«No tempo de el-rei D. Sebastião as rendas
reaes consistiam nos direitos das alfandegas de
Lisboa e de todo o reino, assim sêccas como molhadas.
D'umas cousas pagava-se o quinto, d'outras
a decima; e do peixe, em muitas partes,
mais de metade. Havia tambem rendas em cereaes,
vinho, e outros generos; as rendas dos
mestrados a que pertenciam as ilhas de S. Thomé,
Terceiras, Cabo-Verde, Madeira, e Principe; as
da Mina que pertenciam á Ordem de Christo.
As especiarias e outras fazendas que vinham
annualmente da India e do Brasil produziam
tambem um avultado rendimento. Apesar, porém,
d'este ser tamanho, nada vinha a entrar
no thesouro; porque tudo se dispendia em armadas
e mais cousas necessarias para a conservação
d'aquelles estados, e afóra isso se distribuia
em salarios d'officiaes e ministros da justiça
no continente; em mercês vitalicias, que chamam
tenças, aos benemeritos da corôa, aos fidalgos,
e mais pessoas, que serviam assim no reino
como na Africa e India; em juros perpetuos, que
os reis vendiam, estabelecidos nos direitos reaes;
em despezas com a gente e petrechos necessarios
para a defensão das praças d'Africa; em
cinco galés constantemente armadas, e no armar
dos navios redondos, que todos os annos sahiam
junctos, assim para comboiar as frotas que iam
e vinham dos portos com que Portugal commerciava,
como para mandar ao Brasil, a Guiné, á
Mina, a S. Thomé; e finalmente em moradias,
gastos da côrte e casa real, paga de creados,
esmolas, presentes, embaixadas, dotes ás filhas
dos creados, e conservação das fortalezas de
Lisboa
e do reino.»
As noticias do viajante relativamente a Portugal
versam desde este ponto sobre a organisação
judicial e administrativa, ácerca da qual nada
se accrescenta que não se ache na nossa antiga
legislação. Conclue o narrador com uma historia
succinta do reinado de D. Sebastião e das causas
do desastre de Alcacer-quibir, da acclamacão de
Philippe II em Thomar, etc.—Abstemo'-nos de
extractar essa parte relativa á historia politica,
não porque seja pouco interessante e curiosa;
mas porque é demasiado extensa.
POUCA LUZ EM MUITAS
TREVAS
1844
POUCA LUZ EM MUITAS TREVAS
1579—1580
Se ha alguma epocha da nossa historia que
nos offereça uma alta lição; se ha
algum successo
que nos possa fazer energicamente sentir quaes
sejam as consequencias fataes da perversão moral
de qualquer paiz, e como aos povos corrompidos
não tarda o dia da servidão, ou de serem
riscados da lista das nações, os fins do seculo
XVI
e a conquista feita por Philippe II são essa epocha
e esse facto. As virtudes politicas de nossos
maiores, o seu amor de independencia, grosseiro,
feroz até, se quizerem, tinham esmorecido
gradualmente com as pompas dos reinados de
D. Manuel e de D. João III; com o vão luxo, e
com as desgraçadas riquezas adquiridas na Asia,
quasi sempre por preço de immoralidades e crimes.
As resistencias e luctas da edade-media,
que alimentaram o sentimento da propria dignidade,
não só nas classes sociaes, mas tambem
nos individuos, haviam cedido o passo a um
servir mais ou menos abjecto para obter como
mercê ou privilegio o gôzo de vantagens e direitos,
que a fraqueza dos municipios e a decadencia
da nobreza tinham deixado perder. O homem
do concelho, o burguez, em logar de se
unir aos seus eguaes para repellir nos parlamentos
os vexames dos poderosos, achava mais facil
para a timidez, que substituira na sua alma a
antiga ousadia, receber como recompensa de serviços
humildes ou como esmola de charidade
uma parte dos tributos oppressivos e rigorosamente
illegaes que se lhe extorquiam, e as classes
elevadas entendiam que era menos arriscado,
e sem comparação mais commodo, obterem de
joelhos e por carta de graça ante os chancelleres,
privados, e desembargadores, alguns fragmentos
das suas legitimas ou illegitimas prerogativas,
do que imitarem o duque de Bragança
pondo a cabeça n'um cadafalso por amor d'ellas.
Como a moeda antiga, cujos cunhos o roçar de
muitos annos apagára, o caracter portuguez estava
poído e quasi de todo gasto quando chegou,
pela desgraça d'Alcacer-quibir, o curto reinado
do velho cardeal D. Henrique.
Á morte d'este principe, a cuja completa
degeneração
moral só póde servir de desculpa o
ter sido apenas um agonisante coroado, seguiu-se
a conquista castelhana e o dominio dos tres Philippes
durante sessenta annos. Por todo esse largo
periodo, quasi não passou um dia sem affrontas
ou oppressões para o povo subjugado. Portugal,
amarrado ao poste da tyrannia extrangeira, assistiu
como se fosse uma cousa morta e inerte
á desmembração do proprio corpo. Os
ministros
de Castella, que pouco melhor tractavam o seu
paiz natal, a cada porção das nossas colonias de
que hollandezes, inglezes, ou francezes nos expulsavam,
a cada nau ou comboi que nos saqueavam
ou mettiam a pique, accrescentavam um
novo tributo, um novo vexame, uma nova quebra
de nossos direitos; e foi só nessa especie de
estufa ardente que pôde semear-se, nascer, e
vecejar a planta de odio vivaz, que nos restituiu
ao menos um symulachro da extincta energia, e
nos temperou de novo para reconquistarmos
n'uma lucta de quasi meio seculo a antiga independencia
como nação, senão a antiga vida
politica e os antigos fóros de liberdade.
A tradição conservou na memoria do povo a
lembrança dos largos e variados males que nos
trouxe o senhorio extranho: contra elle nos tem
guardado e guarda ainda, pelo temor, essa
recordação;
mas as causas que os geraram, essas,
como mais remotas e mais difficultosas de avaliar,
é que pouco a pouco nos vão esquecendo,
e este esquecimento é ajudado pelos escriptores
menos reflexivos, a quem deslumbram as tristes
glorias dos descobrimentos e conquistas, e os
elogios que por ellas nos dão com admiravel
magnanimidade aquelles para cujo proveito tantas
gentilezas d'armas, tanta ousadia, e tantos crimes
practicámos, e que esperaram tranquillamente
nos suicidassemos moralmente para recolherem
a herança que lhes ajunctaramos. As paginas
laudatorias que ainda hoje ahi se lêem ácerca
das eras manuelina e joannina, e que nos fazem
lembrar dos
panegyrici veteres, em
que os rhetoricos
romanos ridiculamente antepunham a fastosa
decadencia do imperio aos tempos asperos,
mas viris e robustos, do crescimento da republica,
são a maneira mais segura de inutilisar as
proveitosas admoestações da historia, cujo estudo
encerra, por via de regra, a explicação do
presente e a prophecia do futuro. Diz-se, na verdade,
que um grande numero de fidalgos e pessoas
principaes se venderam a Philippe II no reinado
do cardeal D. Henrique: cita-se o nome
de D. João Mascarenhas, o heroe de Diu, com
uma certa indignação pelo contraste da sua vida
passada; o de D. Christovão de Moura, como o
de um franco renegado da patria; o do bispo Pinheiro
como o de um insigne hypocrita; emfim,
os nomes de muitos outros, e especialmente os
dos quarenta mercadores politicos que receberam
dos castelhanos os celebres
cartazes ou cedulas
para as recompensas futuras. Mas a que
nos conduz isto? A imaginarmos que os corrompidos
eram alguns homens, ou quando muito
alguma classe. Todavia a verdade é que estendemos
covardemente o collo ao jugo extranho,
porque a nação estava degenerada. Onde quer
que Philippe II encontrava uma resistencia, acudia
ahi com ouro ou com promessas, e quasi que
tinha a certeza de superar a difficuldade: a questão
estava, não na compra e venda, mas só no
quanto do preço. A tenacidade e o amor da independencia
nacional dos Phebos-Moniz foram
excepções monstruosas. O proprio D. Antonio,
que era chamado pelas circumstancias a representar
o papel de D. João I, e que, bem como
elle, tinha por si o amor popular, foi um miseravel,
que só se collocou á frente das resistencias,
as quaes dirigiu sem ordem, sem juizo, e
sem energia, porque não lhe chegaram os castelhanos
ao preço por que lhes queria vender
alma e corpo. Dizem que Philippe II se queixava
de ter feito uma cara mercancia em comprar
Portugal: esta irrisão insolente da tyrannia, cuspida
com legitima causa nas faces de uma nação,
foi á sua parte um castigo mais severo da immoralidade
publica do que todas as oppressões
de sessenta annos de jugo extrangeiro.
