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Rita
Farinha (Jan. 2010)
NOTAS d'ARTE
Notas d'Arte
PORTO
TYPOGRAPHIA UNIVERSAL (a vapor)
Travessa de Cedofeita, 54
1906
Ao INSTITUTO de ESTUDOS e
CONFERENCIAS
Á SOCIEDADE de BELLAS ARTES
pelo que podem fazer em bem da Arte.
Retrato de Vasco Ferreira
(Esboço para
um retrato)
VASCO FERREIRA
NO LIMIAR
(1904) Caricatura do dr. M. Monterroso
(1904)
Caricatura do dr. M. Monterroso
O
philosopho Taine, dizia,
ha bons vinte annos,
no
seu Curso Esthetico para:—
A
Arte é o reflexo dos costumes.
E, de facto, assim é. A Arte vae
evolucionando sempre na ordem
directa do aperfeiçoamento e da
illustração dos povos.
Assim, quanto mais illustrado
fôr o publico, tanto mais
perspicaz, mais estudioso e mais
observador deve ser o artista, para
que tenha o applauso geral e
sincero a obra que executou e apresenta.
E, é mesmo por isso que
entre nós, os artistas, pintores e
esculptores, dia a dia fazem, na
incessante lucta pela vida, os esforços
mais lidimos e mais honrados
para resolverem esse enorme
e sublime desideratum:—
ser
grande!
Infelizmente nem todos o podem conseguir. E,
não o conseguem,
porque para isso não são precisas só a
boa vontade e
a persistencia no estudo. Alguma coisa mais lhes é
necessaria,
e essa, primacial:—ter talento!
Felizes os que teem esse delicioso e bello predicado;
porque
esses, vão gloriosamente para diante e são
verdadeiramente
grandes.
Ha alguns annos, poucos ainda, a pintura entre
nós era
uma especie de Arte mystica,
que
apenas raros tentavam, n'um
arroubamento de eleitos.
Esses mesmos, faziam a pintura a seu modo, dentro de
restrictas e acanhadas normas, sem pensarem sequer que
o fluido
ether
que nos cerca e enche triumphantemente toda a
natureza,
em pulverisações vibrantissimas de luz e de
côr, precisa
de ser estudado e quiçá
pintado.
Mas, se elles limitavam os ambitos do seu modo de
executar,
era que o publico tambem não exigia mais, e a critica
não
se preoccupava absolutamente nada com isso.
Tanto elle
como ella
eram
feitos por individuos, que ao
visitar os museus e as exposições de pintura
não tinham a intuição
nitida e verdadeira da Natureza em todo o seu explendor,
como manifestação psycologica da
vista.
Habitualmente todos elles amavam a Natureza pelo
simples
consolo que lhes dava, quando ao domingo, deixada a cidade,
iam para o campo, não para fruir o delicado encanto de
admirar um bello panorama, mas... para gosar o pantagruelico
prazer de devorar um gordo carneiro assado, com o seu alguidar
de loiro e assafroado arroz de forno, ou a saborosa pescada
frita, com negras azeitonas e fresca e appetitosa salada de
alface, acepipes estes que copiosamente regavam com tinto de
Basto ou espumoso verde de Amarante.
E, se um ou outro tinha uma tal ou qual
intuição artistica,
porque, lá fóra, nos grandes museus do
estrangeiro, tinha
visto qualquer cousa que lhe fizera notar tal, esse, ficava-se
n'uma banal indifferença, sem se manifestar aggressivamente
contra os systemas adoptados pelos pintores do seu tempo, que
apresentavam nos seus quadros composições de
convenção e feitas
no ar morno dos atelieres, sem a
inspecção constante e immediata
dos motivos a pintar...
Uma Era nova e refulgente, desponta por fim, e os
artistas
que começavam pondo de parte os velhos preceitos
archaicamente
usados, saltam por sobre as barreiras das
convenções
e correm pelos Campos da Arte, fóra, em procura de elementos
verdadeiramente verdadeiros, com que possam satisfazer as exigencias
do publico mais illustrado e da critica mais independente
que auctoritariamente se impõe, cheia de razão,
para que
nos seus trabalhos haja mais naturalidade e menos
ficção.
E, é sob este refulgir de um novo sol, que
orientado lá fóra,
com as mais modernas noções d'Arte, estudando nas
melhores
e nas mais celebres escolas de pintura do Mundo, que nos
apparece, entre outros, como Columbano, Malhoa, Salgado.
Sousa Pinto, Marques de Oliveira, etc., etc., o grande, o sublime
Silva Porto! Aquelle que para mim é o maior dos paysagistas
portuguezes dos ultimos tempos. E que, com o seu modo de ser
e de ver, marca d'uma maneira deslumbrante o inicio d'essa
nova Era para a pintura portugueza.
Assombra-nos esse artista com os seus primorosos
quadros
feitos n'uma larguissima e franca sentimentalidade d'alma
de homem de talento, exuberantes de verdade, geniaes de
execução.
Era um grande! Era um sublime artista!...
Mas, a Morte rapidamente o ceifa, avara de que elle
tenha conseguido tão sincera, tão verdadeira e
tão lealmente
roubar
á Natureza verdadeiros e flagrantes
pedaços do seu
grandioso Ser,
para tão
maravilhosamente os transplantar
á tela.
Ao morrer porém Silva Porto tinha hasteado,
bem alto e
bem firmemente, a bandeira gloriosa sob que se devia agrupar
a nova pleiade dos pintores portuguezes.
E, de facto, é sob a egide d'essa bandeira
que a Arte em
Portugal brilha hoje mais fulgurante, podendo pôr-se sem
vergonha
ao lado da Arte dos paizes onde Ella tem um culto mais
largo e mais acerrimo.
Se não em quantidade, pelo menos em
qualidade, os artistas
portuguezes de nome, chegam onde podem chegar
os artistas
notaveis estrangeiros, sem temerem confrontos.
E isto porque Portugal d'hoje, embora os pessimistas
não
queiram, vae avançando intellectualmente um pouco na
civilisação
moderna.
E em taes circunstancias, como dizia Taine, ha bons
vinte
annos:—
A Arte
é o
reflexo dos costumes.
Antonio de Lemos (Alvaro).
Cabeça de negra (Bronze)
Cabeça de negra (Bronze)
DUQUEZA de PALMELLA
NOTAS d'ARTE
I
Impressões d'uma Exposição
Ha muito tempo já, deveria ter vindo dizer da bella
impressão que me causou a 1.ª
Exposição organisada
pelo
José Malhoa
José Malhoa
Instituto de Estudos e
Conferencias, mas
os meus affazeres obrigaram-me, para
gaudio dos meus leitores (pois critica
incompetente como a minha quanto
mais tarde melhor), a só hoje cumprir
este dever.
