«Na quarta feira seguinte foi o Legado visitar
el-rei, o qual veiu encontrar-se com elle ao meio
da sala grande, acompanhado de muitos cavalleiros,
e vestido singelamente, todo de panno
preto. Tirou o Legado o barrete primeiramente,
e depois tirou el-rei o seu, mas tornou-o a pôr
logo, tendo-o o Legado ainda na mão; e sem
dizer palavra, tomando a direita ao Legado, se
encaminhou para o seu quarto, sem fazer a menor
ceremonia ao passar as portas, entrando
primeiro que elle na camara, onde só havia uma
cadeira. Ordenou então el-rei que viesse outra,
mas antes que ella chegasse, ou por inadvertencia
ou por altiveza, assentou-se debaixo do docel,
e o Legado defronte d'elle na que trouxeram,
que era de velludo. Tendo fallado obra de uma
hora, o Legado tornou a descobrir-se, fazendo
el-rei apenas signal d'isso, e acompanhando-o só
até á porta do aposento, onde parou, com o
barrete na cabeça, em quanto os prelados lhe
faziam suas cortezias, pondo o joelho em terra,
e retirou-se depois.»
«O Legado jantou n'esse dia em publico, mas
só á mesa, na sala do docel, n'um estrado de
cinco degraus, assentado em uma cadeira de velludo
carmezim, franjada d'ouro, assistindo-lhe os
prelados e grande numero de fidalgos portuguezes.
Ao mesmo tempo jantava el-rei tambem em
publico e só á mesa, na sua sala principal
debaixo
do docel, em estrado levantado, e assentado
em cadeira de brocado d'ouro. Quatro padres
jesuitas benzeram a mesa e depois deram
graças. O serviço era d'ouro: dez os criados que
serviam, não mais! As comidas poucas, mal
temperadas e grosseiras. Sobre a mesa estava
sempre um grande vaso de prata cheio d'agua,
do qual se deitava em um jarro, chamado na
lingua portugueza
pucaro, do
feitio de uma urna
antiga, d'altura d'um palmo, e feito de certo
barro vermelho, subtilissimo e luzidio, que chamam
barro d'Estremoz, pelo qual el-rei
bebeu
seis vezes. Ahi estava tambem sempre uma salva
de prata cheia de guardanapos, que se renovavam
cada vez que el-rei bebia ou mudava de
prato. Comia depressa, e com a cabeça baixa,
com pouca delicadeza. Um pagem posto atraz da
cadeira lhe tinha entre tanto a espada. Dez estavam
de joelhos. Apesar de lhe assistirem muitos
fidalgos, nunca disse palavra, nem olhou para
nenhum, e levantando-se da mesa, retirou-se
para a sua camara com passos velozes.»
«Depois de jantar, o Legado cavalgou em uma
mulla, acompanhado dos prelados e de quinhentos
cavalleiros portuguezes, e seguindo quasi uma
milha ao longo da margem do rio, foi apear-se
á porta de um convento de freiras franciscanas,
donde passou ao palacio da rainha D. Catharina,
viuva de D. João III e irman de Carlos V, avó do
rei actual. Terá d'edade sessenta annos ou mais,
mas está bem conservada: é d'alta estatura e de
gentil aspecto. Estava vestida como a duqueza
de Bragança viuva, de que já falei.
Achámol-a
em pé n'um aposento desadornado, como o era
todo o palacio. Deu só dois passos a receber o
Legado, com uma leve cortezia. Juncto d'ella
estavam quatro matronas e seis donzellas formosas
e ricamente vestidas. Despedidos os prelados
e mais pessoas, começou a conversar com
o Legado em lingua hespanhola e em voz alta,
por espaço de hora e meia, tendo-se ella assentado
no chão e o Legado defronte, em uma cadeira
de couro, ambos sem docel, estando entretanto
os prelados n'outro aposento, onde, por
orgulho ou por descuido, não havia cadeiras.
Á partida do Legado foram estes chamados dentro
para cortejarem a rainha, o que fizeram
pondo o joelho em terra, sem ella se mover; e
quando o Legado se despediu pôz-se em pé, mas
não sahiu do seu logar, e apenas fez uma leve
inclinação de cabeça.»
«Tendo anoitecido, acompanhados com vinte
tochas adeante fomos ao palacio da infanta D. Maria,
irman de D. João III, a qual, tendo ficado
orphan em tenra edade, não quiz jámais casar,
posto que fosse robusta, formosa, e procurada.
Era alta, e teria d'edade cincoenta annos, posto
que não pareça á primeira vista. Dizem
que é
a princeza mais rica da christandade, possuindo
innumeraveis joias e milhão e meio de bens patrimoniaes,
que gasta com os pobres.»
«Estava vestida a princeza com um vestido
afogado de velludo preto com orla d'ouro e botões
d'ouro no colarinho, coifa de rêde d'ouro
na cabeça, e uma corôa no braço, de
rubins e
diamantes, que avaliámos em trezentos mil escudos.
Esperava em pé pelo Legado, n'um aposento
forrado de pannos de Flandres de sêda e
ouro, debaixo de um docel de brocado. Ajoelhou
ao entrar de s. exm.
a, e levantando-se veio
recebel-o
á porta do quarto. Depois assentou-se no
chão debaixo do docel, e o Legado defronte d'ella
em uma cadeira de velludo carmezim franjada
d'ouro. Estavam presentes quatro matronas, quatro
damas, e tres donzellas não menos honestas
que formosas, e similhantes ás tres Graças, duas
vestidas de velludo preto, e a do meio de damasco
branco, e todas cobertas de joias tanto
no pescoço como nas mangas, com coifas de fio
d'ouro que lhe chegavam só a meia cabeça, e
os cabellos bem assentados na frente, algum
tanto crespos mas não entrançados. Depois de
uma curta conversação, o Legado voltou ao
palacio.»
«Esta capella (a dos paços d'Alcaçova)
é de
bom tamanho. Tem um S. Miguel expulsando
Lucifer que é obra de mestre: está forrada de
tapeçarias, uma das quaes representa ao natural
el-rei D. Manuel, rodeado do conselho dos grandes,
quando resolveu mandar conquistar as Indias
que hoje chamam de Portugal. É de grande
preço.»
«Quando o Legado voltou para a sua camara
(depois da segunda visita de ceremonia a el-rei
na qual nada ha notavel) os administradores do
thesouro real lhe levaram para vêr uma sella
de diversas peças, com os demais arreios, feita
na India. O corpo d'ella, ou assento, é de ouro
e as orlas lavradas subtilissimamente. Está toda
semeada de rubins, diamantes, perolas, e outras
joias similhantes. Dizem que vale novecentos mil
escudos, e é peça só digna de um
rei.»
