SERMÃO
DA
ESMOLA OU DA CARIDADE
Prégado
na 5.ª dominga da Quaresma de 1839
na
Sé de Lisboa
pelo Conego Arcipreste da mesma Sé,
o Doutor de capello em Canones Augusto Frederico de Castilho
Jesus abscondit se, et
exivit de
templo.
Escondeu-se Jesus, e sahiu do templo.
De duas coisas nos fala o texto que propuz: de Jesus escondido, e de
Jesus fóra do templo; e nem por sahido do templo, nem por
escondido, deixa Jesus de ser Jesus, ou nos dispensa de seu
serviço. Jesus vivo, e na occasião de que trata o
Evangelho, estava no mundo, e faltava no templo. Jesus, hoje, por dois
milagres de fé e amor, por duas eucharistias,
está no templo, e mais no mundo: no
templo,
encoberto no
Sacramento; no
mundo, encoberto nos seus pobres.
N'uma e n'outra parte o devemos servir com egual zelo.
Orar todo o dia na egreja, e deixar fóra d'ella morrer
á fome e ao frio os necessitados, não
é de christão; é
fé morta. Soccorrer aos infelizes, sem crer (se tal
é possivel)
n'Aquelle que elles representam, é caridade morta; tambem
não é de christão.
Vós pareceis christãos pela fé, pois
que vindes á casa de Deus; vós o pareceis, mas
não o sois, porque essa fé é morta;
cumpre que se resuscite pela caridade.
Da caridade prégarei portanto hoje, ou antes da esmola, que
é a caridade pratica e activa; é o christianismo
na sua parte mundana, o culto do Verbo humanado aos olhos de todos, a
religião de todas as religiões, a philosophia de
todas as philosophias, o axioma para todos os entendimentos, o dogma
até para o atheismo. O objecto é o mais
accommodado ás necessidades do tempo em que vivemos; offensa
faria á vossa piedade, se vos exigisse a
attenção.
Alma e coração, discurso e affectos, convencem e
persuadem como dever a esmola. Não creou a Natureza
irmãos privilegiados, e morgados na familia dos homens: para
uns, patrimonio de riquezas, e commodidades; para outros, encargos de
miseria, e lagrimas. Acasos, sagacidades, ou malicias, estabeleceram
essa desegualdade; e andou tambem ahi traça
recôndita da Providencia, para estreitamente nos ligar; se
uns de outros não carecessemos, não nos
amáramos; se tudo a nós mesmos referissemos,
não fôramos
virtuosos, seriamos os mais infelizes dos entes, desentranhada de
nós a beneficencia, origem de toda a sociedade, e purissima
fonte dos verdadeiros prazeres da vida. Egualou-nos,
pois, a Natureza; a Providencia nos
desegualou; e n'esta contradicção apparente,
é que
Deus, supremo Autor de ambas, manifestou toda a sabedoria dos seus
conselhos. Na Natureza, isto é, na sua Justiça,
quiz que tivessemos uma norma de egualdade; na Providencia, isto
é, na sua caridade, que aprendessemos a restabelecer, quanto
em nós coubesse, aquella egualdade primitiva por mutuos
soccorros.
O homem caritativo é portanto o homem da Natureza, e o filho
mimoso da Providencia, depositario e executor da Justiça de
Deus, transumpto e argumento de sua bondade e misericordia.
O supérfluo de nossos bens constitue rigorosamente o
patrimonio dos pobres, e negar-lh'o é ao mesmo tempo
injustiça e barbaridade, egual á do depositario
que consome os bens sagrados do deposito, do ecónomo que
converte em proprio uso as rendas do seu senhor, do tutor que devora a
substancia do seu pupillo; é ainda mais: é
declararmo-nos inimigos de Deus, desacreditando, e dando, de certo
modo, quebra áquella Providencia, cujos éramos
dispensadores e supplementos; áquella Providencia, que
não consente que as avesinhas mesmas, que voam errantes pelo
ar, caiam mortas em terra, sem ordenação do Pae
Celeste.
Tudo quanto de nós emana, ou em nós ressumbra
bello, generoso, heroico, brota (não duvidemos) da caridade.
Deus, para tornar as virtudes caras, e accessiveis até aos
mais faltos de discurso, não creou a caridade,
senão que a tirou de suas proprias entranhas,
e orvalhando-a sobre a terra, lhe deu por
benção que de todas as mais virtudes fosse ella
semente e fruto, seiva interior e graciosa florescencia; e ella ahi nos
ficou independente de qualquer reflexão, affecto innato,
instinto (¿por que o não diremos?), instinto
moral.
Ainda mais, senhores: não só a tornou o mais
profundo, mas tambem o mais extenso de todos os affectos, para que,
sobre encher-nos o coração de virtude, ella nol o
podesse occupar; sobre constituir-nos felicidade, nol-a podesse tornar
permanente.
¡Oh! ¡que maravilhosa não é
esta caridade, que em todas as edades, e em todas as circumstancias da
vida e do mundo, sempre acha alimento, sempre lhe renascem objectos, e
infinita como o Ceo, d'onde procede, cobre, como elle, toda a Natureza
creada, passa dos homens aos animaes brutos, d'estes aos proprios entes
insensiveis, adivinha infortunios, inventa e persuade soccorros,
até para entes que os não sabem agradecer, que os
não requerem, que os não precisam!
Tem a caridade, como as demais paixões, os seus excessos;
momentos em que se não sabe conter, nem governar; suspiros,
lagrimas, e desalentos; enthusiasmos, impetos, e arrojos heroicos; mas,
como tudo lhe nasce do amor e compaixão, tudo é
terno, tudo
é mavioso e consolador. Virtude de virtudes, virtude unica
onde não ha excessos.
Pela caridade principalmente nos podemos dizer imagens de Deus, e obras
primas da creação. ¡Ah! ¡que
se jamais
se podessem tributar ao homem cultos, que só á
Divindade
se devem, ninguem tanto
os merecêra, como esses que, possuindo os thesoiros dos bens
terrestres, os derramam no seio
dos infelizes!
Porém, meus irmãos, não é
mistér uma brandura de animo requintada, para nos movermos
com os infortunios dos nossos semelhantes, e procurarmos-lhes o
remedio. ¿Qual de nós, vendo padecer um
animalsinho, morto de fome, transido de frio, desamparado ás
inclemencias de uma noite de inverno, e invocando a nossa piedade com
aquelles gritos lastimosos, que a Natureza ensinou a todos os viventes
para dizerem as suas dores, qual de nós se não
sentiria profundamente condoído, não correria a
abrir-lhe a porta, a agasalhal o, a soccorrel-o? ¡Ah!
