Nota de editor:
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foram tomadas várias decisões quanto à
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Rita
Farinha (Dez. 2009)
OPUSCULOS
OPUSCULOS
POR
A. HERCULANO
SOCIO DE MERITO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE LISBOA
SOCIO ESTRANGEIRO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE BAVIERA
SOCIO CORRESPONDENTE
DA R. ACADEMIA DA HISTORIA DE MADRID
DO INSTITUTO DE FRANÇA (ACADEMIA DAS
INSCRIPÇÕES)
DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE TURIM
DA SOCIEDADE HISTORICA DE NOVA YORK, ETC.
TOMO VI
CONTROVERSIAS E ESTUDOS HISTORICOS
TOMO III
LISBOA
LISBOAVIUVA BERTRAND & C.a SUCCESSORES
CARVALHO & C.a
73, Chiado, 75
M DCCC LXXXIV
COIMBRA—imprensa da universidade
UMA VILLA-NOVA ANTIGA
1843
Se passardes pelos olhos uma carta topographica
de Portugal, em cada provincia, em
cada comarca, talvez em cada pequeno districto,
achareis escripto, ao lado de alguns d'esses signaes
que marcam as povoações, a palavra
Villa-nova:
Villa-nova de Rei, de S. Cruz, de Gaya,
de Cerveira;... que sei eu?—Villas-novas de
todos os sobrenomes, e até villas-novas de ninguem
e de nada; villas-novas espurias.
Villa-nova é o
dom
municipal, o dom villão;
porque, por extravagante antiphrase, villa-nova
quasi sempre indica um antigo burgo com suas
rugas de velhice, com seu castello desmoronado,
com seus vestigios de templo ou de palacio da
meia-edade. Villa-nova moderna, sem pedras amarellas,
tombadas, ogivaes, é cousa descommunal,
milagrosa, e ao réz do impossivel. É que o
passado,
remoto, remotissimo, como o imaginardes,
já foi presente, e então a villa que se
alevantava
ou no desvio, até ahi inculto e intractavel,
ou sobre os vestigios de povoação deshabitada
e destruida, era realmente
nova;
mas os seus
edificadores esqueciam-se, ao dar o nome á obra
das proprias mãos, que elles passariam bem depressa
e com elles a mocidade da sua filha querida;
esqueciam-se de que o correr dos annos
brevemente havia de converter em palavra sem
sentido essa denominação que lhes
parecêra tão
clara e precisa. Aos primeiros respiros de paz e segurança,
depois das guerras barbaras de religião
e de raça que devastaram outr'ora este solo
portuguez, o espirito municipal ia semeando os
concelhos ao passo que debaixo dos marcos das
fronteiras christãs se embebia o territorio mussulmano,
e então acontecia que o burgo, recentemente
plantado em terra até ahi erma e sáfara,
ou sobre as ruinas carcomidas de municipio romano
ou godo, sentindo-se cheio de vida e de
esperanças, folgava de contar ao mundo no proprio
nome a sua juventude, e tomava para si o
titulo tão querido, tão popular, tão
casquilho—de
Villa-nova.
E ás vezes as villas-novas vinham encostar-se
aos muros carrancudos e robustos das cidades
reaes ou episcopaes. Eram como uma criança
rosada, risonha, travessa, que se atira ao collo
da velha rebarbativa, e se lhe pendura ao pescoço,
e desata a rir—a bom rir. Acontecia tambem
que uma ou outra ia assentar-se á beira
de um rio, defronte de povoação orgulhosa, e
similhante a trasgo inquieto zumbia-lhe insolentemente
aos ouvidos, e desangrava-a roubando-lhe
o seu commercio: mettia-se até em bandos
politicos para lhe fazer perraria; e inimiga d'ao
pé da porta não havia casta de incommodo que
lhe não causasse. Que outra cousa fez Villa-nova
de Gaya ao burgo episcopal do Porto, burgo tão
grave, tão serio, tão devotamente enroscado em
volta da sua cathedral, aos pés dos seus sanctos
bispos? Quem, senão Villa-nova de Gaya, assoprou
provavelmente entre os honrados burguezes
da cidade do Douro aquelle espirito de irmandade
e revolta que tanto veio depois a incommodar
os successores do veneravel D. Hugo?
Lisboa—guerreira e depois mercadora—tambem
teve, não uma, mas duas villas-novas abraçadas
á sua cinta de muralhas: a primeira ao
sul, a segunda ao poente. Chamava-se aquella
Villa-nova de Gibraltar: esta Villa-nova d'Andrade.
A segunda, nascida no seculo XV, viveu
dois dias apenas, porque Lisboa, essa
villa[1]
limitada
nos fins do seculo XII a 15:000 habitantes,
em quanto a mourisca Silves contava 25:000,
cresceu com tal rapidez na epocha dos descobrimentos
que, rompendo ou, antes, galgando por
cima dos lanços occidentaes dos seus muros, a
devorou ainda no berço, ou para melhor dizer
partiu-a em fragmentos, e aos seus membros
despedaçados chamou Bairro-alto, Chagas, Sancta
Catharina. Villa nova d'Andrade foi uma cousa
fugitiva, sem gloria, sem individualidade. D'ella
poderia dizer-se o que o psalmista dizia do impio—«vi-a
exaltada como o cedro do Libano: passei,
e não existia; busquei-a, não lhe achei
rasto.»
Deixemol-a, pois, na paz do esquecimento e do
nada.
Não assim Villa-nova de Gibraltar. Fallae-me
de Villa-nova de Gibraltar! Esta sim, que viveu.
A sua origem perde-se nas trevas dos tempos
chamados barbaros, entronca-se no berço da monarchia.
