Arrancaram
o estrado de repente (
pag. 184).
--A vossa fraqueza chega a ser loucura, exclamou o desconhecido com
intonação de mau humor.
Irrompeu Maston pelo quarto
dentro (pag. 187).
--Sim!? Tanto melhor, replicou o francez, se essa loucura me levar
até á Lua!
Barbicane e os collegas devoravam com o olhar o intruso, que com tanto
arrojo vinha apresentar-se em opposição
á empreza. Ninguem o conhecia, e o presidente pouco seguro
ácerca das
consequencias da discussão tão francamente posta,
olhava com
tal ou qual apprehensão para o seu novo amigo. A
assembléa mostrava-se attenta e seriamente inquieta, porque
a disputa tivera como resultado chamar-lhe a
attenção para os
perigos, ou talvez verdadeiras impossibilidades da
expedição.
«Senhor, proseguiu o adversario de Miguel Ardan,
são numerosas e indiscutiveis as rasões que
provam a ausencia completa de atmosphera em volta da Lua.
Até
a
priori póde affirmar-se que se alguma vez existiu
essa atmosphera da Lua, deve ter-lhe sido subtrahida pela Terra.
Prefiro entretanto objectar-vos factos irrecusaveis.
--Objectae, senhor, respondeu Miguel Ardan com perfeita cortezania,
objectae á vossa vontade!
--Sabeis, disse o desconhecido, que quando os raios luminosos
atravessam um meio qualquer tal como o ar, são desviados da
linha recta, ou, por outras palavras, que experimentam uma
refracção. Pois bem! quando a Lua occulta alguma
estrella, os raios luminosos que emanam d'esta, mesmo quando
são
tangentes á peripheria do disco lunar, nunca experimentam o
menor
desvio nem dão o mais leve indicio de
refracção. D'ahi flue como consequencia evidente
que a Lua não está circumdada por uma
atmosphera.»
Olharam todos para o francez, porque admittida que fosse a
observação, as consequencias tiradas eram
perfeitamente rigorosas.
«Em verdade, respondeu Miguel Ardan, é esse o
vosso mais valioso, por não dizer o unico, argumento, e
qualquer homem
de sciencia havia de ver-se extremamente embaraçado para
responder-lhe; eu cá direi sómente que tal
argumento não tem valor
absoluto, porque suppõe que o diametro angular da Lua
está perfeitamente determinado, o que não
é exacto.
Mas passemos adiante, e dizei-me, meu caro senhor, se admittis a
existencia de vulcões á superficie da Lua.
--De vulcões extinctos, sim; inflammados, não.
--Deixar-me-heis comtudo acreditar, e sem transpor de certo os limites
da logica, que esses vulcões estiveram em
actividade em outra epocha?
--Isso é positivo, mas como tambem era possivel que os
proprios vulcões fornecessem o oxygenio necessario para a
combustão, o facto das erupções
não prova de modo
algum a existencia de atmosphera lunar.
--Passemos adiante, respondeu Miguel Ardan, e ponhâmos de
parte tal genero de argumentos para chegarmos ás
observações directas. Previno-vos
porém que vou citar os nomes proprios.
--Pois citae.
--É o que farei. Em 1715, os astronomos Louville e Halley,
na observação do eclipse de 3 de maio, notaram
certas fulminações de natureza singular. Essa
especie de
relampagos, rapidos e a miudo repetidos, foi por estes observadores
attribuida a tempestades que se desencadeavam na atmosphera da Lua.
Em 1715, replicou o desconhecido, tomaram os
astronomos Louville e Halley por phenomenos lunares phenomenos que eram
puramente terrestres, taes como bolidos, aerolithos ou outros
similhantes, e que se realisaram na nossa atmosphera. É isto
o que responderam os homens da sciencia á
enunciação de taes factos, e é o que
eu com elles responderei tambem.
--Adiante pois, respondeu Ardan, sem se perturbar com a replica.
E Herschel, em 1787, não observou um grande numero de
pontos luminosos na superficie da Lua?
--É certo, mas o proprio Herschel, que aliás
não deu explicação
alguma ácerca da origem d'esses
pontos luminosos, não tirou por conclusão do que
observára a
forçada existencia de uma atmosphera lunar.
--Bem respondido, disse Miguel Ardan cumprimentando o antagonista, vejo
que sois muito entendido em selenographia.
--Verdade é que sou bastante entendido no assumpto, senhor;
devo porém acrescentar, que os mais habeis observadores, os
que mais a fundo têem estudado o astro das noites, os srs.
Beer e
Moedler, estão commigo de accordo ácerca da falta
absoluta de ar na superficie d'elle.»
