*
Mas o melhor (se queres um conselho)
é fazer-me um favor,
ao qual protesto
ser toda a vida grato: anda comnosco;
a
noite está bellissima; podemos
ir co'o nosso vagar
pataratando,
e conduzindo as mulas pela redea.
Mas tens medo ao Golgan;
pois boas noites;
fica-te em paz, regala te, que eu juro
que estando em
teu logar fazia o mesmo.
Se queres, faze ás paginas
seguintes
onde vai mais Golgan (porque já agora
hei-de
contar a historia por miudo)
faze, digo, a taes paginas o mesmo
que eu,
tu, e elle, e nós, e vós, e elles,
fazemos
ás dos Martyres
do Padre,
que são apezar d'isso uma obra prima.
Passa-as em
claro, e dize que já leste.
Quem fala assim não
quer suor alheio.
E adeus; até mais ver que vou com pressa.
............................................................
............................................................
III
—Olhe lá, Sôr
Doutor; diz um livrito,
que a
gente sem falar é como os burros;
e eu digo que diz bem.
Quero contar-lhe,
para ver se se encurta este caminho,
o mais que se
passou depois da historia.
Mas vá picando a
mula; ¡olhe a fogueira!
*
Com que, como eu já disse,
ao outro dia
vi as gallinhas
ao redor das bestas;
torno-as a pôr na carga, e digo logo:
A
Santa-Cruz não vão vocês de certo;
nem
vocês, nem a carga dos presuntos,
nem nada que aqui vai,
¡com trinta infernos!
Servos de Deus tão bons,
tão meus amigos,
¡haviam comer tal! ¡metter no corpo
talvez quanto
bruxedo ha neste mundo!
Deus me livre do mais, que de
encarrêgos
posso-me eu bem livrar. Corto co'as mulas
direito
á Hespanha, e vendo-as a uns ciganos,
com carga e tudo.
—¿As mulas!
—Pois as mulas
tinham tantos diabos na muchilla
como as gallinhas, os
boreis, e os ovos.
Mas eu era rapaz; se fosse agora,
não
digo que o fizesse. O divertido
foi andar eu trez annos para quatro
a
correr Portugal e Hespanha toda
a buscar confessor; ¡tudo
ignorante!
Padre douto, nem um que me absolvesse.
Por fim achei o filho
de um cigano,
dei-lhe trez duros, e botou-m'a logo.
Mas
então penitencia não falemos;
se a quizesse
rezar, ¡nem toda a vida!
Tudo se arranjou bem; dei-lhe outro
duro,
e elle por ter vagar, se incumbiu d'ella;
mas disse-me que havia
até ser velho
mortificar o corpo co'um vergalho,
e com
muitos jejuns. ¡Se eu fôra pato!
Sabe
então o que fiz inda algum tempo?
era correr de
chôto os meus pedaços,
e depois
descançar.
*
Deixemos isto,
que não lhe importa muito,
e a mim nem nada;
vim para a minha terra apenas pude,
muito pimpão, e cheio
como um ovo.
Namorei,
namoraram-me bastantes;
por encurtar rasões, casei com uma
que era filha do irmão de um primo ou tio
de um meu compadre
Abreu, que era cunhado
da sogra d'esta mesma rapariga,
e enteado do
irmão do Cura velho;
tudo gente limpinha, muito boa,
e
temente ao Senhor, que é todo o caso.
Gastei para
impôr Bulla os meus tanturrios,
¡e não
foi lá tão pouco!
¡Veja agora:
¡para a gente casar largar dinheiro!
É como ir para a India ou para a fôrca,
e pagar
inda em cima aos da sentença.
Perguntei ao Banqueiro a causa
d'isto,
disse me elle que a causa era nós termos
quatro
humores no corpo, e d'aqui vinha
haver os quatro grãos na
parentela;
que ella era minha prima, e que entre primos
havia os quatro
grãos todos inteiros.
Não se riu, nem me eu ri;
paguei-lhe em peças
não só os quatro
grãos que se
não viam,
mas ainda mais cá certa brincadeira.
*
Deixar; fosse o que fosse; emfim,
casei me.
