Outubro 1902.


Busto (Antonio Cano)―Fernandes de Sá
Busto (Antonio Cano)—fernandes de





VII

Exposição da Sociedade de Bellas-Artes de Lisboa


carta a um redactor do "correio da noite"


Não me conhece, nem isso é necessario, para o que eu lhe quero confiar. Não é um segredo e, portanto, se achar interessante o que lhe vou dizer, conte-o ao publico, a esse publico despreoccupado, que lê as gazetas, não para se instruir, mas para ver se o seu nome figura no Carnet Mondain,

El-rei
El-rei

ou se alguma cousa má succedeu aos seus conhecidos para ter o pretexto de os consolar nas suas amarguras e nas suas desditas.

Conte-lhe o que lhe vou dizer e estou convencido, que isso lhe será agradavel, porque eu, com o meu genio desinteressado e independente, dou abertamente, picadelas em quem as merece, levantando ao ar em apotheoses de gloria, tambem, aquelles que a ella teem direito, segundo o meu modo de ver.

Sou sincero, apenas; nunca me embrenhei nos escaninhos da politica e, por isso, não conheço a intriga; nunca calquei os tapetes dos palacios dos nobres e da aristocracia e, por isso, não conheço a bajulação; não me tenho accorrentado ao jornalismo militante e, por isso, não conheço as conveniencias de redacção. Sou, ainda, mais independente do que o chefe do partido novo, que não quer para seus soldados senão os que estão isentos do peccado politico. Sou, emfim, como os homens do norte; duro como um sobreiro, ingenuo como uma creança... de bigode, sincero como um convicto e delicado como uma dama.

Paisagem (pastel)―El-rei
Paisagem (pastel)—El-rei


E feita a minha apresentação, ahi vae o que eu lhe queria dizer.

Fui, levado por intensa curiosidade, visitar a exposição da sociedade Nacional de Bellas-Artes e dei o meu tempo por muito bem empregado. E dei por bem empregadas as tres horas que lá passei, porque morro por coisas d'arte.

A Arte, a grande Arte, cuja definição perfeita, para mim, é um mytho, atrae-me como uma feiticeira deslumbrante e maravilhosa. Mas a Arte pinctural e esculptural, essa, extasia-me e não é para extranhar o vêr-me parado em frente

Cabeça de estudo―Ernesto Condeixa
Cabeça de estudo—ernesto condeixa

d'um bom quadro ou d'uma bella esculptura, tal qual como em frente d'uma mulher formosa. Mas, deixemos estas divagações e entremos no assumpto da minha carta. Demais, que lhe importa a si que eu goste ou desgoste, se o meu caro nem sequer me conhece de nome. Antes, porém, de continuar, ou por outra, de começar, desculpe esta franqueza: as aguas de Lisboa são más e pozeram-me o figado n'um pessimo estado, o que deu em resultado eu ter tido um ligeiro extravasamento de bilis, que pode ser se manifeste, ainda que ao de leve, no decorrer desta minha despretenciosa carta.

Uf!... que começo a massar, não acha? Mas que quer, eu sou assim, o mal é dar-me corda, hão-de aturar-me depois. E posto isto, lá vae.

Fui vêr a exposição e fui sem a preoccupação de critico d'arte, unica e exclusivamente como amador, como dilletanti, e como tal é que escrevo. Que me perdôem os artistas, se nada fôr, a minha apreciação aos seus trabalhos, que me tolerem os criticos de arte se a minha incompetente opinião brigar com as regras do metier, e que se ria o publico se não gostar da minha prosa e o meu caro redactor se entender que a pimenta é forte, ou o guizado está mal condimentado, já sabe o que tem a fazer, é, cesto dos papeis inuteis com elle.

Barbeiro d'Aldeia―José Malhoa
Barbeiro d'Aldeia—josé malhoa


Começarei tal qual como indica o catalogo, apreciando, sob a impressão perfeitamente pessoal d'um provinciano, os trabalhos expostos, pela sua ordem numerica.