¿e deixariamos
no infortunio o homem? ¿o homem, semelhante nosso, nosso
irmão, com quem nos ligam todos os interesses, cujos bens
possuimos, cuja felicidade é tão travada com a
nossa, e cuja desgraça tem sido talvez effeito da nossa
injustiça, da nossa barbaridade?
¡Oh! ricos do mundo, que cegastes e ensurdecestes o
coração... ¿que digo? que o trazeis
defunto no peito, e incapaz de resurgir aos clamores mais doridos da
Natureza, ¡ah! emquanto, ao redor de vós, se
estão sempre a abrir abysmos, que engolem tantos miseraveis,
¿que uso mais util farieis vós de vossos bens, do
que seria o acudir-lhes? Na vossa avidez insaciavel (semelhantes ao
inferno, que, por mais victimas que lá chovam,
não cessa de clamar
affer,
affer, mais e mais), uns de vós,
ó ricos do mundo, se contentam
com a visão beatifica dos seus cofres;
a sua alegria, a sua felicidade, o seu
proximo, o seu mundo, a sua alma, o seu Deus, tudo seu ali jaz; ali
enterraram o coração, e o conservam mais duro,
mais inerte, mais frio, mais inutil, que esse metal que amontoaram; em
quanto outros, pródigos em excesso, como se os seus
thesoiros os affrontassem, os semeiam e desbaratam por phantasias, por
luxos, por vaidades, sem moderação, sem ordem,
sem destino, sem uma só utilidade real. Mais loucos ainda e
mais infelizes, outros emfim, parecendo arrenegar dos beneficios da
Providencia, os cofres que ella confiou nas suas mãos, elles
os despedaçam e espalham, não só sem
vantagem do proximo, mas ainda com o maior prejuizo, e inteira ruina de
si mesmos. Com essas riquezas franquearam a entrada a todos os vicios,
abysmaram a rasão, destruiram as forças,
aniquilaram a saude, anteciparam a morte, e.... ¡ah! meus
irmãos, ¡que de
inquietações, de violencias, de trabalhos e de
dores, para comprar uma eternidade desgraçada!
¡Com a chave de oiro de um paraiso, abrir um sepulcro e o
inferno!
Maus ricos, vós sois como o discipulo traidor; com esses
dinheiros de maldição, preço dos
tormentos e da morte de Jesu-Christo, que todos os dias se renova nos
seus pobres, que vós entregais e desamparais sem piedade,
com esses dinheiros de maldição, ides comprar um
arrependimento esteril, um remorso tardio, uma morte desesperada, o
odio dos homens, a vingança de Deus, os tormentos eternos!
¡Quantas injustiças accumuladas n'esta barbara
opulencia! Injustiça para com os infelizes, cujos bens
sonegamos, cujos lamentos não queremos escutar, cuja morte
mesmo antecipamos muitas vezes.—Injustiça para com Deus, de
quem recebemos esses bens, com a condição da
caridade, e cuja Providencia desmentimos, e a quem devemos continuos
beneficios e esmolas, desde que entramos no
mundo.—Injustiça para comnosco mesmos, a quem fechamos as
portas de um céo de deleites, em quem apagamos todos os
sentimentos de virtude, a quem já n'este mundo excluimos de
toda a felicidade.—Injustiça, emfim, para com todo o genero
humano, de quem nos afastamos, a quem não queremos
pertencer, de quem até nos declaramos inimigos.
¿E para onde fugirão os nossos olhos, que
lá não vá a miseria publica
perseguil-os? Nunca soaram tão alto os gemidos dos
desgraçados,
porque nunca a nossa immoralidade foi tão barbara.
Realisou-se sobre tantos irmãos nossos parte grande das
maldições, com que Deus, por bocca de
Moysés, ameaçava os seus inimigos. Explorae por
todas as guaridas da indigencia; visitae os tugurios e choupanas
miseraveis das aldeias, das maiores povoações, e
até das
cidades... ¡Grande Deus! ¡que multidão e
variedade
de miserias! Uns arruinam a saude por comidas dessaborosas e doentias,
mais para brutos que para gente; a outros, nem um boccado de
pão negro e amargoso apparece nas vinte e quatro horas;
¡quantas se não chamam poisadas e casas, que antes
são covas,
masmorras,
ou jazigo de viventes! ¡de quantos não
é cama a terra humida, e vestido o que nem lhes encobre a
nudez! ¡Tantos paes cercados de um bando de meninos, chorando
e pedindo-lhes pão! Tantos outros meninos, ainda mais
infelizes, orphãos de pae e mãe, que nada teem na
Natureza,
além do sol que os aquece, e do ar que respiram, e
começam a conhecer tão cedo a dureza dos homens,
obrigados, quasi desde que abrem os olhos, a procurar por si mesmos com
que supram as necessidades, ainda tão mesquinhas, mas
tão pesadas para nós! ¡Tantas viuvas
sem protecção, em quem, sobre o desamparo e
dôr perpétua da viuvez, accresceu verem os seus
bens arrancados por crédores, e quantas vezes por
ladrões, debaixo do nome de crédores!
¡Tantos obreiros atirando-se a trabalhos superiores
ás suas forças, ou á sua
creação, ou aos seus annos, para sustentarem, com
o suor, a vida, que, n'esse mesmo suor, se lhes está
derretendo e mirrando! ¡Tantos enfermos expirando
á mingua, sem medico, sem tratamento, sem remedios, sem
enfermeiros, sem alma viva que os console, que lhes suscite as ideias
da Eternidade, e até sem um lençol que os
amortalhe! ¡Tantos privados dos olhos, dos braços,
e do uso dos sentidos mais preciosos, incapazes de trabalhar, arrojados
para a borda dos caminhos, soffrendo dias inteiros os ardores do sol,
as chuvas, os frios, e os ventos do inverno, considerados como monstros
de outra especie pelos homens! ¡Tantos mendigos, emfim, sem
lar, sem nada, nem um amigo, sósinhos em meio de tanto
mundo!
