Barbicane desceu de casa, e tomando á frente d'aquelle
immenso ajuntamento dirigiu-se para a repartição
da
administração dos telegraphos.
Poucos minutos depois enviava-se um telegramma ao syndico dos
corretores de navios de Liverpool em que se lhe pedia resposta
ás seguintes perguntas:
«Que especie de navio é o
Atlanta?
«Quando é que largou esse navio da Europa?
«Estaria a bordo um francez chamado Miguel Ardan?»
Duas horas depois recebia Barbicane esclarecimentos por tal
fórma precisos, que nem deixavam logar á menor
duvida.
«O paquete
o Atlanta, de
Liverpool, fez-se ao mar no dia 2 de outubro, fazendo-se de
véla para Tampa-Town; a bordo ia um francez, inscripto no
livro dos passageiros com o nome de Miguel Ardan.»
Quando o presidente viu assim confirmado o conteúdo do
primeiro telegramma, brilharam-lhe os olhos em subita chamma,
cerraram-se-lhe violentamente os punhos, e houve até quem o
ouvisse murmurar:
Então, sempre é verdade! sempre é
possivel! existe esse francez! e dentro em quinze dias ha de estar
aqui! Mas é, por certo, um louco! um cerebro escandecido!...
Nunca consentirei...»
E apesar d'isso, n'aquella mesma noite já escrevia
á casa Breadwill e C.
a, para lhe
pedir que suspendesse
até nova
ordem a fundição do projectil.
Relatar a emoção que se apossou da America
inteira; como o effeito da communicação Barbicane
foi excedido no
decuplo; o que disseram os jornaes da União, por que modo
acceitaram a nova e em que rythmo contaram a chegada do heroe do velho
continente; pintar a febril agitação, em que
todos viviam contando as horas, os minutos e os segundos; dar
idéa mesmo longiqua,
da pesada obsessão que se apoderou de todos os cerebros
dominados por um pensamento unico; mostrar como todas as
occupações cederam a uma unica
preoccupação; os trabalhos parados, o commercio
suspenso, navios que estavam promptos a
levantar ferro a ficarem ancorados no porto para não
faltarem á chegada do
Atlanta, os
comboios a
chegarem cheios e a saírem vasios, a bahia do Espirito Santo
sulcada sem cessar por
steamers,
packets-boats,
hiates de recreio e
fly-boats de todas as
dimensões; enumerar os milhares de curiosos que no
espaço de quinze dias quadruplicaram a
população de
Tampa-Town, a ponto de terem de acampar em barracas como um exercito em
campanha, é tarefa que excede as forças humanas,
e que sem
temeridade ninguem poderia emprehender.
No dia 20 de outubro, pelas nove horas da manhã, dava o
telegrapho semaphorico do canal de Bahama noticia de fumo espesso no
horisonte. Duas horas depois um grande
steamer trocava com o telegrapho signaes de
reconhecimento. Immediatamente foi expedido para Tampa-Town o nome do
Atlanta. Ás quatro horas dava o navio
inglez entrada na bahia do Espirito Santo. Ás cinco passava
a barra de Hillisboro a todo o vapor. Ás seis
largava ferro no porto de Tampa.
Ainda a ancora não tinha mordido no fundo de areia,
já quinhentas embarcações estavam em
volta do
Atlanta, e tomavam o
steamer
de assalto. Barbicane foi o
primeiro que saltou ao convez, e que em voz de que debalde
tentára occultar a
commoção exclamou:
«Miguel Ardan!--Presente!» respondeu um individuo
que estava no castello de popa.
Barbicane, cruzados os braços, com o olhar interrogador e a
bôca silenciosa, olhou fito para o passageiro do
Atlanta.
Era este homem de quarenta e dois annos, alto, mas já um
tanto curvado, como os cariatides que aguentam nos hombros as sacadas
dos balcões. A cabeça volumosa,
verdadeira cabeça de leão, sacudia a cada
instante a cabelleira ardente que a
adornava como verdadeira juba. A cara curta, larga nas fontes,
enfeitada por um bigode hirsuto como as barbas de um gato, e com
pincelinhos
de pellos
amarellados que irrompiam mesmo do meio das faces, os olhos redondos e
um tanto desvairados, o olhar de myope, completavam-lhe a physionomia
eminentemente felina. Mas o nariz era ousadamente modelado, a
bôca particularmente humana, a fronte alta, intelligente e
sulcada qual campo que nunca esteve de pousio. Finalmente o tronco
robustamente desenvolvido e assente a prumo em cima de compridas
pernas, os braços
musculosos como possantes e bem articuladas alavancas, faziam do
europeu um maganão de solida
construcção, «feito na forja, que
não no cadinho», como diria quem quizesse ir
buscar á arte metallurgica termos de
comparação.
