No dia 8 de outubro reuniu-se a commissão em casa do
presidente
Barbicane, rua da Republica n.º 3, e como fosse de
grande
importancia que as exigencias do estomago não viessem a
perturbar tão grave discussão, sentaram-se os
quatro socios do Gun-Club em volta de uma mesa coberta de
bandejas de sandwiches e de amplos bules de chá. Em seguida
atarraxou J.-T. Maston a
pena no gancho de ferro que lhe servia de mão direita e
abriu-se a
sessão.
O canhão da ilha
de Malta (pag. 63).
Barbicane encetou a discussão pela seguinte
fórma:
«Caros collegas, temos de resolver um dos problemas mais
importantes da balistica, a sciencia por antonomasia, a que trata do
movimento dos projectis, isto é, dos corpos arremessados ao
espaço, por uma força de impulsão
qualquer e depois
abandonados a si proprios.
--Ai! balistica! balistica! exclamou J.-T. Maston em tom commovido.
--Talvez parecesse mais logico, proseguiu Barbicane, dedicar esta
primeira sessão á discussão do
machinismo...
--E na verdade, interrompeu o general Morgan.
--Todavia, continuou Barbicane, depois de reflectir maduramente,
pareceu-me que o assumpto projectil devia ter primazia sobre o assumpto
canhão, e que as dimensões
d'este deveriam depender das d'aquelle.
--Peço a palavra, gritou J.-T. Maston.
Foi-lhe concedida a palavra com a boa vontade de que se tornava
merecedor pelos seus magnificos antecedentes.
«Meus bons amigos, disse Maston, em tom de
inspiração, o nosso presidente tem
rasão em dar a primazia ao assumpto
projectil sobre todos os outros! A bala que ora vamos arremessar
á Lua é um mensageiro, um embaixador, e
dêem-me
licença que a considere pelo lado puramente
moral.»
Esta maneira nova de encarar um projectil excitou singularmente a
curiosidade dos membros da commissão; todos se prepararam
para prestar a mais solícita attenção
ás palavras de J.-T. Maston.
«Caros collegas, proseguiu este; serei breve, porei de parte
a bala physica, a bala que mata, para considerar sómente a
bala
mathematica, a bala moral. Para mim a
bala é a mais
esplendida manifestação do poder do homem; na
bala resume-se
este poder todo inteiro, e foi quando a inventou que o homem mais se
approximou do Creador!
--Muito bem! disse o major Elphiston.
--E na verdade, exclamou o orador, se Deus fez as estrellas e os
planetas, o homem fez a bala, que é o
criterium das velocidades terrestres e uma
imitação, em menores
proporções, dos astros que erram no
espaço, que não
são mais do que outros tantos projectis! Pertence a Deus a
velocidade da electricidade, a Deus a velocidade da luz, a velocidade
das estrellas, a velocidade dos cometas, a velocidade dos planetas, a
velocidade dos satellites, a velocidade do som, a velocidade do vento!
Mas a nós os homens a velocidade da bala, cem vezes superior
á velocidade
da locomotiva ou do mais rapido corcel!»
J.-T. Maston estava exaltado; entoando á bala este hymno
sagrado, percebiam-se-lhe na voz inflexões lyricas.
«Querem algarismos? proseguiu elle; ei-los, e que fallam bem
alto! Olhem simplesmente a modesta bala de vinte e quatro
[33], que corre
oitocentas mil vezes menos veloz que a electricidade, seiscentas e
quarenta mil vezes menos veloz que a luz, setenta e seis vezes menos
veloz que a Terra, no movimento de
translação em volta do Sol, e que todavia, quando
sáe do
canhão, excede em rapidez o som
[34],
anda 200 toezas em cada
segundo, 2:000 toezas em 10 segundos, 14 milhas (6 leguas) em cada
minuto, 840 milhas (360 leguas) por hora, 27:100 milhas (8:640 leguas)
por dia, ou, o que vale o mesmo, 7.336:500 milhas (3.155:760 leguas)
por anno, velocidade igual á dos pontos do equador no
movimento
de rotação do globo. Gastaria portanto 11
dias para ir á Lua, 12 annos para chegar ao Sol, 360 annos
para alcançar
Neptuno, situado no extremo limite do mundo solar. Eis o que fazia
tão modesta bala, producto de mãos humanas! Que
será quando vintuplicando-lhe a velocidade, a arremessarmos
com a velocidade de 7 milhas por segundo! Ah! soberba bala! esplendido
projectil! Exulto em acreditar que has de ser recebida lá em
cima com todas as honras devidas a um embaixador terrestre!»
