A manhã do dia 30 surgira nevoenta, tristonha, açoitada pelo vento agreste do inverno. D'ahi até a noite alta, a chuva cahiu a espaços inundando a cidade e afastando das ruas do Porto a massa de transeuntes. João Chagas, encurralado na cadeia da Relação, recebera á tarde a visita de Alves da Veiga, que sombrio e preoccupado lhe dissera, falando do movimento prestes a rebentar:
—Vae ser desastroso...
—Evite.
—É tarde...
Ao começo da noite, os soldados de guarda á cadeia e que estavam no segredo da conspiração foram despedir-se de João Chagas:
—Vimos dizer-lhe adeus... até logo.
—Até logo.
Que se passou depois? Fala o brilhante jornalista, confiando ao auctor d'esta narrativa as suas impressões da madrugada tragica:{93}
«Já decorreram vinte annos sobre a derrota... Na vespera á noite, assim que a treva obscureceu o ambiente, começaram para mim horas inquietas e perturbadas. Sabia que a insurreição devia rebentar ás tres da madrugada. Tirei o relogio do bolso. Eram oito horas. Distrahi-me em coisas futeis, bebi café e fumei como um desesperado. Ainda, como distracção e talvez para surprehender mais facilmente o primeiro rumor d'essa arrancada decidida contra a monarchia, abri a janella. A noite, humida, afogava a cidade. Houve um instante, já quando se approximava a hora marcada para o rebentar do movimento, que suppuz aperceber o barulho de carros á desfilada...
«Ás duas e meia, gelado pelo frio, comprehendi que se fazia um silencio magestoso, o silencio do somno pesado. Mas d'ahi a pouco levantou-se um clamor enorme e distingui gritos, brados, vivas, vozes confusas, retinir d'armas. Depois, uns minutos de treguas, minutos terriveis de anciedade e, perto de mim, o passo cadenciado d'uma força militar... Eu, que não resava, fiz in mente uma grande e ferverosa prece por elles. A força não tardou a desapparecer e voltou a agitar-me a persuasão de que tudo recahira em tranquilidade absoluta. Os minutos escoaram-se dolorosissimos, augmentando a minha impaciencia, aguçando a minha ignorancia do que occorria. Cheguei a ter a impressão de que essa guarda-avançada dos insurrectos se submettia completamente e que a mesma noite que a vira nascer a veria sepultar. Horrivel e febril essa hesitação do meu espirito, sem outro horizonte que uma neblina glacial, torturante e a galhofa das sentinellas que vigiavam o meu carcere.
«A fadiga e a commoção prostraram-me. Exhausto, renunciei a saber, a indagar, a prescrutar. Tombei no leito, fechei os olhos e dormi. Quando despertei, era manhã clara. A nevoa dissipara-se e a cidade{94} surgia cheia de luz. Corri á janella. O socego parecia completo. O dia annunciava-se lindo, calmo. Mas não tardou que um homem de quem me não lembro o nome, entrando na cella, me communicasse que a revolução estava na rua, e, seguindo-o e enfiando a cabeça por umas grades de ferro, presenciei effectivamente um dos episodios do combate. O movimento estava realmente no seu auge. A fuzilaria crescia de minuto para minuto. Convencido do triumpho, preparei-me para a sahida da cadeia... Não tardariam decerto a vir-me buscar.
«O resto é por demais sabido. Ao começo da tarde, a bandeira revolucionaria, que até então tremulara no edificio da Camara, desappareceu com o estrondear do canhão. Esse trapo, que era a minha esperança, sumira-se após um tiroteio pavoroso, encarniçado. Ao declinar do dia, tive a sensação da derrota. Sobre a cidade cahia verdadeira mortalha. Tornei de novo a estender-me no leito, dormi doze horas sem interrupção e, quando despertei, reconheci-me excellentes disposições para affrontar a tempestade que ia desencadear-se, impiedosamente, sobre a minha cabeça...»
Vejamos o que á mesma hora succedia em Coimbra, onde, como em Santarem e outras cidades do paiz, a organisação revolucionaria portuense contava um auxilio efficaz.
Resolvido que a sedição se iniciaria ás 3 da madrugada de 31, Alves da Veiga mandou a Coimbra Ricardo Severo com o encargo de communicar a Silvestre Falcão: «que estivessem todos a postos, mas que só sahissem em armas quando recebessem um telegramma em cifra, isto para evitar impulsos temerarios.» Ricardo Severo desempenhou-se cabalmente da missão e ás 10 da noite reuniam cerca de setenta rapazes na casa dos Arcos do Jardim, onde moravam, alem de Silvestre Falcão, Augusto{95} Barreto, Guilherme Franqueira e Fernando Brederode.
Em primeiro logar, a assembleia nomeou um comité dirigente, que ficou constituido por Silvestre Falcão, Pires de Carvalho, Augusto Barreto, Barbosa de Andrade e Antonio José d'Almeida. Depois, Malva do Valle foi alugar o telegrapho, para se conservar até de manhã por conta do comité e operou-se a juncção do elemento academico com os outros revolucionarios de Coimbra, combinando-se por ultimo o seguinte:
Logo que Silvestre Falcão recebesse na Alta o telegramma cifrado de Alves da Veiga, dez ou doze estudantes desceriam a ladeira do Pio até á parte posterior do quartel de infantaria 23, onde receberiam as armas e as munições destinadas a armar os conspiradores. Em seguida todos elles atravessariam a cidade, descendo pelo Quebra-Costas e a rua Visconde da Luz até o quartel. Ahi bastaria uma manifestação ao regimento, que, á voz dos sargentos revoltados, viria para a rua em sedição. Removidos todos os obstaculos que, porventura, se apresentassem á execução do plano, os conspiradores{96} iriam depôr a sua obra nas mãos de José Falcão, que, informado de tudo, horas antes, puzera o seu esforço ao serviço da Republica.