Fui vêr a exposição sete vezes, e
de cada vez que lá ia, novos encantos
encontrava nos trabalhos expostos,
pois a tentativa do Instituto teve o resultado
mais brilhante que podia desejar-se.
Concorreram a este certamen
desde os nossos melhores artistas até
aos mais modestos amadores, e na generalidade
todos se apresentaram dignamente,
não obstante um
critico
d'arte ter dito, em um semanario d'esta
cidade, que aquelles trabalhos eram
meras
chromolythographias. Uma
duvida me assalta o espirito
relativamente aos conhecimentos artisticos e criterio de tal
critico. Saberá elle o que são
chromolythographias? Mas, deixemos
a cada um o seu modo particular de vêr... e de apreciar,
e vamos ao que importa... Demais, a lua está tão
alta?...
Vi, como disse, varias vezes os cento e dezesete quadros
expostos, os dous bustos e o medalhão em marmore.
José de Brito
José de Brito
Dos trabalhos de esculptura direi
apenas que os dous
primeiros são obra de Fernandes de Sá,
pensionista do Estado,
que em Paris completa
a
educação artistica
do seu muito talento. A cabecita de creança,
em marmore, é um encanto, aquella boquita
admiravel de bébé pedia milhares de
beijos...
O medalhão de Joaquim Gonçalves é
uma bella copia de um primoroso trabalho
do grande mestre Soares dos Reis.
Agora, emquanto a quadros, ponho
em primeiro logar, dôa a quem doer, os
dous trabalhos de Malhoa, esse admiravel
artista da Luz e da Côr. Eram um assombro
os seus quadros.
Que grande calamidade―José Malhoa
Que grande calamidade—josé
malhoa
O
Gozando os rendimentos, estudado
com cuidado e traçado largamente,
empolgou-me por completo e fez-me gosar,
conjunctamente com o personagem estudado, toda aquella
commodidade natural de bom burguez que procura um amplo
jardim publico para fazer
socegadamente o seu chylo.
Esta impressão forte
que tive, confesso-o, foi
devida talvez ao meu burguesismo.
No
Que grande calamidade,
as figuras trabalhadas
com um rigor
de verdadeiro mestre, são
flagrantes na sua dor, ao
verem o seu querido porco,
morto na pocilga. Talvez
que, se entre as cabeças
das figuras e o rebordo
do caixilho houvesse um pouco mais de tela, mais imponentes
ellas ficariam.
E depois d'isto, de ter dito o meu modo de pensar sobre
tão primorosos trabalhos, vou, salteando o catalogo, dar a
nota dos quadros que mais me prenderam a
attenção.
Chrysantemos―António Costa
Chrysantemos—antonio costa
Marques de Oliveira, como sempre, distinctamente. É
inegavelmente um grande desenhista. As suas
Impressões de
Espinho, são bellas e tanto, que uma foi
adquirida pelo
Instituto
por indicação do jury competente.
A Azenha, um encanto,
Cabeça
de estudo,
um primor.
Greno,
a fulgurantissima
artista,
bem,
admiravelmente.
Então os
Pensamentos?
Esse,
era uma
delicia.
Antonio
Costa,
para mim
o unico
pintor portuguez de flores, não desmereceu a sua grande fama
e, os
Chrysantemos e
Na vindima, deram-me a prova
evidente
da sua muita aptidão para este genero de
pintura.
Candido da Cunha
Candido da Cunha
Candido da Cunha, um novo de muito
talento, com o seu
Ultimos raios de sol,
que
já conheciamos e que foi adquirido tambem
pelo Instituto, com os seus—
Mar
calmo,
Martyr e
Barcos de
pesca, merecem hoje,
como sempre, os nossos elogios.
Julio Ramos, outro novo,
paisagista
apaixonado e distincto, dando ás suas paisagens
um tom de verdade admiravel. O
Macieiras em flor, em especial e as
outras
dezeseis telas, lindas a valer.
José de Brito, um mestre, talvez abusando um pouco
das cores finas; todos os seus quadros são bons, mas para
mim
superior a todos é o
Mulher do
novello, estudo admiravelmente
feito de uma velha repelenta, flagrantissima de verdade na
expressão do rosto. Na
Infancia de
Diana,
João Augusto Ribeiro
João Augusto Ribeiro
bello estudo do nú, alguma coisa me
desagradou á vista, especialmente um
cão que se via nos ultimos planos...
João Augusto Ribeiro, bem nos
seus pequeninos quadros
Retalhos,
Lar.
D. Lucilia Aranha, uma verdadeira
artista, cheia de talento e de força
de vontade, mais uma vez affirmou,
com os treze quadros expostos, as suas
aptidões artisticas.
Retrato de minha mãe―Torquato Pinheiro
Retrato de minha mãe
torquato pinheiro
Torquato Pinheiro veio marcar
n'esta exposição o seu logar definido e assente
ao lado dos
bons artistas.
Um caminho
encharcado,
Manhã d'Abril,
Margens do Leça,
e todos os demais são feitos com alma
de verdadeiro artista. Mas, a destacar,
como primor de execução, o
Retrato
de minha Mãe, que é um trabalho
notavel.
D'entre os amadores, extremarei
D. Leopoldina Pinto, com as suas flores,
especialmente o
Pelargonios, que
senti não tivesse preço para ser adquirido.
Mais artistas e amadores concorreram
a este delicado certamen, mas,
não me demorarei na enumeração dos
seus trabalhos, porque isso iria ainda
muito longe e os meus leitores, decerto,
se até aqui chegaram, já bastante
se tem aborrecido da semsaboria d'esta minha despretenciosa
prosa, que do modo algum aspira ao nome de critica.
II
PINTORES PORTUENSES
JULIO COSTA
Convidado a delinear um artigo sobre o pintor portuense
Julio Costa, pensei primeiro esquivar-me a
tal empreza porque me julgo insignificantemente pequeno
para fallar d'este artista.
Julio Costa
Julio Costa
Mas, antepondo a esse primeiro
impulso a amizade que lhe dedico,
resolvi acceitar o encargo, e, tal
como posso, desempenhar esta missão.
Será
um artigo despretencioso,
sem preoccupação do estylo ou requinte
de forma, um artigo modesto
como eu e como o temperamento do
pintor illustre de quem me vou occupar.
