[10] Assim subscreve a approvação do testamento de D. Antonio, e assigna uma carta a Philippe II que ao diante se lerá.

[11] Historia de Portugal... t. II, pag. 602. D. Antonio nomeou Scipião de Figueiredo conde de S. Sebastião—accessorio que nenhum escriptor menciona, senão Caramuel (Philippus Prudens, pag. 302), que tratou com singular benevolencia os partidarios de D. Antonio, por entender que nenhum contrapeso faziam na balança em que Philippe III, em 1689, no ultimo anno do seu reinado, mandava pesar os seus direitos.

[12] A carta e resposta de Scipião de Figueiredo possuimol-as na collecção de Ineditos de D. Manoel Caetano de Sousa. Nos historiadores apenas encontramos noticia perfunctoria de haver sido tentado o suborno do governador pelo principe de Eboly.

Estas cartas foram impressas em uma apologia de D. Antonio, escripta por Scipião de Figueiredo contra D. João de Castro. Na duvida em que estão os bibliophilos sobre a authoridade d'essa apologia decide João Caramuel no seu Philippus Prudens, etc. pag. 171 e 172, na lista dos authores que escreveram a favor de D. Antonio: Cyprianus de Fuigueredo... sed Scipio... publicavit Epistolam, quã notas facit Philippo II, caussas quibus movebatur ut individuus comes non desereret ipsum Antonium, cui ab annis pluribus in honor e maximo servievat. Édidit etiam Apologiam pro Antonio contra D. Joannem de Castro, olim ex Antonianis, etc.

O titulo do livro que o cisterciense Caramuel denomina «apologia» é Reposta que os tres estados do reino de Portugal, a saber Nobreza, Clero e Povo, mandaram a D. João de Castro, sobre um discurso que lhes dirigiu sobre a vida e apparecimento d'el-rei D. Sebastião (s. l.), 1603, 8.º Diz o snr. Innocencio que entre pag. 75-80 está a carta que este dirigiu a Philippe II. Não sei se alli se encontra a carta que Philippe lhe enviou por Gaspar Homem. Este livro é um dos rarissimos da livraria portugueza.

[13] Historia de Portugal, l. c.

[14] Histoire secrete de Dom Antoine roy de Portugal, pag. 101.

[15] Veja tom. II das Provas da Historia genealogica da real casa portugueza, pag. 537 e seg.

[16] Veja a Lettre du roy Henry III au duc de Mercueur (sic) a pag. 120 da Histoire secrete de Dom Antoine, por mad. de Sainctonge.

[17] Diversifica da primeira importancia da pedra a outra menor que lhe dá a escriptora franceza. Mr. Edouard Fournier extrahiu a noticia das Memoires de l'Estoile por Lenglet Dufresnoy. Veja Un prétendant portugais au XVIme siecle, par Edouard Fournier. Paris, 1852.

[18] Parece que D. Antonio já em Londres, no anno de 1582, empenhára ou vendera um brilhante de mais quilates. No Museu Britannico, Bibliot. Cottoniana, fol. 295. Nero, B. I. ha um diamante que o S. F. F. de la Figanière descreve assim:

«Carta, em inglez, do proprio punho de lord Burghley, dirigida á rainha Isabel, na qual, em conformidade das ordens que lhe haviam sido transmittidas pelo conde de Leicester, dá a sua opinião sobre o destino que deveria ter o grande diamante de D. Antonio (prior do Crato), o qual estava em poder do mesmo conde, como penhor pelo dinheiro emprestado a D. Antonio por certos negociantes inglezes, que instavam muito pelos seus creditos, julgando lord Burghley, que, em attenção ao seu grande valor, seria conveniente que a rainha embolsasse os ditos negociantes, ficando com o diamante como penhor da quantia emprestada, etc. Esta carta tem apenas indicado o anno de 1582. Consta de uma pagina. Lord Burghley pede desculpa da carta que envia á rainha por soffrer muito da perna, e haver-se-lhe exigido resposta immediata. Com effeito parece antes um borrão do que uma carta que se dirigia a uma soberana.»