Assentada á beira do Tejo, fóra do
lanço
de sul e sueste da muralha arabe, ou talvez
goda (quem poderá hoje dizel-o?!), que cercava
Lisboa antes do seculo XIV, saudavam-na os primeiros
raios do sol oriental, aqueciam-na todos
os do alto dia, douravam-na os derradeiros que
vinham do poente roçando pela superficie das
aguas. A cidade lá estava sombria entre as torres
e altos muros da sua cerca; agachada nas faldas
do seu castello soberbão e malcreado; prostrada
em volta da sua cathedral ampla e triste. Mas
que importava isso a Villa-nova de Gibraltar?
Ahi não havia nem muros, nem torres, nem castellos,
nem campanarios. Ella mirava-se no rio,
e achava-se bella; bella por si e pelo luxo dos
seus atavios; porque Villa-nova de Gibraltar era
a atravessadora de quasi toda a mercancia; a
patria dos rendeiros e
sacadores
das rendas e
direitos reaes: era rica e potente; e ao sobrecenho
altivo da velha Lisboa, confiada na sua
epiderme de marmore, respondia ella mostrando
a sua armadura d'ouro, e depois punha-se a rir,
porque bem sabia já, como nós hoje sabemos,
que o ouro é mais forte que o marmore.
D. Fernando I, que foi para com Lisboa como
um amante selvagem, ora querendo aniquilal-a
porque lhe preferia em amores o alfaiate Fernão
Vasques, ora lançando-lhe no regaço riquezas,
privilegios, tudo, quiz n'um accesso de ciume
escondel-a aos olhos d'estranhos. Já ella, a namoradeira,
sahindo da Porta do Ferro, pelo terreiro
da cathedral, corrêra para o valle de Valverde
e se reclinára por ahi abaixo indo espreitar
a barra cá da margem do rio; já
começava
até a galgar pela encosta fronteira para o lado
do gothico mosteiro de S. Francisco e para a
ermida dos Martyres, e pela Pedreira do Almirante
para o convento dos sanctos frades da
Redempção. «Alto
lá!» disse o bom do rei D. Fernando,
e, chamando os villões sujeitos á adúa
por todas as villas e logares d'arredor, lançou
á cintura da doudinha uma nova faixa de muros,
para que não passasse alem. Ficou-se, é verdade,
espairecendo Lisboa pelo valle e pela encosta,
mas ao menos, atraz das novas torres e
quadrellas, já não podia fazer gatimanhos de
presumida aos que vinham visitar em som de
paz ou de guerra os campos das suas cercanias,
ou as aguas da sua enseada.
E que era nesse tempo feito de Villa-nova de
Gibraltar? Lá estava senhoril e desdenhosa, á
beira do Tejo, indifferente aos arrufos de Lisboa
e aos ciumes de D. Fernando. Pacifica e fiel não
se entremettia em negocios alheios, não tumultuava,
não se namorava d'estranhos. Assim a
muralha real que bojava para poente, passou pé
ante pé por entre ella e a cathedral para não a
affligir: encorporou-se ahi com os antigos muros
para a deixar, como até então, exposta
á sua tão
querida restea de sol. Novas portas, todavia, a
uniram com a antiga cidade, que tão rapidamente
crescêra e se fizera garrida. Foi por ahi
que lenta e traiçoeiramente Lisboa pôde chegar
a submettel-a e devoral-a.
E quereis saber por qual razão, e como? Dir-vol-o-hei.
Era que na fronte de Villa-nova de
Gibraltar, abaixo do seu diadema rutilante de
princeza, estava escripta uma lenda fatal e maldicta;
uma lenda que por muito tempo foi apenas
ignominiosa; mas que nos fins do seculo XV
se converteu em sentença de morte, em signal
estampado pela mão do archanjo do exterminio.
Esta lenda encerrava apenas duas palavras, mas
palavras blasphemas, que só podiam ser apagadas
destruindo-se a existencia individual da povoação
que se atrevia a apresental-as deante da
luz do céu.
Villa-nova de Gibraltar era a
Communa dos
Judeus!
A edade-media, essa epocha altamente poetica,
porque tinha crenças, e profundamente
symbolica, porque era poetica, havia feito de
Lisboa um symbolo da historia religiosa e politica.
O municipio christão, partindo do alto alcaçar
ou castello, dilatava-se até ás raizes do
monte, em cujo topo campeava, a cavalleiro de
todos os cabeços dos arredores, a torre de menagem—a
guarida do alcaide-mór—como representante
do senhorio real e da aristocracia:
á sombra do alcaçar, e a mais de
meia
encosta,
a cathedral alçava os seus dois campanarios altivos,
quadrangulares, massiços: entre essas duas
expressões materiaes da monarchia, da nobreza,
e da egreja, a casa da camara—os paços plebeus
do concelho, proximos do campanario septentrional
da sé, chãos e humildes—representava
o povo que em silencio se preparava para
ir estender os braços endurecidos pelo trabalho,
e subjugar algum dia, á direita o alcaçar,
á esquerda
a egreja. Na configuração da cidade resumia-se
a historia social do passado e a prophecia
do futuro. Como tantas cousas da edade-media,
Lisboa era um verdadeiro symbolo.
Não o era só, todavia, do pensamento politico:
tambem o era da idêa religiosa. No amago da
povoação, no logar eminente, estava o
christianismo;
ao norte, em profundo valle e apinhado
em volta de mesquita apenas tolerada, ficava o
bairro dos mouros, a
Mouraria; e
ao sueste,
quasi ao oriente, lançada ao pé da
Esnoga, a
Judearia:—uma
crença verdadeira, mas temporaria,
do lado donde o sol surgia na sua ascensão
para as alturas; a religião do Christo, complemento
divino d'aquella, assoberbando-a do monte
sobranceiro; o islamismo, transformação impia e
tenebrosa d'ambas, como escondido ao norte na
penumbra da cruz triumphante; e ao longe as
vastas solidões do oceano, atravez das quaes
os filhos do evangelho o deviam levar algum
dia ás regiões ainda incognitas de novos mundos.