Houve certa sensação entre os circumstantes, que
pareceram impressionados pelos argumentos do singular personagem.
«Continuemos a passar adiante, respondeu Miguel Ardan com a
maior placidez, que chegaremos a final a um facto importante. Um habil
astronomo francez, M. Laussedat, na
observação do eclipse de 18 de julho de 1860,
verificou que as extremidades do crescente solar estavam arredondadas e
truncadas. Ora tal phenomeno só podia ser produzido por um
desvio dos raios solares que atravessassem uma atmosphera da Lua; outra
explicação admissivel não ha.
--E esse facto é positivo? perguntou com vivacidade o
desconhecido.
--Absolutamente positivo!»
Realisou-se então na assembléa um movimento
inverso do anterior, e que fez de novo pender os espiritos para o heroe
favorito, cujo antagonista ficára silencioso. Ardan retomou
a palavra,
e sem se ufanar com a decidida vantagem que acabava de obter, disse com
simpleza:
Vêdes por consequencia, meu caro senhor, que
não devemos pronunciar-nos de uma fórma absoluta
contra a existencia de
atmosphera á superficie da Lua; essa atmosphera é
provavelmente
pouco densa, muito
subtil, mas na actualidade a sciencia admitte geralmente a existencia
d'ella.
--Não nas montanhas, em que vos peze, replicou o
desconhecido, que não queria dar o braço a
torcer.
Não, mas no fundo dos valles, e sem que a sua altura passe
de alguns centos de pés.
--Em todo o caso, não será mau que tomeis todas
as precauções, porque esse ar ha de estar
terrivelmente rarefeito.
--Oh! meu estimavel senhor, sempre ha de haver que farte para um homem
só; e demais, depois de lá estar em
cima, eu tratarei de o economisar o melhor que podér;
não
respirarei senão nas grandes
occasiões!»
Retumbou uma estrepitosa gargalhada aos ouvidos do mysterioso
interlocutor, que estendeu a vista por toda a assembléa,
como que desafiando-a, altivo.
«Consequentemente, proseguiu Miguel Ardan, visto como estamos
de accordo ácerca da existencia de tal ou qual atmosphera,
somos forçados a admittir tambem a presença de
tal ou qual quantidade de agua. E é uma consequencia esta
com que, pela
minha parte, me alegro em extremo. Alem d'isto permittirá o
meu amavel contradictor que lhe submetta ainda mais outra
observação. Nós só
conhecemos uma das faces do disco da Lua,
e se pouco ar póde haver na face que olha para
nós,
é possível que haja muito na face opposta.
--E porque rasão?
--Porque a Lua, em virtude da attracção terrestre
é que tomou a fórma de um ovo, que nós
vemos pelo lado da
ponta mais achatada; e d'ahi vem a consequencia obtida pelos calculos
de Houven, que o centro de gravidade da Lua está situado no
outro hemispherio. E d'ahi tambem por conclusão, que
todas as massas aereas e aquosas devem ter sido arrastados para a outra
face do nosso satellite nos primeiros tempos da sua
creação.
--Puras phantasias! exclamou o desconhecido.
--Isso não! mas sim puras theorias, aliás
fundadas nas leis da mechanica, e que me parecem de difficil
refutação. Appello portanto para o juizo da
assembléa, e ponho á
votação a questão de saber se a vida,
tal como existe na Terra, é ou
não possivel na superficie da Lua?»
Trezentos mil auditores applaudiram simultaneamente a
proposição. O adversario de Miguel Ardan ainda
quiz fallar, mas nem podia fazer-se ouvir. Caíu-lhe em cima
como uma saraivada de
gritos e ameaças.
«Basta! Basta! diziam uns.
--Fóra o intruso! repetiam outros.
--Fóra! Fóra! clamava a multidão
irritada.
O desconhecido porém, firme, agarrado e bem seguro ao
estrado, não arredou pé e deixou passar a
tormenta, que
teria assumido proporções formidaveis se Miguel
Ardan
não a tivera apaziguado com um gesto. Ardan era muito
cavalheiro para abandonar um adversario em taes extremos.
«Desejaes acrescentar mais algumas palavras? perguntou Ardan
com a mais graciosa intonação.
--Um cento! ou um milheiro! respondeu iracundo o desconhecido. Ou, para
melhor dizer, não, basta só uma! Se
perseveraes na empreza, é porque sois...
--Imprudente! E com que fundamento me trataes vós por
similhante fórma, a mim, que até pedi ao meu
amigo Barbicane que a bala fosse cylindro-conica, só para
não
andar á roda no caminho como qualquer esquilo?
