*
D'este centro, a meio quarto de legua a nor-noroeste, esconde-se o
logar das Maçadas, com cincoenta almas, sua ermida de S.
João Baptista, e sua fonte muito fresca.
Para o norte, a outro meio quarto de legua, a antiga villa da
Castanheira, com as suas entradas, cobertas de parreiral, vangloriosa
com os seus cento e oitenta e sete moradores, e com a sua capella do
Espirito Santo, mas dando-se-lhe pouquissimo com o telegrapho, que
desde as ultimas guerras lhe ficou até hoje a pantomimar no
alto do seu oiteiro. Pelos gestos d'aquelle activo surdo-mudo passam,
de extrema a extrema do Reino, quantas noticias o revolvem,
sem que a boa da villa, nem outro algum dos logares que entram na sua
abençoada
confederação de rustica ignorancia, as adivinhem,
nem suspeitem, nem cubicem.
A tres quartos de legua para nor-nordeste, dá-se com a
humilde póvoa de Falgarinho, de não mais que oito
visinhos.
Subindo d'ali mais um quarto de legua contra o nordeste, encontra-se,
n'uma quebrada da mesma crista, a Serra-de-cima, com vinte e tres
pessoas.
Descendo para o sul pelo seu ameno valle bordado de frutiferas arvores,
e a pequena distancia, se dá de improviso com a vistosa e
agradavel quinta da Serra-de-baixo, de sete almas, e sua capella de
Nossa Senhora do Livramento.
Nas faldas d'estas fragosas montanhas, junto ao rio de S.
João do Monte, que a seus pés corre,
está em amphitheatro o Avelal-de-cima,
de vinte e quatro almas, a tres quartos de legua a les-nordeste da
egreja.
Voltando pela direita ao tortuoso rio por caminhos pouco transitaveis,
a meio quarto de legua está para o nordeste o
Avelal-de-baixo, logarejo de quarenta e sete almas, e uma capella de
Nossa Senhora da Conceição.
Deixando a margem do rio, atravessando um desfiladeiro, e subindo
bojudas lombas, reverte-se ao nosso ponto fixo de
observação.
Para o nascente, descendo até á Cruzinha, e d'ahi
toda a costa dos Ferreiros, passa-se o rio de S. João do
Monte, junto ao seu confluente Alcafaz (nome arabe, que significa
«o salto»)
nome
que para ali está, ha mais de
setecentos annos, soando em bocca de christãos sem renegar a
sua origem, nem se corromper.
Para a esquerda do S. João do Monte, se descortina a nossa
Talhada, de honrada memoria, berço de um Cardeal, de um
fundador de capellas, e de um namorado de lei; tres celebridades para
um ninho hoje de quatorze almas, coberto de loisas e colmo, e coroado
de sarças e medronheiros; dista-nos um quarto de legua para
nordeste.
Vadeando segunda vez o rio, e a pouca distancia d'elle, o S. Mamede
(que toma este nome na juncção dos dois
afluentes) se atravessa na ponte de pau que já sabeis, e
onde eu agora, 30 de Julho ao meio dia, me tomára a apanhar
á fresca.
Subindo um pouco espaço a costa, atravez de alcantiladas
rochas, toma-se a les-nordeste, seguindo tortuosa e mal aberta senda,
que em travessia da montanha, sobre a esquerda do rio, leva
até ao casal do Fontão, de onze almas, sito na
margem do Alcafaz, na raiz do cabeço de Santa-Cruz, a quarto
e meio de legua para nós.
Revertendo-se onde se largou o caminho, se continua serpeando a
encosta; e no cimo se encontra a povoação de
Falgozelhe, de setenta e uma almas, posta a um quarto de legua da
egreja, a les-sueste, quasi na extremidade occidental de um
ramo do Caramulo. O nome da sua casa de oração
é o que á sua altura melhor convinha: Santa-Cruz.
Tomando-se o rumo do sul, e atravessando o rio Agadão por
outra ponte de pau, e serpeando ingreme ladeira, no cimo
está o pequeno e vistoso logar da Falgarosa, de trinta e
seis moradores, com uma sua ermida da Senhora da Boa-Morte, a tres
quartos de legua ao sul; terra que se ufana com o delicioso de seus
pomares de caroço e de espinho, com a annosa matta de
sobreiros que a abriga pelo nascente, norte, e noroeste; e sobre tudo,
com ter dado á luz o instruido e virtuoso Pastor, que hoje
rege aquelle rebanho.
Voltando para o rio, passa-se n'uma bateira um pouco a baixo, depois de
se terem abraçado os dois afluentes Agadão e S.
Mamede.
Subindo-se até ao vizo, está o logar da Redonda,
de cincoenta almas, com sua capella de S. Gonçalo, a quarto
e meio de legua a sudoeste da egreja. Redonda se chama, por estar
á borda de um leito semi-circular.