Quando se compara a epocha de 1580 com a
de 1385 é que se conhece quão largos passos
tinha dado Portugal no caminho da corrupção
durante o
brilhante e
glorioso seculo dos descobrimentos
e conquistas: é n'essa comparação
que está a prova de que o antigo caracter portuguez
se pervertêra completamente não só nas
classes privilegiadas, mas no proprio povo; n'esses
que nos apraz considerar unicamente como
victimas das traições da nobreza. O povo
não
resistiu á invasão extrangeira, porque lhe
faltava
esforço, crença e patriotismo: isso tudo jazia no
sepulchro da edade-media. As situações eram
rigorosamente analogas.—O poder de Castella
no tempo de Philippe II tem servido de desculpa
á geração apoucada que estendeu os
pulsos ás
algemas. Mas para saber se ella podia ou não
resistir era necessario tental-o. Não o fez, salvo
se se quizer chamar resistencia aos tumultos de
um vulgacho desordenado, em duas ou tres
povoações
do reino e na capital. Tem-se exaggerado
o poder de Philippe II, e imagina-se que
entre as forças das monarchias castelhana e portugueza,
na epocha do filho de Carlos V, havia
uma superioridade a favor d'aquella muito maior
que no tempo do rival do mestre d'Aviz, de
D. João I de Castella; mas qual é o
facto?—É
que Philippe II mandou o duque d'Alva com vinte
mil homens tomar conta de Portugal, o que esse
general fez quasi sem combate; e que D. João I
veiu pessoalmente á frente de trinta e cinco mil
homens enterral-os em Aljubarrota.—Portugal
teria acaso menos recursos materiaes ou menos
população em 1580 que em 1385?—Duas mil
lanças, as melhores de França, ajudavam D.
João
de Castella contra nós. Quem ajudava Philippe II?
Haviamos perdido em Africa dez ou doze mil soldados
com D. Sebastião. É verdade. E quaes
não
tinham sido as nossas perdas durante as longas
e desastradas guerras de D. Fernando, em que
Lisboa chegou a ser cercada, e destruida na sua
melhor parte? A aristocracia seguia o bando do
rei extrangeiro em 1580. Em 1385 a quem se
inclinava decididamente a principal fidalguia?
Tambem ao rei extrangeiro. E todavia a nação
venceu então, e foi vencida depois sem peleja.
Os successos do fim do seculo XVI não se explicam
por accidentes e circumstancias, que estão
longe de terem o valor que lhes têm dado:
explicam-se por um facto gravissimo da ordem
moral—a morte da nacionalidade.
A epocha em que se preparou o dominio castelhano
é, na tão mal estudada historia portugueza,
uma das mais imperfeitamente conhecidas. E
todavia ella offerece uma altissima lição aos
povos.
Se a narração dos successos acontecidos nos
tempos em que tinhamos virtudes, e a energia
e amor de patria que nos distinguiram antes do
reinado de D. João II, nos póde excitar uma
honrada
emulação, o espectaculo dos ultimos paroxismos
da nossa lastimosa decadencia, ainda,
porventura, considerada nas suas causas, nos
será mais proveitoso pelo nojo e horror que deve
causar nos animos essa especie de prostituição
politica a que nos chegou a soltura de costumes,
e de que foram manancial perenne os habitos
de desenfreio, cubiça, e egoismo, que em cada
monção carreavamos do oriente para a Europa. A
historia da segunda metade do seculo XVI póde
fazer ante as gerações presentes o papel do ilota
embriagado, que os lacedemonios expunham aos
olhos dos mancebos nas horas da refeição, para
pelo tedio e despreso os premunirem contra o
vicio da embriaguez.
Mas o fazer dignamente o quadro das traições
covardes, das corrupções hediondas, das torpes
cubiças, da indifferença e imbecilidade popular
d'aquelles tempos não é facil tarefa. Tudo isso
se ha de ainda ir em grande parte arrancar das
trevas de archivos particulares e nacionaes, de
documentos e memorias que nunca viram a luz
do dia. A historia, como hoje existe, está bem
longe de nos fazer sondar o abysmo de tanta
perdição, e achar as causas verdadeiras de
tão
extraordinarios effeitos. É depois d'essas laboriosas
indagações e da publicação
d'ellas, que o
historiador poderá pintar com exacção
o estado
deploravel da sociedade portugueza na epocha
em que alcançou, emfim, subjugal-a a sua antiga
rival.
Uma serie de documentos temos diante de nós
não só conducentes para esse fim, mas bastantes
em si para moverem a curiosidade. Daremos a
substancia d'elles, acompanhando-os de notas necessarias
para intelligencia dos menos versados
nos successos politicos d'aquelles tempos, e no
conhecimento das personagens que figuraram no
drama, mais repugnante ainda que lastimoso,
da venda de Portugal a Castella. Os documentos
a que alludimos pertencem a uma collecção da
bibliotheca real.
Durante o curto reinado do cardeal D. Henrique
(1578-1580) os animos estiveram sempre
occupados com a questão de saber quem seria o
seu successor. Aquelles que pareciam ter maior
numero de probabilidades eram o prior do Crato,
D. Antonio, filho bastardo do infante D. Luiz e
sobrinho do cardeal; o duque de Bragança, por
sua mulher D. Catharina, neta d'el-rei D. Manuel;
e Philippe II, neto tambem de D. Manuel por sua
mãe. D. Antonio, chegado do captiveiro de Berberia
pouco depois da acclamacão de D. Henrique,
era o mais popular dos pretensores, e o
que parecia estar mais resolvido a obter a coroa
a todo o custo. O duque de Bragança procedia
frouxamente no negocio, posto que as suas riquezas,
a sua influencia, e o esplendor com que
vivia, o tornassem a primeira pessoa do paiz
depois do monarcha. Philippe II, fazendo menos
ruido que D. Antonio, porém mostrando mais
decisão e firmeza que o duque, trabalhava principalmente
nas trevas para reinar sobre toda a
Peninsula.
D. Christovão de Moura, portuguez, e o duque
d'Ossuna eram os agentes de Castella em Lisboa.
Moura recorreu a um vasto systema de corrupção,
aproveitando a influencia que lhe davam as suas
relações de parentesco e amizade com a fidalguia,
e as promessas e ouro de Philippe II, que
não se mostrava escaço. O proprio cardeal-rei,
desaffecto á casa de Bragança, e muito mais a
D. Antonio, favorecia a ambição do castelhano.
A camara de Lisboa, depois de mostrar o desejo
insensato de que o velho monarcha se casasse
para obter successão, passou a requerer que nomeasse
elle um successor. Reuniram-se côrtes,
e de quinze pessoas propostas por estas escolheu
el-rei cinco governadores para regerem o paiz
depois de sua morte, e de vinte-quatro jurisconsultos
onze para julgarem a causa da successão,
ficando occultos os nomes dos escolhidos.
Jurou-se acceitar o que estes julgassem por legitimo
rei depois da morte do cardeal. Dos tres
pretensores, deram juramento o duque de Bragança
e D. Antonio, posto que este depois protestasse,
declarando que só o fizera por medo
d'el-rei seu tio, de cuja côrte já andava
desterrado.
Os embaixadores de Philippe II recusaram
jurar em nome de seu amo, dizendo que a legitimidade
d'elle não podia ser contestada, e que
por isso não acceitariam juizes. Já
então os homens
mais influentes que rodeavam o cardeal,
vendidos aos castelhanos, o tinham feito inclinar
a Philippe. Por isso, em quanto perseguia o prior
do Crato, tentava por escripto persuadir D. Catharina
de Bragança que cedesse de todo o direito
á corôa, contentando-se com ficar o duque
senhor do Brazil, onde poderia tomar o titulo de
rei, e em Portugal com a administração perpetua
do mestrado de Christo. A duqueza, porém, na
sua resposta regeitou estas offertas por si e por
seu marido. A carta original da duqueza ainda
existia no tempo do conde da Ericeira, D. Luiz
de Menezes, segundo elle affirma.
Conhecidos pelo povo os designios do cardeal
rei, começaram a apparecer symptomas de serias
perturbações. As côrtes em que se
haviam nomeado
governadores e juizes tinham acabado.