Aquelle mez primeiro é uma delicia;
foi
todo elle um cantate; muito
amigos,
muito beijo, e comer; muita broega,
muita romage, e tudo muito
e muito.
Nunca houve um par assim tão contentinho;
nanja na
aldeia e na comarca em roda;
era até amizade escandalosa.
Tanto assim, que o Prior, mais era amigo
de fazer a vontade a toda a
gente,
n'um dia santo á pratica da Missa
deu-me um foguete ¡caspite!
Disse
elle
que marido e mulher com tal namoro
era coisa mais vil que mil
diabos.
Fizemos-lhe a vontade antes de muito;
ella entrou-me a azoar
com trinta coisas,
e eu a dar-lhe a matar. Por fim de contas,
o
asneirão do Juiz, que era vizinho,
tomou isto em trambolho,
e ameaçou-me
de me encaixar no fundo dos infernos.
*
¿E então que
lhe parece a entaladella?
Vivia
em paz, ralha o Prior; dezanco-a,
vem o Juiz, promette-me a enxovia.
É como o conto de um palerma velho
que ia a pé
co'um rapaz e mais um burro.
—Bem sei.
—Pois sim senhor. Com que, tivemos,
não digo bem; teve ella
oito ou dez filhos;
e sempre a dois e dois; forte coelha!
Entrei a dar
á bruta; acudiu povo,
ella fugiu, mas eu fugi sem ella.
E
d'então para cá desandou tudo.
E hoje ando aqui
por moço de arrieiro,
a perder noites, e a estrompar as
ventas.
Aqui está por que eu digo que este mundo
é coisa muito celebre! uns ovitos
e uma pinga de mel fizeram
tudo.
............................................................
*
¡Brava!
¿não ouve uns sinos que
repicam?
¡olhe um foguete! ¡truz! ¡Viva o
Vinagre!
¡e viva a ceia e a cama que estão perto!
IV
Com effeito, assim era; a poucos
passos
já se ouvia
tambor, gaita de folles,
risadas, bombas. Apressando as mulas
na
direcção dos sons e da fogueira,
descemos uma
encosta, a cujas abas,
entre uns poucos de antigos castanheiros,
uns
cinco ou seis pastores se occupavam
a abobadar de murta uma fontinha.
Interromperam logo o seu trabalho
para nos vir saudar; mostraram pena
de ouvir que nos perdêramos no monte,
off'recendo
á porfia os seus albergues.
Não findara a
benevola contenda,
se um d'elles agarrando o freio á mula
me
não posesse a andar; agradecendo
os desejos dos mais que
inda ficavam,
segui affoitamente o nosso guia.
*
Uma ponte de pau que
atravessámos
coberta de
chorões, nos poz á borda
de um trigo
já maduro e sussurrante,
contiguo ao seu casal.
¡Quanto eu folgara
de descrever tudo isto! Uma casinha
plantada ahi como risonha ilhota
n'um vasto mar de tremulas searas,
e
clara como a neve, ou como a lua
que a espreitava do ceo por entre as
folhas
de um esquivo parreiral. Junto ás paredes,
de rosas e
limeiras revestidas,
canapés de cortiça
apresentavam
a imagem do descanço e a do convite.
Não era necessario entrar a porta,
para já conhecer o
domicilio
da
hospedage e da paz; que as proprias auras,
como que em tão
poeticas folhagens
se ouviam sussurrar: ¡«Bemvindo
o
estranho!»
*
Não longe lhe ficava a sua
aldeia
na c'roa de
um oiteiro; pensarieis,
vendo-as tão perto, e um bosque a
separal-as,
a aldeia tão brilhante de fogueiras
e esta casa
tão só mas tão alegre,
pensarieis,
como eu, ver n'uma festa
moça ausente e feliz, amante e
amada,
que entre o prazer commum não quer nem deve
ir
desfazer seus pensamentos doces.
*
Visinho seu mui proximo era o templo,
aos valles do arredor
alardeando
na sua torre branca um Anjo de oiro,
e a um lado a
Residencia, occulta em parte
n'um ramilhete de altas cerejeiras.