Com repetidos hurrahs applaudiram os auditores esta altisonante
peroração, e J.-T. Maston sentou-se extremamente
commovido e recebendo felicitações de todos os
collegas.
«E agora, disse Barbicane, que já demos largas
á poesia, atiremo-nos directamente ao assumpto.»
--Estamos promptos, responderam os membros da commissão,
absorvendo ao mesmo tempo meia duzia de sandwiches por
cabeça.
--Já tendes conhecimento do problema que temos de resolver,
continuou o presidente; trata-se de imprimir a um projectil uma
velocidade de 12:000 jardas por segundo.
«Tenho rasões para acreditar que havemos de
conseguir bom resultado. Mas, por agora, limitemo-nos a examinar as
velocidades obtidas até hoje; o general Morgan
póde
instruir-nos cabalmente a este respeito.
--E com tanta maior facilidade, respondeu o general, que, durante a
guerra, fui eu membro da commissão de experiencias.
Dir-vos-hei, pois, que os canhões de cem de Dahlgreen, cujo
alcance era de 2:500 toezas, imprimiam ao projectil respectivo a
velocidade inicial de 500 jardas por segundo.
--Bem. E a Columbiada
[35]
Rodman, perguntou o presidente?
--A Columbiada Rodman, ensaiada no forte de Hamilton, proximo a New
York, arremessava uma bala, que tinha de peso meia tonelada,
á distancia de 6 milhas, com a velocidade de 800
jardas por segundo, resultado este a que nunca chegaram, nem Armstrong,
nem Palisser, em Inglaterra.
--Oh! os inglezes! murmurou J.-T. Maston, apontando para o horisonte
leste com o temivel gancho.
São portanto essas 800 jardas o
maximum de velocidade, proseguiu Barbicane, que se
tem podido obter até hoje?
--É verdade, respondeu Morgan.
--Todavia, replicou Maston, sempre devo dizer, que, se o meu morteiro
não tivera rebentado...
--Pois sim, mas rebentou, redarguiu Barbicane, acompanhando a resposta
com um gesto amigavel. Tomemos pois por ponto de partida a velocidade
de 800 jardas. Ha de ser necessario
vintuplica-la, e n'estes termos, guardando para outra sessão
o estudo dos meios proprios para produzir tal velocidade, chamarei a
vossa attenção, caros collegas, para as
dimensões que convem dar á bala.
Bem deveis imaginar que no caso presente não
tratâmos de projectis que pesem quando muito meia tonelada.
--E porque? perguntou o major?
--Porque a bala que estamos discutindo, respondeu promptamente J.-T.
Maston, deve ser bastantemente volumosa para solicitar a
attenção dos habitantes da Lua, se é
que lá os ha.
--É verdade, redarguiu Barbicane, e tambem por
outra rasão ainda mais importante.
--E qual é ella, Barbicane? perguntou o major.
--É que não me parece bastante mandar um
projectil á Lua, e ficar só n'isso; julgo
necessario que o acompanhemos durante
a viagem e até ao momento de bater no alvo.
--O que! disseram a um tempo. O
general e o major, um tanto surprehendidos com a proposta.
--Certamente, continuou Barbicane, como quem está conscio do
que diz, de certo, e senão a nossa experiencia
não produziria resultado algum.
--Mas n'esse caso, replicou o major, haveis de dar ao projectil
dimensões enormes?
--Nada. Ora tende a bondade de ouvir-me. Sabeis todos que os
instrumentos de optica têem alcançado um
elevado grau de perfeição; com certos telescopios
tem-se conseguido obter augmentos de seis mil por um e trazer assim a
Lua á distancia
proximamente de 40 milhas (16 leguas). Ora a esta distancia
são
distinctamente visiveis os objectos que têem 60
pés de lado. E se
não se tem levado mais longe o poder de augmento dos
telescopios é que a
amplificação cresce na rasão inversa
da clareza, e porque a Lua, que não é
senão um espelho de
reflexão, não emitte luz bastante intensa para
que possa admittir amplificações que
vão alem do limite que indiquei.
--E então! que fazer? perguntou o general. Haveis de dar ao
vosso projectil 60 pés de diametro?
--Certamente que não!
--Tereis então de tornar a Lua mais luminosa?
--Justamente.
--Isso lá me parece muito! exclamou J.-T. Maston.
