[26] Archivo Pittoresco, tom. III, pag. 140.
Certo maniaco imaginava que tinha morrido, e rogava aos parentes e amigos que o enterrassem, porque o seu corpo começava a apodrecer. Tres vezes, dentro d'um anno, o atacou semelhante mania. Amortalharam-no, e fingiram que o levavam ao cemiterio; porém, no caminho, estavam uns homens pactuados com os parentes á espera do sahimento; e, quando a tumba ia passando, começaram a dizer em voz alta:
—Ora graças a Deus, que morreu finalmente aquelle velhaco, aquelle biltre, aquelle perversissimo scelerado!
O maniaco, ouvindo os insultos, irou-se grandemente, e respondeu:
—Canalhões! se eu estivesse vivo, castigar-vos-hia a bengaladas, para vos ensinar a não ter má lingua; infelizmente estou morto; e os mortos não se vingam.
Replicaram os homens que não lhe tinham medo, e desafiaram-no renovando as injurias.
Então o maniaco, erguendo-se de golpe, desembaraçou-se da mortalha, e correu atraz dos homens, que o receberam a murros, e tantos lhes pregaram na cabeça que lhe pozeram fóra de lá a idéa que o atormentava.
O doente recolheu-se a casa bastante contuso; mas curado; e, porque havia tres dias que jejuava, comeu á tripa fôrra.
Este caso, e outro da mesma seriedade, vem referidos em um livro scientifico e mui circumspecto ultimamente publicado em França. É a Hygiene das dôres, por mr. A. Dobay. Os francezes, ao mesmo tempo que nos illustram, alegram a gente com estas passagens que não são vulgares entre os maniacos portuguezes.
*
* *
Um hypocondriaco farto e rico imaginou-se doentissimo, e resolveu nunca sahir do seu quarto. Dormia, comia e bebia como se quer; mas soffria horrorosamente por todo o corpo; devia morrer de morte affrontosa; estava ulcerado e gangrenado; pedia que o não atormentassem, etc.
Fez quanto pôde para se curar; consultou os somnambulos mais acreditados; encarapuçou-se com um barrete encerado; tomou banhos egypcios, e poz sobre o estomago uma cataplasma egypcia: tudo inutil. Depois experimentou o racahout, a revalenta, a mostarda branca, com igual resultado. A mostarda branca, que cura toda a gente, fez-lhe mal a elle. Por ultimo, e em recurso extremo, tomou preparados de ferro, de cobre, de ouro, bezoartos orientaes, o cachundé chinez, o talekamapala dos selvagens americanos, e nada de novo. Sempre doentissimo. Recorreu á escova electrica, ao restaurador da vida. Tudo em vão. Parece incrivel uma cousa tão verdadeira!
A conversação d'este sujeito versa sempre sobre o mesmo assumpto: a sua molestia. Se alguem consegue distrahil-o por momentos, esquece-se o homem dos seus atrozes flagicios.
Indo o medico visital-o uma manhã, queixava-se elle de que não podia estender a perna direita; e, para mostrar a difficuldade que sentia, estendia a perna.
—Então o senhor que mais quer?—perguntou o medico.
—Valha-me Deus, queria fazer isto!—e levantava a perna com a maior presteza e facilidade.
O medico desatou ás gargalhaadas; e o doente, cahindo em si, riu-se-tambem. Esta aventura distrahiu-o, e poz cobro ás lamurias.
D'outra vez, queixava-se ao medico de falta de appetite (comia como quatro), e de se estar marasmando.
Ora, o homem tinha tão boas côres e tão proeminente abdomen que o medico não pôde suster o riso. O doentinho, affrontado pela galhofa do medico, pediu explicações.
—Antes de lastimar-se, olhe para a sua barriga—disse o medico.
—É verdade!—disse pasmadamente o enfermo—é verdade! eu não tinha reparado.
E ou por estar convencido ou por imitação, riu-se tambem com o medico.
—
Este livro da Hygiene das dôres não é dos mais imprestaveis no catalogo da bibliotheca medica. Ha molestias nervopathicas que se modificam pela explosão das lagrimas, outras pelo espirro, e algumas pelas convulsões do riso.
Se suas excellencias, os senhores secretarios e addidos de ministros e embaixadores se queixam da parcimonia dos seus ordenados—e accusam de mesquinhos os governos, indifferentes ao esplendor dos enviados que representam este Portugal, tão pomposamente representado em tempos antigos—bem sei eu onde elles podem, se quizerem, colher as provas de liberalidade dos governos absolutos com que confundam a sovinaria dos governos liberaes.
Um diplomata, que brilhou nos tempos prosperos, e me lembra, como exemplo, é Duarte Ribeiro de Macedo. Dizem d'elle os biographos, e particularmente José Maria da Costa e Silva, que nunca enviado portuguez a Paris tão grandes honras recebeu na côrte de Luiz XIV. Nove annos alli residiu o solerte diplomata, ganhando de dia para dia a consideração de Portugal e os gabos dos ministros com quem lidou.
Em 1668 nol-o descreve Costa e Silva melhorado na florente carreira, já como enviado ordinario.
