Outubro 1902.
Busto (Antonio Cano)―Fernandes de Sá
Busto (Antonio Cano)—fernandes
de sá
VII
Exposição da Sociedade de Bellas-Artes de Lisboa
carta a um redactor do "correio da
noite"
Não me conhece, nem isso é necessario, para o que
eu
lhe quero confiar. Não é um segredo e, portanto,
se
achar interessante o que lhe vou dizer, conte-o ao
publico, a esse publico despreoccupado, que lê as gazetas,
não
para se instruir, mas para ver se o seu nome figura no
Carnet
Mondain,
El-rei
El-rei
ou se alguma cousa
má succedeu
aos seus conhecidos
para ter o pretexto de os
consolar nas suas amarguras
e nas suas desditas.
Conte-lhe o que lhe vou
dizer e estou convencido, que
isso lhe será agradavel, porque
eu, com o meu genio desinteressado
e independente, dou abertamente,
picadelas em quem as
merece, levantando ao ar em
apotheoses de gloria, tambem,
aquelles que a ella teem direito,
segundo o meu modo de ver.
Sou sincero, apenas; nunca me embrenhei nos escaninhos
da politica e, por isso, não conheço a intriga;
nunca calquei os tapetes dos palacios dos nobres e da aristocracia
e, por isso, não conheço a
bajulação; não me tenho
accorrentado ao jornalismo militante e, por isso, não
conheço
as conveniencias de redacção. Sou, ainda, mais
independente
do que o chefe do partido novo, que não quer para seus
soldados senão os que estão isentos do peccado
politico. Sou, emfim,
como os homens do norte; duro como um sobreiro, ingenuo
como uma creança... de bigode, sincero como um convicto
e delicado como uma dama.
Paisagem (pastel)―El-rei
Paisagem (pastel)—El-rei
E feita a minha apresentação, ahi vae o que eu
lhe queria
dizer.
Fui, levado por intensa curiosidade, visitar a
exposição
da sociedade Nacional de Bellas-Artes e dei o meu tempo por
muito bem empregado. E dei por bem empregadas as tres horas
que lá passei, porque morro por coisas d'arte.
A Arte, a grande Arte, cuja definição perfeita,
para
mim, é um mytho, atrae-me como uma feiticeira deslumbrante
e maravilhosa.
Mas a Arte pinctural e esculptural,
essa, extasia-me e não é para extranhar o
vêr-me parado em frente
Cabeça de estudo―Ernesto Condeixa
Cabeça de estudo—ernesto
condeixa
d'um bom quadro ou d'uma bella esculptura, tal qual como
em frente d'uma mulher
formosa.
Mas, deixemos estas
divagações e entremos
no assumpto da minha carta.
Demais, que lhe importa
a si que eu goste ou
desgoste, se o meu caro
nem sequer me conhece de
nome. Antes, porém, de
continuar, ou por outra,
de começar, desculpe esta
franqueza: as aguas de Lisboa
são más e pozeram-me
o figado n'um pessimo estado,
o que deu em resultado
eu ter tido um ligeiro
extravasamento de bilis,
que pode ser se manifeste,
ainda que ao de leve, no
decorrer desta minha despretenciosa
carta.
Uf!... que começo
a massar, não acha? Mas
que quer, eu sou assim, o mal é dar-me corda,
hão-de aturar-me
depois. E posto isto, lá vae.
Fui vêr a exposição e fui sem a
preoccupação de critico
d'arte, unica e exclusivamente como amador, como
dilletanti,
e como tal é que escrevo. Que me perdôem os
artistas, se nada
fôr, a minha apreciação aos seus
trabalhos, que me tolerem os
criticos de arte se a minha
incompetente opinião brigar com
as regras do
metier, e que se ria o
publico se não gostar da
minha prosa e o meu caro redactor se entender que a pimenta
é forte, ou o guizado está mal condimentado,
já sabe o que
tem a fazer, é, cesto dos papeis inuteis com elle.
Barbeiro d'Aldeia―José Malhoa
Barbeiro d'Aldeia—josé
malhoa
Começarei tal qual como indica o catalogo, apreciando,
sob a impressão perfeitamente pessoal d'um provinciano, os
trabalhos expostos, pela sua ordem numerica.
Primeiro estão os de S. M. Este artista-amador
está lá
tão alto que nada poderei dizer dos seus trabalhos.
