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Rita
Farinha (Jul. 2009)
O
RECONHECIMENTO
DO IMPERIO
GEORGE CANNING
Segundo uma tela de
Stewardson, gravada por Wm Brett.
OLIVEIRA LIMA
da Academia Brazileira
Historia Diplomatica do Brazil
O
Reconhecimento
do Imperio
H. GARNIER, LIVREIRO-EDITOR
| 71-73, rua
do Ouvidor, 71-73 |
|
6, rue des
Saints-Pères,
6 |
| RIO DE JANEIRO |
PARIS |
TRABALHOS DO AUCTOR
Pernambuco,
Seu
desenvolvimento historico.—Leipzig,
F. A. Brockhaus, 1895. 1 vol. de XIII, 327 paginas, com
4 retratos.
Sept Ans de République
au
Brésil (1889-96), extrait de la
«Nouvelle Revue».—Paris, 1896. 1 folheto de
36 paginas.
Aspectos da Litteratura Colonial
Brazileira.—Leipzig,
F. A. Brockhaus, 1896. 1 vol. de XVI, 301 paginas.
Nos Estados Unidos,
Impressões politicas e
sociaes.—Leipzig,
F. A. Brockhaus, 1899. 1 vol. de 524 paginas.
Memoria sobre o descobrimento do
Brazil,
Suas primeiras
explorações e negociações
diplomaticas a que deu origem.—Premiada
em concurso pela Associação do
Quarto Centenario do Descobrimento do Brazil e publicada
no Livro do Centenario. Rio de Janeiro, 1900.
Á MEMORIA DE UM AMIGO
(† 3 de Novembro de 1897.)
Dedicando á memoria do barão d'Itajubá
este ensaio,
o primeiro de uma serie sobre a nossa historia no exterior,
desejo relembrar esse amigo, que durante trez
saudosos annos foi meu chefe na Legação em
Berlim,
e cuja morte prematura significou para a diplomacia
brazileira, n'aquelle momento, a perda do seu mais
completo representante.
Digo completo, porque elle reunia á finura da intelligencia
e á pratica dos negocios, a distincção
das maneiras
e a formosura do caracter. Pode-se de certo ser
um grande diplomata sem o ultimo predicado: o já
classico exemplo de Talleyrand ahi está para proval-o.
A experiencia dos negocios pode ser supprida pelos
rasgos de genio: Napoleão, aos 28 annos, dirigia as
negociações de Campo Formio com a pericia
consummada
que Albert Sorel nos descreveu em um bello
trabalho. Itajubá era porem o equilibrio moral em pessoa.
N'elle algumas qualidades se não haviam desenvolvido
extraordinariamente á custa d'outras. Methodico
em extremo, a chancellaria era o seu templo, o
expediente o seu sacerdocio, sem que comtudo a rotina
o tornasse imbecil, ou sequer a burocracia lhe desmanchasse
a linha fidalga. A certa hora aquelle funccionario
modelo convertia-se muito naturalmente—porque
n'elle nada havia de affectado—no homem de sociedade
mais correcto e mais attrahente. Á banca de trabalho
nunca conheci intelligencia mais viva, percepção
mais prompta dos diversos lados de uma questão. Em
um salão nunca conheci pessoa mais á sua vontade,
tendo uma resposta finamente espirituosa, nunca maldosa,
para tudo, igualmente amavel para com todos.
Esta amabilidade era tanto mais captivante, quanto
derivava não só da sua
educação, como do seu
coração.
Itajubá era, além de intelligente e distincto,
bom, fundamentalmente
bom, de uma bondade simples e tocante.
A sua alma rejubilava discretamente á idéa do bem
que
n'um dado momento podia praticar, e atormentava-se
com o mal—para outrem—que não podia evitar. Para
outrem note-se, porque, no que lhe dizia respeito, mostrava
uma impassibilidade que dava a medida do seu
espirito superior. Não que fosse indifferente aos ataques
ou á má vontade. Sua sensibilidade era em demasia
delicada para permittir-lh'o, mas sabia como genuino
mundano esconder a sua contrariedade, sem, christão
verdadeiro, guardar o mais leve rancor.
Repito, Itajubá era o equilibrio moral em pessoa:
igualmente solicito no desempenho dos seus deveres
officiaes e sociaes, polido até o requinte, generoso de
verdadeiras attenções—que é bem mais
difficil do
que ser generoso de dinheiro—affectuoso até a ternura
para os seus, que o adoravam, e para os amigos,
que o estremeciam.
O nome do barão d'Itajubá não ficou
ligado em nossa
historia diplomatica a nenhuma convenção
particularmente
notavel, mas a um sem numero de pequenas
negociações delicadas e a algumas espinhosas, que
elle
sabia guiar com mão segura e resolver com um tacto
perfeito. Ministro em Madrid, em Washington, em
Roma, em Pariz e em Berlim, nunca se lhe deparou
occasião para diplomacias de alta escola, nem elle a
procurava. Achava com razão que, no caminhar diario
dos negocios, ha farto ensejo de prestar serviços para
quem os não visa como meio de chamar a
attenção. A
sua excellente posição social em todas aquellas
capitaes
facilitava-lhe, de resto, a solução de qualquer
questão,
reflectindo-se toda em lustre do paiz que elle personificava.
Nos ultimos annos o facto que poz mais em evidencia
a capacidade diplomatica do barão d'Itajubá foi o
reconhecimento da Republica Brazileira pelo Governo
Francez a 20 de Junho de 1890, obtido exclusivamente
por sua influencia pessoal, trez mezes antes de fazel-o
qualquer outra nação européa, sem
aguardar a França
o resultado das eleições para a Constituinte do
Rio de
Janeiro. Fizeram-lhe d'isso um crime por ser elle um
representante vindo do antigo regimen e um amigo do
Imperador deposto; quando o
crime,
aliás commum a
centenares de outros, significava apenas que, com a
sua visão sempre clara dos acontecimentos e
dedicação
á nação que servia, Itajubá
comprehendêra perfeitamente
que a monarchia americana cahira para sempre,
e que o dever dos brazileiros residia muito mais na
defeza do bom nome do paiz, em promover a continuidade
das suas tradições de honra e de
civilização, do
que na dedicação platonica e improficua a uma
dynastia
que mais se suicidára do que fôra derrubada. Elle
serviu
a Republica com a lealdade que foi a regra da sua vida
publica e privada, que foi a melhor arma, a unica mesmo,
da qual se serviu victoriosamente contra os seus detractores
e, usemos do termo proprio, os seus invejosos. A
sua norma, a sua justificação, consistiam em
antepôr
sempre e em tudo ás formulas que passam, alguma
cousa que fica—a Patria.
Oliveira
Lima.
Londres, 25 de Janeiro de 1901.
HISTORIA DIPLOMATICA DO BRAZIL
O
RECONHECIMENTO DO IMPERIO
I
A
Europa e o
reconhecimento.
A Independencia consummou-se em 1822;
o reconhecimento do Imperio do Brazil pelo
Reino de Portugal apenas teve lugar em
1825, e antes da ex-metropole nenhuma
nação européa, nem mesmo a Inglaterra
de
Canning, abalançára-se a receber em seu
convivio official a colonia insurgente. De
1823 a 1827 coube pois á joven diplomacia
brazileira pugnar na Europa pela admissão
no areopago politico do mundo civilizado da
nova nação americana, creada pela ousadia
e decisão de um Principe, pelo sentimento
latente e crescente da desunião, pela habilidade
e patriotismo de alguns estadistas,
pelo enthusiasmo e confiança de numerosos
espiritos cultos, e pela valiosa cooperação de
um
almirante inglez
em ostracismo social.
Papel da esquadra
na Independencia.
Sem esta ultima contribuição não
é exaggerado
dizer que os esforços das demais corriam
grave risco de ficarem frustrados. Com
effeito, senhores os Portuguezes do norte
do Brazil, estabelecidos em terra e no mar,
e sendo absurdo pensar n'uma expedição
terrestre sahida da capital, só poderiam ter
sido expellidos das suas posições por meio
de uma esquadra, a qual se formou ás
carreiras e com benemerito vigor local,
supprindo elementos da officialidade estrangeira,
especialmente da britannica que acabava
de se distinguir na libertação do Perú
e do Chile, o que havia ainda de escasso e
deficiente na marinhagem nacional. Era
esta tanto mais inexperiente quanto, sob
o dominio portuguez, o proprio commercio
de cabotagem andava vedado aos Brazileiros.
Na Inglaterra acontecia justamente
que a terminação das guerras napoleonicas,
depois de revolucionada a Europa, deixára
a meio soldo e sem pasto para sua actividade
muitos officiaes de valor e ambição,
que sobremaneira estimavam encontrar em
outros campos de batalha emprego para
seus gostos e habilitações.
A esquadra ás ordens de Lord Cochrane,
o grande
condottiere naval da
emancipação
do Novo Mundo, foi, mau grado a sua
composição heterogenea, o agente principal
da nossa União. A ella deve-se que, quando
o marechal Felisberto Caldeira Brant Pontes
e o cavalheiro Manoel Rodrigues Gameiro
Pessoa, com razão fiados nas boas
disposições
do Foreign Office, apresentaram-se a
Canning urgindo o exercicio da influencia
ingleza para effectuar-se o reconhecimento
pela mãi patria e conseguintemente pela
Europa do Imperio sul-americano, este
merecesse bem o seu titulo pela enormidade
do seu territorio e homogeneidade da
sua organisação.
Aberturas de
reconciliação.
Não fôra sem grande trabalho que
chegára
a tornar-se possivel esta solução pacifica da
acalorada disputa que, por motivo da separação,
tinha lavrado entre as duas partes da
monarchia portugueza. Canning, que de
principio tomára a peito a questão,
manifestára
porem o parecer que o Brazil não podia
nem devia mais esquivar-se com pretextos
de dignidade e amor proprio á
inclinação,
muito por ultimo e a muito custo, mostrada
por Portugal, de consentir na abertura de
negociações directas de
reconciliação sem
exigir a previa e incondicional submissão,
na qual insistira inflexivelmente para satisfazer
o espirito publico e quando julgava
que o Reino Unido passaria do papel de
honnête courtier para o de
interventor determinado.
