[29] Este e outros capitulos virão a lume, mais tarde, quando a occasião fôr opportuna.


O HORROR DA DEMENCIA

Rachel Varnhagen, insigne allemã, esposa do grande escriptor do seu appellido, escrevendo a Frederico de Gentz, dizia: «Tres grandes cousas me horrorisam n'este mundo: 1.ª uma manada de touros bravos; 2.ª a plebe; 3.ª a demencia.»

A demencia é mais triste que horrorosa. Os que a padecem, se soubessem a compaixão que inspiram, seriam ainda mais desgraçados,—se desgraçados são os que não tem a consciencia de o serem.

D. Domingos de Magalhães, o arcebispo de Mitylene, morreu, quando a fome voluntaria o acabou de matar. Não houve razões de amigos e de theologos que o movessem a tomar um pouco de alimento. Não dava explicação, sequer insensata, da sua rigorosa abstinencia; mas, entre os seus manuscriptos, se nos depara tal qual luz, consoante ella se póde desferir das profundas trevas.

Diz assim um capitulo intitulado O Impassivel:

 

«A impassibilidade ha de ser a futura condição do homem santo que seria semelhante ao cadaver; a natureza corrompida e degenerada é a séde da dôr e da molestia, porque a sua sorte e futuro destino será a maxima degeneração do ente, ou a regeneração e renovação do servo, que o Senhor creou, e collocou no paraiso.

«Existe na sciencia theologica um paralogismo, que convém decifrar e resolver: a cada passo ouvimos dizer que o homem mau não morre, e que a sua sorte é a morte eterna: a questão está só na dicção e na phrase; é uma amphibologia ou questão de palavras. O homem mau não aceita a morte voluntaria para expiar a pena do peccado; e, como resiste ao decreto da divina misericordia e graça, não morre para resuscitar, não se regenera, perverte-se e corrompe-se cada vez mais.

«O homem santo mata o corpo natural para receber o eterno, perde o maculado para conseguir o immaculado, troca o barro pelo ouro, e corôa-se com o martyrio do sangue e do amor, ou com o diuturno da penitencia e da santidade. Toda a vida humana deve ser um martyrio, ou um aggregado de virtudes e de qualidades equivalentes. O homem mau tenta conservar o fumo, que o asphyxia no inferno, não se mata nem resuscita, perverte-se e degenera, corrompe-se e materializa-se cada vez mais.

«O primeiro homem morreu no paraiso, mas conservou o cadaver da galvanisação eterna; o segundo homem perde-se no exilio, aonde morrem todos os que o preferem á patria, e renuncia-o ás suas saudades, amor e realeza.

«O homem mau tem duas degenerações: a primeira materialisou-o, a segunda ha de bestialisal-o a desfigural-o, privar o ente de suas esperanças, promessas, e de toda a gloria, fraternidade e bemaventurança eterna.

«A regeneração faz o homem impassivel, e opéra muitas vezes em vida os seus beneficos e maravilhosos effeitos. O paraiso ha de exaltar e acrisolar estas sublimes virtudes, porque a humanidade santa ha de seguir até ao fim dos seculos e das gerações e conquistar pela divina misericordia todos os dotes sobrenaturaes dos corpos gloriosos.

«O homem santo será impassivel, sem dôr e sem temor, superior á natureza, e semelhante aos anjos, e comtudo pagará o seu tributo á morte por uma diuturnidade de provas pela penitencia e pelos votos mais solemnes e agradaveis ao Senhor, e por todos os sacrificios que podem exagerar e exaltar a virtude do homem.

«Muitos santos conseguiram em vida alguns dotes de impassibilidade; os authores pouco versados na sagrada theologia e nos seus arcanos, ousam asseverar que a dôr e a fome, a morte e as tribulações são consequencias necessarias da natureza humana por ser limitada, contingente, e passageira: se dissessem, que são consequencias immediatas da natureza degenerada, e penas propostas pelo Senhor ao reato, do peccado original, diriam a verdade, e fallariam ou escreveriam com exactidão, com logica e coherencia de principios.

«Se bem me lembra, Antonio Genuense cahiu no erro dos que mettem a fouce na seara alheia sem conhecimento de causa, sendo em geral mui prudente e avisado.