O velho Portugal tinha feito da cidade do
Tejo um symbolo e uma prophecia sublimes!
A monarchia, vencedora da edade-media, esqueceu
a poesia d'ella; porque nos seus velhos
habitos de organisar, de legislar, de livellar,
perdêra inteiramente o senso esthetico. A poesia
estava principalmente nas idêas, no sentir, nas
formulas das classes aristocraticas: o povo era
infeliz e selvagem, e a monarchia positiva, calculadora,
e egoista. Com a victoria final d'esta
desappareceu tudo o que representava o ideal.
Belem é a agonia da arte; é o estrebuchar
descomposto
da architectura christan que morria; e
o cancioneiro de Resende o ultimo concerto dos
trovadores em que já se misturam os sons discordes
da poesia romana.
Neste crepusculo da vida nacional, nesta passagem
da originalidade para a copia, as ruinas
tombavam sobre outras ruinas: a nova sociedade
sobrepunha as suas obras incertas, frias, ou estupidas,
aos restos ainda palpitantes do cadaver
do passado; cirzia-as ridiculamente com remendos
e fragmentos das obras e factos que destruira;
fazia, emfim, por um pensamento de ordem e
de organisação exaggerado, o que nós
muitas
vezes fazemos hoje por um amor de liberdade
indiscreto e excessivo.
É curioso o vêr como a
edificação do celebre
mosteiro Jeronimitano de Belem se liga com a
destruição da communa judaica de Villa-nova de
Gibraltar; como esse monumento de transição
da architectura, esse cahos de todos os systemas
que luctavam no principio do XVI seculo, reunidos,
e por assim dizer petrificados de subito
n'um edificio só, traz forçosamente á
lembrança
a ruina d'um facto da ordem moral que existira
inconcusso entre nós por quatrocentos annos—a
tolerancia da edade-media. De feito a tolerancia
religiosa expirava ao passo que a architectura
christan morria, e as bullas da inquisição
vinham-nos talvez pelo mesmo correio que trazia
aos nossos architectos os desenhos puros e materialmente
formosos, mas pagãos e peregrinos,
de Bramante ou de Raphael.
Um phenomeno por certo singular nos apresenta
a historia antiga de Portugal. Na larga
serie de leis, de artigos de côrtes, de factos publicos
até os fins do seculo XV, a crença viva de
nossos avós se limita sempre dentro dos termos
d'aquella intolerancia legitima que a verdade
não póde deixar de ter para com o erro. O
christianismo
proclama-se ahi franca e energicamente
a unica religião verdadeira: o christão
julga-se um homem de condição superior ao judeu.
O povo vigia, até, com ciume que o israelita
conserve sempre no trajo um distinctivo da
sua raça reproba, das suas doutrinas erradas.
Mas a intolerancia acaba neste ponto: não se
imagina ainda que o desterro, os tractos do potro,
e o cheiro de carne humana queimada subindo
da fogueira expiatoria, sejam sacrificios
agradaveis a Deus. Na gente judaica havia mais,
por assim dizer, um caracter de triste fatalidade
pesando sobre uma raça condemnada pelo seu
peccado original do Deicidio, que o de uma raça
maldicta por crimes proprios. «Os judeus, como
testemunhas da morte de Jesu-Christo, devem
ser defendidos só porque são homens»:
estas
palavras de D. Affonso II resumem o pensamento
da edade-media ácerca d'elles. É o pensamento
de que Lisboa com Villa-nova de Gibraltar foram
a imagem sensivel. No alto da sé a cruz, abrigada
á sombra do castello christão, via a seus
pés a synagoga—a humilhada
Esnoga—que testemunhava
alli a morte do Christo, a victoria do
Evangelho, e a redempção dos homens: e o que
orava na cathedral sentia só desprezo, e por
ventura compaixão, por aquelle que orava na
synagoga. Se o odio se misturava ás vezes com
esses sentimentos, motivos não religiosos, mas
puramente materiaes o geravam: geravam-no as
riquezas dolosamente accumuladas pela gente
hebrea, os vexames que practicavam como exactores
da fazenda publica, as suas usuras como
possuidores de capitaes, e mil outros motivos
humanos em que nada tinha que vêr a
opposição
das crenças.
E o seculo XVI, que era erudito; que traduzia
Cicero e Ovidio, e imitava Horacio: o seculo da
civilisação, das conquistas, de todas as
grandezas,
cuspia nas faces da edade-media, que jazia
morta a seus pés, o epitheto de barbara! E D. Manuel,
o culto e venturoso monarcha do oceano,
esquecia-se do que não esquecera a seu rude e
obscuro avô D. Affonso II: esquecia-se de que os
isralitas estavam condemnados pelo Rei da Eternidade
a vaguearem perpetuamente na terra
como testemunhas da morte de
Jesu-Christo. Portugal
devia ser exceptuado d'esse decreto de
cima, e a conversão violenta dos judeus foi um
dos factos mais estrondosos d'aquelle tão estrondoso
reinado.
Da communa hebraica, da risonha e opulenta
Villa-nova de Gibraltar, apenas nos resta a sua
synagoga—melhor diriamos o sitio d'ella—convertido
em templo christão. É uma collegiada da
ordem de Christo: é a Conceição Velha;
velha
porque já as cousas d'essa epocha manuelina,
tão fastosa, tão transformadora, tão
destructiva
de tudo o que quer que fosse, bom ou mau, das
eras poeticas, já hoje é caruncho e
podridão:
os seus monumentos já se confundem com os que
ella desprezava como barbaros. Fallae no portal
rendilhado da Conceição Velha a um vereador,
a um politico, a um pascasio de melenas, emfim
a qualquer inimigo nato das cousas mais
poeticas e sanctas da patria—os monumentos—e
responder-vos-ha torcendo o nariz e com um
ademan parvo de superioridade: «Poh diabo!
isso é gothico!» Gothico! Ouves, seculo dezeseis,
seculo romanista, seculo brilhante, seculo peralvilho?