A venda do outro diamante em Paris é posterior alguns annos.

[19] Em um dos proximos numeros darei noticia laboriosamente averiguada dos descendentes de D. Antonio.

[20] Obra cit., pag. 234 e seg.

[21] A pag. 182 e seg. do romance intitulado Olho de vidro vem integralmente publicada a sentença da inquisição. Nos Manuscriptos addicionaes do Museu Britannico, n.º 15:170, fl. 243 v. ha um soneto de Manoel Fernandes Villa-Real escripto no carcere do santo officio. (Figanière, Catalogo, pag. 284).


O NARIZ

Na poesia moderna tem adquirido bastante importancia o nariz.

E, posto que a época vá muito de idealismo, repara-se mais nas ventas que nas faculdades moraes dos personagens epicos.

É certo que o nariz tem servido para formar maximas e aphorismos no regimen social, na sciencia chamada ethica—sciencia de que ninguem falla desde que a educação da mocidade passou a tisica com apparencias de hydropica.

Tudo esdruxulo.

Do nariz inferiram os observadores certos signaes de qualidades do espirito, e formaram anexins e regras que ainda vigoram, e já vem dos gregos, os quaes tambem tiveram nariz—(nira), por anagramma nari.

Em portuguez, ha muito proloquio sobre nariz e ventas.

Camões, querendo indicar a alegria na rubidez de um nariz a reçumar bom sangue agitado pelo jubilo, cantou em termos altos:

Tem vermelho o sangue do nariz.

«Ter cabellos na venta».

«Dar com as ventas n'um sedeiro».

«Não ver um palmo adiante do nariz».

Conhecem tudo isto.

«Nariz de cêra»—a musa dos tribunos, a inspiração dos prégadores, a rhetorica dos romancistas.

«Senhor do seu nariz». Nem sempre. Ás vezes os poetas fazem-nol-o propriedade sua.

«Nariz de palmo e meio»—imagem que exprime a embaçadella—ou, á franceza—o desapontamento. Exemplo: o leitor, no fim d'este bonito trabalho.

«Chegar-lhe a mostarda ao nariz», etc.

O cão tambem collabora nasalmente n'estas analogias: «É sebo em nariz de cão».

*
*     *

Em cima, disse eu que o nariz tem adquirido bastante importancia na poesia moderna.

Justifica-me um brilhante livro, que está no coronal das modernas publicações.

É A morte de D. João, do snr. Guerra Junqueiro, uma verdadeira flôr entre os espinheiros da nossa charneca litteraria.

D. João VIII, em sonho, os phantasmas das mulheres que desgraçára. Algumas

... que foram lirios juvenis,
Já carcomidas pelas larvas frias,
Caminhavam sem olhos, sem nariz.

Reduzido a miseravel histrião e cornaca de ursos e dromedarios, D. João

Possuia um nariz vermelho, incendiado.

Não era de certo o nariz vermelho, acceso pelo jubilo, de que falla o Camões.

Mais abaixo, o mesmo D. João, no deplorativo dizer do snr. Guerra Junqueiro,

          Cheirava muito a alho
E tinha no nariz verrugas biliosas.

Elle mesmo, o escalavrado amante de Imperia, exclama:

Tornou-se-me o nariz esqualido purpureo
Por causa das paixões e do ultra-romantismo.

Faz pena o diabo do homem!

E, para fecho de desgraça, quando está nas ultimas,

          O seu nariz purpureo
É uma esponja de carne a distillar mercurio.

Por onde se vê que a poesia moderna tira grande partido do nariz, já cortando-o, já alongando-o, umas vezes enverrugando-o, outras vezes esponjando mercurio d'elle, consoante lhe convém.

Não é completamente novo isto.

Em Portugal houve sempre esta mania de fazer litteratura nas ventas das pessoas dotadas d'esse orgão com saliencias extraordinarias.