*
Fechemos a topographia do nosso pequeno reino, com as suas
confrontações externas.
Parte a freguezia de S. Mamede: pelo norte, com a do
Préstimo; pelo poente, com a de Agueda; pelo sul, com as da
Aguada de cima, e Balazaima; pelo nascente, com a de Agadão,
filial, ou annexa, que aínda
então era, á de S. Mamede, e parochia hoje sobre
si; paiz ainda por ventura mais serrano e variado, mas que eu
não cheguei a descobrir.
X
O territorio de S. Mamede é o extremo occidental de um
corpulento ramo do Caramulo, ramo appellidado serra de Alcoba, que em
voz de Moiros quer dizer «abobada», ou montanha
boleada á feição d'ella.
Do Caramulo, como tronco d'onde bracejam dispartidos este e outros
ramos, alguma coisa quizera eu dizer, á conta do muito que
merece. Mas, sobre que nunca o visitei, apesar de tão
visinho, recearia apoucar-lhe a
veneranda majestade, apertando n'um ou dois paragraphos as vagas
noticias que d'elle tive.
Em summa: é uma bizarra montanha rude e silvestre, dominando
d'entre as nuvens meio Portugal, larga em fontes e penedias, poderosa
em tempestades, em frutos magra, mas opíma
em homens e
mulheres de antiga tempera: activos, pacientes da penuria, do frio, da
fome, e da nudez; é um paiz de selvagens
christãos, para o qual as rudes terras do meu S. Mamede
estão, em polidez e florescencia, como para os Lacedemonios
poderia estar a antiga Attica.
*
Dois monumentos accrescentam veneração ao
Caramulo, quanto o podem mesquinhas obras humanas ás
grandiosas moles naturaes.
N'um dos seus cabeços mais alterosos foi erguido, nos
principios d'este seculo,
uma
especie de zimborio de doze
palmos de altura, pouco mais ou menos, de pedra muito bem lavrada e
argamassada. Para quê, não dizem; mas dizem que
por um engenheiro francez; rasão por que, os povos da
circumvisinhança, por occasião da guerra
peninsular, commetteram demolil-o; mas só lhe poderam fazer
pelo norte um pequeno estrago. Dura em pé, e só
é accessivel do
nascente por uma vereda estreita e tortuosa.
O outro monumento não é menos enigmatico, e deve
estar farto de ver passar seculos e desfazer-se
gerações.
N'uma arremeçada crista, a duzentos passos
da egreja do Espirito Santo de Arca,
se alevanta elle, com o titulo immemorial de «Pedra de
Arca». É
uma
desconforme loisa
inteiriça, horizontalmente aguentada nos ares por esteios de
pedra; quatro em numero a principio, hoje só tres, havendo
sido um arrancado para as obras da visinha egreja.
Tem esta lágea de comprido vinte palmos, e de largura
dezasseis; de grossura, pelo nascente tres polegadas, pelo norte
quatorze, pelo poente onze, e outras onze pelo sul. Os pilares contam
de altura doze palmos, só da flor da terra para cima; de
largura, um que fica para o poente apresenta nove palmos, tendo de
grossura pelo poente palmo e meio, e pelo nascente um palmo. Um, que
diz para o sul, tem de largura, por baixo quatro palmos e meio, e por
cima tres, e de grossura um palmo de cada lado. O ultimo, que
está para o norte, tem de largura, por baixo cinco palmos e
polegada, e por cima quatro palmos e polegada.
¿Com que possantes machinas, por que mãos, em que
eras, e para que fim, se alevantou ali aquella, que á
phantasia se figura bruta meza de gigantes silvestres?
¿Sería obra de fortificação
n'um systema de guerra desconhecido? Quasi que nem possibilidades o
abonam. Uso agrícola, industrial, ou civil, nem a
imaginação mais inventiva lh'o rastreia. Memoria
de algum varão ou feito insigne, já a poderia
ser. Mas então,
¡a que rudes tempos a não havemos de referir,
visto como nem data, nem letra, nem escultura tôsca, nem
vestigio algum de arte
nem de
architectura, mas só uma bruta mechanica, ali se admira!
Religiosa fabrica de alguma gentilidade parece logo aquella; e mais,
quando se adverte na semelhança que tem com os altares
druidicos, ainda hoje conservados em varias partes do que
foram Gallias e Germania.
Verdade é, que por estas nossas terras não rezam
as Historias, que se estendesse aquella abominavel seita de
sacrificadores de humanas victimas; mas nenhuma repugnancia ha, em que,
perseguidos, como o vieram a ser, pelos Imperadores romanos, alguns
druidas se refugiassem para este Occidente, e aqui, em retiros
montesinhos, menos accessiveis a pesquizas e
perseguições, professassem e mantivessem o seu
culto, do qual (se duas coisas mal conhecidas podem ser sem temeridade
comparadas) não muito discreparia talvez a
religião do Endovélico lusitano.
