SERMÃO

DA

ESMOLA OU DA CARIDADE


Prégado na 5.ª dominga da Quaresma de 1839
na Sé de Lisboa
pelo Conego Arcipreste da mesma Sé,
o Doutor de capello em Canones Augusto Frederico de Castilho


Jesus abscondit se, et exivit de templo.
Escondeu-se Jesus, e sahiu do templo.


De duas coisas nos fala o texto que propuz: de Jesus escondido, e de Jesus fóra do templo; e nem por sahido do templo, nem por escondido, deixa Jesus de ser Jesus, ou nos dispensa de seu serviço. Jesus vivo, e na occasião de que trata o Evangelho, estava no mundo, e faltava no templo. Jesus, hoje, por dois milagres de fé e amor, por duas eucharistias, está no templo, e mais no mundo: no templo, encoberto no Sacramento; no mundo, encoberto nos seus pobres. N'uma e n'outra parte o devemos servir com egual zelo.

Orar todo o dia na egreja, e deixar fóra d'ella morrer á fome e ao frio os necessitados, não é de christão; é fé morta. Soccorrer aos infelizes, sem crer (se tal é possivel) n'Aquelle que elles representam, é caridade morta; tambem não é de christão.

Vós pareceis christãos pela fé, pois que vindes á casa de Deus; vós o pareceis, mas não o sois, porque essa fé é morta; cumpre que se resuscite pela caridade.

Da caridade prégarei portanto hoje, ou antes da esmola, que é a caridade pratica e activa; é o christianismo na sua parte mundana, o culto do Verbo humanado aos olhos de todos, a religião de todas as religiões, a philosophia de todas as philosophias, o axioma para todos os entendimentos, o dogma até para o atheismo. O objecto é o mais accommodado ás necessidades do tempo em que vivemos; offensa faria á vossa piedade, se vos exigisse a attenção.




Alma e coração, discurso e affectos, convencem e persuadem como dever a esmola. Não creou a Natureza irmãos privilegiados, e morgados na familia dos homens: para uns, patrimonio de riquezas, e commodidades; para outros, encargos de miseria, e lagrimas. Acasos, sagacidades, ou malicias, estabeleceram essa desegualdade; e andou tambem ahi traça recôndita da Providencia, para estreitamente nos ligar; se uns de outros não carecessemos, não nos amáramos; se tudo a nós mesmos referissemos, não fôramos virtuosos, seriamos os mais infelizes dos entes, desentranhada de nós a beneficencia, origem de toda a sociedade, e purissima fonte dos verdadeiros prazeres da vida. Egualou-nos, pois, a Natureza; a Providencia nos desegualou; e n'esta contradicção apparente, é que Deus, supremo Autor de ambas, manifestou toda a sabedoria dos seus conselhos. Na Natureza, isto é, na sua Justiça, quiz que tivessemos uma norma de egualdade; na Providencia, isto é, na sua caridade, que aprendessemos a restabelecer, quanto em nós coubesse, aquella egualdade primitiva por mutuos soccorros.

O homem caritativo é portanto o homem da Natureza, e o filho mimoso da Providencia, depositario e executor da Justiça de Deus, transumpto e argumento de sua bondade e misericordia.

O supérfluo de nossos bens constitue rigorosamente o patrimonio dos pobres, e negar-lh'o é ao mesmo tempo injustiça e barbaridade, egual á do depositario que consome os bens sagrados do deposito, do ecónomo que converte em proprio uso as rendas do seu senhor, do tutor que devora a substancia do seu pupillo; é ainda mais: é declararmo-nos inimigos de Deus, desacreditando, e dando, de certo modo, quebra áquella Providencia, cujos éramos dispensadores e supplementos; áquella Providencia, que não consente que as avesinhas mesmas, que voam errantes pelo ar, caiam mortas em terra, sem ordenação do Pae Celeste.

Tudo quanto de nós emana, ou em nós ressumbra bello, generoso, heroico, brota (não duvidemos) da caridade. Deus, para tornar as virtudes caras, e accessiveis até aos mais faltos de discurso, não creou a caridade, senão que a tirou de suas proprias entranhas, e orvalhando-a sobre a terra, lhe deu por benção que de todas as mais virtudes fosse ella semente e fruto, seiva interior e graciosa florescencia; e ella ahi nos ficou independente de qualquer reflexão, affecto innato, instinto (¿por que o não diremos?), instinto moral.

Ainda mais, senhores: não só a tornou o mais profundo, mas tambem o mais extenso de todos os affectos, para que, sobre encher-nos o coração de virtude, ella nol o podesse occupar; sobre constituir-nos felicidade, nol-a podesse tornar permanente.

¡Oh! ¡que maravilhosa não é esta caridade, que em todas as edades, e em todas as circumstancias da vida e do mundo, sempre acha alimento, sempre lhe renascem objectos, e infinita como o Ceo, d'onde procede, cobre, como elle, toda a Natureza creada, passa dos homens aos animaes brutos, d'estes aos proprios entes insensiveis, adivinha infortunios, inventa e persuade soccorros, até para entes que os não sabem agradecer, que os não requerem, que os não precisam!

Tem a caridade, como as demais paixões, os seus excessos; momentos em que se não sabe conter, nem governar; suspiros, lagrimas, e desalentos; enthusiasmos, impetos, e arrojos heroicos; mas, como tudo lhe nasce do amor e compaixão, tudo é terno, tudo é mavioso e consolador. Virtude de virtudes, virtude unica onde não ha excessos.

Pela caridade principalmente nos podemos dizer imagens de Deus, e obras primas da creação. ¡Ah! ¡que se jamais se podessem tributar ao homem cultos, que só á Divindade
se devem, ninguem tanto os merecêra, como esses que, possuindo os thesoiros dos bens terrestres, os derramam no seio dos infelizes!