Qualquer discipulo de Lavater ou de Gratiolet encontraria sem
difficuldade no craneo e na physionomia do personagem os indicios mais
indiscutiveis da combatividade, isto é, da coragem na
occasião do perigo, e da tendencia para
despedaçar todos os obstaculos; como tambem os da
benevolencia e da
maravilhosidade, instincto que incita certos
temperamentos a tomarem-se de paixão pelas cousas
sobrehumanas; em
compensação era absoluta a carencia das bossas
que indicam os instinctos de posse e acquisição,
que os phrenologos designam pela
palavra
adquisividade.
Para dar o ultimo toque na descripção do typo
physico do passageiro do
Atlanta, convem notar
que o fato
que usava era largo de fórmas e folgado de cavas. A
calça e o
paletot eram feitos com tal abundancia de fazenda,
que o proprio Miguel Ardan chamava a si mesmo o
mata-panno;
a gravata
desapertada, o colleirinho aberto com largueza, deixavam ver o
pescoço robusto; dos
punhos invariavelmente desabotoados saiam-lhe as mãos
febris. Bem
se via que era homem que, nem na maior força do inverno, nem
na maior força do perigo, havia de ter frio, nem mesmo na
raiz
do cabello.
Nunca estava quieto, no tombadilho do
steamer, no
meio da
multidão, de cá para lá, sem nunca
parar «navegando sobre as amarras», como dizia a
maruja; sempre a gesticular, tratando
todos por tu e roendo as unhas com nervosa avidez. Era um d'aquelles
typos originaes que o Creador inventa n'um momento de phantasia,
quebrando-lhe desde logo o molde.
E na realidade, a personalidade de Miguel Ardan dava campo largo
ás observações do analysta.
Aquelle homem espantoso vivia em perpetua
disposição para a hyperbole,
não passára ainda alem da idade dos superlativos;
desenhavam-se-lhe os objectos na retina com dimensões
desmarcadas, e d'ahi lhe vinha uma
associação de idéas gigantescas; via
tudo em ponto grande, excepto os
homens e as difficuldades. E comtudo isto era de uma natureza
luxuriante, artista por instincto, moço de espirito, que sem
dar
descargas de ditos chistosos, sabia entretanto na
conversação esgrimir como o mais habil atirador.
Nas discussões, pouca
importancia lhe merecia a logica. Rebelde ao syllogismo, que por certo
nunca teria inventado, tinha um modo de argumentar só
proprio d'elle.
Passando por cima de tudo e de todos, atirava em cheio ao adversario
uns argumentos
ad hominem
de effeito certeiro e seguro, e fazia gosto em defender com unhas e
dentes as causas perdidas.
Entre outras manias tinha a de se proclamar «um ignorante
sublime», como Shakspeare, e fazia profissão do
desprezo pelos sabios:
«Elles, dizia, entretem-se a marcar os pontos, e
nós cá é que jogâmos a
partida».
Em summa, era um bohemio do paiz dos montes e das maravilhas,
aventuroso, mas não aventureiro, uma cabeça
ôca, um Phaetonte que guiava a toda a brida o carro do Sol,
um Icaro com azas de sobresallente. E era homem que sabia arriscar e
arriscar a serio a propria pessoa, que se arrojava de cabeça
levantada ás mais loucas emprezas, cortando a si proprio a
retirada com mais enthusiasmo ainda do que Agathócles quando
incendiou a esquadra
que commandava.
Prompto a toda a hora a arriscar a pelle, tinha por sorte invariavel,
por maior que fosse a cambalhota,
caír sempre de pé como os bonequitos de sabugo
com que brincam as creanças.
Em duas palavras, tinha por divisa:
dê por
onde der! e por
ruling passion[86],
segundo a bella
expressão de Pope, o amor pelo impossivel.
Mas tambem era para ver-se como aquelle maganão
emprehendedor possuia os defeitos inherentes ás suas boas
qualidades. Diz o vulgo, que quem se não aventurou
não perdeu nem
ganhou.
Miguel Ardan bastas vezes se tinha aventurado, e nem por isso tinha
ganho!
Para dar cabo de dinheiro era um verdugo, um tonel das
Danaïdes. Homem aliás perfeitamente desinteressado,
tantas eram as asneiras que lhe dictava o grande
coração,
como as que lhe insinuava a estouvada cabeça; esmoler,
cavalheiroso, incapaz de assignar o «enforque-se»
do seu mais cruel inimigo,
mas muito capaz de se vender para resgatar um negro.
Em França, na Europa, toda a gente conhecia este personagem
brilhante e estrepitoso. Nem era para admirar que assim succedesse a
quem trazia já enrouquecidos de servi-lo e
apregoar-lhe o nome as cem vozes da fama, a quem vivia como que dentro
de uma casa de vidro, e tomava por confidente dos seus mais intimos
segredos o universo inteiro. Por estas mesmas rasões tambem
Ardan possuia uma admiravel collecção de
inimigos, de entre aquelles que elle, acotovelando para abrir caminho
por entre a multidão, mais ou menos maguára,
ferira ou
derrubára sem dó nem piedade.