¡Mas que me canço eu a enfeixar o que
não tem conta! E quando de taes miserias conseguisse fazer
aqui um piedoso inventario, ¡quantas outras não
ficariam de fóra,
mais profundas, e mais miserias, porque ellas mesmas refogem e se
escondem! As ruas e as praças, com todos os seus clamores e
penurias, não confessam ainda assim quanto a nossa especie
está padecendo. Ha, em todo este exterior, um não
sei que reflexo de verniz e doirado, um não sei que ruido
festivo, um perfume de opulencia e sabores, um certo sorrir, um raio de
sol, um aspecto de céo azul, uma vida e uma
esperança, que são disfarce, e mascara da
existencia do povo, real e intima. Pelas ruas corre abundante a vida.
Sahindo-se para a rua, deixam-se á porta as lagrimas, e
cuidados verdadeiros, e toma-se na bocca e faces o contentamento
postiço. Por fóra andam os corpos em toda a sua
gala; mas dentro, por todo esse immenso
dentro, nas entranhas d'esse infinito
massiço de pedras e areia, n'esses fechados labyrintos sem
termo, n'esses apinhados e humanos favos de mel, estão
chorando milhares de corações,
estão-se desesperando milhares de almas.
Oh! ¡se Deus permittisse que, na hora em que o abastado gira
para se recrear, por esses caminhos tão lageados de
marmores, tão ataviados de vidros de cores, de metaes
brilhantes, de todas as espumas mais formosas do luxo, se Deus
permittisse que n'essa hora se lhe revelasse aos olhos por entre que
duas montanhas de infortunio, vai caminhando!
¡oh!
¡como de repente, semelhante a Pharaó, na estrada
do Mar Vermelho, desabariam de todas as partes a afogal-o ondas e mares
de dor!
Sim, senhores, alem de outros infelizes que tambem precisam da
caridade, ¡quantos pobres envergonhados que abafam
soluços e gemidos entre as quatro paredes da sua casa! Nas
horas da noite, quando das dansas, dos jogos, dos espectaculos, e de
peores logares, saem torrentes de mundanos, em quem parece que o tempo,
o dinheiro, a saude e a fama pesam insoffrivelmente, ¡que de
vezes se lhes não atravessam diante uns phantasmas de
penuria, em fórma já de mulheres, já
de meninos,
já de anciãos, a quem a vergonha do sol
não consentíra sahir dos seus sepulcros! De um
portal, de um recanto, da bocca estreita de uma rua, nos saem as suas
vozes, semelhantes a gemidos, antes que as trevas, de que
não soffrem arrancar-se, nol-os deixem descobrir, estendendo
a mão a receber a esmola, e a abençoar a
caridade; algum vos esconde um rosto, que, em melhores dias, tinheis
visto brilhar á luz da prosperidade.
Estes mortos e esquecidos do mundo, espectros pallidos, que temem os
dias, e não temem o aspecto da noite, porque já
não podem ser mais infelizes, é Deus quem nol os
envia ao encontro, menos por elles que por nós, menos para
alliviarmos as suas penas que para elles nos inspirarem algum affecto
ao coração gasto, algum pensamento fundo e
importante á alma dissipada. ¡Felizes
vós, os que entendeis estes avisos mysteriosos da
desgraça, estas embaixadas
solemnes do outro mundo! ¡Felizes os que, em vez de os
repellir com dureza, accudis com o dinheiro á necessidade,
com a esperança ao queixume, e com a
commiseração a quem não
cuidava que no mundo a houvesse!
—Mas estes pobres, e a maior parte dos pobres que me accommettem, que
me desatinam, que me desesperam (dizeis vós),
¿quem me abona a sua pobreza? e concedendo-lh'a,
¿quem me affirma que não é ella
castigo da sua perguiça, ou mau proceder?... ¿Que
vos importa? Se póde ser uma coisa ou outra, dae; antes
lançar dez vezes, vinte vezes, cem vezes, em vaso cheio, ou
em vaso indigno, do que deixar de accudir uma só vez a quem
do vosso superfluo fará o seu necessario, e talvez, se lhe
recusasseis, padecêra n'um dia o que vós
não padeceis n'um anno, ou, para o não padecer,
commêttera crimes, que, depois de o perderem a elle n'este
mundo, vos percam a vós no outro. E demais: vós,
que tão de repente sentenciais o desgraçado que
não conheceis, ¿por que
vos não sentenciará Deus, por esse mesmo facto, a
vós?
Póde não ser pobre o que vos
pede.—Sim, e algumas vezes se tem visto.—
Póde
ter merecimentos para muito mais ainda do que padece.—Sim,
que é homem como
vós, e com mais razão do que vós para
aborrecer os homens, e ser seu inimigo. Sim: tudo isso póde
ser; ¿mas examinastes vós se
era tudo isso, ou se era uma parte? Recusando a esmola por tal motivo,
¿não tereis muitas vezes accrescentado ao roubo a
injuria?
¡Ah! em quanto
sentenciais uma alma que não conheceis, e condemnais o vosso
semelhante para o deixar ir despojado, ¡quanto mais
razão não tem elle para condemnar a vossa alma,
que vós mesmos lhe descobristes inteira com uma
só palavra!
Mas ainda vos concedo (perdôe-me Deus a
concessão), que todos esses andam expiando peccados seus;
são até criminosos e facinorosos; que nem um
d'elles tem necessidade; são até abastados e
opulentos; que todo o mendigo é um salteador e um
millionario. ¿Estais contentes com a concessão,
ou quereis mais? Não podeis querer mais, porque o
não ha. Pois bem: ¿mas que direis, quando eu vos
apresentar pobres, de uma pobreza processada e demonstrada, que vos
não importunam nem se queixam, dos quaes muitos, dos quaes
inteiras classes, não mereceram, nem poderam merecer, o seu
estado? Ahi tendes os enjeitados, que não é muito
que o sejam do mundo, e da fortuna, depois de o serem de suas
mães; ahi os tendes, que a Misericordia mesma não
basta a amamental-os e vestil-os, e, de seus pobres bercinhos, caem em
cardumes nas sepulturas, e vôam a ir depôr na
presença de Deus,
contra a dureza de tantos, que, tendo-lhes dado a vida por um peccado,
por um peccado ainda mais mortal (se é licito
dizêl-o) o da avareza, lhes concorrêram para a
morte.
¿Quereis mais? mais vos darei: tambem necessitados, tambem
innocentes. Ahi estão tantos asylos da infancia desvalida,
onde se queria educar e felicitar um seculo novo, e que, por falta de
caridade publica, morreram,
depois de tão bem nascidos e esperançosos.