Não nos diz que ordenados Duarte Ribeiro recebe, nem que luxos estadeia na côrte de França; mas do contexto de duas cartas suas e ineditas, facil nos é conjecturar o despendio, o fausto, a ostentação quasi reprehensivel d'aquelle representante, se o não quizerem desculpar por elle ser algum tanto poeta.
Os periodos, que vão lêr-se, devem pruir de inveja os espiritos descontentes dos senhores secretarios, addidos, e enviados de hoje em dia; conformem-se no entanto, confrontando o Portugal de Duarte Ribeiro de Macedo com o Portugal dos que hoje em dia o representam, a jantarem em restaurantes de 2 francos por cabeça.
Vejamos as scintillações de estylo de um enviado ordinario na embriagante atmosphera de Paris que o aureolava com as suas delicias. As cartas datadas em 1669 e 1670 são adereçadas ao regedor das justiças, D. Rodrigo de Menezes.
«...... Dir-lhe-hei a v. s.ª como passo ha quatro mezes. Jeronymo José da Costa me assistiu dous, mas porque a tardança dos provimentos o fazia desconfiar, não quiz valer-me d'elle, e pedi 1:000 francos ao conde de S. Comberg, dizendo-lhe que era para um emprego meu. Não me atrevi a escrever que achava este recurso, para que não désse causa a maior descuido. Já estão pagos estes dous credores; mas não estou livre de cuidar que recahirei no mesmo achaque. Creia v. s.ª que não sei como acerto a servir sua alteza[27] sempre entre os temores de que me ha de faltar o necessario para o servir no mez que vem, se me acaba o provimento. Verjus levou carta minha para o snr. conde da Torre. O que n'ella pedia era que sua alteza me mandasse pagar ou recolher, e confesso a v. s.ª que não posso servir com taes faltas. Se eu disser a v. s.ª o que me tem custado os portes de Madrid, Hollanda e Inglaterra ha v. s.ª de se admirar! Sua alteza, pela mercê que me faz, a qualquer carta minha manda logo acudir: a falta está da parte dos executores das suas ordens... etc.»
Se este periodo não deixa bem definida a situação brilhante do enviado ordinario, ha outro mais explicito:
«... Eu me acho em tal estado que pedi um dia d'estes dez dobrões emprestados. No ultimo de fevereiro se me acabaram as mezadas, e entro em quarto mez de empenho. Até a carne para comer me trazem fiada... Tire-me v. s.ª d'aqui ainda que seja á custa da liberdade.»
D'estas e outras cartas reveladoras de opulencia, de alegria, e patriotica vaidade no serviço de Portugal é que os biographos deprehenderam que o desembargador Duarte Ribeiro, enviado ordinario a Paris, alli fôra recebido com grandes honrarias (diz Costa e Silva) poucas vezes tributadas a ministros estrangeiros, e tantas e tamanhas que até fiavam d'elle a carne os magarefes parisienses.
E, como prova de que a sua abastança não era fineza, mas sim obrigação da patria que lh'a dava, acrescenta o biographo que Duarte Ribeiro, no longo prazo de nove annos que se demorou em França, no exercido d'esta missão importante, promoveu com todo o zelo e sagacidade de que era dotado os interesses e vantagens da nação que representava.
Da comparação da opulencia de Duarte Ribeiro com a pobreza dos diplomatas do nosso tempo, infere-se que elle comia vacca fiada porque era um inepto, ao passo que os seus successores no officio andam por lá saturados de trufas porque sabem manter perspicacissimamente o equilibrio internacional.
[27] D. Pedro, o regente, irmão de Affonso VI.
Padre Senna Freitas, No Presbyterio e no Templo, vol. II. Livraria Internacional. Porto, 1874. 8.º 344 pag.—A presteza no apparecimento do segundo tomo, correspondeu á affectuosa curiosidade que o primeiro suscitou com raro exito. O relevante merito dos artigos subpostos ao titulo NO PRESBYTERIO, confirma-se e consubstancia-se nos trechos pareneticos, e nos discursos em assembléas catholicas. Avantajam-se os dotes do escriptor na descripção do Brazil sertanejo, onde se lhe acrisolou a vocação nos maviosos, bem que duros sacrificios tão ardentemente commettidos com o alegre rosto da confiança em Deus.
Dos donaires e graças da elocução do snr. padre Senna Freitas nos dispensamos de repetir justissimos louvores. Que se recommende um livro, quando a indolencia publica o não procurou, é esse o dever corrente da boa critica, e o timbre da leal camaradagem n'esta milicia das letras; porém, depois que a sancção indeclinavel do senso publico formou conceito do escriptor, a repetição do elogio é superfluidade, senão aggravo do leitor que muito bem póde sentir-se de que o ousem ensinar a conhecer as excellencias da obra inculcada. Farei tão sómente algumas breves reflexões á substancia d'este livro.