De accordo com a suggestão do
Secretario d'Estado dos Negocios Estrangeiros
de Sua Magestade Britannica e ao
tempo que Portugal, seduzido pelos conselhos
das potencias continentaes, ia regressando
á primitiva intransigencia, o Brazil
iniciava sua campanha diplomatica nas
côrtes do Velho Mundo.
Nomeação de
Brant e Gameiro.
Caldeira Brant e Gameiro Pessoa tinham
sido encarregados de aplanar as differenças
entre as duas nações sem propriamente solicitarem
a mediação britannica, mas tendo
ordem de communicar ao Foreign Office os
seus passos e tentames, e de pedir e receber
os conselhos de Canning. Caldeira Brant
anteriormente á sua missão residira na
Inglaterra,
officialmente acreditado na qualidade
de agente do Governo do Brazil. Como
tal se occupára de variados negocios,
entre outros de construcções navaes e
alistamento de marinheiros, até Agosto de
1823, mez em que partira para o Imperio.
Expedições
armadas na Inglaterra.
O alistamento de marinheiros realizava-se
sem inconveniente nem embaraço, mesmo depois
da Independencia, não tendo na pratica
applicação ás possessões
portuguezas o
Foreign
Enlistment Bill, proposto e approvado
em 1819 para privar d'então em diante de
justificação as queixas da Hespanha, a qual
via com desgosto e irritação sahirem dos
portos britannicos expedições armadas em
favor da emancipação das suas colonias
americanas. Eram semelhantes expedições,
tanto a consequencia do tradicional espirito
liberal da nação ingleza, naturalmente sympathica
a qualquer nacionalidade oppressa
ou desejosa de ganhar seus fóros, como a
expressão das vantagens mercantis que um
commercio que acabava de soffrer o bloqueio
continental e se via a braços com a
accumulação de mercadorias d'elle resultante,
encontrava em novos mercados abertos
á sua iniciativa. Custára tanto menos a
Canning defender aquelle projecto ministerial
quanto achava-se persuadido, com a
firmeza da intelligencia e a confiança da
vontade, que a emancipação da America
Latina consummar-se-hia fossem quaes
fossem as circumstancias que a favorecessem
ou a retardassem. O Brazil estava de resto
em posição differente, porque em rigor
não
podia considerar-se uma colonia abruptamente
despregada do tronco metropolitano.
Algum tempo antes de declarar-se independente
e sobretudo com a curta regencia de
D. Pedro, gosára o reino ultramarino de
uma larga autonomia que o habilitára a
entabolar relações européas e a
fazer-se
julgar como um governo de facto, capaz de
desempenhar seus proprios compromissos.
Encarregatura
de negocios
de Hyppolito.
Na ausencia de Caldeira Brant ficou interina
e officiosamente encarregado dos negocios
do Imperio o vigoroso jornalista que
durante quinze annos estivéra na estacada,
redigindo o
Correio Brasiliense e
prestando
á causa constitucional e da liberdade americana
os mais assignalados serviços. Em
recompensa havia Hyppolito José Pereira
da Costa Furtado de Mendonça merecidamente
sido nomeado Consul Geral em
Londres, lugar que exerceria cumulativamente
com o de Conselheiro da Legação
quando o Governo Britannico reconhecesse
ambas as nomeações, pois até
então estava
permittida nos portos da Inglaterra a
admissão da bandeira independente, mas
não se concedia o
exequatur aos consules,
posto que fossem nomeados e recebidos
consules inglezes no Brazil e na Cisplatina.
A etiqueta diplomatica o mais que tolerava
n'este ponto eram os agentes commerciaes,
vedando quaesquer formulas externas do
reconhecimento politico a que no fundo
annuia.
A encarregatura de Hyppolito foi muito
curta e pouco interessante. Em Novembro
de 1823 era o cavalheiro Gameiro, que
estava servindo de encarregado de negocios
em Pariz, removido no mesmo caracter
para Londres, só recebendo porem a respectiva
communicação em Março de 1824.
O pobre Hyppolito fallecia entretanto,
quando via despontar o triumpho do seu
ideal, sem poder desfructar a victoria e
deixando tão pobre a senhora ingleza que
desposára, que o Imperador, a pedido do
duque de Sussex, mandou conceder-lhe
uma pensão de cem libras annuaes.
Instrucções a
Gameiro.
Nas instrucções que simultaneamente com
a nomeação eram expedidas a Gameiro, dizia-se
que elle e o marechal Caldeira Brant,
que estava para regressar do Rio de Janeiro,
seriam os plenipotenciarios escolhidos para
tratar em Londres da questão primordial e
magna do reconhecimento do Imperio, que
preoccupava essencialmente os estadistas
brazileiros e que tambem mais ou menos tinha
occupado a attenção de Canning desde a sua
volta ao Foreign Office, coincidente com a
proclamação do Ipiranga. As
instrucções
do Ministerio de Estrangeiros recommendavam
entretanto a Gameiro que se fosse
empenhando sósinho pelo alludido negocio,
procurando ser logo admittido publicamente
como encarregado de negocios, depois ou
mesmo antes de dar satisfacção, corroborando
a que no Rio de Janeiro fôra dada
em Notas ao consul Chamberlain, pelos
«actos inconsiderados do passado ministerio».
Diziam estes actos respeito ao incidente
com o brigue de guerra
Beaver,
contra
o qual a fortaleza da Lage disparára dois
tiros de polvora secca quando ia sahindo em
occasião que o porto havia sido mandado
fechar, e á entrada na armada nacional do
desertor tenente Taylor, que o Governo
Imperial a muito custo e com muito sacrificio
se prestava a demittir e, si tanto fosse
exigido, entregar, como prova da sua boa
vontade para com a Grã Bretanha. Lembremos
de passagem que Canning teve o
espirito e a generosidade de contentar-se
com a demissão do seu distincto compatriota.
Posição
diplomatica
do Brazil.
O recebimento, pelo menos officioso, de
Gameiro não padecia duvida, apezar das intimas
ligações de Portugal com a Inglaterra.
Nem podia ser d'outro modo. A França, si
bem que não permittindo a reciprocidade,
acabava de despachar como encarregado de
negocios para o Rio de Janeiro o conde de
Gestas; a Prussia até manifestára desejos
de concluir um tratado, e o consul britannico
Henry Chamberlain exercia no Brazil
funcções diplomaticas que, no rigoroso acatamento
dos preceitos do direito das gentes,
só deveriam caber a um agente acreditado
perante um governo legalmente constituido.
O reconhecimento formal estava porem
longe ainda de achar-se ultimado, e era
essa a chave que para o Brazil abriria a
porta a todas as outras negociações, mesmo
a da abolição do trafico de escravos com
que o Imperador acenava á Inglaterra, e
cuja regulação inicial no tratado de 1810
com Portugal e na convenção de Londres
de 1817 andava tão imperfeita ou mal interpretada,
que fornecia azo a seguidos protestos
do consul Chamberlain.
Justificação
da Independencia.
Nas instrucções mandadas a Gameiro,
após insinuado que outras potencias européas
poderiam roubar á Inglaterra a prioridade
no passo de amizade internacional que
o reconhecimento significava, assim affectando
os interesses commerciaes britannicos,
e de reaffirmada a resolução inabalavel
do Imperador e do seu povo em manterem
a attitude tomada, resumiam-se os motivos
que tivera o Brazil para desligar-se de Portugal,
avultando entre elles a retirada de
D. João VI do Rio de Janeiro e a tyrannia
das Côrtes demagogicas de Lisboa, e salientava-se
«que a Politica, os interesses Nacionaes,
o resentimento progressivo do
Povo, e até a propria Natureza tornavam
de facto o Brazil Independente
[1].»
Relembrava-se
que a ex-colonia «conciliando os
principios da Legitimidade com os da Salvação
do Estado, e interesses publicos»,
patenteára toda a sua dedicação
á Casa de
Bragança ao acclamar como seu soberano o
primogenito do monarcha portuguez, ao
passo que as nações hispano-americanas se
tinham constituido debaixo da forma republicana
de governo, forma que tambem era
a predilecta de uma turbulenta facção no
Brazil, «animada pela effervescencia do
seculo», e a qual augmentaria e ganharia
força si se verificasse que ás realezas
européas
repugnava a plena admissão como
legitimo «de um governo fundado na justiça,
e na vontade de quatro milhões de
habitantes». O titulo de Imperador correspondia
aliás a uma idéa de escolha,
eleição
ou sagração popular que se coadunava com
o espirito democratico do paiz, e, no dizer
das instrucções, fôra adoptado
«por certa
delicadeza com Portugal; por ser conforme
ás idéas dos Brazileiros; pela
extensão territorial;
e finalmente para annexar ao
Brazil a cathegoria que lhe deverá competir
no futuro na lista das outras Potencias do
Continente Americano».
A mediação
ingleza suggerida.
Declarando estar prompto para tratar com
seu Augusto Pai sobre a base do reconhecimento
da cathegoria politica assumida pelo
Brazil, e por este modo facultar a Portugal
«aproveitar do Brazil o que ainda fôr
possivel»,
o Imperador acabava por mencionar,
como podendo originar um tal resultado, a
mediação ingleza, certamente agradavel a
Portugal e que elle de boa mente acceitava,
sem que a tivesse solicitado. Assim pois,
antes da chegada de Caldeira Brant, já
tivera Gameiro ensejo e tempo para
entender-se com aquelles que deviam ser os
mais importantes personagens na peça que
se ia representar no tablado do Foreign
Office. O caminho estava aberto. Quando
ambos os enviados receberam do Rio suas
instrucções definitivas e plenos poderes para
negociarem com todas as potencias européas,
immediatamente procuraram em virtude
da previa intelligencia tanto o Secretario
d'Estado dos Negocios Estrangeiros
do Reino Unido, como o barão de Neumann,
encarregado de negocios da Austria na ausencia
do Embaixador, principe Esterhazy.