«S. João Baptista não bebia vinho nem cerveja, comia mel silvestre; o Stylita comia um bocado de pão só aos domingos, e permanecia sempre fixo, immovel, e levantado sobre a sua columna de dia e de noite, de verão e de inverno, annos e lustres por divino milagre.

«S. Paulo Eremita era sustentado por um corvo, comia diariamente só o que a ave do agouro podia trazer no bico, era um bolo do céo: os exemplos são innumeraveis: todos provam que a humanidade santa ha de conseguir no paraiso até o fim a impassibilidade da dôr e da fome; porque no céo não se come: os maus soffrerão lazeira e esuria no inferno, porque o mundo está condemnado ao fogo e á perdição.

«Estas verdades são dogmaticas; os herejes negam todos os milagres do divino martyrologio da santidade; obrigam-nos a fallar de nós: quando chegar o tempo da maxima profanação humana, o fiel regenerado beijará a mão que o sacrificar pelo martyrio, e desejará com elevada ambição receber pessoalmente a sua corôa em vez da outorga na communhão e na sua geral misericordia; o que se coroar pelos seus esforços, e pelo odio da tyrannia será mais ditoso e mais laureado: a morte é uma pena para o que recusa pagar a divida eterna; o que paga voluntariamente expia pelo amor divino a maxima gravidade do castigo e consegue a sua impassibilidade: o martyrio é uma virtude de communhão, as suas provas serão cada vez mais faceis e mais suaves para os santos pela união com Deus. No paraiso será um sonho e um devaneio, um magnetismo e uma transmigração voluntaria.

«A impassibilidade, a virgindade, a geração espiritual, o desejo e o voto do martyrio, o jejum completo, ou as aspirações da abstinencia e da penitencia hão de ser frequentes e geraes, admiraveis e sobrehumanas na divina providencia do paraiso: convém persuadir estes desejos e esforços, para que ninguem desanime, ou recuse a reconquista da perfeição e da pureza por julgar impossivel ou difficil o transito, ou aspero e intratavel o caminho que conduz ao summo bem.

«Eu tomei rapé com excesso por espaço de vinte annos, por conselho de medicos, e por habito, gosto, vicio ou paixão, quando principiei em Lisboa o culto soberano do sagrado lausperenne ao Santissimo Sacramento no anno de mil oitocentos e cincoenta e oito; era eu só para o exaltar, não tinha acolyto, nem ministro, dizia missa diaria, adorava duas vezes por dia com treze luzes de cera sendo uma só de azeite, rezava o officio divino, escrevia, trabalhava, compunha, e via-me na necessidade de vigiar de dia e de noite as luzes de cera e azeite que ardiam diante da divina magestade do Santissimo, e de lavar a casa da minha basilica; e por isso dormi poucas horas, e sempre vestido no decurso de dezeseis para dezesete mezes de continua e incessante adoração, sem uma falta, e deixei o uso do rapé por decencia e reverencia até o dia de hoje sem quebra, e sem perigo, sem saudade e sem pezar.

«Minha mãi mandou pôr á minha disposição um bote de rapé no anno de 1860, em Villa Pouca, aonde eu já não adorava, nem podia dizer missa: o rapé esteve na gaveta mais de um anno; eu nunca mais abri o bote e padeci grandes dôres de dentes, que me determinaram a extrahir alguns a ferro; quando fui ao Porto offereceram-me rapé, eu não aceitei.

«Eu vivia parcamente, mas a minha mesa sempre foi abundante e até lauta; jejuava e comia carne nos dias permittidos, o melhor peixe e guisados, e todos os appetites que a boa mesa offerece: eu não procurava os seus regalos, mas não repellia nenhum dos permittidos: agora faço penitencia, e não como carne nem peixe ha mais de oito annos. Em 1860 comi carne algum tempo em pequena quantidade, mas logo a deixei e todo o peixe até agora: passei mais de um anno só com um quartilho de leite por dia e com menos de quarenta reis de pão, e com um arratel de assucar chegava para treze dias até dezeseis.

«Nunca fui apaixonado do vinho, mas não o repellia inteiramente; agora não bebo vinho, nem bebida espirituosa ha annos. Como por dia menos de 40 reis de pão, jejuo tres dias por semana, ás quartas, sextas e sabbados, e ha mais de tres annos ainda não faltei a esta disciplina de jejum nem nos dias de jornada.