Um dos estudantes ainda lembrou a conveniencia de se destacarem grupos armados para junto das residencias dos officiaes do 23, a fim de lhes embargarem o passo, caso pretendessem sahir em direcção ao quartel, mas Silvestre Falcão ponderou que isso era perigoso e podia provocar uma série de assassinios e a assembleia revolucionaria decidiu «caminhar temerariamente, lançando o exito da empreza aos azares da guerra».
Até á manhã clara, os estudantes conservaram-se reunidos na Alta esperando o telegramma do dr. Alves da Veiga. Mas o telegramma não chegou e assim que todos elles adquiriram a convicção de que o movimento do Porto fôra mal succedido, dispersaram desalentados, ainda que dispostos, no intimo, a renovar mais tarde a audaciosa tentativa.
E muitos d'elles a renovaram com effeito. As datas de 28 de janeiro e 4 e 5 de outubro, trouxeram á evidencia uma boa porção dos nomes dos academicos conspiradores de 1891.
Duas da madrugada...
Terminada a reunião na rua de Santa Catharina, os sargentos da guarnição portuense que a ella tinham assistido dirigiram-se aos seus quarteis e tomaram{97} desde logo as providencias necessarias para a sahida das forças no momento opportuno, preparando-a de modo que á rapidez de execução se alliasse o affastamento da intervenção de qualquer official que, pelo seu prestigio, conseguisse contrariar a revolta.
Caçadores 9 foi o primeiro regimento a dar o signal da sedição. As companhias formaram na parada do quartel sob o commando dos sargentos e emquanto dois d'elles, Galho e Bandarra, e algumas sentinellas procuravam impedir que o coronel Malheiro, o official de inspecção e o tenente ajudante saissem dos aposentos e se mostrassem aos soldados, o 1.º sargento Abilio[A] soltou o primeiro grito de Viva a Republica!—calorosamente repetido por todos os seus subordinados. Entretanto, apesar de todas as precauções tomadas pelos revoltosos,{98} o coronel e o tenente-ajudante appareceram na parada e o coronel, dirigindo-se ao 1.º sargento, exprobou-lhe em phrases paternaes a sua attitude:
—Tambem você, Abilio... e eu... que era tão seu amigo!
—Meu coronel—respondeu o interpellado—v. ex.ª dar-nos-hia grande prazer se viesse commandar o regimento.
—Isso não...
—Nesse caso, v. ex.ª fica e nós sahimos.
O tenente-ajudante chorava que nem uma creança e pedia a todos os sargentos que desistissem da sua audaciosa sortida, empregando os maiores esforços n'esse sentido. O coronel Malheiro ainda tentou falar ao regimento, para o demover do seu proposito e por ultimo exclamou para o 1.º sargento Norberto, que, como mais antigo, commandava o corpo:
—Mande retirar essa gente para as casernas!
—Agora já é tarde, meu coronel; não pode ser...
E logo a seguir, o mesmo 1.º sargento deu as vozes do estylo:
—Direita volver, ordinario marche...
A intervenção do coronel Malheiro falhara por completo.
Caçadores 9, sahindo do quartel, subiu em boa ordem a rua de S. Bento e dirigiu-se á cadeia da Relação, onde estacou. A guarda á cadeia, fornecida por aquelle corpo, era commandada pelo alferes Malheiro. Desde que nenhum dos officiaes, conhecidos como republicanos, que estavam dentro do quartel, tinha querido assumir o commando do regimento, os sargentos lembraram-se durante o trajecto de o offerecer áquelle subalterno, que sabiam tambem professar ideias democraticas. E um{99} d'elles, abeirando-se da porta da casa da guarda, gritou para dentro:
—Ó sr. Malheiro, venha d'ahi...
O alferes não sahiu e a mesma voz tornou a insistir:
—Ó sr. Malheiro, tome o commando do regimento, porque o official de inspecção não quiz acompanhal-o...
O alferes então accedeu ao convite e voltando-se para o sargento da guarda recommendou-lhe que vigiasse bem o edificio da cadeia, não fossem os presos aproveitar o ensejo para se evadirem. Ninguem se lembrou, n'esse momento, que lá dentro estava João Chagas e que era natural gosasse immediatamente da liberdade para collocar o seu nome, o seu talento, o seu esforço individual e a sua energia ao serviço da revolução. Pensou-se apenas—e n'isso o alferes Malheiro deu provas de extraordinario sangue frio—em deixar guarnecida a prisão, com o receio de que o menor descuido fizesse extravasar para as ruas do Porto a grande massa de criminosos ali agglomerada.
Liquidado este incidente, caçadores 9 proseguiu a sua marcha em direcção ao grupo de Santo Ovidio. Dentro de pouco reunia-se-lhe o de infantaria 10.