¿Quereis mais? ahi estão os asylos da velhice,
tambem e mais desvalida, onde os soccorros nunca são
sobejos, nem sufficientes; porque muitos mais são sempre os
que batem e choram áquellas portas de refugio, que os que a
estreiteza das posses consentem sentar-se lá dentro
á meza do convite de Deus.
Assim que, por ambos os horizontes da vida, vos está o
Senhor chamando o
coração, e por toda a parte vos tem cercado do
dever da esmola.
¿Quereis mais? ahi tendes hospitaes, recolhimentos, cadeias.
¿Quereis mais? ahi tendes centenares de religiosos egressos,
a quem falta pão, lar, vestido, mundo, que o não
conhecem, nem elle os conhece; militares que envelheceram nas armas e
morrem á míngua; viuvas e orphãos de
servidores do Estado, a quem se não paga, nem com
esperanças.
¿Quereis mais, e mais sem conta? ahi tendes os partidos
políticos vencidos, em quem não é
mister longo
exame para se reconhecer a desgraça, porque é
corollario evidente de causas notorias. A terça parte de uma
edade do homem, dezanove annos, para não datar de mais
longe, tem sido entre nós consumidos em
dissenções e odios. Com successivos terremotos
politicos, teem desabado as mais altas torres de fortuna;
desappareceram abundancias afogadas entre ruínas; voaram
arrancadas de
furacões contrarios e imprevistos, as mais florescentes
esperanças; os caminhos trilhados e sabidos subverteram-se;
por onde se descia,
sobe-se; por onde se vingavam as alturas, desce-se precipitado; algum
dos filhos do pobre vôa dormitando em côche de
oiro, e o ancião doirado, que ainda hontem lhe houvera
matado a fome, lhe alonga a mão, da margem do caminho,
clamando esmola. Não se cuide, senhores, que eu condemno o
presente e absolvo o passado. Sei os males e os bens do passado;
entendo os males e os bens do presente, ou antes os males do presente e
bens do futuro; mas vejo, de mais a mais, um cardume de males
extraordinarios, que não são, para que assim
digâmos, nem do
homem, nem da Natureza, nem de Deus, mas sim da mudança, da
transformação
da fortuna, da fortuna cega, que, no trocar das mãos, quebra
sem pejo, nem dó, nem consciencia, o que depois todos choram
e ninguem concerta.
Vivemos pois entranhados e afogados n'um mundo de dôres, que
não vemos, pela peior de todas as cegueiras, que
é o não querer ver. E quando d'esta somnolencia,
d'este lethargo, d'esta morte do coração,
acordamos algum momento a este som
Esmola a este vosso
irmão pelas chagas de Nosso Senhor Jesu-Christo,
já nos
reputâmos muito generosos, se em vez do silencio ou de uma
injuria, lhe acudimos com um
Deus o favoreça;
e
tornâmos a atar muito depressa o fio dos pensamentos
vãos ou peccaminosos que traziamos; e lá
deixámos para traz a Jesu-Christo morto de fome, a
Jesu-Christo chorando na pessoa do seu pobre. ¡Ah! que se o
seu estado de abjecção
os não obrigasse á
humildade ínfima,
se o uso de soffrer estas repulsas os não tornasse
já meio insensiveis, se elles nos podessem retorquir,
«¡Quê! (nos responderiam)
¿Deus que nos favoreça? Deus nos favoreceu com
esses bens que indevidamente retendes; Deus nos favoreceu com os
thesoiros da sua Providencia, que vós nos roubastes.
¿Que o Senhor nos favoreça? ¿Quereis
acaso tental-o? ¿que elle obre em nosso favor um milagre
desnecessario? ¿que torne a chover o maná do
céo, não sobre um
deserto árido como aos nossos paes, mas sobre uma terra, que
por toda a parte está cheia dos seus frutos e das suas
dádivas? Esse maná vós o possuis, e
encerrado inutilmente nos vossos vasos; Deus fará que se
corrompa e apodreça. ¿Que Deus nos
favoreça,
deshumanos? Sim, sim, elle nos favorece na vossa propria dureza; os
merecimentos que terieis na sua presença em serdes
misericordiosos, elle os accumula sobre a nossa
resignação; com os infortunios que nos
accrescentais, e os prémios que rejeitais, se
juntarão em nosso favor aos prémios de que a sua
misericordia nos achar dignos.»
¡Ah! meus queridos irmãos, que se em nossa dureza
fossemos capazes de entender os gritos e lagrimas de tantos paes de
familias, cujas familias podem dizer que não teem pae,
tantos orphãos de pae e mãe, tantas viuvas
desamparadas, tantos jornaleiros e camponezes arruinados, tantos
enfermos, tantos cégos e aleijados, tantos mendigos, tantos
pobres envergonhados, achariamos, nas suas lagrimas e gritos, menos a
significação
das suas dôres e
desalento, que uma reprehensão amarga da nossa barbaridade
para com os nossos irmãos, da nossa ingratidão
para com Deus; acharíamos, sim, acharíamos
até n'esses lamentos, a
expressão propria com que devêramos deplorar
nós mesmos a dureza, antes ferocidade, dos nossos
corações.
Não só, meus irmãos, as nossas
liberalidades atalham todas estas miserias, mas ainda vão
precaver muitas desordens. Aqui é uma pobre rapariga, a cuja
honra se preparam violentos ataques. O Céo a
dotára das qualidades mais eminentes; mas a fortuna tentou
de algum modo desfazer a obra do Céo, juntando-lhe a pobreza
com a formosura. Do seio da opulencia, um libertino já
vibrou olhos tôrpes e ávidos para o santuario da
virtude. A belleza o seduziu primeiro, depois a propria honra, e todas
as qualidades que lhe notou, como outros tantos titulos que exaltaram o
seu triumpho, por mais arriscado e difficil. Já abriu os
seus cofres com prodigalidade horrivel; deu-se o primeiro ataque;
frustrou-se. Não importa; os desejos augmentaram-se na
repulsa, o merecimento da victoria vai subindo de ponto em ponto, e a
seducção, de mãos dadas com a
indigencia... ¿não vencerão cedo
ou tarde? Chegou emfim esse dia; ¡venceu! e com um sorriso
infernal applaudiu o seu triumpho, e a desgraça que
consumou. Approximemo-nos agora, e contemplemos a pobre victima. Ali
jaz, n'um arrependimento já tardio e inutil para o mundo;
ali jaz recordando todos os artificios do traidor, que,
depois de a desgraçar, chegou mesmo a
aborrecel a; ali jaz na mesma
indigencia que d'antes, porém mais infeliz agora; a sua
honra fugindo abalou-lhe todas as outras virtudes. Em odio a Deus e a
si mesma, ¿ficou-lhe ao menos um refugio no mundo? nenhum,
porque o traidor, declarando-se seu cruel inimigo, foi divulgar o
segredo, e exigir esses applausos infames, que tanto mereceu.