«Nos outros dias tomo um café com leite, um vintem de pão, e uma quarta de assucar chega para cinco dias, e diminuo a minha sopa que consta de uma dóse de arroz com manteiga, ou com azeite segundo o dia; um arratel chega para cinco dias, e ás vezes para seis: á noite como um bocado de brôa ou de pão.

«E com esta disciplina e regular dieta trabalho, rezo, escrevo e medito ha muitos annos sem descançar nem um dia e sem interromper o trabalho, que executo de joelhos por divino milagre, ha quantos annos?

«As obras escriptas respondem por nós: muitos dias de inverno principiei a trabalhar ás duas horas da noite, e continuei a minha tarefa até ás duas horas dos seguintes, empregando mais de dezoito horas no afão da escriptura. Escrevo e rezo sempre de joelhos, e sustento-me n'esta reverente posição por mais de doze horas, dias e mezes successivos haverá um lustro, por estar na divina presença.

«A impassibilidade é o presagio do paraiso. Lucifer e a sua maldita confusão e degeneração ha de receber a honra da morte e todas as dôres que causou á humanidade com o peccado original por haver seduzido nossos paes no paraiso das delicias.

«Nenhum peccado ficará sem pena eterna, nenhuma dôr ha de extinguir-se ou aniquilar-se, perder-se, ou evaporar-se: o que é causa da causa é causa de todos os effeitos e consequencias.

«A crueldade antiga em vez de matar os reis legitimos castrava-os, tirava os olhos a outros ou punha mascaras de ferro: a actual das seitas vendeu-me para me occultar a minha genealogia e direito, e obrigou-me a seguir o estado ecclesiastico para me castrar: os seus vicios foram mais impios do que os antigos, e converteram-se contra os insanos.

«Eu seguia o estado ecclesiastico com amor, e aprendi a defender o meu direito na época propria e quando convinha: sou mal por ser do paraiso.

«Toda a minha vida é um milagre diuturno: os monstros jámais poderam privar-me da existencia; as suas conspirações são incessantes, geraes, concentradas, diabolicas e perfidas.

«No dia dez estava para escrever a bulla quinta e não sabia sobre que havia de legislar: abri ao acaso o sagrado concilio de Trento, sahiu a sessão vigesima segunda que falla em legados apostolicos, que é o objecto da referida bulla.

«No dia oito resolvi metter sete folhas no caderno das leis, e inclui por engano só seis folhas, e chegaram e não cresceu o papel: no dia nove metti as sete folhas, e aconteceu o mesmo milagre: todas as leis e bullas são originaes sem borrão, ou copia.

«Deixo o soberano titulo no alto da folha; no dia nove aconteceu ficar em branco a lauda que precede a ultima bulla por defeito ou imperfeição do papel, e foi razão para que não crescesse, nem faltasse.

«Tenho quatro pennas de ave em exercicio de escriptura, uma é negra, e escrevo o «Impassivel» com esta: no dia nove escrevi com as quatro pennas; duas estavam já refugadas, duas eram novas, duas appareceram a um canto: eu já mandei procurar mais pennas mas não apparecem á venda: escrevo, com dous vintens d'estas pennas ha mais de quatro mezes, e com dous vintens de tinta ha mais de meio anno, e quebrou o vidro, aliás seria como a panella inexhaurivel de Elias: o resto da tinta está em um pires de porcelana que serve de tinteiro; eu só tenho dous pires, e duas chavenas.

«No tempo da usurpação de D. Miguel uma senhora chamada Rosa deu-me a effigie do tyranno, eu dei-a em Villa Pouca a um homem affeiçoado á tyrannia; o marquez de Lavradio deu-me uma veronica da Santissima Virgem Immaculada em Lisboa no anno de mil oitocentos e cincoenta e cinco, eu dei-a em Villa Pouca a uma senhora chamada Rosa.

«Visitei em Bemfica, como deputado da universidade de Coimbra, a supposta infanta D. Isabel Maria, a qual não me pagou a visita; uma irmã de Eiris visitou-me em Villa Pouca, eu fui a Eiris, e não a visitei.

«Fiz algumas visitas á supposta imperatriz do Brazil, falsa duqueza de Bragança a rogo e instancias de varios mordomos ou agentes da sua casa; a cruel jámais ousou levantar os olhos para nós: quem pagará ou satisfará estas dividas de amor e de reverencia?