No fim do seculo XVII, galhardeavam grandemente os poetas n'esse genero. Eu, entre os meus papeis, tenho um poema consagrado a um nariz, em que não havia verrugas nem azougue; mas sim uma grandeza magestosa e limpa. Veja o leitor se acha graça a isto:

A UM NARIZ GRANDE

Tratava de encarecer-vos;
porém logo (ó caso estranho!)
vos achei, nariz, tamanho,
que não pude comprehender-vos.

Que sois nariz tão fatal,
em ser comprido, e ser grosso,
que n'um reconcavo vosso
se escondeu um arraial.

Alguem vos chama infinito;
mas eu, que em razão me fundo,
as quatro partes do mundo
sei que são vosso districto.

Pareceis cá baluarte
dos chinas, bem que o venceis,
e com Deus vos pareceis,
porque estaes em toda a parte.

E um velho da Saxonia
diz vos viu mui grande espaço
servir, nariz, de compasso
da torre de Babylonia.

Mas affirma quem se humana
mais nas vossas maravilhas,
que tendes as trinta milhas
da ponte do Guadiana.

Que sejaes, senhor nariz
tão comprido e tão fatal,
que já cá de Portugal
cheiraes na Arabia Feliz.

Que sois o farol do Egypto
que toma de mar a mar,
se se póde comparar
finito com infinito.

E jurou certo moderno
(não diga elle algum desmancho)
que podeis servir de gancho
que tire as almas do inferno.

E que, se nos horisontes,
nariz, vós nascereis d'antes,
escusaram os gigantes
de pôr montes sobre montes.

Bem podeis, senhor nariz,
estar onde mais quizerdes;
mas, se ao sol vos pozerdes,
fareis logo ser sol-criz.

A vós, nariz, o gran monte
do Parnaso se assemelha;
pareceis arco da velha
que toma todo o horisonte.

E dizem quatro juizes,
segundo a sentença diz,
que tiram de vós, nariz,
a massa dos mais narizes.

Inda que estar queiraes só,
vos verão, em que vos pez,
que tamanho Deus vos fez
como a escada de Jacob.

E assenta certo moderno,
no que acerta, quanto a mim,
que sois sem principio e fim,
e que sois, nariz, eterno.

Ao arraial do Maluco
daes n'uma venta estalagem;
e podereis dar passagem
de Lisboa a Pernambuco.

Para que el-rei se desvela?
Se el-rei quer estar seguro,
ponha-vos, nariz, por muro
entre este reino, e Castella.

A vós só, nariz, se deu
pena eterna, e gosto eterno;
que tendes posto no inferno
um pedaço, outro no céo.

Ha no mundo narigote,
ha nariz, e narigão,
houve nariz de Sansão,
e nariz de D. Quixote.

Sois nariz archi-potente,
porque só vós assombraes
do Occidente, onde estaes,
os narizes do Oriente.

D'onde, nariz, presumi
chamar-vos gran narigão;
porque sei que ha ahi gran Cão,
que ha gran turco, e gran Sophi.

Se não se póde alcançar
nunca a medida do mundo,
nem nunca ao mar se achou fundo,
vós, nariz, sois mundo e mar.

Parece, quando espirraes,
(cousa para o mundo nova!)
Eolo que sahe da cova
com todos os ventos mais.

Eras bom n'uma fronteira;
que d'essas ventas o vento
é pelouro mais violento,
que de bombarda, e roqueira.

Outros, encontrando a fé,
dizem atrevidamente
que em vós se salvou mais gente
que na arca de Noé.

E em fim sois, porque conclua,
nariz tão mal ensinado,
que vos viram cavalgado
então nos cornos da lua.

Do sol dizem que enfiava;
da lua, que então gemia;
e do céo, que estremecia
co'o peso que sustentava.

Sois mór que a serra da Estrella;
porque eu vi por uma venta
vossa, na maior tormenta,
passar um navio á vela.

Esse rosto deshumano
onde pôr-vos o céo quiz,
chama-se cento-nariz,
como o outro centimano.

E de quem n'elle vos pôz
saber me dera gran gosto,
se andaes vós, nariz, no rosto,
ou se o rosto anda em vós.

