da sua vida.
—Conheceu-o?
A velha sorriu-se.
A ironia d'este sorriso tinha não sei que reflexo dos lampejos do fogo infernal.
—Se o conheci! Fui sua criada. Tinha sido sua escrava. Comprou-me em Tetuão. Morreu-me nos braços, no ultimo de dezembro á meia noite. Eu vendo os moveis para comer.
Entreguei-lhe as dez libras sem regatear cinco reis. Esperava com esta amabilidade que a antiga escrava do desembargador continuasse a sua curta narração.
Mas a velha guardou o dinheiro n'um sacco que lhe pendia do cinto, velou as faces com o farrapo ou capote que a cobria, e ficou muda e silenciosa como um mysterio.
Não me dei ao trabalho de procurar uma chave. Quebrei a fechadura, achei nas gavetas um manuscripto, e encontrei na primeira pagina o seguinte:
AO LEITOR
Vivi bastante para alcançar mais de metade do seculo dezenove. Considerei, examinei, e estudei os acontecimentos, e os homens do meu tempo. Vou debuxal-os e desenhal-os taes quaes os concebi, e taes quaes elles se teem mostrado n'estas rotações constitucionaes de uma época, que não é a minha. Onde bastar o esboço abandonarei a palheta, e usarei do lapis de carvão. Onde o vulto carecer de mais luz, e de mais vasto horisonte deixarei o pincel, e pegarei do cinzel e do escopro. Não tenho pretenções a Phidias, nem a Miguel Angelo, nem a Rubens, nem a Hogarth, nem a Van-Dick, nem a Aretino, nem a Delacroix. Faltam-me os traços de Zubarran, as linhas de Corregio, as tintas de Ticiano, os perfis de Murillo e o riso sardonico de Gavarni. Com tudo, as sombras d'estes nossos Mirabeaus, Talleyrands, Barnaves, Berriers, Collards, Cavaignacs, Favres e Marats hei de pôl-as de pé, hei de vestil-as, hei de enroupal-as, nas vestiduras do nosso seculo, e hei de com ellas e só com ellas povoar
OS SALÕES
Segue-se o livro.
Vou publical-o.
VISCONDE DE OUGUELLA.
Escreve elle no n.º 69 da Actualidade:
«Publicou-se o n.º 17 da Tribuna. Insere artigos e versos dos snrs. Ferrer Farol, Guimarães Fonseca, e outros escriptores, e não desmerece dos numeros ulteriores.»
Ulterior quer dizer que vem depois, ou que tem data posterior.
Á vista do quê, o n.º 17 já publicado é posterior ou ulterior ao n.º 18. Segundo este systema chronologico de Pinto, o depois está primeiro que antes, 6 é a continuação de 7, e os filhos nascem primeiro que os seus paes. Se elle quizesse dizer que os n.os 18, 19, etc., da Tribuna promettiam ser iguaes aos seus precedentes, escreveria: «Tudo nos assegura que os numeros, que hão de sahir anteriormente, serão dignos dos numeros que já sahiram posteriormente.»
Sem impedimento d'estes e d'outros anteriores e ulteriores furunculos de aposthema intellectual, proponho á academia real das sciencias este snr. Silva... para varredor.
Bravo! almas generosas do meu brioso Portugal que amparastes a viuva e os sete orphãos do egregio orador!
Bravo! corações que avaliastes o talento do pai e o infortunio dos filhos!
Formoso rastilho de luz foi esse que vos guiou desde a sepultura de Santos-Silva até ao recinto em que uma viuva, entre a saudade e a pobreza, ampliava o regaço para aconchegar do seio aquelles sete rostos banhados das ultimas lagrimas de seu pai.
Entrou, a um tempo, n'aquelle lugar de angustias, a mortalha e o manto da misericordia. Sahia um cadaver, e entrava o anjo da caridade.
João Antonio de Santos-Silva levava espelhadas na retina morta as oito imagens queridas; e a Providencia rodeava de amigos aquelle sagrado grupo de crianças que punham as mãos—expressão unica das agonias inexprimiveis.
A fatalidade da morte justificava, não menoscabava os designios do Altissimo.
*
* *
Eu conheci-o pouco: fallei com elle duas vezes; lia-lhe os seus discursos como quem estudava a grande phrase lusitana no mais correcto e energico orador parlamentar.