«Depois que estou em Chaves vi duas raposas mortas, uma femea em Santa Maria Magdalena, um macho em Santo Amaro; tenho duas vassouras, fui servido desde o anno de mil oitocentos e sessenta por duas criadas mulatas, uma em Villa Pouca, irmã do burro cruel, outra nos banhos do lugar de Carção ou de Arcozelo: fui servido por duas criadas filhas da viuva, uma de Montenegrelo, outra de Chaves, aquella deu-me um guarda-chuva para a jornada que eu dei a esta, e dei um lenço de sêda á criada de Montenegrelo: já bati em duas, uma fugiu e não levou.

«Hontem veio o homem do leite no momento em que eu acabava a oração da manhã: hoje repetiu o mesmo mysterio.

«José Joaquim dos Reis, juiz de direito de Lisboa, condemnou a dez annos de degredo um energumeno que dizia missa e prégava sem ter ordens, e denunciou-me a simonia que o abominavel patriarcha Guilherme commetteu em Roma: n'aquelle tempo não havia em Lisboa prelado legitimo; eu argui o antipapa, e declarei energumenos todos os seus tonsurados: o falso padre gerou todos os actuaes, mas a sua sorte ha de ser diversa: os herejes amnistiaram o nefando, não podem absolver os traficantes.

«O perfido Cassiomano fallou-me cinco vezes, duas nas Necessidades, e uma em Mafra, são dous paços reaes, outra no paço das escolas, da universidade são dous paços de escolas: porque Mafra é escola militar: esteve commigo duas vezes na academia de Lisboa, no collegio dos Nobres, e no convento da academia, são duas academias, ou mais: uma em Coimbra outra em Lisboa, uma nos Nobres, outra no convento da academia das sciencias, duas de ensino, e duas normaes: porque o militar goza d'esta categoria em relação ás escólas do exercito, duas em Lisboa e duas fóra de Lisboa.

«São cinco e seis vezes: porque eu fallei uma vez ao monstro nos paços da universidade como provedor da misericórdia; elle mandou-me um recado á misericordia de Chaves pelo Antunes e pelo provedor.

«O dualismo é uma graça; a perfidia é uma abominação e um horror.»


RESTAURAÇÃO
DE
UM DOCUMENTO HISTORICO VALIOSO

Rebello da Silva, na sua Historia de Portugal, reportou-se a um documento que o snr. Ferdinand Denis encontrára na bibliotheca real de Paris, relativo á historia dos motins sequentes á perda de D. Sebastião, e publicára no Portugal pittoresco.

O nosso historiador não trasladou o documento, com quanto fosse importante. E ajuizadamente procedeu; porque, sendo elle versão do portuguez, difficil senão impossivel seria revertel-o á fórma original. Poderia Rebello da Silva pedir o fiel traslado d'esse papel, incluso no codice n.º 10:241, e dal-o no corpo da sua historia, como testemunho das velhas regalias populares nas crises grandes de Portugal; mas dependendo isso de esmeros, pausas e minudencias que se descasam da indole peninsular, o documento ficou desconhecido, apesar da traducção do historiador francez.

E, não obstante correr ahi uma versão miserrima do Portugal pittoresco, o documento alli reproduzido incute suspeitas de falso, porque não tem, no torneio e na phrase, algum vestigio do dizer portuguez de 1579.

E, todavia, não posso já duvidar que Martim Fernandes, sapateiro, e Antonio Pires, oleiro, no 1.º de junho de 1579, estando os fidalgos reunidos na igreja do Carmo para jurarem fidelidade ao cardeal-rei D. Henrique, entraram ruidosamente na assembléa, e proromperam pedindo que lhes ouvissem a falla que iam fazer em nome do povo de Lisboa.

E não duvido, porque sei o que foi a liberdade portugueza até que D. João IV começou de a jarretar á feição do seu genio despota, e porque tenho presente o discurso do mestre sapateiro, escripto ainda no mesmo papel onde lh'o deram para o decorar.

E como é bem cabido mostrar o original em face do retraduzido no Portugal pittoresco, sob palavra do snr. Ferdinand Denis, aqui os defronto, e ponho como advertencia aos que aceitam, sem critica, a historia que nos vem de torna-viagem.