--Mas, desgraçado, logo á partida ha de fazer-vos
em estilhas a horrorosa repercussão do tiro!
--Meu caro contradictor, agora sim, agora é que pozestes o
dedo na chaga, na verdadeira e unica difficuldade; entretanto o
conceito que formo do engenho industrial dos americanos é
muito
elevado para que me permitta acreditar que não
hão de conseguir resolve-la.
--E o calor desenvolvido pela velocidade do projectil ao atravessar as
camadas da atmosphera?
--Oh! as paredes do projectil são espessas, e depois tanto
é o tempo que eu hei de levar a atravessar a atmosphera!?
--Mas viveres e agua?
--Já calculei que podia levar commigo provisões
para um anno, e a viagem dura só quatro dias!
--E ar para respirar no caminho?
--Hei de fabrica-lo por processos chimicos.
--Mas a quéda na Lua, dado mesmo que consigaes lá
chegar?
--Ha de ser seis vezes menos rapida do que o seria na superficie da
Terra, visto como a gravidade é seis vezes menor na
superficie da Lua.
--Ainda assim ha de ser mais do que sufficiente para vos fazer em
pedaços como a um bocado de vidro!
--E quem é que me ha de impedir de retardar a queda por meio
de foguetes convenientemente dispostos e inflammados em
occasião opportuna.
--Mas, emfim, demos que estão resolvidas todas as
difficuldades, aplanados todos os obstaculos, e que se juntam ainda a
vosso favor todas as probabilidades, admittamos que chegaes
á Lua
são e salvo, como é que haveis de voltar?
--Não volto!»
Ao ouvir tal resposta sublime em sua mesma simplicidade, a
assembléa ficou muda. Mas aquelle silencio era mais
eloquente do que quaesquer clamores de enthusiasmo. D'elle se
aproveitou o desconhecido para lavrar o seu ultimo protesto.
--É um suicidio infallivel, exclamou, e a vossa morte, que
será apenas a morte de um insensato, nem ao menos
servirá de proveito á sciencia!
--Continuae, generoso desconhecido, prognosticaes, na verdade, por modo
tão agradavel!
--Ah! isto é de mais! exclamou o adversario de Miguel Ardan,
nem sei porque tenho estado a perder o meu tempo em
discussão tão pouco seria! Prosegui á
vontade n'essa
empreza louca. A culpa não é a vós que
se deve tornar!
--Oh! não faça ceremonia!
--Não! a outrem cabe a responsabilidade inteira dos vossos
actos.
--Então a quem, se me faz favor? perguntou Miguel Ardan com
voz imperiosa.
--Ao ignorante que organisou essa tentativa tão impossivel
como ridicula.»
O ataque era directo. Barbicane que desde que o desconhecido interviera
na discussão fazia esforços violentos
para se conter, e «queimar o proprio fumo» como as
fornalhas
fumivoras de certas caldeiras, vendo-se agora claramente designado e
com tamanha affronta, levantou-se precipitadamente e ía
já
sobre o adversario que o desafiava cara a cara, quando de subito se viu
separado d'elle.
Cem braços vigorosos arrancaram n'um momento o estrado, e o
presidente do Gun-Club teve que partilhar com Miguel Ardan as honras do
triumpho. O broquel era pesado, mas os que o levavam revezavam-se de
continuo, disputando, lutando todos e combatendo para prestarem com os
proprios hombros decidido apoio á
manifestação.
E todavia o desconhecido não se aproveitára do
tumulto para se escapar. E porventura teria podido faze-lo, rodeado
como estava por aquella multidão compacta? Por certo que
não.
Caso é que se conservára na primeira fila, e de
braços cruzados devorava com os olhos o presidente
Barbicane.
Este por sua parte não o perdia de vista; os olhares
d'aquelles
dois homens estavam em
cruzamento permanente como duas espadas frementes.
Os clamores da multidão immensa mantiveram-se no
maximum de intensidade durante todo o tempo que
durou a marcha triumphal. Miguel Ardan deixava-se levar com evidente
satisfação ao sabor das turbas. Irradiava-lhe do
rosto a alegria. Por vezes o estrado parecia jogar de pôpa a
proa, e de bombordo a
estibordo como um navio batido pelas ondas. Mas os dois heroes do
meeting
que tinham pé de
marinheiro, nem vacillavam; e chegou-lhes a nave sem avaria ao porto de
Tampa-Town.
Miguel Ardan conseguiu, por fortuna, escapar-se aos ultimos amplexos e
apertos de mão dos seus vigorosos admiradores;
safou-se para o hotel
Franklin, subiu com
presteza para o quarto, e metteu-se rapidamente na cama, emquanto um
exercito de cem mil homens velava debaixo das janellas.