Nos fins do mesmo anno de 1579, em que foram
celebradas, convocaram-se outras novas para o
anno seguinte, com o fim de acalmar os animos
inquietos. N'estas côrtes, reunidas em Almeirim
(onde el-rei se achava por causa da peste) no
janeiro de 1580, apresentou o celebre Phebo-Moniz,
procurador por Lisboa, um protesto sobre
o direito que tinha o povo de eleger rei por
morte de D. Henrique; protesto que no meio das
tramas a favor de Castella não teve effeito algum.
O cardeal já moribundo veiu a fallecer no
fim do mesmo mez. Os cinco governadores nomeados
antecedentemente, e que eram o arcebispo
de Lisboa, D. Jorge d'Almeida; o vedor
da fazenda, D. João Mascarenhas; o camareiro-mór,
Francisco de Sá; D. João Tello de Menezes;
e Diogo Lopes de Sousa, governador da casa do
civel, tomaram então conta do governo, proseguindo
as côrtes. O povo insistia nas suas
pretensões, e dava já visiveis signaes de
revolta,
cujo foco era Santarem, e cuja alma parece ter
sido Phebo-Moniz, que ousou appellidar de traidores
e vendidos a Castella os tres governadores
que realmente o eram—Mascarenhas, Sá de Menezes,
e Lopes de Sousa, requerendo fossem
substituidos por outros. Temendo talvez que a
minoria d'aquelle symulachro de representação
nacional servisse de centro a uma energica resistencia
ás pretensões castelhanas, o governo
dissolveu a assembléa, e a acceitação
de Philippe
II para rei de Portugal foi definitivamente
resolvida.
D. Antonio, cujo nascimento de bastardia, cujo
caracter audaz, e uma grande popularidade recordavam
n'elle o mestre d'Aviz, depois de ter
covardemente negociado com o manhoso filho
de Carlos V, e de não lhe haverem sido acceitas
as propostas pelo alto preço em que avaliava a
sua traição á patria,
lançou-se nos braços da gentalha,
persuadido de que com ella poderia disputar
a corôa ao seu poderoso rival. A casa de Bragança,
essa contentava-se com fazer allegações de
direito; porque o genio brando e timido do duque
não o habilitava para proceder do modo que requeria
a gravidade das circumstancias politicas.
Finalmente a revolta dirigida por D. Antonio,
que se fez acclamar rei de Portugal, rebentou
em Santarem, e estendeu-se a Lisboa, e a Setubal,
donde os tres governadores affeiçoados ao
dominio extrangeiro, e que ahi se tinham acolhido
como a logar seguro, fugiram para Ayamonte
e declararam francamente, por uma sentença
a favor do rei castelhano, que de feito
renegavam a independencia do seu paiz.
Entretanto o famoso duque d'Alva, talvez o
primeiro capitão do seu tempo, entrava com um
poderoso exercito pelo Alemtejo e subjugava sucessivamente
todas as povoações importantes.
Chegado a Setubal e rendida esta villa, embarcou
o exercito hespanhol na armada de D. Alvaro
Bazan, e desembarcando em Cascaes accommeteu
Lisboa, que debalde D. Antonio tentou defender.
Assenhoreados os castelhanos da capital,
o reino seguiu brevemente o destino d'ella, e
D. Antonio, foragido por muito tempo, teve de
ir por fim buscar um asylo em França, onde machinou
todas as suas vans tentativas para recuperar
um sceptro que não soubera conservar.
Tal é em resumo a fórma por que Portugal
cahiu debaixo do jugo castelhano. Os documentos
de que vamos dar noticia illustram uma parte
das tramas que Philippe II empregou para obter
o seu tão facil triumpho, o qual deveu mais a
esses enredos e á corrupção do paiz
conquistado,
que á pericia dos seus generaes e ao valor dos
seus soldados, que debalde luctavam por subjugar
os Paizes-baixos, onde na verdade o povo
queria e sabia ser livre.
Uma collecção de papeis varios, em grande
parte originaes, relativos ao periodo do dominio
castelhano, existe entre os manuscriptos da bibliotheca
real. Puzeram-lhe por titulo:
Governo
d'Hespanha. No primeiro volume se acham os
documentos de que vamos dar noticia, e que
são os mais importantes, talvez, de toda a
colecção,
não só por desconhecidos e originaes,
mas por dizerem respeito a uma epocha da nossa
historia, cujos acontecimentos, sendo de altissima
importancia, são, como dissemos já, dos
mais imperfeitamente estudados, ao menos nas
causas que os produziram.
O volume começa por algumas cartas originaes
da rainha D. Catharina, e dos infantes D. Luiz,
D. Izabel (rainha d'Hespanha), D. Duarte, cardeal
D. Henrique, D. Fernando, e emfim D. João III.
Segue-se o auto de posse do mestrado da Ordem
de Christo, tomada em nome d'el-rei D. Sebastião
por ordem da rainha D. Catharina, e depois
uma carta que parece de Antonio Perez, o famoso
secretario de Philippe II, dirigida a este
principe em 1562, ácerca de negocios com Portugal,
que do contexto não consta quaes sejam,
senão no artigo que versa sobre questões
d'etiqueta
na recepção de um embaixador portuguez.
Esta carta, cotada á margem pela letra de Philippe
II, não offerece nada notavel. Acha-se apoz
isto uma copia de nomeação dos governadores
que D. Sebastião deixou no reino partindo para
Africa, e immediatamente um relatorio em castelhano
da acclamação do cardeal rei depois da
morte de D. Sebastião. Seguem-se a estes papeis
os documentos de que vamos tractar.
É o primeiro o celebre maço que, em virtude
da resolução das côrtes de 1579, se
mandou
guardar em um cofre de tres chaves, e em que
se continha a patente ou nomeação dos onze
juizes que deviam julgar a causa da successão,
e o regimento que lhes cumpria guardar. Juncto
a estes dois diplomas está a nomeação
dos cinco
governadores e o regimento de seu cargo. Todos
os quatro documentos são datados de 12 de junho
de 1579. Os dois regimentos conservam
ainda o sello grande d'el-rei em cera vermelha,
posto que já damnificado no dos juizes. Nas patentes
apenas restam vestigios d'elle
[22].
Precede
a tudo o invólucro em que estavam mettidos os
dois diplomas relativos aos juizes: tem por fóra
a declaração dos papeis que continha, datada
de 13 de junho e assignada de chancella por
el-rei. Conserva ainda tres sellos ou antes sinetes
em lacre vermelho com que o maço estava fechado
[23].
A circumstancia mais notavel que se encontra
n'estes documentos é conhecer-se nas cartas
de nomeação ou patentes que ambas ellas
foram escriptas antes de se haver resolvido quaes
seriam tanto os governadores como os juizes;
porque, posto que os nomes estejam lançados
pela mesma letra, vê-se, todavia, claramente que
foram ahi introduzidos depois, nos claros que
para isso se deixaram.
Apoz estes documentos estão dois quartos de
papel escriptos pela mão de Philippe II, um em
linhas atravessadas, outro ao alto; este bastante
lacerado, mas que todavia se póde ainda ler
apezar do pessimo caracter da letra, e mais que
tudo das frequentes abreviaturas, algumas das
quaes é mui difficultoso adivinhar. O primeiro é
a continuação do segundo, sendo talvez os dois
uma meia folha dobrada e inserida assim no
volume. É uma especie de breve
instrucção dada
a alguem sobre as suas pretensões em Portugal.
Não tem data; mas pelo contexto vê-se que
é
posterior á inviatura de Christovão de Moura e
do duque d'Ossuna. Está escripta em castelhano
[24].
Transcrevemol-a porque a julgamos assaz interessante:
«Pedi-lhe que
pois está
tão clara e chan minha
justiça que me mande logo jurar;
dizendo-lhe
isto com mui boas palavras, pela muita
confiança
que faço da sua pessoa.»
«Que se disser que não será preciso,
porque
elle pensa em casar e póde ter filhos, se lhe diga
que não embargando isso o faça condicionalmente,
por quanto convem que fique aplanado
e prevenido o negocio da successão.»
«Que se elle respondesse falando na
carta
que
enviou, e dizendo que quer esperar resposta,
n'esse caso que se veja logo o que convirá
responder-lhe.»
«Que, além d'isso, me parece convem enviar
despacho ao duque
[25]
para o caso que el-rei faltasse
em quanto andam estas perguntas e respostas,
e haver poderes meus a elle e a D. Christovão
para o que conviesse tractar, e para os
protestos que poderia convir fazerem-se.»
«Que, ainda que isto se póde examinar mais
devagar, bom será, pelo que póde succeder, se
lhes envie logo para isso ao menos a
auctorisação.
E se veja tambem
se se entrará
agora[26],
e
se se lhes dirá que façam os protestos no caso
que sejam necessarios.»