Bem que o rosto é cousa rara
de maneira que só diz
tal cara com tal nariz
e tal nariz com tal cara.

Da limpeza foreis centro,
se vós deixareis entrar
cem mil homens, a limpar
as furnas, que lá vão dentro.

Mas ser sujo não me espanto;
pois jámais vos assoastes,
nariz, porque não achastes,
linho que abrangesse a tanto.

Para a India uma nau ia,
eis que um peixe se levanta
no mar, de grandeza tanta,
que a nau á vela cobria.

Eram tudo paroxismos
na nau, tudo estremecer,
quando lhe mandam fazer
por um padre os exorcismos.

Mandou-lhe n'este comenos
o bom padre, que a nau deixe,
e o que criam que era peixe,
era o demo, quando menos.

Entrou-me no pensamento
mandar-vos exorcismar,
sómente por alcançar
se sois nariz, se portento.

Que nariz não pareceis;
e, pelo rosto em que estaes,
a nariz assemelhaes,
e no rosto não cabeis.

Salvo, nariz, se sois tal,
e de tão má condição,
que ides comer ao Japão,
e purgaes em Portugal.


Etc. etc.

Posto isto, em quanto o leitor boceja nos preliminares de um agradavel somno, apresso-me a dizer-lhe que não está no meu animo detrahir nem menoscabar a seita poetica, a hoste da Idéa Nova em que o snr. Guerra é o alferes da bandeira. Gosto do nariz de D. João; e, quanto ás verrugas biliosas e á distillação de licôr de Van-Swieten, prefiro estes narizes pôdres das pessoas afflictas aos narizes de cêra dos litteratos.


JOÃO BAPTISTA GOMES

Conhecem perfeitamente o famoso author da Nova Castro.

Seria opprobrio desconhecerem o poeta portuense, honrado na Allemanha ha trinta annos, desde que Alexandre Wittich traduziu a tragedia de Ignez.

João Baptista Gomes, filho de outro de igual nome e appellido, foi guarda-livros no Porto. Casou com uma formosa menina, D. Anna Benedicta Gomes. Morreu na flôr da idade em 20 de dezembro de 1803. Nos braços da sua viuva—que contava vinte e quatro annos—deixou uma menina, D. Thereza Benedicta que veio a ser esposa do dr. José Machado de Abreu, que morreu barão de S. Thiago de Lordello.

A viuva do poeta felleceu em 1844, aos sessenta e seis annos de idade. A bisneta do author da Nova Castro, D. Maria Ismenia de Abreu, ainda vive, casada com o snr. Guilherme Francisco de Almeida e Silva, coronel de cavallaria. O dr. José Machado de Abreu, reitor da universidade e barão de S. Thiago de Lordello, contrahiu segundas nupcias. A exc.ma baroneza, que enviuvou na flôr dos annos, casou com o snr. conselheiro Adriano de Abreu Cardoso Machado, tão notavelmente respeitado nas boas letras, como na politica militante, á qual não chamo tambem boa, para me forrar a contendas com os que militam na politica diversa.

João Baptista Gomes, ainda em fevereiro do anno em que morreu, levado de generosa inspiração, escreveu um Elogio aos cidadãos do Porto, concorrentes a um beneficio destinado a suavisar a desgraça dos presos. Foi o Elogio recitado no real theatro do Principe na noite de 16 de fevereiro de 1803. Esta poesia inedita não é talvez a unica reliquia desconhecida d'aquella forte, dado que inculta intelligencia, da qual Garrett escreveu: Atalhou-o a morte em tão illustre carreira, e deixou orphão o theatro portuguez, que de tamanho talento esperava reforma e abastança. Por ventura, no espolio de sua viuva, se encontrariam as paginas soltas da historia dos seus reciprocos amores, e, talvez, as fatidicas tristezas da morte que empeceu ao desabotoar das vergonteas d'aquella poderosa phantasia. Como quer que seja, desde que João Baptista Gomes se extinguiu, raras vezes as honras posthumas lhe enverdeceram a gloria na lembrança dos vivos, nem alguem se lembrou de lhe estremar os ossos sepultados na igreja de S. Francisco.