N'aquella mesma hora passava-se entre o personagem mysterioso e o
presidente do Gun-Club uma scena curta, porém grave e
decisiva.
Barbicane apenas se vira livre, caminhára direito ao
adversario.
«Vinde!» lhe disse com voz breve.
O outro seguiu-o para o caes e, dentro em pouco, acharam-se a
sós á entrada de um
Warfe que deitava para Jone's-Fall.
Chegados áquelle logar miraram-se os dois inimigos ainda
então desconhecidos um para o outro.
«Quem sois vós?» perguntou Barbicane.
--Sou o capitão Nicholl.
--Já o suspeitava. Até este momento nunca o acaso
nos proporcionára occasião de nos vermos frente a
frente...
--Busquei-a eu!
--Insultastes-me!
--E em publico.
--Haveis de dar-me satisfação do insulto!
--Já.
--Não. Desejo que se passe tudo secretamente e só
entre nós. Ha um bosque situado a tres milhas de Tampa-Town,
o bosque de Skersnow. Conheceis-lo?
--Conheço.
--Será do vosso agrado entrar lá
ámanhã ás cinco da manhã
por determinado lado?...
--Sim, se á mesma hora lá entrardes pelo outro.
--E que não esqueça o
rifle? disse Barbicane.
--«Tanto como vós haveis de esquecer o
vosso», respondeu Nicholl.
Pronunciadas friamente estas palavras, o presidente do Gun-Club e o
capitão separaram-se. Barbicane voltou para casa, mas em vez
de descansar por algumas horas, passou a noite a buscar meios de evitar
a repercussão do tiro dentro do projectil, a
resolver o difficil problema que Miguel Ardan apresentára na
discussão do
meeting.
CAPITULO XXI
COMO UM FRANCEZ ARRANJA UMA PENDENCIA DE HONRA
Emquanto entre o presidente e o capitão se discutiam as
convenções do duello, duello terrivel e selvagem,
em que cada um dos adversarios se transforma em caçador de
outro homem,
repousava Miguel Ardan das fadigas do triumpho.
Repousar não é na realidade o termo adequado,
porque as camas na America podem disputar primazias em dureza com
qualquer
mesa de marmore ou de
granito. Dormia por consequencia Ardan, mas mal, dava voltas e voltas
entre os dois guardanapos que lhe serviam de lençoes,
sonhando que installava dentro
do seu projectil uma camasinha mais
comfortable, quando um estrepito violento veio
arranca-lo da região dos sonhos.
Empurravam-lhe a porta com pancadas desordenadas, que pareciam dadas
com instrumento de ferro. De envolta com aquelle tumulto excessivamente
matutino, ouviam-se formidaveis berros.
«Abre! abre, pelo amor de Deus!
Ardan não tinha motivo algum para annuir a um pedido feito
com tanto arruido. Não obstante levantou-se, e foi abrir a
porta, no instante em que ella estava para ceder aos
esforços do
teimoso visitante.
Irrompeu pelo quarto dentro o secretario do Gun-Club, que nem uma bomba
teria entrado com maior semcerimonia.
«Hontem á noite, prorompeu J.-T. Maston
ex abrupto, o nosso presidente foi insultado em
publico no
meeting! Desafiou o adversario, que é
nem mais nem menos que o
capitão Nicholl! Batem-se esta manhã no bosque de
Skersnow! De tudo fui informado pela propria bôca de
Barbicane! A morte d'este
é a aniquilação de nossos projectos!
Por
consequencia é necessario pôr impedimento a tal
duello! Um só homem n'este
mundo exerce no espirito de Barbicane influencia bastante para
desvia-lo de seus intentos, e esse homem é Miguel
Ardan!»
Emquanto Maston assim dizia, Miguel Ardan, que logo
desistíra de o interromper, precipitára-se dentro
das vastas
calças, e menos de dois minutos eram passados, já
os dois amigos chegavam á desfilada aos suburbios de
Tampa-Town.
No
centro da teia debatia-se
uma avesinha (
pag. 193).
No decurso d'aquella rapida carreira é que Maston foi pondo
Ardan mais ao facto da situação. Contou-lhe
então as verdadeiras causas da inimisade de Barbicane e
Nicholl, como era de antiga data tal inimisade, e por que
rasões, nunca até
áquella occasião, Barbicane e o
capitão tinham logrado encontrar-se cara a
cara, graças aos esforços de communs amigos;
disse-lhe
tambem que não havia ali mais do que rivalidade de bala e
chapa, e
finalmente
que a scena do
meeting
fôra apenas a occasião de ha muito procurada por
Nicholl, para satisfazer antigos rancores.