Unicamente
o que me agradou mais foi o
No Sado—processo
Raffaelli,
se bem que já tive occasião de vêr
trabalhos de muito
maior valo,
se bem que já tive occasião de vêr
trabalhos de muito
maior valor executados pelo mesmo monarcha, que é
inegavelmente
um artista de temperamento definido.
E agora sem respeito nem consideração pelos
artistas e
quiçá amadores, que eu não
conheço, ahi vae a minha opinião
sincera.
QUADROS A OLEO
D. Bertha Alcantara, n.
os 1 a 4—
Natureza
morta e
flores—Natureza
morta e tão morta que dá vontade de... decorar
uma cosinha com ella.—Amores perfeitos, imperfeitos.—Um
agrupamento de lyrios e mimosas, os lyrios bastante
densos, n'um demasiado ajuntamento, que parece esmagarem-se
uns aos outros.
D. Luisa Almedina, n.º 5—Uns cravos sem cheiro,
desconsolados...
Almeida e Silva, n.
os 6 a 15. Pinturas varias,
assaz recortadas
e lambidas, com ar pretencioso de
oleographias caras;
este artista parece andar
para traz, quem pintou
Paisagem―Marques d'Oliveira
Paisagem—Marques d'Oliveira
O Viatico na aldeia,
Um critico d'arte,
Cabeça
de cabrito, (que eu possuo)
tinha obrigação de se apresentar
melhor.
Tem n'esta exposição
um quadro—
O abat-jour
japonez, que é verdadeiramente
uma japonesice
de caixa de chá.
No entanto recommenda-se
o seu quadro—
Tarde
calma de junho, que
está, a meu vêr, bem, e é o
unico que se salva de todo
aquelle montão de arte de
recorte...
Condessa d'Alto
Mearim, n.
os 17 a 19. Tem
merecimento, e muito, esta
amadora—
A Nossa Senhora do Refugio,
bem lançada de
linhas, largas pinceladas dadas sem feminismo, talvez um
pouco coquete, na expressão, para Nossa Senhora, no entanto
um bello quadro. O n.º 17 parece-me estar trocado, pois
não
é
crivel que s. ex.
a pintasse um retrato de F. V.
n'um velho em
traje de fantasia; mas se o pintou, diremos que o trabalho é
bom, a figura está bem estudada,
boa carnação, boas
roupagens, mãos bem trabalhadas,
um bom quadro,
emfim.
Mendiga―Carlos Reis
Mendiga—carlos reis
D.
Maria Luiza Alto
Mearim, n.
os 19 e 20, o
Five
ó clock tea
é um bom quadro
traçado amplamente,
com boa luz e muita expressão
da figura, talvez um
pouco de branco a mais na
cara da dama, que deve ser
da primeira sociedade e que
naturalmente usa muito pó
de
veloutine, e d'ahi o tal
branco!...
Viscondessa de Ameiro,
n.º 11.
Arvoredo—eu
chamar-lhe-ia—
Alvoredo.
Está lá muito no alto, tão
alto, que se perde de vista.
Lembra uma travessa de hortaliça picada para gallinhas.
D. Virginia Avellar, n.º 22.
Supplica.—Uma deliciosa
irmã da Caridade, estudada com carinho e amor, tal quanto
merecia aquelle lindo rosto, que um bello sol banhava n'uma
suavissima emoção de castidade e... affecto.
Merecia, a meu ver, uma menção honrosa, mas...
foi
para outros...
D. Laura Bandeira, n.º 23.
D. Ignez de
Castro, esguia e
airosa, um pouco theatral, regularmente pintada. O galgo que
a acompanha, parece feito de
grafite, e se a D. Ignez continua,
por muito tempo, com a mão esquerda n'aquella
posição,
acaba por cegar o pobre cachorro, pois a metter-lhe um dedo
pelo olho dentro, aquillo dá pelo menos uma conjunctivite...
Leopoldo Battistini, n.
os 24 a 27—dois estudos
de velhos,
um d'elles passavel—o 25.
Avarento,
horrido de luz e
de expressão, parece um
paranoíco fugido ao
tratamento do
dr. Bombarda. O 27—
Barqueiros do
Mondego. Extraordinario.