As condições topographicas do quartel que então alojava o segundo d'aquelles regimentos permittiram que elle formasse na parada interior sem que o official de inspecção desse por tal. Ás 2 e meia da madrugada, um dos revoltados foi avisar o capitão Leitão, que morava proximo e que não tardou a comparecer no edificio. Dirigiu-se logo á arrecadação, poz um capacete na cabeça e tendo inquirido dos outros officiaes compromettidos na conjura foi esperal-os para um caramanchão. Estava bem longe de suppôr que uma vez chegado ao Campo de Santo Ovidio, teria que assumir o commando superior das forças revoltadas...{100}
Os minutos, no emtanto, iam decorrendo e como não apparecessem no quartel outros officiaes republicanos, um sargento veiu convidar o capitão Leitão a seguir immediatamente com as forças para o campo de Santo Ovidio. Assim se fez e o regimento marchou em acelerado para o local da concentração. Á entrada na rua da Rainha, encontrou o tenente Coelho, que fora chamado ao quartel por um grupo de cabos. O tenente Coelho conferenciou rapidamente com o capitão Leitão, trocou o kepi que levava pelo capacete do 1.º sargento Vergueiro e assumiu o commando do 2.º pelotão de infantaria 10. No Campo de Santo Ovidio, os dois regimentos formaram d'este modo: o de caçadores 9, em quadrado, proximo da porta principal do quartel de infantaria 18; o de infantaria 10 em dois circulos na outra extremidade do Campo.
Concluida a formatura, os soldados e os civis já então ali agglomerados começaram a dar vivas ao regimento de infantaria 18 para o decidir a cooperar na insurreição. Outras vozes elevaram-se:
—Viva a Republica!
—Viva o exercito!
—Abaixo a monarchia!
Momentos depois, o destacamento de cavallaria 6, alojado n'uma das dependencias do quartel do 18, sahindo pela porta posterior do edificio, veiu a galope formar em linha parallela á fachada. As saudações e os vivas redobraram de intensidade. Ao mesmo tempo convergiam para o campo as forças da guarda fiscal. O cabo João Borges apresentou-se á frente de 87 praças de infantaria e o 2.º sargento Silva commandando 24 praças de cavallaria da mesma guarda. Quer dizer: ás 4 da manhã de 31 todas estas forças estavam revolucionadas e só aguardavam a sahida de infantaria 18 para iniciarem marcha contra o inimigo monarchico, apenas{101} representado, dentro do Porto, pela guarda municipal e a policia civil.
Varios officiaes superiores tentaram, emquanto o 18 não appareceu no local, fazer voltar aos respectivos quarteis as outras forças sublevadas. O primeiro foi o major Graça, da guarda pretoriana. Sahindo do quartel do Carmo, á frente de infantaria e cavallaria, dirigiu-se ao Campo da Regeneração e chamando o commandante de caçadores 9 já ali estacionado, intimou o alferes Malheiro a render-se.
—Agora é tarde, respondeu o official revolucionario.
—Ainda não é...
Um cabo que ouvira a intimação exclamou:
—Se é militar, eu tambem o sou; se é portuguez egualmente o sou; mas não posso soffrer esta tyrannia por mais uma hora!
O major Graça, em resposta, bradou:
—Querem então que haja derramamento de sangue, e sangue portuguez, n'estes dolorosos momentos por que está passando a patria? Pois seja...
Um individuo da classe civil ia, n'esta altura, a arengar qualquer cousa aos soldados, mas os militares oppuzeram-se, dizendo-lhe:
—Cale-se; aqui só a tropa tem voz activa.
O major Graça dispoz as suas forças nas ruas da Lapa e de Germalde e foi dar ordens ao quartel de S. Braz. D'ahi a pouco entrou no Campo de Santo Ovidio o sub-chefe do estado maior da divisão, tenente-coronel Fernando de Magalhães. Encaminhou-se para o 2.º pelotão de infantaria 10 e perguntou pelo seu commandante. Respondeu-lhe o tenente Coelho.
—Que estão a fazer aqui? disse o sub-chefe.—Mande retirar essa gente para o quartel. Os senhores são uns doidos...
—Não é possivel, replicou o tenente. Estou sob{102} as ordens d'um capitão do meu regimento e, tendo sahido do quartel, insurrecionado, para proclamar a Republica, já é tarde para recuar.
—Quem é esse capitão que commanda o seu regimento?
—O capitão Leitão.
E dizendo isto, o tenente Coelho apontou ao sub-chefe o sitio onde elle se encontrava. Junto do commandante de infantaria 10, o sr. Fernando de Magalhães empregou quasi as mesmas palavras:
—Mande recolher essa pobre gente a quem está a comprometter.
—D'aqui não sae ninguem, respondeu o capitão, a carta está jogada e vamos até ao fim!...
A seguir, o tenente coronel ainda formulou novo conselho de retirada ao alferes Malheiro, mas ninguem lhe obedeceu, como, de resto, tambem lhe não obedeceriam se elle, em vez de meios suasorios, procurando impôr o prestigio da sua personalidade, tivesse tentado outros processos mais violentos.