*
Nunca mão de pintor juntou
n'um quadro
objectos mais simpathicos. Tal como
trépido arroio em tacita
espessura
das copas bebe a sombra, e envia ás copas,
do sol
reflexo voadores raios,
do casal a presença alegra o templo;
a presença do templo está lançando
sobre o casal o sério da virtude.
Tudo isto sob um ceo de
fertil benção,
sobre um chão de
abundancia, e no
ar mais puro!
—¡Meu Pae,!—grita o pastor entrando
á pressa—
minhas irmans! ¡um hospede!—
*
A tal nome,
como se fosse
á voz de alguma fada,
com repentina luz nos apparecem
creanças folgasans, esbeltas moças,
um
ancião, e uma velha. Imagináreis
ver
Graças, ver Amores, ver Napêas,
trajados de
aldeãos, e honrando os lares
de Baucis e
Philémon, que o parecem
na edade e na virtude os meus dois
velhos.
*
Não mora entre seáras a etiqueta;
mas sobre
herdada meza de pinheiro
em troco adeja a cordeal franqueza,
o bom
desejo adubo da abundancia,
e a amisade dos bons, filha do instincto,
que nasce qual relampago, mas dura.
Deu-se o primeiro instante ao
comprimento,
logo o segundo aos commodos;
o resto á
conversa, e ao bulicio de tal noite.
*
Vem-nos do forno, envolto co'as risadas,
vital perfume de mellifluos
bolos,
que em molles virações traz a alegria.
Aquella vai e vem compondo a meza;
esta afervora a ceia, e a cada
instante
corre á janella que descobre a aldeia.
Juntam-se
á bulha os sinos da parochia,
que o
sacristão na vespera do Orago
jurou provar seu zelo aos Ceos e á terra.
O festivo repique
exalta as mentes,
os meninos não param, correm, gritam,
repartem bombas, furtam-se valverdes,
e rindo ameaçam fogo
á pipa velha.
A boa annosa mãe ralha do estrondo,
e o faz inda maior; o esposo enfia
uma sobre outra historias do seu
tempo.
O avito candieiro de tres lumes
cobre da meza o centro, e chama
á ceia;
a sôlta sociedade eis se lhe aggrega.
Não foi longo o festim, mas cada copo
lhe augmentava o
praser. ¡Salve tres vezes,
ó dos tres lumes
candieiro avito!
¡quanto amor, quanta paz, que bens, que
festas
não tens visto florir em tua casa!
¡quantas
mãos tão felizes como puras
te hão
accendido em noite igual! ¡quem sabe
que de memorias para ti
conservas!
¡Em premio da hospedage aqui te accendam
longas
eras em noites semelhantes
dignos de seus avós contentes
netos!
*
Iria a muda apostrophe adiante,
mas ouviu-se o
zabumba.—¡Ahi veem! ¡são
elles!—
dizem todos, e todos saem pulando.
—Olhae; olhae;
¡nem uma luz na aldeia!
este anno veio tudo. ¡Que
alegria
terá o nosso Parocho!
—Maria,
dá cá o meu
chapéo.
—¡Corre, Pedrinho!
—¿Onde está
meu
irmão?
—¡Não se
demorem!
—Vamos dançar.
—Perdi as alcaxofras.
—Vinde por cá;
passemos-lhes
adiante;
que rancho que lá vem!.....................
..........................................................
........................... Golgan, que eu fosse,
não pintara a
estrondosa miscellanea
que vôa do cazal ao Presbyterio.
Lavra
nos proprios velhos o alvoroço;
vão co'os mais
quasi a par; lavra em mim mesmo,
estranho á festa. O pateo
illuminado
nos recebe, e comnosco a aldeia em pezo.
—Viva o nosso
Prior!...
—¡Viva!!!...
Mil vozes
restrugem o ecco apenas avistaram
rindo á janella
o velho gordo e alegre.
—¡Viva o Senhor San João!
¡viva a
alegria!