--É muito é verdade, mas muito simples, respondeu
Barbicane. Com effeito se eu conseguir que diminua a espessura da
atmosphera que a luz da Lua atravessa, acaso não terei
tornado essa luz mais intensa!
--Evidentemente.
--Pois bem! Para obter tal resultado bastar-me-ha estabelecer um
telescopio em alguma montanha elevada. E é o que havemos de
fazer.
--Basta, rendo-me, respondeu o major. Tendes uma tal maneira de
simplificar as cousas!
--E que amplificação esperaes obter por tal
expediente?
--Uma amplificação de quarenta e oito mil por um,
que ha de trazer-nos a Lua a cinco milhas de distancia. N'esta
hypothese
bastará que qualquer objecto tenha nove pés de
lado para que seja perfeitamente visivel.
--Perfeitamente! exclamou J.-T. Maston, o nosso projectil ha de
portanto ter nove pés de diametro?
--Nem mais nem menos.
--Todavia, permittam-me que lhes diga, redarguiu o major Elphiston, que
ainda assim o projectil ha de ter um peso tal que...
--Oh! major, respondeu Barbicane, antes que discutamos o peso do
projectil consenti que vos diga que nossos paes faziam n'este genero
cousas realmente maravilhosas. Longe de mim a idéa de
affirmar que a balistica não tem
progredido, mas bom é que se saiba que já na
idade media se obtinham resultados
surprehendentes; ousarei até acrescentar, mais para
surprehender que os que nós hoje
alcançâmos.
--Ora essa! replicou Morgan.
--Justificae o que affirmaes, exclamou com vehemencia J.-T. Maston.
--Nada mais facil, respondeu Barbicane; sobram-me os exemplos para
apoiar o que asseverei. Assim, no assedio de Constantinopla por Mahomet
II, em 1543, lançaram-se balas de pedra que pesavam mil e
novecentas libras, e que deviam ser de bonito tamanho.
--Oh! oh! disse o major, mil e novecentas libras, é
já um algarismo elevado!
--Em Malta, no tempo dos cavalleiros, um certo canhão do
forte de Sant'Elmo arremessava projectis que pesavam duas mil e
quinhentas libras.
--Parece impossivel!
--Finalmente, segundo diz um historiador francez, no reinado
de Luiz XI, havia um morteiro que
lançava bombas do peso
sómente de quinhentas libras; em
compensação estas
bombas, partindo da Bastilha, logar onde os loucos encarceravam os de
espirito são, iam cahir em Charenton, logar onde os de
espirito
são encarceravam os loucos.
--Muito bem! disse J.-T. Maston.
--E depois do que acabo de relatar, em summa, que temos visto? Os
canhões de Armstrong que arremessam balas de
quinhentas libras, e as Columbiadas Rodman projectis de meia tonelada!
O que parece, portanto, é que se os projectis ganharam em
velocidade, perderam pelo menos em peso. Se dirigirmos pois n'este
sentido os nossos esforços, havemos de conseguir, com
o auxilio dos progressos da sciencia decuplicar o peso das balas de
Mahomet II e dos cavalleiros de Malta.
--Evidente, respondeu o major, mas que metal pensaes em empregar para
compor o projectil.
--Ferro fundido, nada mais, disse o general Morgan.
--Ora! ferro fundido! exclamou J.-T. Maston com profundo desdem,
é cousa bem ordinaria para fabricar uma bala
destinada a ir á Lua.
--Nada de exagerações, honrado amigo, respondeu
Morgan; ferro é quanto basta.
--E então! replicou o major Elphiston; olhem que sendo o
peso da bala proporcional ao seu volume, uma bala de ferro fundido que
tenha nove pés de diametro ha de ainda ter um tal peso que
mette medo!
--Assim será, se for massiça, mas não
se for oca, disse Barbicane.
--Oca! então é um obuz?
--Onde podem metter-se correspondencias, replicou J.-T. Maston, e
amostras das producções terrestres!
--Sim, um obuz, respondeu Barbicane, assim é absolutamente
necessario; uma bala
massiça de cento e oito pollegadas
pesaria mais de duzentas mil libras, peso evidentemente excessivo;
todavia como julgo necessario guardar as
condições de
estabilidade na construcção do projectil,
proponho que se lhe
dê o peso de cinco mil libras.
--Qual ha de ser então a grossura das paredes? perguntou o
major.
--Se nos cingirmos á proporção
indicada nos regulamentos, continuou Morgan, ao diametro de cento e
oito pollegadas correspondem paredes de dois pés de
espessura, pelo menos.