Nas prégações feitas pelo operoso sacerdote nos sertões do Ceará e Bahia, posto que se esteja revelando que o missionario forcejou por atemperar-se á razão pouco alumiada dos seus ouvintes, os conceitos resaltam na eloquencia, e o letrado alliga-se elegantemente ao doutrinario sempre na esphera d'uma illustrada theologia. Se o snr. padre Senna Freitas tivesse a peito acommodar-se á tosca percepção do seu auditorio, contava-lhe casos com que lhe apavorasse a credulidade, prodigios, intervenções ultra-naturaes na região dos vicios ordinarios, a diplomacia infesta do demonio trajando á humana, e os requintes da virtude do homem trajando á divina. Os discursos d'este discreto missionario não se afeiam d'essas deformidades tão bastas nas missões que pelas nossas aldeias espancam o dôce anjo das santissimas verdades de Jesus Christo. Por onde se vê que o snr. Senna Freitas, conformemente a um grande mestre de oratoria sagrada, fez como suas as advertencias do sapientissimo e religiosissimo Cenaculo: «...Quanta será a culpa do prégador que omittir a propria illustração para que, faltando-lhe esta, passe a entreter a credulidade do povo em acontecimentos, reclamados pela verdade? Deixará o protestante de lançar mão d'esta ignorancia para pretender salvar o seu injusto improperio contra os bons usos da nossa igreja? O ouvinte illustrado não radica no fundo de sua alma, a respeito do prégador, um conceito de homem inhabil? Conceito na verdade opposto quanto é possivel á reputação que deve ter quem quizer persuadir[28].»
N'estes discursos, e mais largamente nos que o snr. Senna Freitas proferiu nas assembléas catholicas do Porto e de Braga, ha passagens de acurada eloquencia que o descostume em taes occasiões poderia acoimar de nimiamente litterarias e destoantes do lugar e do auditorio. Seria injusto o reparo. O estylo espalmado não é rigorosamente um signal de predestinação. Quintiliano póde entrar no templo com o orador christão sem catechese nem baptismo. S. João Chrysostomo formou o seu estylo na leitura dos versos de Aristophanes; e o citado arcebispo de Evora recommenda aos alumnos da arte concionatoria que leiam os poemas de Sá de Miranda, promiscuamente com os mais selectos pagãos, sem levantar mão dos SS. Padres.
Ora, a mim se me figura que os lanços em que o espirito do snr. Senna Freitas mais esplende são os que mais contenciosos parecem no seu austero apostolado. E é talvez por isso que elles mais se ataviam do fasto das locuções bem feitas. Quero fallar do seu azedume contra os romances que não viu rubricados por alguns nomes de boa fama, e aureolados dos suppositicios nimbos dos bemaventurados. Eu de mim direi que tenho escripto muitos romances maus, por mal urdidos ou mal escriptos; mas, se é licito comparar grandezas com insignificancias, sou a pensar que nem as novellas do conselheiro Rodrigues de Bastos levaram ninguem ao paraiso, nem as minhas abysmaram no barathro pessoa que as lêsse. O que não affirmo é se algum dos meus editores foi, mediante ellas levado... á gloria—que com certeza não é a melhor ascensão que elles, editores, hão de agradecer-nos.
O snr. Senna Freitas póde dar-me de suspeito em materia que tanto por casa ou pela roupa me toca. Não me queixarei, em quanto me for licito e airoso defender as pessoas que o severo escriptor deplora sujeitas á contaminação dos maus romances.
Não, meu amigo. As novellas, que adoçam a peçonha das paixões peccaminosas, quem as lê? Toda a gente, á excepção das pessoas rigorosamente religiosas que parecem temer-se do contagio, como se a consciencia do dever lhes não fosse bastante cordão sanitario contra a infecção das idéas dissolventes.
Ha tantissimas damas de irreprehensivel estylo de vida que, na sua mocidade, releram aquellas despeitoradas folias de Paulo de Kock! Ha ahi tanta senhora de boa nota que lê os Romances para homens!
Creio e sei que ha romances protervos quanto ás infamias que tecem o enredo; mas ainda não vi algum em que as torpezas sejam aconselhadas pelo author como saluberrimas e honorificas.
Diga-se o que por diversos modos está repetido: os maus costumes são os primogenitos de Adão, e mais antigos que as novellas. A grande bibliotheca dos maus livros que estragaram o genero humano estava dentro da maçã ou do pêcego que Eva trincou. Póde ser que os romancistas desmoralisados, se os ha, sejam os pomareiros da arvore maldita; mas o certo é que hoje em dia, as descendentes da Eva paradisiaca, se o pomo lhes trava, depuram os labios nas faces dôces de seus filhos, e de sobra sabem que não é com tal fruta que se enganam os modernos Adões.
Estes reparos não desdouram as fortes e convictas idéas do snr. Senna Freitas ácerca da imprensa jornalistica e das litteraturas dramatica e romantica. O illustre sacerdote está no seu posto, e o sustenta com a maxima dignidade e superior talento.