Parece incrivel que se podesse metter uma barcaça d'aquellas
dentro d'um quadro de 1,26 por 1,87. Effeitos de luz,
detestaveis.
A mulher ou tem o peito em fogo ou quer dar a comer
candeias de cebo ardendo, á pobre creança que
parece
ter ao collo.
D. Emilia A. S. Braga, n.
os 28 a 31—
A
Maria de S.
João (28) é uma velhota com
cara de boa pessoa, regularmente
pintada; acho-lhe as mãos, o rosto e o cabello bem estudados
e com boa côr.
A
oração (29)
Estudo (30) são dois bons
quadros,
traçados com superior criterio, pincelados largamente,
com soberbas expressões, luz boa, côr magnifica;
no n.º 30
notamos ainda o bem executado do collo d'uma linda mulher.
José de Brito, n.º 32—
A
Vaga.—É já meu conhecido
este quadro, d'um pintor portuense, que tem o seu nome ligado
a obras de muito merecimento.
A
Vaga, na sua idéa
symbolica não me agrada, mas na sua
execução, como estudo
do nú é superior e irreprehensivelmente feito; no
bem trabalhado
do desenho e no bem dado da côr, sente-se a curva avelludada
e macia d'uma mulher nova e de carnes duras. É um
bom quadro.
Marinha―João Vaz
Marinha—joão vaz
Arthur A.
Cardoso, n.
os 33
e 34—Dois retratos.—O
n.º 33 bem feito;
que para mim,
desde que são
retratos, o que
eu quero é que
elles se pareçam,
quanto ao
mais não me
importa.
João Luiz
Cardoso, n.
os 35 a 42—Especialidades em
Arredores. Arredores
de Aveiro e de Thomar. Notarei como dignos de
menção
o n.º 39, um bello poente, e os n.
os
40, 41, e 42, onde a luz
é
bella, distribuida com methodo e muita uniformidade.
Antonio Carneiro Junior, n.
os 43 a 45.—Este
artista é
um melancolico, um triste, e se nos quadros expostos o não
mostra é que se limitou a expôr retratos. O que
dizer d'esses
retratos, quando o jury já disse tudo, dando ao seu
quadro—n.º
43,
Retrato de Teixeira Lopes—uma
medalha. É innegavelmente
um trabalho magnifico. O retrato n.º 45, de uma senhora,
tambem é muito bom.
Bernardino Trindade Chagas, n.
os 46 e 47.—Uma
paisagem
e um retrato.—Ataca dois generos differentes com a
mesma galhardia e o mesmo
savoir-faire. O retrato teve uma
menção honrosa.—A paisagem é boa: Uma
mulher sobre um
burrico, vae, n'um chouto doce, atravez um caminho de aldeia,
para a capellinha, em Tavira. Boa luz, boa cor, destacando
no tom amarello saibroso da estrada as figuritas, que o artista
estudou com cuidado.
Jorge Collaço, n.
os 48 a 50.—Este
artista é o
collaborador
artistico do
Seculo Illustrado,
julgo eu, e por isso preciso
ter cuidado com elle para não ter o desgosto de succeder
á minha despretenciosa critica o que succedeu ao monumento
de Sousa Martins, feito pelo Queiroz Ribeiro. Por isso... fico
calado... Mas não fico... ahi vae o que eu penso.
Na
Partida interrompida, que teve a
2.ª medalha, acho-lhe
o pé esquerdo, que está no plano anterior, um
tanto mais
delgado do que o pé direito, que está n'um
2.º
plano, um pouco
mais atraz e bastante cheio.
O
Nos campos de Arzilla,
é um largo quadro feito com
todo o interesse e correcção de quem sabe tratar
com pinceis.
Uma bella tela cheia de cor e de um largo poder decorativo.
Guarda negra. Talvez não
fosse peor ter adelgaçado um
pouco as mãos ao cavallo, que avulta no 1.º plano
do
quadro.
Os cavallos arabes são, por via de regra, d'uma gracilidade
especial de mãos, que caracterisa bem o seu genio nervoso e
a ligeireza do seu galopar.
Ernesto Condeixa, n.
os 51 a 56.—Este
é tambem um
artista cuja reputação está feita.
Pinta com muita consciencia,
muita pratica e bastante saber. Notarei, para mim como
melhor, o 52, em que ha um bello effeito de sol sobre a agua
do mar. O 53, delicioso
Cantinho da praia de
Paço d'Arcos, e
o 56, um soberbo poente nostalgico e poetico na
Ribeira de
Algés.