E no entretanto era geralmente bemquisto e até tratado com
excessivo mimo. Era d'aquelles homens a quem póde
applicar-se
a expressão popular «é pegar ou
largar», e o caso é que todos lhe pegavam, todos
tomavam interesse nos arrojados commettimentos d'elle, e lhe seguiam
com inquietação as
peripecias porque já era de todos conhecida a imprudente
audacia que o
caracterisava. A algum amigo, que no intuito de lhe suspender os
designios, vinha prophetisar-lhe catastrophe imminente, respondia
sempre Ardan com amavel sorriso: «Da lenha das proprias
arvores nasce e lavra o incendio da floresta». Quem lhe diria
a elle que citava então o mais bonito de todos os proverbios
arabes!
Tal era o passageiro do
Atlanta,
sempre em agitação, sempre a ferver, sempre
debaixo da acção de um fogo
interior, sempre commovido, não pelo que vinha fazer
á America,
que nem em tal cogitava, mas por virtude da ardente
organisação
de que era dotado.
Nunca houve duas personalidades que apresentassem contraste mais
saliente que o francez Miguel Ardan e o yankee Barbicane; todavia
ambos, cada um lá a seu modo, eram emprehendedores,
atrevidos e audaciosos.
Em breve foi interrompida pelos hurrahs e vivas da multidão
a contemplação a que se entregára o
presidente do Gun-Club em presença do rival que viera
desterra-lo da
posição principal para o segundo logar. E
tão phrenetica se tornou a gritaria,
tornaram-se por tal fórma pessoaes as
manifestações do enthusiasmo, que Miguel Ardan,
depois de ter apertado um milheiro de mãos, em que ia
deixando os dez dedos das d'elle, teve que se refugiar no camarim.
Barbicane seguiu-o sem lhe ter dito nem palavra.
«Sois Barbicane? perguntou Miguel Ardan logoque se acharam a
sós, e com a intonação de quem
fallava a um amigo de vinte annos.
--Sou, respondeu o presidente do Gun-Club.
--Pois então muito bons dias, Barbicane. Como vae isso?
Excellentemente? Ora vamos; bom é que assim seja: tanto
melhor!
--Com que, disse Barbicane, sem buscar melhor entrada em materia,
sempre estaes decidido a partir?
--Absolutamente decidido.
--E nada poderá impedir-vo-lo?
--Cousa alguma. E os planos do projectil mandaste-los modificar em
harmonia com as indicações do meu telegramma?
--Estava á espera da vossa chegada. Mas, perguntou
Barbicane, insistindo novamente, reflectistes bem?...
--Reflectir! E que tempo tenho eu para o estar a perder!? Apanho
occasião de ir dar um passeio até
á Lua, e aproveito-a, nada mais. Nem me parece que seja
cousa que mereça maiores reflexões.»
Barbicane devorava com o olhar aquelle homem que fallava de tal
projecto de viagem com tanta leviandade, tão completo
socego e tão perfeita ausencia de cuidados.
--«Mas pelo menos, disse, haveis de ter plano formado, meios
de execução.
--Excellentes, meu caro Barbicane. Mas dae-me licença que
faça uma só observação: o
que eu gostava era de contar a minha historia toda de uma vez
só e a toda a gente, e
não tratar mais do assumpto. Evitam-se assim as
repetições.
Consequentemente, salvo melhor conselho, convocae os vossos amigos,
vossos collegas, toda a cidade, a Florida inteira, a America em peso,
se vos parecer, e ámanhã estou prompto para expor
os
meus meios como para responder a todas as
objecções, sejam
lá quaes forem. Descansae que hei de espera-las a
pé firme. Convem-vos isto?
«Convem-me», respondeu Barbicane.
Accordado isto, saiu o presidente do camarim e veiu communicar
á multidão a proposta de Miguel Ardan.
Receberam-lhe as palavras com pateadas e grunhidos de alegria. A cousa
assim feita obviava a todas as difficuldades. No dia seguinte todos
poderiam contemplar á vontade o heroe
europeu. Entretanto um ou outro espectador houve mais
cabeçudo que
não quiz largar o tombadilho do
Atlanta,
e passou a noite a bordo. Entre outros, J.-T. Maston, que tinha
atarraxado a ganchorra no parapeito do castello de pôpa; nem
um cabrestante de
lá poderia arranca-lo!
«É um heroe! um heroe! berrava elle em todas as
intonações, nós é que somos
umas fracas mulheres, em
comparação com esse europeu!»
O presidente, esse depois de convidar a retirarem-se todos os
visitantes, volveu ao camarim do passageiro e não mais o
largou até ao momento em que a sineta de bordo tocou o
quarto da
meia noite. Mas n'essa occasião, já os dois
rivaes em
popularidade se apertavam reciproca e calorosamente as mãos,
e Miguel Ardan já tratava por tu ao presidente Barbicane.