Primeiro estão os de S. M. Este artista-amador está lá tão alto que nada poderei dizer dos seus trabalhos. Unicamente o que me agradou mais foi o No Sado—processo Raffaelli, se bem que já tive occasião de vêr trabalhos de muito maior valo, se bem que já tive occasião de vêr trabalhos de muito maior valor executados pelo mesmo monarcha, que é inegavelmente um artista de temperamento definido.

E agora sem respeito nem consideração pelos artistas e quiçá amadores, que eu não conheço, ahi vae a minha opinião sincera.


QUADROS A OLEO


D. Bertha Alcantara, n.os 1 a 4—Natureza morta e flores—Natureza morta e tão morta que dá vontade de... decorar uma cosinha com ella.—Amores perfeitos, imperfeitos.—Um agrupamento de lyrios e mimosas, os lyrios bastante densos, n'um demasiado ajuntamento, que parece esmagarem-se uns aos outros.

D. Luisa Almedina, n.º 5—Uns cravos sem cheiro, desconsolados...

Almeida e Silva, n.os 6 a 15. Pinturas varias, assaz recortadas e lambidas, com ar pretencioso de oleographias caras; este artista parece andar para traz, quem pintou

Paisagem―Marques d'Oliveira
Paisagem—Marques d'Oliveira

O Viatico na aldeia, Um critico d'arte, Cabeça de cabrito, (que eu possuo) tinha obrigação de se apresentar melhor.

Tem n'esta exposição um quadro—O abat-jour japonez, que é verdadeiramente uma japonesice de caixa de chá.

No entanto recommenda-se o seu quadro—Tarde calma de junho, que está, a meu vêr, bem, e é o unico que se salva de todo aquelle montão de arte de recorte...

Condessa d'Alto Mearim, n.os 17 a 19. Tem merecimento, e muito, esta amadora—A Nossa Senhora do Refugio, bem lançada de linhas, largas pinceladas dadas sem feminismo, talvez um pouco coquete, na expressão, para Nossa Senhora, no entanto um bello quadro. O n.º 17 parece-me estar trocado, pois não é crivel que s. ex.a pintasse um retrato de F. V. n'um velho em traje de fantasia; mas se o pintou, diremos que o trabalho é bom, a figura está bem estudada, boa carnação, boas roupagens, mãos bem trabalhadas, um bom quadro, emfim.

Mendiga―Carlos Reis
Mendiga—carlos reis

D. Maria Luiza Alto Mearim, n.os 19 e 20, o Five ó clock tea é um bom quadro traçado amplamente, com boa luz e muita expressão da figura, talvez um pouco de branco a mais na cara da dama, que deve ser da primeira sociedade e que naturalmente usa muito pó de veloutine, e d'ahi o tal branco!...

Viscondessa de Ameiro, n.º 11. Arvoredo—eu chamar-lhe-ia—Alvoredo. Está lá muito no alto, tão alto, que se perde de vista. Lembra uma travessa de hortaliça picada para gallinhas.

D. Virginia Avellar, n.º 22. Supplica.—Uma deliciosa irmã da Caridade, estudada com carinho e amor, tal quanto merecia aquelle lindo rosto, que um bello sol banhava n'uma suavissima emoção de castidade e... affecto.

Merecia, a meu ver, uma menção honrosa, mas... foi para outros...

D. Laura Bandeira, n.º 23. D. Ignez de Castro, esguia e airosa, um pouco theatral, regularmente pintada. O galgo que a acompanha, parece feito de grafite, e se a D. Ignez continua, por muito tempo, com a mão esquerda n'aquella posição, acaba por cegar o pobre cachorro, pois a metter-lhe um dedo pelo olho dentro, aquillo dá pelo menos uma conjunctivite...

Leopoldo Battistini, n.os 24 a 27—dois estudos de velhos, um d'elles passavel—o 25. Avarento, horrido de luz e
de expressão, parece um paranoíco fugido ao tratamento do dr. Bombarda. O 27—Barqueiros do Mondego. Extraordinario. Parece incrivel que se podesse metter uma barcaça d'aquellas dentro d'um quadro de 1,26 por 1,87. Effeitos de luz, detestaveis. A mulher ou tem o peito em fogo ou quer dar a comer candeias de cebo ardendo, á pobre creança que parece ter ao collo.