A Austria
igualmente medianeira.
Viera a combinar-se que o gabinete de St-James,
protector declarado de Portugal, e o
Imperador da Austria, sogro de D. Pedro I,
seriam conjunctamente os medianeiros ou
antes assistentes na paz e reconciliação
directamente negociadas em Londres entre a
metropole e a colonia da vespera. Canning,
em seu louvavel empenho de preservar a
paz quanto possivel, gostava de proceder
de harmonia e até favorecer os designios
das potencias continentaes, sempre que
esses não fossem adversos aos interesses
britannicos. Os bons officios da Grã Bretanha
haviam sido primeiro suggeridos por
Palmella, ao responder a uma declaração
do novo ministro inglez, Sir Edward Thornton,
de que o gabinete britannico estando
persuadido da impossibilidade de restabelecer-se
a sujeição, voluntaria ou forçada, do
Brazil, era conveniente concordar-se logo
no modo de resolver a pendencia, satisfactoriamente
para a independencia politica do
Brazil e para a soberania em ambas as
partes da monarchia portugueza da Casa de
Bragança.
Canning resolve
a questão
da mediação ou
bons officios.
Um pouco depois, por effeito de conselhos
contrarios dados em Lisboa ao gabinete
da Bemposta, o conde de Villa Real,
ministro portuguez em Londres, vibrou
como uma ameaça a interferencia das potencias
continentaes. Canning porem, que
combatia no Velho Mundo os dictames reaccionarios
da Santa Alliança e os desconhecia
com relação ao Novo, declinou para
o caso vertente toda e qualquer intervenção
de semelhante natureza. Abria apenas uma
excepção para a Austria pela razão do
intimo
parentesco entre as côrtes de Vienna e
do Rio de Janeiro, ao ponto mesmo de prometter
suspender eventualmente o reconhecimento
do Imperio Brazileiro até dar mostras
de consummar-se a mediação austriaca,
si preferida á britannica. Os bons officios
da Inglaterra não podiam todavia ser evitados,
dada a sua posição de ascendencia em
Lisboa como no Brazil, e o Governo Portuguez
volveu a cortejal-os, no intuito de por
meio d'elles obter do Imperio as condições
mais suaves para o orgulho da mãi patria.
Por seu lado Canning, servindo-se do consul
Chamberlain, insinuou a vantagem
d'aquelles bons officios no espirito dos governantes
brazileiros, a cujo conhecimento
incumbiu-se de levar posteriormente as
disposições
mais conciliadoras de Portugal, de
entrar em negociações para regular a futura
successão das duas partes da monarchia e
restabelecer as primitivas relações commerciaes
existentes entre os dous reinos.
Canning como
interventor
a pedido.
Não era facil empreza, mesmo para o genio
diplomatico de Canning, o desmanchar
as desconfianças e attritos levantados entre
Portugal e Brazil, fazendo ver a este quanto
a amizade do Velho Mundo lhe seria proveitosa
e
como lhe cabia angarial-a pela sua
moderação e condescendencia, e
esforçando-se
por annullar n'aquelle a procrastinação
e má vontade estimuladas pelas potencias
continentaes, as quaes pintavam o gabinete
britannico como exclusivamente devotado
a fomentar os interesses brazileiros.
Canning logrou todavia realizar o seu
intento. A dissolução da Constituinte do Rio
de Janeiro, em Novembro de 1823, animára
o Governo de Lisboa em sua estudada morosidade,
alvoroçando-o com a perspectiva
do predominio no Brazil do chamado partido
portuguez; quando porem essa ultima
esperança se lhe esvaio, de que o Imperador
seria levado ou compellido a readmittir a
soberania paterna, mandou ao conde de
Villa Real instrucções que o fizeram solicitar
formalmente, por meio de uma Nota Verbal
com data de 4 de Março de 1824, a
intervenção
britannica afim de obter satisfacções
por parte do Brazil. Era um meio indirecto
ou antes um circumloquio diplomatico para
reabrir a questão, sendo posta de lado a
preliminar submissão do Imperio ao seu
status colonial. Apparentava-se
tratar sómente
de reparar offensas e prevenir maiores
conflictos, previamente a ventilar-se
qualquer outra differença, isto é, a de soberania
ou independencia. Os bons officios da
Grã Bretanha e da Austria entraram por
esta forma n'uma phase de effectividade,
não dispensando absolutamente Canning a
collaboração da côrte de Vienna, cuja
mediação havia sido solicitada em fins de
1823 pelo Governo Portuguez.
Benevolencia
da Austria.
E a Austria entrava no negocio cheia de
benevolencia, porque Canning convencêra
tão perfeitamente Metternich que a
destruição
do throno brazileiro, fatal no caso
de falhar o reconhecimento, seria mais perniciosa
ao principio monarchico, por ambos
os estadistas acatado, do que a acceitação
da separação dos dous reinos, que o
Chanceller austriaco, após demorar por
alguns mezes sua resposta ao gabinete de
Lisboa, declarára sem ambages que lhe não
parecia possivel restabelecer-se a situação
anterior á Independencia e que o mais avisado
seria, na hypothese muito provavel
do Brazil não consentir em acceder a uma
autonomia completa e effectiva, debaixo da
suzerania portugueza e sob o governo de
um principe portuguez, assegurar a corôa
americana para a Casa de Bragança. O Governo
Austriaco dizia-se prompto até a
annunciar ao Imperador do Brazil, uma vez
effectuada, a concessão da independencia,
a qual todavia nunca reconheceria senão
depois de o fazer Sua Magestade Fidelissima.
Hostilidade
da Santa Aliança.
A Inglaterra
e a Austria
em pontos
de vista diversos.
A boa vontade da Austria, inspirada pelas
considerações de familia, não era
porem
tudo, mesmo que não variasse, segundo
veio a acontecer. Canning perceberia a
breve trecho, conforme escrevia a Lord
Liverpool poucos mezes depois, que «Portugal
parecia ser o terreno escolhido pela
Alliança continental para combater peito a
peito a Inglaterra, pelo que devemos estar
preparados para travar a peleja e destroçar o
inimigo, supportando qualquer forma imaginavel
de intriga ou intimidação, sob pena
de sermos expulsos do campo
[2]».
Começa
porque os dous medianeiros da questão
brazileira de certo modo collocavam-se em
pontos de vista diversos. A Austria, ou
Metternich por ella, não podia seguramente
ver com muito bons olhos que o
Imperio Americano pretendesse trilhar a
senda constitucional, legado da maldicta
Revolução.
Metternich e
a Constituição
Brazileira.
Um momento houve mais tarde em que
Canning assustou-se devéras com um boato
corrente, de ter Telles da Silva, o agente
brazileiro em Vienna, promettido ao Chanceller
desistir o Imperador, em troca do
reconhecimento, da perfilhada orientação
liberal, e chegou a perguntar por escripto a
Brant e Gameiro si era verdadeira tal intenção.
O boato era falso, ainda que lhe dessem
côr a dissolução forçada da
Constituinte
e as subsequentes deportações politicas,
mas o certo é que, segundo lê-se na
correspondencia dos nossos enviados, Neumann
iria successivamente esfriando do
seu primitivo interesse pela causa brazileira,
acabando por trabalhar de mãos dadas com
o plenipotenciario portuguez, conde de
Villa Real.
A orientação
franceza sob os
Bourbons.
Esta mudança só deve ser attribuida
á conhecida e fundamental antipathia da
Santa Alliança por tudo quanto tresandava
a liberalismo e ao accrescimo de favor que
conseguintemente lhes merecia o Portugal
regressado
aos bons tempos do absolutismo.
A referida attitude do Imperador D. Pedro
contra a Camara emanada da vontade
popular, o seu acto de violencia seguido da
outorga de uma Carta Constitucional, deviam-lhe
no emtanto assegurar pelo menos
a sympathia da França, que para effectuar
uma mudança semelhante em proveito de
Fernando VII, emprehendêra a expedição
de Hespanha. Á França porem desagradariam
altamente o reconhecimento pacifico
e cordial e a reconciliação do Imperio com
o Reino mediante a intervenção amigavel
da Inglaterra, que assim recolheria a gratidão
de ambas as partes; isto quando os
seus planos politicos, sobretudo acariciados
pela fogosa imaginação romantica de
Chateaubriand,
abraçavam uma larga esphera
de actividade opposta á britannica.
Largos planos
de Chateaubriand.
O Ministro dos Negocios Estrangeiros de
Luiz XVIII calculára, não sem propriedade,
que a restauração da monarchia absoluta
hespanhola pelo exercito francez daria á
nação invasora o direito consequente e
inseparavel de auxiliar a reconquista da
America Hespanhola, ou mesmo redundaria
n'uma procuração para tal fim. Á
Inglaterra
que, quarenta annos atraz, sustentára
uma custosa guerra para reduzir á obediencia
as suas colonias americanas revoltadas,
estava vedado empatar em principio o exercicio
dos incontestaveis direitos hespanhoes,
e si tal o fizesse na pratica, contava a França
com a neutralidade benevola das potencias
continentaes para a sua faina de abater, por
meio de uma guerra, as pretenções britannicas
e tomar a desforra de Waterloo, ao
mesmo tempo tornando popular pelo reflexo
da gloria militar a monarchia dos Bourbons.
Nas
Memorias d'além campa
Chateaubriand
confessa não ter tido em vista
fito mais alto do que esse interesse dynastico,
ao servir a politica bellicosa do momento
e levar a cabo as decisões do Congresso
de Verona, parallelamente reduzindo
a questão hespanhola, de européa a franceza,
o que traduzia uma decidida vantagem
nacional.
A França no
Novo Mundo.