Candido da Cunha, n.
os 57 a 61.—Poeta
sentimental da
pintura, lança nos seus quadros as suas
impressões com um
sentimento desusado; não é o pintor do grande sol
e da côr
que retine como toques de clarim, não; repassa-os de uma
uncção suavemente triste, que encanta.
É inegavelmente um
quadro de mestre o seu
Hora
nostalgica, 57. Os outros são pequenas
manchas, feitas com muita correcção.
Vaga―José de Brito
Vaga—josé
de brito
Mademoiselle Helene Eisembard, n.
os 62 e
63.—
Portrait
à huile,
62,
regular,
sem espantar.
Fleurs, 63.
Chrisantemos,
uma chinesice a oleo, que se supporta... como chinesice.
Lizzie Escolme, n.
os 64 a 70.—Alguns quadros de
flores
e paisagens. Sem interesse para mim, a não ser o
n.º 65,
Primeroses e violettes, e o n.º 66,
Lilás, que são
regulares,
com alguma frescura. O resto... não vale nada.
Duarte Faria e Maia, n.º 71.—Uma
miniatura lambidita...
como retrato...
C. Gomes Fernandes, n.
os 72 a 78.—Tem-se
desenvolvido
este amador, desde que se lembrou de querer ser artista;
progride innegavelmente, demais para quem viu, como eu, os
seus ultimos trabalhos no Porto; pasma do modo como está
pintado o seu quadro n.º 72,
Margem do
Tejo. Bem tocado de
luz, regularmente pincelado, com uma certa largueza e um
doce tom, que nos encanta. É tambem interessante o seu
Caminho
(
Granja), n.º 78. Os outros
são quadros de amador
com pretensões...
José S. Moura Girão, n.
os
79 a
87.—Só podemos admittir
com a rubrica d'este bom artista os quadros n.
os
84 a 87,
onde ha gallos e gallinhas soberbamente pintados, porque,
ainda até hoje não encontrámos
ninguem, que tenha na sua
palleta cores tão brilhantes e tão
accentuadamente definidas,
para pintar a plumagem retumbante dos gallos. São estes
trabalhos
de molde a fazer impor á admiração do
publico um
artista como Girão. Mas... pena foi que elle se
não limitasse
a isso e tentasse pintar animaes de pello... Os seus gatos
(n.
os 81 a 84), são horrorosos;
parecem, bem como os
coelhos
(n.º 79),
biblots de algodão
em rama, para creanças; d'estes
que se vendem no Benarde, no Cardoso da rua Nova do Carmo...
Fique-se com esta snr. Girão, que eu, infelizmente,
não
conheço. Nunca pinte senão aves, se
não quer perder o grande
nome que tem, como primoroso artista que é.
D. Isabel Laver, n.
os 88 a 93.—O quadro
n.º 88,
Cabeça
de velho, fez-nos parar algum tempo na sua frente e,
ao fixal-a,
saltou-nos, instinctivamente, da mente, aquelle pedaço
de poesia de Caldeira,
A Mosca:
..................................................o maldito do velho,
Da cor d'um rabanete, ou ainda mais vermelho...
Porque de facto o tal velhote parece esculpido n'um
presunto de Lamego... O n.º 90,
Rosas, duras e compactas
como se fossem talhadas em porcelana da Vista Alegre, pousadas
n'uma jarra d'um detestavel effeito e cor.
O chá, (91). Um bule de
prata oxidado e sujo, doce de
dezoito vintens o
arratel, para
velhotas coscovilheiras, que
vieram até nós dos tempos dos francezes.
José Leite, n.º 94.—Um bello retrato de mulher
nova,
feito com mestria, e dando a conhecer que o auctor tem
disposição
e sabe do
metier. Foi-lhe conferida
uma menção honrosa,
uma das mais bem applicadas do certamen.
Adriano Lopes, n.º 95.—Um retrato do general
Castel-Branco—muito
bem cuidado,—é o seu auctor um discipulo
que dá honra aos seus professores.