V
Bate o zabumba; a muzica rebenta;
fogem foguetes pelos ares livres
estrepitando; o campanario ovante
de jubilo endoidece; repentina
por
dez partes acceza alta fogueira
dentro de um vasto circulo purpureo
mostra o prazer brincando em cada rosto.
Bello é ver n'este
lance as raparigas
compondo mais o lenço, alevantando
o
chapeo, que o semblante lhes encobre,
dando, como a descuido, um toque
leve,
mas gracioso, ás flores que lh'o adornam,
e
á flor do seio, e ao laço do collete.
¡Quantos nós ata amor n'esses instantes!
¡quantos outros aperta!
¡em quantos outros
embebe o espinho de um sutil ciume!
¡Chiton! temos o Parocho na frente;
e as cangalhas
vêem mais do que parece.
A alegria decente, eis o estribilho
com que
recheia as praticas. Se cantam,
co'a cabeça e co'o
pé bate o compasso;
se pulam boa dança em honra
ao Santo,
bota fora uma can. Por isso o baile
circula agora a estridula
fogueira;
por isso o San João vai toda a noite
injuriado em
canticos devotos.
VI
Meia noite. Que som mysterioso!
interrupção no
baile e nos descantes.
*
Fada das amorosas prophecias,
tu, tu passaste agora em concha aerea
tirada pelo zephyro; sentimos
todos nós tua magica
presença.
¡Boa viagem, Fada, e boa noite!
¡Salve, hora duodecima; bateste,
e descerrou-se a porta do
futuro.
Sua nevoa desfeita em orvalhadas
vai nas plantas eleitas, vai
nas flores
mal chamuscadas, vai filtrar nas sortes
benção, certeza, amor, felicidade.
Já
se interrompem bailes e descantes.
Embebida em potentes nigromancias
toda esta multidão por
modos
varios
exerce escrupulosa altos mysterios.
Mas renasce o
alvoroço; é porque os copos
dos bilhetes
fatidicos chegaram
da ama nas mãos com riso de importancia.
—Não falta aqui rapaz nem rapariga—
diz ella;—o senhor
Padre escreveu todos,
mesmo á vista do rol dos confessados.
Meia noite já deu; quem quer casar-se,
pode vir vindo.
Ao grande reboliço
succedeu a
attenção, que a cada sorte
outra vez se converte
em gargalhadas.
Por cada par que amor approvaria,
veem disparates
comicos ás duzias,
e dão rebate ás
palmas e epigrammas.
O proprio bom do velho applaude a tudo,
e por
primeira vez da sua vida
encontra em si chorrilhos de finuras.
Já pede a uma o bolo do noivado;
quer ser padrinho de outra;
e ás mais bonitas
quer baptisar de graça os
pequerruchos.
Muito custa no mundo o ser discreto
sem descambar o pé!
coisas escapam...
que é por Deus não haver o
Santo Officio,
como esta ao nosso padre:
—Olhae, rapazes,
vai n'estas sortes o que vai no mundo:
o acaso e a
Providencia, ao que parece,
ambos lêem pelo mesmo Breviario.
Não foi dos mais christãos o epiphonema,
mas fez
rir. O Golgan neste comenos
chega,
furta uma sorte, e diz abrindo-a:
—Esta, seja quem fôr,
é cá p'ra
nostri.
Pede que a leiam; lê-se-lhe:—O
coveiro.—
Mudo o povo se entre-olha; e de repente
co'as
pragas do Golgan destampam risos,
como os que o padre Homero encaixa
aos deuses;
¡inextinguiveis risos! Mas não cede
a
chufas nem a agoiro o varão forte;
e com mão bem
segura extrae sublime
do outro copo outra sorte:—Ambrosia
Trécula.
Então do pateo o riso clamoroso
deveu-se ouvir no Artabro e
Guadiana
retumbou nos ceos: Trécula...
Trécula.
—¿Quem diabo é esta Ambrosia?—o heroe pergunta.
—Sou eu—responde a ama.
—¡Está brincando!
é talvez sua neta ou
titrineta. —Vá-se, tolo.
—Olhe cá, senhora tia,
não vai a arrenegar;
não lhe pergunto
por cara, corpo e modos, que são
lindos;
¿mas tem fazenda ou bois, ou oiro, ou chelpa?