Tem lanços admiraveis de força e de atticismo as suas orações. Não sei nem entendo o quilate politico dos seus discursos. Estudava-o meditativamente, sem lhe graduar a justiça da aggressão ou da defeza. Os seus adversarios, a julgal-os pelo tamanho do gladio que os feria, pareciam-me grandes, como os de Isocrates e Demosthenes. Se o não eram, o orador magnanimo deu-lhes a honra de o inspirarem.
Tambem eu lhe mereci a consideração de algumas cartas em que me vejo honorificado com o titulo de amigo. Mal pensava eu, quando ha dous annos lhe fallava da irreparavel perda da minha saude, que tão cedo o seu nome iria ajuntar-se aos de tantos amigos mortos, a quem eu dissera o ultimo adeus.
E, quando eu lhe fallava de meus filhos com o coração cheio das presentidas lagrimas de dous orphãos, dizia-me elle que lhes seria protector n'esta vida, se Deus lh'a não tirasse ás suas seis criancinhas.
Como esta carta está revendo as lagrimas e a santidade de pai!...
Porque não hei de eu dar um quinhão d'esta melancolia aos que tem filhos? E uns assomos de jubilo aos que abriram mão redemptora á familia de Santos-Silva?
Esta carta foi datada em 24 de outubro de 1871.
«.....: Vou dar-lhe um conselho. Estudei e exerci a medicina por uma boa duzia de annos. Estudei-a nos outros, com os escrupulos de uma sã consciencia, e como quem tinha a sua missão por um sacerdocio. Tenho-a tambem estudado em mim, porque a isso me obrigam os meus padecimentos. Dos desenganos que colhi na sciencia e na pratica, resulta para mim uma regra que, se não é uma verdade infallivel, é com certeza muito geral. Nada ha mais falso ou pelo menos incerto do que o juizo que o paciente faz do seu estado, pelo que diz respeito ao diagnostico e prognostico da sua molestia. Os proprios medicos são os que, n'este ponto, mais se enganam, por que são os que mais exageram.
«Não creia, pois, nas suas anemias, nem nas suas ethicas; mas não descure restaurar as suas forças, e seguir tenazmente um tratamento hygienico, analeptico e moral, que lhe reconstrua o sangue, lhe regularise qualquer desarranjo de funcção, lhe tranquillise o espirito, ou o levante de qualquer ligeira prostração. Creia tambem na sua idade, e na força medicatriz da natureza, que, quando é bem dirigida e auxiliada por um medico prudente e habil, faz milagres.
«Falla-me o meu amigo de dous filhos seus, e appellou para o coração de um pai que tem seis. Feriu a minha corda sensivel; estremeceu-a com as mais vivas vibrações. Não sei se todos os paes são como eu sou: devem sel-o. De todas as desgraças humanas a que mais confrange a minha alma, e mais me angustia o coração, é a que se desata em lagrimas e em infortunios sobre a orphandade desprotegida e desamparada, a quem Deus esqueceu na hora em que encerrou o livro da vida ao pai que só vivia do santo amor de seus filhos.
«Se Deus me alongar a vida, e seus filhos precisarem de mão valedora que os guie e ajude n'esta escabrosa peregrinação, irmanal-os-hei aos meus. Repartirei com elles o meu prestimo, se então o tiver. Estas palavras não são só de consolação: são compromissos solemnes, que espero não desmentir.
«A posteridade nem sempre se esquece de pagar as dividas sagradas de seus antecessores.
«Meu caro amigo, não pense em morrer. Pense no que necessita, e de que Deus, que é justo, o não póde por ora privar. Pense na sua vida, que é a vida de seus filhos.»
Elle morreu; e, na hora derradeira, reconhecia ainda a justiça divina, posto que estivesse lendo nas lagrimas de sua familia e nas agonias proprias que era chegada a morte. Abençoou-a como enviada de Deus, quando sentiu na garganta a constricção da asphyxia.
O halito consolador da Providencia passára, como vaticinio, por aquella alma, quando me escrevia as esperanças realisadas em seus filhos: A posteridade nem sempre se esquece de pagar as dividas sagradas de seus antecessores.
Pagou. O monumento do grande orador é o pão da sua viuva e dos seus sete filhos.