D. Emilia A. S. Braga, n.os 28 a 31—A Maria de S. João (28) é uma velhota com cara de boa pessoa, regularmente pintada; acho-lhe as mãos, o rosto e o cabello bem estudados e com boa côr. A oração (29) Estudo (30) são dois bons quadros, traçados com superior criterio, pincelados largamente, com soberbas expressões, luz boa, côr magnifica; no n.º 30 notamos ainda o bem executado do collo d'uma linda mulher.

José de Brito, n.º 32—A Vaga.—É já meu conhecido este quadro, d'um pintor portuense, que tem o seu nome ligado a obras de muito merecimento. A Vaga, na sua idéa symbolica não me agrada, mas na sua execução, como estudo do nú é superior e irreprehensivelmente feito; no bem trabalhado do desenho e no bem dado da côr, sente-se a curva avelludada e macia d'uma mulher nova e de carnes duras. É um bom quadro.

Marinha―João Vaz
Marinha—joão vaz

Arthur A. Cardoso, n.os 33 e 34—Dois retratos.—O n.º 33 bem feito; que para mim, desde que são retratos, o que eu quero é que elles se pareçam, quanto ao mais não me importa.

João Luiz Cardoso, n.os 35 a 42—Especialidades em Arredores. Arredores de Aveiro e de Thomar. Notarei como dignos de menção o n.º 39, um bello poente, e os n.os 40, 41, e 42, onde a luz é bella, distribuida com methodo e muita uniformidade.

Antonio Carneiro Junior, n.os 43 a 45.—Este artista é um melancolico, um triste, e se nos quadros expostos o não mostra é que se limitou a expôr retratos. O que dizer d'esses retratos, quando o jury já disse tudo, dando ao seu quadro—n.º 43, Retrato de Teixeira Lopes—uma medalha. É innegavelmente um trabalho magnifico. O retrato n.º 45, de uma senhora, tambem é muito bom.

Bernardino Trindade Chagas, n.os 46 e 47.—Uma paisagem e um retrato.—Ataca dois generos differentes com a mesma galhardia e o mesmo savoir-faire. O retrato teve uma menção honrosa.—A paisagem é boa: Uma mulher sobre um burrico, vae, n'um chouto doce, atravez um caminho de aldeia, para a capellinha, em Tavira. Boa luz, boa cor, destacando no tom amarello saibroso da estrada as figuritas, que o artista estudou com cuidado.

Jorge Collaço, n.os 48 a 50.—Este artista é o collaborador artistico do Seculo Illustrado, julgo eu, e por isso preciso ter cuidado com elle para não ter o desgosto de succeder á minha despretenciosa critica o que succedeu ao monumento de Sousa Martins, feito pelo Queiroz Ribeiro. Por isso... fico calado... Mas não fico... ahi vae o que eu penso.

Na Partida interrompida, que teve a 2.ª medalha, acho-lhe o pé esquerdo, que está no plano anterior, um tanto mais delgado do que o pé direito, que está n'um 2.º plano, um pouco mais atraz e bastante cheio.

O Nos campos de Arzilla, é um largo quadro feito com todo o interesse e correcção de quem sabe tratar com pinceis. Uma bella tela cheia de cor e de um largo poder decorativo.

Guarda negra. Talvez não fosse peor ter adelgaçado um pouco as mãos ao cavallo, que avulta no 1.º plano do quadro. Os cavallos arabes são, por via de regra, d'uma gracilidade especial de mãos, que caracterisa bem o seu genio nervoso e a ligeireza do seu galopar.

Ernesto Condeixa, n.os 51 a 56.—Este é tambem um artista cuja reputação está feita. Pinta com muita consciencia, muita pratica e bastante saber. Notarei, para mim como melhor, o 52, em que ha um bello effeito de sol sobre a agua do mar. O 53, delicioso Cantinho da praia de Paço d'Arcos, e o 56, um soberbo poente nostalgico e poetico na Ribeira de Algés.