«Na segunda feira seguinte fomos ver o arsenal
ou armaria d'el-rei, pegado com a praça
principal, á beira do Tejo. Na verdade é cousa
digna d'espanto! Compõe-se de tres grandes salas
todas cheias. Os cossoletes que ahi ha são para
cincoenta mil homens. N'outra que fica por cima
estão lanças para outros; e n'outra
morriões e
arcabuzes para egual numero de soldados (os
portuguezes dizem que são para oitenta mil),
além de trinta mil armaduras inteiras para cavallaria.
Em baixo estão cem peças d'artilheria
grossa, e cento e cincoenta de artilheria miuda,
bem que muitas d'estas se podiam contar entre
as de grande calibre. As munições são
abundantissimas,
assim como os materiaes para a fabricação;
nem n'esta parte ha mais que desejar.»
«Fomos tambem vêr as cavallariças reaes
que
estão juncto a S. Domingos. Havia n'ellas duzentos
ginetes todos excellentes e tractados com
grande estimação.»
O cardeal tinha-se despedido d'el-rei D. Sebastião.
Segue-se a descripção da partida e da
viagem para Castella atravez do Alemtejo, na
qual nada ha novo ou notavel, digno de ser
transcripto para estudo dos costumes d'aquella
epocha.
ASPECTO DE LISBOA
AO AJUNCTAR-SE E PARTIR A ARMADA PARA A JORNADA
D'ALCACER-QUIBIR
1578
Apesar de os historiadores do infeliz D. Sebastião
haverem aproveitado muitas memorias
coetaneas para tecerem as suas narrativas, esta
de que hoje damos um extracto lhes foi desconhecida.
E todavia ella apresenta o quadro
mais miudo e talvez mais completo da grandeza
e importancia d'aquella desgraçada
expedição,
em que as riquezas, os sacrificios de todo o genero,
e as violencias inauditas, de que todo o
paiz foi theatro, não poderam remediar a decadencia
do antigo esforço portuguez, nem restaurar
a energia indomavel dos seculos anteriores,
corrompida pela morte da liberdade municipal
e da independencia aristocratica, annulladas
por D. João II e por D. Manuel.—Do estylo,
do modo por que a relação dos successos se
apresenta, do ponto em que ella termina, e dos
signaes paleographicos do manuscripto se deduz
que esta memoria, pertencente á Bibliotheca Real,
foi escripta por um contemporaneo e testemunha
ocular dos aprestos da armada.
«Estava a cidade de Lisboa em todas as cousas
mui differente do que era, porque a gente que
n'ella havia não se lhe dava numero, nem havia
homem que passeasse nem andasse de vagar,
assim naturaes como extrangeiros, porque todos
se negociavam para a jornada de Africa, onde
el-rei queria passar, e mostrava-se em todos
tanto alvoroço que parecia que iam a folgar ou
a ver umas grandes festas.»
«Havia muita gente estrangeira a fóra os tudescos,
que el-rei mandara vir e que estavam
em Cascaes alojados, afóra seiscentos soldados,
os quaes, indo para a Rochella por mandado do
papa em soccorro dos catholicos contra os herejes,
vieram a Lisboa tomar refresco, e pedir
embarcação a Sua Alteza, a qual lhes
não pôde
dar, por ter necessidade de todos os navios para
esta viagem, antes disse ao capitão d'esta gente,
que era o duque de Lenister de Irlanda, que o
quizesse acompanhar n'esta jornada, e que para
isso mandaria pedir licença a Sua Sanctidade,
para o qual o duque lhe deu de prazo quarenta
dias para dentro d'elles vir a resposta, a
qual não veiu até á partida d'el-rei;
mas emfim
os fez embarcar e levou comsigo. Era gente
muito lustrosa, e soldados velhos exercitados.»
«Havia em Lisboa muita gente extrangeira,
assim castelhanos como de outras nações, que
vieram para irem n'esta jornada por aventureiros,
gente honrada e muito lustrosa, que vieram
servir el-rei á sua custa e sem partido. E assim
acudiram muitos officiaes de instrumentos militares;
porque mandou el-rei declarar por Italia,
Castella, e Allemanha, que todo homem que em
sua terra tivesse officio de guerra e quizesse
acompanhar n'esta jornada lhe faria partidos
avantajados.»
«El-rei Filippe em Castella mandou apregoar
que todo o homem que passasse com seu sobrinho
n'esta jornada lhe levaria em conta todo o
tempo que servisse, como se acompanhára sua
propria pessoa.»
«Fez el-rei quatro coroneis, a saber: Diogo
Lopes de Sequeira do terço de Lisboa e seu
termo; D. Miguel de Noronha do de Santarem;
Vasco da Silveira do de Alemtejo; Francisco de
Tavora do terço do Algarve. Não fez coronel
d'Entre Douro e Minho, nem da Beira, porque a
gente que de lá vier se ha de repartir por estes
coroneis.»
«Estes despediu el-rei a vinte dias de maio,
para que cada um fosse fazer sua gente e pagasse
logo a todos, e começasse a paga a correr
desde o dia que cada um partisse da sua terra.
A gente de Lisboa e a dos terços de Santarem
e do Alemtejo veiu embarcar aqui em Lisboa; a
outra se embarcou em os portos mais chegados:
e para esta gente se embarcar mandou el-rei vir
aqui de Setubal sessenta urcas que estavam á
carga do sal. Todas estas entraram em Lisboa
em um dia, e ficaram lá em Setubal outras setenta
urcas, que el-rei mandou hi carregar de
cousas necessarias. Vai por general de toda a
armada D. Diogo de Sousa, governador que foi
do reino do Algarve.»
«Era el-rei tão cioso ou curioso da
negociação
d'esta jornada, que de ninguem a fiava nas cousas
necessarias senão de si mesmo. E foi por
vezes visto em pessoa mandar carregar e negociar
os seus galeões; e tão occupado que pela
sésta se viu um dia no caes, sem chapéu, mandar
arrumar em um galeão umas poucas d'armas: e
era a sésta ardentissima.»
«É infinito querer contar do apparelho das
cousas de guerra, que el-rei mandou embarcar:
de artilharia muita e muito grossa, uma de
campo e outra de bater, e outra para o mar,
toda de bronze, infinitos corpos d'armas, piques,
arcabuzes, pelouros, ceirões, carretas, enxadas,
alviões, barras, polvora, marrões, e
murrões; e
para isto levava muitos gastadores, que diziam
que eram quatro mil: levava muitas azemulas,
bois, carros, e todo o mais d'estas cousas: levava
mais para os gastadores um galeão cheio
de çapatos de malhóo.»