Deixemos as forças revoltosas especadas no campo de Santo Ovidio e cercadas por todos os lados pela guarda municipal e vejamos o que se passava no quartel de infantaria 18. A insurreição d'este regimento não fora levada a cabo com tanta facilidade como a de caçadores 9 e infantaria 10, por causa das prevenções tomadas pelos officiaes. Um dos sargentos do 18, que assistira á reunião na rua de Santa Catharina, ao regressar ao quartel recebera ordem de detenção e só por um prodigio de astucia é que, illudindo a vigilancia do official de inspecção, conseguira dar conhecimento das deliberações tomadas na mesma reunião aos sargentos de cavallaria 6. Ainda assim, á hora marcada para a revolta, as companhias, á ordem dos officiaes superiores, começaram a formar as casernas.{103}
Presentindo o movimento, alguem quiz evital-o, mas inutilmente. D'uma janella do primeiro pavimento, o tenente-ajudante arengou ás forças que já estavam na parada, mas dois tiros disparados na direcção d'essa janella cortaram-lhe o discurso. O coronel do regimento, Lencastre de Menezes, mostrando uma indecisão extraordinaria, ordenou a varios officiaes que sahissem do quartel a indagar que forças estavam formadas no campo.
Decorrido algum tempo, os sargentos do 18 compromettidos na revolta, julgando que nem todos os seus camaradas adheriam á insurreição e que a sahida do regimento não se operaria sem um impulso{104} energico, soltaram gritos furiosos de traição!—e assim conseguiram arrastar um grosso contingente de soldados—quasi duas companhias—para junto dos revoltosos do 9 e do 10. Mas o portão do edificio voltou a fechar-se sobre a sahida d'essa força e os instantes foram passando sem que o regimento adoptasse uma attitude definida em conjunctura, como essa, tão critica.
Era necessario, na verdade, tomar uma resolução. Apoz alguns momentos de reflexão, em que os officiaes revoltados trocaram impressões sobre o caso, infantaria 10 e caçadores 9, formando a quatro, encaminharam-se para a parte posterior do quartel do 18 e estacionaram em frente da egreja da Lapa. As forças da guarda municipal, sob o commando do major Graça, retiraram prudentemente e, deixando livres as ruas que conduzem ao campo de Santo Ovidio, foram estacionar para a praça da Batalha, junto do quartel general e do telegrapho.
A multidão, que a cada instante crescia, misturava aos das tropas os seus vivas atroadores. «No rosto de toda a gente havia a expressão d'uma alegria indizivel. Por vezes, os mais enthusiasmados rompiam as fileiras e iam abraçar um sargento ou um soldado, victoriando-os, acclamando-os. Era tão quente o arrebatamento, tão ardente aquella ruidosa alegria que a doce e consoladora esperança na victoria revolucionaria penetrava em todos os corações, dissipando vagos receios que a longa inacção das tropas fizera despertar.»
Tratava-se agora de invadir o quartel de infantaria 18 e impellir de qualquer maneira esse regimento para a revolta. Os populares que se tinham collocado na vanguarda das forças do 9 e do 10 fôram a uma estação de incendios, que havia perto, trouxeram de lá dois machados e abriram um rombo{105} na porta do quartel do lado da Lapa, que o coronel Lencastre de Menezes fizera pouco antes barricar. Soldados e populares iam, certamente, a entrar de tropel no edificio e travar lucta com os elementos hesitantes, quando o actor Miguel Verdial, tendo, n'um relance, a visão da provavel carnificina—o quartel era habitado por muitas familias—exclamou para os invasores:
—Suspendam, que eu vou parlamentar com o coronel.
Cá fóra, os vivas ao regimento de infantaria 18 eram calorosos e sem interrupção.
Atraz de Miguel Verdial, entraram no quartel Santos Cardoso e outros individuos da classe civil e por fim o capitão Leitão commandando uma força dos dois regimentos revoltados. Santos Cardoso, gesticulando como um possesso e ameaçando a officialidade do 18 de ser riscada do exercito caso não adherisse á Republica, encaminhou-se para junto do coronel Lencastre e disse-lhe:
—A esta hora estão quarenta e quatro regimentos sublevados, o telegrapho na nossa mão, o rei a embarcar: não queira V. ex.ª ser a unica nota discordante.
—Deixe-me, replicou o coronel, eu não sou republicano nem monarchico. Sahirei d'aqui a pouco.
O capitão Sarsfield, que estava proximo, accrescentou:
—Visto que vae parte do nosso corpo, vamos tambem.
Por seu lado, o capitão Leitão tambem procurou convencer o coronel a acompanhar os revoltosos. E, ao cabo d'alguns momentos, conseguiu effectivamente d'elle essa promessa, que mais tarde, nos conselhos de guerra, varios officiaes do 18 se empenharam em negar tivesse sido feita. Emquanto isto se passava, uma força da guarda municipal commandada por um tenente apparecia no largo da{106} Lapa a enfileirar ao lado de infantaria 10. Depois, por conselho do tenente Coelho, punha-se novamente em marcha e seguia pela rua que ladeia á esquerda o quartel do 18.
D'ahi a pouco, o capitão Leitão, sahindo d'aquelle edificio, voltava para junto das forças sublevadas e communicava aos officiaes ás suas ordens:
—O 18 vem já. Nós seguimos para a Praça Nova e lá o esperamos. O commandante disse-me que vinha em breve: que estando elle e quasi todos os officiaes presentes no quartel era necessario tomar certas medidas de ordem e segurança e que convinha reunir o conselho administrativo antes do regimento sahir.