Porém, meus irmãos, não é mistér uma brandura de animo requintada, para nos movermos com os infortunios dos nossos semelhantes, e procurarmos-lhes o remedio. ¿Qual de nós, vendo padecer um animalsinho, morto de fome, transido de frio, desamparado ás inclemencias de uma noite de inverno, e invocando a nossa piedade com aquelles gritos lastimosos, que a Natureza ensinou a todos os viventes para dizerem as suas dores, qual de nós se não sentiria profundamente condoído, não correria a abrir-lhe a porta, a agasalhal o, a soccorrel-o? ¡Ah! ¿e deixariamos no infortunio o homem? ¿o homem, semelhante nosso, nosso irmão, com quem nos ligam todos os interesses, cujos bens possuimos, cuja felicidade é tão travada com a nossa, e cuja desgraça tem sido talvez effeito da nossa injustiça, da nossa barbaridade?

¡Oh! ricos do mundo, que cegastes e ensurdecestes o coração... ¿que digo? que o trazeis defunto no peito, e incapaz de resurgir aos clamores mais doridos da Natureza, ¡ah! emquanto, ao redor de vós, se estão sempre a abrir abysmos, que engolem tantos miseraveis, ¿que uso mais util farieis vós de vossos bens, do que seria o acudir-lhes? Na vossa avidez insaciavel (semelhantes ao inferno, que, por mais victimas que lá chovam, não cessa de clamar affer, affer, mais e mais), uns de vós, ó ricos do mundo, se contentam com a visão beatifica dos seus cofres; a sua alegria, a sua felicidade, o seu proximo, o seu mundo, a sua alma, o seu Deus, tudo seu ali jaz; ali enterraram o coração, e o conservam mais duro, mais inerte, mais frio, mais inutil, que esse metal que amontoaram; em quanto outros, pródigos em excesso, como se os seus thesoiros os affrontassem, os semeiam e desbaratam por phantasias, por luxos, por vaidades, sem moderação, sem ordem, sem destino, sem uma só utilidade real. Mais loucos ainda e mais infelizes, outros emfim, parecendo arrenegar dos beneficios da Providencia, os cofres que ella confiou nas suas mãos, elles os despedaçam e espalham, não só sem vantagem do proximo, mas ainda com o maior prejuizo, e inteira ruina de si mesmos. Com essas riquezas franquearam a entrada a todos os vicios, abysmaram a rasão, destruiram as forças, aniquilaram a saude, anteciparam a morte, e.... ¡ah! meus irmãos, ¡que de inquietações, de violencias, de trabalhos e de dores, para comprar uma eternidade desgraçada! ¡Com a chave de oiro de um paraiso, abrir um sepulcro e o inferno!

Maus ricos, vós sois como o discipulo traidor; com esses dinheiros de maldição, preço dos tormentos e da morte de Jesu-Christo, que todos os dias se renova nos seus pobres, que vós entregais e desamparais sem piedade, com esses dinheiros de maldição, ides comprar um arrependimento esteril, um remorso tardio, uma morte desesperada, o odio dos homens, a vingança de Deus, os tormentos eternos!

¡Quantas injustiças accumuladas n'esta barbara opulencia! Injustiça para com os infelizes, cujos bens sonegamos, cujos lamentos não queremos escutar, cuja morte mesmo antecipamos muitas vezes.—Injustiça para com Deus, de quem recebemos esses bens, com a condição da caridade, e cuja Providencia desmentimos, e a quem devemos continuos beneficios e esmolas, desde que entramos no mundo.—Injustiça para comnosco mesmos, a quem fechamos as portas de um céo de deleites, em quem apagamos todos os sentimentos de virtude, a quem já n'este mundo excluimos de toda a felicidade.—Injustiça, emfim, para com todo o genero humano, de quem nos afastamos, a quem não queremos pertencer, de quem até nos declaramos inimigos.

¿E para onde fugirão os nossos olhos, que lá não vá a miseria publica perseguil-os? Nunca soaram tão alto os gemidos dos desgraçados, porque nunca a nossa immoralidade foi tão barbara. Realisou-se sobre tantos irmãos nossos parte grande das maldições, com que Deus, por bocca de Moysés, ameaçava os seus inimigos. Explorae por todas as guaridas da indigencia; visitae os tugurios e choupanas miseraveis das aldeias, das maiores povoações, e até das cidades... ¡Grande Deus! ¡que multidão e variedade de miserias! Uns arruinam a saude por comidas dessaborosas e doentias, mais para brutos que para gente; a outros, nem um boccado de pão negro e amargoso apparece nas vinte e quatro horas; ¡quantas se não chamam poisadas e casas, que antes são covas, masmorras, ou jazigo de viventes! ¡de quantos não é cama a terra humida, e vestido o que nem lhes encobre a nudez! ¡Tantos paes cercados de um bando de meninos, chorando e pedindo-lhes pão! Tantos outros meninos, ainda mais infelizes, orphãos de pae e mãe, que nada teem na Natureza, além do sol que os aquece, e do ar que respiram, e começam a conhecer tão cedo a dureza dos homens, obrigados, quasi desde que abrem os olhos, a procurar por si mesmos com que supram as necessidades, ainda tão mesquinhas, mas tão pesadas para nós! ¡Tantas viuvas sem protecção, em quem, sobre o desamparo e dôr perpétua da viuvez, accresceu verem os seus bens arrancados por crédores, e quantas vezes por ladrões, debaixo do nome de crédores! ¡Tantos obreiros atirando-se a trabalhos superiores ás suas forças, ou á sua creação, ou aos seus annos, para sustentarem, com o suor, a vida, que, n'esse mesmo suor, se lhes está derretendo e mirrando! ¡Tantos enfermos expirando á mingua, sem medico, sem tratamento, sem remedios, sem enfermeiros, sem alma viva que os console, que lhes suscite as ideias da Eternidade, e até sem um lençol que os amortalhe! ¡Tantos privados dos olhos, dos braços, e do uso dos sentidos mais preciosos, incapazes de trabalhar, arrojados para a borda dos caminhos, soffrendo dias inteiros os ardores do sol, as chuvas, os frios, e os ventos do inverno, considerados como monstros de outra especie pelos homens! ¡Tantos mendigos, emfim, sem lar, sem nada, nem um amigo, sósinhos em meio de tanto mundo!