Não conheço escolas, não discuto
artistas, não cito nomes estrangeiros,
nem rebusco particularidades
de
metier.
Quando me occupo da pintura
e de pintores nacionaes digo simplesmente,
indiscretamente, a impressão
que os quadros me deixam. Nada
mais. E hoje, ao traçar estas linhas a respeito de Julio
Costa,
não venho, acreditem, fazer a
apreciação, pretenciosa ou sabia,
da obra d'esse pintor; venho simplesmente deixar-lhe,
sob o seu nome já aureolado pela critica consciente, o
laurel
amigo da minha admiração.
E posto este preambulo, ahi vae o que me parece dever
dizer do Julio Costa.
Portuguez de nascimento e condição, alma que se
espande
na mais suave de todas as alegrias—a familia—Julio
Costa vem, de ha tempos para cá, vivendo quasi
exclusivamente
para os seus parentes, para
os seus discipulos e para os seus
trabalhos.
Conselheiro João Franco―Julio Costa
Conselheiro João Franco
julio costa
É um d'estes homens com
quem, mesmo sem fallar, se sympathisa
logo á primeira vista.
É lhano de trato, affavel,
de maneiras delicadas, cavaqueador
emerito, tendo sempre um
dito alegre para retorquir a um
remoque que se lhe atire. Nunca
deixa de chalacear, a não ser
quando tem algum dos seus doente.
Então, sim, então abate-se todo
na dôr d'aquelle que soffre e
deixa-se levar n'essa corrente de
magua que o subjuga brutalmente.
É uma luminosa alma dada
ao bem e a tudo quanto é bom,
e d'ahi a uncção deliciosa e meiga
com que elle concebe os seus
quadros de genero.
Hoje, posto em foco, pelo brilhantismo dos seus ultimos
trabalhos, deve orgulhar-se de ser um dos pintores preferidos
nas commemorações aos homens notaveis do nosso
paiz.
O retrato é inegavelmente o genero que Julio Costa
mais accentuadamente trata e que mais em evidencia o tem
collocado.
O retrato de El-Rei pintado para o salão do Tribunal da
Relação, os retratos de Oliveira Martins, Dr.
Ricardo Jorge,
João Ramos, Dr. Eduardo Pimenta, Conselheiro Campos
Henriques,
Conselheiro João Franco, e muitos outros,
são affirmações
publicas do que digo.
O primeiro, é largo de ideia, magestatico de pose, tocado
de iriadas côres, pois assim o pedia o grande do personagem.
Collocado no amplo salão do Tribunal toma um aspecto
soberbo, que nos infunde respeito.
Oliveira Martins―Julio Costa
Oliveira Martins—julio costa
O segundo, em que a figura de Oliveira Martins, essa
imagem de santo e de
philosopho, se nos
apresenta sentada em
larga cadeira de espaldar,
em posição natural
de quem entretem
uma conversa, ao
contemplal-o, como
que se escuta a sua
voz de mestre, que
discreteia sabiamente
sobre os intrincados
problemas economicos
do nosso paiz, ou
sobre os notaveis factos
da nossa historia.
E todos os outros,
todos, são verdadeiras
obras primas.
Não esquecerei
fallar do seu ultimo
trabalho, do retrato
do Conselheiro João
Franco, o homem forte
e duro que emprehendeu,
n'um arranco de verdadeiro portuguez, remodelar,
n'um molde novo e n'uma nova orientação, a marcha
dos negocios
publicos.
D'esse retrato já eu disse, quando tive occasião
de o ver
pela primeira vez, o seguinte:
«É grande, na magestade da sua tela ricamente
emmoldurada,
o retrato do snr. Conselheiro João Franco.
«Absorve por completo a nossa attenção.
Está executado
n'um correctissimo desenho, tocado d'uma distincta tonalidade
de côres, n'um flagrante de pose e de
semelhança.
Ao retrato do Conselheiro João Franco só lhe
falta fallar para
ser o proprio.
«Quanto mais o contemplamos, mais correcto e mais
perfeito achamos este trabalho. A figura parece que se destaca
da tela, tal é a perspectiva que Julio Costa lhe deu;
ás
vezes como que a vemos mexer-se. Depois, ha um não sei que
de vida, que nos faz imaginar que os olhos se movem, que os
labios se vão descerrar para fallar.
«E as roupas, que delicada feitura, que
nuances de verdade!
Na facha que ella ostenta, vermelha, ha reflexos de
moiré.
«O retrato em questão não é
simplesmente um retrato;
é mais do que isso:—é um quadro».
Todos estes seus trabalhos nos encantam e deslumbram,
porque Julio Costa sabe apanhar tudo quanto vê em volta de
si. Sabe ver, que é o essencial. D'ahi o colher a
expressão da
Impressão. Mas a Impressão escolhida,
não da natureza selvagem,
mas sim da natureza civilizada e culta.
Julio Costa é um civilizado! É um delicado!
É um
raffiné (desculpem o
francez).
E é esse effeito de
raffinerie e essa
predilecção pela impressão
escolhida que elle transporta aos seus retratos.
Elle conhece bem o indefinivel e delicado interesse que
se desprende das linhas d'um rosto.
Elle sabe que nada é tão impressionante, para
nós que
contemplamos os quadros, como essas figuras immoveis e mortas...
mas que estão vivas!...
E os seus retratados vivem nos seus retratos.
Em uma palavra, Julio Costa não pinta
um
retrato do
seu modelo... pinta
o retrato.
Cada uma das nossas sensações, das nossas
emoções, dos
nossos sentimentos, cada um dos nossos desejos, das nossas
esperanças, dos nossos pensamentos secretos altera
constantemente
a nossa physionomia.
A cada minuto, a cada segundo, qualquer de nós se
transforma, e deixamos de ser então semelhantes a
nós mesmos.
Mas, Julio Costa sabe discernir n'essas fugitivas
transformações
aquelle
momento, que é
sempre da nossa figura,
sabe fixar na mobilidade imperceptivel das linhas d'uma physionomia
o seu aspecto caracteristico. Sabe reunir n'um gesto
a multiplicidade das nossas attitudes.
E é por isso que Julio Costa, ao pintar o retrato, tem
uma grande preponderancia sobre outros artistas.
Demais a mais elle possue o que falta a muitos outros,
uma bella correcção no desenho.
Que o desenho não é só como muita
gente pensa o esqueleto
da pintura.
Não, o desenho é uma parte integral d'ella, o
desenho
é a propria pintura.