Mas não era só o capitão Leitão que affirmava isto. Militares e civis, todos quantos sahiam n'aquella celebre manhã do quartel de infantaria 18 asseveravam que o coronel Lencastre de Menezes não tardaria com as forças do seu commando a juntar-se aos insurrectos. E faziam-no, certamente, por terem ouvido ao official já citado palavras muito nitidas a tal respeito. Mais tarde, nos conselhos de guerra, pretendeu-se desmentir tudo isso, e embora tivesse sido aconselhado ao capitão Leitão e aos outros reos que não aggravassem a sua situação com accusações a officiaes superiores que não estavam mettidos no processo, a verdade é que das acareações feitas em pleno tribunal militar resultou o convencimento geral de que só por um mero acaso não soffreram o castigo imposto a certos dos conspiradores outras creaturas de maior patente e mais graves responsabilidades.{107}
[A] O 1.º sargento Abilio, hoje tenente n'um regimento de infantaria, apoz o mallogro da revolta de 31 de janeiro, deixou crescer a barba e prometteu á esposa que só a faria rapar no dia em que em Portugal fosse definitivamente proclamada a Republica. Quando rebentou a revolução de 4 e 5 de outubro, a esposa, que estava em Espinho, telegraphou-lhe para o Porto, anciosa, a pedir noticias. O 1.º sargento Abilio dirigiu-se á estação da praça da Batalha e depositou um telegramma de resposta em que dizia: «Estou bom; foi proclamada a Republica». O empregado dos telegraphos recusou acceitar a communicação.
—Porque não acceita? perguntou-lhe o antigo revolucionario do 31.
—Porque ahi diz que foi proclamada a Republica e a noticia ainda não é official.
—Bem... não ha duvida, redijo outro telegramma.
E redigiu. A esposa, quando o recebeu delirou de contentamento e foi mostral-o a umas pessoas amigas. Mas estas, lendo o texto, não se contiveram que não observassem:
—Seu marido mandou-lhe um telegramma de troça. Pois não é?... Estou bom; vou fazer a barba...
—Não é troça, não... Se elle vae fazer a barba é porque já foi proclamada a Republica!
Já manhã clara, as forças revolucionarias sahiram das immediações do quartel de infantaria 18 e dirigiram-se pela rua do Almada até á praça de D. Pedro, onde deviam occupar os paços do concelho para se effectuar a cerimonia da deposição do monarcha reinante e da proclamação da Republica. Segundo a formatura ordenada pelo capitão Leitão, abria a columna, tocando a Portugueza, a banda, quasi completa, de infantaria 10, com alguns musicos de caçadores 9, todos sob a direcção do musico de 1.ª classe Eduardo da Silva; seguia-se-lhe a guarda fiscal e depois as praças d'aquelles dois regimentos, as do 9 antecedendo o 10. Conta um chronista:
«Desde que as forças começaram a marchar, sentia-se desapparecer a oppressão que invadira todos os espiritos n'essas longas tres horas em que, fóra ou dentro do quartel, se tentara que o regimento de infantaria 18, devidamente commandado, viesse augmentar as forças da revolta. O que se seguiria depois parecia não preoccupar os espiritos. Acreditava-se firmemente que o regimento de infantaria 18 estava inclinado a apoiar a revolta. Se assim fosse nenhuma duvida poderia offerecer a victoria decisiva da Republica; não porque a força do regimento de infantaria 18 desse ás tropas insurreccionadas uma superioridade notavel sobre as da guarda municipal, mas pela alta significação que teria não só para a população{108} civil mas para o quartel general o facto das tropas sublevadas serem commandadas por um coronel e muitos officiaes. Era evidente que, se esse acontecimento viesse a realisar-se, as adhesões seriam innumeraveis. Ninguem teria duvida em acceitar os factos consumados; as garantias de victoria eram indiscutiveis; a resistencia da guarda municipal seria nulla, sem contestação; a ordem estava assegurada.
«Animadas d'uma doce esperança, as tropas revolucionarias, ladeadas por immensa multidão, seguiram para a praça de D. Pedro. Ao longo da rua do Almada, desfilava a columna em formação regulamentar e disciplinadamente. As janellas estavam todas abertas, e os habitantes que já tinham conhecimento de que a guarnição militar da cidade sahira dos quarteis para proclamar a Republica recebiam a noticia com manifesto aprazimento. E assim, á medida que as forças da revolta iam descendo a rua, ás saudações erguidas pelo povo que as acompanhava, correspondiam das janellas, gritando:
«—Viva a Republica!
«—Viva o exercito portuguez!
«Acenavam com lenços, davam palmas, n'uma grande expansão de alegria que punha nos corações um suavissimo calor e nos labios um sorriso de triumpho. Nunca tão espontanea e tão calorosa manifestação se produziu na bella cidade do Norte. Nunca o Porto, a cidade do trabalho e das grandes virtudes civicas, fez tão enthusiastica acclamação a um exercito victorioso, porque nunca esteve mais identificado com a ideia que esse exercito vinha proclamando. Na rua a multidão engrossava a cada momento, e, quando as tropas revolucionarias dobravam a rua do Almada para entrar na praça de D. Pedro, era difficil romper por entre a massa compacta que se agglomerava...»{109}
Chegadas as forças á praça de D. Pedro, formaram rodeando a mesma praça pelos lados do norte, nascente e sul, começando a linha pela guarda fiscal e terminando por caçadores 9. O esquadrão de cavallaria 6, que tambem acompanhava a columna, estacou na rua occidental da praça.