No Elogio aos portuenses, ha versos de profundo sentimento, de elevado conceito, e dos mais condimentados com as especies arcadicas d'aquelle tempo.

Queiram-lhe bem os portuenses ao seu poeta, e inscrevam mais este nome no numero dos que, depois de cantarem duas ou tres primaveras, quebraram a lyra na pedra do sepulcro. Que mysterio haverá n'esta ceifa da morte, n'este golfão que tantos cerebros grandes e ardentes dissolve na leiva dos cemiterios?—Coelho Lousada, Evaristo Basto, Soares de Passos, Arnaldo Gama, Ernesto Pinto de Almeida, Guilherme Gomes Coelho, e ainda hontem o maximo entre os melhores, Guilherme Braga!...

*
*     *

João Baptista Gomes, dez mezes antes de se arrancar não sei se ás alegrias, se ás amarguras da existencia, pedia esmola para os encarcerados, e deixava aos seus portuenses talvez os derradeiros sons da sua harpa.

Dizia assim:

Louvores á virtude aos céos aprazem:
Nas aras da verdade puro incenso
Respeitosa tribute a humanidade
A quem da humanidade os males pungem,
A quem aos males da indigencia acode;
Com piedosa mão, mão generosa,
Da macilenta face ao desgraçado
O pranto enxuga, que a penuria arranca.
Sensiveis cidadãos, porção mimosa,
D'alta prole de Luso esmalte, e gloria,
Meus hymnos relevai, que aos vates cumpre
Honrar a quem dá honra á especie humana:
Beneficas acções, que almas transportam,
Por desafogo d'alma applausos pedem.
Na sinuosa habitação do crime,
Nas pavorosas, lobregas masmorras,
Onde fome, e nudez (oh dôr!) outrora,
As miserandas victimas ralavam;
Onde o estridor horrisono dos ferros,
D'imprecações, de pragas, de blasphemias
Era, não sem razão, acompanhado;
Alli onde animados esqueletos
Bradavam pelo jus, que á vida tinham,
Em quanto justo oraculo de Themis
Castigo aos crimes seus não arbitrava;
E os descarnados braços, d'entre os ferros
Famintos estendendo as mãos escassas,
Com lamentosa voz, parco alimento,
Quasi desfallecendo em vão pediam;
Alli, onde impio throno a morte alçára,
Tem agora seu throno a humanidade.
Amavel, divinal beneficencia,
Dos céos emanação, innata ao homem,
Lei filha da razão, que a natureza
Indelevel gravou no peito humano!
Só tu fazes heroes, só tu distingues
Os entes racionaes das brutas feras.
Cobraste, ó natureza, os teus direitos,
Desaffrontada estás. Exulta, ó patria!
Na estancia destinada ao crime, á infamia,
Inconcusso padrão teus beneficios
Fabricado já tem á gloria tua.
Os carceres contempla, e goza o fructo
Das acções, que praticas generosa,
Em louvores trocadas as blasphemias;
Co'a justiça abraçada a humanidade;
Abundancia frugal alenta os tristes,
Que inerte esquecimento abandonára
Nas garras da penuria, e dos flagicios:
Como se não bastasse aos desgraçados
Do crime o peso, o peso dos remorsos,
Da justa punição a idéa horrivel!
Quem ha que delinquente ser não possa?
E ha de auxilio negar-se aos delinquentes?
Os culpados não deixam de ser homens:
E á compaixão dos homens tem direito,
Compaixão, não esteril, prestadia.
A bem da humanidade taes dictames
Leu em seu coração heroe prestante;
De honrosa instituição motor ditoso,
Com seu sopro accendeu piedoso incendio
Em corações dispostos á piedade:
Liberaes á porfia generosos,
Sobeja caridade exercem todos.
Oh dadiva do céo! alma sublime,
Que recto, imparcial punindo os crimes
Pranteias compassivo os criminosos,
E ao culpado infeliz auxilio prestas,
Aligeiras seu mal, a mão lhe estendes,
Que invergavel d'Astrea a vara empunha,
Illustre... Mas que faço? o teu preceito,
Tua nobre modestia me prohibe
Teu nome proferir porém debalde:
Mesmo entre ferros o profere o afflicto,
Que de lisonja vil não é suspeito;
Perenne gratidão aos astros manda
O nome teu, que impresso em nossos peitos,
Transmittido será de paes a filhos!...
Mais quizera dizer, dissera pouco
Por muito, e muito, que dizer podesse:
Custa ao vate conter d'alma os transportes:
Mas silencio m'impões, silencio guardo.