Já um celebre pintor francez, cujo nome não
recordo
agora, dizia dos seus desenhos—
A côr dos
meus desenhos...
como se o desenho não fora unicamente uma
apresentação do
claro escuro.
Mas é que a pintura sem um bom desenho, onde se definam
os tons e meios tons, onde se delineem as distancias e
as perspectivas, seria uma coisa chata, sem vida, sem relevo.
O Soler architecto, esse bello rapaz cheio de talento que
a Morte avidamente nos levou ha um bom par d'annos, dizia-me
uma tarde em que me fazia uma prelecção sobre as
vantagens do desenho:—«Olhe, se você quizer um bom
quadro
desenhe-o primeiro em todas as suas minudencias, com
todos os seus effeitos de perspectiva, com todos os seus claro-escuros
e, depois, a esmo, cubra isso com as tintas d'uma
paleta e terá um bom quadro. Olhe que n'isto de pintura o
desenho é tudo».
E de facto assim é: para se poder pintar bem o que
é
preciso primeiro é saber desenhar. E Julio Costa sabe
desenhar.
D'ahi o elle dar aos seus trabalhos uma
corecção distincta.
Mas, Julio Costa não é só notavel no
retrato. Julio Costa
é-o tambem em outros generos de pintura. No assumpto
religioso
deu este artista provas indiscutiveis das suas aptidões.
O
Calvario, que elle pintou para a
egreja do Bomfim, é
o melhor attestado do seu
savoir
faire. D'essa obra prima, que
veiu abrir uma polemica entre um critico da
Palavra e o conego
Alves Mendes, dizia este ultimo no seu
opusculo—
A
O Calvario―Julio Costa
O Calvario—julio costa
crucificação de Jesus:—Outros
quadros de egual
natureza adoecem de monotonia
e languidez. Este
não. É tal a firmeza do
desenho, tal a riqueza das
tintas, tal e tanta a genial
inspiração artistica, que a
gente admira irresistivelmente
e applaude enthusiasticamente
esta magistral
pintura de Julio
Costa.
Que melhor e mais
auctorisada opinião que
a d'este
pintor da
oração,
este artista genial da palavra,
que desenha com o
seu verbo inexgotavel os
mais fulgurantes e mais
flagrantes quadros? Como
consagração a um artista
não as tenho visto
melhores nem mais perfeitas.
Quando Julio Costa
se entretem a fazer o quadro
de genero, tambem,
n'esses momentos, não
deixa o seu nome em má
posição. Ahi, como nos
outros trabalhos, elle sabe
dar aos seus typos e
aos seus assumptos o quer
que seja de suggestivo, de
impressionante.
Não é cousa simples
enumerar a sua obra, porque
ella não é uma insignificancia.
No entretanto, como
é do meu desejo levar o mais longe possivel a
resenha dos seus
trabalhos, ahi vae o titulo d'alguns d'elles, que mais se notabilisaram
nas exposições onde teem apparecido.
Em primeiro logar colloco eu o
No
Vago, uma pastoral
A Ti Anna―Julio Costa
A Ti Anna—julio costa
de côr, como lhe chamou Oliveira Alvarenga. Era uma larga
tela que resumia
um delicado
poema d'amor.
Em plena
primavera, sob
a luz do lindo
sol, uma moçoila
trigueira e
forte, de seios
proeminentes,
encostada a um
pedaço de terreno
alto e florido,
sonha
n'um vago presentimento
triste. Ia para
os trabalhos do
campo, levava
a sua foice, o
seu cesto vindimeiro,
o seu
chapeu de palha;
marcára
ao namorado
uma entrevista,
na esperança
d'um doce
idyllio, mas o
tempo passa, o
namorado não vem, e ella, na
sobrexcitação do seu amor e do
seu ciume, vae desfolhando malmequeres que ora lhe dizem
sim, ora lhe dizem
não, e, por ultimo, como
que adormece
n'uma febre d'amor, olhos semi-cerrados, com o pensamento
esvoaçando no
vago... Eis
o quadro, que figura lá fora, em
Berlim, para onde foi vendido.
Não esquecerei a
Romeira,
uma fresca rapariga que, em
descantes alegres, parte para a romaria.
E uma
Cabeça de estudo,
que appareceu na exposição de
Arte de 1894, uma linda cabeça de rapariga de olhos vivos,
labios de coral e com o seu lenço de xadrez multicor, que
é
um encanto!
O
retrato do Quinsinho Souto Mayor,
é um estudo de
creança finamente trabalhado com o seu vestidinho de
velludo,
onde assenta uma romeira de renda, tão bellamente pintada,
que dava a perfeita illusão de que eram rendas que alli
estavam
collocadas sobre a tela.
O
Vencido, que é um bom
trabalho tambem, consiste em
um rapazito que, após uma refrega com outros, sae com um
braço deslocado; que suavidade de côr, que
tristeza nos olhos
humidos!
O
retrato da Ti Anna, essa velhita
encarquilhada que,
no fundo do seu casebre, junto da lareira, vai fiando a loira
estriga a pensar no tempo lindo que passou, quando era rapariga
e cantava ao desafio nas esfolhadas e nas espadeladas,
é soberbo. Hoje, a pobre velha canta as tristes
canções com
que embala os netos, e fia o linho com que veste os filhos, que
outras, que são novas, vão espadelando a rir e a
cantar. E
tudo isto se traduz n'aquelle quadro, e todo este romance se
vê alli representado n'uma sentida impressão e
n'uma ideal
concepção.
O
Costume dos arredores do Porto,
é tambem um lindo
quadro—uma cabecita de rapariga do campo cheia de vida
e de frescura.
E a
Mimalha e a
Varanda dos Mangericos e mil outros
trabalhos d'elle?...
Ah! mas vae muito longo este artigo e o leitor não tem
obrigação nenhuma de estar infinitamente a
ler-me; por isso,
ponto.
Julio Costa é para mim um pintor que sabe muito da
sua arte, digam lá o que disserem, e se, dentro da sua
modestia,
não gostar do que eu agora digo d'elle que me perdoe
porque eu só sei dizer o que penso, e isso muito rudemente
ainda.
III
PINTORES PORTUENSES
ANTONIO CARNEIRO JUNIOR
Conhecendo Carneiro Junior ha muito, por ter tido já
occasião de apreciar os seus trabalhos em outras
exposições,
corri, apressadamente, incumbido por a redacção
da
Vida Moderna, a vêr a
nova exposição dos seus ultimos
Antonio Carneiro Junior
Antonio Carneiro Junior
trabalhos, com o grande interesse
de conhecer o progresso e o
desenvolvimento artistico d'este bello
cultor da arte da pintura.