--Seriam grossas de mais, respondeu Barbicane; notem bem, que se
não trata aqui de uma bala fabricada para furar
couraças; basta que a bala tenha paredes sufficientemente
fortes para resistir á pressão dos gazes da
polvora.
O problema portanto é este: qual é a espessura
que deve ter um obuz de ferro fundido para que não pese mais
de vinte mil
libras?
O nosso habil calculador e bom amigo Maston no-lo dirá sem
demora.
--Muito facilmente, replicou o honrado secretario da
commissão.
E quando tal dizia ia já traçando no papel
algumas formulas algebricas; viram-se-lhe sair dos bicos da pena
π e
x elevados ao quadrado.
Pareceu até
que, sem lhe pôr a
mão, extrahia, uma certa raiz cubica, e disse:
«As paredes hão de ter apenas duas pollegadas de
grossura.»
--E será bastante?perguntou o major, com ares de quem
duvida.
--Não, respondeu o presidente Barbicane, é claro
que não.
--E então! que se ha de fazer? continuou Elphiston com ares
de grande irresolução.
--Servir-se de outro metal e não do ferro fundido.
--Do cobre? disse Morgan.
--Nada, o cobre ainda é pesado demais, e tenho para vos
propor cousa melhor.
--Então que é? disse o major.
--O aluminium, respondeu Barbicane.
--Aluminium! exclamaram os tres collegas do presidente.
--Certamente amigos meus. Sabeis que um illustre chimico francez,
Henry-Sainte-Claire-Deville, conseguiu em 1854 obter o aluminium em
massa compacta. Ora este precioso metal tem a brancura da prata, a
inalterabilidade do oiro, a tenacidade do ferro, a fusibilidade do
cobre e é leve como vidro;
modela-se com facilidade, está espalhado com
profusão na
natureza, visto como a alumina é base da maior parte das
rochas, é
tres vezes mais leve que o ferro, e parece ter sido expressamente
creado para fornecer-nos materia para o nosso projectil.
--Hurrah pelo aluminium! exclamou o secretario da commissão,
sempre extremamente ruidoso nos momentos de enthusiasmo.
--Mas, caro presidente, disse o major, não será
extremamente elevado o preço do aluminium?
--Assim era, respondeu Barbicane; nos primeiros tempos depois que foi
descoberto, custava a libra do aluminium entre duzentos e sessenta e
duzentos e oitenta dollars (approximadamente 1.500 francos
[36]); depois
desceu a vinte e sete dollars (150 francos), e hoje finalmente,
está a nove dollars (48 francos e 75
centesimos).
--Mas a nove dollars por libra, replicou o major, que não
cedia á primeira, vem a dar ainda um preço
enorme!
--Sem duvida, caro major, mas não inaccessivel.
--E, n'esse caso, qual ha de ser o peso do projectil? perguntou Morgan.
--O resultado dos meus calculos é o seguinte, respondeu
Barbicane: uma bala de cento e oito pollegadas de diametro e de doze
pollegadas de espessura
[37],
pesaria, no caso de ser de ferro fundido,
sessenta e sete mil quatrocentas e quarenta libras; sendo de aluminium
fundido, o seu peso ficará reduzido a dezanove mil
duzentas e cincoenta libras.
--Muito bem! exclamou Maston, isso agora já cabe no nosso
programma.
--Muito bem! Muito bem! Mas acaso ignoraes, que a dezoito dollars por
libra, esse projectil havia de custar-nos...
--Cento e setenta e tres mil duzentos e cincoenta dollars (928:437
francos e 50 centesimos), sei-o muito bem; mas não
se assustem amigos, não ha de faltar dinheiro para a
realisação do nosso projecto; por isso respondo
eu.
--Ha de chover dinheiro nos nossos cofres, replicou J.-T. Maston.
--Então! que me dizem ao aluminium!
perguntou o presidente.
--Está adoptado, responderam os tres membros da
commissão.
--Quanto á fórma da bala, proseguiu Barbicane,
pouca importancia tem, visto como, logo que o projectil passe para alem
da atmosphera, ha de achar-se no vacuo, proponho portanto, que seja
redonda, para que gire sobre si mesmo, se o julgar conveniente, ou se
porte como melhor lhe ditar a phantasia.
Foi este o fecho da primeira sessão da commissão;
ficou definitivamente resolvida a questão do projectil, e
J.-T. Maston exultou com a idéa de mandar aos Selenitas uma
Bala de aluminium «que havia dar-lhes a entender que os
habitantes
cá da Terra eram uns pimpões!»