¡Pobre infeliz! Se tivesses nascido na abundancia, seriais
sempre um anjo tão bello de virtude. Se a caridade te
houvesse a tempo procurado, e descoberto n'esse asylo simples e
modesto, onde vivias tão innocente e bemquista de Deus e dos
homens, ¿não se teria afastado ainda o raio que
reduziu a cinzas o desambicioso edificio da tua felicidade?
Além é um moço, que,
cançado da dureza dos homens, começa a
não conhecer as leis na sua necessidade. Por toda a parte
repellido, julgou direito prover por si mesmo, e a todos os despeitos,
á sua
conservação.—«Todos esses a quem
recorri (diz comsigo mesmo) são felizes; eu não
quero a sua felicidade; mas tenho, como elles, direito de
viver.»—Levado assim pelos raciocinios errados do vicio, ou
só por um instinto que lhe bafejou a injustiça
dos homens, começou por pequenos furtos; passou a maiores;
nunca mais reconheceu os titulos sagrados da propriedade; zombou de
todos os respeitos humanos; relaxou de todo a consciencia; e
acabará em salteador e assassino. Uma caridade a tempo o
affasta do precipicio onde o leva de rastos a immoralidade, e lhe
tira deante dos olhos dois futuros
que o terão muitas vezes feito estremecer: um carcere
perpetuo, um degredo, uma morte infame n'este mundo, e no outro penas
correspondentes, em si e na sua duração, a crimes
de que nunca se arrependeu, e damnos que nunca tiveram
restituição. E quando elle passar para o
patibulo, vós fechareis talvez as vossas janellas, e direis:
«Não tenho
coração para taes espectaculos;»
¡como se esse mesmo coração
não fosse o seu peor
algoz, o que o conduziu áquelle passo affrontoso!
N'outra parte um desesperado, que sonhou alguns momentos a felicidade,
mas que imprevistamente se sentiu naufragado de todas as suas
esperanças, que contou, para segurar a subsistencia, com os
amigos que o atraiçoaram, com a fortuna que lhe fugiu, que
se vê precipitado n'uma desgraça a que
não prevê termo na sua
desesperação, insulta o Céo, blasfema
da Providencia, e, se lhe não accudis, ¡quem sabe
se irá
(como tantos outros) afiar um punhal, temperar um veneno, ou suspender
um laço, por onde arranque uma existencia que o importuna!
¿E a caridade e a ternura não poderão
ainda aqui obrar um novo milagre? ¿fazer-lhe rebentar as
lagrimas, cuja fonte se lhe exhaurira? ¿abrandar-lhe o
coração?
¿obrigál o a bemdizer a Providencia, e
abençoar o pão com que lhe sustentamos uma vida
que lhe fizemos amar ainda?
¡Oh! ¡meu Deus! ¡que doces prerogativas
não déstes vós ás almas
generosas e humanas! Se entre os próprios pagãos
alcançava uma côroa o que salvava os dias do seu
concidadão,
¡que honras não merece dos
outros homens o que os arranca a uma morte desesperada, depois de uma
vida infeliz! ¡que os reconcilia com o Céo que
já suppunham surdo e injusto! ¡e que
até previne com os seus soccorros a desordem e excessos da
miseria que lhes arrancariam os meios de
salvação!
¡Ah! meus irmãos, se nos basta ser homens, para
reconhecermos como bem real esta doce obrigação
da esmola, segundo a razão e humanidade, ¡que mais
fortes motivos não tem o homem christão, para ser
esmoler, segundo as Escrituras, e particularmente o Evangelho! Os
deveres da caridade não são para nós
simplices axiomas, ou
preceitos da philosophia; não são o resultado de
um mero instinto moral: as santas doutrinas reveladas vieram
não só confirmar, mas dar ainda, se é
possível, uma
extensão muito maior a tudo quanto n'esta parte a
Religião natural nos havia imposto.
Segundo o systema religioso do Christianismo, ¡por quantos
modos, até indirectos, nos não é
persuadida a caridade! O Padre derramou sobre nós todo o
thesoiro das misericordias do Céo; creou nos entes os mais
perfeitos de toda a Natureza; a sua mesma divindade foi o typo pelo
qual nos formou (pelas suas proprias mãos, dizem as
Escrituras); não só nos adornou de todas as
graças que perdemos na desobediência de nossos
paes, mas todas as suas creaturas contribuiram, e ainda contribuem
(mais parcamente sim, depois do peccado), para nos tornar o mundo uma
habitação commoda e feliz.
Esse sol que nos allumia o theatro do
mundo, essas estações que lhe mudam as scenas, os
frutos saborosos e delicados que rompem da terra, os vestidos que nos
cobrem, o ar que respiramos, o somno que nos restaura as
forças, os prazeres que nos lisonjeiam os sentidos, os
prazeres ainda mais puros e doces da consciencia e do
coração, são outras tantas esmolas,
com que Deus proveu desde a eternidade ao homem, sobre fraco e
indigente, ingrato a tantos beneficios.
Na sábia disposição com que de mais o
Eterno Padre arranjou todo o grande systema da Natureza,
¿não nos deu Elle uma grande
lição de caridade, estabelecendo em todas as suas
obras uma encadeacão successiva e mutua de dependencias e
soccorros? Olhae, por exemplo, como os mares liberalisam as suas aguas
ao ar em nuvens, o ar as suas á terra em chuvas, a terra
ás fontes, as fontes aos rios, os rios outra vez aos mares;
e n'este rodear das aguas, plantas, animaes, homens, o mundo todo se
conserva, se reanima, se restaura.