Com o desdem mais dramatico, a matrona
voltou costas; e o
bêbado prosegue:
—Sô Reverendo, não lhe
aceite os banhos,
que eu sou casado, e ponho impedimentos.
Obriguei-o a calar-se. Eis que me off'recem
tirar tambem; tirei;
¿quem tiraria?
uma das filhas do meu bom
Philémon.
Recebi parabens de todo o povo;
deixei-o bem
disposto a divertir-se,
e tornei co'o o meu sogro
ao
nosso
albergue.
Instou que me deitasse; respondi-lhe
que em noite de
San-João ninguem se deita;
que alem d'isso a jornada
fôra curta,
e sem nimia fadiga; ultimamente
que, pois que
elle esperava a mais familia,
esperava eu tambem; não sendo
airoso
faltar á noiva no primeiro dia.
—Cedo, mas só co'a clausula—disse elle—
que
inda amanhan sois nosso.
—Assigno.
—¡Bello!
*
Então toca a palrar até que venham.
Saiâmos, que faz calma; alem, na eira,
sobre a alta palha do
centeio novo
tomaremos a fresca e as orvalhadas.
*
Disse, e fez se. ¡Que ceo!
¡que paz!
¡que
noite!
na molle aragem das fagueiras horas
meu
coração feliz desabroxado
me enchia de um perfume
egual ao vosso,
nocturnas flores, que o gosais sosinhas.
¡Quem podesse apanhar, prender na vida
estes momentos
lubricos, momentos
que só caem do ceo durante a noite,
e
só na solidão! Temi perdel-os
co'a triste
distracção de mutuas falas.
Lembrou-me haver
notado no meu velho
um genio amigo de contar historias;
pedi-lhe uma
qualquer, bem decidido
a deixal-o á vontade espanejar-se
sem
lhe dar attenção; mas enganei-me,
Pondo o rosto
na mão, nos céos os olhos,
entra a buscar pela memoria antiga
algum caso mais raro; e como desse
casualmente co'a vista em certo lume
n'um cabeço remoto,
*
—Ouvi—me disse;—
por aquella luzinha lá ao
longe
lembra-me um caso, e um caso que foi certo,
passado ali no Minho ha
largos annos.
Inda eu conservo em casa uns Breviarios
de um Padre
irmão da minha avó materna,
que
poderão servir de documento.
Elle mesmo o escreveu nas
folhas brancas
do principio e do fim dos quatro tomos.
E era um clerigo
honrado, o que escrevia;
merece tanta fé como a Escritura.
Diz elle então ali (nem é só elle;
minha Avó sua irman dizia o mesmo):
que esta nossa familia
inda descende
da Rosa de quem fala a dita historia.
A minha
avó foi Rosa, e tinha o nome
de sua mãe; a minha
mãe foi Rosa;
a vossa noiva
é Rosa; e
n'esta casa,
querendo Deus, sempre ha-de haver o nome.
*
Depois d'este preambulo de Rosas,
veio a historia, e encantou-me; ou
fossem causa
hora e sitio, ou a amavel singeleza
com que narrava o
historiador das medas,
ou já
disposição com que eu me
achasse.
Creio que sim: do espirito do ouvinte
vem mais de meio o
merito das obras.
Por exemplo: da Eneida o livro quarto
dias ha que me enfada; ha
tambem dias
em que se atura o
Italico do
Padre;
[4]
e
em que se entende um pouco a pálrea bruta
que
aos brutos deu do amavel Lafontaine.
[5]
Nada parece mal, trazido a
tempo;
fora de tempo, tudo. A mesma coisa
entre obras e leitores
acontece,
que entre os garfos e as arvores: se enxertam
quando o
não pede o tronco e o veda a lua,
¡adeus ramo
bastardo! e se ao contrario,
penetra a seiva toda, e pula o ramo.
Fosse o que fosse, ouvi com tanto gosto,
que protestei contar-vol-o a
meu modo;
e o poema seguinte é o desempenho.