Candido da Cunha, n.os 57 a 61.—Poeta sentimental da pintura, lança nos seus quadros as suas impressões com um
sentimento desusado; não é o pintor do grande sol e da côr que retine como toques de clarim, não; repassa-os de uma uncção suavemente triste, que encanta. É inegavelmente um quadro de mestre o seu Hora nostalgica, 57. Os outros são pequenas manchas, feitas com muita correcção.

Vaga―José de Brito
Vaga—josé de brito


Mademoiselle Helene Eisembard, n.os 62 e 63.—Portrait à huile,
62, regular, sem espantar. Fleurs, 63. Chrisantemos, uma chinesice a oleo, que se supporta... como chinesice.

Lizzie Escolme, n.os 64 a 70.—Alguns quadros de flores e paisagens. Sem interesse para mim, a não ser o n.º 65, Primeroses e violettes, e o n.º 66, Lilás, que são regulares, com alguma frescura. O resto... não vale nada.

Duarte Faria e Maia, n.º 71.—Uma miniatura lambidita... como retrato...

C. Gomes Fernandes, n.os 72 a 78.—Tem-se desenvolvido este amador, desde que se lembrou de querer ser artista; progride innegavelmente, demais para quem viu, como eu, os seus ultimos trabalhos no Porto; pasma do modo como está pintado o seu quadro n.º 72, Margem do Tejo. Bem tocado de luz, regularmente pincelado, com uma certa largueza e um doce tom, que nos encanta. É tambem interessante o seu Caminho (Granja), n.º 78. Os outros são quadros de amador com pretensões...

José S. Moura Girão, n.os 79 a 87.—Só podemos admittir com a rubrica d'este bom artista os quadros n.os 84 a 87, onde ha gallos e gallinhas soberbamente pintados, porque, ainda até hoje não encontrámos ninguem, que tenha na sua palleta cores tão brilhantes e tão accentuadamente definidas, para pintar a plumagem retumbante dos gallos. São estes trabalhos de molde a fazer impor á admiração do publico um artista como Girão. Mas... pena foi que elle se não limitasse a isso e tentasse pintar animaes de pello... Os seus gatos (n.os 81 a 84), são horrorosos; parecem, bem como os coelhos (n.º 79), biblots de algodão em rama, para creanças; d'estes que se vendem no Benarde, no Cardoso da rua Nova do Carmo... Fique-se com esta snr. Girão, que eu, infelizmente, não conheço. Nunca pinte senão aves, se não quer perder o grande nome que tem, como primoroso artista que é.

D. Isabel Laver, n.os 88 a 93.—O quadro n.º 88, Cabeça de velho, fez-nos parar algum tempo na sua frente e, ao fixal-a, saltou-nos, instinctivamente, da mente, aquelle pedaço de poesia de Caldeira, A Mosca:

..................................................o maldito do velho,
Da cor d'um rabanete, ou ainda mais vermelho...

Porque de facto o tal velhote parece esculpido n'um presunto de Lamego... O n.º 90, Rosas, duras e compactas como se fossem talhadas em porcelana da Vista Alegre, pousadas n'uma jarra d'um detestavel effeito e cor.

O chá, (91). Um bule de prata oxidado e sujo, doce de dezoito vintens o arratel, para velhotas coscovilheiras, que vieram até nós dos tempos dos francezes.

José Leite, n.º 94.—Um bello retrato de mulher nova, feito com mestria, e dando a conhecer que o auctor tem disposição e sabe do metier. Foi-lhe conferida uma menção honrosa, uma das mais bem applicadas do certamen.

Adriano Lopes, n.º 95.—Um retrato do general Castel-Branco—muito bem cuidado,—é o seu auctor um discipulo que dá honra aos seus professores.

José Malhôa. Eis-me chegado emfim ao Artista que mais me deslumbra, e mais me fascina. Chegado aqui, o meu desejo é pousar a penna, curvar-me reverentemente deante da sua obra genial, e limitar-me a gritar enthusiasmadamente: Salvé, pintor da grande luz, do bello sol, da soberba côr que retine nos teus quadros, como pedaços de crystal finissimo que se parte.