Ouves lá debaixo da tua campa, pesada
como todos os crimes que commetteste no oriente,
confundirem-te hoje com os seculos rudes e
pobres da nobreza d'alma na fidalguia e da energia
popular? Mudaste a indole da nação; tornaste-a
de guerreira em mercadora; de municipal
em cortezan; de austera em voluptuaria.
Acceita de mãos como aquellas a paga da tua
boa obra.
A historia da esnoga e do mosteiro de Restello
é simples: têl-a-heis lido em dez livros
copiados uns dos outros com grande augmento
e gloria das lettras patrias. Onde hoje este edificio,
amplo como o poderio de D. Manuel, simula
aos olhos do vulgo, na vermelhidão dourada das
suas pedras, uma edade mais provecta que a
verdadeira, existia um conventinho de freires
de Christo. D. Manuel vasou-os na synagoga de
Villa-nova, desentulhou o chão da ermida de
Sancta Maria de Belem, que assim se chamava
ella, alevantou a machina que ahi vêdes, chantou-lhe
dentro não sei quantas duzias de frades
jeronimos de Penhalonga, e morreu deixando
a sua obra imperfeita. Tractou de continual-a
D. João III nos intervallos em que lh'o consentiam
as suas incansaveis diligencias para obter
a sancta inquisição, contra a qual reluctou muito
tempo a curia romana, que nem sempre é tão boa
como alguns a fazem, nem tão má como outros
o affirmam. Na regencia de D. Catharina parece
ter-se acabado a igreja como actualmente existe.
E a esnoga de Villa-nova? A esnoga estava reformada,
rendilhada, baptisada, christan e contrita
como.... como os judeus allumiados subitamente
pelo Espirito-Sancto no mesmo dia e á mesma
hora, por um decreto real, redigido provavelmente
pelo secretario Antonio Carneiro. Apósto
que não sabeis quem era Antonio Carneiro?
Era para D. Manuel o que fôra Antão de Faria,
que tambem provavelmente não conheceis, para
D. João II: um substituto da cadeira monarchica,
um marquez de Pombal de ha trezentos e quarenta
annos, de que ninguem se lembra hoje,
como d'aqui a outros trezentos annos ninguem
se lembrará do marquez de Pombal.
Sic
transit
gloria mundi.
Pois não o merecia Antonio Carneiro!—Foi
ministro de peso e volume. Os papeis da sua
secretaria, ou antes do Estado, eram em portuguez!
Quem me dera um Antonio Carneiro!
Antonio Carneiro foi até homem agudo e engraçado:
prova d'isso é o preambulo do regimento
dado á collegiada da convertida synagoga, em 29
de janeiro de 1504. Evidentemente o ritual rabinico
já não tinha applicação.
N'esse preambulo
conta o bom do secretario a historia da
transformação.
Eis as suas palavras: «Como entendemos
(é el-rei quem fala segundo estylo e direito)
na conuersão dos judeus de nosos reynos
pera á nosa santa fee serem ajuntados, he no
conhecimento he obras della se saluarem, com
muyta deuação nos oferecemos he deliberamos
da casa da esnoga dos judeos que estavam na
judiaria grande desta cidade, asi como ella era
a mays principal em que o nome de noso senhor
era blasfemado, he as coussas de nosa santa fee
catolica reprovadas e emmingoadas, fazermos
huma solene igreja e casa da enuocação de nosa
senhora da conseição, na qual com muy grande
solenidade e deuação os officios deuinos fossem
celebrados, he ali, onde a noso senhor por tanto
espaço de annos e tempos fora feyto tanto
deseruiço,
he o seu nome he as suas coussas blasfemadas,
perpetuamente he em toda a perfeyção
seus louuores se fizessem, he o culto deuino
fosse continuamente he com grande solenidade
exalçado.»—Basta. Não me digaes nada
do estylo
d'Antonio Carneiro: era o do seu tempo. Confessai
antes que não esperaveis que a
transformação
da synagoga em igreja fosse uma antithese
religiosa, um trocadilho ao divino. Essa
perseguição similhante á dos tyrannos
de Roma
contra os primeiros martyres do christianismo,
alevantada contra os judeus portuguezes, nos
fins do seculo XV, foi apenas uma figura de rhetorica
feita por D. Manuel. Ó elegante, ó immortal
Antonio Carneiro! Tu ajudavas teu senhor
a acabar a obra de D. João II, a anniquilar toda a
poesia da edade-media; mas tu eras mais poeta
do que ella. Creanças despedaçadas por seus
pais para não serem entregues aos beleguins
missionados; homens, havia pouco opulentos,
reduzidos á miseria e ao desterro, ou obrigados
a acceitarem um baptismo sacrilego, porque era
recebido por violencia: tudo quanto ha negro e
infame n'aquelle procedimento, em que até não
faltou a covardia de se respeitar o direito das
gentes para com os mouros (tambem expulsos
n'essa occasião) porque
tinham quem
podesse
vingal-os: tudo isto, ó excellente
Antonio Carneiro,
não passou de uma fórmula de Quintiliano,
applicada á theoria do culto! Quem poderá
duvidar de que os admiradores do
grande
seculo,
do seculo XVI, teem prodigiosamente desenvolvidas
as proeminencias do bom e do bello?