E, francamente o confesso, as
minhas espectativas confirmaram-se.
Carneiro Junior, que era um dos novos
que mais promettia, obteve, com
o seu estudo no estrangeiro, a verdadeira
comprehensão da arte de
pintar, affirmando-o desde já com
os magnificos trabalhos expostos no
atrio da Misericordia.
Pintando em todos os generos,
como elle mais se avigora, e mais
demonstra o seu talento é, a meu
vêr, como pintor de figuras.
A paisagem e a marinha não são o genero que mais
o
tentam, o que não quer dizer que não tenha
paisagens adoraveis
e marinhas deliciosas.
É preciso porém notar-se que, quem escreve estas
linhas,
é um mero amador que vem simples e unicamente dar a resenha
dos quadros expostos e a sua impressão pessoal,
dizendo
simplesmente gosto ou não gosto, sem me prender nunca em
considerações sabias sobre o modo de pintar de
cada um. Não
citarei escolas hollandezas, flamengas, etc., etc. com ares sabios
de critico emerito.
E não o farei, porque entendo que para se escreverem
artigos substanciosos e chorudos sobre tal assumpto é
necessario,
antes de mais nada, ter visto alguma coisa d'essas escolas
e d'essa pintura, acompanhado isso da leitura de livros da
especialidade.
E, vulgarmente, não succede assim. Muitos dos nossos
criticos conhecem esses quadros e essas escolas porque algum
amigo, vindo lá de fóra, lhes trouxe, como
recordação, catalogos
dos muzeus que viu por lá, e é por ahi que elles
fazem,
a maior parte das vezes, critica. Ora eu, como nunca vi muzeus,
Retrato―Antonio Carneiro
Retrato—antonio carneiro
nem tenho lido livros sobre
pintura, não faço critica,
faço a minha reportagem, deixem-me
assim dizer. E posto
isto, lá vae a impressão pessoal
que me ficou d'alguns dos trabalhos
de Carneiro Junior. E
elle que me perdôe se não
gostar.
Em primeiro logar, se bem
que não sejam estes os principaes
trabalhos, ponho eu os desenhos
a sanguinea—-que figuram
no catalogo com os n.
os 27
e 28,
Figuras para a fonte do
Bem; 10,
Estudo para o quadro
do Amor; 6,
Estudo para a figura
Esperança; 25,
Estudo
de creança para a fonte do
Bem.
Os retratos do
Marcos Guedes,
n.º 43; do
dr. Alfredo de
Magalhães, 34; do
Antonio
Patricio (filho), 32; de
J. Teixeira
Lopes, 36; do
Claudio, 40; e os dous retratos de
R. C., 37 e
38, são magnificos.
Em todos elles ha um tom de vida e muito de alma, especialmente
nos dois ultimos, em que o artista põe todo o seu
sentimento de amor.
O quadro
Tarde no mar, n.º 56,
é delicioso; como que
se sente, ao olhal-o, aquella cadencia ou melopeia que o grande
mar sabe cantar quando suavemente beija a areia fina da
praia.
Campo de trigo, n.º 77; em
Auvay, impressão de
frente,
89; impressão,
(
Bretanha), 71; em
Leça,
impressão, 68; o
Tamega,
(Amarante), 67; o
Sena em Auteil,
62;
Pinheiros ao cahir
da tarde, 57; ...são, para mim,
sentidissimas paisagens
onde a nossa vista se perde e o nosso espirito se embrenha
como em paginas brilhantes da
Viagem da minha
terra, de
Garrett.
Ha alli tambem um quadro,
Leitura,
de que muito
gostei. N'um interior de casa escura, á luz de um candieiro,
tres mulheres, uma das quaes lê. É admiravel
não só de execução,
como de composição.
O esboço do quadro
Fonte do
Bem é apreciavel e bem
desejariamos vêr o quadro definitivo.
E, antes de terminar, deixe-me Carneiro Junior dizer-lhe
que o seu triptyco, é, para o meu fraco entender, um d'estes
geniaes poemas que só os grandes artistas sabem conceber.
Emquanto á sua execução acho-a
primorosa.
A Esperança,
deliciosa virgem estudada e delineada com toda a pujança
d'um bello espirito;—
O
Amor—assombroso de execução;
ha
n'aquelle cavalleiro todo em aço vestido, a virilidade d'um
cavalleiro andante;
A Chimera,
fundamente abstracta, na sua
côr doentia e na sua expressão de verdadeira
Fatalidade olha
o quer que seja de horrivel, guiando o fogosissimo cavallo em
que monta o cavalleiro;—
Saudade—na
base d'uma sphinge
sonha uma mulher, toda de negro vestida. Quanta doçura
n'aquella expressão de tristeza! Como o pintor soube dar
áquella delicada mulher a nota melancolica do que
é na realidade
a saudade! Este quadro seria bastante, para definir o
grande talento do artista e o seu temperamento subtil de
poeta.
Que o artista me perdoe se não disse tanto quanto merecia
a sua obra e acceite o parabem sincero de quem só diz
o que sente.
Março 1901.
IV
Thadeu Maria d'Almeida Furtado
palavras ditas á
beira da campa do fallecido professor
Não é, o que vou dizer, uma biographia, nem um
necrologio;
representam simplesmente estas despretenciosas
palavras como que um
Thadeu Maria d'Almeida Furtado
Thadeu Maria d'Almeida Furtado
punhado de saudades espersas sobre
a
campa, ainda mal fechada, do illustre
morto.
Conhecendo-o desde ha muito,
tive sempre por elle uma d'essas venerações
respeitosas de consideração e
amisade, que se tem por aquelles que
vivem sempre de cabeça levantada e
aos quaes não podem attingir nunca
as settas envenenadas da má vontade e
da calumnia. E é por isso que hoje não
posso deixar de vir dizer aqui algumas
palavras a respeito de quem, sempre
se fez querido de todos quantos, uma
vez só que fosse, d'elle se aproximaram.
Thadeu Furtado foi um dos mais antigos professores de
desenho do Porto e dos de mais nomeada; cumpridor dos seus
deveres, como poucos, recto nas suas apreciações,
como ninguem,
quantas vezes fez elle rebentar essas bolhas de balofa
vaidade, com que muitos mediocres se julgavam notabilidades,
e a quem o publico inculto tecia os mais rasgados elogios;
mas, sincero como era, nunca se pejava de dizer as verdades
por mais duras que ellas fossem.