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Como não sei quando terei tão bom azo de apontar a um assumpto que, de seu, me occorre n'este momento, pedirei aqui ao primeiro orador da tribuna sagrada em Portugal, o snr. conego bracharense Joaquim Alves Matheus que publique as suas orações ineditas. Se o divulgal-as redundasse meramente em gloria sua propria, não iria eu ferir com phrases de vulgar lisonja a modestia d'aquelle professor illustre; porém, se o proveito d'essa publicação reverte em lição para prégadores, em deleite para crentes, e secreto abalo para incredulos, a abstenção do snr. Alves Matheus é menos louvavel, e por nenhuma maneira conforme aos deveres que se alligam ao seu ministerio. O talento de quem converte em luz da alma o que outros obscurecem nas paginas dos livros santos, é mais de nós, os vacillantes á orla dos abysmos, que dos bemquistos da alta inspiração, e dos que, velejando nos escarceus da vida, tem no céo a estrella do seu norte, e na terra a dupla ancora da fé e da sciencia. Alves Matheus é o mais correcto e elevado orador que ainda ouvi. Conhece todas as vozes que sôam dentro da alma. Dá o terrivel estremecer do enthusiasmo no arrobamento das idéas grandes, e vibra as palavras gementes que abrem o dulcissimo espirar das lagrimas.
Theatro de Francisco Gomes de Amorim, socio da academia real das sciencias de Lisboa. O cedro vermelho. 1874. 2 tomos.—São livros de recreio e estudo estes dous que comprehendem o drama e as notas relativas. O snr. Gomes de Amorim empenhou poderosas faculdades de observação nos accessorios com que nos povôa a phantasia, a fim de que no tecido dramatico fuljam os fios reflexôres da luz local. O drama seria já excellente sem as notas; com ellas realça de valia, porque nos ensina particularidades que o poeta photographou, e o historiador desdenharia. Se tanto lavor e tamanha paciencia de consultação houvessem de ser embebidos no artificio do drama, e descurados como alheios da scena, o consciencioso escriptor teria a triste desillusão de se haver cançado á cata de leitores idoneos e juizes competentes do seu trabalho.
O Cedro vermelho, assignalado entre os mais applaudidos dramas que recordam noites gloriosas do theatro normal, pertence á escóla das peripecias fortes e commoventes. Impunham-se assombrosos aquelles lances de viver desconhecido do sertão da America. Francisco Gomes de Amorim chegára, poucos annos antes, d'essas paragens, por onde havia passado o portuguez aventureiro, o mercador, o chatim; mas por onde, desde que o jesuita fôra esponjado da civilisação do indio, nunca mais passára o talento observador. Por fortuna da arte e desfortuna do artista, Gomes de Amorim identificára-se aos costumes das raças, tacteára-lhes de perto o selvagismo, não tanto por seducções de curioso quanto pelo imperioso estimulo da necessidade. As lagrimas represadas talvez lhe abrissem no coração os traços que ahi ficaram como thesouro de lembranças,—e quem sabe se de saudades para elle e para tantos cujas illusões vão morrendo com o sol poente de cada novo dia!
O drama, executado por aquelles artistas apaixonados de ha dezoito annos, logrou arrancar da sua atrophia um publico sopitado pela toada das xacaras, e pela melopêa dengoza das castellãs, e raivas sacrilegas d'uns amadores quasi todos sarracenos, consoante a praxe dos dramaturgos archi-romanticos.
Tasso, que aceitára a parte do indio Lourenço, como quem crescia para as empresas arduas e se apoucava nas trivialidades de galã de vaudeville, arrebatava o auditorio, e o auditorio arrebatava-o nos braços, desde o palco ao seu camarim. Houve n'aquelles remotos dias correntes galvanicas entre o actor e a sala. A paixão coruscava no olhar d'aquelles interpretes a quem Epiphanio ensinára as fulgurações do terror, e, sobre tudo, a expressão da intelligencia.
Eu não direi que a arte de hoje arraste crepes ou esteja fria como o marmore de Gil Vicente na cupula do seu templo.
Não: o que simplesmente receio é que o amaneirado, o arbitrario, que ahi chamam crear caractéres, o pseudo-naturalismo dos actores mais em voga nos vão desencantando das illusões e amortecendo o enthusiasmo n'aquelles lances que—segundo a praxe comica—faziam levantar o povo.
Tenho recordações d'esse tempo, e algumas prendem com o Cedro vermelho de Gomes de Amorim. Ao relêl-o, como quem folheia paginas em que se traçaram impressões da mocidade, tive o prazer de renoval-as admirando-as ainda, e marginando as muitas passagens em que resalta um bom engenho, e um optimo escriptor. O segundo tomo é prestadio subsidio para quem, deleitando-se, quizer, em poucas horas, colher noticias repartidas por tantissimos volumes. É obra de grande merito, e sêl-o-hia de grande fortuna em outro paiz. Emendêmo-nos. Sejamos dignos dos talentos que honram a nossa terra.
[28] Memorias historicas do ministerio no pulpito, pag. 199 e seg.
Hoje que todos temos excellencia, é bom indagar se a não temos, e não é mau resignar-se a gente com os dictames do Direito Publico a fim de não attentarmos contra a vida de quem nos favorecer com a senhoria.