Pouco passava das seis horas da manhã. As acclamações despedidas pelos populares continuavam vibrantes, enthusiasticas. De repente, abriram-se as janellas dos paços do concelho e alguns individuos da classe civil, entre os quaes se destacava a figura herculea de Santos Cardoso, appareceram a dar vivas á Republica, ao exercito e aos regimentos sublevados. Um popular, armado de espingarda, foi buscar a bandeira do Centro Democratico Federal 15 de Novembro; Santos Cardoso agitou-a freneticamente sobre a multidão e depois fel-a arvorar no mastro que sobrepujava o frontão do edificio. A guarda de honra nos paços do concelho era feita por uma força de infantaria 10 commandada pelo 1.º sargento Vergueiro.
Decorrido algum tempo, o dr. Alves da Veiga assomou a uma das janellas da casa da Camara e proferiu um discurso, entrecortado pelos applausos da multidão. Depois ia a ler os nomes das pessoas que deviam constituir o governo provisorio, mas o actor Miguel Verdial arrancou-lhe o papel das mãos e procedeu a essa leitura. Esses nomes eram os seguintes:
Rodrigues de Freitas.
Joaquim Bernardo Soares (desembargador).
José Maria Correia da Silva (general de divisão).
Joaquim Azevedo Albuquerque (lente da Academia Polytechnica).
José Ventura dos Santos Reis (medico).{110}
Licinio Pinto Leite (banqueiro).
Antonio Joaquim de Moraes Caldas (professor).
Alves da Veiga.
Cada um d'estes nomes foi acolhido com vivas delirantes e estrepitosos. Proclamado o governo provisorio, a maioria dos populares que tinham entrado na casa da Camara desceu á praça a misturar-se com os soldados, que, diga-se sem hesitações, já começavam a sentir os effeitos d'uma immobilidade que afinal ninguem justificava. Na varanda dos paços do concelho ondulavam dezenas de bandeiras azues e brancas. O nevoeiro, que de madrugada amortalhara a cidade, dissipara-se lentamente.
O capitão Leitão, vendo que, em contrario do que lhe assegurara o coronel Lencastre de Menezes, infantaria 18 não vinha juntar-se ás forças revoltadas, e que os minutos corriam rapidos sem que no local apparecessem outros officiaes além dos tres que desde o começo da revolta lhe tinham francamente adherido, approximou-se do tenente Coelho e disse-lhe:
—Estou a perceber isto perfeitamente; fomos trahidos: são uns infames. Disseram-me que a guarda municipal adheria e não a vi no campo; que o sub-chefe de estado maior tambem vinha e eu tambem o não vi... Aqui acontece a mesma cousa. São homens de pannos quentes. Talvez haja motivo para demoras. Pelo sim pelo não continuarei a esperar...
Mas os soldados mostravam desejos de seguir para a frente e um popular, approximando-se do capitão Leitão, observou-lhe que a guarda municipal já estava occupando a praça da Batalha, na defensiva e que era urgente desalojal-a d'ali para se occupar o telegrapho e o quartel general. Outro popular{111} aconselhou-o a fraccionar as forças do seu commando.
A Bandeira da Revolta que foi hasteada na Camara Municipal
A Bandeira da Revolta que foi hasteada na Camara Municipal
—Ora, tenha juizo, replicou o valente official. Ninguem nos hostilisa.
E, voltando-se para o tenente Coelho, acrescentou:
—Vou tomar uma resolução definitiva: vou mandar seguir pela rua de Santo Antonio, onde me apresentarei ao general; n'um caso ou n'outro elle dará as suas ordens...
O tenente Coelho notou que a guarda da Camara tinha desapparecido e que era conveniente não deixar o edificio á mercê da populaça. O capitão Leitão concordou com a ideia e mandou para os paços do concelho uma força do commando d'um sargento. Feito isto dispoz-se a marchar em direcção á praça da Batalha. Antes, porém, reuniu com o tenente Coelho e o alferes Malheiro uma especie{112} de conselho conversando os tres sobre a attitude que d'ahi por diante deviam adoptar as tropas sublevadas perante as outras que não manifestavam adhesão ao movimento. O tenente Coelho registou mais tarde, do seguinte modo, as ideias que predominaram n'essa conferencia:
«O parecer de que as forças da revolta se dividissem em differentes fracções que por diversas ruas convergiriam na praça da Batalha, forçando a guarda municipal que ali se encontrava a abandonar o seu posto, atacada de frente, de revez e de flanco foi posto de parte, porque, apesar de tudo, se tinha como certa a adhesão d'essa força desde que as tropas sublevadas manifestassem não abandonar o seu proposito. A guarda municipal estava informada de que o regimento de infantaria 18 apoiava a revolução; vira com que ardentes acclamações eram saudadas as forças revolucionarias; sentia-se, portanto, isolada do resto das tropas da guarnição e das sympathias da população civil; demais entre aquella guarda havia um grande numero de homens que tomara parte nos preparativos da revolta.
O que havia, pois, a fazer era, do mesmo modo que a guarda municipal procedera com as tropas sublevadas no campo de Santo Ovidio, procederem tambem para com ella, aconselhando-a a abandonar a sua attitude espectante e a adherir ao movimento insurreccional; o regimento de infantaria 18 havia adherido, não era rasoavel nem patriotico que a guarda municipal o não fizesse. As tropas sublevadas não tinham a menor intenção de fazer derramar sangue de irmãos d'armas; não desejavam uma lucta fratricida, tanto menos presumivel que, sem excepções, todo o exercito se sentia impellido a resgatar o paiz da humilhante situação em que se encontrava por virtude dos actos dos governos{113} da monarchia, que não se inspiravam nos sagrados interesses nacionaes.