A reconquista da America Hespanhola
em proveito do inepto representante dos
Bourbons d'Hespanha, afóra o immenso
beneficio moral, traria com certeza para a
França—assim o devaneavam Chateaubriand
e o gabinete Villèle—uma recompensa
territorial avultada no Novo Mundo,
a qual seria o nucleo da reconstituição do
poderio colonial francez, perdido no decorrer
do seculo anterior e com que se locupletára
a Inglaterra, empolgando o Canadá e alastrando-se
pelo Hindostão. Chateaubriand,
que vagueára pelos campos do Oeste americano,
tornados ainda mais extensos pela
solidão immensa em que jaziam, e, contemplando
as aguas barrentas do Mississippi,
meditára longamente sobre os problemas
politicos e moraes do universo, sentia
mais do que qualquer outro a importancia
da diminuição soffrida pela França com
a
perda do Canadá e a alienação da
Louisiana,
cuja juncção com a possessão do
norte, subindo a corrente do grande rio que
parte longitudinalmente em dous os Estados
Unidos, interceptaria a expansão ingleza e
fundaria um imperio latino onde hoje se
espraia a magestosa democracia anglo-saxonica.
O posto seria, alem de tudo o
mais, excellente para exercer sobre a America
Central e Meridional a hegemonia que
os Estados Un
França—assim o devaneavam Chateaubriand
e o gabinete Villèle—uma recompensa
territorial avultada no Novo Mundo,
a qual seria o nucleo da reconstituição do
poderio colonial francez, perdido no decorrer
do seculo anterior e com que se locupletára
a Inglaterra, empolgando o Canadá e alastrando-se
pelo Hindostão. Chateaubriand,
que vagueára pelos campos do Oeste americano,
tornados ainda mais extensos pela
solidão immensa em que jaziam, e, contemplando
as aguas barrentas do Mississippi,
meditára longamente sobre os problemas
politicos e moraes do universo, sentia
mais do que qualquer outro a importancia
da diminuição soffrida pela França com
a
perda do Canadá e a alienação da
Louisiana,
cuja juncção com a possessão do
norte, subindo a corrente do grande rio que
parte longitudinalmente em dous os Estados
Unidos, interceptaria a expansão ingleza e
fundaria um imperio latino onde hoje se
espraia a magestosa democracia anglo-saxonica.
O posto seria, alem de tudo o
mais, excellente para exercer sobre a America
Central e Meridional a hegemonia que
os Estados Unidos já estavam avocando e a
que Luiz Napoleão mais tarde quiz insensatamente
oppôr a do Imperio Mexicano estabelecido
e protegido pelas aguias francezas
Inconvenientes
para o partido
da reacção
de uma solução
amigavel do
conflicto luso-brazileiro.
A serena liquidação da questão
brazileira
seria, para a execução de tão altos
designios, um obstaculo quasi insuperavel,
representando uma victoria para a Grã
Bretanha, que assim desfeiteava a Santa
Alliança, reforçava a opinião liberal
do
mundo em prol da independencia das colonias
hespanholas, e em extremo difficultava
o complemento do projecto de restauração
ultramarina da auctoridade da metropole.
Não admira pois que a França se absorvesse
na partida, usando de toda a sua pericia.
Mesmo despedido Chateaubriand do ministerio,
o que se deu a 5 de Junho de 1824, a
politica franceza não variava o seu rumo e
Villèle, senão um ultra, pelo menos governado
por elles, ficava para zelar-lhe a orientação
geral, naturalmente antipathica ao
Imperio, cujo soberano trahia em alguns
actos a sua educação absolutista, mas cujos
estadistas persistiam, com o seu instinctivo
feitio democratico, em desafiar a legitimidade,
o direito divino e outros fetiches do
passado.
Embaraços
creados pelo
partido da reacção
«Si l'empereur ne s'accommode pas aux
vues des Souverains de l'Europe, on le fera
sauter en trois mois», chegou Neumann a
dizer um dia a Brant; ao que, sem perder
o sangue frio, replicou laconicamente o
marechal: «Tant pis pour eux», significando,
como Canning, que os soberanos
europeus assim ceifariam ingloriamente a
unica monarchia americana, sem poder
mais substituil-a pelo extincto regimen
colonial e sómente dando nascimento a uma
outra republica. Brant e Gameiro, bem que
não quizessem dar a conhecer aos estranhos
o seu estado de espirito, arreceavam-se todavia
muito das tendencias hostis da Santa
Alliança, a cujas intrigas attribuiam mesmo
a opposição e animosidade de Buenos
Ayres, que já em 1824 ameaçava declarar-nos
a guerra. É preciso não esquecer que
batia justamente então a hora do apogêo da
politica reaccionaria de Metternich, quando
em França os ultras, com a elevação
imminente
de Carlos X ao throno, preparavam-se
para dominar exclusivamente o governo;
a Hespanha soffria em dolorida resignação
as prepotencias de Fernando VII, forro da
escravidão constitucional, e Portugal via
apparecer em plena luz, á frente dos regimentos
que regressavam empoeirados de
Villa Franca ou postavam-se insolentes no
largo da Bemposta, a figura esbelta e brutal
do Infante absolutista.
Evolução
liberal
na Inglaterra
e papel de
Canning na politica
européa.
Na Inglaterra, pelo contrario, accentuava-se
a evolução liberal, naturalmente
combatida pelos
tories puros, mas
tirando
forças do contacto com a lucta e ganhando
incremento com o proprio ardor da peleja.
O papel politico de George Canning na historia
britannica e na do mundo avulta tanto
aos olhos da posteridade, porque na verdade
foi decisiva a sua acção e grandiosa a sua
obra, que consistiu particularmente em garantir
a autonomia completa de um Continente,
para isto transformando a politica
externa da Inglaterra, creando o seu isolamento,
e pondo cobro ás allianças austriacas
cultivadas por Castlereagh em obediencia
ás suas inclinações pessoaes e no
intuito
diplomatico de fazer frente ás
ambições russas.
Poucos mezes depois de recolher a herança
de Castlereagh, Canning desvendava
sem hesitações as suas vistas nas seguintes
palavras de uma carta ao Rei, de 11 de Julho
de 1823 "...As grandes potencias despoticas
do Continente presumiam estar V. M.
indissoluvelmente unido aos seus principios
e projectos. Por minha parte desejo pelo
contrario, avisada ou inconscientemente,
ver o peso da auctoridade de V. M. lançado
no outro prato da balança. Muito mais do
que isso. Estou intimamente convencido
que a verdadeira posição de V. M. no embate
existente de theorias adversas e opiniões
extremas, é uma posição neutra:
neutra tanto entre principios hostis como
entre nações hostis; e que é
sustentando
essa posição, a qual V. M. unico entre os
soberanos da Europa pode assumir, que V.
M. conduzirá sem demora o seu povo ao
mais alto gráo de prosperidade, e estará
melhor habilitado para salvar outros paizes
dos perigos que, por seu turno, podem ameaçar
quasi todos elles."
O conservantismo
de Lord
Castlereagh.
Não devemos d'ahi entender que o predecessor de
Canning no Foreign Office tivesse
sido um reaccionario do estofo de Metternich.
Não podia sel-o, porque forçosamente
ainda que inconscientemente, pulsava n'elle
o constitucionalismo organico do Inglez.
Era porem um
tory da velha eschola,
com
os peores prejuizos politicos da classe aristocratica,
contrario por instincto ás mais
benignas manifestações revolucionarias, e
disposto por natureza ao mais compromettedor
galanteio com a Santa Alliança. Apenas
appellára para a sua sobranceria quando
essa Alliança, tornando-se mais ousada
com a acquiescencia do gabinete de Londres,
proclamou doutrinas, no seu dizer incompativeis
com as leis fundamentaes da Grã
Bretanha; e ainda assim não falta quem
assevere que, em semelhante emergencia,
fôra precaria a sua sinceridade, e que mais
imperára n'elle o respeito pela opinião do
Parlamento do que a propria convicção.
Castlereagh em principio repellio com apparente
vigor a theoria da intervenção absolutista,
preconisada e firmada no Congresso
de Troppau em 1820, mas assentira praticamente
na miseravel e sangrenta intervenção
austriaca em Napoles.
Castlereagh
e a emancipação
do Novo
Mundo.
Si assim ousava ir d'encontro á opinião
progressiva do seu paiz, não é de espantar
que o interesse mercantil do mesmo, combinado
com a indifferença ou antes antipathia
pela Hespanha, não fossem sufficientes
para compellir o seu ingenito conservantismo
a favorecer o movimento autonomista
do Novo Mundo. Tão pouco sympathica era
comtudo a attitude de Castlereagh á opinião
predominante na Inglaterra, mesmo á de
antes da Reforma de Lord Grey; tão avessas
ao caracter politico britannico, aquella
fascinação pelas prerogativas das monarchias
absolutas e qualquer identificação
com os planos domesticos continentaes, que
um observador como Greville, movendo-se
no meio social mais exclusivo e aparentado
com algumas das primeiras casas da Inglaterra,
escrevia no seu diario que a perda do
então marquez de Londonderry fôra grande
para o partido e maior para os amigos, mas
nulla para o paiz, e criticava sem rebuço o
proceder do Governo Inglez para com aquellas
das nações européas que se tinham
fiado
na Grã Bretanha, ao tratarem da
applicação
do seu ideal liberal.
Metternich e
o Foreign Office.
O bisbilhoteiro Greville conta mesmo que
Castlereagh andava feito com Metternich,
tendo Canning e Lord George Bentinck, secretario
particular d'este, encontrado no Foreign
Office, por occasião da accessão de
Canning ao posto, papeis particulares que
evidenceiam, não só que Castlereagh, ao
affectar afastar-se da Santa Alliança, pretendia
apenas deitar poeira nos olhos da Camara
dos Communs, como que na realidade seguia
cegamente a politica mystica e retrograda
inaugurada por Alexandre I. O positivo
é que lavrava manifesta contradicção
entre as exigencias publicas, do meio e do
momento, e as preferencias individuaes e de
casta de Castlereagh, e tambem que Metternich
levou tempo a convencer-se que Canning
era sincero na opposição movida á
Santa
Alliança: persuadira-se a principio que o
seu liberalismo internacional se cifrava
n'uma mera necessidade parlamentar
[3].