Por não principiar de mui remotas eras, começaremos pela lei extravagante de Filippe II, de 15 de setembro de 1597. Ahi se manda que rei e rainha hajam tratamento de magestade. (Bem sabem que, até ao tempo do rei D. Sebastião, era alteza). A referida lei ordena que os duques, marquezes e parentes da casa real, quando fallassem do rei, dissessem: «El-rei meu senhor» e que os outros menos graduados, dissessem: «El-rei nosso Senhor». A differença entre singular e plural do pronome possessivo não se percebe. Segundo a mesma lei, os principes e infantes eram tratados de alteza; mas quem dizia simplesmente sua alteza, individualisava o successor da corôa. Excellencia era para os filhos dos infantes e duques de Bragança. Os outros duques, marquezes, condes e bispos tinham uma reles senhoria; porém, se os bispos fossem estrangeiros, haviam de acommodar-se com um vossa reverendissima.
D. João V fez outra lei em 29 de janeiro de 1739. Confirma a de Filippe II quanto ás pessoas reaes; manda, porém, que se dê excellencia a todos os grandes ecclesiasticos e seculares—duques, marquezes, condes, arcebispos e bispos. D'estes ultimos são exceptuados os estrangeiros. Os presidentes dos tribunaes tambem recebem excellencia em quanto estão na séde da judicatura. Os generaes e vice-reis gozam o mesmo fôro. Viscondes, barões, governadores de praças, reitores da universidade, priores d'ordens militares de Aviz e Palmella, moços do paço, etc. uma senhoria secca.
Desde que me entendo só encontrei um homem que obedecesse rigorosamente a esta lei. Foi um d'estes dias, o encontro, em uma carruagem da via ferrea. Era um relojoeiro do Porto, homem de annos largos, cara aberta e antiga. Quando se dirigia ao snr. conde da Graciosa, dava-lhe excellencia; ao snr. visconde de Sanches de Baena, dava-lhe senhoria; e a mim, para ser coherente, não me dava nada. Um sujeito que regula tão acertado com as leis dos tratamentos deve correr igual pontualidade com os seus relogios. Mas elle não sabia que eu, desde 1862, sou marquez, agraciado por sua magestade negra, D. Jacintha I, rainha do Congo, muito minha senhora e ama, que Deus conserve. Além d'isso o alvará de 20 de junho de 1764 manda dar senhoria a mais alguem; por exemplo: ao abbade de Alcobaça e ao seu substituto. O relojoeiro, para quem a extincção das ordens religiosas não era novidade, nem equivocando-se com a minha presença prelaticia, me confundiu com o geral dos bernardos!
Seja como fôr, convém que as pessoas vezadas á excellencia se apercebam de conformidade para o caso possivel de se encontrarem com o citado relojoeiro severo em tratamentos.
V. exc.ª sabe de certo por pessoas doutas e tementes a Deus, que eu sou um grandissimo impio, peiorado agora com minha nesga de petroleiro.
A. HERCULANO.
Devo aqui contar ao leitor como conheci o carrasco[29].
Elle (l'histoire) enseigne qu'une âme pêse infiniment plus qu'un royaume, un empire, un système d'états, parfois plus que le genre humain.
De quel droit? du droit de Luther, qui, d'un Non dit au pape, à l'Eglise, à l'Empire, enlève la moitié de l'Europe.
Du droit de Cristophe Colomb, qui dément et Rome et les siècles, les conciles, la tradition.
Du droit de Copernic, qui, contre les doctes et les peuples, méprisant à la fois l'instinct et la science, les sens même et le témoignage des yeux, subordonna l'observation à la Raison, et seul vainquit l'humanité.
MICHELET.
Levantei-me cedo para esperar o carrasco.
Luiz «o Negro» nascera no lugar de Capelludos d'Aguiar, freguezia de S. João Baptista, e comarca de Villa Pouca de Aguiar, a sete de maio de mil oitocentos e seis.
Entravamos, então, n'uma das mais dolorosas épocas da nossa historia moderna. Adejavam por sobre a peninsula as aguias do imperio, e rasgando o vôo iam penetrar nas nossas fronteiras. Queria o ambicioso da Corsega, como um dos conquistadores do paiz da aurora, açoutar as vagas indomitas e enfurecidas do oceano nas extremas do occidente.
Napoleão ia decretar, no seu olympo de Fontainebleau, que a dynastia de Bragança cessára de reinar, e sentia-se já, pelo silencio da noite, o ruido pavoroso da marcha compassada dos legionarios das Gallias.
Se os Braganças, como os patricios da velha Roma, tivessem esperado o Brenno moderno, sentados nas cadeiras curues, na omnipotencia augusta do Lacio!...
Não esperaram! Fugiram apavorados e... nervosos, para além do Atlantico. Deus lhes perdôe.
Chego a crêr—o Eterno se amerceie de mim se erro—que esta absurda e ephemera conquista foi a alvorada da liberdade em Portugal.
Receio pouco que me alcunhem, agora, de jacobino ou afrancezado. O anathema actual macúla, fere e extermina sómente, n'estas horas d'angustia afflictiva e demorada para toda a democracia europêa, os alcunhados defensores, aqui, da fusão iberica e do cantonalismo peninsular. Para todos os outros heresiarchas ha perdão nos amplos recintos da politica orthodoxa. Os Mac-Mahons e Serranos nasceram para edificação das monarchias. Substituiram os Lafayettes e Monks de todos os tempos.