Trabalhador incançavel, até ao ultimo dia, em que
um
desastroso acontecimento o impossibilitou, foi regularmente
occupar o seu logar na Academia, onde hoje era secretario e
onde em outros tempos fôra professor sapiente.
E inegavelmente é a este trabalhador indefeso, a este
morto illustre, que se devem os melhoramentos ultimamente
feitos n'aquella casa de ensino artistico.
Quantas e quantas vezes, reclamados esses melhoramentos
ao governo, foram elles lançados no rol dos esquecimentos,
rol lendario, onde são archivadas todas as cousas uteis do
nosso querido Portugal. Mas, Thadeu Furtado, com a sua vontade
de ferro, ao saber no Porto o conselheiro Elvino de Brito,
então Ministro das Obras Publicas e antigo discipulo da
Academia
das Bellas Artes do Porto, a elle foi e depois de lhe
mostrar, provando de
visu a
necessidade urgente d'aquelles
melhoramentos, conseguiu o que até ali ninguem tinha
conseguido.
E é portanto a este querido morto que se deve o ser
hoje a Academia de Bellas Artes, senão um modelo de escolas
para o seu genero, pelo menos um estabelecimento que
não nos envergonhará quando mostrado a
estrangeiros profissionaes.
E, doa a quem doer esta minha affirmação, mas
Thadeu
Furtado vae fazer muita falta á nossa Academia.
Como professor foi sempre correctissimo, muito sabido
no seu
métier, e a prova
d'isso está, em que, todos os nossos
grandes pintores de ha sessenta annos para cá, foram todos
seus discipulos e todos teem manifestado esta mesma opinião.
Não fui seu discipulo, mas fui seu amigo e é
unicamente
como tal que venho aqui depôr tambem a minha eterna saudade,
que é tão grande, como foi a minha
consideração e a
minha amisade.
E, para terminar esta minha sincera e triste despedida,
consenti, meus senhores, que vos manifeste tambem aqui um
grande desejo:—Como todos bem o deveis comprehender, uma
divida tem a Academia a pagar ao seu respeitavel professor e
ao seu incançavel secretario; e essa divida só
poderá ser paga
perpetuando-lhe a memoria com um monumento digno d'elle.
Grato me seria, portanto, saber que os alumnos da Academia
de Bellas Artes, reunidos aos professores, lançaram
mão
da ideia de que seja collocado o busto de Thadeu Furtado nos
claustros da mesma Academia.
E, para realisar tal ideia, não terão mais do que
fazer
fundir em bronze um busto, que a familia do fallecido possue,
feito, salvo erro, pelo brilhante estatuario Teixeira Lopes.
E assim, como preito de homenagem ao professor morto, ficará
ligado ao seu nome o nome d'um professor vivo que é
inegavelmente
a primeira gloria da esculptura portugueza.—Disse.
Março 1901.
Lenço em rendas―D. Maria Augusta Bordallo Pinheiro
Lenço em
rendas—d. maria augusta
bordallo pinheiro
V
PINTORES PORTUENSES
ARTHUR LOUREIRO
Arthur Loureiro, esse grande artista que durante
Arthur Loureiro no
Arthur Loureiro no
seu atelier
tantos annos viveu
longe de nós, n'esse
bello paiz, a Australia,
e que uma vez cá,
filho do Porto, amando
o seu ninho com
um amor especial de
artista, apoz a sua primeira
exposição onde
nos mostrou que era
um delicado pintor de
figura, com os seus retratos,
e os seus typos
admiravelmente executados,
vae para bem
perto do Porto, para
Villa do Conde e cheio
de vontade e repleto
de
savoir faire, lança
á tela lindos quadros
que são como filigranas
da arte pintural.
Antes porém de
atacar o assumpto que
nos obriga a tomar da penna e rabiscar estas linhas permittam-se-nos
algumas phrases ligeiras de introito.
Ao entrarmos no atelier de Arthur Loureiro, decorado
com uma distincta simplicidade, tem-se a suave impressão
que o artista que ali trabalha é um bom e um delicado.
Confortavel
e amigo, aquelle atelier sem pretenção a luxo,
todo
elle resuma elegancia e bom gosto. Sem estofos custosos, meros
cobrejões de farrapos, em tons escuros, biombos simples
de couro lizo, moveis de linhas correctas desenhados por
o proprio artista e executados sob a sua
direcção, é d'um
effeito soberbo! O indifferente, que ao acaso ali vá, tem
com
certeza a impressão de que entrou na casa d'um amigo.
Barra, Foz-Douro―Arthur Loureiro
Barra, Foz-Douro—arthur loureiro
D'entre os moveis, que guarnecem o atelier, destaca-se
um largo divan-estante com as costas pintadas a sepia, que
nos dá a impressão de uma pirogravura.
Mas não vamos occupar-nos do atelier, vamos unica e
exclusivamente fazer uma resenha despretenciosa e sincera
dos quadros expostos e do effeito que nos deu a visita á
exposição
aberta agora ao publico.
Arthur Loureiro não é somente um pintor.
É mais do
que isso, é um esculptor consummado. O caixilho para
espelho,
o do quadro
Convalescente, e um
outro onde se ostenta o seu
retrato aguarellado por Columbano, são bellos.
Mas, o que me encanta, o que me fascina, é o frontal
para uma arca, onde se guardará o enxoval d'um filho
querido.
Este frontal, desenhado e executado por Arthur Loureiro,
é como que uma symphonia d'amor, sob o thema sublime do
martyrio da maternidade.
Frontal d'uma arca (esculptura)―Arthur Loureiro
Frontal d'uma arca (esculptura)—arthur
loureiro
Sem minudencias de descripção, sempre diremos que
a
bordadura que cerca a figura da mãe tendo no
regaço o filhito
querido, é feita com flores de martyrios em todas as suas
evoluções,
desde o pequenino botão até á flor
completamente
aberta e em todo o seu frescor. Flores, folhagem e figuras soberbamente
executadas.
E agora, posto isto, entremos pela pintura dentro.
Não somos do
métier, nem aspiramos a
critico de arte;
mero amador, vendo talvez um pouco bem, sentindo a dentro
da alma qualquer coisa de meigo, por uma paisagem triste, e
qualquer coisa de vibrante em frente d'um retalho da natureza,
que o sol banha luxuriantemente.
Amando os quadros pela poesia que infundem, subjugado
pela impressão, que nos deixa qualquer cousa que nos agrada.