«Chegou a Lisboa o duque de Bragança no fim
de maio com sua gente escolhida, vestida de
amarello, e guarnecida de vermelho: outra alguma
de seu serviço vinha de vermelho fino,
com calças e gibões da mesma côr. Leva
muita
gente, e a mais d'ella mandou embarcar em Setubal,
onde tinha para isto, e para sua matolotagem
e cavallos, vinte e sete urcas apenadas
por mandado d'el-rei. O duque veiu pela posta,
e ao outro dia adoeceu e esteve muito mal; e
quando viu que não podia ir por sua
indisposição,
mandou vir de Villa-viçosa o filho mais velho,
para em seu logar ir com el-rei. Não lh'o
quiz a duqueza mandar, e mandou-lhe o filho
segundo, que lhe elle logo tornou a mandar, e
que em todas as maneiras lhe mandasse o filho
mais velho, o qual veiu, e partiu de Lisboa apoz
el-rei em uma náu veneziana, tão grande como
uma da India, muito bem concertada com muita
artilharia grossa, com muitos estandartes e padezes;
e foi por Setubal para levar comsigo a
sua gente que lá estava embarcada.»
«Ao primeiro de junho mandou el-rei lançar
bando que todas as companhias fossem receber
soldo, e que todo homem assi natural como extrangeiro
que recebesse ou tivesse recebido
soldo, e não passasse á Africa, que
morresse.»
«Foi el-rei por vezes ao campo vêr os
esquadrões
e os capitães como o faziam, e elle mesmo
andava nas resenhas e entre o pó e fumo da
arcabuzaria, muito alegre e contente. E é de notar
o fervor com que negociou estas cousas: e
depois que se isto começou a apparelhar lhe era
pesada toda a practica, que não tractava de
guerra ou do apparelho d'ella.»
«N'este meio tempo houve algumas brigas,
mui travadas, e algumas de bandos, como foi
uma dos portuguezes e tudescos na praia da
Boa-vista, sendo mais de duzentos tudescos e
outros tantos portuguezes, que durou por muitas
horas, sem os poderem apartar nem apasiguar:
e não morreu mais de um tudesco, e houve
muitos feridos de uma parte e outra: e nasceu
esta briga de dois portuguezes quererem obrigar
a dois tudescos que pagassem a uma taberneira
o que lhe comeram, que lh'o não queriam pagar.
Outra briga houve de portuguezes contra
castelhanos, porque tres portuguezes inconsideradamente
arrancaram contra um esquadrão de
castelhanos, e succedeu-lhes bem, que em pouco
se junctaram quarenta ou cincoenta portuguezes
que brigaram valorosamente, onde mataram
quatro castelhanos e feriram mais de vinte: dos
portuguezes não mataram nenhum, mas ficaram
alguns feridos. Esta briga se fez no rocio, á
porta do hospital d'el-rei, e armou-se de estes
tres portuguezes chamarem ladrões a seis ou
sete castelhanos dos d'aquella companhia, porque
estando um mouro de Cide Muça com tres
moedas d'ouro de quinhentos réis na mão, lhe
disseram estes sete castelhanos se as queria
trocar, que lhe dariam de ganho quarenta réis
por cada uma: acceitou o mouro, e pediram-lhe
os castelhanos as moedas para vêr se eram de
peso, e mostrando-lhes as tres, as passaram de
mão em mão uns pelos outros de maneira que
desappareceram; e o mouro pediu ajuda a estes
tres portuguezes e emenda da zombaria que lhe
fizeram, e que lhe tornassem o seu dinheiro.
Vendo el-rei que estes negocios iam para mal e
que cada dia havia brigas, mandou lançar bando
que todo homem assim natural como extrangeiro,
que na côrte arrancasse espada, morresse
por isso, e assim se atalharam as brigas.»
«Mas depois que el-rei se partiu houve uma
só, que foi a gente do duque de Bragança com
uma companhia de castelhanos que ficou em
Lisboa para receber soldo; e tanto que a briga
se começou, o capitão dos castelhanos recolheu
sua gente o melhor que pôde nas varandas dos
paços da ribeira, e a briga começou-se
á Porta
do-mar juncto ás casas de Affonso d'Albuquerque.
Ajunctaram-se da gente do duque mais de
duzentos homens, e o fizeram como muito soberbos
e pouco esforçados; porque, sahindo o
capitão dos castelhanos com uma bandeira de
paz, e pondo-se de joelhos diante d'elles dizendo
que por amor de Deus o matassem a elle e deixassem
os seus soldados; que olhassem que
eram irmãos dos portuguezes, e vinham a servir
el-rei de Portugal; elles sem deferirem a isto
iam seguindo sua furia, e vendo algum castelhano
ás janellas ou varandas lhe tiravam ás
arcabuzadas, e ao mesmo capitão que lhes pedia
paz lhe tiraram muitos golpes e pedradas, que
foi milagre não o matarem ou ferirem. Fez este
capitão maravilhas, e deu mostras de muito
esforçado;
e porque já alguns do duque haviam
tido os dias atraz brigas com alguns da sua companhia,
e era em rixa velha, foi este capitão ao
duque pedir-lhe amqestasse a sua gente não lhe
quizesse matar seus soldados, e como já o duque
estava informado das finezas que este capitão
fizera, lhe agradeceu muito e lhe mandou dar
um cavallo e duzentos cruzados, e um chapeu
seu, que tinha, para levar, porque o capitão ia
sem elle, que o perdera na briga.»
«E pela cidade se começou a alevantar um
rumor que seria bom prenderem ao mesmo duque;
que não era possivel que elle não mandasse
á sua gente fizessem bandos e as taes brigas,
sendo el-rei ausente; e que sempre a casa de
Bragança fôra avessa ás cousas do rei.
Não faltou
quem avisasse o duque d'isto, o qual mandou
chamar toda a justiça, e lhes pediu com muita
instancia que todo seu criado prendessem e julgassem
no mesmo instante, e que, se conheciam
alguns dos outros da briga passada, os prendessem
logo e se julgassem como a el-rei e a suas
justiças parecesse. Conheceram doze dos que
começaram a briga; prenderam-nos: todos os
mais fez logo o duque embarcar, e partiram com
o duque novo. Afóra estas brigas todas, amanheciam
muitos homens mortos das brigas de
noite.»