Nada ha mais terrivel que a fórma de duello peculiar da
America,
em que os contendores
se buscam por entre as matas, se espreitam pelas abertas das
çarças, e atiram um
ao outro, no meio das devezas, como quem atira a um animal feroz.
N'esse momento é que ambos os adversarios devem ter inveja
das maravilhosas qualidades que caracterisam os indios das planicies,
da rapida intelligencia e da engenhosa astucia de que estes
são dotados, do faro e da peculiar
percepção dos rastos que os distinguem, quando
seguem pela pista o inimigo. Em taes
occasiões é que o menor erro, a menor
hesitação,
um passo só que seja, dado em falso, podem trazer por
consequencia a morte. Em taes recontros levam por vezes os yankees de
companhia os seus cães, e perseguem-se assim durante horas
inteiras,
desempenhando a um tempo os papeis de caça e
caçador.
«Que diabo de gente são estes americanos! exclamou
Miguel Ardan, depois que o companheiro acabou de lhe descrever com
extrema energia todas aquellas scenas.
--Somos assim tal qual, respondeu com modestia J.-T. Maston; mas vamos
apressando o passo.»
Entretanto por mais que Maston e Ardan corressem através da
planicie, ainda humida do orvalho da noite, passando arrozaes e
ribeiros, tomando sempre pelo caminho mais curto, não
lograram chegar ao bosque de Skersnow, antes das cinco horas e meia.
Barbicane já havia boa meia hora que devia ter-lhe passado a
orla.
Trabalhava ali um velho
bushman,
cuja occupação era desfazer em cavacos as arvores
que derrubava com o machado.
Maston correu para elle a gritar:
«Vistes entrar na mata um homem armado de
rifle, Barbicane, o presidente... o meu melhor
amigo?...»
O digno secretario do Gun-Club pensava ingenuamente que o seu
presidente havia por força de ser conhecido do mundo
inteiro. Mas o
bushman não deu
mostras de o comprehender.
«Um caçador, disse então Ardan.
--Um caçador, sim vi, respondeu o
bushman.
--E ha muito?
--Ha de haver uma hora.
--Já é tarde! clamou Maston.
--E ouvistes tiros de espingarda? perguntou Miguel Ardan.
--Nada.
--Nem um só?
--Nem um. Não me parece que o tal caçador tenha
feito lá muito grande caçada!
--Que se ha de fazer? disse Maston.
--É entrar na mata, mesmo correndo risco de apanhar algum
balasio, que não nos fosse destinado.
--Ah! exclamou Maston com accentuação, de cuja
franqueza não era permittido duvidar-se, antes eu queria
apanhar dez
balas na minha propria cabeça, de que acertasse uma
só na
de Barbicane.
--Então ávante!» replicou Ardan,
apertando a mão do companheiro.
Segundos depois desappareciam os dois amigos na espessura da mata, que
era formada de cyprestes-gigantes, sycomoros, tulipeiras, oliveiras,
tamarindos, carvalheiras e magnolias.
Entrelaçavam-se as ramadas d'aquellas differentes arvores,
em tão emmaranhada confusão, que não
consentiam que a
vista alcançasse muito ao longe. Miguel Ardan e Maston
caminhavam um junto do outro, passando em silencio por entre as hervas
altas, abrindo caminho por entre agudas silvas e vigorosas trepadeiras,
inquirindo com o olhar as moitas ou as ramadas perdidas por entre a
sombria espessura da folhagem, e esperando a cada instante ouvir a
temivel detonação dos
rifles.
Rasto de Barbicane, na sua passagem através do bosque,
é que não logravam reconhecer. Caminhavam
ás cegas por
aquellas veredas apenas pisadas, em que qualquer indio teria seguido
passo por passo a marcha do adversario.
Passada uma hora em pesquizas inuteis, fizeram alto os dois
companheiros. Redobrára-lhes a
inquietação de espirito.
«É porque está tudo acabado, disse
Maston desanimado. Barbicane não era homem que jogasse
astucias com o inimigo, nem que lhe armasse laços ou usasse
de manobras! É
franco e corajoso de mais para isso. Caminhou em frente, direito ao
perigo, e por certo a tal distancia do
bushman
que o vento levou, sem que este a ouvisse, a
detonação das armas de fogo!
--Mas nós! respondeu Miguel Ardan. Desde que
entrámos no bosque não haviamos de ter ouvido
alguma cousa!
--E se chegámos tarde! exclamou Maston com
intonação de desespero.