José Malhôa. Eis-me chegado emfim ao Artista que
mais me deslumbra, e mais me fascina. Chegado aqui, o meu
desejo é pousar a penna, curvar-me reverentemente deante
da sua obra genial, e limitar-me a gritar enthusiasmadamente:
Salvé, pintor da grande luz, do bello sol, da soberba
côr que
retine nos teus quadros, como pedaços de crystal finissimo
que se parte.
Era este o meu desejo, mas,
alguem, os mal intencionados,
esses, ficariam na sombra a rir-se de mim, e diriam: Porque
não falla este
critico
Velloso Salgado
Velloso Salgado
do Malhôa?!...
Eu responderia,
porque elle enche com
os seus trabalhos tão
por completo o meu
espirito, que me julgo
muito pequeno para
fallar d'elles.
Mas, como quero
levar de seguida a
minha carta, ahi vae
a impressão que tive
com os quadros de
José Malhôa, n.
os 96
a 108.
Destaco como
primordial o seu quadro,
Barbeiro da aldeia,
98, assombroso
de execução, sublime
de expressão nas figuras,
mesmo nas
que se perdem nos
ultimos planos. Luz soberba, e... desenho rigorosamente
estudado. A seguir
A Descamisada,
97—magnifico—e o 98,
O Antigo phosphoro, em que se
vê perfeitamente, muito definido,
a impressão asphyxiante do enxofre que arde morosamente,
obrigando a pôr a distancia o phosphoro. Que bello
trabalho, que primor de expressão na figura, que distender
de braço tão naturalmente lançado! e o
99,
Cabeça de estudo,
optimo de luz, e o 102,
Ao cair da
tarde, quanta melancholia
doce não nos imprime, aquelle quadro, e o 108, esse largo
quadro decorativo para a sala de musica do snr. Lambertini?
Com que gracilidade não estão lançadas
todas aquellas figuras,
n'umas posições naturaes e flacidas que parecem
cheias
de mocidade e de vida.
E, deixei para o fim o n.º 106, que, embora eu esteja
em erro, é para mim um dos trabalhos mais fulgurantes do
grande artista.
Aquelle retrato de mulher, com uma elegancia finissima
de palmeira, desenhada com uma distincta
correcção de linhas
e colorida com um mimo especial de carnação, que
palpita,
fez-me sentir o grande desejo de me curvar n'uma postura
palaciana e beijar respeitosamente as pontas d'aquelles dedos,
que tão despreoccupadamente pousam no teclado do piano.
Este quadro é para mim d'um encanto inexcedivel. E
que me perdôe o artista se eu não soube dizer
d'elle o que
elle merecia.
Raul Maria, n.
os 109 a 112.—Quatro retratos,
sendo regularmente
bem feito o 109, de Carlos Malheiro Dias, o 111,
retrato de Eduardo Brazão, foi feito decerto em
occasião, em
que o grande actor estava soffrendo de
vertueja, uma especie
de erisypela. O retrato n.º 112, só se admitte como
caricatura.
D. Branca Marques, n.º 113.—
Uma velha
aldeã, que
nos faz lembrar uma
batata ingleza.
Adolpho Manon, n.º 114.—
A Costa.
Perfeito quadro
para as Messageries Maritimes; eu chamar-lhe-ia o vapor
City
of Lisbon.
Thomaz de Mello Junior, n.
os 115 a
121.—É um paisagista
interessante e de merecimento. Destacaremos os seus
quadros: 115,
Salgueiral d'Azambuja,
paisagem cheia de luz,
com uma fita d'agua muito bem estudada;
O
Gerez, estudado
com cuidado, na côr e na luz. O Gerez é aquillo,
conhece-o
bem. O 121,
Torre de S.
Julião, que é muito
interessante, e,
então, o 118,
Praia de
Nazareth! uma soberba marinha, feita
com muito criterio e muito saber. As vagas, que se levantam
em cachões espumantes, estão, na verdade, feitas
magnificamente,
e o barco, que as tende galgar ao esforço dos remos,
está estudado com precisão e rigorosidade.
Thomaz de Moura, n.
os 122 a 128.—É
um artista que
vem lá de fóra, com as suas impressões
de Paris e da Bretanha;
os seus quadros são tocados de um certo
gris, que nós
não temos, uma côr acizentada que me fere mal a
retina, o
que não quer dizer, que elle não tenha
merecimento, que o
tem. Especialmente o seu 122,
Carinhos de
mãe, está muito
bem feito.