Este ponto, porém, outros mais sabedores que o investiguem,
se vale a pena, como cuido; que eu me torno do Caramulo para o centro
dos meus affectos.
XI
Nada concita aos logares veneração, como a
antiguidade.
Bem quizera eu poder historiar d'estes meus sitios para além
de Moiros, Normandos, e Romanos; mas, por mais que a procure,
não rastejo noticia d'essas edades, com que fazer obra.
Se por ahi passaram em algum tempo successos grandes, se houve
memoraveis edificios, se varões insignes pisaram aquellas
terras, nem ruinas o attestam, nem documentos o declaram, nem
tradições o denunciam. O solo enguliu tudo; e
nenhum acaso lhe fez ainda restituir uma pedra ou letra para enigmas.
Só ao sudoeste de Falgozelhe, já fóra
da sua lavoira, na primeira valleira que se encontra á
direita do caminho indo para Agueda, se vê uma fiada de
umas como
torrinhas, que se estende por mil e quarenta palmos; das quaes
torrinhas, só duram hoje em dia os alicerces, e algumas
porções deseguaes de muros esboroados a delir-se.
E descendo esta valleira duzentos e vinte e cincos palmos, se
dá em uma furna chamada «a buraca da
cerejeirinha», aberta a picão em rocha viva; a
qual tem na bocca oito palmos e meio de altura, quatro e meio de
largura, e cento e vinte e cinco de comprimento. Da furna é
geral fama que fôra aberta pelos Moiros.
*
Em tempos de mais abusão do que estes nossos, acreditou
se, dizem os netos,
que morava ali Moira encantada, que, todas as madrugadas de S.
João, sahia muito pontual e ritualmente, a assoalhar os seus
thesoiros por cima dos penedos, entre os mattos orvalhados.
N'esses seculos, entendido está que o terror lhe velava a
estancia, e que ninguem se affoitou nunca a ir lá dentro.
Algum Principe afortunado deveu de desencantar a Moira, que actualmente
já não ha novas d'ella. As pastoras levam sem
medo os rebanhos para a sua visinhança; cantam aos seus
hombraes trovas muito christans; e quem quer, lhe devassa (como eu fiz)
o seu palacio subterraneo.
A opinião dos modernos tem, que fôra aquella mina
aberta, pelos Moiros sim, mas não para tirar oiro, que
é sempre a primeira conjectura, nem para serventia militar,
que é sempre a segunda, se não só, e
prosaicamente, á busca de agua, que em verdade de
lá mana, muito fresca e saborosa, mas em pequena copia.
*
Sobre as fortificações engenha cada um a sua
hypóthese.
Ha quem as supponha posteriores á
invenção da artilharia, por se lhe figurar que
só a taes armas podiam ser apropriadas; e ha quem aos Moiros
as attribua, fundado em que, posto não ficassem d'elles por
ali outros vestigios, o arabigo de alguns e muitos nomes de logares
demonstra, que elles por lá viveram. E se por lá
nasceram e se crearam, não podiam deixar de fortificar-se e
defender-se contra commettimentos de inimigos, que é esse um
instinto natural a todos os homens, mas nos homens das montanhas mais
energico.
*
Falgozelhe, em verdade se crê ter sido d'elles povoada, posto
que o seu nome, se
christão não é (como de certo
não é), tambem por arabe se não
reconhece. ¿Ser-lhe-hia imposto por gente ainda mais antiga?
Mas, sem nos extraviarmos para essas novas brenhas de fabulas, o em que
podemos ficar por mais que verosimil é que, por toda aquella
serrana região, estanciaram Moiros em seu tempo; e, se ahi
deixaram menos rasto que em muitas das terras visinhas, seria porque a
bruteza do monte era já então como hoje, que
não dava meios nem licença para grandes obras.
Pequenas póvoas, que eram o mais a que podiam chegar, muito
faziam em tirar da terra pão com que se manterem;
¡quanto mais, erigirem castellos, pontes, ou mesquitas, de
que se podessem admirar fragmentos depois de sete seculos!
Rebanhos moiriscos pasceram portanto por aquellas encostas. Por baixo
de outros tectos rusticos semelhantes a estes, e por ventura no logar
d'estes, se acalentaram creanças com versos do
Alcorão. Outras arvores, de que estas são remota
descendencia, viram passar á sombra das suas copas
esvoaçadas da ventania albornozes de lan grosseira e parda,
e turbantes retintos; e bois, que sulcaram com o arado o que hoje
é talvez poisio, entendiam as vozes do lavrador arabe, e
ficariam confusos e immoveis se revivessem para ouvir as da nossa
lingua.