Era Canning
um democrata?
Canning estava entretanto longe de ser
um democrata. «Desadoro as
revoluções,
exclamava elle no famoso discurso de Plymouth,
ao ser-lhe offertada em 1823 a franquia
do burgo. Passei quasi trinta annos da
minha vida batalhando por velhas instituições.
Não deve comtudo ficar deslembrado
que, ao resistir á Revolução Franceza,
em
todas as suas phases, desde a Convenção
até
Bonaparte, eu certamente advogava a resistencia
ao espirito de innovação, mas não
advogava menos a resistencia ao espirito
de dominação estrangeira. Emquanto esses
dous espiritos permanecem ligados, a resistencia
a um anima a resistencia ao outro;
uma vez separados todavia, ou, o que é
ainda peor, em antagonismo um ao outro,
o mais estrenuo e mais consistente anti-revolucionario
pode bem hesitar no partido
a escolher». Si bem que fosse um
tory
enthusiasticamente anti-reformista, Canning
tinha chegado, por um concurso de
circumstancias politicas e da propria idiosyncrasia,
a personificar na politica exterior
britannica o elemento mais audaz de
governo, bem como na politica geral européa
a defeza das franquias constitucionaes,
ameaçadas de destruição. No mesmo
discurso de Plymouth elle assim
definia sua posição: «Julgo muito pouco
avisado, como parece querer a Santa Alliança,
forçar a um conflicto os principios
abstractos da Monarchia e da Democracia.
O papel da Inglaterra consiste em preservar,
tanto quanto fôr possivel, a paz do mundo
e a independencia das diversas nações que
o compõem. Não julgo, como parece julgar
a Santa Alliança, que não existe
segurança
para a paz entre as nações, a menos que
cada nação esteja em paz comsigo mesma,
ou que a Monarchia absoluta seja o feitiço
de que depende tal tranquillidade interna».
Pensando assim, nenhuma tendencia
propriamente reaccionaria podia ser-lhe
sympathica. Os povos valiam no seu entender
tanto quanto os reis, ou por outra, um
rei só merecia fidelidade quando reinava
para o seu povo. Elle mesmo era um exemplo
vivo do quanto já logravam alcançar
em sua patria o prestigio pessoal e o favor
da opinião. Não passava do filho, singularmente
dotado de talento, de um homem
bem nascido mas quasi pobre, e de uma
mãi honesta mas que tivera de fazer-se
actriz depois de viuva, para manter-se a si
e a elle. Este desprotegido do berço, após
uma brilhante ascenção parlamentar, alguns
annos de administração, uma curta embaixada
e outros annos de estudado afastamento,
vira-se quasi unanimemente indicado
e fôra novamente collocado por Lord Liverpool
no Foreign Office, quando o tornou
vago o suicidio de Lord Castlereagh.
Canning e
Jorge IV.
É sabido que Jorge IV, que mais tarde
viria a estimal-o sinceramente, oppoz-se com
acrimonia á sua segunda elevação aos
conselhos
da corôa, sendo o motivo vulgarmente
apontado do rancor real, o facto da demissão
de Canning do gabinete por occasião do processo
da rainha Carolina, da qual pretendia o
monarcha divorciar-se depois de enxovalhar-lhe
a reputação. Canning, como amigo e conselheiro
que havia sido da infeliz princeza,
entendeu conservar-se neutral n'esta questão
que tanto agitou a Inglaterra e quasi conduziu
a uma revolução, não tomando parte
alguma no andamento do processo e debates
parlamentares. É porem mais natural,
como quer provar o commentador da correspondencia
de Canning, que o Rei se sentisse
alheado d'este homem d'Estado, não
por um resentimento já apagado e em todo
o caso injustificavel, mas antes por causa
das idéas avançadas de Canning no tocante
á emancipação dos Catholicos e
á das colonias
latino-americanas. Pela primeira não
poude fazer muito, tendo-o roubado a morte
em plena maturidade e poucos mezes depois
de haver galgado a
premiership,
assumindo
a direcção geral dos negocios publicos.
Quanto á segunda, os cinco annos de
gerencia dos negocios estrangeiros foram-lhe
bastantes para transmudar a politica
ultra-conservadora do seu predecessor e
affixar-se deliberadamente como o adversario
europeu da Santa Alliança.
Influencia de
Canning no partido
e sua independencia
de opiniões.
Consentia-lhe esta postura, em desaccordo
com a maioria dos
leaders e com o
throno, a
sua força extraordinaria na Camara dos
Communs e no partido, isto é, a harmonia
do seu pensar com o sentimento geral do
paiz, e a fascinação exercida pela superioridade
do seu espirito sobre a massa dos partidarios,
os quaes não poderiam tambem
olvidar que Pitt lhe encaminhára os primeiros
passos parlamentares, se lhe affeiçoára
em extremo e por fim o designára como seu
successor.
Tory leal até
que a repugnancia
dos elementos mais conservadores do partido
fel-o inclinar para os
Whigs, com os
quaes
pode dizer-se que, havendo-o abandonado
Wellington, Eldon e Peel, governou depois
da morte de Liverpool, durante a sua curta
premiership, nunca podia ter sido um
tribuno
popular, nem como tal teria feito carreira
no tempo dos burgos podres e do predominio
quasi exclusivo das grandes
familias nobres; mas tampouco foi um
satellite da aristocracia, posto que a ella
estivesse ligado por laços de parentesco.
Canning porem nascêra para guiar e não
para ser guiado. A sua composição moral
era completa, pois que era um delicado no
sentir, um idealista no conceber e um
homem de acção no executar.
Perfil intellectual
e politico
de Canning.
As inclinações litterarias de Canning levavam-no
para a poesia satyrica, que traduzia
a feição humoristica do seu espirito, no
qual casava-se, n'uma combinação encantadora,
uma preoccupação repassada de
gravidade dos problemas politicos do momento
com uma certa levesa propria do
tempo, da sociedade e do homem, e que o
tornou alheio aos problemas propriamente
sociaes. As suas preferencias mundanas
conduziam-no para a vida elegante e refinada
n'um circulo limitado e escolhido de
apreciadores, nunca tendo conseguido a
ambição tão vasta quanto legitima que
o
impellia, vergar-lhe o animo ao ponto de
cortejar a facil popularidade dos comicios e
das plataformas. Até ser membro do gabinete,
Canning escreveu muito mais do que
fallou. As suas orações parlamentares mais
notaveis datam quasi todas do tempo em que
se sentava no Banco do Thesouro, quando
com o prestigio do cargo passou a expôr na
sua forma um tanto diffusa mas cuidada,
animada e persuasiva, as idéas e os conceitos
que lhe acudiam em abundancia, e que
até então confiava especialmente á
correspondencia
privada com os seus intimos.
Os seus ideaes politicos arrastavam-no, já
o sabemos, para a restituição dos direitos
politicos aos Catholicos, a abolição da
escravatura
e o reconhecimento das nacionalidades
americanas, sem que comtudo o
liberalismo n'elle constituisse o desdobramento
de uma natureza apaixonada, philantropica
ou exhuberante de seiva. A
localisação d'esse liberalismo na alma
ponderada e equilibrada de Canning não
correspondia portanto ao enthusiasmo de
O'Connell, nem ao evangelismo de Wilberforce,
nem á exaltação communicativa de
Brougham. O defensor da America Latina
era um estadista reflexivo, um monarchista
convicto, um governante por temperamento;
conservador por calculo si não por instincto
no que dizia respeito aos negocios domesticos,
patriota intransigente em questões de politica
exterior, não recuando ante a solução
extrema da guerra na aspiração de salvaguardar
a grandeza britannica, quando falhassem
os meios suasorios, da paz e da diplomacia.
Pitt e Canning
Pitt apparecia-lhe como o typo representativo
da epocha, como o precursor do
imperialismo que tinha de ser a caracteristica
e a condição da orientação
ingleza.
Como Pitt, possuio elle nervo e mostrou
audacia, e não foi sem razão que n'um celebre
discurso, alludindo á guerra da
intervenção
franceza na Hespanha, lhe foi dado
exclamar com toda a emphase a que, no
periodo litterario de Chateaubriand, nem
a oratoria ingleza escapou: «Eu decidi
que, a ter a França a Hespanha, tel-a-hia
sem as Indias. Olhei para a America com o
fim de corrigir as desigualdades da Europa.
Chamei um novo mundo á existencia para
servir de contrapeso ao antigo.»
A libertação
da America Latina.
O pronome da primeira pessoa não foi
muito do agrado dos collegas de Canning
no gabinete, mas traduzia a realidade. A
intervenção da França nos negocios da
Hespanha,
combatida até o ultimo momento
pelo ministerio Liverpool—receosa a Inglaterra
d'essa renovação anachronica do velho
Pacto de Familia—e apenas tolerada com
as trez condições, que a França
respeitaria
Portugal, deixaria em paz, entregue ás suas
luctas e facções, a America Hespanhola, e
não permaneceria indefinidamente além dos
Pyreneus, determinou Canning, e Canning
mais que ninguem na Grã Bretanha, a procurar,
nas colonias emancipadas das metropoles
peninsulares, um contrapeso valioso
para a balança internacional, e uma nova e
mais extensa base sobre que apoiar a influencia
britannica. O seu systema politico,
inverso do de Castlereagh, tinha, como
vimos, por fundamento que a Inglaterra devia
ser o fiel da balança, não só entre
nações
inimigas, como entre principios inimigos.
Sendo o anti-liberal o prato que então pendia,
por amor do proprio equilibrio Canning
lançou o poder moral e material da sua patria
no outro prato, que tinha reunido contra
si o peso da Europa continental.
II
O commercio
britannico favoravel
ao reconhecimento.