CAPITULO VIII
HISTORIA DO CANHÃO
As resoluções tomadas na primeira
sessão produziram grandissimo effeito no publico. Algum mais
timorato lá se assustava com a idéa da bala que
havia de pesar vinte mil libras.
Punha-se em duvida se poderia construir-se canhão capaz de
transmittir velocidade inicial bastante a uma massa d'aquella ordem.
A acta da segunda sessão da commissão devia
responder triumphantemente a todas aquellas duvidas.
No dia seguinte ao cair da noite abancaram em volta da mesa os quatro
membros do Gun-Club defrontando com novas montanhas de sandwiches que
marginavam um verdadeiro oceano de chá. Atou-se o fio
á discussão, e
d'esta vez sem preambulo.
«Caros collegas, disse Barbicane, vamos occupar-nos do
machinismo que ha a construir, estudando-lhe o comprimento, a
fórma, a composição e o peso.
É provavel que
havemos de concluir dando-lhe dimensões gigantescas; mas,
por maiores que sejam as difficuldades, o engenho industrial dos
americanos ha de vence-las com facilidade. Queiram portanto ouvir-me, e
não me poupem, venham objecções
á queima roupa, que
as não temo!»
Estas palavras foram recebidas com um grunhido de
approvação.
«Não esqueçamos, proseguiu Barbicane, a
altura a que fomos levados hontem pela discussão:
apresenta-se-nos agora o
problema nos seguintes termos: imprimir a um obuz de cento e oito
pollegadas de diametro, e que pesa vinte mil libras a velocidade
inicial de doze mil jardas por segundo.
Com effeito, é exactamente esse o problema, respondeu o
major Elphiston.
Prosigamos, tornou Barbicane. Que factos se passam, quando um projectil
é arremessado ao espaço? Tres
forças independentes o solicitam, a resistencia do meio, a
attracção
da Terra, e a força de impulsão que lhe
imprimiram. Examinemos estas tres
forças. A resistencia do meio, que aqui é a
resistencia do ar, ha de
ser de pouca importancia; porque a atmosphera terrestre não
tem mais de quarenta milhas (16 leguas proximamente) de altura. Ora,
com a rapidez de doze mil jardas, o projectil ha de atravessa-la em
cinco segundos, tempo bastantemente curto para que a resistencia do
meio possa ser considerada insignificante. Passemos á
attracção da Terra, ou o que vale o
mesmo á acção da gravidade sobre o
obuz.
Sabemos que o peso d'este ha de decrescer na rasão inversa
do quadrado das distancias. Effectivamente ensina-nos a physica o
seguinte: quando um corpo abandonado a si proprio cáe
á superfície da Terra, desce quinze
pés
[38],
e se o mesmo corpo fosse transportado para a
distancia de duzentos e cincoenta e sete mil quinhentas e quarenta e
duas milhas, ou o que é mesmo,
á distancia a que está a Lua, o seu descenso
ficaria reduzido a meia linha, proximamente, no primeiro segundo. Quasi
que é a
immobilidade. Trata-se portanto de vencer progressivamente a
acção da gravidade. E como havemos de
consegui-lo? Pela força de
impulsão.
--Ahi é que está a difficuldade, respondeu o
major.
--Ahi está, na verdade, continuou o presidente, mas havemos
de supera-la, porque a força de impulsão de que
havemos mister ha de resultar do comprimento do machinismo e da
quantidade
de polvora que empregarmos, e a
verdade é que esta
não tem mais limitação do que a
resistencia d'aquelle.
Tratemos pois hoje das dimensões que havemos de dar ao
canhão. Bem entendido está que podemos
estabelece-lo em
condições de resistencia, por assim dizer,
infinita, visto como com tal canhão não ha a
fazer manobras.
--Tudo isso é evidente, respondeu o general.
--Até agora, disse Barbicane, os canhões de maior
comprimento, as nossas enormes Columbiadas, nunca excederam o
comprimento de vinte e cinco pés, e portanto a muita gente
hão de causar espanto as dimensões que havemos de
ser
forçados a adoptar.
--Eh! indubitavelmente, exclamou J.-T. Maston; pela minha parte
não me contento com menos de meia milha de
comprimento, para o canhão!
--Meia milha! exclamaram o major e o general.
--Meia milha sim! e talvez devesse dizer o dobro.