Eis aqui o unico perfume antigo que podemos dar a estes povoados ermos,
que eu desejaria fazer tão amados de meus leitores, como de
mim o são e serão sempre.
*
Não digo bem. O falar, e os pensamentos, e os costumes,
manteem-se ainda antigos. As novidades das
civilisações são como
a escravidão, e os diluvios: tarde chegam a engulir as
serras.
A Linguagem é ali, como
os ares, de uma admiravel pureza e
lucidez. Se os diccionarios e livros mestres da nossa Lingua se
perdessem, pela conversação corrente d'aquellas
aldeias e póvoas se poderia restaurar.
Troca-se mais portuguez de lei, mais riqueza de vocábulos,
phraseado, e
construcção, n'uma seroada de inverno, ou n'um
palrar de sésta de segadores entre carvalheiras rusticas, ao
estridor das cigarras amadas de Anacreonte, do que entre o ranger dos
prelos e o resfolegar das balas, n'um anno inteiro da melhor
typographia de Lisboa.
Muitos dizeres classicos, de que por ahi chacoteiam por affonsinos,
como o
nanja o
bofé, o
canté, o
quiçá, e mil
outros, sôam por lá sem extranheza em boccas de
mocinhos de doze annos nos seus folguedos, ou de namoradas de dezoito
nos seus desabafos mutuos em vespera de romaria.
Com a honesta herança da Linguagem, veio dos avós
aos netos a das crenças e praticas piedosas, e com esta a de
muitos seus erros e abusões. São os insectos e
musgos parasitas da arvore robustissima da Fé.
Abençoada
a Philosophia quando acode a limpal-a sem lhe esgalhar os ramos ou
cerceal-a pelo pé.
O tempo vai fazendo a pouco e pouco o
seu officio. Não ha curas nem
reformações mais prudentes e certas do que as
suas, quando á força lh'as não ajudam
ou
contrariam.
Era por essas terras, poucos annos ha, geral e profunda a credulidade
de apparições, phantasmas de almas do
outro-mundo, Moiras encantadas, thesoiros escondidos e lobis-homens; e
ainda hoje a mór parte dos moradores acredita nos
esconjuros, feitiços, bruxarias,
adivinhações, e virtudes de certas praticas e
fórmulas, para curar ou empecer.
Estas abusões, sem deixarem de ser males muilo innegaveis,
dão comtudo sua côr poetica muito particular ao
Povo, cuja simplicidade primitiva no viver e trajar harmonisam com taes
simplezas da intelligencia.
*
Os figurins parisienses, esses idolosinhos multiformes, a cujo culto
vivem adstrictas as gentes das cidades, e muitissima dos campos,
são por ora totalmente incognitos na serra. A moda
não exerce por lá as suas costumadas
devastações de cabedaes, bons costumes, e saude.
Os vestuarios e galas de ambos os sexos reproduzem-se com a mesma
uniformidade, com que nas suas moitas e arvoredos cada especie vegetal
renova as suas folhas e flores.
Os homens vestem de burel, ou saragoça caseira, creada
ás costas das suas ovelhas, tosquiada por elles, fiada e
tecida por suas mães, mulheres, e filhas, apizoada e tinta
(quando o é) sem sahir da freguesia. Trazem
grandes chapeos pretos desabados,
grande bordão ferrado, menos para defensa, que para arrimo
pelo resvaladio das ladeiras, e tamancos cravejados.
As mulheres trajam, sobre camisa de linho ou estopa da terra,
sáia de burel de meio pizão, côr de
pinhão ou preta, collete comprido justo, sem
apêrto, e mandil; isto é, obra de vara e meia de
burel mais apertado no tear, e sem pizão, que lhes serve de
capa, lançado ao desgarre por sobre os hombros. A
cabeça, cobrem-n-a, ou com o
mesmo mandil, ou com um chapeo como o dos homens. As suas tamancas
são menos grosseiras. O lenço de seda ao
pescoço é, como as arrecadas e o
cordão de oiro, o ultimo da magnificencia, e as flores da
urze ou da carqueja o mais galante enfeite dos seus sombreiros.
São luxos de toucador para dias de festa, feiras, ou
romagens, quando calçam, com meias brancas, tamanquinhos de
pregaria doirada com sua meia palla de marroquim vermelho, vestem
roupinhas de pano burel fino, ou chita, põem gorjetes de
filó, ou
lenços de cassa bem pregados, e capoteiras de pontas
compridas debruadas de fitas. Para a egreja, as mais ricas e senhoras
teem mantilhas e sapatos.