ORIGINAL VERSÃO

Senhores. Temos sabido que algumas pessoas principaes e nobres descuidadas de suas obrigações e honras fallam de fazer cousas contra o bem commum e seguridade d'estes reinos, a que determinamos de acudir como bons portuguezes, e lembrados do que fizeram os moradores d'esta cidade no tempo d'el-rei D. João I e d'outros reis, por tanto pedimos a vm.ces como a cabeças e membros principaes d'esta republica que nos ajudem e que não percam sua honra e direito por parcialidades nem preitos particulares; que sejam vm.ces certos que para uso e para defensão de nosso direito e castigo dos inquietos portuguezes estamos promptos com 20:000 homens d'esta cidade e seus termos, os quaes ajuntaremos em duas horas sendo necessario, e poremos fogo ás casas dos que já agora começam de fallar e tratar contra o bem commum e socego d'estes reinos, o que não poremos em execução em quanto esperamos castigo e remedio por outra via.

E pareceu-nos que deviamos de fazer esta lembrança n'este estado e nos outros dous para com mais seguridade tratarem todos do bem commum e quietação d'estes reinos sem receio de força nem violencia nem outros medos cautelosos e prejudiciaes, e para se não ouvir mais d'aqui por diante os que impossibilitam tudo sem lhe darem nem procurarem remedio, os quaes todos se deviam e devem de haver por mais suspeitosos.

Senhores. Consta-nos que varias das principaes pessoas, e alguns nobres, esquecidos das obrigações a que estão ligados, e fazendo da honra pouco cabedal, usam de uma linguagem, e praticam actos contrarios á segurança d'estes reinos. Como bons portuguezes estamos decididos a dar remedio a este mal, porque nos lembramos do que fizeram os habitantes d'esta cidade no tempo de D. João I, e no de outros monarchas. Rogamos a vossas senhorias, como primeiras pessoas da republica, que a ajudem a sustentar; e que não percam a sua honra e direito, dando orelhas á parcialidade, ou olhando a circumstancias particulares de alguns individuos. Podem vossas senhorias ficar certos de que para a defensa de nossos direitos, e castigo dos portuguezes versateis, estamos promptos a levantar-nos com 15 ou 20:000 homens d'esta cidade, e seus arredores. Se fôr necessario, duas horas bastarão para os reunir, e iremos incendiar as habitações dos que começam a fallar e a obrar contra o bem geral. Com tudo, não recorreremos a taes meios em quanto tivermos esperança de obter remedio e castigo por outro modo. Talvez conviesse lembrar isto ao estado da nobreza, assim como aos dous outros estados, para que toda a assembléa trate com plena segurança, do bem commum, e da tranquillidade d'estes reinos, sem temor da força, violencia, e de meios preventivos ou damnosos. Esperamos que mais se não attenderá á voz dos que julgam tudo impossivel, e que não querem dar nem procurar remedio a semelhantes males.

 

O traductor, como se viu, não lhe soffreu o melindre que os dous populares tratassem de vossas-mercês os fidalgos, safados (duas vezes) á cobarde ignominia de Alcacer-quibir: deu-lhes senhoria. Ah! bom relojoeiro de pag. 57!


A DANÇA

Gemem os prelos desde que a moral geme nos bailes.

Ha lendas medonhas, casos que eriçam os cabellos, castigos infligidos a dançarinos. Leiam na Floresta do padre Manoel Bernardes a lenda dos Bailarinos. Pois ainda ha passagens mais escandalosas e funestas, por causa das danças; mas já não ha quem as apregôe com virtuosa ira. Não ha ninguem que, ao outro dia de um baile, clame na local ou no folhetim que um scelerado ousou inclinar-se ao ouvido da donzella com quem dançava, e dizer-lhe: vêr-te e amar-te foi obra de um momento. Sabem todos que as phrases assim ardentes queimam as senhoras; mas ninguem propõe que os estylistas d'esta força sejam chamados ao commissariado; ou que as damas sujeitas a ouvil-os se vistam de amiantho, se Deus as não fadou com a virtude incombustivel de salamandras.