Para serem apedrejados e expostos ás ignaras vaias da multidão temos nós Victor Hugo e Garibaldi no nosso seculo.
Christo, em Jerusalem, antes de suppliciado, percorreu as ruas vergando sob o lenho do seu proprio supplicio.
Assim seja—até que o verbo esplendido da democracia surja como luzeiro da redempção da humanidade.
Os phariseus de todas as épocas teem sempre uma accusação adrede, para extinguirem a luz da alma nos homens do futuro.
É antiquissima e vetusta usança injuriar os espiritos elevados e prescientes de todos os tempos, infamando-os com os epithetos, que o seculo detesta e abomina, para os crucificar, sem dôr nem piedade, e entregal-os, depois, á irrisão da gentalha, e á execração immorredoura dos vindouros.
É esta a lenda de Christna e de Bouddha no Oriente, de Socrates em Athenas, dos Gracchos e de Spartaco em Roma, de Christo e dos apostolos em Jerusalem, de João Huss e de Jeronymo de Praga na Allemanha, de Savonarola em Florença, e de todos os reformadores da humanidade—desde Abel, se aceitamos o mytho biblico, até ao ultimo pastor das Cevennas, e até ao derradeiro Karl Marx das sociedades modernas.
Convem estudar a época em que nasceu o carrasco.
Depois o ouviremos.
Os tres estados eram a base da nossa organisação politica e social: clero, nobreza e povo. Todavia, elementos preponderantes eram os dous primeiros. Vivia e medrava o povo como machina. Trabalhava, suava e mourejava para alimentar e enriquecer o sacerdocio e a nobreza. Nas horas de perigo, no momento das grandes luctas apparecia como comparsa, enfileirava-se nos córos das supremas tragedias, e morria na obscuridade de legião, no completo desprezo da sua insignificancia. Acclamava o mestre de Aviz, cahia desconhecido e ignorado nos areaes d'Africa, passava desapercebido, para as chronicas, nos galeões da India, e nos recontros e batalhas figurava pela força numerica, como hoje se designam nos mappas de brigada as forças vivas de qualquer regimento ou batalhão. Afóra estes lances era a plebe, era a villanagem, era a mó do povo, era a peonagem, era o numero.
Na vida campestre emparelhava com o boi, dormia ao lado do rebanho, inventariava-se entre as alfaias da officina rural—era a força empregada no impulso da enxada, era o guia do arado, era, finalmente, a machina, que desbravava a charneca, que enxugava o paúl, que roçava o matagal basto e espesso, que Semeava o terreno lavrado pelo seu esforço, e que, mais tarde, colhia e arrecadava o fructo.
Na sociedade urbana era o operario—mal ensinado, parcamente retribuido, entregue a si e aos seus proprios e escassos recursos, sem lição, sem exemplos, sem estimulos, sem auxilio, e sem mercado vasto e animado para os productos da sua industria.
O commercio de grosso tracto, monopolisado entre algumas dezenas de capitalistas e armadores, vivia fóra da acção productiva do paiz, como n'um eden de bemaventurança, onde a entrada era vedada a profanos.
Desde a casa da India até á casa dos vinte e quatro era longa a historia das prerogativas e privilegios de classe n'esta nação algemada—exclusivismo absurdo da mais inexperiente e ignara administração politica, economica e social.
E o povo vivia assim—submisso e reverente—porque as misericordias, irmandades, e ordens monasticas de todas as categorias e religiões adoçavam a miseria publica com o caldeirão da sopa fradesca, generosamente offerecido na portaria do mosteiro. Ensinava-se oficialmente um povo inteiro a ser mendigo. Era esta a vida economica e social de toda a peninsula.
Decretava-se a mendicidade como dogma. Eram o pauperismo, a ociosidade e a degradação humana nobilitados pela Igreja. E nos amplos e lageados claustros e escadarias do cenobio havia aula publica de abjecção, de humildade ignobil, de torpe vagabundagem e de crimes até. O fanatismo religioso nunca desadorou a Calabria, a Floresta negra, e a Serra-Morena. Que o digam as offertas ás madonas de Italia.
Viviamos assim.
E por isso os nossos monarchas se appellidavam fidelissimos perante a curia do Vaticano, e gozava de pragmaticas rituaes a Igreja lusitana, que só eram permittidas na sé apostolica de Roma.
Com as fogueiras da inquisição e a esmola aviltante, distribuida no peristylo do templo, alcançáramos tudo: destruiramos e aniquiláramos a raça heroica da peninsula ibérica.
Louvado seja Deus! A expulsão de judeus e mouros, a fogueira inextinguivel do catholicismo, e a esmola aviltante e hypocrita d'um clero hediondo, devasso e fanatico, assemelhava-nos, na torpeza, no aviltamento, e no cretinismo da fórma ás colónias jesuiticas do Paraguay.
A semelhança das evoluções communaes, que, pouco a pouco, foram erguendo e levantando o poderoso collo da burguezia em toda a Europa—quiz o marquez de Pombal, nos vastos designios da sua potente administração, crear e estabelecer, aqui, a classe média.
Baldado empenho.