Tivesse elle, o
que em vão lhe hei procurado,
da prosa do meu sogro o tom
singelo,
talvez, leitores meus, o relerieis.
Inventar, descrever, compor os versos,
são os tres
pés, da trípode de Apollo.
Já sabereis do Reverendo Kinsey
que eu não tenho
invenção; que nada
pinto
co'a verdadeira côr da Natureza;
que os versos meus
são bons, mas que aborrecem;
o que não tira que
um poéta eu seja
digno de ser notado entre os que vivem.
Ora, quanto á
invenção d'este poema,
bem vedes que a
não ha, ou se a ha que é
d'outrem.
E quanto ás descripcões, fiz o possivel
para não metter mais que as do meu
sogro.
Mas faltava o melhor, e o mais difficil:
versificar á moda. Atirei fora
o Virgilio, o Racine, e o
Metastasio,
gebos todos monótonos, que enfiam
os versos bons
e os optimos aos centos;
atirei-me ao Filinto e aos Filintistas;
estudei, fiz ensaios, compuz paginas
de embréxados
velhissimos e esdruxulos,
e não foi sem proveito o estudo
acerrimo.
*
Perdoae se este livro inda vai falho
d'esses donaires que
travêssos fogem
de mal expertas mãos; soffrei-o em
quanto
vou destilar sobre outro o
Elucidario,
qual se espreme um limão
sobre um guizote.
Abril de 1831.
III
EPISTOLA
A JOÃO EVANGELISTA PEREIRA DA COSTA
(Fragmento encontrado entre os manuscritos de Castilho)
Da paz de um ermo ao
turbilhão da côrte
a Musa
de Castilho á do seu Costa
saude e amor. Já outra
primavera
se enflora, a seu pesar, desde que ausente
pede aos montes a
irman, que a não suspira,
e dorme ao lado de um feliz
ingrato.
Em quanto a minha, ignota, emprega os ocios
em cantos cujo ecco
além não passa
..........................................................
1831—Abril, 21.
IV
O PRESBYTÉRIO
¡Salvè, principio e fim dos meus passeios!
¡Salvè, ó tu, cujo tecto, alva casinha,
cobre ha perto de um lustro os meus autores,
meus castellos no ar, meus
faceis versos!
¡Salvè, co'o teu rosal; co'as tuas
limas,
festivo ornato das paredes brancas;
co'o teu portão
patente oppresso de heras;
e co'a tua nogueira; e co'o teu cedro,
brasão futuro do obumbrado pateo!
¡Salvè outra vez, meu presbytério!
¡Salvè!
*
Hoje, que o caprichoso do meu estro
(bem sabes se elle o é)
deixa inconstante
versos índa no chôco, outros que
apenas
vão da casca a sahir, outros que breve
teem de fugir
do ninho em vôos livres,
entrou, mal veio a aurora
esclarecer-te,
a doidejar-te em roda, a namorar-te,
qual borboleta
ociosa ou leve abelha.
Pois que elle o quer.... cantemos-te; e
perdôa
se o canto falador, transpondo os cumes
das tuas
cerejeiras, fôr mais longe
revelar tua humilde obscuridade.
*
A antiga mediania, a
segurança,
a paz, o amor dos Ceos, o
amor dos homens,
genios foram, que em bençãos
presidiram
aos alicerces teus. De Pário monte
não
foi mistér que entranhas te enviassem
chão,
columnas, e abóbadas, e estatuas;
tuas portas sem chave
não cresceram
lá nas florestas do
hemisphério opposto.
Foi visinho pinhal teu sôlho
e tecto;
deu-te paredes mais visinho oiteiro;
portões e meza
um cedro bom da extrema.
Não custaste nem lagrimas a pobre,
que á força te cedesse a choça avita,
nem odioso suor; e não se dormem
somnos melhores em Belem
nem Mafra.
*
¿Que importa que no centro d'estes ermos
vivas
tão só, que apenas descortines
n'um dos altos
d'em torno esquiva aldeia?
Tu e o templo co'as messes que vos cingem
bastais no quadro agreste; em vós affluem
(como em sua
Queluz) nos festos dias
ondas e ondas de amaveis saudadores.