D. Fanny Munró, n.
os 129 a
133.—Muito gelo, muito
gelo e muito gelo, no entanto não me desagradou o 133,
Na
Montanha.
Busto de ingleza―Teixeira Lopes
Busto de ingleza—teixeira lopes
Isaias Newton, n.
os 135 a 149.—É um
professor e bem
me custa dizer mal d'elle, mas que querem, a bilis cá
está ás
voltas commigo; o seu 134,
O Lago,
parece feito de vidro fiado
e os seus, 137,
Entrada para a quinta do Ex.mo
Snr.
Novaes,
139,
Campo do Bomfim, lembram
oleographias, o unico aproveitavel,
é a meu vêr, o 135,
Um trecho de
paisagem.
D. Mariana Palma, n.º 140.—
Depois do
jantar. Um melão
phantastico com pevides que
parecem dentes, queijo cabeça
de preto com manchas de bolor.
Um mau vinho, dentro de uns
crystaes e d'uns vidros da fabrica
da Amora ou da Marinha
Grande.
Torquato Pinheiro, n.
os
141 a 145.—
O retrato de seu
filho, 141.—É sem discussão
o seu melhor quadro n'esta exposição.
Torquato Pinheiro é
um paisagista distincto, mas
não é menos como retratista.
Os seus quadros são tocados
sempre de uma certa ingenuidade,
que nos encanta, são para
notar o 144,
Leça de
Bailio, profundamente
melancholico, e o
145,
Fim da Tarde, bem feito,
com muita suavidade de luz.
Columbano Bordallo Pinheiro,
n.
os 146 a 154.—Eis outro
artista que se impõe firmemente
á nossa admiração, este
não é um artista do sol, é, deixem-me
dizer, um artista psychologo.
Faz talvez mais o retrato da alma do que o retrato
do corpo, mas, o que elle sabe é, dar umas pinceladas
tão originaes,
tão suas, que os seus quadros conhecem-se ao longe,
sem precisarmos de lhe vêr a assignatura. O quadro
146—
A
Peliça é d'uma
execução tão subtil, que apetece
passar-lhe ao
de leve a mão sobre aquella pelle, para se sentir o
aveludado
da lontra, o 147—
Scena d'interior,
ha tal expressão na cara
de mulher, que se está a sentir e a vêr, o que
ella está pensando
lá dentro do seu cerebro de velhota matreira.
Mas, superior a todos, a meu vêr, o 152,
Retrato do
Conde de Arnoso. É extraordinariamente
superior.
Manuel H. Pinto, n.
os 155 a 156.—Nunca tinha
visto
nada d'este artista, e fiquei gostando de vêr os seus
quadros;
são ambos bons, mas o 155,
Dar de comer a
quem tem fome!
é muito bem estudado. Ha ali vida, n'aquella mulher que
cuida dos seus bacorinhos com boa
menagére e os bacoritos,
esses, na sua
suinissima figura de
resmungões, estão tambem
muito bem estudados. E não fui só eu que gostei
dos quadros,
foi tambem a commissão, que lhe deu uma medalha.
João Porfirio, n.
os 157 a 158.—O
quadro 158 é
um especimen
comprovativo das theorias de Darwin.
Carlos Reis, n.
os 159 a 164.—Este sim. Os seus
quadros
confirmam bem o seu bom nome de mestre.
Na figura e na paisagem, em ambos é superior. O seu
159—
Retrato de Max Van Ypersele de
Strihon, é magnifico,
a carnação é flagrante de
côr e a mão? ah! a mão! é um
primor
de correcção. Os 160—
Velho
castanheiro—161,
Mendiga—162,
Souto de Castanheiro—163,
Poente de abril, são
quatro
lindas joias da arte pinctural que apetece roubar da
exposição
para revestir o
boudoir gentil da
mulher que se ama.
Augusto Ribeiro, n.
os 165 a 170.—Verdadeiro
pintor
impressionista. Unicamente nos dá impressões de
paisagens
do Norte, onde o azul é mais forte e a
vegetação mais luxuriante,
verdes d'um matisado mais doce, mais animado. As
suas
pochades são
regularmente tocadas. As que mais me
agradaram foram as n.º 167,
Poente (Ancora); 169,
Poente
(Ponte do Lima); 170,
Poente
(Paredes do Coura). Foi contemplado
com uma menção honrosa, bem merecida.