Da esnoga, reconstruida em templo por Antonio
Carneiro e por D. Manuel, apenas resta a
portada. Tambem era a cousa unica formosa
e alegre em toda essa negra e maldicta historia.
Se quereis estudar como artistas os seus delicados
lavores, ide contemplal-a á rua da Ribeira
Velha, antes que o progresso passe por lá e a
derribe. O progresso é gordo e ancho: não cabe
onde quer que esteja um monumento.
COGITAÇÕES
SOLTAS
DE
UM HOMEM OBSCURO
1846
O modo como os fragmentos que vamos publicar
nos vieram ás mãos é cousa que
não
importa aos leitores: o que lhe pode importar
é se haverá n'elles idéas que os levem
a reflectir
sobre o estado da sociedade no meio das
questões de organização que se agitam
entre
nós. São estas folhas avulsas como uma serie de
apontamentos para um livro que talvez fosse de
algum valor se chegasse a escrever-se. Incapazes
litterariamente de preencher as lacunas e de
coordenar as idéas, que as mais das vezes apenas
estão indicadas n'estas notas, imprimimol-as como
nos foram transmittidas pela derradeira vontade
de um homem que já não existe, e que tinha
mais habito de pensar que de escrever, o que,
seja dicto sem offensa de ninguem, não é
demasiado
vulgar. Cremos que todos os partidos
reconhecerão que estes pensamentos se movem
n'uma esphera differente d'aquella em que giram
as opiniões ou as paixões por cuja causa
combatem uns com outros e mutuamente se detestam,
e que por isso nenhum d'elles os considerará
como adversos ou favoraveis aos seus
interesses momentaneos, e, digamol-o, ás vezes
bem pouco graves. Da altura dos systemas os
publicistas olharão para estas
cogitações como
para um sonho de homem acordado, não raro
em flagrante contradicção com as doutrinas das
escholas. É provavel que tenham razão. Mas
como elles ainda não poderam intender-se entre
si, nem sequer ácerca dos principios fundamentaes
da sciencia politica, deixem passar o pobre
sonhador, e perdôem-lhe a ignorancia em
attenção
ao seu amor de patria e á nova luz a que nos
parece ter visto um certo numero de factos sociaes
importantes. Notas, cujo destino era o
serem conservadas na pasta do auctor, até se
completarem e receberem a conveniente ordem,
estas ponderações não teem ainda as
fórmas modestas
com que deveram apresentar-se; nós,
porém, não nos atrevemos a revestil-as d'essas
fórmas com receio de diminuir-lhes a energia.
Mais como duvidas sobre as causas e remedios
da febre que agita as sociedades modernas, que
como pretenções de fundar uma eschola politica,
esperamos sejam consideradas as
Cogitações de
um homem obscuro por aquelles que se applicam
a reformar as instituições dos povos.
São
idêas informes, incompletas, e rudes: mas bem
grosseira é a silex, e é d'ella que sahe a
faúla
com que accendemos o facho que nos guia nas
trevas de noite profunda.
Possam os devaneios d'aquelle que passou
desconhecido ao mundo não serem inteiramente
inuteis para o progresso humano, e sobre tudo
para a liberdade e bem-estar futuro da terra
sacrosancta da Patria!
I
Fraco, pequeno, e pobre na origem, Portugal
teve de luctar desde o berço com a sua fraqueza
original. Apertado entre o vulto gigante
da nação de que se desmembrara e as
solidões
do mar, o instincto da vida politica o ensinou a
constituir-se fortemente. Quando se lançam os
olhos para uma carta da Europa e se vê esta
estreita faixa de terra lançada ao occidente da
Peninsula e se considera que ahi habita uma
nação independente ha sete seculos,
necessariamente
occorre a curiosidade de indagar o segredo
d'essa existencia improvavel. A anatomia
e physiologia d'este corpo, que apparentemente
debil resistiu assim á morte e á
dissolução, deve
ter sido admiravel.
Que é feito das republicas da Italia tão
brilhantes
e poderosas durante a edade-media?
Onde existem Genova, Pisa, Veneza? Na historia:
unicamente na historia. É lá onde
sómente vivem
o imperio germanico e o do Oriente, a Escossia,
a Noruega, a Hungria, a Polonia, e na nossa propria
Hespanha a Navarra e o Aragão. Fundidas
n'outros Estados mais poderosos ou retalhadas
pelas conveniencias politicas, estas nacionalidades
exteriormente fortes e energicas dissolveram-se
e annullaram-se, e Portugal, nascido apenas
quando essas sociedades já eram robustas,
vive ainda, posto que em velhice abhorrida e
decrepita. Ha n'isto sem duvida, se não um mysterio,
ao menos um phenomeno apparentemente
inexplicavel.
Estará a razão da nossa individualidade tenaz
na configuração physica do solo? Somos
nós como
os suissos um povo montanhez? Separam-nos
serranias intransitaveis do resto da Peninsula?
Nada d'isso. As nossas fronteiras indicam-nas
commummente no meio de planicies alguns marcos
de pedra, ou designam-nas alguns rios só
no inverno invadiaveis. Quem impediu a Hespanha,
esse enorme colosso, de devorar-nos?
Poder-se-ha dizer que desde o seculo XVII é
a rivalidade das grandes nações da Europa que
nos tem salvado. Talvez. Mas antes d'isso era
por certo uma força interior que nos alimentava,
e que ainda actuou em nós no meio da decadencia
a que chegámos no seculo XVI, decadencia
que virtualmente nos veio a subjeitar ao
dominio castelhano.
Mas durante esse mesmo dominio o instincto
da vida politica, o aferro á individualidade, existia
se não nas classes elevadas ao menos entre
a plebe, porque a plebe é a ultima que perde
as tradições antigas, e o amor da sua aldeia e do
seu campanario.