CAPITULO XIX
UM MEETING
No dia seguinte levantou-se o «astro do dia» um
tanto tarde para corresponder á impaciencia publica. Para
desempenhar o papel de Sol na illuminação de
similhante festa,
acharam-n'o um tanto preguiçoso. Por vontade de Barbicane,
que se
arreceiava de perguntas indiscretas para Miguel Ardan, teria o
auditorio sido reduzido a um pequeno numero de adeptos, os collegas,
por exemplo. Mas isso!.. era mais facil pôr um dique
á corrente do
Niagara. Por consequencia teve de renunciar ao que
projectára, e de consentir que o amigo de recente data
corresse todos os riscos de uma conferencia publica. Apesar das suas
dimensões
colossaes, julgou-se ainda insufficiente para a
realisação de tal ceremonia a nova sala da Bolsa
de Tampa-Town, porque a
reunião projectada assumira proporções
de verdadeiro
meeting.
O logar escolhido foi uma vasta planicie situada fóra da
cidade, e em poucas horas conseguiram abriga-la dos raios solares;
todos os arranjos necessarios para a construcção
de uma barraca colossal foram ministrados pelos navios surtos no porto,
abundantes em velame, cordame, mastros e vergas de sobresalente.
Dentro em pouco estendia-se por sobre a planicie calcinada, a
defende-la contra as ardencias do dia, um immenso céu de
panno debaixo do qual trezentas mil pessoas acharam abrigo para poderem
aguentar impunemente por espaço de muitas horas, emquanto
esperavam pelo francez, uma temperatura de abafar. De toda aquella
turba de espectadores só á primeira
terça parte era dado ver e ouvir; a segunda mal via e nem
palavra ouvia; quanto á terceira, essa nada via, e ainda
menos ouvia. E nem por
isso foi a menos prompta a prodigalisar applausos.
Ás tres horas, realisou-se a apparição
de Miguel Ardan, em companhia dos socios principaes do Gun-Club. Dava
Miguel o braço direito ao presidente Barbicane e o
braço
esquerdo a J.-T. Maston, mais radiante e quasi tão rutilante
como o Sol ao
meio dia. Ardan subiu a um estrado, de cima do qual se lhe estendia a
vista por sobre aquelle oceano de chapéus.
Não se percebia n'elle o menor signal de acanhamento, nem de
impostura; estava ali como quem está em sua casa, alegre,
familiar e amavel; depois de responder com uma graciosa
inclinação de cabeça aos hurrahs com
que o acolheram, e de reclamar com um gesto de mão silencio,
tomou a palavra em inglez, exprimindo-se,
com extrema correcção de linguagem,
nos seguintes termos:
«Meus senhores, apesar do grande calor que faz, tomarei a
liberdade de abusar dos vossos momentos para dar algumas
explicações ácerca de projectos que,
segundo parece, vos interessam.
«Não sou orador nem homem de sciencia, e
não contava fallar em publico; disse-me porém o
meu amigo Barbicane que isso vos seria agradavel, e tanto bastou para
me decidir a esse sacrificio. Consequentemente, escutae-me com os
vossos seiscentos mil ouvidos, e tende a bondade de desculpar os erros
do
auctor.»
Mereceu grande apreço aos circumstantes aquelle exordio sem
ceremonia; um immenso murmurio de satisfação deu
prova do contentamento da multidão.
«Meus senhores, proseguiu Ardan, todos e quaesquer signaes de
approvação ou
desapprovação são permittidos. Isto
posto, começarei Em primeiro logar, não deveis
esquecer que estaes tratando com um ignorante, e tão longe
vae sua ignorancia,
que até as difficuldades ignora. Pareceu-lhe portanto cousa
simples, natural e facil tomar passagem dentro de um projectil, e
partir para a Lua. Era viagem que mais tarde ou mais cedo se havia de
vir a fazer, e pelo que diz respeito ao modo de
locomoção adoptado, esse não era mais
do que simples consequencia da lei do progresso. O homem
começou por viajar com as mãos
pelo chão, depois, um bello dia, só nos dois
pés, depois
n'uma carroça, depois em caleça, depois em
carroção, depois
em diligencia, depois em caminho de ferro; pois bem! o projectil
é a viatura do
futuro; que, a fallar a verdade, os planetas não
são
senão outros tantos projecteis, simples balas de
canhão arremessadas pela
mão do Creador.
Os
comboios de projecteis para a Lua (
pag. 163).
«Mas voltemos ao nosso vehiculo. Algum de vós,
senhores, poderá ter pensado que a velocidade que tem de
imprimir-se-lhe, é excessiva; pois não
é assim; todos
os astros têem superior rapidez, e a propria Terra, em seu
movimento de translação em
volta do Sol, nos leva comsigo com triplicada velocidade. Vou
apresentar-vos alguns exemplos, e pedirei permissão para me
exprimir contando por leguas, porque não estou muito
familiarisado com as medidas
americanas e tenho receio de me embarulhar nos calculos.»