O meio era indubitavelmente favoravel á
acção da novel diplomacia brazileira. O commercio
britannico, cujo influxo na Camara
dos Communs é consideravel pelo facto
mesmo de achar-se representado n'essa assembléa
n'uma vasta proporção (já assim
era antes de 1832), aspirava abertamente
á tranquillidade publica do outro lado do
Oceano, e com tal intuito favoneava quanto
podia o reconhecimento do Imperio, cuja
grandeza territorial e fartura de recursos
promettiam um campo remunerador á
exploração mercantil européa. Aferindo
as
cousas pela craveira ingleza e medindo
quanto no seu paiz valia a influencia do commercio
sobre a marcha dos negocios publicos,
é que o consul geral Chamberlain aconselhava
no Rio de Janeiro o Ministro de
Estrangeiros Carvalho e Mello a cessar o Governo
de fazer apprehender os navios mercantes
portuguezes e, pelo contrario, abrir-lhes
os portos brazileiros. Restabelecido o
trafico entre os dous paizes e accumulados
os creditos commerciaes portuguezes no Brazil,
os proprios negociantes do Reino sentiriam
o maximo interesse em promover a
reconciliação, antepondo as vantagens praticas
ás susceptibilidades patrioticas.
Differente
proceder de
Canning para
com Portugal e
a Hespanha.
A Canning não era comtudo licito ferir
directa e profundamente as susceptibilidades
de Portugal, onde estava justamente envidando
esforços para moralmente sustentar
o regimen constitucional, que parecia ser da
escolha enthusiastica da nação, mas que na
verdade era repugnante não só á
côrte, como
á idiosyncrasia nacional. Não
precisára ter
as mesmas contemplações com a Hespanha,
adversaria de sempre em vez de alliada de
seculos, e cujo imperio colonial se esphacelára
debaixo das vistas indulgentes da Inglaterra,
sem que esta pensasse um instante
em obstar á desaggregação, antes
indirectamente
favorecendo-a com a sua sympathia
e até agindo directamente, ao combater os
ensaios europeus da intervenção supplicada
por Fernando VII junto dos monarchas da
Santa Alliança. Ainda depois do restabelecimento
do poder absoluto em Madrid, teve
o rei d'Hespanha de dar ao gabinete de St-James
as duas garantias por este exigidas
para não tornar immediato o reconhecimento
da independencia das possessões rebelladas
do Novo Mundo.
As garantias eram as seguintes: 1.ª, que
a Santa Alliança não auxiliaria a Hespanha
no reduzir á obediencia as colonias insurgentes;
2.ª, que o trafico mercantil não volveria
a ser exclusivo da mãi patria, ficando
aberto a todas as bandeiras. Semelhante
promessa por parte da Inglaterra estava porem
longe de ser definitiva, no pensamento
dos que a formulavam. Não passava de uma
dilação. As garantias da Hespanha apenas
temporariamente satisfaziam a Canning,
para quem o reconhecimento das nacionalidades
da America Latina era resolução
assente, e que formalmente declarou á Hespanha
que, no momento opportuno, o Governo
Britannico adoptaria as medidas convenientes
para executar o seu designio sem
mais entender-se com ella (
without further
reference to the court of Madrid).
Emancipação
das colonias
hespanholas da
America.
As colonias hespanholas da America já
tinham aliás todas dado provas mais que
sufficientes da vitalidade que n'ellas borbulhava.
Buenos-Ayres, a que primeiro, rebellando-se
contra o usurpador, por menos
guarnecida e sopitada e mais pobre e descurada
logrou separar-se da mãi patria, não
só derrubára
o poderio dos seus vice-reis,
como armára expedições libertadoras
que
com Belgrano tinham chegado sem proveito
ao Paraguay, com Balcarce attingido ousadamente
o Alto Perú, e com San Martin denodadamente
corrido ao soccorro do Chile
depois do fracasso da insurreição local.
Buenos Ayres tambem por si resistira ás
intrigas francezas e austriacas, soffregas por
impôrem-lhe um principe da Casa de Bourbon
ou da de Habsburgo depois de mallograda
a candidatura de D. Carlota Joaquina,
e, conservando com amor a sua liberdade,
ainda que esta não passasse de uma mescla
de tyrannia e de anarchia,
affirmára
em 1826
no Congresso de Tucuman a sua independencia
e das provincias que lhe gravitavam em
torno, assim consagrando o movimento de
25 de Maio de 1810, em que fôra deposto o
vice-rei Cisneros e acclamada a junta governativa.
No resto dos vice-reinados a contenda
com os elementos fieis ao dominio da metropole
sob não importa que regimen, passára
por alternativas, ora jubilosas, ora cruciantes,
e motivára o derramamento de
muito sangue generoso e muito sangue leal
em scenas de carnificina que dão á historia
da emancipação da America Hespanhola
uma tonalidade rubra que a da America
Portugueza não conheceu. Na primeira a
lucta foi incomparavelmente mais porfiada.
Foi antes uma campanha prolongada que
começou logo em 1809, quando chegaram
além mar as primeiras noticias da invasão
da Hespanha pelos exercitos de Napoleão,
e ainda durava no Perú quando a Inglaterra,
após a entrada em Madrid e em Cadiz das
forças do duque d'Angoulême, entrou a
dispôr
o reconhecimento das republicas que haviam
alcançado a victoria e ensaiado a
pacificação.
O espirito de independencia seguira
levando com effeito a melhor, e o
gabinete inglez encontrava, nas decididas
vantagens obtidas pelos revolucionarios americanos,
a mais completa justificação da politica
momentaneamente tentada pelos ministros
de 1797, de, em opposição á Hespanha,
ajudarem moral e praticamente a
libertação das suas possessões no Novo
Mundo.
Estas a tinham entretanto grangeado por
si mesmas, pelo explodir dos odios amontoados,
e á custa de muitos sacrificios, de
muita heroicidade e de muita barbaridade.
A insurreição alli resentira-se da falta de um
centro, como o tivera a do Brazil, que attrahisse
e harmonizasse os disseminados esforços,
mas o rastilho revolucionario fôra
tão veloz e preciso que ateára fogo a todo o
continente, desde o Orenoco até o Prata,
desde o planalto do Mexico, em que se ergue
a antiga cidade de Montezuma, até a fralda
dos Andes, em que se espreguiçam as villas
levantadas pelos conquistadores. A extrema
facilidade com que o incendio se propagou,
com que as labaredas revolucionarias apontaram
quasi a um tempo em Caracas, em
Quito, em Santa Fé de Bogotá, em Santiago,
em Buenos Ayres, prova á saciedade que a
usurpação franceza foi apenas um pretexto,
posto que em muitos casos sincero, para a
lealdade colonial, e que de facto as possessões,
si não estavam promptas em educação
civica para desfructarem os beneficios da
emancipação, achavam-se no emtanto maduras
para a insurreição pela
infiltração das
idéas jacobinas—como tinham vindo a ser
denominadas as idéas crescidas e acalentadas
no seculo XVIII. Por mais que calafetassem
as construcções coloniaes, o aroma subtil
e violento da liberdade derramava-se por
toda a parte e estonteava todas as cabeças.
Frequentemente inconsciente muito embora,
a aspiração era tão geral quanto
irresistivel,
e acabára por conduzir á autonomia do continente.
Emissarios
inglezes na
America Hespanhola.
Pelo tempo em que os plenipotenciarios
brazileiros, transpunham os humbraes do
Foreign Office, apparelhados para a peleja
diplomatica, emissarios inglezes percorriam
as ex-colonias hespanholas afim de informarem
com segurança o gabinete de Londres
da situação politica e social em cada
uma e do gráo de estabilidade dos seus governos.
A litteratura britannica sobre a America
Latina é devéras copiosa no primeiro
quartel do seculo XIX e a opinião publica na
Inglaterra agia com perfeito conhecimento,
não só dos recursos, das bellezas naturaes
e da historia de qualquer das possessões da
Peninsula, como dos seus costumes, qualidade
de população e tentativas de
independencia.
Canning porem carecia de proceder com
todas as precauções e reservas officiaes, e
por isso aguardou os relatorios dos seus
emissarios antes de decidir entrar em relações
commerciaes com Buenos Ayres, como
aconteceu em Julho de 1824, e com a Colombia
e o Mexico, como succedeu em Dezembro
do mesmo anno. É evidente que taes
relações commerciaes equivaliam a
relações
politicas, mas em rigor, segundo Canning
explicou n'um dos seus discursos parlamentares,
o reconhecimento em condições semelhantes,
podia passar pela consequencia de
protegerem-se interesses já legalmente existentes
e não denotar o proposito de crear
interesses novos.
Offerecimento
pela Grã Bretanha
á Hespanha
da sua mediação.
Immediatamente antes, porem debalde,
offerecêra a Grã Bretanha á Hespanha a
sua
mediação para tratar com as possessões
emancipadas, sobre a base da sua respectiva
independencia. Apenas pretendia que o
governo de Fernando VII entrasse nos
ajustes preliminares com inteira disposição
de ceder n'esse ponto em troca de outras
condições satisfactorias. A Hespanha
não
entendeu acquiescer: appellou para a sua
dignidade como um argumento irrespondivel
contra tamanha derogação da sua soberania,
e o ensaio de accordo gorou sem que
Canning se preoccupasse extraordinariamente
com isso, porque contava infallivelmente
com o futuro.
Laissez faire et laissez
venir—tinham sido as suas
instrucções de
31 de Dezembro de 1823 a Sir William
A'Court, representante britannico em Madrid.
«Mais cedo ou mais tarde, si nos conservarmos
quietos e não dermos pretexto de
queixas contra nós, as cousas correrão muito
da forma que desejarmos, ou pelo menos
que permittirmos..... A questão hispano-americana
está essencialmente ajustada.»
A doutrina de
Monroe e a parte
que n'ella cabe
a Canning
A doutrina de Monroe acabava de dar, na
expressão de Canning, o
coup de
grâce ao
Congresso de que cogitavam as potencias
continentaes para regular aquella questão.