O ultimo paragrapho é escripto com taes breves
e, segundo parece, com tal rapidez, que
apenas se podem lêr com muita difficuldade e
incerteza estas palavras: «
Demàs
de los del consejo
désse parte (?) al doctor (?) Rodrigo Vaz y
Molina. Fray Diego, fray....... si viniere (?)
por la platica que traen de lo de allà; y, si
pareciere,
Guardiola, por si convenieren tres, pues
queda ya allà.»
Já Carlos V pensava, durante a menoridade de
D. Sebastião, em unir a coroa da Portugal á de
Castella, o que se patentêa no documento immediato.
É este uma carta sem assignatura, mas
datada de 29 de outubro de 1578 e dirigida a
Philippe II, a qual contem o seguinte:
«Senhor—O padre Ribadeneira
[27],
um dos homens
mais graves da Companhia de Jesus, me
disse que o imperador N. S. commetteu ao padre
Francisco de Borja
[28],
sendo commissario d'aquella
Ordem, que fosse a Portugal a titulo de visitar
a sua provincia, sendo a sua commissão principal
falar á rainha D. Catharina, e dizer-lhe da sua
parte o muito que sua majestade desejava que
n'aquelle reino se jurasse por principe herdeiro,
na falta de el-rei D. Sebastião, o principe D. Carlos
seu neto
[29].
Sua Alteza respondeu ao padre
Francisco de Borja que, ainda que isso
era mui
conforme á razão e á
justiça, não ousaria, comtudo,
propol-o,
porque a apedrejariam n'aquelle
reino. Pareceu-me cousa de importancia para o
estado em que as cousas de Portugal estão, e
por isso o quiz communicar a Vossa Majestade.»
Á margem da carta está escripta por Philippe II
esta nota:
«Não me lembro de tal,
ainda que
assim aconteceu
por certo. Como eu, Gurza ignora-o. Não
estava cá então. No caso de importar, Gurza
podel-o-ha
saber...... mas não creio que importe
nada para o caso d'agora. Seria porém bom
que...... se soubesse d'este Ribadeneira que
bons officios poderiam fazer os da Companhia
[30]
n'este negocio, a seu tempo; porque creio que
os membros d'ella em Portugal não os fazem
agora dos melhores, e assim será bem que
estejam
por minha parte, se a isso se podér dar
remedio.»
Segue-se um bilhete com a data de 6 de fevereiro
de 1579, tambem cotado por Philippe II,
acompanhando a remessa de um officio para ser
visto por elle. Tem pela sua letra no fim: «Estou-o
vendo; que parece aperta o negocio de
Portugal. Tende o correio prompto, que já o vou
despachar.»
O documento immediato é uma carta assignada
por D. João da Silva
[31],
datada de 3 de
novembro de 1579, de Madrid. Não contém cousa
importante; mas n'um post-scriptum pede se lhe
mande certa allegacão feita para provar que, se
o cardeal der sentença contra Philippe, será isso
aggravo sufficiente para mover as
armas. Diz
que é para
corroboral-a
com outras allegações.
Segue-se outra carta assignada só com as iniciaes
J. S. da mesma letra da antecedente. É
um dos documentos mais curiosos da collecção,
porque nos revela quaes eram os meneios secretos
do prior do Crato. É da mesma data da anterior
e dirigida a el-rei de Castella.
«Catholica Majestade—No particular de D. Antonio,
parece-me que Mattheus Vasquez, para
entreter aquelle homem, lhe poderia dizer que
esta sentença
[32].
altera todo o
estado do
negocio,
e que depois d'ella não se pode ter certeza que
seu amo esteja do
mesmo parecer; e
tambem
se duvída se elle ousará ter
communicação com
D. Antonio, sendo
creado d'el-rei,
como é, e do
seu conselho[33].
Que declare,
pois, o que pensa
fazer n'este caso. E se todavia quer proseguir na
sua commissão, que escreva a D. Antonio, dizendo-lhe
que V. M. sentiu os trabalhos em que
el-rei o metteu, e que deseja saber se está ainda
do
mesmo animo de que o seu agente
significou
que estava; porque,
ainda que a proposta
offereça
terriveis difficuldades, a boa vontade que
V. M. lhe tem aplanará as que se poderem aplanar,
para lhe fazer mercê e contental-o. Diga-lhe
tambem Mattheus Vasquez que não sabe o caminho
que tomará o senhor D. Antonio; pois o
estar no reino lhe será tão difficil e perigoso
para
a sua segurança; e sahindo não tem no mundo
aonde se acolher senão aqui, porque a outra
qualquer parte aonde vá lh'o tomariam a mal:
que, se viesse para V. M., não poderiam as suas
cousas deixar de se comporem com muita vantagem,
ficando V. M.
penhorado de elle se entregar
em suas mãos: que veja se lhe parece
escrever-lhe
n'este sentido, pois com brevidade se
poderá saber a sua resolução para se
proceder
no ponto principal com mais clareza, sabendo-se
de que animo está depois da sentença.»
«Tambem se lhe póde dizer que V. M. se admirou
da opinião que na sua carta mostra ter
concebido de que os ministros de V. M. em Portugal
e em Castella lhe têem feito máus officios
com V. M., e que não sabe o que o moveu a
acreditar similhante cousa, sendo exactamente
o contrario do que passa em realidade, porque
a todos parece mui bem que V. M. o
recolha
e lhe faça toda a mercê possivel; e que elle
agente deveria desenganal-o d'isso e trazel-o a
partidos convenientes, visto que assim lhe fará
maior serviço do que pensa, e V. M.
lh'o
agradecerá
e satisfará como merece. E se o
podér
trazer a que escreva e espere resposta,
ganhar-se-ha,
porventura, todo o tempo de que precisamos
para saber o que se fez em Roma e se vai
obrando em Portugal, para conforme a isso se
temperar a practica do concerto.»
«Se, como receio, não quizesse
dilação alguma,
mas ir logo tractar do negocio, poder-se-lhe-ha
responder: 1.º que Mattheus Vasquez se
espanta de que tomasse a seu cargo propôr cousas
tão contrarias a toda a boa razão; que em
D. Antonio não é admiração
que o appetite de
reinar, sentimento tão poderoso, o não deixe
vêr
as impossibilidades que propõe; porque, quanto
ao primeiro ponto, o
que cede a V. M. é
deixar-lhe
o chamar-se rei e prover quatro officios, que
depois de providos fiquem subordinados a elle;
quanto ao segundo não adverte que, se não
conviesse
ao bem commum (o que poderia ser por
mil modos) que elle governasse aquelles reinos,
com que consciencia lhe parece que poderia V. M.
encommendar-lh'o por tempo limitado,
quanto
mais por toda a sua vida, sobre tudo tendo elle
em Portugal tantas causas de odio e de affecto
pelas pretensões em que tem andado, de modo
que nada haveria em que procedesse com animo
desassombrado?—que considere quando se viu
no mundo que um rei demittisse a outrem o
provimento temporal e espiritual d'officios e
beneficios?—que
se lhe parece que em tudo se póde
convir
para assegurar a posse de um
reino, que
ainda quando isso dependesse da vontade de
D. Antonio, não depende realmente senão da
justiça
e das forças de V. M.; que se desengane
que para não fazer uma semjustiça a um
particular,
quanto mais a um reino inteiro, aventuraria
V. M. não só o direito que tem a Portugal,
mas até quantos reinos lhe restam; que, ainda
quando assim não fosse, V. M. de nenhum modo
podia resolver ponto algum que tocasse ao governo
do reino até á declaração
d'el-rei, quer
favoravel, quer contraria; que não se lhe diz
isto porque se desconfie de que não podessem
dispôr-se as cousas de modo que não houvesse
inconveniente em dar-se-lhe o governo, mas
só porque entenda que as particularidades que
sobre isso aponta não se podem propôr nem
ouvir: quanto mais que reinos deu Deus a V. M.,
e cargos taes provê de mar e terra, que não
eram somenos para seu proprio irmão: de maneira
que o remedio de D. Antonio não está
só
no governo de Portugal.»