Ninguem oppoz difficuldades á concessão pedida,
que pareceu perfeitamente rasoavel, e o orador continuou o discurso:
«Eis-aqui, senhores, a velocidade dos differentes planetas.
Apesar da minha ignorancia, força é confessa-lo,
conheço com muita exactidão estas miudezas
astronomicas. Mas em menos de dois minutos estareis a esse respeito
tão instruidos como eu.
Sabei pois, que Neptuno anda cinco mil leguas por hora; Urano, sete
mil; Saturno, oito mil oitocentas e cincoenta e oito; Jupiter, onze mil
seiscentas e setenta e cinco; Marte, vinte e duas mil e onze; a Terra,
vinte e sete mil e quinhentas; Venus, trinta e duas mil cento e
noventa; Mercurio, cincoenta e duas mil quinhentas e vinte; certos
cometas, um milhão e quatrocentas mil leguas no
perihelio! Nós cá, verdadeiros passeiantes, gente
de poucas
posses, não havemos de ir alem de nove mil novecentas leguas
de
velocidade, e mais ha de esta ir sempre diminuindo. Perguntarei eu
agora, se ha aqui motivo para pasmar, e se todas estas velocidades
não hão de ser um dia excedidas por outras ainda
maiores, de que provavelmente serão agentes mechanicos a luz
ou a
electricidade?»
Ninguem pareceu pôr em duvida a
asserção de Miguel Ardan.
«Caros auditores, proseguiu este, se formos a dar credito a
uns certos espiritos acanhados,--e é exactamente esta a
qualificação que melhor lhes
cabe--está a humanidade encerrada n'um
circulo de Popilius, que alem do qual não póde
dar passo,
e condemnada a vegetar no globo terraqueo sem esperança
sequer de poder abrir vôo para os espaços
planetarios! Pois
não é assim! Agora vamos á Lua, e
ainda havemos de ir aos planetas, ainda
havemos de ir ás estrellas, como se vae hoje de Liverpool a
New-York, com facilidade, rapidez e segurança. Em breve
serão atravessados o oceano atmospherico, bem como os
oceanos da Lua!
A distancia é apenas um termo de
relação, e havemos de chegar a final a reduzi-la
a zero.»
A assembléa, apesar de muito enlevada pelo heroe francez,
ficou um tanto attonita com aquella theoria audaciosa. Miguel Ardan
pareceu percebê-lo, e proseguiu com amavel sorriso:
«Parece-me que não estaes lá muito
convencidos, estimaveis hospedes. Pois bem! Discutâmos um
pouco. Sabeis quanto tempo seria necessario a um comboio expresso para
chegar á Lua? Trezentos dias. Nada mais. O trajecto
é de oitenta e seis
mil quatrocentas e dez leguas, mas isso que é?
Não chega a ser
nove vezes um circuito em volta da Terra; não ha marinheiro
ou viajante
digno d'esse nome que não tenha andado mais do que isso no
decurso da vida! Pensae pois, que eu não hei de gastar mais
de
noventa e sete horas no caminho! Ah! estaes imaginando que a Lua
está a grande distancia da Terra, e que não seria
mau reflectir antes de tentar a aventura! Que dirieis então
se se tratasse de ir
a Neptuno que gravita a um milhão cento e quarenta e sete
mil
leguas do Sol! Isso é que é viagem que poucos
poderiam
intentar, ainda que mais não custasse que a cinco soldos por
kilometro! Nem o barão de Rothschild com os seus mil
milhões
tinha com que pagasse o logar; faltavam-lhe ainda cento e quarenta e
sete milhões para não ficar no
caminho!»
Esta maneira de argumentar pareceu ser muito do agrado da
assembléa. Miguel Ardan, por sua parte, bem possuido como
estava do assumpto, deixava-se arrastar ao sabor da
argumentação com soberbo enthusiasmo;
percebêra que era ouvido com avidez, e proseguiu portanto com
admiravel confiança:
«Pois bem, amigos, ainda esta distancia de Neptuno ao Sol
não
é nada, se a compararmos com a das estrellas; effectivamente
para avaliar o afastamento de taes astros é necessario
lançar
mão de uma classe de numeros deslumbrantes, o menor dos
quaes tem nove algarismos, tomar emfim por unidade o milhar de
milhões. Peço-vos
perdão de me mostrar tão sabido no assumpto, mas
é por ser de um interesse palpitante. Ouvi e julgae. Alpha
do Centauro
está a oito billiões de leguas, Wega a cincoenta
billiões, Sirius a cincoenta billiões, Arcturus a
cincoenta e dois billiões, a Polar a cento e dezesete
billiões de
leguas, a Cabra a cento e setenta
billiões, as outras estrellas a milhares de
billiões e de
trilliões de leguas! E ainda haverá quem falle na
distancia que medeia entre o
Sol e os planetas! E haverá ainda quem sustente que existe
tal distancia! Erro, falsidade! aberração dos
sentidos! Quereis
saber o que eu penso ácerca d'esse mundo que
começa no astro
radiante e acaba em Neptuno? Quereis conhecer a minha theoria?