«Aos oito dias de junho mandou el-rei lançar
bando que todos se aviassem, porque elle se
embarcava a quatorze do mesmo mez, que foi
um sabbado; e tão firmemente que, perguntando-lhe
Christovão de Tavora se havia de passar
alguns dias depois dos quatorze, lhe respondeu:—que
bem se podia o céu ajunctar com a terra,
sem haver falta no que tinha mandado apregoar.»
«N'este sabbado quatorze de junho foi el-rei,
dos paços da ribeira á sé, a buscar a
bandeira
real. Tanto que amanheceu começaram a correr
os fidalgos para o acompanharem: e parece que
á porfia trabalharam para ir cada um mais galante
e custoso: cousa que espantou muito as
gentes, vêr como todos iam ricamente vestidos;
porque, se a materia dos vestidos era rica, a
obra, feitios e invenções de mais rica sobejava;
porque tudo era brocado, tela d'ouro e prata,
tecidos d'ouro e prata, tecidos de seda mui custosos.
Os velludos, damascos, e todas as mais
sedas perderam sua valia; e se alguma tinham
era pelos muitos passamanes, rendilhas, espiguilhas,
torchados e alamares d'ouro que lhe
punham. Mas tudo isto era de pouco gasto em
comparação dos feitios, que estes destruiram os
homens.»
«Além d'isto, foi espanto vêr a muita
pedraria
que n'este dia sahiu: os botões d'ouro, as
tranças
dos chapéus cheias de rubins, diamantes, e
esmeraldas de preço infinito, entresachadas a
compasso umas com as outras; os camafeus,
medalhas e estampas de feitio singular; as cadeias
d'ouro grossissimas aos pescoços, de dez
e doze voltas; as couras borladas d'ouro com
botões d'ouro, cristal, perolas e demais pedraria;
os gibões e coletes sobre telilha (d'ouro com
invenção de córte, pique, presponte
maravilhoso;
os capotes de damasco, setim, chamalote
de seda, bandados com barras de velludo e torçaes
d'ouro.»
«Os arreios dos cavallos eram cousa de
admiração;
porque todos os fidalgos levavam em
seus cavallos cabeçadas e esporas de prata, esmaltadas
d'ouro e azul; as estribeiras com mil
figuras e maneiras de bichos abertos n'ellas,
obrados por singular arte; as nominas, peitoraes,
cigolas e cordões com muitas borlas d'ouro e
torçaes; as muchillas com os jaezes e cobertas
quando menos eram de velludo com mil franjas
d'ouro e prata, e os mandis de velludo.»
«Nem era menos vêr como os fidalgos vestiram
todos a sua gente, uns de gran, outros de
raxa de méscla e tamate, isto assim a escudeiros
e pagens como a lacaios e escravos, cada
um de sua libréa de suas côres, e alguns os
vestiram
de calças e gibões de seda da côr de
sua
libréa, com meias de agulha de seda.»
«Emfim foram os fidalgos esperar a el-rei á
sala, e d'ahi desceram com elle até cavalgar.
Estava a este tempo o terreiro do paço, que é
um espaço grande, muito cheio de gente, que
não havia poder andar; e além d'isso era para
vêr estar as libréas de dez em dez homens, pegados
nos cavallos de seus senhores, de côres
differentes todos, com muitas plumas de diversas
côres nos chapéus, com cendaes aos
pescoços
com borlas d'ouro e seda, que faziam um campo
esmaltado de diversas boninas.»
«Finalmente passando el-rei pela varanda,
juncto da escada por onde havia de descer a
cavalgar, olhou para todo o espaço da gente,
e conhecidamente se lhe enxergou no rosto o
contentamento de vêr tanta gente, tão lustrosa
e tão alvoroçada; e cavalgando foi passando
pelos fidalgos, pondo os olhos em cada um com
uma alegria e benignidade desacostumada. D'esta
maneira foi acompanhado até a sé, onde, depois
de ouvir missa, se benzeu com muita solemnidade
a bandeira, na qual estavam de uma parte
postas as armas reaes, e da outra um crucifixo,
com el-rei D. Sebastião tirado pelo natural.»
«Já que tudo era acabado, el-rei com os joelhos
no chão e os olhos arrazados d'agua esteve
um pedaço diante do Sanctissimo Sacramento
rezando. Acabando a oração entregou a bandeira
a D. Luiz de Menezes, alferes-mór, que coberto a
levou diante; e assim acompanhado até o caes
da rainha, se embarcou na galé real, cuja obra
é estranha, porque só na pôpa, onde
el-rei vai,
se affirma que se gastaram mais de oito mil cruzados,
porque é da mais estranha e singular
invenção que se viu. Toda era cozida em ouro,
com muitas historias abertas no mesmo páu,
com outros muitos vultos formosissimos, e outras
personagens de temerosos aspeitos, tudo obrado
com maravilhoso artificio; e o farol real era
conforme a dicta obra de maravilhosa
invenção.»
«E porque não haja quem diga que não
tractaram
os homens mais que de se enfeitarem,
nem lhes lembrára mais que suas louçainhas e
vaidade, sei dizer que o gasto que fizeram nos
vestidos foi pouco em comparação das armas e
apparelhos para pelejarem.»
«Não houve homem fidalgo que não
comprasse
muitos corpos d'armas muito lustrosos, e não
mandasse pintar n'ellas suas armas em campos
de diversas côres: mil peitos de próva de muito
preço, muitas couras e coletes de anta, couraças
de laminas cobertas de velludo e setim de todas
as côres com tachas d'ouro e prata, muitas saias
de malha, e gibanetes, tudo muito galante e de
muito gosto, e muitas rodelas d'aço tauxiadas
de lavor d'ouro com suas armas pintadas n'ellas,
muitas adargas muito fortes, muitas lanças dourados
os contos e engastes, espadas largas e
cortadoras, muitos montantes, leques, terçados,
e todo outro genero d'armas muito fortes e galantes.»
«Levam muitos homens fidalgos um cavallo
acobertado de cobertas d'anta muito fortes e
louçans, pintadas n'ellas suas armas de tintas
finissimas. Houve cobertas d'estas que passaram
de mil cruzados. Não houve genero d'armas, assim
offensivas como defensivas, que os homens
não comprassem com muito gasto e custo, e com
mais gasto ainda que nos vestidos.»
«Levam tambem muitas tendas muito ricas, e
muitas d'ellas de seda, com suas grimpas douradas
e bandeiras de seda, e tendilhões para a
gente e cavallos; e el-rei leva muita somma de
tendas que mandou trazer de Allemanha; e se
affirma que as d'el-rei e dos fidalgos e extrangeiros
serão mais de quatro mil com os
tendilhões.»