¡Mas que me canço eu a enfeixar o que não tem conta! E quando de taes miserias conseguisse fazer aqui um piedoso inventario, ¡quantas outras não ficariam de fóra, mais profundas, e mais miserias, porque ellas mesmas refogem e se escondem! As ruas e as praças, com todos os seus clamores e penurias, não confessam ainda assim quanto a nossa especie está padecendo. Ha, em todo este exterior, um não sei que reflexo de verniz e doirado, um não sei que ruido festivo, um perfume de opulencia e sabores, um certo sorrir, um raio de sol, um aspecto de céo azul, uma vida e uma esperança, que são disfarce, e mascara da existencia do povo, real e intima. Pelas ruas corre abundante a vida. Sahindo-se para a rua, deixam-se á porta as lagrimas, e cuidados verdadeiros, e toma-se na bocca e faces o contentamento postiço. Por fóra andam os corpos em toda a sua gala; mas dentro, por todo esse immenso dentro, nas entranhas d'esse infinito massiço de pedras e areia, n'esses fechados labyrintos sem termo, n'esses apinhados e humanos favos de mel, estão chorando milhares de corações, estão-se desesperando milhares de almas.

Oh! ¡se Deus permittisse que, na hora em que o abastado gira para se recrear, por esses caminhos tão lageados de marmores, tão ataviados de vidros de cores, de metaes brilhantes, de todas as espumas mais formosas do luxo, se Deus permittisse que n'essa hora se lhe revelasse aos olhos por entre que duas montanhas de infortunio, vai caminhando! ¡oh! ¡como de repente, semelhante a Pharaó, na estrada do Mar Vermelho, desabariam de todas as partes a afogal-o ondas e mares de dor!

Sim, senhores, alem de outros infelizes que tambem precisam da caridade, ¡quantos pobres envergonhados que abafam soluços e gemidos entre as quatro paredes da sua casa! Nas horas da noite, quando das dansas, dos jogos, dos espectaculos, e de peores logares, saem torrentes de mundanos, em quem parece que o tempo, o dinheiro, a saude e a fama pesam insoffrivelmente, ¡que de vezes se lhes não atravessam diante uns phantasmas de penuria, em fórma já de mulheres, já de meninos, já de anciãos, a quem a vergonha do sol não consentíra sahir dos seus sepulcros! De um portal, de um recanto, da bocca estreita de uma rua, nos saem as suas vozes, semelhantes a gemidos, antes que as trevas, de que não soffrem arrancar-se, nol-os deixem descobrir, estendendo a mão a receber a esmola, e a abençoar a caridade; algum vos esconde um rosto, que, em melhores dias, tinheis visto brilhar á luz da prosperidade.

Estes mortos e esquecidos do mundo, espectros pallidos, que temem os dias, e não temem o aspecto da noite, porque já não podem ser mais infelizes, é Deus quem nol os envia ao encontro, menos por elles que por nós, menos para alliviarmos as suas penas que para elles nos inspirarem algum affecto ao coração gasto, algum pensamento fundo e importante á alma dissipada. ¡Felizes vós, os que entendeis estes avisos mysteriosos da desgraça, estas embaixadas solemnes do outro mundo! ¡Felizes os que, em vez de os repellir com dureza, accudis com o dinheiro á necessidade, com a esperança ao queixume, e com a commiseração a quem não cuidava que no mundo a houvesse!

—Mas estes pobres, e a maior parte dos pobres que me accommettem, que me desatinam, que me desesperam (dizeis vós), ¿quem me abona a sua pobreza? e concedendo-lh'a, ¿quem me affirma que não é ella castigo da sua perguiça, ou mau proceder?... ¿Que vos importa? Se póde ser uma coisa ou outra, dae; antes lançar dez vezes, vinte vezes, cem vezes, em vaso cheio, ou em vaso indigno, do que deixar de accudir uma só vez a quem do vosso superfluo fará o seu necessario, e talvez, se lhe recusasseis, padecêra n'um dia o que vós não padeceis n'um anno, ou, para o não padecer, commêttera crimes, que, depois de o perderem a elle n'este mundo, vos percam a vós no outro. E demais: vós, que tão de repente sentenciais o desgraçado que não conheceis, ¿por que vos não sentenciará Deus, por esse mesmo facto, a vós?

Póde não ser pobre o que vos pede.—Sim, e algumas vezes se tem visto.—Póde ter merecimentos para muito mais ainda do que padece.—Sim, que é homem como vós, e com mais razão do que vós para aborrecer os homens, e ser seu inimigo. Sim: tudo isso póde ser; ¿mas examinastes vós se era tudo isso, ou se era uma parte? Recusando a esmola por tal motivo, ¿não tereis muitas vezes accrescentado ao roubo a injuria? ¡Ah! em quanto sentenciais uma alma que não conheceis, e condemnais o vosso semelhante para o deixar ir despojado, ¡quanto mais razão não tem elle para condemnar a vossa alma, que vós mesmos lhe descobristes inteira com uma só palavra!

Mas ainda vos concedo (perdôe-me Deus a concessão), que todos esses andam expiando peccados seus; são até criminosos e facinorosos; que nem um d'elles tem necessidade; são até abastados e opulentos; que todo o mendigo é um salteador e um millionario. ¿Estais contentes com a concessão, ou quereis mais? Não podeis querer mais, porque o não ha. Pois bem: ¿mas que direis, quando eu vos apresentar pobres, de uma pobreza processada e demonstrada, que vos não importunam nem se queixam, dos quaes muitos, dos quaes inteiras classes, não mereceram, nem poderam merecer, o seu estado? Ahi tendes os enjeitados, que não é muito que o sejam do mundo, e da fortuna, depois de o serem de suas mães; ahi os tendes, que a Misericordia mesma não basta a amamental-os e vestil-os, e, de seus pobres bercinhos, caem em cardumes nas sepulturas, e vôam a ir depôr na presença de Deus, contra a dureza de tantos, que, tendo-lhes dado a vida por um peccado, por um peccado ainda mais mortal (se é licito dizêl-o) o da avareza, lhes concorrêram para a morte.

¿Quereis mais? mais vos darei: tambem necessitados, tambem innocentes. Ahi estão tantos asylos da infancia desvalida, onde se queria educar e felicitar um seculo novo, e que, por falta de caridade publica, morreram, depois de tão bem nascidos e esperançosos.