Ora não convinha por modo algum á Inglaterra
deixar tomar-se a dianteira pelo Governo
de Washington, o qual, mediante a
famosa declaração presidencial e o connexo
reconhecimento das novas nações
latino-americanas,
andava grangeando influencia
e popularidade no Novo Mundo. É curioso
que Canning tivesse indirectamente sido o
maior causador da doutrina de Monroe.
Havendo proposto ao ministro americano
Rush uma acção conjuncta dos Estados Unidos
e da Inglaterra na questão da America
Latina, dirigida contra a politica reaccionaria
da Europa continental, obtivera como
resposta achar-se o ministro sem poderes
especiaes para acceitar tão imprevisto alvitre,
não duvidando comtudo assumir tamanha
responsabilidade si a Grã Bretanha quizesse
começar por proceder ao reconhecimento
politico dos novos paizes hispano-americanos.
Opportunidade
do reconhecimento da
America Hespanhola.
Canning julgou não ser ainda chegado o
momento indicado e declinou a suggestão
de Rush, a qual levantava forte opposição
no seio do gabinete. Os Estados Unidos
aproveitaram-se porem e deram expressão
concreta á insinuação que
fôra feita pelo
Secretario dos Negocios Estrangeiros de
Jorge IV, d'ella resultando a chamada doutrina
de Monroe. O instante verdadeiramente
opportuno para a sua acção, vangloriou-se
Canning de tel-o escolhido um pouco depois,
quando Buenos Ayres entrou a soldar as
suas desconjunctadas provincias confederadas,
a Colombia a escapar ao perigo que lhe
acarretára o embarque para outro vice-reinado
do seu exercito nacional libertador, e
o Mexico a forrar-se das loucas tentativas
dos pretendentes como Iturbide.
Influxo dos
Estados Unidos.
Canning entretanto não entendia oppôr-se
em caso algum ao estabelecimento de uma
monarchia no Mexico, mesmo que fosse em
proveito de uma infanta hespanhola. No seu
pensar esse acontecimento, que extenderia
ao continente norte o principio monarchico
já estabelecido no sul, obstaria até a
traçar-se
a linha de demarcação de que elle mais
se arreceava, a saber, America contra Europa,
como davam mostras de pretender os
Estados Unidos e seria fatal n'uma geral
democracia transatlantica. Que assim procedendo,
obedecia o illustre estadista á sua
perspicacia e não a moveis egoistas, já o
verificámos. O espirito politico de Canning
attingira o gráo de visão e de tolerancia em
que a preoccupação das formas de governo
desapparece perante as considerações mais
puras, mais levantadas ou mesmo simplesmente
mais patrioticas, porque elle
não occultava, na sua feliz expressão,
que em vez de Europa, gostaria de
quando em vez de ler—Inglaterra
[4].
Canning e as
monarchias absolutas.
N'uma carta escripta em 16 de Setembro
de 1823 a Sir Henry Wellesley, então
embaixador em Vienna, acha-se mais uma
vez affirmada a sua liberrima theoria das
formas de governo. Não tinha, dizia,
objecção
alguma a que a monarchia absoluta
continuasse a florescer onde era o producto
proprio do solo e onde estivesse contribuindo
para a felicidade, ou para a tranquillidade
(que afinal de contas é a felicidade)
do povo. A harmonia do mundo politico
não ficaria comtudo destruida por
causa da variedade de instituições civis, em
Estados differentes, assim como a harmonia
do mundo physico não é perturbada
pelas grandezas diversas dos corpos que
constituem um systema. O Evangelho proclamou
que ha uma gloria do sol, outra gloria
das estrellas, e assim por diante. O principe
de Metternich parecia ser de opinião
contraria—que todas as glorias deviam ser
iguaes, e estava até disposto a tentar a
experiencia com a Inglaterra, para tornar a
gloria d'ella o mais possivel identica á do
sol e da lua do Continente. Metternich porem
que nos deixe socegados em nossa esphera,
accrescentava Canning, ou tocaremos uma
musica muito desafinada.
Condições de
neutralidade
no reconhecimento
da America
Hespanhola.
Canning era de opinião que uma nação
tinha por dever reservar suas energias para
dadas occasiões, e não andar
desperdiçando-as
em contendas que se podessem evitar.
Por isso labutava por despir o acto que daria
validade internacional ás colonias emancipadas
da tutela hespanhola, de toda e qualquer
apparencia de hostilidade. Na occasião
em que, resolvendo agir, resolveu a agirem
gabinete e corôa, reconhecendo a entrada
d'aquellas colonias no gremio das nações,
já não mais se tratava, com effeito, de retaliar
pelas injurias recebidas ás mãos das
auctoridades da metropole pelos vehiculos
do commercio britannico, nem sequer de
n'um impeto de enthusiasmo ajudar os
estados embryonarios a alcançarem sua
liberdade. Tratava-se tão sómente de admittir
os factos consummados e entrar em
relações officiaes com as unicas auctoridades
constituidas do Novo Mundo. Canning
desejava no emtanto fazer sobresahir
a neutralidade de facto guardada pela Inglaterra,
chegando a consentir na justificação
eventual da Hespanha no pretender favores
mercantis especiaes das suas possessões
emancipadas.
Canning entre
Portugal e
Brazil.
A parcialidade britannica em prol da
constituição autonomica da grande
porção
do continente que obedecia aos dictames de
Madrid, não era todavia um segredo para
ninguem, pelo menos desde que se iniciára
a gerencia por George Canning dos negocios
exteriores da Inglaterra, e sobretudo
desde que o Governo Hespanhol recusára
os offerecimentos de mediação ou bons officios
que, melhor avisado ou mais sagaz, o
Governo de Lisboa acabaria por adoptar
para grande beneficio dos seus interesses,
os quaes de outro modo teriam corrido á
revelia e sido por completo sacrificados ao
pundonor do Imperio. Tratando-se de Portugal,
carecia Canning, disposto embora no
intimo e inabalavelmente a igualmente reconhecer
a independencia do Brazil, de salvar
mais ainda as apparencias, zelar todas
as formas, orientar a sua navegação entre
peores cachopos e mais difficeis correntezas.
Tomou não obstante pela nossa questão
tão decidido interesse quanto pela das republicas
hispano-americanas, por amor da
qual duas vezes offereceu a Jorge IV sua
demissão, e foi quem realmente promoveu
o rapido e feliz resultado d'esse inicial conflicto
diplomatico.
Interesse de
Canning no
reconhecimento
do Imperio.
O seu interesse no reconhecimento pacifico
da independencia do Imperio era de resto
multiplo e de facil comprehensão. Á Inglaterra
convinham freguezes ricos e alliados
fortes, não freguezes arruinados e alliados
desmantelados pela guerra. Demais, a forma
monarchica de governo adoptada pelo novo
Brazil estava, em face da poderosa facção
demagogica nacional, para assim dizer dependente
da prompta sancção européa. O
exemplo da cordialidade restabelecida entre
a mãi patria portugueza e a sua ex-colonia,
com todo um cortejo de vantagens economicas,
devia além d'isso ser efficacissimo
para a Hespanha e para a Santa Alliança,
que a sustentava em sua improficua obstinação.
Delongas de
Portugal.
Portugal é que não estava açodado como
o promettido mediador no fazer as pazes
com a sua possessão rebellada, sobretudo
depois que a expulsão
manu
militari dos
deputados da nação brazileira e a
prisão e
exilio dos corypheus do partido anti-portuguez
lhe haviam dado fagueiras esperanças
de que D. Pedro, um instante desorientado
pelos perfidos conselhos dos patriotas, voltaria
á razão e ao lucido exame dos seus interesses,
que eram os de uma monarchia
una.
Portugal não contava portanto demover-se
da sua postura sem primeiro ter exgottado
os ardis e delongas da diplomacia, e sem
bem experimentar a rigidez da decisão de
Canning, para a qual influira, afóra os
expostos e palpaveis motivos, a attitude
sympathica e correcta do Brazil official, contrastando
com a hostilidade á Inglaterra,
evidenciada pelas Côrtes de Lisboa. Verdade
é que o Governo Constitucional estrebuchava
nas ancias da morte desde a Villafrancada,
e que a plena auctoridade
restabelecida do soberano buscaria instinctivamente
firmar-se na amizade britannica,
tradicional na sua dynastia, ainda que fossem
fortissimas as seducções empregadas
pela Santa Alliança para angariar mais
este sequaz.
Instabilidade
politica no Brazil.
Os Andradas e o
sentimento liberal.
Por outro lado a instabilidade politica no
Brazil era tão pronunciada que com
orientação
definitiva alguma se podia contar. É
sabido que os Andradas, que governavam
quando foi proclamada a Independencia e
para esta trabalharam pertinazmente, excitaram
pelas suas arbitrariedades a inimizade
de Ledo, José Clemente e outros elementos
mais democraticos, apoiados nas
lojas maçonicas, mandadas mais tarde parcialmente
fechar, e para minarem a influencia
das quaes organizaram os Andradas o
Apostolado e fundaram o
Regulador. O
Apostolado tomou as feições de um club
como os da Revolução Franceza, sendo para
a Constituinte do Rio de Janeiro o que o
club dos Jacobinos foi para a Convenção:
alli se discutiam primeiro as medidas legislativas
a propôr á Assembléa deliberante.
Os Andradas eram, no justo dizer de
Armitage, facciosos na opposição e prepotentes
no poder. Após uma curta demissão,
tinham voltado ao ministerio com a condição
de deportarem os contrarios e buscaram
firmar na perseguição a sua auctoridade,
com o resultado que lhes decahiu de
prompto a popularidade, crescendo a onda
liberal. Ao iniciar a Constituinte as suas
discussões, encarnavam os Andradas a
defeza dos interesses monarchicos contra as
idéas radicaes da maioria da Assembléa. As
posições inverteram-se porem muito depressa.