É muito simples! Para mim o mundo solar é um
corpo solido,
homogeneo; os planetas que o formam, apertam-se, tocam-se, adherem, e o
espaço que entre elles existe é como o
espaço que medeia sempre entre as molleculas do mais
compacto metal, seja prata, seja ferro, oiro ou platina! Julgo portanto
ter direito para affirmar, e repito-o com
convicção, que ha de communicar-se a
vós todos: «A distancia é uma palavra
vã, a distancia nem
sequer existe!»
--Bem dito! Bravo! Hurrah! gritou
una
voce a assembléa electrisada pelo gesto, pela
accentuação do orador e pelo
ousado das concepções.
--Não, exclamou J.-T. Maston ainda mais energicamente que os
outros, a distancia não existe!»
E, arrastado pela violencia dos movimentos, pelo impulso do proprio
corpo que mal podia dominar, ía caíndo do
alto do estrado no chão. Conseguiu, todavia, retomar a
posição de equilibrio, e livrar-se de uma
quéda que lhe havia de provar brutalmente
que a distancia não era palavra de todo vã. Em
seguida proseguiu no seu discurso o attrahente orador.
«Amigos, disse Miguel Ardan, cuido que tal problema deve
já agora ter-se como resolvido. Se não logrei
convencer-vos a
todos, foi de certo porque fui timido nas
demonstrações,
fraco na argumentação,
e a culpa é da minha
insufficiencia de estudos theoricos. Seja lá como for,
repito, a distancia da Terra ao seu
satellite é realmente pouco importante e indigna de
preoccupar
qualquer espirito grave. Creio que não será ir
muito alem
da verdade affirmar que em breve se hão de vir a estabelecer
trens de
projecteis, nos quaes poderá fazer-se com toda a commodidade
a viagem da Terra á Lua. N'estes é que
não
haverá que receiar, nem choques, nem abalos, nem
descarrilamentos, e chegar-se-ha ao termo da viagem, sem
cansaço em linha recta, «a
vôo de abelha», para fallar na linguagem dos
caçadores cá da
America. D'aqui a vinte annos, de certo já metade da Terra
tem ido visitar a
Lua!
«Hurrah! hurrah! por Miguel Ardan, clamaram os circumstantes
ainda os menos convencidos.
--Hurrah por Barbicane!» respondeu modestamente o orador.
Aquelle acto de gratidão para com o promotor da empreza, foi
recebido pelos espectadores com applausos unanimes.
«Agora, amigos, proseguiu Miguel Ardan, se alguem tem
qualquer pergunta a fazer-me, por certo que
embaraçará um
pobre homem como eu, entretanto farei todos os esforços para
responder.»
Até aquelle momento não tivera o presidente do
Gun-Club senão motivos de satisfação
pela
direcção que a discussão tomava.
Versando esta sobre theorias especulativas, Miguel Ardan, levado pela
sua viva imaginação, mostrava-se
extremamente brilhante. Por consequencia, o que a Barbicane parecia
necessario, era
pôr impedimento a que se desviasse para questões
praticas, de
que por certo Ardan se havia de saír menos airoso.
Barbicane apressou-se portanto a tomar a palavra, para perguntar ao
amigo de recente data qual era o seu modo de ver em respeito a
habitantes da Lua e dos planetas.
«É um grande problema esse que me
propões para resolver, meu digno presidente, respondeu o
orador sorrindo; todavia, se me não engano, homens de grande
intelligencia, taes como Plutarco,
Swedenborg,
Bernardin de Saint-Pierre e muitos outros pronunciaram-se pela
affirmativa. Olhando a questão pelo
lado da philosophia natural, sou levado a pensar em harmonia com a
opinião d'elles; a mim proprio digo que cousa alguma inutil
existe no mundo, e respondendo á tua pergunta, com outra
pergunta, affirmarei que se os mundos são habitaveis,
é
porque são habitados, porque o foram, ou porque ainda o
hão de ser.
Muito bem! clamaram as primeiras linhas de espectadores, cuja
opinião tinha força de lei para com as
ultimas.
--Com mais logica e a proposito é que não ha
responder, disse o presidente do Gun-Club. A minha pergunta
transforma-se portanto na seguinte: «Serão
porventura os mundos
habitaveis?»
--Pela minha parte parece-me que o são.
E eu cá por mim, estou seguro d'isso, respondeu Miguel
Ardan.
--Todavia, replicou um dos circumstantes, argumentos ha que
vão de encontro á theoria da habitabilidade
dos mundos. Para que estes podessem ser habitaveis, era evidentemente
necessario, que na maior parte d'elles, fossem modificados os
principios da vida. N'estes termos, e não me referindo
já
senão a planetas, n'uns d'elles seria o homem queimado e
n'outros gelado, segundo a respectiva distancia solar.