João Augusto Ribeiro, n.º 171.—
Um
septuagenario, interessante
e bem feito.
João Nunes Ribeiro Junior, n.
os 172 a
181.—Pintor de
paisagem, retrato e quadros de genero; muita coisa para
um artista só. Os retratos passaveis, alguns mesmo bons.
Paisagem
com certo ar, especialmente o 177, que está bem tocado
de luz e assumpto bem escolhido; o 178,
Campolide, que
é interessante.
Os fructos e
flores, 180, esse achei-o medonho,
simplesmente medonho, muito proprio como reclame para a
casa Daupias. Pareceu-me um quadro annunciador. Não que,
as flores e as fructas têem que se lhe diga, é
preciso muita
frescura, para as fazer resaltar com vida, dos quadros...
Tomando o chá―Columbano
Tomando o chá—columbano
Adolpho de Sousa Rodrigues, n.
os 182 a 195.—O
seu
maior trabalho é o 182,
No trabalho do
campo. Não desgostei
d'elle, apenas me fez má impressão aquelle verde
das lombardas
ou tronchudas. Parece-me que as figuras se recortam demais
n'aquelle fundo verde. O 184,
Sabotier
breton, achei-o
com boa luz de officina e as figuras bem estudadas. A côr...
aquella côr bretã, que eu não
conheço, é que me fez esmorecer
um pouco. Eu gosto mais da nossa luz. O retrato 195, esse
acho-o muito bom, bem executado, bem desenhado.
Fernando A. M. de Sá, n.º 196.—
Arredores
de Setubal.
Mau de execução e de côr.
José Velloso Salgado, n.
os 197 a
199.—O grande pintor
de retratos e de tudo o mais, que é este artista, quasi que
me
dispensava de dizer qualquer cousa d'elle. Os seus trabalhos
veem de ha muito, pondo uma verdadeira nota de arte no
nosso pequeno meio. A sua fama está feita, o seu nome, ao
ser dito, retumba como um echo de gloria na arte da pintura
portugueza. Lá para o norte temos coisas tão
lindas, e tão
primorosamente feitas, d'este artista, no Palacio da Bolsa,
que eu acanho-me de fazer opinião sobre os seus trabalhos
expostos, que são muito bons. Sobresaindo para mim a todos
estes, o 199, retrato de
Adolpho
Másson.
D. Luiza Stephania da Silva, n.
os 200 a
202.—Unicamente
me fez sensação o 201, em que ha uma certa
frescura,
nos lyrios pintados.
Candido da Silva Junior, n.
os 203 a
212.—Dois
quadros,
em que ha retratos, paisagem e flores. Deram-me no
goto os n.
os 205 a 209—o primeiro uma especie
de jardim de
velha rabugenta; muita flor, muita flor, e nenhuma
disposição.
Não só as flores d'este quadro, mas as de todos
os outros
são duras, sem frescura, sem cambiantes de tom, quasi
homogeneos
na côr. A
magnolia, 209,
até parece um limão... Acceitavel
o 210,
Alfeite, que é uma
manchasita que se suporta
bem, para amador.
João Ribeiro Christino da Silva, n.
os
213 a 218.—Ai
pai! que coisas aquellas! O 213, a meu ver, simplesmente horrivel,
os outros... adeante... a não ser o 218 que é
interessantinho
na sua fórma miniatural.
Viscondessa de Sistello, n.
os 219 a
224.—É uma amadora
de certo, os seus quadros são cheios d'um quer que seja
de pretencioso... o n.º 219,
Retrato—achei-o sem vida, muito
chapado.—Fez-me saudades, porque me pareceu uma
imitação
má, do bello quadro de Velloso
Salgado—
Reflexos. O 220
passavel, a não ser o ar estudioso e pensador de mais, do
menino,
e o 222 a abarrotar de coisas—um pedaço de queijo
stilton, que faz lembrar sabão rajado azul, fructas duras,
vinhos
maus, agrupamento infeliz. O 221 regularmente tocado,
como mancha.
Retrato de El-Rei―Carlos Reis
Retrato de El-Rei—carlos reis
João Vaz, n.
os 225 a 237.—Deliciosa
toda a obra d'este
cantor, pelo pincel, da agua.