D'esta mesma sorte, não só as grandes
porções da Natureza, mas ainda os seus minimos
individuos, trazem travado um commercio mutuo de esmolas; e os
soccorros de uns, em circulo perpetuo, se tornam essenciaes
á existencia dos outros. É assim que, por toda a
parte envolvidos pela Natureza, do meio da qual nos elevamos, como
obras as mais perfeitas, não só nos
não
devemos resvalar a uma condição inferior
á da
propria materia bruta, mas avantajar-nos tanto mais na mutua caridade,
quanto nos devemos
considerar
como entes, cuja conservação é mais
importante para a manifestação da gloria de Deus.
O Divino Verbo, por um mysterio da mais incomprehensivel misericordia,
desce ao mundo, demora-se entre os homens, deixa-lhes um thesoiro de
felicidade nas suas doutrinas, dá-lhes a esmola de todo o
seu sangue, lava a mancha da nossa origem, e restabelece a paz entre o
Céo e a terra.
O Espirito Santo vem tornar effectivos todos os meios de
santificação, e nos accode com esmolas continuas,
desde que abrimos os olhos, até que deixamos o mundo; pelo
baptismo assenta os nossos nomes no livro da vida; confirma-nos e
augmenta-nos depois esse perdão; repete-o tantas vezes
quantas offendemos o Céo; sustenta-nos com o manjar dos
anjos; e accode-nos até com remedios temporaes, á
hora em que as portas do carcere se vão abrir, e a alma
sôlta reverter á sua origem.
Mas não só pelo seu exemplo e meios
tão indirectos nos persuadiu Deus a esmola; não
é uma simples recommendação,
é um dos preceitos mais rigorosos:—
Ego
proecipio tibi, ut aperias manum fratri tuo egeno, et pauperi qui
tecum versatur in terra: Sou eu, é o teu proprio
Deus, quem te ordena, que abras a tua mão ao necessitado e
ao pobre, que lida comtigo sobre a terra. Esta lei tão
clara, tão precisa e absoluta na sua letra,
¿terá acaso todos esses caractéres que
devem sempre manifestar-se em todas as leis de Deus? Examinemol-a, e
seja o proprio Deus quem nol-a interprete.
É
justa e necessaria:
necessaria muito mais ainda para o bem espiritual dos bem-feitores, do
que para o commodo temporal do soccorrido. A esmola, segundo
Jesu-Christo, é um acto de Religião,
conjuntamente com a oração e jejuns; é
pois
rigorosamente um meio expiatorio; é um commercio que temos
com Deus por meio do nosso proximo; é uma agua copiosa (diz
o Espirito-Santo) com que apagamos o incendio das nossas iniquidades;
é uma santa usura, em que trocamos bens superfluos e
temporaes por bens inapreciaveis e eternos; são thesoiros
que ficam depositados no seio do pobre, e que d'ali estão
sempre clamando ao Céo em nosso favor; são bolsas
que nunca teem de se estragar nem de esgotar-se, que nunca nos
serão roubadas nem podem ser consumidas; é um
seguro para o dia da
afflicção; é finalmente um arrimo a
que nos soccorremos para não cahir.
Mais: é
util, considerada
mesmo temporalmente para quem a dá. O Espirito-Santo o disse
tambem nos Proverbios:
Aquelle que der ao pobre, de nada
carecerá; aquelle que desprezar as suas supplicas,
cahirá tambem na pobreza.—Eis aqui, meus
irmãos, eis
aqui patente o terrivel segredo da vingança divina, quando
aniquilla tantas fortunas que pareciam tão solidamente
estabelecidas:
Dispersit, dedit pauperibus; divites dimisil
inanes. Sim, porque as maldições,
ó ricos do mundo, que o pobre vos lança em
segredo, na amargura da sua alma, são ouvidas com todas suas
imprecações, por Aquelle que o creou, e que nunca
d'elle arredará os seus
olhos. Folgae hoje, que, semelhantes ao mau rico do Evangelho, sereis
ámanhan sepultados no inferno, debaixo do peso de vossos
thesoiros;
et sepultus est in
inferno. E se as vossas riquezas vos são
consentidas, muitas vezes é para que principiem o vosso
inferno no mundo. Se pareceis prosperar, é para que a vossa
quéda seja mais espantosa, ou para que os vossos
descendentes, que
não são culpados nas vossas iniquidades,
não
experimentem a punição da vossa dureza, e recebam
juntos esses bens a que irão dar um justo emprego.
¡Ah! meus irmãos, dizei me: ¿vistes
vós, pelo contrario, que homem algum se arruinasse
jámais pelas suas larguezas com os pobres?
¿Não é antes uma verdade,
confirmada pela experiencia de tantos seculos, que as familias de mais
caridade são as que mais teem prosperado? Sim, sim, o
Espirito Santo o disse pela bocca do mais sublime de todos os
prophetas: «Se derramares toda a tua misericordia sobre os
necessitados, e encheres de consolação almas que
gemiam na afflicção, a tua casa se
tornará
como um jardim sempre regado, e a tua prosperidade será
tão perenne como a fonte que a todos offerece os seus
licores, e por mais que a bebam nunca se esgota, nem cessará
de correr.» ¿E o Redemptor não disse
ainda mais expressamente:
Date et dabitur
vobis? ¿Não compara elle a
retribuição com que o
Céo ha-de corresponder ás nossas liberalidades,
com uma medida avantajada, calcada, de cogulo, a verter de todos os
lados, que se nos vasará para o regaço?
¡Oh! não duvidemos:
os bens
do misericordioso, repartidos pelos infelizes, são o azeite
e a farinha milagrosa da santa viuva de Sarepta. Comeu Elias, diz a
Escritura, comeu ella e a sua casa; e desde aquelle dia nunca lhe
faltou a farinha no pote, nunca o azeite do vasinho se diminuia.
Vêde, depois d'isto, ¡que multidão de
bençãos as Escrituras não veem
chovendo sobre o homem compassivo e esmoler! O Senhor o conserve, o
Senhor lhe dê uma longa vida, o faça feliz no
mundo, o livre das mãos dos seus inimigos, o allivie no
leito da sua dôr. O que dispersar os seus bens pelos pobres,
viverá de seculo em seculo na memoria dos homens,
abençoado será o seu nome, e n'elle se
despontarão as settas envenenadas da calumnia.
Justitia
ejus manet in saeculum saeculi. Exaltabitur in
gloria. Ab auditione mala non timebit. ¿Que
significam tantas promessas, meus irmãos, tantos premios,
tanta abundancia de bençãos, as glorias do
Céo e da terra, tudo cumulado sobre o homem benefico?
¿Que sacrificio tão importante se vai exigir
d'elle? ¿a que lances heroicos o querem persuadir?