«Não. A guarda municipal era com as tropas da revolta. Se estas não tinham a commandal-as officiaes, cujas patentes e cujos nomes se impuzessem, bem certo era que o regimento de infantaria 18, com o seu coronel e com os seus officiaes, tinha adherido ao movimento revolucionario e não havia que hesitar. Os tres officiaes que se encontravam com as forças sublevadas, ali, não queriam reivindicar nenhum direito de superioridade; contentavam-se bem com a satisfação da sua iniciativa e, nem por si, nem pelos seus subordinados, reclamavam nem outros postos nem outras honras. Se outras ideias germinavam no espirito dos que não tinham até aquelle momento adherido á revolta, que se desilludissem. Que o throno desapparecesse: mais nada. A nação governar-se-hia sem profundas transformações. Ellas viriam depois. O essencial era quebrar com a criminosa tradição. Por ella é que Portugal vergava ao peso de tanta deshonra, por ella é que a vida social vinha sendo insupportavel. Governar-nos-hiamos como irmãos, no mesmo sentimento commum dos interesses individuaes, coincidindo com os da Patria. Taes pensamentos animavam as tropas sublevadas. Não havia que discutir.»
Resumindo: o capitão Leitão iria á frente das forças e ao chegar á praça da Batalha procuraria parlamentar com o sub-chefe de estado maior, Fernando de Magalhães, que os revolucionarios consideravam intelligente e de caracter. Elle decidiria em ultima instancia se a superioridade estava, na verdade, do lado dos sublevados e se a guarda municipal podia ou não submetter-se-lhes sem hesitações. Era o appello honesto a um arbitro de occasião, que gosava ao momento de justificado prestigio na classe militar.{114}
As forças do commando do capitão Leitão sahiram da praça de D. Pedro e principiaram a subir a rua de Santo Antonio. Formavam uma columna «em marcha de quatro», levando á frente a banda de infantaria 10; seguia-se-lhe a guarda fiscal e iam depois caçadores 9 e aquelle regimento. A guarda municipal formava ao alto da rua, no adro escalonado de Santo Ildefonso, guardando a entrada da Batalha pelas ruas de Santa Catharina, Santo Antonio, de Santo Ildefonso, de Cimo de Villa e viela da Madeira. A entrada pelas ruas de Entreparedes e Alexandre Herculano, vedavam-na cem praças fieis da guarda fiscal. No lado nascente do antigo theatro de S. João formava cavallaria 6, cobrindo o edificio do quartel general e governo civil.
Uma multidão immensa acompanhava as forças da revolta na marcha rua de Santo Antonio acima e essa arteria do Porto tinha um aspecto quasi de festa. A maior animação e alegria illuminavam-na. Do povo sahiam brados enthusiasticos victoriando os sublevados. As senhoras que estavam ás janellas agitavam freneticamente os lenços, soltavam vivas calorosos, batiam as palmas n'um contentamento indescriptivel. A satisfação dominava tudo e todos. A marcha das forças tinha o caracter insophismavel d'um passeio triumphal, em que elles pareciam recolher os applausos pela victoria alcançada rapidamente e sem embate sensivel.
Na altura da viela chamada dos Banhos, do lado direito da rua de Santo Antonio, o povo que acompanhava{115} os sublevados hesitou e recuou. O capitão Leitão olhou para cima, e viu a guarda municipal em attitude defensiva com as armas apontadas para a columna. Não ligou grande importancia ao facto e, como a banda de infantaria 10 continuasse a tocar, não ouviu que de Santo Ildefonso os cornetas tinham feito o signal de alto—meia volta. Ia a proseguir na marcha quando presenceou que dois soldados da guarda fiscal, sahindo da fórma, se dispunham a disparar as armas contra a municipal. Correu para elles e gritou-lhes:
—Não atirem!... A guarda não nos faz mal!...
Os homens entraram na fórma e elle então, collocando-se á frente da columna, levantou os braços, como pretendendo affirmar á municipal que a attitude dos sublevados era pacifica. De nada valeu esse expediente. A guarda, fazendo pontarias baixas, deu uma descarga que lançou o maior panico nas forças da revolta e nos populares que pejavam a rua de Santo Antonio. A marcha deteve-se. Uma commoção violenta agitou aquella massa compacta. N'um segundo, ou em menos d'um segundo, produziu-se um grande e precipitado movimento de recuo. Os populares, como por instincto, penetraram nas fileiras da columna procurando um abrigo. Impellida{116} pela força collossal d'essa enorme multidão, a columna dissolveu-se, desordenada e a breve trecho a rua de Santo Antonio ficou juncada de corpos inanimados e dos despojos das victimas. O capitão Leitão, ferido na cabeça, abrigou-se n'uma casa proxima, acompanhado de dois corneteiros e d'uma praça da guarda fiscal e mandou fazer repetidos toques de cessar fogo. Trabalho inutil. A guarda municipal, abrigada por detraz de pedras continuou a alvejar a rua de Santo Antonio, respondendo áquelles toques com tiroteio renhido.