¿Quereis mais? ahi estão os asylos da velhice, tambem e mais desvalida, onde os soccorros nunca são sobejos, nem sufficientes; porque muitos mais são sempre os que batem e choram áquellas portas de refugio, que os que a estreiteza das posses consentem sentar-se lá dentro á meza do convite de Deus.

Assim que, por ambos os horizontes da vida, vos está o Senhor chamando o coração, e por toda a parte vos tem cercado do dever da esmola.

¿Quereis mais? ahi tendes hospitaes, recolhimentos, cadeias.

¿Quereis mais? ahi tendes centenares de religiosos egressos, a quem falta pão, lar, vestido, mundo, que o não conhecem, nem elle os conhece; militares que envelheceram nas armas e morrem á míngua; viuvas e orphãos de servidores do Estado, a quem se não paga, nem com esperanças.

¿Quereis mais, e mais sem conta? ahi tendes os partidos políticos vencidos, em quem não é mister longo exame para se reconhecer a desgraça, porque é corollario evidente de causas notorias. A terça parte de uma edade do homem, dezanove annos, para não datar de mais longe, tem sido entre nós consumidos em dissenções e odios. Com successivos terremotos politicos, teem desabado as mais altas torres de fortuna; desappareceram abundancias afogadas entre ruínas; voaram arrancadas de furacões contrarios e imprevistos, as mais florescentes esperanças; os caminhos trilhados e sabidos subverteram-se; por onde se descia, sobe-se; por onde se vingavam as alturas, desce-se precipitado; algum dos filhos do pobre vôa dormitando em côche de oiro, e o ancião doirado, que ainda hontem lhe houvera matado a fome, lhe alonga a mão, da margem do caminho, clamando esmola. Não se cuide, senhores, que eu condemno o presente e absolvo o passado. Sei os males e os bens do passado; entendo os males e os bens do presente, ou antes os males do presente e bens do futuro; mas vejo, de mais a mais, um cardume de males extraordinarios, que não são, para que assim digâmos, nem do homem, nem da Natureza, nem de Deus, mas sim da mudança, da transformação da fortuna, da fortuna cega, que, no trocar das mãos, quebra sem pejo, nem dó, nem consciencia, o que depois todos choram e ninguem concerta.

Vivemos pois entranhados e afogados n'um mundo de dôres, que não vemos, pela peior de todas as cegueiras, que é o não querer ver. E quando d'esta somnolencia, d'este lethargo, d'esta morte do coração, acordamos algum momento a este som Esmola a este vosso irmão pelas chagas de Nosso Senhor Jesu-Christo, já nos reputâmos muito generosos, se em vez do silencio ou de uma injuria, lhe acudimos com um Deus o favoreça; e tornâmos a atar muito depressa o fio dos pensamentos vãos ou peccaminosos que traziamos; e lá deixámos para traz a Jesu-Christo morto de fome, a Jesu-Christo chorando na pessoa do seu pobre. ¡Ah! que se o seu estado de abjecção os não obrigasse á humildade ínfima, se o uso de soffrer estas repulsas os não tornasse já meio insensiveis, se elles nos podessem retorquir, «¡Quê! (nos responderiam) ¿Deus que nos favoreça? Deus nos favoreceu com esses bens que indevidamente retendes; Deus nos favoreceu com os thesoiros da sua Providencia, que vós nos roubastes. ¿Que o Senhor nos favoreça? ¿Quereis acaso tental-o? ¿que elle obre em nosso favor um milagre desnecessario? ¿que torne a chover o maná do céo, não sobre um deserto árido como aos nossos paes, mas sobre uma terra, que por toda a parte está cheia dos seus frutos e das suas dádivas? Esse maná vós o possuis, e encerrado inutilmente nos vossos vasos; Deus fará que se corrompa e apodreça. ¿Que Deus nos favoreça, deshumanos? Sim, sim, elle nos favorece na vossa propria dureza; os merecimentos que terieis na sua presença em serdes misericordiosos, elle os accumula sobre a nossa resignação; com os infortunios que nos accrescentais, e os prémios que rejeitais, se juntarão em nosso favor aos prémios de que a sua misericordia nos achar dignos.»

¡Ah! meus queridos irmãos, que se em nossa dureza fossemos capazes de entender os gritos e lagrimas de tantos paes de familias, cujas familias podem dizer que não teem pae, tantos orphãos de pae e mãe, tantas viuvas desamparadas, tantos jornaleiros e camponezes arruinados, tantos enfermos, tantos cégos e aleijados, tantos mendigos, tantos pobres envergonhados, achariamos, nas suas lagrimas e gritos, menos a significação das suas dôres e desalento, que uma reprehensão amarga da nossa barbaridade para com os nossos irmãos, da nossa ingratidão para com Deus; acharíamos, sim, acharíamos até n'esses lamentos, a expressão propria com que devêramos deplorar nós mesmos a dureza, antes ferocidade, dos nossos corações.

Não só, meus irmãos, as nossas liberalidades atalham todas estas miserias, mas ainda vão precaver muitas desordens. Aqui é uma pobre rapariga, a cuja honra se preparam violentos ataques. O Céo a dotára das qualidades mais eminentes; mas a fortuna tentou de algum modo desfazer a obra do Céo, juntando-lhe a pobreza com a formosura. Do seio da opulencia, um libertino já vibrou olhos tôrpes e ávidos para o santuario da virtude. A belleza o seduziu primeiro, depois a propria honra, e todas as qualidades que lhe notou, como outros tantos titulos que exaltaram o seu triumpho, por mais arriscado e difficil. Já abriu os seus cofres com prodigalidade horrivel; deu-se o primeiro ataque; frustrou-se. Não importa; os desejos augmentaram-se na repulsa, o merecimento da victoria vai subindo de ponto em ponto, e a seducção, de mãos dadas com a indigencia... ¿não vencerão cedo ou tarde? Chegou emfim esse dia; ¡venceu! e com um sorriso infernal applaudiu o seu triumpho, e a desgraça que consumou. Approximemo-nos agora, e contemplemos a pobre victima. Ali jaz, n'um arrependimento já tardio e inutil para o mundo; ali jaz recordando todos os artificios do traidor, que, depois de a desgraçar, chegou mesmo a aborrecel a; ali jaz na mesma indigencia que d'antes, porém mais infeliz agora; a sua honra fugindo abalou-lhe todas as outras virtudes. Em odio a Deus e a si mesma, ¿ficou-lhe ao menos um refugio no mundo? nenhum, porque o traidor, declarando-se seu cruel inimigo, foi divulgar o segredo, e exigir esses applausos infames, que tanto mereceu. ¡Pobre infeliz! Se tivesses nascido na abundancia, seriais sempre um anjo tão bello de virtude. Se a caridade te houvesse a tempo procurado, e descoberto n'esse asylo simples e modesto, onde vivias tão innocente e bemquista de Deus e dos homens, ¿não se teria afastado ainda o raio que reduziu a cinzas o desambicioso edificio da tua felicidade?