XII
A educação apenas desbasta. Parca e imperfeita
como a cultura do solo ingrato, só põe mira no
essencial: em desenvolver os sentimentos naturaes e religiosos, o
afferro
á
justiça e á verdade, os differentes
amores de que se tece a paz das familias e a harmonia dos visinhos, o
respeito á velhice e ao infortunio.
As polidezes requintadas do trato são lhes desconhecidas.
Esses discursos de
cortezãos, mosaicos de phrases brilhantes, que ora
deslumbram, ora entreteem, ainda quando nada representam,
inspirar-lhes-hiam compaixão. Pensam o que dizem, e
dizem-n-o como o pensam.
Das artes de seduzir, não cultivam nenhuma. Aprendem para
ser bons lavradores, boas pastoras e tecedeiras, e bons paes, e boas
mães, depois de terem sido bons filhos e boas filhas; e
n'isso limitam a sua ambição.
Se ha festas, cantam e dansam como sabem; e sabem quanto basta para
folgarem, mais de veras que damas e cavalheiros ao som de orchestras,
em saraus esplendidos.
Não falam extranhas Linguas, como nós, mas falam
a nossa, que é melhor.
Fora da casa de algum Ecclesiastico, não se desencantaria um
só livro em toda a freguezia; mas os louvores da sua
moralidade dariam com que encher mais de um livro para nos envergonhar.
A egualdade quasi fraternal por ali reina, por um modo, que a todo o
coração bem nascido dará gosto. A
mercê e o
vós de nossos maiores são
tratamentos para os raros casos em que não cabe o
tu.
Os logarejos são todos amigos, e em grande parte parentes um
dos outros. O mais pobre vai sentar-se festejado ao serão ou
á meza do mais rico; isto é, do que na sua tulha
tem centeio ou milho para
todo o anno; e o abastado interrompe a sua lavoira, para ir fazer com
os seus bois a geirasinha do indigente que a não pode pagar;
e lhe leva pendurado na canga do arado o sacco da semente, para que
elle tenha tambem, lá para o verão, que ceifar
para seus filhos; porque toda esta boa gente sabe, por instinto, que as
lagrimas, no meio da alegria geral, são mais amargosas para
quem as verte, e auspiciam mal o contentamento a quem as presenceia.
É um povo agricola, que ainda não aprendeu a
envergonhar-se do seu parentesco chegado com a terra. Entre elles se
diz «lavrador», e
«trabalhador», como em Londres
«fabricante», ou «lord», em
Roma
«cardeal», ou «monsenhor», em
Paris
«sabio», ou «homem de Letras»,
e em Lisboa «deputado», ou
«millionario».
As Armas da sua nobreza poderiam ser a charrua e o podão,
com o seu paquife de pâmpanos e espigas, e a letra
Ut
operaretur terram, de qua sumptus.
*
¡Que impressão, a principio de espanto, logo de
respeito, e a final de amor, me não fez o presenciar, como,
ao revéz da pragmatica das cidades, o trabalho das
mãos era ali ennobrecimento, e a ociosidade a maior
vergonha!!
Conheci, entre estes montanhezes, quem, havendo em outro tempo vertido
o sangue pela Patria, e cingido uma banda, madrugava
(como as andorinhas do seu beirado para
o trabalho do ninho), para se ir, em pernas e mal roupido, carrear o
adubío para a sua fazenda, ou levar do enxadão na
roça dos mattos entre os seus operarios. A estes,
¿que os poderia admirar na vida dos Cincinatos, dos Curios,
e dos Camillos, se alguem lh'a lesse, a não ser a
admiração dos
historiadores?
*
As irmans, as esposas, e as filhas de taes homens não
poderiam deixar de ser mais varonís do que os homens de
muitas outras terras, e de todas as deliciosas.
Para a maioria d'ellas, o fuzo, a lançadeira, e a agulha,
com o seu costumado cortejo de cantigas, rezas, e contos tradicionaes,
que vão formando semelhante á precedente a
geração seguinte, só são
passatempos do serão, á luz da candeia, das
pinhas bravas, ou da fogueira, que allumia e alegra os penates
afumados. Madrugam como a aurora para os trabalhos fortes. Os bois
conhecem a sua voz, e se deixam pacificamente jungir e guiar pelas suas
mãos. Na vindima, carregam á cabeça
cestos, que seriam inamoviveis (como as pyramides do Egypto) para as
mãos alvas e beijadas de uma duzia de senhoritas. Nas
ceifas, transportam á cabeça montanhas de
espigas, tão leves e ufanas sob o pezo como uma cortesan sob
o seu chapeo de flores de seda chegado de Paris, ou sob a sua grinalda
de brilhantes, cada polegada da qual se poderia resolver em
bemaventurança para dez familias. Nas renques
dos saxadores e dos
roçadores, vel-as-heis brandindo um alvião
não mais leve, deixal-os muitas vezes para traz, e
envergonhal-os com seu riso de triumpho.