--Miguel Ardan como não tinha replica que dar-lhe proseguiu
com Maston na marcha interrompida.
De tempos a tempos davam grandes gritos: chamavam ora por Barbicane,
ora por Nicholl; mas nenhum dos dois adversarios respondia
ás vozes d'elles. Apenas alegres bandos de aves,
despertadas pelo ruido, desappareciam por entre as ramadas, ou algum
gamo assustado fugia precipitado através da mata.
Por mais uma hora ainda se prolongaram as pesquizas. Já
fôra explorada a maior parte da mata, e nada que revelasse a
presença dos combatentes. Era caso para pôr em
duvida as
asserções do
bushman, e
Ardan pensava
já em desistir de continuar por mais tempo uma busca inutil,
quando, de subito, Maston estacou.
--Chit! murmurou elle. Está acolá alguem!
--Alguem? respondeu Miguel Ardan.
--Sim! um homem! Parece estar immovel. Já não tem
o
rifle nas mãos. Que
estará fazendo?
--Mas reconheces-lo? perguntou Ardan, a quem, myope como era, de pouco
servia a vista em tal conjunctura.
--Sim! sim! Lá se volta, respondeu Maston.
--E é?
--O capitão Nicholl!
--Nicholl! clamou Miguel Ardan, que sentiu apertar-se-lhe violentamente
o coração.
«Nicholl sem arma! Seria por nada ter já que
receiar do adversario?
«Vamos ter com elle, disse Miguel Ardan; ficaremos
desenganados.»
Mas apenas teriam caminhado uns cincoenta passos, elle e o companheiro
estacaram, para mais attentamente examinarem o capitão.
Cuidavam encontrar um homem sequioso de sangue, todo entregue a
pensamentos de vingança!
Ao verem-no pararam estupefactos. Distendia-se entre dois tulipeiros
gigantescos uma rede de apertada malha; mesmo no centro da teia,
debatia-se uma avesinha presa pelas azas, soltando lastimosos gritos. O
passarinheiro que assim dispozera a inextricavel rede não
fôra um ser humano,
senão uma peçonhenta aranha, peculiar d'aquellas
regiões, de volume igual ao de um ovo de pomba e dotada de
pernas enormes. Mas o horrendo animalejo, no momento em que
ía arrojar-se sobre a presa, tivera de retirar, buscando
asylo nas altas ramadas do tulipeiro, porque por sua vez fôra
ameaçado por
temivel inimigo.
Effectivamente, Nicholl largára a espingarda e esquecido dos
perigos da situação, tratava de
desembaraçar com extremos de delicadeza a victima
enlaçada nas redes da monstruosa
aranha. E quando concluiu a obra, deu a liberdade á pequena
avesinha,
que bateu alegremente as azas e desappareceu.
Ainda Nicholl contemplava enternecido a avesinha que fugia de ramo em
ramo, quando ouviu as seguintes palavras ditas em tom de
commoção:
«Isto é que é homem valente e de alma
bem formada!»
Voltou-se, e encarou com Miguel Ardan, que repetia em todas as
intonações:
«É homem que merece ter amigos!»
--Miguel Ardan! exclamou o capitão. Que vindes fazer aqui,
senhor?
--Apertar-vos a mão, Nicholl, e impedir que mateis
Barbicane, ou que sejaes morto por elle.
--Barbicane! exclamou o capitão, Barbicane, que eu procuro
ha duas horas sem lograr encontra-lo! Onde estará elle
escondido?
--Nicholl, disse Miguel Ardan, isso é falta de cortezia!
deve sempre prestar-se respeito ao adversario; descansae, que se
Barbicane é vivo havemos de encontra-lo, e com tanta maior
facilidade que, se é que não passou o tempo como
vós, entretido em soccorrer alguma avesinha opprimida, deve
andar em vossa procura. Mas quando dermos com elle, sou eu, Miguel
Ardan quem vo-lo diz, não é de duellos que se ha
de tratar.
--Entre mim e o presidente Barbicane, respondeu com gravidade Nicholl,
ha rivalidades de tal ordem, que só a morte de um dos
dois...
--Ora vamos, vamos, replicou Miguel Ardan, homens valentes e almas bem
formadas como vós outros, é possivel
que se detestem, mas por certo tambem se estimam. Não haveis
de bater-vos.
--Hei-de bater-me, senhor!
--Isso é que não.
--Capitão, disse então J.-T. Maston com generoso
animo, sou amigo do presidente, o seu
alter
ego, outro elle; se desejaes absolutamente matar alguem,
disparae sobre mim, que é exactamente o mesmo.