Entretanto, no meio de todo esse panico, os soldados revoltados ou se agrupavam junto de alguns portaes ou se deitavam no chão, offerecendo o menor alvo possivel ao fogo da guarda. E, emquanto tiveram munições, responderam com valentia ao ataque da força fiel ao regimen monarchico. Esses heroicos combatentes eram principalmente da guarda fiscal e de caçadores 9, porque o regimento de infantaria 10, estando no fundo da rua de Santo Antonio ao começar o tiroteio, fôra forçado a recuar até á casa da camara. E assim se sustentaram n'um ou n'outro ponto da rua, quasi sempre expostos aos projecteis da municipal, atirando sobre os adversarios com uma serenidade extraordinaria, desafiando impavidamente a morte.
Em certa altura, ouviram-se na praça de D. Pedro os primeiros tiros da artilharia. A bateria da Serra do Pilar intervinha na lucta para lhe pôr o ponto final. Os revoltados até então escalonados na rua de Santo Antonio desceram até ao edificio municipal e ahi se reuniram ás forças do 10, que se tinham concentrado n'esse ponto desde o começo da refrega. O capitão Leitão, havendo conseguido, depois de abandonar a casa onde se abrigara, chegar por entre quintaes e escalando muros até á Praça Nova, ainda procurou com as forças reunidas na casa da camara operar um retorno offensivo sobre{117} a guarda municipal. Mas não houve meio, ou melhor, já era tarde para tentar a sortida. Pequenas fracções da guarda, protegendo a bateria de artilharia postada nos angulos dos Loyos e de S. Bento, começaram a atacar os sublevados encurralados nos paços do concelho e um tiro de peça, arrombando a porta do edificio, mostrou áquelles valentes que a situação se definia, irremediavelmente como a derrota da Republica.
O capitão Leitão abandonou a casa da camara e d'ahi a pouco os outros combatentes imitaram-n'o, terminando a lucta cerca das 9 da manhã. Durara duas horas.
Por este relato é facil de vêr que a victoria alcançada pela guarda municipal foi mais devida á excessiva boa-fé—chamemos-lhe assim—das tropas revolucionarias do que á coragem dos soldados fieis á monarchia. Se as forças revolucionarias houvessem marchado sobre a praça da Batalha em disposição hostil, o resultado do choque sangrento teria sido, sem duvida, bem diverso. O proprio capitão Leitão reconheceu isso mesmo no conselho de guerra a que foi submettido:
—Se eu adivinhasse que tratava com tal gente—disse elle, referindo-se ás forças do commando do major Graça—eu procederia d'outra forma e hoje não me alcunhariam de imbecil. Eu avançava com a maior serenidade e nem mesmo me passava pela mente que ia para um ataque. Suppunha-os plenamente seguros e, como já disse, tinha razões para isso. Se eu entendesse, se eu suspeitasse do que me esperava, não teria receio algum de os atacar.
«Não era a guarda municipal, que de poucas forças dispunha, pois não estava toda reunida (e nem mesmo que o estivesse) que derrotaria as forças do meu commando. Cercal-a-hia, e isso sem grandes planos estrategicos e forçal-a-hia a{118} render-se, sem mesmo disparar um tiro. E não se daria a grande desgraça que se deu. Eu envolvia a guarda e ella não poderia resistir. Não lhes chamem, pois, valentes, porque o não são. Estava espantado de um tal procedimento. «Eu não ia para isto»—disse na casa onde entrei. E esta é a verdade; a prova é que alguem que ouviu a minha phrase já aqui a referiu. Não digo isto para declinar responsabilidades, porque não quero declinal-as...»
Incontestavelmente, a guarda municipal não poderia manter-se nas suas posições; e, nem pelo numero nem pela dextreza, conseguiria offerecer uma resistencia demorada. Alem d'isso, não estava suficientemente instruida no manejo da espingarda Kropatschek, que só muito pouco tempo antes da revolta lhe fôra distribuida; o serviço especial de policia, em que era empregada, não lhe permittia evolucionar convenientemente em combate. Pelo contrario; os seus adversarios, tendo passado pela carreira de tiro em exercicios reiterados, estavam perfeitamente aptos para se medir com ella e para a subjugar sem esforço sensivel ou grande dispendio de munições. E a prova é que a guarda se conservou sempre na defensiva, abrigada pelas varandas de pedra que guarnecem as escadas e patamares que dão accesso á egreja de Santo Ildefonso e só mudou de attitude quando a bateria de artilharia, rompendo o fogo contra o edificio municipal, rematou a contenda.
Emquanto, na rua de Santo Antonio e na praça Nova se desenrolavam os acontecimentos que acabamos de narrar, as guardas de revoltados que haviam ficado nos quarteis impediam que ali entrassem os respectivos officiaes não adherentes ao movimento e que o mesmo movimento surprehendera ainda no leito ao romper da manhã de 31 de{119} janeiro. No quartel de caçadores 9, por exemplo, ficara uma força sob o commando do sargento Galho, que mandara armar todas as praças que ali estavam, collocando-as ás suas ordens. Instantes depois do regimento ter sahido para a revolta, essa força avistando na rua de S. Bento um troço da guarda municipal, fel-a dispersar com uma descarga. E desde manhã até ao começo da tarde, todos os officiaes que tentaram penetrar no edificio foram respeitosamente prevenidos pelo sargento Galho de que desfecharia sobre elles a sua espingarda.