Não ha fadiga, nem sol, nem vento, que as quebrante. O
exercicio, Anjo custodio da innocencia e virtude feminil, lhes infiltra
ao mesmo tempo no sangue a saude, que do sangue se côa ao
leite, e do leite aos filhos. Seriam as amasonas da paz, se
não tivessem ambos os peitos muito bem inteiros, e se os
homens seus eguaes as não acompanhassem em todas as lidas.
*
Uma usança patriarchal, ou homérica, d'este paiz,
que moralmente parece distar do nosso duas mil léguas,
é a
sujeição da mulher; facto que eu não
moraliso, mas só historio.
As mais graves, tanto como as mais somenos, não
só á laia das Penélopes
e Nausicaas, intendem no tear e na lavagem das roupas, mettidas no rio
até meia-perna; não só no
tráfego de porta a dentro, na cosinha para a familia e para
os animaes domesticos; mas não se correm nem desdenham de
ministrar de pé, como servas, á meza de seus
maridos e filhos, nem em dias de festa ou bodo, quando a assistencia de
hospedes mais poderia assoprar-lhes o recacho, e empavezal-as.
São sempre aquillo: sempre passivas, boas, e contentes.
XIII
Bem estou eu pressentindo, que a muitos parecerão
já minuciosas e pueris estas noticias; mas hei-de
já agora continual-as, e seja com vénia sua. A
outros, sei que prazem; a mim, regalam-me; e para d'aqui a alguns
annos, quando o nivel da civilisação tiver tambem
renteado as asperezas das serras, alguem festejará encontrar
estas antigualhas, nas folhas já por ventura rôtas
e descosidas d'este livro.
Por antigualhas vivas poderiam ellas agradar já hoje ao
commum da nossa gente; mas então hão-de ser
antigualhas fosseis, e portanto com veneração
duplicada venerandas.
*
A indole da gente é de si commedida e pacifica.
De todo o genero de vicios e desconcertos se poderão entre
ella achar amostras, que emfim, terra é, e não
paraiso; mas nem tantas proporcionalmente, nem tão feias e
monstruosas em geral, como em outras partes, e em quasi todas.
Para isso conspiram diversas causas: todos conhecem a todos; todos com
todos se encontram cada dia. Cada um vive, por assim dizer em publico;
ninguem é tão abastado, que possa eximir-se de
trabalhar contínuo, para se despender em vida de enredos,
corrupção e maleficios; nem tão
extremadamente destituido da fortuna, que a miseria, a inveja, o
despeito, o despenhem de salto em
salto até ao fundo da
depravação.
É o
inter utrumque, a
aurea
mediocritas.
Conservam inteira a Fé religiosa.
Não lêem, nem conhecem, nem levariam á
paciencia, jornaes que desorientam, desencantam, e põem o
genero humano em guerra viva comsigo mesmo.
E muito menos lêem, conhecem, ou soffreriam, esta Literatura
toda novella, toda sophismadora de tudo, toda florída e
venenosa, que por cá nos trabalha, e de cujos herpes adoecem
até as familias, que a maldizem, e a repulsam da sua porta.
Por lá, não; o mal que se fizer, ha-de
só provir da fragilidade, ou dos impulsos subitos da
natureza; e, depois de consumado, ha-de deixar na consciencia
remordimentos.
Uma apologia, uma deificacão para cada crime, nem possivel a
julgam; quanto mais, feita, impressa, corrente, elogiada, e seguida
como aphorismo, onde e quando com algum nosso pressuposto interesse se
conchava.
D'estas varias causas, negativas e positivas, e talvez de outras mais,
resulta que tanta vantagem nos levam elles em bondade pratica e
innocencia, quanta a que lhes nós levamos em polidez, em
graças exteriores, em tactica, em egoismo infernal e
assolador. Nos amores ponhâmos o exemplo:
*
Os seus amores se limitam no que a Natureza concita, requer, e
persuade: tendem á união, de que se originam as
familias, e por onde a especie se mantém.
Como lhes falta o ocio, pelo qual muito bem disse Ovidio ser a maior
arte do amor, e o culpado nos seus peores desatinos, e além
do ocio lhes fallecem tambem sobejidões de cabedaes, que
estimulam e irritam as phantasias, para o casamento se namoram, e
não por alardo; para goso do
coração, e não da vaidade.
Põem no merecer as diligencias que outros põem no
conseguir; no reter, a felicidade que outros imaginam encontrar no
repellir e despresar depois de saciados.
Não vivem os sexos n'uma guerra perpétua de
seducções, de emboscadas, enganando-se e
sacrificando-se um ao outro.