«Que para que V. M.
o accrescente em
fazenda,
que é o segundo ponto, sempre
é tempo de mover
practica e trazel-a a effeito; que encolha
um pouco a primeira pretensão e pense melhor
n'ella, porque, vindo mais moderada, V. M. ha
por bem que se tracte e resolva em seu proveito
e muito á sua satisfação. E, vindo
ás particularidades,
se lhe peça tempo para mandar saber a
Portugal
que fazendas são estas em que
pede
a recompensa, e a sua qualidade e quantidade,
e que se lhe offereça fazel-o com toda a brevidade
e segredo. Se não convier n'isto,
poder-se-lhe-hão
dar quatrocentos mil ducados pagos
em Portugal dentro de quatro annos, contados
desde o dia em que V. M. começar a reinar, e
mais cem mil que se hão de dar quando jurarem
a V. M. por principe: que isto lhe convirá
mais que tudo, para o empregar do modo que
quizer, e testal-o como lhe aprouver: que considere
que perderia o tempo em querer provar
que é legitimo; porque V. M. não
se funda senão
em ser maior na edade, sem attender a paes,
mas sim como se todos os sobrinhos d'el-rei fossem
seus filhos, entre os quaes V. M. é o
primogenito.
Até aqui me parece que se póde chegar;
e n'estes termos V. M. seja servido ordenar a
Mattheus Vasquez me avise para Toledo do que
se fôr fazendo e do que tiver parecido a V. M.
sobre o systema que proponho.»
A carta que vem apoz esta, por differente
letra, sem assignatura e datada de 22 de janeiro
de 1580, posto seja, segundo parece, relativa
ás intrigas tenebrosas d'aquelle tempo, não nos
dá luz alguma, salvo no ultimo paragrapho, e
no fim de uma nota á margem que parece da
letra de D. João da Silva. De uma e d'outra cousa
se vê que o agente de D. Antonio vacillava já
em servil-o, e que se tractava de o corromper
ou de remuneral-o da corrupção.
«Costa
[34]
está amofinadissimo de não
ter resposta
de D. Antonio, e quer retirar-se para sua
casa sem o tornar a procurar. Disse-o a S. M.
que quer saber o que parece a V. S.
a que se
diga a Costa n'este caso.»
Diz a nota:
«Parece-me que se restitua o papel a Costa,
e que se lhe diga por modo de conselho que
espere o primeiro correio que vier de Portugal,
o qual esperamos por horas, para que vá instruido
do que lá
poderá fazer em
beneficio destes
negocios, e do sr. D. Antonio, e se porfiar,
deixal-o ir,
dando-lhe alguma
cousa.»
Pelo documento anterior a este ultimo apparece-nos
em toda a sua hediondez o procedimento
do prior do Crato, que se contentava de vêr a
patria sob o cutello do
demonio do
Meio-dia,
denominação que bem coube a Philippe II pelo
seu genio suspeitoso, refalsado, feroz e tyrannico,
com tanto que elle fosse o instrumento do
despotismo extrangeiro. E foi este homem, por
quem Diogo Botelho, o conde de Vimioso, D. Pedro
da Cunha, em fim os raros que ainda conservavam
puras as tradições generosas da edade-media,
arriscaram ou perderam a fortuna, a liberdade
ou a vida: foi este homem que o vulgo,
entre o qual vivia ainda o amor da independencia
nacional, acclamava rei erguendo-o sobre o
pavez popular!—Governador de Portugal, recebidos
os bens da corôa que pedia, elle, descendente
do Mestre d'Aviz, teria sido o primeiro em
ir ajoelhar aos pés do despotico successor de
de D. João I de Castella.
Os documentos que se seguem apresentam-nos
alguns dos negros caracteres d'aquelles cuja
compra, na grande feira de vileza e deslealdade
em que Portugal se convertera, foi uma boa veniaga
para o manhoso comprador. Ahi veremos
tambem o que já dissemos—que não era um
ou outro o prevertido, mas sim que a dissolução
politica se tinha tornado profunda e geral.
Já dissemos que os agentes ostensivos de Philippe
II em Portugal, durante o curto periodo do
reinado do cardeal D. Henrique e da regencia
dos governadores, foram D. Christovão de Moura
e o duque de Ossuna, a que se haviam ajunctado,
tambem com um caracter official, tres jurisconsultos—Rodrigo
Vasques, Molina, e Guardiola.
Todas estas demonstrações publicas da
pretensão
do rei castelhano, e muitas das negociações
secretas, corriam por intervenção dos cinco;
outros individuos, porém, que se correspondiam
directamente com a côrte de Madrid trabalhavam
em silencio, mas porventura ainda mais efficazmente,
em mover os animos, e em aplanar as
difficuldades materiaes que embaraçavam o bom
exito da empreza. Uma parte d'esta correspondencia
existe ainda, se não no original, ao menos
n'uma especie de resumos, feitos talvez pelos
secretarios de estado, a quem era dirigida, para
serem apresentados a Philippe II, cujas
resoluções
estão postas á margem pela sua propria
letra, ora seguidamente, ora ao lado do extracto
respectivo de cada um dos paragraphos. São
estes extractos e outros os que ora seguem. O
primeiro é de uma carta de um certo Pedro Rol
de Lacerda datada de 15 de julho de 1579. Diz
assim:
«Recebeu a 9 d'este a de S. M. em que lhe
mandava que fosse para Valencia
[35].—Que
logo
o cumprira.»
«Que tivesse boa correspondencia com os portuguezes
para os persuadir na fórma que se lhe
ordena.—Que alguns e até muitos
conhecem
o
que se lhes diz; mas não ousam declarar-se até
que seja tempo.»
«Lembra
a carta de
crença de S. M. para poder
encaminhar melhor este negocio, e da qual fará
uso para com aquelles que lhe parecer,
fazendo-lhes
oferecimentos da parte de S. M.; e affirma
que isto seria de
muito
effeito:»
«Os que entendem o que se lhes ponderou
ácerca do que arriscam e podem perder, temem
que S. M. os metta em apertos. Elle tem procurado
desenganal-os, dizendo-lhes que podem
tractar dos meios (?) offerecendo-se-lhes para
medianeiro; mas respondem que
não se
atrevem
por ora.»
O resto do extracto não offerece cousa de importancia;
por isso o omittimos. A nota de Philippe
II, escripta no verso do papel, diz:
«Que prosiga. Sabei do.... se lhe foi enviada
carta de crença, e se não que se lhe envie como
aos outros: que lhes assegure que não se apertará
com elles, nem haverá novidade a seu respeito.
Avisai o conde.... que, se não responderam,
respondam; digo a dom.... para que se envie.»
O extracto immediato é de uma carta datada
de Almeirim a 27 de janeiro de 1580, e escripta
por André Gaspar, corso, agente secreto, segundo
parece, de Castella. Contem o seguinte:
«Que S. A.
[36]
esteve tres dias mui doente, e
que pensavam não escapasse, e que n'aquelle
dia melhorára e comia um pouco mais:»
«Que apesar da gravidade da doença vieram
no dia 24 os cinco primeiros bancos
[37]
dos procuradores
de côrtes, e se lhes mostrou o que o
braço ecclesiastico e militar (nobreza) tinham
resolvido. Pedindo-lhes que fizessem o mesmo,
replicaram que se ajunctariam e responderiam:»
«Que depois de se haverem junctado resolveram
que lhes tocava a eleição, e que declarasse
S. A. por sentença de letrados este ponto, pois
lhes havia acceitado a demanda, accrescentando
que Deus désse larga vida a S. A.: que depois
dos seus dias elles elegeriam rei; porém que,
se agora lhes declarasse successor portuguez, o
acceitariam; mas sendo S. M. (Philippe II), em tal
não queriam ouvir falar,
e antes
soffreriam a
morte:»
«Que posto S. A. estivesse tão infermo lhes
ouviu
pacientemente esta resposta
no dia 25, e
lhes respondeu que dentro de dois dias sentenciaria
sobre o ponto da eleição, e assim os
despediu:»
«Que depois mandou chamar os do seu conselho
e letrados, que assentaram não tocar aos
procuradores a eleição, e que se esperava a
sentença
sobre este artigo no dia seguinte:»
«Que n'aquelle mesmo dia enviara S. A. o
bispo Pinheiro com um recado aos procuradores,
aspero, segundo dizem, o que saberia quando
o bispo voltasse:»
«Que, vivendo S. A. oito dias, espera que amansem;
e quando não queiram, como diz
aquelle
amigo, tem S. A. determinado levar o negocio
ao cabo:»
«Que o
amigo faz mui
bons officios com S. A.,
e elle solicita esses officios, apertando-o com os
inconvenientes que poderiam sobrevir:»
«
Que os fidalgos e prelados
estão mui conformes
com a vontade de S. A., e que tudo
depende da sua vida:»
«Que D. Antonio é que traz alterados os
procuradores
por intervenção de frades, fazendo
todos os maus officios que podem contra S. M.:»
«Que com aquelle seu amigo francez, que está
por parte do seu rei solicitando os procuradores
e D. Antonio, procurou falar, e responder-lhe
que D. Antonio lhe tinha dicto que se a sentença
se désse a favor de S. M.
elle seria o
primeiro
a vir beijar-lhe a mão como a seu rei, e
quando
não, nada queria fazer:»
«Que soube do francez que o seu rei se via
muito embaraçado com os lutheranos, e que não
queria que os portuguezes confiassem muito no
soccorro d'elle:»
«Que S. A. manda hoje o meirinho-mór
[38] a Lisboa
para socegar a gente do povo e ter conta na
cidade, e vai com mui bom animo e vontade.»