--Ora vamos, Maston, isso é
exageração.
--Certamente que não, replicou o effervescente secretario,
nem percebo, na realidade, por que me accusaes de exagero.
--Porque ides longe de mais!
--Sabei, senhor, respondeu J.-T. Maston, assumindo os seus mais
imponentes ademanes, sabei que o artilheiro é como a
bala, que nunca vae longe de mais!
Ía a discussão tomando caracter de personalidade,
mas o presidente interveiu.
--Soceguem, amigos, e raciocinemos; evidentemente ha de ser necessario
um canhão de grande tamanho, visto como o
comprimento da peça ha de augmentar a força
expulsiva dos
gazes accumulados sob o projectil; mas é inutil ir alem de
certos limites.
--Muito bem, disse o major.
--Quaes são as regras applicaveis ao caso? De ordinario o
comprimento
do canhão é igual a vinte
até vinte e cinco vezes o diametro da bala, e pesa o
canhão duzentas e trinta e cinco a
duzentos e quarenta vezes o peso d'esta.
--Não é bastante, clamou impetuoso, J.-T. Maston.
--Convenho n'isso, meu digno amigo, e, na realidade, se nos cingirmos
á proporção apontada, para
um projectil de 9 pés de largura e de 30:000 libras de peso,
não terá o
machinismo mais do que 225 pés de comprimento e de 7.200:000
libras de peso.
--É ridiculo, redarguiu J.-T. Maston. Tanto vale usar de uma
pistola!
--Tambem penso assim, respondeu Barbicane, e é por isso que
tenho tenção de quadruplicar esse
comprimento, e de construir um canhão de 900 pés
de comprido.
O general e o major apresentaram algumas
objecções, entretanto a proposta sustentada com
animação pelo
secretario do Gun-Club foi a final definitivamente adoptada.
«Decidido este ponto, disse Elphiston, que espessura havemos
de dar ás paredes?
--Seis pés, respondeu Barbicane.
--De certo que não imaginaes collocar uma massa d'essa ordem
em cima de um reparo? perguntou o major.
--Isso é que havia de ser soberbo! disse J.-T. Maston.
--Mas impraticavel, respondeu Barbicane. Nada, penso que o machinismo
deve ser moldado mesmo no solo, guarnecido de arcos de ferro forjado, e
apertado n'uma obra bem espessa e solida de pedra e cal, por forma que
adquira toda a resistencia do terreno circumdante. Depois de fundida a
peça ha de se lhe brocar, calibrar e polir a alma com
extremo cuidado, para evitar que exista o vento
[39] da bala.
Vista ideal do canhão
de J.-T. Maston (pag.
70).
Por esta fórma não ha de haver perda alguma de
gazes e a força expansiva da polvora transformar-se-ha toda
em
impulsão.
O
monge Schwartz inventando a polvora (
pag. 77).
--Hurrah! hurrah! clamou J.-T. Maston, já temos
canhão.
--Ainda não! respondeu Barbicane, acalmando com o gesto a
impaciencia do amigo.
--E porque não?
--Porque ainda lhe não discutimos a fórma. Ha de
ser canhão, obuz ou morteiro?
--Canhão, replicou Morgan.
--Obuz, redarguiu o major.
--Morteiro, clamou J.-T. Maston.
Nova e vehemente discussão ia encetar-se; cada qual
preconisava já a sua arma favorita, quando o presidente a
interrompeu de prompto, dizendo:
«Meus amigos, vou pô-los a todos de accordo; a
nossa columbiada ha de ter alguma cousa de cada uma das tres
bôcas de fogo indicadas. Ha de ser canhão, por ter
a camara da polvora de
diametro igual ao da alma. Obuz, porque ha de arremessar obuzes.
Finalmente será morteiro, visto como ha de ser apontada por
um angulo de 90°, e que, sem poder recuar, inabalavelmente
ligada ao
solo, communicará ao projectil toda a potencia de
impulsão que se lhe accumular no ventre.
--Adoptado, adoptado, conclamaram os membros da commissão.
--Permittam-me uma simples reflexão, disse Elphiston, ha de
ser raiado esse canh-obuz-morteiro?
--Não, respondeu Barbicane, não;
precisâmos de uma enorme velocidade inicial, e sabeis muito
bem que as balas sáem
menos velozes dos canhões raiados do que dos
canhões de
alma lisa.
--É exacto.
--Até que emfim d'esta vez é que já
temos canhão! repetiu J.-T. Maston.