¿que perdas soffrerá
que cumpra contrabalançar por premios de tão alta
valia? ¿Exige-se-lhe a mendicidade e a miseria, em que
viveram os Apostolos e o Redemptor? ¿um exterminio de todas
as paixões? ¿uma
abnegação de todos os prazeres? ¿as
mortificacões da penitencia? ¿a constancia e
morte gloriosa dos martyres? Não, não.
Pede-se-lhe só amor e provas
de amor para com seu irmão; pedem-se-lhe só
lagrimas e pão para os infelizes. Não se lhe
intima que dê, com prejuizo
seu, até o ultimo boccado d'esse pão, mas
empenham-se os titulos mais sagrados da misericordia, e
patenteiam-se-lhe todos os cofres e enchentes da Graça, para
lhe pedir só as migalhas superfluas da sua meza.
¡Grande Deus! ¡que generosidade incomprehensivel a
vossa! ¡Remunerardes como sacrificio uma virtude, e
acceitardes como virtude o que nada custa ao
coração!
¡Accumulardes os vossos prémios sobre os prazeres
mais doces da consciencia! ¡Considerardes em mais do que
homem a quem só cumprìu com deveres da
humanidade! ¡Avaliardes em tanto um superfluo, que
trasbordamos para o seio do desgraçado, quando já
nol-o havieis dado com essa
condição! ¡Acceitardes, finalmente,
esses bens frageis, temporaes e caducos, esses bens que só
devemos á vossa liberalidade, como moeda correspondente em
valor ao preço inestimavel dos vossos thesoiros infinitos!
Mas d'estas elevadas contemplações, em que todos
nos deveriamos abysmar, vós me chamais, meus
irmãos, vós me fazeis descer ás
profundezas da vossa miseria, e surprehender nas vossas consciencias um
segredo bem importante. ¿E não adivinho eu quaes
teem sido, desde que enunciei o thema e objecto do meu discurso, os
pensamentos de muitos de vós, da maior parte, ou antes de
quasi todos os que me escutais?—«Feliz (exclama cada um de
vós, no seu coração) feliz de mim, se
eu podera soccorrer o meu proximo, que a tão bom barato me
veria de posse do Céo. Porém Deus não
me destinou
a mim esses premios e
bençãos; e se a esmola fôra um meio
indispensavel de salvação,
eu me perderia sem remedio, não por minha culpa, mas por
culpa da fortuna. Todos os meus bens escassamente chegam para a minha
sustentação e da minha
casa.»—Assim pensais; assim buscamos pretextos para illudir
todos os preceitos até os mais terminantes e expressos da
Religião. Mentis a Deus, aqui, na sua presença,
dentro da sua mesma casa, e, suppondo justificada a vossa propria
crueldade, vos revestis d'aquelle zelo hypócrita do phariseu
do Evangelho, e lançais de travez os olhos para os ricos,
que ahi estão comvosco. Folgais talvez com a sua
confusão; e a doutrina da caridade, a doutrina de tanto
amor, só serve de despertar em vós a insolencia,
o desprezo, e o odio. Não permitia Deus que a sua preciosa
semente se perca d'este modo; que só a acceite um pequeno
torrão de terra, e que em vez de produzir os bellos frutos
do Senhor, a maior parte do seu campo, ou quasi todo elle, continue a
só desatar-se em cardos e espinhos. Afugentemos as aves
d'esta preciosa sementeira. Arredemos as pedras, e não
consintâmos
que fique sem proveito e inculto nenhum pedacinho, por mais pequeno, da
sua terra.
Todos vós podeis dar a esmola, todos, sem
excepção, vos achais obrigados a ella; e esta
universalidade constitue, n'aquelle divino preceito, o seu segundo
caracter de lei.
Ha duas especies de esmola (diz Santo Agostinho): uma da bolsa, e a
outra do coração.
Tão longe vai, pois, a esmola
como a caridade; e para podermos soccorrer o nosso proximo, basta-nos
possuir um coração. ¿Não
tendes dinheiro, mas tendes pão com fartura? Reparti-o por
tantos famintos. ¿Escassamente vos chega o pão,
mas tendes algumas roupas superfluas? Cobri com ellas tantos
nús.
¿Nada tendes hoje? Promettei para ámanhan; enchei
de esperanças o seio vazio de todas as
consolações.
¿São a caso insignificantes os bens que vos
restam para os frutos da caridade? Offerecei-os assim mesmo; basta que
deis só um copo de agua fria a um dos mais pequenos do
mundo, lembrando-vos de que elle é meu discipulo (vos diz
Jesu Christo); este só copo eu vos affirmo que
não ficará sem recompensa. ¿Nada
tendes que dar? Reparae bem: ¿Nada tendes que dar?
Lançae bem os olhos de todos os lados. Sondae bem toda a
vossa fortuna. ¿Nada tendes que dar? Se não
mentis ao
desgraçado, se na verdade vos achais privado de todo o
genero de haveres, ainda possuis muitos bens em que não
reparaveis. São os que existem dentro do vosso
coração.
Offerecei-lh'os. Derramae d'elle torrentes de balsamos sobre todas as
feridas dos vossos tristes irmãos. Sois ainda mais rico com
o vosso coração, no meio mesmo da miseria, do que
os ricos sem elle, afogados nos seus thesoiros. Consultae esse
coração; ouvi como um oraculo as suas
respostas. ¿Que vos demorais? Segui todos os seus impulsos.
¿Não tendes com que soccorrer o indigente? Correi
á morada do rico. Entrae affoitos.
Pintae-lhe as miserias do seu semelhante.
Mostrae que só os interesses da
humanidade vos dirigiram ali. Contae o que presenciastes com os vossos
olhos. Chorae diante d'elle. Desfazei as calumnias. Reconciliae as
eternas inimizades da opulencia com a miseria, e, semelhantes aos
corvos de Elias, voae á choupaninha faminta do deserto, com
o pão e com a carne, que vos deu essa Providencia, que assim
soubestes interessar.
¡Não tendes que dar! Ajudae o vosso proximo, com o
trabalho dos vossos braços. Advogae perante o poderoso a
causa do fraco. Desfazei os enredos e calumnias, que ennegreceram vosso
irmão, que lhe roubaram todas as
protecções.
¡Não tendes que dar! Congraçae o homem
com o homem, a familia com a familia.