Verdade é que o transigir com os maus costumes vem de longe. Temos o exemplo de exemplares varões a quem competia pôr cobro aos bailes. Aqui tenho eu um Tratado dos principaes fundamentos da dança, publicado em 1767, pelo mestre d'aquella viciosa pantomima, Natal Jacome Bonem, e licenciado pelo santo officio, e pelo ordinario! Fr. Caetano de S. José, eremita augustiniano, doutor em theologia, provincial da ordem, etc., foi o encarregado de censurar officialmente o manuscripto do Tratado da dança. Se este frade estivesse no prumo da sua missão, deixava-se cahir, com todo peso de sua gravidade, sobre o mestre Natal, e esborrachava-o e mais ao incendiario manuscripto.

Com bastante pejo das fraquezas d'este proximo, e para escarmento de futuros frades censores de futuras danças, reproduzo a opinião de fr. Caetano de S. José:

 

«Não me envergonho em obsequio do meu estado confessar ingenuamente se não estendeu para a arte de dança nem ainda a curiosidade dos meus estudos: sei que algumas especies d'esta mereceram no estabelecimento da disciplina ecclesiastica uma bem severa reprehensão e merecida prohibição fundada na solemne profissão que fazem os que pelo sacramento da regeneração se formam membros vivos de Jesus Christo e filhos espirituaes da santa Igreja; não ignoro tambem que outras tem o justo louvor com o exemplo de um rei santo como David, dançando na presença da arca do testamento. Se os preceitos da presente arte, expostos na verdade com toda a modestia se ordenarem para o uso d'estas e outras de semelhante decencia e honestidade, nem serão oppostos á santidade dos costumes, assim como o não são aos pontos essenciaes da nossa santa fé. É o que posso informar, etc.»

 

Então que é o que informou o frade? Parece dizer que, se esta Arte de dança leva em vista ensinar a bailar o sarambeque que o santo rei David dançava adiante da arca, então sim, publique-se o livreco; mas, se o author intenta regambolear as tibias de suas discipulas em gavotas, cirandas e outros bailados lubricos, n'esse caso o santo officio delibere o que lhe parecer.

Ora eu já vi, em Braga, dançar o santo David. Era um cancan a só, um requebro desnalgado, um alçar de perna bruta e rija que, se apanhasse a arca, daria com ella na cara do sol.

Voltando ao livro do francez Natal Bonem, acho n'elle excellentes preceitos de educação que seriam, em substancia e fórma, bem cabidos n'um dos compendios do snr. João Felix Pereira. O cap. VI, por exemplo: Do modo que as senhoras devem andar, e se deve apresentar. (Vê-se que era mais forte em dança que em grammatica). Ahi vai o capitulo na integra. É lyrico, delicado e muito de aproveitar:

 

«Não duvido, que se me accuse de ignorante, e de indifferente, ou de não saber ensinar, senão aos homens; senão mostrára zelo, e attenção para a instrucção do bello sexo: ellas, que são a alma da dança, e que lhe dão todo o brilhante, que ella tem; e parece que a natureza a reveste de mais graça; porque sem a presença das senhoras a dança não está tão animada; são ellas as que fazem nascer este ardor, e nobre emulação, que se encontra entre ellas, e em nós, quando dançamos ambos, principalmente com aquellas, que executam bem este nobre exercicio; nada me parece mais agradavel em uma companhia, que de vêr dançar duas pessoas de um e outro sexo com seriedade; que de applausos, e que de gostos para os circumstantes.

«Independentemente do que se tem dito em os capitulos precedentes, que tóco igualmente a um, e a outro sexo? as mesmas reflexões são necessarias para as senhoras, ellas devem voltar os pés para fóra, estender os joelhos, ainda que muitas pessoas pretendem, que não se lhes conheçam estes defeitos, mas por tirar este engano, principalmente para as senhoras moças, que por desmazelo, ou pouca curiosidade o não façam; não quero senão o seu proprio voto, que se ponham diante de um espelho de vestir, e que ellas andem alguns passos, observando o modo de bem andar, que está escripto para os homens, e se encontrarão com outro ar, e conhecerão, que de ter a cabeça direita, o corpo fica com maior firmeza, e os joelhos estendidos, os passos são mais seguros; tenho feito uma reflexão, que me parece muito justa sobre o modo de saber levar bem a cabeça, e é que uma senhora por muito engraçada, que seja em seu modo de levar a cabeça, fará julgar differentemente de si, v. g. se ella a levar direita, o corpo bem posto, sem affectação se dirá; eis aqui uma senhora, que tem um ar muito nobre; e se se deixa ir com negligencia, se lhe chamará preguiçosa; se a deixa cahir para diante; bizonha, e se a leva muito baixa, de pensativa, e de vergonhosa; e outras muitas cousas, que não escrevo por não ser proluxo: desejo que todas as senhoras não façam o modo facil, que se vem descrever, para que não cáiam em nenhum dos defeitos, que tenho recitado.