--Ainda não é tanto assim, replicou o presidente.
--Então porque?
--Porque ainda não sabemos de que metal ha de ser feito.
--Decida-se isso sem demora.
--Era o que eu ia propor-vos».
Cada um dos membros da commissão foi engulindo a sua duzia
de sandwiches acompanhadas de um bule de chá, depois
recomeçou a discussão.
«Meus bons collegas, disse Barbicane, o nosso
canhão deve ter grande tenacidade e grande dureza, e ser
infusivel pelo calor, insoluvel e inoxydavel pela
acção corrosiva dos
acidos.
--Isso não tem duvida alguma, respondeu o major, e como ha
de ser necessario empregar uma quantidade consideravel de metal,
não havemos de hesitar muito na escolha.
N'esse caso, disse Morgan, proponho para a
fabricação da columbiada a melhor das ligas que
é conhecida até
hoje, isto é, cem partes de cobre, doze de estanho e seis de
latão.
--Meus amigos, respondeu o presidente, confesso que esta
composição tem dado excellentes resultados; mas
para o nosso caso, custaria excessivamente cara, e difficilmente
poderiamos emprega-la.
Cuido portanto que devemos adoptar uma materia excellente, e de baixo
preço, tal como o ferro fundido.
Não será esta a vossa opinião, major?
--Exactamente, respondeu Elphiston.
--Com effeito, proseguiu Barbicane, o ferro fundido, custa dez vezes
mais barato que o bronze, é de facil fusão,
molda-se com simplicidade em moldes de areia, manipula-se com rapidez;
dá
pois simultaneamente economia de tempo e de dinheiro. Alem d'isto esta
materia é excellente, e bem me recordo de que,
durante a guerra, no cêrco de Atlanta, algumas
peças de
ferro fundido atiraram cada uma mil tiros de vinte em vinte minutos,
sem que por isso soffressem alteração.
--Todavia, o ferro fundido é muito quebradiço,
respondeu Morgan.
--É verdade, mas tambem é muito resistente, e de
mais asseguro-vos que não havemos de rebentar, por isso
respondo eu.
--Rebentar não é deshonra, replicou em ar de
sentença J.-T. Maston.
--Está claro, respondeu Barbicane. Pedirei portanto ao nosso
digno secretario que nos calcule o peso de um canhão de
ferro fundido, de novecentos pés de comprimento e com um
diametro interior de nove pés, e com as paredes de seis
pés de espessura.
--N'um instante, respondeu J.-T. Maston.
E, assim como fizera na vespera, escrevinhou umas formulas, com
facilidade de pasmar, e disse passado um minuto.
«Esse canhão ha de pesar sessenta e oito mil e
quarenta toneladas (68.040:000 kilogrammas).»
--E a dois centesimos
[40]
(10 centimos) por libra, ha de custar?...
--Dois milhões quinhentos e dez mil setecentos e um dollars
(13.608:000 francos).»
J.-T. Maston, o major e o general olharam para Barbicane com ar de
inquietação.
«E então! Repito-lhes, senhores, o que
já lhes disse hontem, estejam descansados, que os
milhões não nos
hão de faltar.»
Seguros na palavra do seu presidente, separaram-se os membros da
commissão, depois de terem combinado para o dia seguinte a
terceira sessão.
CAPITULO IX
QUESTÃO DA POLVORA
Só faltava tratar da questão da polvora. Esperava
o publico com anciedade esta decisão final. Dados o volume
do
projectil e o comprimento do canhão, qual seria a quantidade
de polvora
necessaria
para
produzir a impulsão? Aquelle agente temivel,
de que o homem, todavia conseguiu dominar e dirigir os effeitos, ia
ser chamado a desempenhar o seu papel habitual, mas em
proporções nunca usadas.
É geralmente acreditado, e diz-se vulgarmente, que a polvora
foi inventada no seculo XIV, pelo monge Schwartz, que pagou com a vida
a grande descoberta que fizera. Mas na actualidade quasi que se
póde dar como provado que esta historia merece ser
classificada a par de muitas outras lendas da idade media. A polvora
ninguem a inventou, deriva directamente dos fogos gregos, como ella
compostos de enxofre e de salitre. A
differença é que os mixtos que em tempos remotos
davam apenas polvora de foguete transformaram-se, com o decorrer dos
tempos, em mixtos detonantes ou polvoras de tiro. Porém se
os eruditos
conhecem perfeitamente a imaginaria historia da
invenção
da polvora, pouca gente ha que saiba devidamente apreciar a sua
potencia mechanica, que é exactamente o que é
necessario
saber para comprehender a importancia do assumpto sujeito á
commissão.