A mulher não lavra registo dos seus adoradores; nem o homem
se ufana em desenrolar diante dos seus conhecidos, nos corredores de um
theatro, ou no vão de uma janella de club, em noite de
baile, um copioso canhenho, meio historico meio fabuloso, dos seus
triumphos. Ali, ali é que as mulheres se podem gabar de ser
amadas, pois o são sem disfarces nem encarecimentos;
são-n-o pelas suas proprias graças, pois nem
modistas, nem cabelleireiros, nem cosmeticos, nem perfumadores, nem
mestres, nem lisonjeiros, nem romances, as transformaram.
São-n-o pelo que são, e não pelo que
possuem ou representam, pois nem representam nem possuem nada.
Palacios, creadagem, diamantes, não lhes vão
lá supprir lindezas do corpo,
graças do animo, ou preciosidades do
coração.
Não é entre prestigios deslumbradores, n'um
ambiente de calor artificial, estimuladas
ou vencidas do exemplo, da
occasião, do medo ao ridiculo, e da audacia emprehendedora,
não é ao abrigo do estrondo e confusão
de um baile, que ellas recebem e fazem as suas primeiras
declarações; é
ao serão, com a sua roca na cinta, na presença de
suas mães; ou, quando muito, na romaria, sentadas na relva
com as parentas e amigas, em derredor da merenda, á sombra
das carvalheiras.
São amores que se não escondem, porque
não teem de quê; amores que se exhalam debaixo do
ceo azul; que se juram pelo Santo da illuminada capella do festejo, ao
som folgasão da
Mirontella roncada
pela gaita de folle, rainha, alma, e feiticeira ambulante
do arraial.
No progresso de taes inclinações é
sabedora e consentidora toda a visinhanca; e esta mesma notoriedade
defende os nossos namorados, tanto de se deixarem arrastar de seus
mutuos desejos, como de se desvairarem e cahirem em infieis.
Ao consorcio da Egreja, antecede o dos corações,
não menos obrigado a
lealdade e observancia. Nenhum Lovelace de véstia
commetteria galantear a conhecida por
emprêgo de outrem, certo em que nenhuns
lucros lhe surtiria o empenho, senão só motejos e
descredito.
D'este modo se estende ás vezes por annos, com uma
constancia verdadeiramente biblica, até ao dia da posse, o
bem-querer d'estes Jacobs e d'estas Rachéis.
¡Quantas Lisboetas de saráus, se quizerem ser
sinceras, hão de confessar que a escolha
que n'um baile fizeram... só
durou até que veio o baile seguinte! ¡Quantas,
quantas, cujo numero de arrojados (concedendo que pelas duas orelhas
que Deus lhes déra não ouviam dois ao mesmo
tempo) se poderia contar, perguntando á sua modista franceza
quantos vestidos novos lhes havia feito!
Não assim lá. A que foi vista, na ceifa do anno
passado, demorar-se mais a encher a malga para certo segador que para
todos os outros, e pedir-lhe sempre a elle que lhe ajudasse a
pôr á cabeça a gavella das
espigas, essa continuará a fazer o mesmo na colheita d'este
anno; continual-o-ha na dos futuros, até que, tornada sua
mulher, os cuidados dos filhos e da casa a impidam de seguir, como
antes, por passos contados, o seu gosto.
Observação tão curiosa como
verdadeira:
Com toda esta liberdade, com os frequentes encontros a sós,
que a variedade dos serviços rusticos tão a miudo
lhes depara, rodeadas da Natureza por todas as partes, vendo livre o
amor nas aves e nos rebanhos, favorecidas pela solidão
selvática e pelo
silencio, e pelas moitas, e pelas quebradas do solo, e por dois
crepusculos em cada dia, e em cada semana de inverno por tantas
tempestades improvisas, como aquella que rendeu e debellou a vidual
constancia de Dido e a piedade de Enêas, quando o hymeneu deu
com o relampago o signal de suas bôdas, e as nymphas pelos
altos dos montes ulularam; com tudo isto, os exemplos de fragilidade
como a de Dido por phenómeno
se apontam; e annos e annos se devolvem, sem que
um só se realise.
Quando porém se dá, e vem a lume filho
não de benção, o peccado de amor
não se carrega de crueldade. O innocente não se
faz victima expiatoria dos culpados, perdendo a vida entre as
mãos de quem lh'a deu; horror nefandíssimo,
inteiramente desconhecido d'aquelle horizonte para dentro; nem
tão pouco é enviado, como um roubo, pelas trevas
da noite, á porta lá ao longe de um desconsolado
asylo, aberto pela misericordia em lagrimas ás lagrimas dos
filhinhos sem mãe, nascidos em signo de rigor para se
crearem sem beijos nem carinhos, viverem sem nome nem parentes, e se
finarem sem heranças, nem lamentos, nem memorias.