A lucta do vulgacho—exclusivamente do vulgacho—a
favor de D. Antonio prior do Crato
contra a corrupção de tudo quanto havia nobre
e rico em Portugal, e contra o poder de Philippe
II, é um reflexo pallido e impotente da
epocha de D. João I; mas é um facto de grande
significação historica. Completam-n'o as
diligencias
feitas nas côrtes de Thomar para que a linguagem
official do paiz se não trocasse pela
dos conquistadores. Este facto comparado com
ess'outro obriga a meditar.
Philippe II foi um grande homem—astuto,
activo, dotado de um character ferreo; foi o representante
mais notavel da unidade politica
absoluta, e não pôde ou não soube delir
e incorporar
este pequeno povo na vasta sociedade
hespanhola, sobre a qual seu pae e elle haviam
passado uma terrivel rasoira que lhe destruira
todas as asperezas e desegualdades. E todavia
Philippe II tinha geralmente por alliados entre
os vencidos os homens mais eminentes por
illustração,
por linhagem, por faculdades pecuniarias.
É que as multidões obscuras eram ainda
portuguezas
no amago, posto que corrompidas no
exterior pela corrupção das classes
privilegiadas.
Todas as outras explicações são
insufficientes ou
falsas.
II
Tambem os tempos que precederam immediatamente
o dominio hespanhol offerecem um complexo
de factos que fazem pensar.
Na segunda metade do seculo XV resolveu-se
Affonso V a conquistar Arzilla. Aprestou trinta
mil combatentes e uma frota de perto de quinhentas
velas. Os esforços de Portugal para
supprir uma tão poderosa expedição
parece não
terem sido excessivos. Aquelles de quem o principe
estava descontente eram ameaçados por
todo castigo de não se lhes consentir o participarem
dos riscos da empreza. Para emenda de
muitos bastava o incentivo de se lhes recusar o
affrontarem os combates e a morte.
Na segunda metade do seculo XVI tractava-se
de ajunctar doze mil homens para a infeliz jornada
de Alcacer-quibir. As violencias que se
practicaram para arrancar do paiz as victimas
d'aquelle grande holocausto foram inauditas, e
esgotaram-se os recursos da nação para satisfazer
o custo de uma tentativa, de cujo resultado
a consciencia da propria fraqueza e degeneração
fazia com que o povo augurasse mal.
Entre estas duas epochas é necessario suppôr
um periodo de decadencia profunda, moral e
material, e esse periodo deve ser longo. Uma
nação
não decahe de um dia para outro dia. A virtude
e os recursos de Portugal deviam ter-se
consumido lentamente.
Mas o que é esse periodo intermedio? É o do
estabelecimento da monarchia absoluta sobre as
ruinas da monarchia liberal da edade-media.
É a epocha dos descobrimentos e conquistas.
Entre as idéas de engrandecimento e poderio
da epocha anterior a D. João II, e as da epocha
posterior a elle, ha um abysmo que nunca deixará
confundil-as.
A politica da edade-media era em tudo religiosamente
historica: a do renascimento era em
tudo hypocritamente revolucionaria.
Expliquemo'-nos.
Portugal surgira no meio de uma reacção de
crença e de raça. A Africa e o islamismo tinham
subjugado a Hispanha e o christianismo. A raça
goda e christan repellia a conquista. Durante o
progresso da reacção, Portugal nascêra
e d'ella
se tinha alimentado como os outros Estados da
Peninsula. Era este o grande facto da sua existencia:
o mais era accessorio e secundario.
A conquista mussulmana fôra uma vaga dos
grandes éstos humanos que, galgando por cima
do Estreito, viera tombar e espraiar-se sobre o
solo que habitava a familia romano-gothica.
Para obedecer á natureza das cousas, para a
reacção ser verdadeira e completa, a vaga
romano-gothica
tambem devia transpor o Estreito
e, estourando sobre a Mauritania, dar-lhe a provar
o amargor do dominio extrangeiro. O futuro
pertencia a Deus; mas as probabilidades do final
triumpho cabiam áquelle dos dous contendores
que viesse a ter por si a superioridade da
civilisação,
e o decurso dos tempos mostrou que
esta superioridade recahiu, não na Africa, mas
sim na Peninsula.
Assim as tentativas dos nossos antigos reis
para se apoderarem dos territorios africanos eram
logicas historicamente, e além d'isso eram justas.
O islamismo fôra quem lançára a luva
á raça
christan: não podia queixar-se da
prorogação do
combate.
E, descendo da idéa essencial da politica da
edade-media ás circumstancias secundarias que
podiam servir como meios de a realizar, vê-se
entre ellas e essa idéa mãe uma admiravel
harmonia.
As conquistas d'Africa deviam sorrir ao
povo: estribavam-se nas tradições e nos odios
de uma guerra de seculos, guerra ao mesmo
tempo de religião e de liberdade; no habito da
victoria, que desde a batalha das Navas de Tolosa
os proprios mussulmanos consideravam como
devendo, mais tarde ou mais cedo, pertencer definitivamente
aos christãos. Accrescia a vizinhança
das costas da Berberia e, portanto, a
facilidade de conduzir d'aquem mar tropas, viveres,
munições; o serem os sarracenos adversarios
antigos, e por isso avaliados com exacção
os seus recursos, o seu valor, os seus ardiz e
usanças militares; o existirem necessariamente
ligações entre os mouros, livres em Portugal
debaixo
do dominio christão, e os sarracenos africanos,
o que por muitos modos facilitava a conquista.
Tudo isto conspirava em tornar nacional e
plausivel o systema d'engrandecimento da nossa
edade-media; systema claro, consequente, legitimo,
e do qual já se devisavam os symptomas,
como era natural, pouco depois da conquista do
Algarve por Affonso III, isto é, no reinado de seu
neto Affonso IV.