--Senhor, disse Nicholl apertando com mão convulsa o
rifle, essas zombarias...
--O amigo Maston não está zombando, respondeu
Miguel Ardan, e eu cá por mim comprehendo perfeitamente a
sua
idéa de se fazer matar em vez do homem de quem é
amigo! Mas nem elle
nem Barbicane hão de cair aos tiros do capitão
Nicholl, porque tenho a fazer aos dois rivaes uma proposta por tal
fórma
seductora, que por certo hão de acceita-la com enthusiasmo.
--Que proposta é então essa? perguntou Nicholl
com visivel incredulidade.
--Haja paciencia, respondeu Ardan, não posso fazer a
communicação senão na
presença de Barbicane.
--Pois vamos por elle, exclamou o capitão.
No mesmo instante pozeram-se os tres a caminho; o capitão
desarmou o
rifle, po-l'o ao hombro,
e caminhou com passo soffreado, sem dizer palavra.
Por espaço de meia hora ainda, foram inuteis todas as
pesquizas. Maston sentia-se dominado por sinistro presentimento, e
observava Nicholl com severidade, perguntando a si proprio se
não estaria já satisfeita a vingança
do
capitão, e Barbicane jazendo ferido de bala ao pé
de alguma moita ensanguentada. Miguel
Ardan parecia dominado pelas mesmas idéas, e ambos inquiriam
com os olhos o capitão Nicholl, quando Maston estacou de
subito.
Encostado ao tronco de uma catalpa gigantesca via-se a uns vinte passos
o busto immovel de um homem com o corpo meio occulto por entre as
hervas.
«É elle!» murmurou Maston.
Barbicane nem se movia. Ardan olhou fito para os olhos do
capitão, mas este não trepidou. Ardan deu alguns
passos, gritando:
«Barbicane! Barbicane!»
Nada de resposta.
Ardan encaminhou-se precipitado para o amigo, mas no momento
em que ía agarra-lo pelo braço, estacou de
repente, soltando uma exclamação de surpreza.
Barbicane, de lapis em punho, escrevia fórmulas e
traçava figuras geometricas n'uma carteira. A espingarda,
essa jazia desarmada no chão.
O homem de sciencia, absorto pelo trabalho, esquecendo por sua parte
duello e vingança, nada víra nem
ouvíra. Mas quando Miguel Ardan lhe poz a mão nas
d'elle, levantou-se e olhou
com ar de espanto.
--Ah! exclamou por fim, tu aqui! Encontrei, amigo! encontrei!
--O que?
--Os meios!
--Mas que meios?
--Meios de annullar o effeito da repercussão do tiro
á partida do projectil!
--Realmente? disse Miguel Ardan, olhando de soslaio para o
capitão.
--É verdade! agua, agua pura servirá de almofada.
Ah! Maston! exclamou Barbicane, tambem vós!
--Em propria pessoa, respondeu Miguel Ardan, e dá-me
licença que te apresente tambem por esta occasião
o estimavel
capitão Nicholl!
--Nicholl! exclamou Barbicane, levantando-se de subito.
Perdão, capitão, tinha-me esquecido... mas estou
prompto...»
Miguel Ardan metteu-se de permeio sem dar tempo aos dois inimigos para
que se interpellassem.
«Por vida minha! disse Ardan, que foi uma verdadeira
felicidade que dois homens de alma generosa e elevada como
vós dois se não tivessem encontrado mais cedo!
Tinhamos agora que
estar chorando um dos dois! Mas graças a Deus, que se metteu
no
negocio, já nada ha que receiar. Quando dois homens esquecem
os seus odios para se entregarem á
resolução de problemas de mechanica ou fazer
partidas ás aranhas, é porque
taes odios não são perigosos para
ninguem.»
E Miguel Ardan narrou ao presidente a aventura do capitão.
--«Ora perguntarei eu agora, disse Miguel em
conclusão, se duas boas pessoas como vós outros
foram feitas para se
esmigalharem reciprocamente a cabeça a tiros de
carabina?»
Havia n'aquella situação, um tanto ridicula,
alguma cousa de tão inesperado, que Barbicane e Nicholl
não
sabiam como comportar-se um em relação ao outro.
Miguel, que bem o
percebeu, resolveu precipitar a reconciliação.
«Estimaveis amigos, disse deixando apontar aos labios o mais
agradavel dos sorrisos, nunca houve entre vós dois
senão equivocos. Nada mais. Pois bem! para dar prova de que
todas as contendas estão terminadas, e visto como sois
homens que
não temem arriscar a pelle, acceitae sem hesitar a proposta
que vou fazer-vos.