«É de notar como os homens vão
alfaiados, e
o muito provimento de todas as cousas que levam,
que parece que levam casa mudada, como
se lá houvessem de estar vinte annos. Foi de
maravilhar em todo este tempo, com tanta confluencia
de forasteiros e gente de todo este reino,
não faltarem nunca os mantimentos n'esta terra,
nem alevantar o preço d'elles, antes que nenhum
outro tempo houve mais, nem mais baratos. Esta
foi uma das cousas em que Lisboa mostrou bem
sua grandeza.»
«Comquanto el-rei mandou lançar bando com
penas grandes que ninguem vendesse as cousas
por mores preços do que d'antes valiam, e com
ao principio prenderem alguns por isso, não
deixaram as sedas, pannos, e armas, e todas as
cousas necessarias para esta jornada de custar
cinco e seis vezes mais do costumado. Isto destruiu
os homens; e na rua-nova, onde todas
estas cousas se vendem, apreçando um fidalgo
algumas cousas de seda para se vestir, pelas
quaes lhe pediram tanto mais do que valiam,
que fazia medo, disse com assaz dôr de
coração:—que
mais arreceavam os homens a guerra
que se lhes fazia na rua-nova, que a que se esperava
em Africa. D'estes havia muitos, e os
mais d'elles negociavam em pessoa, que assim
era necessario para se melhor negociarem, e,
pelo muito gasto que fizeram, ficaram todos destruidos,
e uns venderam as herdades e casas e
casaes e quintans por dois seitis, e outros empenharam
as commendas e morgados por muitos
annos por d'ante mão, para se aviarem, por
muito pouco preço valendo muito, e haviam
provisões d'el-rei para o poderem fazer sem embargo
de serem morgados: e outros vendiam a
prata e ouro, e tudo o mais de que se podia
fazer dinheiro se punha em leilão.»
«Não houve nenhum officio que não
estivesse
com obra, e todos elles alevantaram sem consciencia.
Ao menos os officiaes de vestidos, pintores,
douradores, armeiros, sirgueiros, e officiaes
de tendas, ficaram ricos para sempre, e os
mais não ficaram pobres.»
«Deu o arcebispo licença, pelo principio de
maio, que d'ahi até se partir el-rei trabalhassem
todos os officiaes de todos os officios dias e sanctos
de guarda, nas cousas que pertenciam á
guerra ou seu apparelho; e assim se fez, que
todos trabalharam; e com tudo isso não se poderam
acabar de aviar todos os fidalgos, que ainda
cá ficaram alguns que apoz el-rei se partiram.»
«Foi recommendado a Jeronimo Corte-Real e
a D. João de Mafra e a outro fidalgo, que não
soube o nome, que inventassem o que poria el-rei
no timbre de suas armas novas, com que
n'esta jornada havia de sahir. Accordaram que
pozesse abaixo das armas reaes dois piramides
ao modo de columnas, e de um d'estes ao outro
pozessem umas letras que dissessem:—Amor,
fé, amor.»
«Depois de el-rei assim estar embarcado, este
sabbado que disse, ao domingo seguinte, que
foram 15 dias do mez de junho, sahiu a ouvir
missa na igreja de Sanctos velho, e d'ahi se tornou
outra vez a jantar á sua galé, e n'ella andou
toda a tarde vendo a frota e dando pressa que
se aviassem, e da mesma maneira todos os dias
d'aquella semana andou visitando as náus e vélas
grandes, dando-lhes pressa que se aviassem;
e na segunda feira pela manhan mandou el-rei
lançar bando com trombetas que todos se embarcassem,
porque elle botava na quarta feira
seguinte de foz em fóra, e o mesmo fez na segunda
feira á noite, e á terça feira pela
manhan
e á noite.»
«Na quarta feira se mudou o tempo do mar,
e esteve assim até segunda feira vespera de
S. João té o meio-dia.»
«
[19]N'este
meio tempo aconteceu uma desgraça
grande ao senhor D. Antonio, prior do Grato,
com el-rei e com Christovão de Tavora; e foi
que tinha o senhor D. Antonio fallado a um
criado da infanta D. Maria, grande reposteiro, e
mantieiro maravilhoso e mui destro n'esta cousa
de banquetes: e estava concertado leval-o comsigo
n'esta jornada, e a esta conta esteve, comeu
e pousou alguns dias em casa do senhor D. Antonio.
Teve Christovão de Tavora noticia d'este
homem: mandou-o chamar, e lhe rogou ou lhe
mandou que o acompanhasse n'esta jornada; que
cumpria assim. Como Christovão de Tavora é do
bafo d'el-rei e tanto seu privado, e quer, póde
e manda, acceitou este homem de boa vontade
ir com elle, sem embargo da palavra que tinha
já dado ao senhor D. Antonio, o qual na vespera
da partida o mandou chamar a sua casa e
lhe disse que se acabasse de aviar. Respondeu-lhe
elle sem pejo que ia com Christovão de Tavora;
que não podia ir com S. Ex.
a. Faltou
a paciencia
ao senhor D. Antonio, e por sua mão lhe
deu com um páu umas poucas de pancadas e o
tractou mal. Tomado Christovão de Tavora d'isto
fez queixume a el-rei que o senhor D. Antonio
lhe espancara um homem seu, porque não quizera
ir com elle. Estando isto d'esta maneira
acertou de ir o senhor D. Antonio á galé
d'el-rei,
e antes que chegasse a elle fallou a cinco ou
seis fidalgos que estavam afastados da pôpa,
entre os quaes estava Christovão de Tavora, e
todos salvaram e tiraram o chapéu ao senhor
D. Antonio senão elle, que virou o rosto para
outra parte. Disse-lhe o senhor D. Antonio:—«Sois
mal ensinado, Christovão de Tavora»:
a que elle respondeu:—«Nunca o eu sube ser,
senão quando me sobejou razão para
isso.» Anojado
o senhor D. Antonio se foi fazer queixume
a el-rei, parecendo-lhe que emendasse a descortezia:
elle lhe respondeu de má graça e por
cima do hombro:—«Vós lh'o tereis
merecido.»
Sahiu-se o senhor D. Antonio da galé aggravado.
Informado depois el-rei do que passava, e sabendo
que tractava de se ir para Castella, o
mandou chamar e apaziguou o caso.»