(«Não ia a isso, segundo me escrevem, mas
sim a prevenir a armada que ha de ir para a
India, como vedor da fazenda, que é agora, o que
vem a ser como contador-mór. E teem n'isto das
armadas melhor fórma que
cá.»—
Nota de Philippe II,
á
margem.)
«Que, despedindo-se de S. A. (o meirinho-mór),
lhe disse que sentenceasse por S. M.,
visto
haver-lhe dicto que o direito era seu, e que se
apressasse em dar o seu a seu dono, e não deixasse
o reino em perdição:»
«Que S. A. lhe respondeu que em breve
sentenciaria.»
«Que a isto lhe replicou o meirinho-mór que
désse a sentença e não curasse de
tractar de
concertos com os procuradores, os quaes depois
se poderiam fazer com S. M.; ao que lhe tornou
que d'um modo ou d'outro não tardaria a dar a
sentença.»
«Que o meirinho-mór faz novas instancias sobre
a conveniencia de S. M. se approximar das
fronteiras d'aquelle reino.»
«Que S. A. não está bem com o duque de
Bragança,
nem o póde ver,
depois que não quiz
fazer o que lhe mandou propôr por Paulo Affonso,
e ainda mais depois que lhe disseram que
anda em ajustes com D. Antonio.»
«Louva o bom proceder e officios de D. Christovão
de Moura, e diz que elle por sua parte não
descançará.
«Espera que ainda que os procuradores bravateem
não se poderão defender, porque não
têem
dinheiro, nem munições, nem armas, nem gente
de vulto; nem pensam que S. M. haja de se
mover d'aqui.»
[39]
«Entende que em lá sabendo que S. M. se
encaminha para aquelle reino se aplacarão.»
Os extractos immediatos aos que anteriormente
publicámos são de uma carta, datada de
Almeirim a 22 de março de 1580 e escripta pelo
licenciado Medellin, que d'esta carta e d'outra
sua se vê ter sido um dos mais activos agentes
da usurpação castelhana. É um dos
documentos
importantes, pelas materias de que tracta e notas
que o acompanham. O seu conteudo é o seguinte:
«Recebeu as cartas que se lhe escreveram.»
«Representa haver feito lá todos os bons officios
que pôde, e que aos ministros de S. M.
parece que elles têem aproveitado.»
«Que Miguel Telles, alcaide de Marvão, ainda
não partiu, e que o acha duro de
condição,
ainda que o escutou placidamente, e que espera
reduzil-o, posto que lhe affirmasse que
a qualquer outro não soffreria o que lhe elle
disse.»
«Que Manuel Alvarez, homem nobre e rico,
que é feitor do irmão do alcaide, e todo d'elles,
e que vive n'aquella praça, levou elle Medellin
a casa de Rodrigo Vasquez; que este se offereceu
para servir devéras a S. M. tractando em Marvão
com todas as cautelas com Miguel Telles para o
pôr em bom caminho.»
«Que as cartas que S. M. mandou escrever
aos Tres-Estados foram bem recebidas, e fizeram
muito effeito, junctamente com o discurso que
Rodrigo Vasquez lhes fez.»
«Diz que houve descuido em não falar aos
procuradores antes, e principalmente quando el-rei
morreu: que isto fôra de grande importancia,
como o advertiram Antonio Carrilho, procurador
por Marvão, e outros. Que elle o lembrou e assim
se resolveu, mas que até agora se não
fez.»
«Tambem diz que foi de parecer que os procuradores
estivessem em Almeirim, para que
todos os dias se podesse tractar com elles, e
não ficassem entregues a D. Antonio; que os dictos
procuradores se mostram sentidos do pouco
caso que se fazia d'elles.»
«Que os que tinhamos por nossa parte se ausentaram
ha dias, logo que se lhes declarou que
as côrtes estavam acabadas com a morte d'el-rei;
e não havendo quem os entretivesse se foram
os mais d'elles; ficando os parciaes de D. Antonio
e do duque de Bragança, que por certo
buscavam meios de os reter.»
«Demonstra como este inconveniente se deu
na realidade, porque já se experimentou com os
outros dois Braços que têem estado em Almeirim,
os quaes se mostram mais partidarios de
S. M. por os seus ministros os haverem tractado;
e os procuradores, por não os haverem conversado,
se têem portado mal causando alvorotos.»
«Que os procuradores que estavam de bom
animo lhe diziam que não ousavam falar, porque
em falando iam á noite a suas casas queixar-se
(os outros?) que não os deixavam em liberdade.»
Á margem dos paragraphos antecedentes acham-se
tres notas, duas pela letra de Philippe II, e
uma pela de D. João da Silva.
Primeira, de Philippe II:—«Veja o conde tambem
esta, que ha ahi cousas de
consideração.»
Segunda, de D. João da Silva:—«Esta é
mui
boa carta. O bispo de Portalegre que torne logo
depois de Paschoa em todo o caso, e seja um
dos que fiquem, se fôr possivel. Aquelle Melchior
do Amaral de que fala é homem de muito
juizo e honra; e entendo que entre a gente de
letras e nos tribunaes tem S. M. grande parcialidade.
Depois vi e sube com gosto que o bairro
de Portalegre não se movia.»
[40]
Terceira, de Philippe II:—«Diz mui bem o
conde, e assim escrevi em conformidade d'isso,
e notai se ha alguns pontos de importancia a que
convenha responder em particular, e um d'elles
é este.»
Segue o extracto:
«Diz que falando-se individualmente aos portuguezes
entendem a razão, e quanto lhes importa
serem de S. M. Dilata-se em representar
isto.»
«Que não sabem dar outra resposta senão
que
se julgue a causa.»
«Que Rodrigo Vasquez tem desempenhado bem
a sua obrigação no particular e nas
junctas.»
«Que o bispo de Portalegre quer ir na semana
sancta á sua egreja, que está d'alli 18 leguas;
que lhe disse não fosse, e que lhe respondeu
voltaria; e que elle tambem vai para Valencia,
que fica a 4 leguas de Portalegre; que se lhe póde
escrever para lá, se S. M. fôr servido que
faça
tornar o bispo depois de Paschoa para onde estiver
a côrte. Assegura a boa vontade do bispo,
e estar ligado com elle. Que o licenciado Rodrigo
Vasquez foi de parecer que se fosse por emquanto,
e que elle partia para Lisboa.»
«Que não deixa de aperceber-se aquella gente
enviando armas aos povos.»
«Adverte de parecer commum que qualquer
dilação que S. M. faça será
muito damnosa, e
que o ter já antes entrado fôra de grande
importancia.»
Á margem, e acompanhando todos estes paragraphos,
lê-se a seguinte nota de Philippe II:
«E assim dae noticia ao conde para que o resolva
na juncta; e que convirá escrever aos fronteiros
de lá que negocêem com os logares visinhos
que têem voto em côrtes, e procurem
têl-os
de sua parte, a elles e aos procuradores. Se o
bispo se foi, convem que torne logo, e o Medellin
tambem, e assim se lhes escreva, e que nos
avise sempre do que houver, e que eu me approximarei
de lá com brevidade e forças (?).»
Continuam os extractos:
«A este proposito diz que Melchior do Amaral,
membro do conselho d'estado n'aquelle reino,
que veio agora resgatado e que é um dos de
maior qualidade, lhe disse que não sabia porque
S. M. não entrava no reino.»
«Que o dicto Melchior do Amaral é de parecer
que Portugal ganha muito n'isso, e que, se porventura
S. M. não remedeia a pobreza d'elle, não
sabe quem ha de remedial-a.»
«Que diz tambem que o reino deve tres milhões,
e que faltam trezentos mil cruzados para
chegar a receita á despeza, o que elle sabe pelos
livros da fazenda real.»
Aqui pôz Philippe II esta nota:
«Mau é isso, visto como estamos por
cá.»
Prosegue o extracto:
«Que as côrtes se reduzem a menor numero:
os procuradores do povo a 30, os prelados a 3,
e os fidalgos a 9.»
«Que o bispo de Portalegre lhe disse que seria
um d'elles, e que os mais da côrte se governam
por elle.»