Esta politica mudou na conjunctura em que a
monarchia primitiva se caracterisava definitivamente
em monarchia absoluta.
A causa final de todas as tentativas de engrandecimento
colloca-se desde essa epocha na
pessoa do rei, e não no paiz: a
tradição historica
perde-se. As expedições maritimas abandonam
o rumo da Africa septentrional e vão correndo
ao longo das costas meridionaes. Os descobrimentos
além do Bojador, que até ahi eram
accessorios da intentada conquista do Maghreb,
convertem-se em objecto principal das ambições
de poderio. Affonso V tomára o titulo de
rei de
Portugal e dos Algarves, d'aquem e
d'alem
mar:
fôra esta a derradeira expressão do pensamento
antigo. D. João II accrescentou a esse titulo o
de
senhor de Guiné: era
a primeira palavra do
symbolo moderno. As conquistas de Affonso V
representavam um accrescimo de territorio ao
reino; pertenciam ao paiz
[2]:
os descobrimentos
de D. João II tendiam a achar ouro e escravos
para o rei. Assim, em quanto os seus antecessores
costumavam congratular-se francamente com
o orbe christão pelas victorias obtidas na Mauritania,
este principe escondia por todos os meios
de terror e mysterio o
seu
senhorio de Guiné,
como o velho avaro procura occultar o cofre que
encerra o seu thesouro.
Desde então a vida energica de Portugal, distrahida
do caminho historico e justo, do alvo
solido e dos resultados permanentes a que a dirigira
a anterior politica, foi empregada no proseguimento
da nova idéa de pessoalidade, da
substituição do rei ao Estado. A gloria adquirida
n'essa epocha foi das maiores que o mundo tem
visto; mas comprámol-a com a desgraça futura,
com a morte de toda a esperança, com o tragar
golo a golo, por seculos, um calix immundo de
males e affrontas.—Adquirimos um largo patrimonio
para dividir com as outras nações:
reservámos
para nós a fraqueza interior, consequencia
de esforços mui superiores aos nossos recursos
para remotas conquistas: reservámos para nós
a corrupção moral e a decadencia material. Que
significa, pois, qual é o valor real d'essa gloria?
Puramente negativo.
A seiva da arvore social esgotou-se no bracejar
descomposto. A Asia e a America perderam-nos.
O antigo aferro á terra natal, o odio do
jugo extranho, o nobre e altivo character de homens
livres, o esforço indomavel, deixámos tudo
isso pelos palmares da India, pelas minas auriferas
da terra de Sancta-Cruz, pelos emporios do
nosso illimitado commercio. Puzemos hypocritamente
a cubiça de mercadores e as correrias de
corsarios á sombra veneranda da Cruz. Pensámos
que atraz d'ella não nos veria a historia.
Enganámo'-nos. Quando a febre que nos alimentava
se trocou em consumpção lenta, os povos,
que vieram recolher o fructo do nosso esforço
ou dos nossos crimes, levaram alguns annos a
verificar a partilha, e quando acabaram olharam
para nós e riram-se.
As nações maritimas da Europa representaram
n'este horrivel drama o papel de espectadores
romanos assentados nos degraus de um circo;
nós o de gladiadores. No fim do espectaculo ellas
voltaram o pollegar para a terra em signal de
desapprovacão. A pateada era justa: tinhamos
cahido mal.
E ainda ha quem acceite com vangloria os
elogios insolentes dos extrangeiros que, insultando
a nossa decadencia presente, exaltam os
feitos admiraveis com que lhes abrimos laboriosamente
atravez do oceano o caminho da prosperidade?
É um singular genero de surdez, ouvir o
elogio sem sabor e não ouvir a gargalhada que
o segue e que o converte n'um escarneo.
III
Quem quizer saber o que a monarchia absoluta
tinha feito do Portugal antigo leia a segunda
carta de Sá de Miranda, dirigida ao senhor de
Basto.
Este Sá de Miranda não seria um grande poeta;
mas era mais do que isso: era um homem de
fino tacto, que não tomava a febre do paiz por
força normal de vitalidade, e que via a decadencia
e ruina nas riquezas e pompas de Lisboa;
n'aquillo em que uma cubiça miope via engrandecimento
e progresso.
Desde que o rei deixou de ser rei para ser
senhor, o paiz annullou-se diante da capital.
Quando o principe é o Estado, que importam as
provincias? A côrte é tudo; é o manto
real. Cubra-se
de ouro e pedrarias, está obtido o esplendor
do
Estado.
Se D. Sebastião fosse um Sá de Miranda,
não
teria ido morrer a Alcacer-quibir. O pobre rapaz
era uma alma nobre e teve uma inspiração da
politica da edade-media; quiz ser descendente
dos reis cavalleiros, dos reis municipaes, dos
reis chefes da reacção christã, no
meio de uma
nação de bufarinheiros, de sobrecargas, de
judeus-agiotas,
de cortezãos, e de tartufos. Pagou-o.
Malaventurado mancebo! Nunca viu passar por
entre seus sonhos dourados e puros os phantasmas
melancholicos de D. João II, de D. Manuel,
e do inquisidor-mór D. João III: não
soube que
para resuscitar o pensamento destruido nos fins
do seculo XV era preciso primeiro reconstruir
uma sociedade que perecera com elle. D'aqui o
seu mal.
Puzemos agora o dedo sobre a chaga que corroeu
e corroe Portugal. O que até este momento
apontámos é uma serie de phenomenos, de factos
externos, posto que de alta importancia por
nos conduzirem á avaliação das causas
intimas
da ruina do paiz.—Estas causas estão unicamente
nas circumstancias que se deram na transformação
da indole politica da sociedade portugueza.