«Em todo este tempo que el-rei esteve embarcado,
o estiveram os fidalgos principaes, porque
tinham por má fidalguia estar el-rei embarcado,
e elles em suas casas; ainda que de noite iam a
furto dormir a ellas, e de dia estavam em suas
embarcações. Á segunda feira, vespera
de S. João,
mandou el-rei lançar bando que toda a pessoa,
que estivesse apontada nos roes, estivesse embarcada
dia de S. João pela manhan, sob pena
de serem presos á mercê de S. A.: e ao dia de
S. João pela manhan mandou el-rei levar ancora
defronte da igreja de Santos, onde costumava a
mandal-a botar todas as noites, e d'ahi se botou
defronte de toda a armada de largo, e mandou
disparar uma peça, que é signal de recolher, e
se despediu de todo; e deixando os que ficavam
muito saudosos se foi caminho de Oeiras, tres
leguas de Lisboa, onde fez embarcar os seiscentos
romanos, e mandou que o mesmo fizessem
os tudescos. Ahi esteve até o outro dia ao
jantar, e toda a manhan andou o patrão-mór
em um bergantim da ribeira de Lisboa, a bordo
de todos os navios, dizendo da parte d'el-rei que
se partissem logo, que esperava por elles em
Oeiras.»
«N'este mesmo dia á tarde, elle com a frota
que estava juncta em Oeiras, se partiu com um
tempo bem assombrado como el-rei desejava
para sua jornada; e comquanto todos determinaram
de se aviar depressa, ainda ficaram na
ribeira de Lisboa cento e sessenta vélas, entre
caravellas de fidalgos e outros navios d'alto-bordo
que muitos fidalgos tinham fretados. Todos
estes navios que ficaram se negociaram com a
mór brevidade que pôde ser para se irem apoz
el-rei; e para isto mandou que ficasse em Cascaes
o galeão S. Martinho, um navio formosissimo
e mui forte, o qual ficou para dar guarda
e seguro ás vélas que ficaram em Lisboa, para
as acompanhar até Africa.»
«Foi cousa mui formosa de vêr a multidão
de
vélas que foram com el-rei; porque as vélas que
estavam no rio de Lisboa para ir com el-rei
eram novecentas e quarenta, entre as quaes
eram mais de quinhentas d'alto-bordo mui bem
artilhadas, e entre estas algumas guerreiras e
inexpugnaveis, como eram os galeões d'el-rei,
e as náus venezianas, e urcas, e outras muitas
portuguezas, todas com artilharia de bronze,
com muitas bombas de fogo, e outros artificios
e petrechos d'esta qualidade. Iam estas vélas
todas junctas e embandeiradas com seus estandartes
de seda nas gaveas, que chegavam com
as pontas á agua empavezadas, com varandas
pintadas e cortinas de seda, e as caravellas com
seus toldos e bandeiras de quadra; e vêr andar
el-rei por entre as náus mandando-lhes que se
aviassem depressa, e disparar toda a artilheria,
e cobrir-se tudo de fumo.»
«Quando el-rei partiu de Oeiras, que desamarrou
e levou ancora, desamarraram com elle
pouco menos de oitocentas vélas, com as vélas
todas mettidas, que faziam uma vista formosissima;
e quando chegar a Africa deve de ir com
mais de mil e quinhentas vélas, porque tem
mandado que se ajunctem no Algarve as da cidade
do Porto, de Vianna, d'Aveiro, Villa do
Conde, Buarcos, Setubal, em o qual estão esperando
mais de duzentas vélas, e outras muitas
que estão em Cezimbra, Sagres, Lagos, Tavira,
e em todos os portos do Algarve, onde se havia
de embarcar a gente do terço de Francisco de
Tavora.»
«A ordem do soldo é que dá el-rei a
cada soldado
quatro cruzados cada mez, e os mantimentos
hão-se de vender por elle, e para isto mandou
ir muitos taboleiros de todas as partes para venderem
no campo os mesmos mantimentos d'el-rei
pela taixa, e d'esta maneira não se póde
alevantar o preço d'elles.»
VIAGEM A PORTUGAL DOS
CAVALLEIROS
TRON E LIPPOMANI
1580
Quando offerecemos aos leitores varios extractos
da viagem do cardeal Alexandrino tendentes
a fazer conhecer, melhor do que se conhecem,
as nossas antigas cousas, promettemos ahi extrahir
algumas passagens de outro livro inedito,
que nos pareciam dar no alvo em que tinhamos
posto mira. Este livro é uma narração
da viagem
dos dois embaixadores mandados pela republica
de Veneza cumprimentar Philippe II pela conquista
de Portugal. A epocha da viagem é quasi
a mesma da que já extractámos; mas o auctor
anonymo d'esta toca outros pontos mui diversos
dos que em grande parte haviam dado materia
ás observações do antecedente
escriptor. No presente
manuscripto, a relação do caminho que os
embaixadores fizeram pelas provincias nada contém
que não se ache em obras portuguezas impressas.
Na descripção, porém, particular de
Lisboa apontam-se tantas particularidades sobre
os usos, habitos e grau de civilisação do paiz, e
tantas noticias economicas ignoradas, por certo,
dos leitores, que julgámos conveniente lançar
aqui a memoria d'essas cousas, que porventura
importam mais á historia do que commummente
se cuida.
Na descripção geral de Lisboa e particular das
egrejas, paços reaes, hospital, etc., nada ha notavel
n'esta viagem, senão os muitos erros ácerca
de quasi tudo o que é historico, em que o auctor
só parece ter consultado pessoas menos instruidas
em taes materias. N'essas descripções
o bom do venezeano, auctor do livro, segue o
estylo commum do seu tempo: as egrejas são
grandes, aceadas, ricas; os paços vastos, sumptuosos,
nobres; e com isto se contenta. Não
assim no que vamos extractar, começando pela
noticia da
fonte dos cavallos
d'arame, já tão celebre
no tempo de D. Fernando.
«Para o lado da porta que chamam da Cruz
ha outra fonte, ou antes lago, que denominam
dos cavallos; porque da boca d'alguns cavallos
de metal sáe tanta agua, que fórma uma corrente
a modo de ribeiro.»
«Posto que Lisboa seja tamanha e tão nobre
povoação, não tem palacio algum de
burguez ou
de fidalgo, que mereça consideração
quanto á
materia; e quanto á architectura apenas são
edificios
muito grandes. Ornam-os, porém, de tal
modo que na verdade ficam magnificos. Costumam
forrar os aposentos de rasos, de damascos,
e de finissimos razes no inverno, e no verão
de couros dourados mui ricos, que se fabricam
n'aquella cidade.»