Não, não. Nem pelo infanticidio physico, nem pelo
infanticidio moral, mereceria qualquer das minhas serranas um falso
titulo, que ainda mais a faria corar, que a tácita
confissão da sua culpa. Sabe renunciar os louvores com que
d'antes a coroavam; ousa desherdar de antemão o seu cadaver
do palmito, symbolo pósthumo do feminil triumpho; tudo ousa;
tudo... como lhe fique para consolação da sua
queda o encanto ineffavel de apertar nos braços o seu filho.
Se o mundo todo, se o proprio amante, a desamparasse, tudo tudo
esquecêra vendo-o rir; sorrira, e sentira-se afortunada. De
não ser donzella, nem esposa, harto a compensa a consciencia
de preencher inteiro, a espinho e espinho, a flor e flor, o sublime
encargo, o natural sacerdocio da maternidade.
Estas resignadas victimas, immoladas por
um amor, por outro amor ressuscitadas mais
interessantes, estas victimas, em quem a virtude, produzida pelo
arrependimento, excede talvez em quilates, e eguala quasi em lustre a
virgindade, são poucas; são rarissimas;
custar-nos-hia a encontrar uma. Quando porém a
desencantasseis, lembrando vos do que sabeis d'estas nossas grandes
terras, fio-vos que bastante commiseração e
respeito vos infundira.
*
Casas de perdição para a mocidade, como nos
povoados grandes se alinham em ruas e ruas, e até
já por villas e aldeias
vão surdindo, não se conhecem lá, nem
se poderão tão cedo conhecer.
Como leprosa seria evitada, e pereceria á mingua, e de
vergonha, a que se proposesse esse culto venal de praseres falsos, em
que as sacerdotisas, coroadas de flores e mascaradas de sorriso,
são victimas das victimas que ellas sacrificam.
Por isso tambem, a saude, o vigor, e a energia, se manteem, e se
transmittem de paes a filhos, juntamente com a harmonia e serenidade
dos casaes.
XIV
Dos amores vinhamos falando; falemos do que em outros sitios lhes serve
de sepulcro, mas não lá; falemos do casamento.
*
Os casamentos não são nunca determinados por
considerações de haveres ou de jerarchia.
O cálculo rala pouco
os pensamentos d'estas gentes, acostumadas a viver com pouco, e a
confiar muito na Providencia. As palavras
dote e
escrituras apenas seriam entendidas.
Como um dos dois namorados chega, a poder de fortuna, ou de trabalho e
economia, a ajuntar para
uma cama de roupa,
uma teia de estôpa, outra de linho, uma peça de
burel, dois escabellos e uma banca de pinho, uma panella e dois pratos,
uma candeia de folha, um bácoro, seis alqueires de milho, e
outros tantos de centeio, tem agarrado as melenas da fortuna, e trata
logo de a jungir com o hymeneu ao carro do Amor.
O noivo dá á sua futura um presente, o qual, pelo
commum, consta de um anel, meias, e sapatos; e a noiva ao seu futuro
uma camisa para o dia grande.
Mal que este desponta, vê já de pé os
dois afortunados, garridos e bizarros com o seu
aceio
dos domingos: ella, sobretudo,
flammante como uma Imagem, com arrecadas, cordões, e
alfinetes sobre lenço de seda, mantilha lustrosa, ou chapeo
de feltro novo com enfeites.
As que para tanto não teem guarda-roupa, teem amigas e
visinhas, que de boa-mente
lhes
acodem, cada uma com o seu
melhorado, convencidas como estão
(especialmente as solteiras) de que alguma coisa da
benção matrimonial poderá vir apegada
aos diches e galas que figuraram no apertar das mãos.
Muitas noivas, crentes na sabedoria de suas avós, se
preparam de vespera para este acto, banhando-se em agua de alecrim, que
sendo florído tem
mais efficácia, e mettendo antes de adormecer debaixo do
travesseiro
(suppondo que em tal noite se possa adormecer) uma roca e um fuzo bem
liados entre si, e recobertos com alguns arméos de linho e
lan; no que, vai grande condão de conformidade de animos,
perfeição de ajuntamento, e dura do bem-querer;
com tanto que o mesmo fuzo e roca, assim maridados, não
faltem debaixo do mesmo travesseiro na primeira noite do consorcio.
O pretendente, com os seus apaniguados, espera já
á porta da noiva a sua sahida. Esta apparece emfim, como uma
aurora da serra, incendida de pejo, e orvalhada com as lagrimas da
mãe; e segue com o rancho, a pé, caminho da
egreja, levando ás costas as bençãos
do pae, em que ainda por lá se
crê, a turbação no seio, e nos ouvidos
os votos e resas de bom agoiro, recitadas com fé por alguma
velha mais sabida.