A morte do ministro valido de D. José I deixou, em profunda anemia, o vigoroso e energico elemento social, que elle intentára crear.
Expulsáramos os sarracenos tão tarde, organisáramo-nos, como nação, em época tão proxima, que sem termos soffrido os vexames do feudalismo, não creámos, tambem, a classe, que mais arcou com elle, e que o assoberbou e venceu.
Temos sido sempre o echo remoto e longiquo das luctas sociaes, politicas e economicas da Europa.
Ao passo que a communa, originada no municipio romano, sahia das trevas da meia idade, depois das cruzadas e das luctas feudaes dos grandes vassallos, caminhando tenazmente por entre os recifes dos direitos senhoriaes e do poder real até chegar, em França, á revolução de 1789, e affirmava, sem mais contestação possivel, os legitimos direitos do terceiro estado—entre nós a burguezia, a classe média foi sempre uma creação ephempra, uma entidade sem solidez nem significação valiosa, e tanto assim que, depois das luctas constitucionaes, quando triumpharam alguns dos principios liberaes, pouco a pouco, a parte mais opulenta, mais rica, mais dinheirosa d'essa creação ficticia ennobreceu-se, afastou-se com desdem e desprezo da sua propria classe—se classe era—buscando no luzimento e esplendor das armarias e librés um marco divisorio, que a separasse para todo o sempre dos seus irmãos no trabalho. E os grupos restantes, menos abastados, menos felizes, e menos poderosos, pelos haveres, mergulharam, por instincto, educação e costumes, no seio da plebe onde existem e jazem, quaesquer que sejam as vaidades com que pretendam esconder esta communhão de interesses, habitos e sentimentos.
É doloroso dizel-o, mas embora: aceitemos os acontecimentos como são. A revolução de 1832 e 1833 em Portugal, em presença da sciencia, não só não foi uma revolução social, mas nem sequer foi uma profunda revolução politica em todo o rigor do vocabulo.
Foi uma guerra de successão a um throno contestado por dous irmãos, que se reputavam ambos legitimos, cercados de partidarios com interesses e direitos offendidos, e em que um dos pretendentes—o mais habil, senão o mais feliz—soube crear sympathias heroicas e indestructiveis dedicações, appellando para a corrente das idéas do seu seculo, e alcançou captivar as almas generosas, outorgando uma carta constitucional, simulacro de liberdades, que não prenderam nem limitaram—como o não tem feito—o exercicio constante e absoluto do poder e governo pessoal.
Podem-me contestar uma tão resumida e rapida exposição. Os factos, porém, não deixarão desmentir estas verdades.
Nas luctas de 1833 achava-se a nobreza antiga, a nobreza de sangue dividida nos dous campos, pelejando em fileiras diversas, e por vezes inimiga no seio dos proprios solares. Todavia não era a diversidade de crenças, nem a sinceridade das convicções, que a traziam, assim, desavinda e odienta. Era o egoismo dos interesses perdidos, era o ciume do valimento ou o odio pelos desprezos da corôa, era o orgulho de preeminencias e prerogativas nas familias titulares, eram as desconsiderações dos seus pares, sentidas, e cuidadosamente legadas, que iam passando, no mysterio dos tombos e cartorios, com a successão dos vinculos por diversos reinados, eram vinganças sumidas e occultas por entre os pergaminhos de raça, e todas estas ruins paixões, todas estas heranças em que o amor proprio e a soberba dos avós, que se transmittia aos netos, achou, na lucta dos dous principes, respiradouro por onde se expandisse e rebentasse a explosão.
Foi assim.
Como casta, as crenças eram as mesmas. Se a palavra augusta de crença póde ter cabida onde se falla de orgulho inexoravel, de implacaveis interesses, e onde germina o desprezo inveterado e profundo por tudo e por todos, que não descendem d'avós, já nobilitados, nos seculos undecimo e duodecimo da nossa modernissima monarchia.
Os reis podem fazer nobres, mas não teem poder para crear fidalgos.» Estas palavras, nascidas da orgulhosa colera d'um adversario puritano da fórma politica actual, explicam á nobreza moderna—se ella sabe meditar—como são sinceros e affectuosos os afagos e blandicias com que a antiga aristocracia a trata e recebe. Fica escripto por uma vez: o ultimo filho segundo d'uma casa secular, ainda o mais empobrecido, e o mais privado de intelligencia, será sempre estimado, pela sua casta, acima de todos os genios, e de todas as illustrações do seu seculo.
Foi a experiencia, talvez, d'estas justas considerações, que, nos salões de Luiz XVIII, levou um dos mais illustres marechaes do imperio a dizer a um fidalgo do exercito de Condé: «Eu sou o meu proprio antepassado.»
A nobreza antiga, com excepções rarissimas de que me não occupo agora, queria liberdades e garantias—queria; mas exigia-as dentro do circulo da sua casta, requeria-as para si e para os seus.
Fóra d'esta linha divisoria, d'este limite sagrado só via a plebe. Direitos, faculdades e poderes originavam-se no numero dos avós. Quem não tinha ascendentes conhecidos e nobilitados não era pessoa juridica, não era homem: vivia á mercê da misericordia infinita da nobreza. Triste situação era esta! Mas era assim.