É essa a chaga em que tocámos.
ARCHEOLOGIA PORTUGUEZA
1841—1843
Hoje que a arte começa a deixar de ser entre
nós imitadora, pagan, e falsa; hoje que a poesia
se torna nacional; hoje que o drama renascendo
no theatro vai buscar a sua tela e as suas personagens
na historia patria; hoje, emfim, que
começam a apparecer nos jornaes populares tentativas
e esboços da novella historica, é uma
necessidade litteraria o desenterrar das chronicas,
dos diplomas, e de toda a especie de monumentos
a archeologia portugueza na mais vasta
significação d'esta palavra. Os que se
têem applicado
a escrever n'estes diversos generos da
arte, chamados poema, drama, romance, generos
despresados por certos sabios que nada escrevem,
ou que só copiam
profundamente o que
os outros disseram; aquelles que, dizemos nós,
trabalham n'estas varias especies de litteratura,
para as quaes se requerem em subido grau duas
cousas que raras vezes se encontram
junctas—imaginação
para inventar, logica para deduzir
e ligar factos e pensamentos; esses conhecem
por experiencia custosa quão duro é ter de
accrescentar
ao seu trabalho de artistas as tediosas
e mirradoras investigações de antiquarios e
eruditos.
Depois d'uma larga exploração pelos campos
aridos e empoeirados das velhas chronicas
civis e monasticas, dos pergaminhos esquecidos
nas gavetas dos archivos, das obras confusas e
por vezes contradictorias dos eruditos, se não
é difficultoso salvar a propria logica, é quasi
impossivel
não sentir amortecida a imaginação,
sem
a qual não existe arte. É esta a maior
difficuldade
que hoje ha para entre nós apparecerem
obras de artistas: os estudos aridos das antigualhas
matam os engenhos, ao passo que sem
a verdade dos costumes as producções artisticas
são falsas, e n'esse caso tanto ou mais valêra
fazer poemas epicos, tragedias com córos, pastoraes
virgilianas, e romances como o
Theagenes
e Chariclea, do bispo Heliodoro d'Emesa.
Mas qual é o meio de evitar gradualmente
esta difficuldade? É trazer cada qual á
praça o
seu peculio n'esta materia: assim os artistas se
ajudarão mutuamente, poupando uns aos outros
largas horas de indagações impertinentes e
aborridas.
A minima circumstancia dos antigos costumes
não é indifferente: muitas vezes ella vai
dar côr e vida a um verso, a uma scena, a um
capitulo: por pobre que cada um se julgue venha
com sua mercadoria que alguem lhe achará o
preço: para a arte de hoje não ha terra de
sepulchro
que nas mãos d'ella não possa converter-se
em ouro; porque a vestidura de pedra
que dá agasalho aos cadaveres encerra toda a
vida antiga.
Um jornal popular é por todas as razões o
repositorio mais accommodado para enthesourar
essas riquezas historicas. Um livro requer grande
copia de materiaes nas mãos do obreiro que
commette essa obra; requer certa disposição e
methodo para o qual poetas nem sempre são
mui proprios, por isso raros poderiam fazer sobre
isso um livro com intuito artistico, que ao mesmo
tempo fosse uma boa obra archeologica. Por outra
parte, o commum dos leitores—os mesmos que
hão de ler o poema ou o romance, e assistir á
representação do drama—se habituarão
ao tracto
e frequencia dos costumes e idéas que essas
composições resuscitam: as crenças, as
opiniões,
a vida material dos tempos passados deixarão
pouco e pouco de ser para elles como estranhas,
e as obras d'arte serão intelligiveis e populares,
o que aliás difficultosamente aconteceria.
Nós, pois, convidamos todos aquelles que comprehendem
a importancia e necessidade de similhantes
materias para que venham inserir
algumas paginas avulsas, alguns capitulos soltos
dos seus estudos historicos n'esta serie que hoje
abrimos: para nós e para os outros o requeremos;
mas sobre tudo o pedimos em nome das esperanças
que despontam de uma arte nacional.
Não nos adstringindo nem á divisão das
materias,
nem á ordem chronologica, n'este caso
absolutamente indifferente, começaremos pelo
extracto de duas obras
[3]
ineditas e inteiramente
desconhecidas entre nós, mas preciosissimas por
uma multidão d'observações sobre os
costumes
portuguezes dos fins do seculo XVI. Estas obras
escriptas por extrangeiros, que não tinham motivos
de affeição nem de odio contra os portuguezes,
parecem-nos de summa curiosidade por
descreverem o character de nossos avós n'uma
epocha em que a severidade dos antigos costumes
se começára a corromper grandemente, e
as riquezas e o luxo, que nos perderam, tinham
feito desapparecer a primitiva singeleza de mais
remotas eras.
VIAGEM DO CARDEAL
ALEXANDRINO
1571
Enviando o papa Pio V seu sobrinho Miguel
Bonello, mais conhecido pelo titulo de Cardeal
Alexandrino, como legado aos reis de França,
Hespanha, e Portugal, no anno de 1571, entre
as pessoas que formaram a sua numerosa comitiva
vinha um certo João Baptista Venturino, que
tomou a seu cargo descrever em italiano o processo
da viagem, acompanhando a sua relação
de notas e observações sobre as terras por onde
passavam e sobre os individuos com quem tractavam.
Depois de atravessarem França e Hespanha
entraram em Portugal pelo lado do Alemtejo,
e é d'aqui ávante que a viagem do legado se
torna extremamente importante para a historia
da sociedade portugueza n'aquella epocha: é
pois só n'esta parte que extrahiremos as mais
curiosas passagens da copia que temos diante
de nós, tirada do codice 1.607 da Bibliotheca do
Vaticano
[4].