Além é um moço, que, cançado da dureza dos homens, começa a não conhecer as leis na sua necessidade. Por toda a parte repellido, julgou direito prover por si mesmo, e a todos os despeitos, á sua conservação.—«Todos esses a quem recorri (diz comsigo mesmo) são felizes; eu não quero a sua felicidade; mas tenho, como elles, direito de viver.»—Levado assim pelos raciocinios errados do vicio, ou só por um instinto que lhe bafejou a injustiça dos homens, começou por pequenos furtos; passou a maiores; nunca mais reconheceu os titulos sagrados da propriedade; zombou de todos os respeitos humanos; relaxou de todo a consciencia; e acabará em salteador e assassino. Uma caridade a tempo o affasta do precipicio onde o leva de rastos a immoralidade, e lhe tira deante dos olhos dois futuros que o terão muitas vezes feito estremecer: um carcere perpetuo, um degredo, uma morte infame n'este mundo, e no outro penas correspondentes, em si e na sua duração, a crimes de que nunca se arrependeu, e damnos que nunca tiveram restituição. E quando elle passar para o patibulo, vós fechareis talvez as vossas janellas, e direis: «Não tenho coração para taes espectaculos;» ¡como se esse mesmo coração não fosse o seu peor algoz, o que o conduziu áquelle passo affrontoso!

N'outra parte um desesperado, que sonhou alguns momentos a felicidade, mas que imprevistamente se sentiu naufragado de todas as suas esperanças, que contou, para segurar a subsistencia, com os amigos que o atraiçoaram, com a fortuna que lhe fugiu, que se vê precipitado n'uma desgraça a que não prevê termo na sua desesperação, insulta o Céo, blasfema da Providencia, e, se lhe não accudis, ¡quem sabe se irá (como tantos outros) afiar um punhal, temperar um veneno, ou suspender um laço, por onde arranque uma existencia que o importuna! ¿E a caridade e a ternura não poderão ainda aqui obrar um novo milagre? ¿fazer-lhe rebentar as lagrimas, cuja fonte se lhe exhaurira? ¿abrandar-lhe o coração? ¿obrigál o a bemdizer a Providencia, e abençoar o pão com que lhe sustentamos uma vida que lhe fizemos amar ainda?

¡Oh! ¡meu Deus! ¡que doces prerogativas não déstes vós ás almas generosas e humanas! Se entre os próprios pagãos alcançava uma côroa o que salvava os dias do seu concidadão, ¡que honras não merece dos outros homens o que os arranca a uma morte desesperada, depois de uma vida infeliz! ¡que os reconcilia com o Céo que já suppunham surdo e injusto! ¡e que até previne com os seus soccorros a desordem e excessos da miseria que lhes arrancariam os meios de salvação!

¡Ah! meus irmãos, se nos basta ser homens, para reconhecermos como bem real esta doce obrigação da esmola, segundo a razão e humanidade, ¡que mais fortes motivos não tem o homem christão, para ser esmoler, segundo as Escrituras, e particularmente o Evangelho! Os deveres da caridade não são para nós simplices axiomas, ou preceitos da philosophia; não são o resultado de um mero instinto moral: as santas doutrinas reveladas vieram não só confirmar, mas dar ainda, se é possível, uma extensão muito maior a tudo quanto n'esta parte a Religião natural nos havia imposto.

Segundo o systema religioso do Christianismo, ¡por quantos modos, até indirectos, nos não é persuadida a caridade! O Padre derramou sobre nós todo o thesoiro das misericordias do Céo; creou nos entes os mais perfeitos de toda a Natureza; a sua mesma divindade foi o typo pelo qual nos formou (pelas suas proprias mãos, dizem as Escrituras); não só nos adornou de todas as graças que perdemos na desobediência de nossos paes, mas todas as suas creaturas contribuiram, e ainda contribuem (mais parcamente sim, depois do peccado), para nos tornar o mundo uma habitação commoda e feliz. Esse sol que nos allumia o theatro do mundo, essas estações que lhe mudam as scenas, os frutos saborosos e delicados que rompem da terra, os vestidos que nos cobrem, o ar que respiramos, o somno que nos restaura as forças, os prazeres que nos lisonjeiam os sentidos, os prazeres ainda mais puros e doces da consciencia e do coração, são outras tantas esmolas, com que Deus proveu desde a eternidade ao homem, sobre fraco e indigente, ingrato a tantos beneficios.

Na sábia disposição com que de mais o Eterno Padre arranjou todo o grande systema da Natureza, ¿não nos deu Elle uma grande lição de caridade, estabelecendo em todas as suas obras uma encadeacão successiva e mutua de dependencias e soccorros? Olhae, por exemplo, como os mares liberalisam as suas aguas ao ar em nuvens, o ar as suas á terra em chuvas, a terra ás fontes, as fontes aos rios, os rios outra vez aos mares; e n'este rodear das aguas, plantas, animaes, homens, o mundo todo se conserva, se reanima, se restaura.