«As ruas, bem que largas, são muito incommodas,
por subidas e descidas continuas a que
obriga a desegualdade do terreno..... Por isso
usam os moradores andar a cavallo, do que procede
verem-se n'aquella cidade bellissimos ginetes,
que os portuguezes compram por todo o
dinheiro, attendendo á grande
estimação em que
os têem. Não usam de coches, e quatro ou seis
que ahi havia eram de castelhanos que seguiam
a côrte. Quanto as ruas, em geral, são
más e
incommodas para andar assim a pé como em
coche, tanto é fácil, deleitosa, e bella a
Rua-nova
pelo seu comprimento e largueza, mas sobre
tudo por ser ornada de uma infinidade de lojas
cheias de diversas mercadorias para o uso de
nobre e real povoação.—Entre ellas ha quatro
ou seis que vendem objectos trazidos da India,
como porcellanas finissimas de varios feitios, conchas,
côcos lavrados de diversos modos, caixinhas
guarnecidas de madreperola, e outras obras
similhantes, que d'antes se compravam por moderado
preço, mas que ultimamente eram carissimas
por tres respeitos: o da peste que havia
assolado a cidade; o do sacco dado pelos castelhanos
quando entraram em Lisboa, bem que
el-rei houvesse ordenado ao duque d'Alva tal
não consentisse aos soldados; e ultimamente pela
razão de não terem vindo armadas da India durante
dois annos. Na mesma Rua-nova ha muitas
lojas de livros, com infinito numero d'elles em
portuguez, castelhano, latim, e italiano. Todos
são mui caros; e por isso os estudantes, por serem
pobres, costumam mais
alugal-os
(como ahi
dizem) a tanto por dia, do que compral-os. Não
deve esquecer aqui que na praça chamada do
Pelourinho-velho estão de continuo assentados
muitos homens com mesas ante si
[20],
os quaes se
podem chamar notarios ou copistas sem caracter
de officiaes publicos, e que n'este exercicio ganham
a sua subsistencia. Sabida que é a idéa
de qualquer freguez que se chega a elles, immediatamente
redigem o que se pretende, de
modo que ora compõem cartas d'amores, de que
se faz grande gasto, ora elogios, orações,
versos,
sermões, epicedios, requerimentos, ou outro
qualquer papel, em estylo chão ou pomposo.
Juncto da Rua-nova ha muitas outras ruas, cada
uma das quaes tem suas lojas de uma só especie
de mercadorias. Na dos ourives do ouro havia
muitas mal abastecidas de pedras preciosas, de
perolas, d'ambar, e d'almiscar, em consequencia
da tardança da frota. A prata de Lisboa é lavrada
com delicadeza e variedade, por ser costume,
assim entre nobres como entre plebeus, usarem
de pratos e bacias de prata. Ha egualmente ahi
lojas cheias de doces e fructas seccas, e cobertas,
primorosamente preparadas, de que se faz
grande trafico, mandando-as para diversas partes
do mundo. Vende-se tambem, em uma unica rua,
grande quantidade de télas de toda a sorte, portuguezas,
flamengas, e italianas: das primeiras
são na verdade bellas algumas que chamam
casiquino
(?), mui finas e alvas, e alguns lenços
á mourisca, que são baratos e lindos. N'outra
parte, em certa viella, trabalham delicadamente
ao torno, em que fazem guarda-soes de barba de
baleia, obra acabada, e côcos lavrados a modo
de taças, com embutidos de madeira do Brazil.
Vasos de estanho e mais objectos d'este metal se
fabricam abundantemente n'outra rua, e se carregam
para a India, onde dão grande lucro.»
«O commercio da praça de Lisboa é muito
consideravel pela correspondencia que tem ordinariamente
com todas as outras da Europa e
do Novo-Mundo, de modo que as permutações
são importantissimas, e os negociantes possuem
grossos cabedaes; porque só nas especiarias e
drogas, que vêm a Lisboa, depois que expirou,
pelos annos de 1504, o commercio da Syria e
d'Alexandria, ganham rios de dinheiro, que perdem
os nossos venezianos, pois eram elles quem,
fazendo trazer estas preciosas mercadorias pelo
Mar-rôxo a Beyruth e a Alexandria, d'alli as
transportavam a Veneza nas galés d'alto bordo.
Bem como costumam partir de Sevilha todos os
annos armadas para irem ás indias occidentaes
pertencentes á corôa de Castella, assim costumava
el-rei D. Sebastião mandar ordinariamente
uma frota de Lisboa ás Indias orientaes. No anno
em que este rei morreu, partiu no mez de março
para Malaca, segundo me contaram, uma nau de
mil e quatrocentas toneladas, e um mez depois
mais cinco do mesmo porte para Gôa. Era este o
numero de vasos que ia annualmente, e aquella
a monção da partida. Essas naus levavam carga
d'el-rei e dos particulares. Por conta d'estes ia
vinho, azeite, pannos finos de varias côres, d'Inglaterra,
Flandres, e Castella, barretes finos e
ordinarios de Toledo, escarlatas de Veneza e de
Valencia, rasos de Florença, sarjas de lan de
Flandres, marlotas de Constantinopla, acolchoados
e calças de seda de Napoles, velludos de
Genova, damascos de Lucca, taffetás e calças de
seda de Toledo, sarjas de seda e luvas de Valencia.
Por conta d'el-rei carregavam-se coráes
em bruto e lapidados, azougue, cinabrio, arame,
espelhos e diversos vidros de Veneza, mercadorias
que ninguem podia enviar sem expressa
licença d'elle. O que, porém, principalmente se
exportava era uma grandissima porção de prata
em reales castelhanos, negocio em que se ganhavam
trinta por cento; e affirmaram-me que
os contractadores das especiarias e varios outros
negociantes mandaram nas cinco ultimas náus
para Gôa um milhão e trezentos mil ducados.
Este tracto havia crescido a tal ponto que era de
maior lucro a ida que a volta......»
«A carga para Lisboa consistia principalmente
em pimenta a granel, que devia subir, por contracto,
pelo menos a trinta mil quintaes, e que
se dividia, metade para el-rei, que não entrava
n'este negocio com somma alguma, e a outra
metade para os contractadores que tinham o exclusivo
da pimenta: o quinhão d'el-rei compravam-no
ordinariamente os mesmos contractadores
a trinta e dois ducados o quintal. Aos particulares
era licito mercadejar em qualquer outra especiaria,
pagando os direitos........»