--Sinto, respondeu Miguel Ardan, não conhecer pessoalmente o
meu honrado contradictor. A objecção que
apresenta tem seu valor, mas creio que póde ser combatida
com bom exito, assim
como todas as que se oppõe á habitabilidade dos
mundos. Se eu fôra um physico, havia de dizer-lhe que, se ha
menos calorico
em movimento nos planetas proximos do sol, e pelo contrario mais, nos
planetas mais afastados, esse mesmo phenomeno é
bastante para equilibrar o calor e tornar a temperatura de todos os
mundos supportavel para seres organisados como nós outros.
Se fôra naturalista havia de repetir-lhe, depois de o terem
dito
muitos sabios illustres, que a natureza mesmo cá na Terra
nos fornece
exemplos de animaes
que vivem em condições
bem diversas de habitabilidade; que os peixes respiram n'um ambiente
que é mortal para os outros animaes; que os amphibios
têem uma existencia dupla bastante difficil de explicar; que
ha certos habitantes dos mares que se mantem nas camadas de grande
profundidade, onde aguentam, sem serem esmagados, pressões
de cincoenta ou sessenta atmospheras; que ha diversos insectos
aquaticos insensiveis á acção da
temperatura,
que se encontram tanto nas nascentes de agua a ferver como nos plainos
gelados do oceano polar; e finalmente que é força
reconhecer na
natureza uma diversidade de meios de acção por
vezes incomprehensivel, mas
que nem por isso é menos real, e que chega até
á omnipotencia. Se eu fôra chimico, havia de
dizer-lhe que os aerolithos, corpos
evidentemente formados fóra do mundo terrestre, tem revelado
pela analyse vestigios indiscutiveis de carbonio, e que esta substancia
só tem origem nos seres organisados, e que, em virtude das
experiencias de Reichenbach, deve necessariamente ter estado
«animalisada». Emfim, se fôra theologo,
dir-lhe-ía que, segundo S. Paulo, parece que a
redempção divina se
applicára, não sómente á
Terra, mas a todos os mundos celestes.
Mas não sou theologo, nem chimico, nem naturalista, nem
physico. E portanto, na minha perfeita ignorancia das grandes leis que
regem o universo, limitar-me-hei a responder:
--Não sei se os mundos são ou não
habitados, e por isso mesmo que não sei, vou lá
ver!»
Se o adversario de Miguel se abalançou ou não a
apresentar outros argumentos é que nós
não
podemos dizer, porque os gritos freneticos da multidão
tornaram-se então capazes
de impedir que qualquer opinião fosse sequer ouvida. Logoque
se
restabeleceu o silencio, ainda nos mais afastados grupos, o triumphante
orador terminou, contentando-se em acrescentar as seguintes
considerações:
«Bem deveis pensar, estimaveis Yankees, que apenas toquei de
leve tão momentosa questão; eu não vim
aqui para fazer um curso publico e defender theses ácerca de
tão vasto
assumpto. Ha ainda uma collecção completa de
argumentos de natureza
inteiramente differente a favor da habitabilidade dos mundos.
Pô-los-hei
de parte. Dêem-me entretanto licença que insista
ácerca de um unico ponto. Áquelles que sustentam
que os planetas não
são habitados, deve responder-se:--Póde ser que
tenhaes rasão, se
é que está demonstrado que a Terra é o
melhor dos mundos possiveis; mas isso é que não
é assim, apesar do que
Voltaire disse a tal respeito. A Terra tem um só satellite,
emquanto Jupiter, Urano,
Saturno e Neptuno têem muitos ao seu serviço,
vantagem que
não é para desdenhar. Mas o que, mais que tudo,
torna o nosso
globo pouco
confortable, é a
inclinação do eixo sobre a orbita. D'esta vem a
desigualdade dos dias e das noites; d'esta a incommoda diversidade das
estações. No nosso
desgraçado espheroide faz sempre frio ou calor demasiado;
gela-se por cá no inverno, e
arde-se no estio; é o planeta dos defluxos, dos coryzas e
das constipações, emquanto na superficie de
Jupiter,
por exemplo, cujo eixo tem pequena inclinação
[87],
os
habitantes, se é que existem, podem gosar temperaturas
invariaveis; ali ha uma zona das primaveras, uma zona dos estios, uma
zona dos outonos e uma zona de invernos perpetuos; cada habitante de
Jupiter
póde escolher o clima que mais lhe convier, e
pôr-se para toda a
vida ao abrigo das variações de temperatura.