Um litro de polvora pesa, proximamente, duas libras (900 grammas)
[41], e
produz quando se inflamma quatrocentos litros de gazes; estes gazes, em
liberdade, e sob a acção de uma
temperatura elevada até dois mil e quatrocentos graus,
occupam um
espaço equivalente a quatro mil litros.
Portanto o volume da polvora em grão está para o
volume dos gazes produzidos pela sua deflagração,
assim como
um está para quatro mil. Avalie-se por isto a espantosa
impulsão que
hão de produzir estes gazes, quando comprimidos n'um
espaço quatro mil vezes mais apertado do que o que
naturalmente haviam de occupar.
Isto tudo sabiam, e perfeitamente, os membros da commissão
quando no dia seguinte abriram a sessão. Barbicane concedeu
a palavra ao major Elphiston, que tinha sido director das fabricas de
polvora no tempo da guerra.
«Caros camaradas, disse aquelle notavel chimico, vou
começar pela citação de algarismos
irrecusaveis que
hão de ser a base dos nossos calculos. A bala de vinte e
quatro, de que em termos
tão poeticos nos fallou antes de hontem o honrado J.-T.
Maston,
é expellida da bôca de fogo apenas por dezeseis
libras de polvora.
--Estaes seguro d'esse algarismo? Perguntou Barbicane.
--Absolutamente seguro, respondeu o major. O canhão
Armstrong carrega-se só com setenta e cinco libras de
polvora para um projectil de oitocentas libras de peso, e a columbiada
de Rodman não gasta mais de sessenta libras de polvora para
arremessar
a seis milhas de distancia a sua bala de meia tonelada. São
factos que não podem ter contestação,
porque eu proprio tomei nota d'elles nas actas da commissão
de artilheria.
--Muito bem, respondeu o general.
--Ora pois! proseguiu o major, a consequencia que devemos tirar d'estes
dados é a seguinte: que a quantidade de
polvora não augmenta na proporção do
peso da bala; e, na
verdade, são necessarias dezeseis libras de polvora para uma
bala de vinte e quatro; por outras palavras, gastam-se nos
canhões ordinarios
quantidades de polvora que pesam um terço do peso da bala,
mas a proporcionalidade não é constante. Se
fizessemos
o calculo, haviamos de reconhecer que para a bala de meia tonelada, o
peso da polvora necessaria, que se reduz a sessenta libras apenas,
seria, segundo a proporção, de trezentas e trinta
e tres
libras.
--E a que conclusão quereis por ahi chegar? Perguntou o
presidente.
Levando essa theoria até aos seus ultimos limites, meu caro
major, disse J.-T. Maston, haveis de chegar á seguinte
conclusão
final: que, se
póde dispensar a polvora, toda a vez que a
bala exceda um certo peso.
--O nosso Maston é sempre faceto, mesmo quando se trata de
cousas serias, mas esteja descansado que lhe hei de propor quantidades
de polvora, capazes de lisonjear o seu amor proprio de artilheiro. O
que eu pretendo que fique claramente estabelecido, é que, no
tempo da guerra, o peso da polvora foi, por
experiencia, reduzido para os maiores canhões á
decima parte
do peso da bala.
--Nada ha mais verdadeiro, disse Morgan. Lembro entretanto, que
será conveniente que accordemos ácerca da
natureza da polvora, antes de decidir qual é a quantidade
d'ella necessaria para a impulsão calculada.
--Havemos de usar da polvora bombardeira, respondeu o major, porque a
combustão total d'esta é mais rapida que
a da polvora miuda.
--É verdade, replicou Morgan, mas é muito
quebradiça, e no fim de tempos vem a deteriorar a alma das
peças.
--Ora! isso poderia ser um inconveniente para qualquer
canhão destinado a fazer longos serviços, mas
para a nossa
columbiada não. Perigo de explosão não
temos
nós que temer, o que é essencial é que
a polvora se inflamme
instantaneamente, para que o seu effeito mechanico seja completo.
--Talvez se podesse abrir na peça mais de um ouvido, disse
J.-T. Maston, e assim dar fogo em muitos pontos simultaneamente.
--Pois sim, respondeu Elphiston, mas isso iria difficultar a manobra.
Insisto portanto na minha bombardeira, que evita essas difficuldades.
--Vá, respondeu o general.