«Para bem andar é preciso ter a cabeça direita, os hombros baixos, os braços retirados para traz, acompanhando bem o corpo; mas dobradas, as suas mãos uma em cima da outra, com um leque na mão, e principalmente sem affectação.»

Não escrevia em estylo apocalyptico.

*
*     *

Este francez que tanto polira e lapidára o bruto diamante das damas lisbonenses da côrte de D. José I, tinha uma filha esbeltissima, engraçada de todos os amavios francezes, e muito esquiva aos amores dos discipulos de seu pai, até á hora fatal em que o pé, n'um difficil passo de minuete com o deus frecheiro, lhe escorregou em ladeira de flôres, e... ella lá vai com o conde-barão d'Alvito embrenhar-se nas florestas de Cintra.

O mestre de dança bravejou, pediu vingança ás leis, ao direito internacional, ao ministro omnipotente Sebastião José de Carvalho. O ministro e as justiças sorriram, sob capa, do atribulado dançarino. O marquez de Pombal, esse então era tão caroavel de francezas, que ainda, aos 60 e tantos annos, escrevia epistolas amatorias a uma, que por signal lh'as rejeitava com phenomenal honestidade. Veja Historia do reinado d'el-rei D. José, pelo snr. Soriano, tom. II, pag. 649 e seg.

Natal Jacome Bonem sahiu de Portugal, e deixou a filha, quando, sobre a affronta, se viu ridiculisado pelas seguintes coplas que os fidalgos enviavam uns aos outros:

AO ROUBO DE UMA FRANCEZA FILHA DO MESTRE DOS MINUETES


Toda a terra falla e diz
que roubára assim á toa
certo Páris de Lisboa
uma Helena de Paris;
e que o rapto vingar quiz
seu pai que todo se abraza
por lhe levarem de casa,
ainda em peça, a melhor joia;
mas, porque não ardeu Troya,
ficou o velho uma braza.

A Páris lhe foi forçosa
esta eleição por estrella
não só como grega bella,
mas como deusa formosa.
Como a viu tão carinhosa,
tão bonita, tão astuta,
tão gordita, tão enxuta,
Páris lhe deu a maçã
e ella gosta da fruta.

Etc.

O poema d'aqui por diante leva a crueza até ao despejo da phrase. Que tempo aquelle! Costumes de ouro! Roubava-se a filha a um forasteiro, injuriava-se o pai com obscenas gargalhadas, a vergasta da irrisão obrigava-o a transpôr as fronteiras com o coração despedaçado! Reinava D. José I, o amante da marqueza de Tavora, então viuva, e já consolada da perda do marido, que o amante lhe mandára degolar e queimar no cadafalso de Belem. Como este Portugal floreceu n'aquelles dias! O erario a trasbordar de milhões e os subterraneos de lagrimas!

Comecei com danças e acabei com lagrimas. É no que as danças param ordinariamente. Ou ellas não fossem invenção do diabo, como diz o meu oratoriano Bernardes.

 


FIM

O n.º 12 finalisa a serie das Noites de insomnia. O favor publico esquivou-se a proteger esta empresa. Parte dos artigos publicados desagradou á maioria dos subscriptores queixosos do ranço de cousas antigas com que eu pejava as paginas de uns livrinhos mais acommodados ao recreio que á instrucção de alguns leitores mais ou menos ignorantes, se os ha.

Verdade é que eu não tinha promettido 100 paginas futeis e risonhas por mez. Lá está no 1.º numero um proemio claro e modesto. Afoutamente me desvaneço de não haver deslisado do programma a que me obriguei. Esta serie de livrinhos—escrevi eu—ha de ser uma cadêa com elos de bronze rijos e toscos, e elos de pechisbeque flammantes e quebradiços. O bronze é a porção prestadia do opusculo, etc.