AUTO DA FÉ... A RIR

O meu benevolente mestre e amigo, o snr. Innocencio Francisco da Silva, alludindo ao que se escreveu no n.º 10 das Noites de insomnia, a respeito do infeliz e talentoso José Anastacio da Cunha, diz-me o seguinte: A proposito, occorreu-me offerecer-lhe o papel junto, copia de outro que possuo ha bons quarenta annos. É uma noticia assás circumstanciada e divertida do auto da fé, em que sahiram penitenciados o mallogrado professor da universidade e seus companheiros. Se acaso v. entender que a narrativa agradará a alguns leitores das NOITES, póde dar-lhe ahi as honras da publicidade, etc.

Segue o curioso papel que, a meu vêr, é a photographia das cousas e das pessoas d'aquelle tempo, avultando á primeira luz do painel o cardeal da Cunha, inquisidor geral:

 

Noticia presencial do auto da fé a que presidiu o cardeal da Cunha em 11 de outubro de 1778.

 

«Meu pai tinha grangeado, não sei como, a amizade, e era muito da obrigação d'esse cardeal inquisidor geral, que na vespera do auto da fé, em que sahiu José Anastacio com os outros seus companheiros, veio a nossa casa e recommendou a meu pai, que ao outro dia, para boa doutrina e exemplo, mandasse seu filho assistir a esse acto de religião: «venha o rapaz (disse o tonto); venha cedo; que almoçará commigo, e depois tambem lhe darei de jantar.» Assim m'o encommendou o meu velho, quando n'esse dia me recolhi a casa, e não tive eu mais remedio senão apresentar-me ao outro dia na casa triste, aonde cheguei a tempo de vêr levantar-se da cama o alarve do inquisidor, que enceroulou os seus calções largos, e esfregando os olhos, bocejando, e fazendo cruzes na bocca, me levou para a mesa do almoço, que nos foi servido de café com leite e as torradas competentes. D'ahi abalamos para a capella da inquisição, aonde foi a minha boa fortuna o ficar assentado junto a um frade de S. Domingos, homem com menos de meia idade, mas de juizo inteiro, segundo o mostrou no discreto e gracioso motejo, que fez de quanto se passou n'aquella santa e religiosa feira da ladra. Tivemos missa inteira, e depois tivemos sermão, que bem fôra o ter sido partido por todos os dias do anno, por o muito que nos enfadou com um sem numero de sandices o prégador. Quando as este vasava do sagrado almofariz, não escapavam ellas ao meu visinho, que para mim se voltava, dizendo admirado: «arre! e como é eloquente o prégador!» E tambem, quando ao lêr da sentença, os réos, segundo o chavão e formulario do santo officio, foram alcunhados de deistas, atheistas, herejes, scismaticos, etc., o bom do meu visinho, pondo os olhos no céo com grande compunção, dizia: «Jesus Maria! Que gente tão ruim!... Atheistas e deistas ao mesmo tempo!... E ainda com mais o trambolho de herejes e scismaticos!... Valha-nos Deus com tantos peccados!» Todavia, a gravidade e recolhimento discreto desamparou a esse bom frade, assim como a maior parte da companhia, quando se leu a sentença, havendo por intervallos uma assuada geral de gargalhadas, rompida por os fidalgos, que assistiam de familiares. Quem não havia rir? Entre os cargos, que se faziam aos réos, entrava o de que nos dias d'abstinencia deitavam postas de vacca em baldes d'agua, d'onde tiravam a carne com um gancho, e a chamavam pescada, que mandavam guisar para o jantar! Entre os mais graves capitulos era o que se fazia ao réo João Manoel d'Abreu, o qual, perguntado—qual tinha por mais violento, o fogo do inferno ou o do purgatorio? Respondeu: O do purgatorio. E instado por a razão de o julgar assim, tornou a responder: porque o do purgatorio, além de queimar as almas, tem a força de aguentar as panellas de tantos mil frades e clerigos, que d'ahi vivem. Sonora gargalhada, que retumbou por toda a capella, com grande escandalo dos padres tristes.