Extracto da carta que vem inclusa:
«Que o bispo lhe disse, depois de estar escripta
a carta antecedente, que não escrevia a v.
m.
cê por não saber da
partida do correio; que o
faria no outro, e que breve esperava vêr-se com
v. m.
cê»
«Que ainda não era certa a sua ida a Portalegre,
porque os governadores o não deixavam,
e que o tinham emprazado para no dia seguinte
se vêr com elles ás duas horas.»
«Que na segunda-feira da juncta que se fez
de todos os tres braços em Almeirim, quando
D. Christovão de Moura entrou para dar a carta
de S. M. houve algum alvoroto, e o bispo de Portalegre
se travou com Phebo Moniz, procurador
por Lisboa, dizendo-lhe muitas palavras asperas,
de modo que o Phebo se poz de joelhos diante
d'elle, e chegaram muitos procuradores ao bispo
dizendo-lhe se queria alguma cousa, e que o
mesmo lhe foram depois dizer a sua casa.»
«Que lhe disse que désse parte d'isto, e que
lhe parecia que se ajunctariam, como de novo,
a côrtes os que faltavam de todos os tres braços.
Que em todos os tres se propôz que se désse
dinheiro para a defeza do reino, e que no dos
bispos e nobreza se votou que tal se não fizesse,
e que no do povo ha agora differenças sobre
isto.»
«Que tambem lhe disse que avisasse para que
S. M. désse ordem a escrever-se de cá para se
diligenciar que
Martim Gonçalves da Camara
não assistisse com os governadores, visto
não ter
cargo que exercer;
porque era
prejudicial.»
«Que tudo isto advertiu a Rodrigo Vasquez.»
Segue-se a copia de uma carta dirigida a Philippe
II e datada d'Almeirim a 25 de março de
1580, a qual, pela resposta d'el-rei, que se acha
algumas folhas mais adiante, no seu original, se
vê ser do duque de Ossuna. Transcrevel-a-hemos
com a dicta resposta.
«Sacra Catholica Real Majestade.—Ainda que
os tres despachos de V. M. com que de presente
me acho, de 13, 14, e 20 do corrente, são em
resposta de outros meus, contêem alguns particulares
a que responderei no primeiro correio
que fôr apoz este, o qual leva só a
relação, que
V. M. ordenou se lhe enviasse, do que nos pareceu
se devia responder aos mensageiros que lá
estão, se bem que é necessario pôl-o em
melhor
fórma, porque a occupação das
diligencias feitas
esta semana não deram logar a emendar-se cá;
e parecendo-me que esse inconveniente é pequeno,
ao mesmo passo que seria mui grande o
não chegar a tempo, tenho por melhor que vá
como fica dicto, para que V. M. despache brevemente
os mensageiros, os quaes bom será despedir
na incerteza de tudo o que lhes foi incumbido,
para acabarem de crer que não póde
haver n'este negocio meio termo entre o caminho
das graças (que V. M. lhes tem aberto) e o
da força, que de necessidade se deve seguir
faltando est'outro.»
«As cartas de V. M. para os Governadores e
para os Braços d'este reino se entregaram com
os memoriaes das graças e mercês que se lhes
farão se jurarem a V. M.. Tudo foi bem recebido,
e do mesmo modo as dirigidas aos pretensores.
Espero em Deus que havemos de tirar bom resultado,
ainda que não bastam as demonstrações
presentes para o ter por certo; nem posso dar
a V. M. conta miuda de tudo o que ácerca d'isto
se passou pela razão que já disse.»
«Grande contentamento mostram os bem intencionados
da vinda da rainha N. Sr.
a a essa
sancta casa, porque d'isso deduzem que V. M.
melhor se poderá deter onde for preciso, do que
se V. M. houvera ficado em Madrid. Guarde N. S.,
etc.»
Philippe II respondeu:
«Duque primo.—A rainha e eu chegámos
aqui vespera de N. Sr.
a bons, graças
a Deus.
E porque desejava cartas vossas mais recentes
que as de 12 do passado, folguei muito com as
de 25, por saber o que teria resultado dos despachos
que lá estavam, e saber o vosso voto e
dos outros meus ministros pelo que toca ao acolhimento
que se devia fazer aos mensageiros
que d'ahi vem, e a resposta que se lhes poderia
dar; e chegou a bom tempo, porque se achavam
já a quatro leguas d'aqui. Resolvi tractal-os do
modo que vereis pelo memorial que vai incluso,
parecendo-me que devia tomar aquelle caminho
para que não nos fique por experimentar nenhuma
das cousas que podem servir para chamar á razão
os d'esse reino, e obrigal-os a que por sua parte
façam o que devem, tirando-lhes todo o genero
de achaque ou escusa, como parece teriam se
não se lhes désse n'isso
satisfação. E quando a
sua dureza fosse tanta que nada bastasse, servirá
ao menos para inteira justificação do damno
que lhes vier da guerra; cujos meios se vão
apromptando sem perda de tempo, antes se aproveita
por tal modo que, se for mister, em poucos
dias se poderá pôr na fronteira o numero de
gente que vereis da relação que vos ha de mostrar
D. Christovão de Moura. Tenho tenção
de ir
mui breve para Merida ou Badajoz, motivo porque
já mandei arranjar aposentos n'aquellas duas
cidades. Praza a Deus que as diligencias que lá
se fizeram com os Braços, Governadores, e cidades
do primeiro banco, tenham aproveitado
tanto que de lá possa passar logo a esse reino,
facil e pacificamente, o que muito desejaria assim
acontecesse pelo que a elles proprios lhes
convem. Do successo e da resolução que tomarem
espero já desejoso a noticia.»
«Tendo visto a carta do marquez de Villa Real,
e a satisfação que mostraes ter d'elle e dos de
sua casa, lhe mandei escrever a que vai com
esta para que lh'a deis ou envieis, assegurando-lhes
que os hei de honrar e favorecer a todos;
e n'esta substancia podereis dar o recado que
vos parecer a D. Jorge de Noronha seu primo,
porque, ainda que recebi a sua carta, pareceu
que não era preciso responder-lhe eu, mas que
fizesseis vós este officio, por ter elle o genio que
descreveis, e cá se ficou entendendo.»
«O mesmo, ou o que vos parecer, fareis com
o bispo capellão-mór
[41]
pelo que diz no bilhete
que vos escreveu; que justo é agradecer-lhe a
sua boa inclinação.»
«Conformando-me com o que advertis, tenho
por mui necessario que com grande brevidade
se ordene uma boa, breve, e substancial relação
de como me pertence justamente a successão, e
assim mandei que se pozesse no memorial; e
a vós encarrego muito que tenhaes particular
cuidado em que se faça e se me envie sem
perda de tempo. De mais proveito fôra ter sahido
antes, porém mais vale tarde que nunca.»
«Se (o que Deus nunca permitta) se houver
de usar de força, tambem então se
publicará
outro escripto que justifique a guerra; e já cá
mandei que se vá considerando o que deve conter,
e bom será que lá se faça o mesmo para
aproveitar o tempo, conferindo-se depois um
com outro para se tomar a resolução que parecer
mais a proposito.»
Esta resposta é datada de Guadalupe no 1.º
de abril, assignada por Philippe II e referendada
pelo secretario Çayas. Vem apoz ella por copia
uma outra carta datada de Almeirim a 6 de abril,
que pelo ironico e violento attribuiriamos de boa
vontade a D. Christovão de Moura, cuja ancia
pelo dominio extrangeiro excedeu a de todos os
homens corrompidos d'aquella triste epocha. O
que parece evidente é não ser do duque d'Ossuna,
porque n'ella se allude á carta que na
mesma occasião
escrevia ao
embaixador.