Haveis
portanto de conceder-me sem difficuldade a superioridade de Jupiter em
relação ao nosso planeta, sem fallar
já das revoluções
annuas d'aquelle astro, que duram cada uma doze annos dos nossos! Ainda
mais, é para mim
evidente, que com taes auspicios e em tão maravilhosas
condições de existencia, os habitantes d'esse
mundo afortunado são entes
superiores; que ali os sabios
são mais sabios, os artistas
mais artistas, os maus peiores, e os bons melhores. Ai! e que nos falta
a nós, pobre espheroide, para chegar a tal
perfeição? Bem pouca cousa. Um eixo de
rotação, com menos
inclinação sobre o plano da orbita!
--Pois bem! clamou uma voz impetuosa, unâmos os nossos
esforços, inventemos machinas e indireitemos o eixo da
Terra!
Rebentou ao ouvir-se tal proposta uma trovoada de applausos; o auctor
da proposta fôra, e nem outro podia ser, J.-T.
Maston. É provavel que o fogoso secretario se deixasse
arrastar a
aventar tão ousada idéa pelos seus instinctos de
engenheiro. Força é dize-lo porém,
porque é a verdade, muitos o applaudiram
com enthusiasmo, e por certo se tivessem o ponto de apoio que
Archimedes reclamava, os americanos teriam construido uma alavanca
capaz de levantar o mundo e de endireitar-lhe o eixo. Mas o que lhes
faltava, áquelles temerarios constructores, era
exactamente o ponto de apoio.
Entretanto aquella idéa «eminentemente
pratica» teve um exito enorme; suspendeu-se a
discussão por um bom quarto de hora, e por muito tempo, por
muito tempo ainda, se fallou nos Estados Unidos da America da proposta
formulada, com tanta energia pelo secretario perpetuo do Gun-Club.
CAPITULO XX
ATAQUE E REPLICA
Parecia que aquelle incidente devia pôr termo á
discussão. Estava dita «a ultima
palavra» e a melhor
não poder ser. Todavia, quando acalmou a
agitação, ouviram-se as
seguintes palavras, pronunciadas por uma voz forte e severa:
«Agora que o orador já deu mais do que
devêra dar á phantasia, por certo não
se negará a entrar de novo no
assumpto, construindo menos theorias, e discutindo a parte pratica da
expedição que intenta?»
Volveram-se todos os olhares para o personagem que fallava d'aquella
fórma. Era um homem magro, secco, de physionomia energica,
com abundantes barbas, talhadas á americana, que
lhe saíam debaixo do queixo inferior. Conseguira pouco e
pouco collocar-se nas primeiras filas, á sombra dos diversos
movimentos que se tinham realisado na assembléa. Ali,
cruzados os
braços, com o olhar ousado e scintillante, fixava-o
imperturbavelmente no heroe do meeting. Depois de ter formulado a
pergunta, calou-se sem parecer impressionado pelos milheiros de olhares
que para elle convergiam, nem pelo murmurio desapprovador, que
suscitaram as palavras que pronunciára. E como a resposta se
ía fazendo esperar, repetiu de novo a pergunta,
com a mesma accentuação precisa e terminante, e
acrescentando:
«Estamos aqui para tratar da Lua, que não da
Terra.
--Tendes rasão, senhor, respondeu Miguel Ardan, a
discussão desviou-se um tanto do caminho regular. Volvamos
á Lua.
--Senhor, replicou o desconhecido, affirmaes que o nosso satellite
é habitado. Bem. Mas se existem selenitas, certamente essa
especie de gente vive
sem respirar, porque--e por interesse vosso é que vos vou
prevenindo--não ha uma unica
mollecula de ar á superficie da Lua.»
Ao ouvir tal asserção, sacudiu Ardan a fulva
juba: comprehendeu que com aquelle homem é que a luta
ía engajar-se
a serio e na parte mais melindrosa do assumpto.
Olhou tambem fixo para elle e disse:
«Ah! Então não ha ar na Lua! E, se me
dá licença, quem é que o affirma?
--Os homens da sciencia.
--Na verdade?
--Na verdade.
--Senhor, replicou Miguel Ardan, fóra de qualquer
brincadeira, tenho profunda estima pelos homens de sciencia que sabem,
mas tambem profundo desdem pelos sabios que nada sabem.
--E conheceis alguns que pertençam á ultima
categoria?
--Muito particularmente. Em França ha um que sustenta que
«mathematicamente» as aves não podem
voar, e outro cujas theorias demonstram que os peixes não
foram feitos para viver na agua.
--Não é d'esses que trato, senhor, e para apoiar
a minha asserção poderia citar-vos nomes que de
certo não havieis de recusar.
--N'esse caso, senhor, muito havieis de embaraçar um pobre
ignorante, que, aliás, nada deseja tanto como instruir-se!
--Então, se não estudastes as questões
scientificas, porque é que vos abalançaes a
discuti-las? perguntou com bastante
rudeza o desconhecido.
--Porque? respondeu Ardan. Pela simples rasão que
é sempre arrojado aquelle que nem suspeita tem dos perigos!
Nada sei, é verdade, mas é exactamente n'esta
fraqueza que consiste a minha força.