D'esta mesma sorte, não só as grandes porções da Natureza, mas ainda os seus minimos individuos, trazem travado um commercio mutuo de esmolas; e os soccorros de uns, em circulo perpetuo, se tornam essenciaes á existencia dos outros. É assim que, por toda a parte envolvidos pela Natureza, do meio da qual nos elevamos, como obras as mais perfeitas, não só nos não devemos resvalar a uma condição inferior á da propria materia bruta, mas avantajar-nos tanto mais na mutua caridade, quanto nos devemos considerar como entes, cuja conservação é mais importante para a manifestação da gloria de Deus.

O Divino Verbo, por um mysterio da mais incomprehensivel misericordia, desce ao mundo, demora-se entre os homens, deixa-lhes um thesoiro de felicidade nas suas doutrinas, dá-lhes a esmola de todo o seu sangue, lava a mancha da nossa origem, e restabelece a paz entre o Céo e a terra.

O Espirito Santo vem tornar effectivos todos os meios de santificação, e nos accode com esmolas continuas, desde que abrimos os olhos, até que deixamos o mundo; pelo baptismo assenta os nossos nomes no livro da vida; confirma-nos e augmenta-nos depois esse perdão; repete-o tantas vezes quantas offendemos o Céo; sustenta-nos com o manjar dos anjos; e accode-nos até com remedios temporaes, á hora em que as portas do carcere se vão abrir, e a alma sôlta reverter á sua origem.

Mas não só pelo seu exemplo e meios tão indirectos nos persuadiu Deus a esmola; não é uma simples recommendação, é um dos preceitos mais rigorosos:—Ego proecipio tibi, ut aperias manum fratri tuo egeno, et pauperi qui tecum versatur in terra: Sou eu, é o teu proprio Deus, quem te ordena, que abras a tua mão ao necessitado e ao pobre, que lida comtigo sobre a terra. Esta lei tão clara, tão precisa e absoluta na sua letra, ¿terá acaso todos esses caractéres que devem sempre manifestar-se em todas as leis de Deus? Examinemol-a, e seja o proprio Deus quem nol-a interprete.

É justa e necessaria: necessaria muito mais ainda para o bem espiritual dos bem-feitores, do que para o commodo temporal do soccorrido. A esmola, segundo Jesu-Christo, é um acto de Religião, conjuntamente com a oração e jejuns; é pois rigorosamente um meio expiatorio; é um commercio que temos com Deus por meio do nosso proximo; é uma agua copiosa (diz o Espirito-Santo) com que apagamos o incendio das nossas iniquidades; é uma santa usura, em que trocamos bens superfluos e temporaes por bens inapreciaveis e eternos; são thesoiros que ficam depositados no seio do pobre, e que d'ali estão sempre clamando ao Céo em nosso favor; são bolsas que nunca teem de se estragar nem de esgotar-se, que nunca nos serão roubadas nem podem ser consumidas; é um seguro para o dia da afflicção; é finalmente um arrimo a que nos soccorremos para não cahir.

Mais: é util, considerada mesmo temporalmente para quem a dá. O Espirito-Santo o disse tambem nos Proverbios: Aquelle que der ao pobre, de nada carecerá; aquelle que desprezar as suas supplicas, cahirá tambem na pobreza.—Eis aqui, meus irmãos, eis aqui patente o terrivel segredo da vingança divina, quando aniquilla tantas fortunas que pareciam tão solidamente estabelecidas: Dispersit, dedit pauperibus; divites dimisil inanes. Sim, porque as maldições, ó ricos do mundo, que o pobre vos lança em segredo, na amargura da sua alma, são ouvidas com todas suas imprecações, por Aquelle que o creou, e que nunca d'elle arredará os seus olhos. Folgae hoje, que, semelhantes ao mau rico do Evangelho, sereis ámanhan sepultados no inferno, debaixo do peso de vossos thesoiros; et sepultus est in inferno. E se as vossas riquezas vos são consentidas, muitas vezes é para que principiem o vosso inferno no mundo. Se pareceis prosperar, é para que a vossa quéda seja mais espantosa, ou para que os vossos descendentes, que não são culpados nas vossas iniquidades, não experimentem a punição da vossa dureza, e recebam juntos esses bens a que irão dar um justo emprego.

¡Ah! meus irmãos, dizei me: ¿vistes vós, pelo contrario, que homem algum se arruinasse jámais pelas suas larguezas com os pobres? ¿Não é antes uma verdade, confirmada pela experiencia de tantos seculos, que as familias de mais caridade são as que mais teem prosperado? Sim, sim, o Espirito Santo o disse pela bocca do mais sublime de todos os prophetas: «Se derramares toda a tua misericordia sobre os necessitados, e encheres de consolação almas que gemiam na afflicção, a tua casa se tornará como um jardim sempre regado, e a tua prosperidade será tão perenne como a fonte que a todos offerece os seus licores, e por mais que a bebam nunca se esgota, nem cessará de correr.» ¿E o Redemptor não disse ainda mais expressamente: Date et dabitur vobis? ¿Não compara elle a retribuição com que o Céo ha-de corresponder ás nossas liberalidades, com uma medida avantajada, calcada, de cogulo, a verter de todos os lados, que se nos vasará para o regaço? ¡Oh! não duvidemos: os bens do misericordioso, repartidos pelos infelizes, são o azeite e a farinha milagrosa da santa viuva de Sarepta. Comeu Elias, diz a Escritura, comeu ella e a sua casa; e desde aquelle dia nunca lhe faltou a farinha no pote, nunca o azeite do vasinho se diminuia.

Vêde, depois d'isto, ¡que multidão de bençãos as Escrituras não veem chovendo sobre o homem compassivo e esmoler! O Senhor o conserve, o Senhor lhe dê uma longa vida, o faça feliz no mundo, o livre das mãos dos seus inimigos, o allivie no leito da sua dôr. O que dispersar os seus bens pelos pobres, viverá de seculo em seculo na memoria dos homens, abençoado será o seu nome, e n'elle se despontarão as settas envenenadas da calumnia. Justitia ejus manet in saeculum saeculi. Exaltabitur in gloria. Ab auditione mala non timebit. ¿Que significam tantas promessas, meus irmãos, tantos premios, tanta abundancia de bençãos, as glorias do Céo e da terra, tudo cumulado sobre o homem benefico? ¿Que sacrificio tão importante se vai exigir d'elle? ¿a que lances heroicos o querem persuadir? ¿que perdas soffrerá que cumpra contrabalançar por premios de tão alta valia? ¿Exige-se-lhe a mendicidade e a miseria, em que viveram os Apostolos e o Redemptor? ¿um exterminio de todas as paixões? ¿uma abnegação de todos os prazeres? ¿as mortificacões da penitencia? ¿a constancia e morte gloriosa dos martyres? Não, não. Pede-se-lhe só amor e provas de amor para com seu irmão; pedem-se-lhe só lagrimas e pão para os infelizes. Não se lhe intima que dê, com prejuizo seu, até o ultimo boccado d'esse pão, mas empenham-se os titulos mais sagrados da misericordia, e patenteiam-se-lhe todos os cofres e enchentes da Graça, para lhe pedir só as migalhas superfluas da sua meza.