A defeza por Antonio Carlos de um
projecto anti-portuguez de Muniz Tavares
levára os realistas extremes a travarem
alliança com os patriotas, sempre desconfiados
dos Andradas, cuja queda assim se
tornou inevitavel, substituindo-os ministros
moderadamente realistas (Carneiro de Campos
e Nogueira de Gama). Os Andradas
converteram-se logo por isso ás idéas
opposicionistas
e tornaram-se façanhudos
liberaes. Foi o tempo inolvidavel do
Tamoyo
e da accesa lucta parlamentar que
terminou com a demonstração militar levada
a cabo pelos Portuguezes, a organização de
outro gabinete mais marcadamente realista,
a dissolução da Constituinte e a
deportação
de José Bonifacio, Antonio Carlos,
Rocha, Montezuma e outros.
Portugal invoca
em Londres os
antigos tratados
de alliança.
O golpe de vista antolhava-se pois favoravel
á ex-metropole, para a qual a desordem
no Brazil significava a perspectiva de melhores
tempos. D'ahi uma recrudescencia
em Lisboa de esperanças e de impertinencia.
Em Londres o ministro Villa Real exigira
na Nota Verbal ao Foreign Office de 4
de Março de 1824, a mesma aliás em que
Portugal entrou a fraquejar, que, em observancia
dos antigos tratados de alliança entre
as duas nações, a Inglaterra não
celebrasse
convenção alguma com o «Governo do Rio
de Janeiro» sem que fosse contemplado Portugal,
e indicára ao mesmo tempo as condições
preliminares de quaesquer negociações
suas com o Brazil. Eram quatro essas condições:
cessação de hostilidades;
restituição
das prezas maritimas e levantamento dos
sequestros; promessa formal de não serem
atacadas as colonias ainda fieis á Corôa
portugueza; despedida dos subditos britannicos
ao serviço do Imperio.
Na sua communicação ao ministro Carvalho
e Mello, successor de Carneiro de Campos,
o consul Chamberlain especificava
como sendo os seguintes os tratados invocados
por Portugal em abono da sua reclamação:
Tratado de Londres de 29 de Janeiro
de 1642, artigo 1.º, Tratado de
Westminster de 10 de Julho de 1654, artigos
1.º e 16.º, e Tratado de Whitehall de
23 de Junho de 1661, artigo secreto. No
proprio mez da proclamação da Independencia
do Brazil e na previsão d'esta occorrencia,
o Governo Portuguez, o qual durante
o mesmo predominio das Côrtes pensára
em entrar com a Hespanha n'uma
alliança defensiva e offensiva, juntando-se
os seus recursos e armamentos com o fim
de subjugarem as respectivas possessões
rebelladas, instára com o Governo Britannico
para concluir um tratado garantindo
a Constituição approvada e a integridade do
dominio lusitano. Apezar do governo liberal
ameaçar fechar o accordo com o correlegionario
hespanhol e necessariamente
prejudicar a influencia ingleza até então
absorvente, Canning excusára-se ao convite,
que só vinha pôr estorvos ao seu plano
de organização autonomica do mundo
latino-americano,
e não lhe parecia deduzir-se
como clausula obrigatoria das solemnes
convenções de amizade pactuadas entre as
duas nações.
A Chancellaria
Brazileira
discute o appello
portuguez.
No entender da Secretaria de Estrangeiros
do Brazil o appello portuguez áquelles
velhos tratados devia ser antes taxado de
pueril, visto que, quando taes convenções
haviam sido ajustadas, apenas podiam ter
cogitado da hypothese de uma desavença e
eventual reconciliação
com
terceira potencia,
entrando uma das partes contractantes
em accordos prejudiciaes aos interesses
da outra parte. Em 1808 por exemplo,
no momento da declaração de guerra
de Napoleão, Portugal não teria a liberdade
de ajustar a paz com a França em prejuizo
da Inglaterra.
É claro que os dous tratados, de 1642
e 1654, estipulavam nos termos mais explicitos
que nenhum dos dous paizes consentiria
em que fosse perpetrada injuria por guerra
ou por tratado contra o outro paiz; que não
seria concedido asylo nos territorios de um
aos insurgentes contra o poderio do outro,
e que ficariam fóra da lei os transgressores
das disposições contidas nos referidos tratados.
Mais do que isso—o tratado de 1661,
celebrado por occasião do casamento de
Carlos II com a Infanta de Portugal, rezava
muito cathegoricamente que a Grã Bretanha
protegeria a integridade do dominio
colonial portuguez. O Governo de Lisboa
sustentava que a tomada pelas forças do
Governo independente do Rio de Janeiro
das provincias brazileiras fieis á auctoridade
portugueza; a persistencia nas hostilidades
a despeito da attitude pacifica voluntariamente
assumida por Portugal, e
sobretudo o engajamento na marinha e
exercito imperiaes de subditos britannicos,
constituiam flagrantes violações dos tratados
em vigor. Estes tratados não podiam
porem, contestava nossa Chancellaria, prever
o conflicto entre porções da mesma monarchia,
da qual uma reclamasse «o goso
privativo de seus direitos naturaes e politicos».
A admittirem-se semelhantes fundamentos,
a Inglaterra deveria igualmente
pôr-se contra as colonias ao lado da Hespanha,
nação com que andava ligada por
tratados tão antigos quanto o de 18 de
Agosto de 1604. Este facto não impedira
comtudo a Hespanha de, alliada á França,
combater a Grã Bretanha quando foi da
revolta das Colonias Inglezas da America,
com as quaes o proprio Portugal pretendêra
entrar em relações, propondo a Benjamin
Franklin, então enviado em Pariz, a
negociação
de um convenio, antes de reconhecida
pela mãi patria a independencia dos
Estados Unidos.
Levando a 5 de Maio de 1824, por ordem
de Canning, ao conhecimento do nosso
Ministerio de Estrangeiros o conteudo da
Nota Verbal do ministro Villa Real, o consul
Chamberlain ajuntára achar-se S. M. Britannica
disposto a não abandonar o seu
velho alliado Rei de Portugal, e reiterára
as representações do Governo Inglez contra
«a continuação inutil de hostilidades
não
provocadas nem sequer retaliadas, as confiscações
injustas e sem motivo plausivel de
propriedades portuguezas, e o emprego indesculpavel
de subditos britannicos nas operações
de guerra contra uma potencia com
a qual estava S. M. Britannica em relações
de amizade e alliança». O Governo Britannico
«esperava que o Governo Brazileiro,
guiado por um espirito de sabedoria e humanidade,
prestar-se-hia de bom grado a acceder
a essas representações, baseadas tanto
sobre seus proprios interesses quanto sobre
os usos reconhecidos».
Concessões
do Imperio.
Respondendo, avançava o Brazil que a
Portugal não era dado valer-se de obsoletos,
ou melhor, inapplicaveis tratados de alliança
com a Inglaterra no intuito de embaraçar a
obra do reconhecimento da sua cathegoria
politica. Afim de por seu lado aplainar a
execução da dita obra, convinha porem o
Governo Imperial no levantamento dos sequestros;
na attribuição das prezas ao julgamento
de uma commissão
ad hoc
para
fixação dos prejuizos soffridos e de justa e
reciproca compensação; e por ultimo na
facil promessa de não mandar atacar as
colonias portuguezas d'Asia e Africa, persistindo
em cerrar os ouvidos ás requisições
chegadas d'Angola e Benguella, na
costa occidental africana, para se lhes prestarem
auxilio com que se reunissem ao Imperio.
Uma expedição longinqua d'essa
natureza mudaria aliás logo o caracter civil
da contenda entre Brazil e Portugal, tornando-a
quasi analoga a uma aggressão
estrangeira contra as possessões de S. M. Fidelissima.
Na materia da demissão dos officiaes
britannicos, que livre e espontaneamente,
no goso das suas prerogativas de
cidadãos do Reino Unido, haviam posto
suas espadas ao serviço da libertação
de um
paiz escravisado, é que o Governo Imperial
escolhia não acceder; assim como continuava
a fazer a cessação legal (porque virtual
já o era) das hostilidades dependente
do reconhecimento da independencia pela
ex-metropole.
A opinião publica
e a suspensão
das hostilidades.
O Governo Imperial explicava que não
só seria desairoso e offenderia o espirito
publico, naturalmente susceptivel n'uma
crise semelhante, o ordenar publicamente o
Imperio a suspensão das hostilidades quando
a paz se não achava ainda firmada, como
daria ensejo a propagar-se a calumnia assacada
pelos demagogos ao Imperador, de
estar em connivencia secreta com seu Pai.
Isto quando a separação era um facto consummado
e absolutamente ao abrigo de
qualquer reconsideração. O gabinete do Rio
devia já estar farto de repetir o que representava
a pura verdade historica—que a
independencia do Brazil não fôra o simples
resultado de um movimento brusco e repentino
de despeito ou de revolta: fôra a
coroação calculada e consciente de uma
serie de actos praticados pelo paiz em defeza
propria, desde que a politica franca e inequivocamente
anti-brazileira das Côrtes de
Lisboa obrigou o monarcha a regressar
para Portugal, e pretendeu compellir o reino
ultramarino a deixar-se novamente impôr a
tutela do outro reino.
Solidez da
Independencia.
D. Pedro não podia ter interesse pessoal
na separação, que lhe diminuia o patrimonio:
si accedeu em pôr-se á frente do movimento
de desunião, é que o amor proprio
offendido, a conveniencia do momento historico
e mesmo a justiça da causa brazileira
dictavam-lhe este procedimento, desejado e
applaudido tanto pelos que ambicionavam
obter depressa a emancipação do Brazil,
como pelos que receavam ver cahir o paiz
nas mãos da facção extrema ou
fragmentar-se
a immensa colonia. A independencia não
corrêra no emtanto tão facil e rapida quanto
poderia deduzir-se do aspecto quasi incruento
do conflicto. O partido portuguez era
poderoso, tinha soldados aguerridos, armas
e mais dinheiro. O partido nacional possuia
massas indisciplinadas, as armas de carregação
que ia importando por intermedio dos
seus agentes na Europa, e os montes de papel
moeda que, a guisa de destroços de um
naufragio, annunciavam o sossobrar do
Banco do Brazil, creado pelo governo paternal
de D. João VI para desenvolver a