Inexcedivel artista em marinhas;
com que veneração eu o admiro, e ao seu
savoir faire. Ha
tanta verdade em todos os seus quadros, tanta e tanta luz nas
suas telas, que ao contemplal-as como que se sente o marulhar
cadenciado das ondas.
A pesca da
sardinha, 225, é um
quadro primoroso.
O barco algarvio,
229, navegando em pleno
mar, parece que se vae afastando pouco a pouco de nós e que
ouvimos o bater, compassado dos remos na agua.
O
moinho
do Barredo, 230, airoso e lindo, batido do sol—e
O Castello
de Montemór, 234, que parece sair
arrogantemente do fundo
d'um azul primoroso, são obras que encantam. Alli, ha o que
se chama faisca artistica, alli ha a nota caracteristica de quem
muito bem conhece a arte de pintar.
Emily Wormsley, n.º 238.—Um largo quadro de flores,
louça da India e metaes. Boa
composição, bem estudado e
bem tocado de côres. Foi-lhe conferida uma
menção honrosa,
bem merecida.
Francisco Xara, n.
os 239 a 240.—As
Papoulas do 239,
fizeram-me lembrar flores de papel de seda feitas por alguma
menina da baixa, em horas d'ocio, entre o crochet e o chá
com
torradas, para enfeitar um chapeu de campo ou algum oratorio
de velhota amiga.
ESCULPTURA
José Simões d'Almeida (Sobrinho), n.º
241.—
Modelo
para uma medalha, bem executado.
Pedro Cartoccio, n.
os 242 e 243.—Fez-me
especial
attenção
o 242,
Juiz de Phyné. Um
ar malicioso de juiz estecta,
definidamente traçado, nas suas bem marcadas linhas,
é uma
bella cabeça lançada com energia e rigorosidade.
Antonio Teixeira Lopes, n.
os 244 a
258.—É sem
discussão
Teixeira Lopes, ao momento, o maior esculptor portuguez.
É talvez o unico que póde affirmar ao paiz e ao
estrangeiro,
que só elle tem o poder de fazer resaltar do marmore ou
do bronze, as suas figuras, tão definidamente perfeitas, que
se
nos afigura terem vida. Notar aqui os seus trabalhos seria fazer
a resenha das suas 15 obras, porque todas ellas se nos
impõem
á admiração, do mesmo modo. No
entanto, magestosamente
solemne, na serenidade do seu ar, sublime na grandeza do seu
pensamento está a figura, da
Historia, 252, para o tumulo de
Oliveira Martins. E o 244,
Santo
Izidoro, n'uma serenidade de
justo, esculpido com um carinho doce; ao olhal-o sente-se
como que, uma unção sublime e casta que nos
convida á
oração. É um trabalho soberbo, as
mãos, o pescoço, a face,
as roupagens, tudo emfim, é feito com um rigoroso saber. E
os
Velhos, 245 e a
Flora, 246 e o
Bébé, 247, e
todos os outros
trabalhos? Simplesmente soberbos!... Teixeira Lopes é
inegavelmente
o primeiro esculptor portuguez.
Antonio Augusto Costa Motta (Sobrinho), n.º 259.—Uma
Cabeça de estudo, bem
feita.
Jorge Pereira, n.º 260.—
Um typo de
marinheiro, traçado
largamente, sem detalhes de meticulosidade; é na verdade
uma bella cabeça, bem estudada e melhor executada.
ARCHITECTURA
N'este genero nada entendo, sou leigo, perfeitamente
leigo. No entanto lá vae.
Olaia em flor―Carlos Reis
Olaia em flor—carlos reis
Antonio Couto n.º 261.—
Casino,
preferia vel-o construido,
pois n'esse caso melhor o gosaria.
Raul Lino, n.
os 262 e 263.—Gostei do 262,
Esboço para
a casa em Azeitão. Talvez, pela
idéa do conforto que se deve
sentir n'aquella casa portugueza, com bibelots caros e mobiliario
de talha e bilros.
Tertuliano Marques, n.
os 264 e 265.—
Projecto
do mausoleu
a Almeida Garrett.
Não desgostei, acho-o bem estudado.
José Alexandre Soares, n.
os 266 e
267.—Achei airosa
e bem lançada a fachada para o
Club
militar. Deveria depois
de feito ficar uma obra digna do ser admirada aquella
Praça
Publica.