«Do reino de Soffala vinham todos os annos a
Lisboa cento e setenta barras d'ouro, e uma
barra vale para cima de trezentos ducados: tambem
de Soffala e de toda a Guiné vinha grande
quantidade de marfim...... Traziam-se egualmente
a Lisboa sedas da China, pannos finissimos
e ordinarios de algodão do Brazil, bellos tapetes
da Persia, ébano, aguila, páu brazil, dixes e
louça transparente de porcellana, borax, camphora,
laca, aloes-hepatico, tamarindos, cêra,
almiscar, ambar, algalia, beijoím, perolas, rubins,
diamantes, e mais pedras preciosas em
abundancia, e outras varias mercadorias que iam
do Egypto para Alexandria, as quaes, todavia,
não eram a millesima parte das que vinham a
Lisboa nas sobredictas frotas.........»
«Os homens da cidade de Lisboa e de todo o
Portugal são de mediana estatura, mais baixos
que altos, magros, de côr ferrenha, cabellos e
barba pretos, olhos negrissimos, e mui similhantes
no exterior aos gregos. O seu trajo, antes da
morte do cardeal rei, era mui mesquinho, em
consequencia da pragmatica, que não consentia
usassem vestidos de seda; pelo que trajavam
um saio de baêta preta, calções de
panno escocez,
borzeguins de marroquim, chapeu de feltro
e capa comprida da mesma baêta. Com a chegada
d'el-rei catholico alteraram o seu antigo
trajo, porque, posto que conservaram a capa de
baêta, começaram a usar do gibão de
raso, bragas
e calções de velludo, e meias de seda, cousa
que nunca tinham calçado, bem como escarpins,
dos quaes não era possivel achar um só par
antes da entrada d'el-rei, porque todos, sem
excepção,
calçavam borzeguins. São os portuguezes
mais ambiciosos de louvores que outra qualquer
nação do mundo, affirmando que as suas
façanhas
são milagrosas. Celebram Lisboa com tal
copia de palavras, que a fazem egual ás principaes
cidades do mundo, e por isso costumam
dizer:—«Quem não vê Lisboa,
não vê cousa
boa—». A gente miuda gosta que lhe dêem o
tractamento de
senhor, manha esta
commum a
toda a Hespanha. Vivem parcamente, porque
a plebe pela maior parte é pobre, e os cavalleiros
que se teem em conta de ricos fundam a
opinião da sua riqueza em possuirem uma ou
duas aldêas, com trinta ou quarenta visinhos
cada uma, no meio de campinas estereis com
vinte ou trinta folhas cultivadas, e tudo o mais
inculto, aspero, e coberto de pedras, com alguns
cazebres mesquinhos e mal concertados, como eu
o experimentei durante muitas semanas d'aquella
viagem.»
«Poucas pessoas se dão ahi ás letras;
mas
applicam-se muitos ao commercio, genero de
vida aborrecida dos nobres, que não podem ouvir
falar em tal, tendo por gente villissima os mercadores.
Exercitam-se apparentemente nas armas,
e algum tanto em cavalgar, contentando-se
com ter leves principios d'estas duas profissões,
sem quererem supportar mui diuturno ensino.»
«As mulheres portuguezas são singulares na
formosura e proporcionadas no corpo: a côr natural
dos seus cabellos é a preta; mas algumas
tingem-nos de côr loura: o seu gesto é delicado,
os lineamentos graciosos, os olhos negros e scintillantes,
o que lhes accrescenta a belleza; e podemos
affirmar com verdade que em toda a viagem
da peninsula as mulheres que nos pareceram
mais formosas foram as de Lisboa; posto
que as castelhanas e outras hespanholas arrebiquem
o rosto de branco e encarnado, para tornarem
a pelle, que é algum tanto, ou antes
muito trigueira, mais alva e rosada, persuadidas
de que todas as trigueiras são feias. O trajo feminino
em Lisboa é o commum de toda a Hespanha;
isto é, o manto grande de lan ou de seda,
segundo a qualidade da pessoa. Com elle cobrem
o rosto e o corpo inteiro, e vão aonde querem,
tão disfarçadas que nem os proprios maridos as
conhecem: vantagem esta que lhes dá maior
liberdade do que convem a mulheres bem nascidas
e bem morigeradas. As damas nobres costumam
ser acompanhadas, pela cidade, de creados
bem vestidos, que lhes precedem com passos
lentos e socegados, e de donas que as seguem
com grandissima gravidade, não tendo por signal
de boa reputação o serem acompanhadas de
donzellas.»
«O povo miudo vive pobremente, sendo a sua
comida diaria sardinhas cosidas, salpicadas
[21],
que
se vendem com grande abundancia por toda a
cidade. Raras vezes compram carnes, porque o
alimento mais barato é esta casta de peixe, que
se pesca em notavel cópia fóra da barra, como
se pesca muito outro de todas as qualidades e
muito grande; mas em geral menos gostoso do
que o das aguas de Veneza, e tão caro, que faz
espanto aos extrangeiros e custa muito aos naturaes,
que passam mal pelo preço excessivo
de tudo o que serve para o sustento. Comem os
pobres uma especie de pão nada bom, que todavia
é barato, feito de trigo do paiz, todo cheio
de terra, porque não costumam joeiral-o, mas
mandal-o moer nos seus moínhos de vento, tão
sujo como o levantam da eira. O pão bom e alvo
faz-se de trigo de fóra, que trazem de França,
Flandres e Allemanha os navios d'estas nações
quando vêm a Lisboa buscar sal e especiarias.
Este, na verdade, tambem não é joeirado; mas
as mulheres pobres o escolhem grão a grão,
assentadas á porta da rua, com paciencia fleugmatica
mais propria d'allemans que de portuguezas.
Estas mulheres têem licença para fabricar
o pão e vendel-o pela cidade onde e como
lhes apraz, o que sempre é por alto preço.
O trigo vale a duzentos e oitenta réis o alqueire.
Nutre-se tambem a gente pobre de fructa, que
abunda muito e é baratissima.»
«O vinho commum é pouco bom, por não
dizer
mau; porque não sabem, ou não querem ter o
incommodo de o fazer bom. Vale geralmente
a vinte e quatro réis a canada. Os vinhos finos
são excessivamente caros: os senhores embaixadores
tiveram de pagar o branco para o consumo
ordinario da sua mesa a sessenta escudos
a pipa..............»
«Quanto ás vitualhas não é
em Lisboa que se
hão de buscar cousas muito exquisitas. Até a
vitella é rara; porque não costumam matar estes
animaes, guardando-os para crescerem e servirem
nos trabalhos do campo ou de abastecimento
da cidade, sendo, além d'isso, ahi a comida ordinaria
o capado, que é excellente.»