José Anastacio, com todos os mais penitenciados, tinham velas de cêra amarella nas mãos[22]; estavam todos com o semblante carregado e melancolico, senão o major de artilheria de Valença, que se estava sorrindo; e, acontecendo pôr os olhos nos d'um conhecido seu, logo lhe fez uma cortezia com o brandão de cêra, por o modo, que o faria com a espada, se estivesse mandando uma parada. Emfim, acabou-se a farça; sahiram d'ahi os penitenciados para os lugares de suas reclusões, e nós para o abundante jantar, que nos deu o cardeal. Quando assentados á mesa, voltou-se elle para mim, e começou a me admoestar por esta maneira: Então, snr. V... viu vm.ce a piedade e misericordia da santa inquisição? Veja como deu castigo brando a tamanhas culpas! Porém, isso foi por a primeira vez; que se tornarem a delinquir, não hão de ficar assim. A isto respondi eu—que me parecia deviam os penitenciados ser mais d'uma vez perdoados; porque, perguntando Pedro a seu divino Mestre, quantas vezes se havia perdoar ao peccador; se deveria ser até sete vezes, Christo lhe respondera: não só sete vezes, mas sete vezes setenta; pelo que (continuei eu) multiplique v. exc.ª sete por setenta, ou 70 por 7, e achará a conta de 490 vezes, que se deve perdoar ao peccador, e d'ahi se a inquisição quizer seguir a doutrina da Escriptura, ainda aos que foram agora penitenciados se deve 489 vezes o perdão. A este tempo estava um dominicano, frei José da Rocha, grande valido do cardeal, por traz d'elle, fazendo-me signaes para que não continuasse o discurso; e para esse frade, como para arbitro e qualificador, se voltou o cardeal: hui! oh frei José! Aquillo que diz este rapaz vem lá na Escriptura? Depois d'algum empacho, respondeu o frade: Isso lá vem por algum modo, como v. exc.ª sabe melhor do que eu; mas, para que é agora acarretar a Escriptura para o jantar? O que se agora ha mister é refeição corporal, e não espiritual. Ficou com a decisão um pouco turvado o cardeal, mas logo, dando maior pinote, poz termo á questão dizendo: Pois se isso vem lá na Escriptura, nós cá é outra cousa. E como isto disse, foi entrando pela sopa.»

[22] A côr amarella é de reprovação, e a usavam os inquisidores nas velas e sambenitos dos penitenciados, talvez por ser d'essa côr a tunica, que sempre em todas as pinturas se dá a Judas traidor, assim como n'ellas a S. João sempre se deu a tunica verde. D'ahi vem talvez a côr das fitas e capellos na faculdade de medicina, a qual era antigamente a menos nobre das faculdades em a nossa universidade, e por isso seguida, por a mór parte dos que o povo infamava com o titulo de christãos-novos. Todavia, já nós conhecemos época, em que a côr amarella andou mais em moda, que a de purpura, e foi em França, legisladora de modas e vestidos; pois quando ahi nasceu por 1811 ou 1812 um filho a Bonaparte, foi tão geral em todos a alegria, que para solemnisar tão feliz acontecimento, todas as senhoras trajavam de côr do excremento do menino. Oh francezes!...

FIM DO 11.º NUMERO