«S. C. R. M.—Ainda que os embaixadores
d'este reino parecem pessoas humildes
[42],
devem
estar tão longe de sel-o, como todos os mais
portuguezes! Digo isto pela diligencia que mostraram
em avisar os governadores do tractamento
que julgaram V. M. lhes havia de dar,
parecendo-lhes falta de cortezia não lhes tirar o
barrete como é costume. Toma-se tão mal
cá
tudo o que é de Castella que, apenas chegou o
aviso de tamanha sem-razão, ajunctaram-se em
conselho para responderem, e depois de Martim
Gonçalves ter esbravejado, e de se haver aproveitado
da occasião para encarecer quanto lhes
importa dilatar o negocio, e outras cousas a seu
proposito
[43],
resolveram escrever aos embaixadores
que não se apresentassem a V. M. segunda
vez, se da primeira os não tractasse conforme o
estylo. Pareceu-nos conveniente, a troco de um
correio, advertir d'isto a V. M.; e, ainda que eu
tenho por bom que V. M. executasse o que d'antes
estava assentado, pois a embaixada era tal,
que não importava nada ouvil-a, ou que elles
voltassem sem a dar, visto V. M. ter feito o mais,
segundo me escreve que lá resolveram, e esses
homens lhe beijaram a mão, parece-me que,
havendo passado por tanta cousa, não se deveria
tropeçar em dois dedos mais ou menos de barrete,
muito mais havendo de dar isso occasião
ao que de cá lhes escrevem, posto que esses
offereçam em tudo motivos para tractal-os de
outra maneira. Bastante custará já a V. M. o que
tarda em começar a fazel-o assim, e a encurtar
o fio da brandura de que esta gente se aproveita
para o mal; e assim têem por chança quanto se
lhes diz fóra d'isto, parecendo-lhes impossivel
que chegue o tempo do rigor de véras, que cada
dia merecem por novas culpas e desconcertos,
parecendo-lhes que tudo está nas mãos d'elles;
e até que vejam signaes para sahir d'este engano
sempre ficarão n'elle, se nosso Senhor não faz
algum milagre, de que bem precisa a obstinação
d'este paiz. E porque o embaixador deve escrever
mais extensamente, e ámanhan parte outro
correio, não tenho mais que dizer senão que
nosso Senhor guarde, etc.»
Entre esta carta, digna de um intrigante feroz,
e as antecedentes estão os extractos de duas
cartas de um agente portuguez que de novo vem
entrar em scena. Este, que escreve ambas ellas
de Almeirim no mesmo dia 24 de março, é
D. Jorge de Noronha, neto do segundo marquez
de Villa-Real e primo do primeiro duque d'este
titulo. O caracter de vileza, que reina na linguagem
d'estes dois documentos, é verdadeiramente
curioso.
Eis oqui o primeiro:
«Recebeu a que S. M. lhe mandou escrever
a 17 do corrente, da Aceca:»
«Approva a vinda da rainha n.s. com S. M.
pelo especial prazer e honra que com isso se faz
áquelles reinos:»
«Louva tambem a vinda de S. M. pelo amor
e tenções christans com que procede em
tudo:»
«Mostra grande sentimento das cartas que dizem
escreveu Manuel de Mello para aquelle
reino:»
«Que o bispo de Portalegre diz que o arcebispo
d'Evora, tio de Manuel de Mello, lhe contou
que seu sobrinho lhe escrevera que não havia
a gente nem os apercebimentos de guerra que lá
soavam; que acham o duque d'Alva só; e que
estivesse seguro de que
se houvesse união
no
reino não havia cá poderio bastante contra
elle.»
«Julga que não se deve fazer caso do que diz
Manuel de Mello, porque está cego; que o reino
de Portugal é de S. M.; e que póde ir quando
quizer, porque até as creanças cantam que todo
o seu remedio está em S. M.»
«Que, afóra isso, não ha lá
forças para se defenderem
só do duque d'Alva, ainda que viesse
mais só do que affirma Manuel de Mello; nem se
fala em defeza, nem ha nenhuns fronteiros; e
que elle logo que alli chegou dissera que largava
o direito que tinha á frontaria que estava a seu
cargo, para mais claramente mostrar sua
intenção.»
«Que muitas outras cousas que passou as deixa
por serem largas, remettendo-se ao duque de
Ossuna e mais embaixadores a quem as contou.»
«Que se deram as cartas e recados de S. M.
aos governadores e Braços, e que se fizeram mui
boas diligencias com todos, cujo proveito vai
apparecendo,
porque já os mais d'elles
estão rendidos,
convertidos, e feitos christãos, e que se
baptizaram na agua das listas de mercês que
S. M. fez a todos, as quaes são mal
merecidas,
porque ainda não estão os caminhos de Portugal
e Guadalupe cobertos de portuguezes. Pede licença
para ser elle o primeiro que o faça, pois
talvez muitos o sigam, sendo tão natural nos portuguezes
a enveja.»
«Que o marquez não escreve por se não
achar
alli; mas que virá passada a paschoa, o que será
conveniente para a boa conclusão dos negocios.»
A linguagem d'este reptil parece ter suscitado,
talvez pelo excesso da baixeza, as desconfianças
do suspeitoso Philippe, porque ao lado do extracto
pôz a seguinte nota, que o indica:
«Fica-me cá a carta, porque creio que
será
mister envial-a ao duque ou a D. Christovão pela
razão que vos disse, e pelo que ha a respeito
de quem a escreve.»
O segundo extracto contem o seguinte:
«Representa quanto elle e toda a casa do marquez
de Villa-Real tem desejado e procurado,
desde a morte d'el-rei D. Sebastião, que se entregassem
aquelles reinos a S. M., a quem de
justiça e razão e por pura necessidade entenderam
desde logo pertenciam, e quanto isso era
conveniente, o que esperam se fará com brevidade.»
«Encarece o que tem trabalhado, e quasi brigado
para reduzir a gente d'aquelle reino, que
estava mui tenaz, e que procederam com este
afferro por verem o zêlo christianissimo de S. M.»
«Pede que se lembre isto a S. M. e o animo
e desejo com que fica o marquez e toda a sua
familia, e quanto hão de ser sempre addictos ao
seu real serviço.»
Este preambulo é destinado a captar a benevolencia
do secretario d'estado castelhano, a fim
de se obter por sua intervenção um bom casamento
em Castella para uma filha do marquez
de Villa Real. Omittimos esses paragraphos, que
só accidentalmente e em cousas de pouca valia
respeitam aos negocios publicos. Prosegue depois
ácerca d'estes:
«Envia tambem um papel e uma carta dos
procuradores dos povos, em que se vê que desejam
e querem paz, e que já percebem a mercê
que lhes faz nosso Senhor em lhes dar por seu
rei a S. M.
«Que mostrou estes papeis a D. João Mascarenhas,
com quem communica tudo o que se
offerece, por ser um dos governadores e dos homens
que mais desejam o serviço de S. M.»
«Que D. João o mostrou aos outros governadores,
e lhe affirmou que importaria muito que
elles o vissem, e que diligenciasse obter lista dos
nomes dos mais que podesse achar do mesmo
parecer em Santarem. Que esperava fazer alistar
a maior parte d'elles.»
«Que muitos dos procuradores de bom e muito
bom animo no negocio se foram; porque os melhores,
já enfadados de não estarem todos d'accordo,
e de verem os de Lisboa, que era a cabeça,
mal inclinados, começaram a partir.»
«Que Manuel de Souza Pacheco, um dos procuradores
de Lisboa, já não é companheiro de
Phebo-Moniz, porque se fez christão, e deu palavra
ao bispo e ao arcebispo d'Evora de sel-o
sempre, e
que todos se vão
baptizando.»
«No papel que envia com a carta (a qual é
datada de Santarem a 15 de março, e escripta
por um dos procuradores que se chama Rodrigo
d'Abreu) o nome que está riscado é o d'elle
D. Jorge, e diz que assim se deu a ler aos governadores.»
«N'elle representam aos dictos governadores
o desejo que tem a maior parte dos procuradores
da paz e quietação em conformidade do que o
governo deseja, tudo pelo bem da christandade.»
«Ahi dizem que é um engano pensar que para
tractar dos concertos convem que sejam menos,
quando todos querem paz e concordia, porque
já cahiram na razão e vêem que
é necessário.»
«O meio que apontam para isto se poder alcançar
é chamal-os dois a dois, pois chamando-os
junctos dizem que não, por não haver quem
queira começar em publico.»
«D. Jorge diz que testifica isto, porque fallou
com os mais d'elles. Recommenda o segredo e
a brevidade da execução. Que depois de se
conseguir
o resultado dirá quem fez a proposta para
ser agraciado. Adverte que
até das terras
escrevem
cartas avulsas em que lhes significam o
mesmo, mas que não ousam falar, tanto pelas
agitações que andam, como pelo que diz o vulgo.
Pede que se lhe restitua este papel porque é de
letra conhecida.»
Neste interessante documento pôz Philippe II
uma pequena nota:—«Veja esta o conde de
Portalegre, e a resposta que será conveniente
lhe deis.»—D. João da Silva escreveu por
baixo—«São
mui bons estes de Villa-Real: Responda-se
a D. Jorge com muita approvação do que vai
fazendo, pedindo-lhe continue, e restituam-se
estes papeis como é de razão.»—O resto
da
nota do conde de Portalegre é relativo ao casamento
do marquez, por isso o omittimos aqui.