Enganei-me.

As paginas arguidas de enfadonhas me pareciam a mim as melhores e mais estimaveis, se os que as leram as ignoravam; todavia, se eu dei como novidade em historia o que era já notorio ao leitor enfastiado, o seu tedio é natural e racional. Porém, se me replicam dizendo que se dispensam de saber as pulvereas velharias que eu lhes contei, augmenta a justiça do seu queixume; porque ninguem deve directa ou indirectamente offender a ignorancia de outrem.

Pelo quê, a todos peço desculpa, e a meu favor entremetto a illustre pessoa que me induziu a salvar da obscuridade lances da historia e dos costumes portuguezes, que se me prefiguraram prestantes na concatenação de factos, desligados por mingua de documentos desconhecidos. O mestre venerando que me moveu a não ser de todo em todo frivolo nas Noites de insomnia chamou-se n'este mundo D. frei Manoel do Cenaculo; e as palavras que me seduziram estão impressas e rezam assim:... Mil occorrencias funestas tem precipitado em um abysmo de perda profunda, escura, irrevogavel os trabalhos litterarios, e ainda a simples memoria de muitos varões sabios. Abateram esses miseraveis tempos as forças da curiosidade, que poderia hoje augmentar a estimação da bibliotheca lusitana, escondendo e perdendo as nossas noticias. Este é o defeito de que ainda hoje se póde formar uma justa queixa, e que fazem ignorados na verdade innumeraveis documentos, capazes de acrescentar a dignidade á nossa historia. Isto é tambem o que me excita e commove a rogar instantemente aos meus patriotas por tudo quanto é capaz e digno de não se desattender sem affronta, que se animem a publicar quanto nos faça gloria, e a mostrarem cada vez mais illustre a face dos nossos annos antigos.

O douto prelado não conhecia os seus patriotas, e eu, que tão arredado vivo d'elles, ainda os conhecia menos.

Na minha pequenissima livraria ha muitos ineditos cuja publicidade não seria despecienda aos porvindouros historiographos. Ahi ficam. Meus filhos, se tiverem juizo, e armarem á benemerencia dos seus conterraneos, que os vendam a peso.

Não obstante, alguns publicistas receberam benignamente as Noites. Entre esses, realça com particular authoridade e voto o snr. Antonio Augusto Teixeira de Vasconcellos, protector caroavel e affectivo de quantos n'este paiz grangeam pão ou gloria nas lidas litterarias. Sei quanto me cumpre descontar no merito da obra elogiada, cortando tambem pela demasiada benevolencia do escriptor eminente; mas, cerceado o que ahi houve de favor, ainda me sobeja muito para gratidão e ufania.

Ao snr. visconde de Ouguella agradeço com mais sentimento que expressões as paginas formosissimas que interpoz n'estes opusculos. O Carrasco, apenas começado, se aqui fosse concluido, viria a dar crescido valor a esta collecção; entretanto, muito grato me é ter excitado a curiosidade das pessoas intelligentes para que o visconde de Ouguella se obrigue a escrever e publicar um dos livros mais assignalados de independencia austera e sentimentos generosos, que hão de ter galardão, quando os que pelejaram sob o labaro da justiça forem chamados a testemunhar no pleito que segue o seu arrastado processo entre opprimidos e oppressores.

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Ao despedir-me dos poucos subscriptores que me apertam a mão com estima e por ventura com saudade, vou fazer-lhes uma revelação que póde desairar a minha vaidade de escriptor, mas que muito faz em honra do editor das Noites. Elle soube que a opinião publica desmentia, dormindo, o titulo da obra. Sabia que a insistencia na publicação lhe era prejudicial e desesperançada de tardio reembolso. Em fim, pagava despendiosamente e silencioso a minha dôce illusão de cuidar que entre Ponson e Escrich haveria lugar para estas brochuras nas estantes ou nas canastras de tanta gente que sahiu triumphal e erudictamente do seu exame de instrucção primaria.

Meu prezado snr. Ernesto Chardron, obrigado á sua rara e fina delicadeza!

Se as Noites lhe foram más, eu d'este leito de rheumatismo lh'as envio boas e do coração.

FIM DO 12.º E ULTIMO NUMERO