Os
rebanhos ociosos não desdenham
tôjo em flor, que
te doira o chão das mattas,
d'onde envôltos co' os
trémulos balidos,
veem cantos de amorosas guardadoras
endoidecer teu ecco.
Os caminheiros
abençôam-te a
sombra; aqui teem
fonte,
que em tua relva, ao fresco das parreiras,
detém,
dessedentando-as, caravanas
que vão ou veem no alpestre
Caramulo.
*
O anjo das flores liberal te arqueia
de bordada verdura as rescendentes
claras janellas.
Um bulicio manso
de amigas vozes teu recinto alegra.
Na sua
tépida choça os bois ruminam
ante o feno em
montões; dorme no páteo
farto
esquadrão lanigero; ao sol pôsto,
cão,
dos lobos terror, te vela as noites;
teus gallos as demarcam
vigilantes.
Co'a luz primeira arrulha-te alvejando
cypria nuvem
plumosa; e apenas saltam
da
dextra mão
mesquinha os grãos doirados,
em torno da gentil madrugadeira
de toda a parte os hospedes revôam.
Bicam por entre as pombas
á porfia
a gallinha de filhos rodeada,
o manso grasnador do
aquoso tanque,
o vaidoso perú, que ri cantando,
e
vós, e vós, mais vivos do que todos,
não chamados, mas sempre a nós bemvindos,
passarinhos do ceo, turba sem dono.
*
Singelo presbyterio, ¡oh!
¡como te amo,
co'o teu ar
casaleiro! Amo o teu forno,
tão social á noite; a
simples sala,
quasi sempre deserta; a livraria,
deserta rara vez; estas
alcôvas,
que enche um só leito; e a adega,
assoviada
do alvo sôpro do Norte; e o fuso, e a pia
da
cheirosa vendima; e o teu celleiro,
alto, arejado, e tão
patente aos pobres,
como as portas do templo convisinho.
*
¡Floresças para
o Ceo e para a terra
nos
inconstantes seculos! ¡floresças,
feliz, co'o
feliz dono, edade longa!
E se, lá no futuro, algum amigo,
sócio dos dias bons, saudoso e triste,
torcendo a estrada, a
te pedir viesse
novas do teu cantor,—«Amou me, e amei-o—
lhe dirias mostrando-te; e—«Seus ossos—
juntaria o teu
velho—aqui descançam.»
*
Sim; apraz-me cuidar que inda os meus
restos,
gratos aos bons d'este
recanto obscuro,
onde escapei no seculo de sangue,
cá
ficarão n'este ocio, inda alguns dias
do simples montanhez
talvez chorados.
*
Oh santa perseguida Liberdade,
¡onde te achei!.... Onde
não vivem homens;
n'um torrão bravo que
não chama invejas.
*
Em quanto, ora que a noite o ceo regela
humida e turva, tantos ricos
enchem
de bocejante enôjo as assemblêas,
e tantos,
tantos miseros, sem lares,
sem consôlo, sem pão,
sem voz de amigo,
só reos de patrio amor, dormem nas furnas,
pelas praias do Oceano, e pelas rochas
(sublimes troncos pelo
pé cortados)...
tua clara fogueira nos aquece;
¡graças,
graças a um Deus!
Assim
vagava
sobre o universo undoso a arca do
justo.
*
Nós, depois de annos tres,
inda esperâmos.
Ainda
do trovão eccos retumbam.
Ainda os escarceos assoladores
remugem lá por fóra. Ainda a pomba
co'o ramo de
oliveira inda não volve.
*
¡Oh santa perseguida
Liberdade!
¡Oh! ¡Se
eu podesse, a trôco dos meus
dias,
restituir-te á minha Patria!....
*
Basta.
Esperemos ainda. Oremos sempre;
e
talvez que não tarde a grata aurora,
em que, a adejar da
serra pelos pincaros,
venha de longe a nuncia das venturas,
a pomba com
o seu ramo de oliveira!...
Castanheira de Vouga
Maio de 1831.
V
A LYRA DO DESTERRADO
(Fragmento encontrado entre os manuscritos de Castilho)
Era a noite dos finados;
sombria noite de outono.