Eis o modo como vemos as obras d'arte, quer ellas sejam
d'um novo, quer ellas sejam d'um mestre. E por isso a
despreoccupação do meu modo de escrever. Pondo em
evidencia
ás vezes quadros d'um valor mediocre e deixando no escuro
verdadeiras obras de arte. Que nos perdoem os artistas
essas faltas e vamos á exposição de
Arthur Loureiro que foi o que aqui nos trouxe.
Fallarei d'esses quadros pintados em Villa do Conde,
antes porém deve ter especial menção o
largo quadro da nossa
barra, pintado n'um pôr de sol irisado, cheio de poesia, com
tons d'ouro que se reflectem na agua superiormente. É um
quadro este, de si bastante notavel para definir o artista.
E agora, que puz em evidencia o
quadro que
O Passado―Arthur Loureiro
O Passado—arthur loureiro
para mim
se affigura mais
notavel, vou dizer
da minha impressão
dos outros quadros
expostos.
Um grande ramo
de lilaz, que
parece espalhar no
ambiente o seu perfume
doce e meigo,
está feito com
tanta frescura e tal
graça, que nos tenta
a cortar um pequenino
ramo para
a nossa botoeira.
As bellas rosas
escuras, d'um avelludado
meigo e fino,
como que tentam
na sua confecção
a uma offerta
gentil para a nossa
namorada.
São pedaços vivos de natureza,
lançados á tela, com proficiencia
e carinho.
Um cãosito
mops com o seu
focinho birrento e negro e
o seu pello amarellado dá-nos, a mim pelo menos (que eu sou
doido por cães), vontade de o ameigar, de o chamar
carinhosamente
e roubal-o ao artista. Collocado á entrada, talvez por
acaso, é como que um fiel guarda d'aquelle encanto de
atelier.
Este quadro está feito com cuidado, o que me dá a
entender,
que o artista segue a theoria d'um escriptor celebre que dizia:
—Quanto mais conheço os homens, mais amigo sou
dos cães.
Andam os nossos pintores delineando paisagens, por
esse paiz em fóra e nenhum, que me lembre, tinha ido pintar
para Villa do Conde. Talvez porque julgassem não haver alli
nada que pintar e Arthur Loureiro, que ha vinte annos estava
fóra do seu paiz, chegou e para socegar dos seus trabalhos
escolares foi para essa linda praia descançar e que
descanço o
seu, voltou trazendo na sua bagagem deliciosas telas, formosissimas.
Querer citar as melhores seria cital-as todas, eu porém
notarei como primordial—
A Senhora da
Guia—depois,
as
Azenhas e d'estas não
sei se o que resplende de sol, se o
outro, feito por uma manhã triste de chuva.
Não voltará mais―Arthur Loureiro
Não voltará mais—Arthur
Loureiro
A
Igreja matriz, tambem o noto pelo
bello do effeito.
Como uma mancha retumbante, n'aquella suavidade de côr,
os reposteiros da igreja fazem resaltar o quadro (ora aqui
está
onde eu decerto dou raia, em ter recebido uma bella
impressão
pelo vermelho que destaca do quadro, mas sou assim e
não ha nada que me atrapalhe).
A
Paisagem geral de Villa do Conde,
com o seu convento
e a sua cazaria branca é formosa.
O Passado, quadro cheio de poesia e
de candura. Como
um poema, de amor, de dôr e de miseria aquella velha sentada
á porta da igreja, onde talvez ella se baptisara,
casára e
seria enterrado o seu companheiro de muitos annos, talvez
um pescador, que ella hoje chora, pedindo esmola, na sua miseravel
e angustiosa viuvez.
Mas vamos fechar este artigo que vae já longo de mais.
Antes porém notaremos dous quadros, um que se
intitula—
Não
voltará mais, e que é outro
poema de dôr. Junto d'uma
bella arvore em flor, um redondendro, uma viuva e uma
creança olham o mar.
Esse mar gigantesco e barbaro que foi, decerto, quem
subjugou para sempre o ente querido d'essas duas figuras
insinuantemente
bellas nas suas
silhouetes.
O Convalescente é um
retrato primoroso do nosso amigo
dr. Francisco Loureiro, irmão do distincto artista.
É um trabalho feito com muito amor e muito saber.
Flagrante de verdade e correctissimo de desenho. É um bello
retrato.
Que me perdoe o artista esta prosa desenchabida e vulgar,
mas, mais não póde dar a minha pena. No entanto
ha-de
ver o publico que eu não quiz fazer o réclame do
pintor nem
a apologia do homem, fiz unica e exclusivamente a resenha
rapida e sincera do trabalho correcto d'um poeta lyrico da
pintura que entre nós vem, se não, fazer uma
revolução na
arte, dar no entanto a nota brilhante, do que deve ser o paisagista
portuguez; pintar a nossa paisagem, sem tons exoticos
de côr trazidos dos paizes estrangeiros. Porque Portugal com
o seu ceu e os seus verdes não póde ser pintado
com as cores
das paisagens bretãs.
E mais nada.
Outubro 1902.
Na Eira―Lucilia Aranha
Na Eira—lucilia aranha
Uma das manifestações mais vivas da arte
é a esculptura.
Esculpir em marmore ou em bronze a figura
de um individuo, é, como que, deixal-o por toda a
vastidão
dos seculos á admiração, ao respeito
ou á saudade dos
seus concidadãos ou dos seus amigos.
É a nota
constantemente vibrante de
uma individualidade. Mais duradoura
do que a pintura, é ella que, arrostando
nos logares publicos com a intemperie
dos tempos, mostra aos que passam
um capitulo da historia dos povos,
um acto de alta philantropia, ou a saudosa
recordação d'um ente querido que
a morte nos roubou.
E não é só isso; empolgando o
nosso espirito, dá a concepção
perfeita
d'uma ideia genial que o artista quiz
vivificar, dando á dura e informe pedra
ou ao frio bronze a pulsatibilidade
da natureza viva.
A esculptura, na sua larga e
educativa esphera, desde o poema grandioso da patria, nos
heroes que faz reviver, até aos santos, que a
religião faz venerar
nos altares, com a larga escala de mil variadas
manifestações,
é uma das mais difficeis, se não a mais difficil
de todas
as manifestações artisticas.
E, todo este preambulo para vos dizer, que visitei hontem
a exposição de esculptura, que o notavel
estatuario Fernandes
de Sá abriu no seu gracioso
Este moço esculptor, cujo nome não é
já uma esperança,
mas sim uma affirmação segura, dá-nos,
com a exposição dos
seus trabalhos feitos aqui e em Paris, a
demonstração mais
definida e assente, de que é um d'aquelles artistas que mais
futuro teem, dentro da sua especialidade.