--O amigo Barbicane pensa que o seu projectil ha de ir direitinho
á Lua?
--Certamente que sim, replicou o presidente.
--E o amigo Nicholl está persuadido que o projectil ha de
caír na Terra.
--Estou seguro d'isso, exclamou o capitão.
--Muito bem! proseguiu Miguel Ardan. Eu é que não
tenho pretensões a pôr-vos de accordo, mas
sómente vos direi mui lhana e simplesmente: Vinde commigo,
para vermos assim se ficâmos ou não a meio
caminho.
--Hum!» exclamou J.-T. Maston estupefacto.
Ao ouvirem tão inesperada proposta, os dois rivaes
levantaram os olhos um para o outro. Observavam-se attentamente.
Barbicane aguardava a resposta do capitão. Nicholl estava
á espreita da primeira palavra do presidente.
«Então? disse Miguel Ardan com
intonação das mais convidativas. Visto nada haver
que receiar da repercussão!...
--Acceito! exclamou Barbicane.
Mas, por depressa que esta palavra fosse pronunciada pelo presidente,
tambem Nicholl a concluira ao mesmo tempo.
--Hurrah! bravo! viva! hip! hip! hip! clamou Miguel Ardan estendendo as
mãos aos dois adversarios. E agora que a pendencia
está pacificamente terminada, meus amigos, consintam-me que
os trate á franceza. Vamos almoçar.»
CAPITULO XXII
O NOVO CIDADÃO DOS ESTADOS UNIDOS
N'aquelle mesmo dia toda a America foi informada a um tempo do desafio
de Barbicane com o capitão Nicholl, e da aventura
singular que lhe puzera termo. O papel que desempenhára
n'aquelle recontro o cavalheiroso europeu, a proposta inesperada que
viera cortar todas as dificuldades, a acceitação
simultanea dos dois rivaes, aquella conquista do continente lunar, para
emprehender a qual íam marchando de accordo
França e Estados
Unidos, tudo se reuniu para ainda mais augmentar a popularidade de
Miguel Ardan.
É sabido qual o phrenesi com que os yankees se apaixonam por
qualquer individualidade. Imagine-se qual seria a paixão
desencadeada em favor do audacioso francez, n'aquelle paiz onde
até os mais graves magistrados não duvidam puxar
á carruagem de qualquer dansarina para a levarem em
triumpho. Se
não desatrelaram os cavallos de Ardan, foi provavelmente
porque elle os
não tinha, que no
demais foram-lhe prodigalisadas todas as
provas imaginaveis de enthusiasmo. Não houve um
só
cidadão que senão unisse a elle de alma e
coração.
Ex pluribus unum, que é a divisa dos
Estados Unidos.
A partir d'aquelle dia, não teve Miguel Ardan um
só momento de socego. Vinham procura-lo
deputações de todos
os cantos da União, que o attribulavam e que não
promettiam
ter fim, nem tregua. E o mais é que tinha que as receber,
com vontade ou sem ella. Quantos apertos de mão deu, a
quanta gente tratou por tu, é cousa que nem póde
calcular-se. Dentro
em pouco tempo estava exhausto de forças, a voz
já mal lhe
saía dos labios em sons inintelligiveis, rouca dos
innumeraveis
speechs; ía arranjando uma
gastro-enterite de tanto
toast
que se viu obrigado a fazer a todos os condados da União. Um
triumpho tal teria
subido á cabeça a outro qualquer logo no primeiro
dia,
mas Ardan teve artes de nunca passar de uma espirituosa e encantadora
semi-ebriedade.
Entre as deputações de todos os generos que por
aquella occasião o assaltaram, não soube esquecer
quanto devia ao futuro conquistador da Lua, a dos
«lunaticos». Certo dia,
alguns d'estes pobres diabos, abundantes na America, vieram ter com
elle e pedir-lhe que os levasse comsigo para o paiz natal. Alguns houve
que affirmaram saber fallar a «lingua selenita» e
que até a quizeram ensinar a Miguel Ardan. Prestou-se este
de bom grado a tão innocente mania, e até se
encarregou de recados e
encommendas para os amigos que os pobres diabos diziam ter na Lua.
«Singular loucura, disse Ardan a Barbicane, depois que os
despediu, e loucura que ataca as mais das vezes as intelligencias mais
agudas. Dizia-me Arago, um dos nossos mais illustres homens de
sciencia, que muitas pessoas, aliás extremamente sensatas
e cautelosas nas suas concepções, se deixam
arrastar a grande exaltação e a incriveis
singularidades, todas as vezes que se occupam
da Lua. E tu não dás credito á
influencia da Lua sobre as doenças?