¡Não tendes que dar! Visitae tantos
desgraçados, que gemem por esses carceres; persuadi-lhes a
paciencia, e a resignação evangelica;
confortae-os com palavras doces, com esperanças
consoladoras. Approximae-vos ao leito do enfermo; offerecei-lhe, com
mão carinhosa, os remedios; animae-o com os vossos sorrisos,
e fazei que troque os suspiros da sua dôr e do seu desalento
em suspiros de ternura, em expressões de confôrto;
que veja os Céos abertos, e que goze antecipadamente de
premios, que, se não fosseis vós, talvez
não tivesse de possuir.
¡Não tendes que dar! Instrui, na santa doutrina, a
tantos meninos, e ainda a pessoas maiores, que a ignoram. Bemdizei de
vosso proximo na presença, assim como na ausencia. Ajudae-o
com as vossas orações.
Nada tendes que dar! ¡Nada tendes que
dar! ¡Ah! ainda tendes lagrimas.
São as perolas e os diamantes da alma; e esse thesoiro nunca
se esgota para um christão. Tomae a vós uma parte
do seu infortunio, e elles ficarão menos oppressos.
¡Que esmolas, tanto ou mais preciosas que as do oiro!
¡De quantos e quantos modos, não sabe
reproduzir-se a beneficencia!
Bemaventurados, disse o Redemptor, todos os que usam de misericordia,
porque elles alcançarão misericordia.
Eis aqui as bençãos e os premios do
Céo, recahindo sobre todos vós, sem
exclusão de um só. Ahi vos tendes tão
ricos, aos olhos do Senhor, como esses ricos, cuja dureza lamentaveis,
a cujos bens vos promettieis dar um melhor emprego, se os possuisseis.
¿Quem vos detem? ¿por que não correis
a praticar essas obras de misericordia, que podeis? ¿a
merecerdes essas bençãos e premios,
que ha pouco ambicionaveis? ¡Quê!
¡Já se vos affrouxa o zêlo! Sim, o
zêlo, que murmura, que reprehende, que insulta nos outros a
infracção dos deveres, em quanto os julga
alheios, esmorece de todo se esses deveres se tornaram proprios; e, por
mais injusta contradicção, as fraquezas, que
não
perdoamos no mundo, sendo em nós, já as sabemos
desculpar; ¡e quantas vezes não passam de
desculpadas a canonisadas! Pois bem, senhores: se a razão,
se a humanidade, se a justiça, se a consciencia, se os
interesses do mundo, se as bençãos do tempo e da
Eternidade, se todos os premios de Deus, emfim, nada podem comvosco,
possam-n-o, ao menos, as suas ameaças, castigos e
maldições,
que vão constituir a sua
lei perfeitamente obrigatoria. Eis o seu ultimo caracter.
¿Recusais a misericordia de Deus? Já
não tendes que escolher. Só lhe ficaram as
vinganças.
Affastae-vos, ó santa familia de infelizes. Pobresinhos do
Senhor, affastae-vos da terra maldita, onde vai chover fogo e colera do
Céo. Para além, para além,
é o vosso refugio, á dextra do Eterno Padre.
Venite
ad me, omnes qui laboratis,
etc. ¿Não vos tinha elle dito que os
vossos gritos lhe chegariam aos ouvidos, que as
humiliações se lhes converteriam um dia em
triumphos? Sim, sim, ó
famintos, ó sedentos, nus, chorosos, calcados, perseguidos,
¡jubilae! Vós nunca cessastes de ser os seus
filhos muito amados. Eu vou reassumir todos os thesoiros (vos diz elle)
que a minha Providencia repartira pelos vossos barbaros oppressores. Eu
lhes havia dado mais altos meios do que a vós mesmos de
alcançarem a minha gloria, de alcançarem a menos
custo. Os privilegios com que eu os mimosiei, só serviram de
os fazer ingratos e crueis. Frutos mui formosos do meu campo, fostel-o
vós, ó meus pobres; frutos que eu vou recolher e
guardar para sempre no meu seio; elles foram arvores estereis, que,
dominando toda a sementeira, a açoitaram com os ramos, a
damnaram com a sombra, a devoraram com as raizes; infecundas e nocivas
eu as arranquei em meu furor; eu vou lançal-as ao fogo.
Retirae-vos de mim, malditos. Precipitae-vos no incendio eterno, que
foi preparado ao diabo e aos seus anjos; porque eu tive fome, e
vós me não déstes de comer; eu tive
sêde, e vós
me não déstes de
beber; fui peregrino, e não me recolhestes; nu, e
não me vestistes; enfermo e encarcerado, e não me
visitastes. Todas as vezes que despedistes, que calcastes os pequenos
do mundo, a mim, a mim o fizestes.
¡Ah! meus irmãos, possa esta sentença
de maldição estampar-se hoje com letras de fogo e
indeleveis nos vossos corações. Este Jesus
escondido nos pobres, este Jesus que por ahi vaga fóra dos
templos, coberto de remendos, macilento, prostrado debaixo do
pêso de tantas cruzes, é um rei de majestade,
é um senhor indignado que vos ha-de apparecer em toda a sua
cólera, e de cujas sentenças nunca
poderêis mais appelar. ¡Oh! compadecei-vos d'elle,
soccorrei-o emquanto o-vêdes pobre, cahido e humilhado, para
o não experimentardes depois, senhor altivo e vingador.
¡Oh! pobresinhos do Senhor, parabens! o
coração me-diz que esta semente não
será perdida, e que terêis hoje ao menos soccorros
e consolações.
Pois bem, Senhor. A Vós, recorremos hoje, que ainda
é tempo. Aqui promettemos soccorrer-vos com o que
é vosso, a Vós, ó meu Jesus pobre; a
vós, cahido, a vós humilhado, para vos
não experimentarmos depois accusador, testemunha, vingador e
inexoravel. Antes que nos-accendais esses fogos de
maldicção,
já era nossos corações temos accezos
outros, que muito mais são vossos: os da caridade.
Ó modêlo do bom pae de familias, ajuntae-nos em
tôrno da meza do vosso banquete celestial, aonde se assenta o
opulento Salomão
a par
do Lazaro mendigo, os grandes com os pequenos da terra, o peccador
arrependido com o justo que nunca vos-offendeu. Reclinae-nos
sôbre o vosso seio; e n'um abraço de eterno amor
nos-apertae a todos sôbre o vosso
coração paternal, por todos os
séculos dos séculos.
Assim seja.