Não o queremos collocar a par do grande, do genial Soares
dos Reis, mas pomol-o aproximadamente no mesmo plano
de Teixeira Lopes; depois, elle é novo e tem uma vontade de
ferro;
ora estes dois bellos elementos,
a mocidade e a energia,
juntos ao seu grande talento
e ao seu muito saber,
dão-nos a garantia de que elle
ha de fulgurar, como um astro
de primeira grandeza, na
sublime arte de Milo.
Fernandes de Sá, a continuar
assim, não ha-de ser notavel
só entre nós, ha-de sel-o
tambem lá fóra, no estrangeiro.
E bom será que assim succeda,
para que no mundo civilisado
se faça a verdadeira
justiça aos nossos artistas e
se não pense que isto aqui é
uma terra de selvagens.
Mas, deixemos estas divagações
e entremos no assumpto
que me proponho expôr:
Notar as obras que Fernandes de Sá expõe, e isto
ao de
leve, como quem quer e não póde, por falta de
elementos, embrenhar-se
em philosophicos problemas d'arte.
Dezoito são os trabalhos expostos, qual d'elles o mais
empolgante, qual o mais bem executado.
, estatua em
marmore de Carrara, destinada ao
Museu de Artilheria de Lisboa. Após o naufragio, o grande
epico portuguez salva, n'um heroico esforço, a sua espada e
o
seu poema—eis o assumpto representado por esta bella estatua.
N'uma attitude de desesperada ancia, o corpo fidalgo
de Camões, sobre uma rocha, a mão direita
crispada agarrando-se
a uma saliencia da penedia, na esquerda a espada e o
poema sobre o coração, parece escorregar,
resvalando na voragem
da onda, que n'um desespero revoltoso se quebra de encontro
áquella molle de marmore. Sublime de
concepção. Na
figura elegante e adelgaçada de Camões ha linhas
d'uma senhoril
fidalguia.
Tratado aquelle marmore com o encanto e o amor d'um
verdadeiro portuguez, o esculptor não perdeu uma minudencia,
por mais pequena que fosse. Tudo estudado com perfeita
segurança, com verdadeira mestria, desde a musculatura
reteza
e vigorosa d'um desesperado em lucta com o mar, até ao
desalinho
da roupagem, tudo elle viu, tudo elle estudou conscienciosamente.
E, fugindo da vulgaridade das concepções sobre
este thema, Fernandes de Sá realisou—segundo o nosso modo
de vêr—uma obra genial.
, é um
grupo em gesso, que vós já
conheceis de quando esteve ahi exposto na
Exposição da Sociedade
de Bellas-Artes, onde mereceu a segunda medalha,
tendo já adquirido a terceira medalha na
exposição de Paris
de 1900.
, (grupo em gesso).
Verdadeiro poema de
amor maternal. Uma linda mulher, deliciosamente esculpida,
sustendo no collo um formoso
, que ella
beija n'uma subtil
ancia de ternura. Foi este o seu trabalho final para o concurso
de esculptura em Paris, como pensionista do Estado. É um
encanto.
. Este gesso é d'uma
bella idealisação. Uma formosa
mulher, completamente nua, de linhas primorosas, pousa
sobrenadando nas ondas revoltas d'um profundo mar e reclina-se
docemente, como adormecida ao marulhar da agua. Ao
contemplal-a deu-nos o coração um baque e
confrontando na
mente a mnemonica de quadros vistos, lembrámo-nos d'um,
que nos pareceu a reproducção em pintura
d'aquelle soberbo
trabalho, e no nosso espirito ficou como que um espinho a
esse respeito. Alguem, mal intencionado, poderia dizer que
José de Brito tinha ido alli beber a sua
inspiração e o modelo
para o seu quadro
.
Nós não nos abalançamos a tanto,
nem isso queremos pensar sequer, porque José de Brito
é um
grande pintor...
Ah! Mas, onde se revela o coração delicado e a
alma poetica
do moço esculptor, é no grupo
. Que soberba obra!
Com que carinho, com que amisade não foi executado aquelle
gesso!
Vê-se que o artista poz alli toda a sua alma de
moço e de
moço apaixonado. Aquellas duas raparigas, d'um olhar meigo
e terno, que o estatuario delineava, com certeza emquanto
elle trabalhava cobriam-no com os seus doces olhares n'uma
caricia amiga de irmãs. Alli poz elle toda a sua alma
lyrica,
como no
verde que lhe dá um tom de novidade. O assumpto é
uma
cabeça de mulher do povo, com o seu lenço. Nas
linhas de
aquelle rosto ha muita verdade, e um tal ar de languidez, que
logo se nota que dentro da alma do modelo havia um certo
quê de pena ou de saudade.
E tudo isto é lindo e tudo isto é bello,
não esquecendo
fallar nas cabecitas de creanças que lá vimos.
Deixei para o
fim isto, porque tendo eu uma predilecção
especial por creanças,
comprazia-me todo em ser n'ellas que fallasse por ultimo.
Que encantadores! Com que amor elle não esculpiu no
frio marmore aquellas quatro perolas, aquellas deliciosas
creanças,
que são mesmo um primor!
Uma vez, n'uma exposição que Teixeira Lopes fez
no
pateo da Bolsa, havia lá um
, o
retrato d'um sobrinho
d'elle, e eu, estando alli só, não me furtei ao
desejo de o beijar
e beijei-o, tal era o seu encanto.
Pois quando visitei a exposição de Fernandes de
Sá, se
lá me visse só, posso affirmal-o, beijava todas
essas creanças
n'uma infinita alegria, porque as julgava vivas. São
realmente
uns delicados e subtis bustos, que me deslumbraram.
E eis em meia duzia de linhas a noticia da visita que
fiz, por uma linda manhã, ao atelier de Fernandes de
Sá, onde
a luz forte do sol, coada atravez dos brancos transparentes,
n'uma doçura meiga, fazia resaltar os marmores esculpidos,
como n'uma luminosa penumbra de sonho.
E permitta o moço esculptor, que tão gentilmente
nos
recebeu, e com tanta modestia nos apresentou os seus gloriosos
trabalhos, que lhe digamos que o seu talento lhe dá direito
a mais um pouco de orgulho, e não a querer deixar-se
na modestissima sombra dos que pouco valem. O seu
nome e a sua obra, repito, não são uma
esperança, não; são
uma affirmação segura de que elle é um
dos primeiros estatuarios
portuguezes.