Rezam as lendas ou as chronicas, que uma nobre dama da côrte dos Valois não escrupulisava despir-se diante dos seus lacaios, segundo o dizer de Brantôme. Que importava a sensualidade da gentalha! N'este esquecimento e desdem, pela plebe, vivia a aristocracia portugueza, na contemplação de si mesma, como o Zeus dos indus na vasta cosmogonia do Oriente.
O vulgo, a populaça era a machina posta ao serviço do fidalgo.
Terminada a lucta da successão começaram a recuar, nos seus esforços patrioticos, muitos dos nobres, que militavam nas fileiras populares.
Era de prevêr.
Os factos consummados tinham mais força do que todas as aspirações, e cegos desejos da nobreza—que se dizia liberal.
Espiritos pouco previdentes, por nenhuma fórma habituados a estudos sociaes, inexperientes em todos os actos da vida civil, creados no desprezo e desconhecimento do trabalho, que, accumulado, produz a riqueza publica, esperavam encontrar, na côrte do imperador, as tenças realengas, obtidas, pelos serviços, que só não são estereis para a lisonja, imaginavam conservar, como monopolio das suas casas solarengas, os cargos hereditarios, os empregos vitalicios, as patentes no exercito, sem habilitações obrigadas para as exercer, e os lugares privativos e rendosos em todas as ordens militares e religiosas.
A carta constitucional poderia tornar-se letra morta. Demais, a nobreza não tivera tempo para estudar foraes, nem cartas de alforria. A aristocracia estava habituada a vêr derogar leis do reino por provisões regias. Para alguma cousa deviam servir os poderes magestaticos.
Mas quando os acontecimentos vieram, nos primeiros assomos d'enthusiasmo, desmentir estas esperanças, e deram começo á obra de destruição das velhas instituições, em que andamos todos empenhados—foi, então, que se descerrou a venda de olhos tão poucos perspicazes, e a nobreza viu, com pasmo inaudito, que suppondo-se ella, só ella, o engenheiro, que dispára as catapultas, empregadas pelas facções—era, apenas, a singela alavanca, posta nas mãos dos homens do povo, e que estes apontavam e dirigiam a seu talante e sabor.
O clero, na sua maioria, na força viva da sua organisação—esse, não se deixou illudir.
Só podia estar ao lado da reacção—e, por isso, esteve.
E á medida que os factos se vão desenrolando, que novas crenças e novas idéas transformam as sociedades—o clero acompanha sempre os partidos retrogados, senta-se junto do passado, afaga-o, anima-o, protege-o, defende-o, por vezes alimenta-o, e arrasta-o, depois—até á vertigem e ao delirio.
Quando hirto e inanimado jaz como cadaver sepulta-o, na indifferença do mais torpe egoismo, e vem á beira do circo, onde se degladiam os homens, que outr'ora foram irmãos, e que as leis do progresso já dividiram em bandos oppostos—busca, ahi, a phalange reaccionaria, a que estacionou, a que receou caminhar, fascina-a, pela mesma fórma, apodera-se d'ella, envolve-a na infinita rede, e nos tenebrosos tramas do seu sinistro mysticismo, até que uma nova evolução social, por seu turno, despedace este elo historico, e o arremesse para a noite dos tempos.
É por isso que o povo, na grandeza dos seus instinctos, e nos periodos solemnes das suas transformações—quando as leis inexoraveis, que regem a humanidade o impellem e obrigam fatalmente a caminhar—encontra-se só, entregue ás suas proprias forças, e ao luzeiro do seu destino.
Os chacaes, as hyenas, e os corvos vem, depois, pela calada da noite, devorar, no silencio das trevas, os cadaveres dos que pereceram nos campos da peleja.
Mais tarde aboliram-se as communidades religiosas, annullaram-se as doações dos bens da corôa e ordens, quebraram-se todos os privilegios e collocações obrigadas na magistratura, na Igreja, na administração publica e no exercito, cercearam-se os lugares do paço, simplificaram-se as leis dos foraes, abriram-se tribunaes communs para todos os cidadãos, creou-se um systema uniforme de julgar, acabando com as provisões regias, fóros privativos, e decisões especiaes, finalmente a nobreza conservou os titulos e os cargos honorarios, mas ficou igualada em direitos e deveres a todos os outros homens.
O imperante perdera—pelo menos na apparencia—o moto proprio e a sciencia certa, com que representava a divindade, entregando aos poderes consignados, na carta, a harmonia da vida constitucional.
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Quando o relógio da cadêa dava nove horas, entrava, no meu quarto, um fachina das salas do Limoeiro com o manuscripto do carrasco. Elle não podia vir. Sentia os primeiros symptomas da enfermidade de que morreu.
Escreveu-me um bilhete, que ainda conservo. Dizia-me que viria, mais tarde, saber o que eu pensava da sua vida tão dolorosa e tão angustiada.
Conservo o bilhete e o manuscripto.
Vou confiar ao leitor os segredos d'alma d'esta existencia excruciante e afflictiva, que pereceu no fundo d'uma enxovia.
VISCONDE DE OUGUELLA.