Entre sinos
acordados
lá jaz Roma entregue ao sono;
seus luzeiros
apagados.
Do ceo pelo rôto manto
só brilham frouxas
estrellas;
sai a custo o clarão santo
dos templos pelas
janellas;
e Petrarcha vela emtanto.
Véla Petrarcha, e suspira
no leito amoroso e ermo;
olhos na
véla que expira;
saudades no peito enfermo;
nem gloria
sonha, nem lyra.
Qual raio sôlto de lua
por móveis aguas vibrada
n'um bosque inteiro flutúa,
tal adeja no passado
a saudosa
mente sua.
¿Quem dirá seus pensamentos?
a douta lingua
está muda.
¡Que paixões, que
sentimentos,
no rosto, que aspeitos muda,
veem transluzir por momentos!
Ora é dor, ora é sorriso,
esperança,
amor, transporte;
queixas, ternuras diviso;
desce aos abysmos da morte,
vôa aéreo ao Paraizo.
¡Não falar o Vate agora
co'os labios que move
apenas!
¡Que torrente abrazadora!
¡que amor!
¡que incendidas penas!
¡quão nova a
paixão não
fôra!
Vai a noite adiantada;
humido vento assovia;
treme a luz quasi apagada.
Do grão Cantor que vigia
ferve a mente a sonhos dada.
—«Eís o templo conhecido
que os meus destinos
encerra.
A mãe terna, o pae querido,
cá m'os tem
no seio a terra.
Cá vi Laura, e fui perdido...
........................................
Castanheira do Vouga
1830...(?)
VI
EPISTOLA
(Fragmento achado entre os manuscritos de Castilho)
A minha primavera emfim renasce.
Té n'este horror
selvatico dos montes
roupas traja nupciaes a Natureza.
O ceo azul, o ar
morno, as aguas puras,
tudo nos diz «amor»;
dizem-n-o as aves
chalreando ao florir das alvoradas;
bala o rebanho
alegre; armento o muge;
na folha nova zéphiro o cicia;
a
camponeza em meio de mil flores,
que lh'o exhalam balsamico, o suspira,
e ao viçoso tapiz, á sombra vasta
macia e
tentadora lança os olhos.
Em quanto o rouxinol, Orpheu plumoso,
enleva a fonte e as arvores
nocturnas,
cantando amor, da lua ao raio incerto,
lições que mais de um ente ao longe estuda
(e
pratica talvez); em sons de lyra,
solitario eu tambem,
lições de affectos
de cá te envio ao
centro da cidade.
N'esse ruidoso vórtice de
povo,
de vãos praseres,
de negocios futeis,
a geral rotação te arrasta
ás cegas;
é dever da amisade erguer-te aos olhos
luz, salvadora luz. Náufrago entre ondas
pode não
ver a táboa ás vezes perto;
pode a praia ignorar,
e tel a em face.
Táboa amor te lançou da praia
firme;
ledo e fausto Hymeneu te está chamando.
..........................................................
VII
A ROMARIA
Lá vem Maio rosado.
Já floreja
nas planicies,
verdeja pelos montes;
é o mez de Amor, é o mez de
Philoméla.
Aureo amanhece o dia suspirado
da romaria annual; léguas em
roda
já tudo é festa, esp'rança, e
regosijo.
As povoações, desertas. Por estradas,
por torcidos atalhos, por oiteiros,
correm de toda a parte ornados
bandos.
Lá retrôa nos eccos aturdidos
a matinal
girandola ruidosa;
acorda ao longe a torre com repiques;
um povo de cem
povos misturado
enche a vozeada selva, a acceza ermida,
e de ondeado
matiz cobre o terreno.
Arfa ao sol, no alto mastro volteando,
triumphante bandeira alvi-cerúlea.
Vai e vem, ora chega, ora
se allonga,
não está em nenhum sitio, e assoma em
todos,
a alma da festa, a gloria do Gallego,
a aguda gaita
túmida e franjada,
que ao rufado tambor sócia,
repete
a moda velha e alegre, amor dos campos.