¡Grande Deus! ¡que generosidade incomprehensivel a vossa! ¡Remunerardes como sacrificio uma virtude, e acceitardes como virtude o que nada custa ao coração! ¡Accumulardes os vossos prémios sobre os prazeres mais doces da consciencia! ¡Considerardes em mais do que homem a quem só cumprìu com deveres da humanidade! ¡Avaliardes em tanto um superfluo, que trasbordamos para o seio do desgraçado, quando já nol-o havieis dado com essa condição! ¡Acceitardes, finalmente, esses bens frageis, temporaes e caducos, esses bens que só devemos á vossa liberalidade, como moeda correspondente em valor ao preço inestimavel dos vossos thesoiros infinitos!

Mas d'estas elevadas contemplações, em que todos nos deveriamos abysmar, vós me chamais, meus irmãos, vós me fazeis descer ás profundezas da vossa miseria, e surprehender nas vossas consciencias um segredo bem importante. ¿E não adivinho eu quaes teem sido, desde que enunciei o thema e objecto do meu discurso, os pensamentos de muitos de vós, da maior parte, ou antes de quasi todos os que me escutais?—«Feliz (exclama cada um de vós, no seu coração) feliz de mim, se eu podera soccorrer o meu proximo, que a tão bom barato me veria de posse do Céo. Porém Deus não me destinou a mim esses premios e bençãos; e se a esmola fôra um meio indispensavel de salvação, eu me perderia sem remedio, não por minha culpa, mas por culpa da fortuna. Todos os meus bens escassamente chegam para a minha sustentação e da minha casa.»—Assim pensais; assim buscamos pretextos para illudir todos os preceitos até os mais terminantes e expressos da Religião. Mentis a Deus, aqui, na sua presença, dentro da sua mesma casa, e, suppondo justificada a vossa propria crueldade, vos revestis d'aquelle zelo hypócrita do phariseu do Evangelho, e lançais de travez os olhos para os ricos, que ahi estão comvosco. Folgais talvez com a sua confusão; e a doutrina da caridade, a doutrina de tanto amor, só serve de despertar em vós a insolencia, o desprezo, e o odio. Não permitia Deus que a sua preciosa semente se perca d'este modo; que só a acceite um pequeno torrão de terra, e que em vez de produzir os bellos frutos do Senhor, a maior parte do seu campo, ou quasi todo elle, continue a só desatar-se em cardos e espinhos. Afugentemos as aves d'esta preciosa sementeira. Arredemos as pedras, e não consintâmos que fique sem proveito e inculto nenhum pedacinho, por mais pequeno, da sua terra.

Todos vós podeis dar a esmola, todos, sem excepção, vos achais obrigados a ella; e esta universalidade constitue, n'aquelle divino preceito, o seu segundo caracter de lei.

Ha duas especies de esmola (diz Santo Agostinho): uma da bolsa, e a outra do coração. Tão longe vai, pois, a esmola como a caridade; e para podermos soccorrer o nosso proximo, basta-nos possuir um coração. ¿Não tendes dinheiro, mas tendes pão com fartura? Reparti-o por tantos famintos. ¿Escassamente vos chega o pão, mas tendes algumas roupas superfluas? Cobri com ellas tantos nús. ¿Nada tendes hoje? Promettei para ámanhan; enchei de esperanças o seio vazio de todas as consolações. ¿São a caso insignificantes os bens que vos restam para os frutos da caridade? Offerecei-os assim mesmo; basta que deis só um copo de agua fria a um dos mais pequenos do mundo, lembrando-vos de que elle é meu discipulo (vos diz Jesu Christo); este só copo eu vos affirmo que não ficará sem recompensa. ¿Nada tendes que dar? Reparae bem: ¿Nada tendes que dar? Lançae bem os olhos de todos os lados. Sondae bem toda a vossa fortuna. ¿Nada tendes que dar? Se não mentis ao desgraçado, se na verdade vos achais privado de todo o genero de haveres, ainda possuis muitos bens em que não reparaveis. São os que existem dentro do vosso coração. Offerecei-lh'os. Derramae d'elle torrentes de balsamos sobre todas as feridas dos vossos tristes irmãos. Sois ainda mais rico com o vosso coração, no meio mesmo da miseria, do que os ricos sem elle, afogados nos seus thesoiros. Consultae esse coração; ouvi como um oraculo as suas respostas. ¿Que vos demorais? Segui todos os seus impulsos.

¿Não tendes com que soccorrer o indigente? Correi á morada do rico. Entrae affoitos.

Pintae-lhe as miserias do seu semelhante. Mostrae que só os interesses da humanidade vos dirigiram ali. Contae o que presenciastes com os vossos olhos. Chorae diante d'elle. Desfazei as calumnias. Reconciliae as eternas inimizades da opulencia com a miseria, e, semelhantes aos corvos de Elias, voae á choupaninha faminta do deserto, com o pão e com a carne, que vos deu essa Providencia, que assim soubestes interessar.

¡Não tendes que dar! Ajudae o vosso proximo, com o trabalho dos vossos braços. Advogae perante o poderoso a causa do fraco. Desfazei os enredos e calumnias, que ennegreceram vosso irmão, que lhe roubaram todas as protecções.

¡Não tendes que dar! Congraçae o homem com o homem, a familia com a familia.

¡Não tendes que dar! Visitae tantos desgraçados, que gemem por esses carceres; persuadi-lhes a paciencia, e a resignação evangelica; confortae-os com palavras doces, com esperanças consoladoras. Approximae-vos ao leito do enfermo; offerecei-lhe, com mão carinhosa, os remedios; animae-o com os vossos sorrisos, e fazei que troque os suspiros da sua dôr e do seu desalento em suspiros de ternura, em expressões de confôrto; que veja os Céos abertos, e que goze antecipadamente de premios, que, se não fosseis vós, talvez não tivesse de possuir.

¡Não tendes que dar! Instrui, na santa doutrina, a tantos meninos, e ainda a pessoas maiores, que a ignoram. Bemdizei de vosso proximo na presença, assim como na ausencia. Ajudae-o com as vossas orações.

Nada tendes que dar! ¡Nada tendes que dar! ¡Ah! ainda tendes lagrimas. São as perolas e os diamantes da alma; e esse thesoiro nunca se esgota para um christão. Tomae a vós uma parte do seu infortunio, e elles ficarão menos oppressos. ¡Que esmolas, tanto ou mais preciosas que as do oiro! ¡De quantos e quantos modos, não sabe reproduzir-se a beneficencia!

Bemaventurados, disse o Redemptor, todos os que usam de misericordia, porque elles alcançarão misericordia.

Eis aqui as bençãos e os premios do Céo, recahindo sobre todos vós, sem exclusão de um só. Ahi vos tendes tão ricos, aos olhos do Senhor, como esses ricos, cuja dureza lamentaveis, a cujos bens vos promettieis dar um melhor emprego, se os possuisseis. ¿Quem vos detem? ¿por que não correis a praticar essas obras de misericordia, que podeis? ¿a merecerdes essas bençãos e premios, que ha pouco ambicionaveis? ¡Quê! ¡Já se vos affrouxa o zêlo! Sim, o zêlo, que murmura, que reprehende, que insulta nos outros a infracção dos deveres, em quanto os julga alheios, esmorece de todo se esses deveres se tornaram proprios; e, por mais injusta contradicção, as fraquezas, que não perdoamos no mundo, sendo em nós, já as sabemos desculpar; ¡e quantas vezes não passam de desculpadas a canonisadas! Pois bem, senhores: se a razão, se a humanidade, se a justiça, se a consciencia, se os interesses do mundo, se as bençãos do tempo e da Eternidade, se todos os premios de Deus, emfim, nada podem comvosco, possam-n-o, ao menos, as suas ameaças, castigos e maldições, que vão constituir a sua lei perfeitamente obrigatoria. Eis o seu ultimo caracter.

¿Recusais a misericordia de Deus? Já não tendes que escolher. Só lhe ficaram as vinganças. Affastae-vos, ó santa familia de infelizes. Pobresinhos do Senhor, affastae-vos da terra maldita, onde vai chover fogo e colera do Céo. Para além, para além, é o vosso refugio, á dextra do Eterno Padre. Venite ad me, omnes qui laboratis, etc. ¿Não vos tinha elle dito que os vossos gritos lhe chegariam aos ouvidos, que as humiliações se lhes converteriam um dia em triumphos? Sim, sim, ó famintos, ó sedentos, nus, chorosos, calcados, perseguidos, ¡jubilae! Vós nunca cessastes de ser os seus filhos muito amados. Eu vou reassumir todos os thesoiros (vos diz elle) que a minha Providencia repartira pelos vossos barbaros oppressores. Eu lhes havia dado mais altos meios do que a vós mesmos de alcançarem a minha gloria, de alcançarem a menos custo. Os privilegios com que eu os mimosiei, só serviram de os fazer ingratos e crueis. Frutos mui formosos do meu campo, fostel-o vós, ó meus pobres; frutos que eu vou recolher e guardar para sempre no meu seio; elles foram arvores estereis, que, dominando toda a sementeira, a açoitaram com os ramos, a damnaram com a sombra, a devoraram com as raizes; infecundas e nocivas eu as arranquei em meu furor; eu vou lançal-as ao fogo. Retirae-vos de mim, malditos. Precipitae-vos no incendio eterno, que foi preparado ao diabo e aos seus anjos; porque eu tive fome, e vós me não déstes de comer; eu tive sêde, e vós me não déstes de beber; fui peregrino, e não me recolhestes; nu, e não me vestistes; enfermo e encarcerado, e não me visitastes. Todas as vezes que despedistes, que calcastes os pequenos do mundo, a mim, a mim o fizestes.

¡Ah! meus irmãos, possa esta sentença de maldição estampar-se hoje com letras de fogo e indeleveis nos vossos corações. Este Jesus escondido nos pobres, este Jesus que por ahi vaga fóra dos templos, coberto de remendos, macilento, prostrado debaixo do pêso de tantas cruzes, é um rei de majestade, é um senhor indignado que vos ha-de apparecer em toda a sua cólera, e de cujas sentenças nunca poderêis mais appelar. ¡Oh! compadecei-vos d'elle, soccorrei-o emquanto o-vêdes pobre, cahido e humilhado, para o não experimentardes depois, senhor altivo e vingador. ¡Oh! pobresinhos do Senhor, parabens! o coração me-diz que esta semente não será perdida, e que terêis hoje ao menos soccorros e consolações.

Pois bem, Senhor. A Vós, recorremos hoje, que ainda é tempo. Aqui promettemos soccorrer-vos com o que é vosso, a Vós, ó meu Jesus pobre; a vós, cahido, a vós humilhado, para vos não experimentarmos depois accusador, testemunha, vingador e inexoravel. Antes que nos-accendais esses fogos de maldicção, já era nossos corações temos accezos outros, que muito mais são vossos: os da caridade.

Ó modêlo do bom pae de familias, ajuntae-nos em tôrno da meza do vosso banquete celestial, aonde se assenta o opulento Salomão a par do Lazaro mendigo, os grandes com os pequenos da terra, o peccador arrependido com o justo que nunca vos-offendeu. Reclinae-nos sôbre o vosso seio; e n'um abraço de eterno amor nos-apertae a todos sôbre o vosso coração paternal, por todos os séculos dos séculos.

Assim seja.