Era este o meu desejo, mas, alguem, os mal intencionados, esses, ficariam na sombra a rir-se de mim, e diriam: Porque não falla este critico

Velloso Salgado
Velloso Salgado

do Malhôa?!...

Eu responderia, porque elle enche com os seus trabalhos tão por completo o meu espirito, que me julgo muito pequeno para fallar d'elles.

Mas, como quero levar de seguida a minha carta, ahi vae a impressão que tive com os quadros de José Malhôa, n.os 96 a 108.

Destaco como primordial o seu quadro, Barbeiro da aldeia, 98, assombroso de execução, sublime de expressão nas figuras, mesmo nas que se perdem nos ultimos planos. Luz soberba, e... desenho rigorosamente estudado. A seguir A Descamisada, 97—magnifico—e o 98, O Antigo phosphoro, em que se vê perfeitamente, muito definido, a impressão asphyxiante do enxofre que arde morosamente, obrigando a pôr a distancia o phosphoro. Que bello trabalho, que primor de expressão na figura, que distender de braço tão naturalmente lançado! e o 99, Cabeça de estudo, optimo de luz, e o 102, Ao cair da tarde, quanta melancholia doce não nos imprime, aquelle quadro, e o 108, esse largo quadro decorativo para a sala de musica do snr. Lambertini? Com que gracilidade não estão lançadas todas aquellas figuras, n'umas posições naturaes e flacidas que parecem cheias de mocidade e de vida.

E, deixei para o fim o n.º 106, que, embora eu esteja em erro, é para mim um dos trabalhos mais fulgurantes do grande artista.

Aquelle retrato de mulher, com uma elegancia finissima de palmeira, desenhada com uma distincta correcção de linhas e colorida com um mimo especial de carnação, que palpita, fez-me sentir o grande desejo de me curvar n'uma postura palaciana e beijar respeitosamente as pontas d'aquelles dedos, que tão despreoccupadamente pousam no teclado do piano.

Este quadro é para mim d'um encanto inexcedivel. E que me perdôe o artista se eu não soube dizer d'elle o que elle merecia.

Raul Maria, n.os 109 a 112.—Quatro retratos, sendo regularmente bem feito o 109, de Carlos Malheiro Dias, o 111, retrato de Eduardo Brazão, foi feito decerto em occasião, em que o grande actor estava soffrendo de vertueja, uma especie de erisypela. O retrato n.º 112, só se admitte como caricatura.

D. Branca Marques, n.º 113.—Uma velha aldeã, que nos faz lembrar uma batata ingleza.

Adolpho Manon, n.º 114.—A Costa. Perfeito quadro para as Messageries Maritimes; eu chamar-lhe-ia o vapor City of Lisbon.

Thomaz de Mello Junior, n.os 115 a 121.—É um paisagista interessante e de merecimento. Destacaremos os seus quadros: 115, Salgueiral d'Azambuja, paisagem cheia de luz, com uma fita d'agua muito bem estudada; O Gerez, estudado com cuidado, na côr e na luz. O Gerez é aquillo, conhece-o bem. O 121, Torre de S. Julião, que é muito interessante, e, então, o 118, Praia de Nazareth! uma soberba marinha, feita com muito criterio e muito saber. As vagas, que se levantam em cachões espumantes, estão, na verdade, feitas magnificamente, e o barco, que as tende galgar ao esforço dos remos, está estudado com precisão e rigorosidade.

Thomaz de Moura, n.os 122 a 128.—É um artista que vem lá de fóra, com as suas impressões de Paris e da Bretanha; os seus quadros são tocados de um certo gris, que nós não temos, uma côr acizentada que me fere mal a retina, o que não quer dizer, que elle não tenha merecimento, que o tem. Especialmente o seu 122, Carinhos de mãe, está muito bem feito.

D. Fanny Munró, n.os 129 a 133.—Muito gelo, muito gelo e muito gelo, no entanto não me desagradou o 133, Na Montanha.

Busto de ingleza―Teixeira Lopes
Busto de ingleza—teixeira lopes

Isaias Newton, n.os 135 a 149.—É um professor e bem me custa dizer mal d'elle, mas que querem, a bilis cá está ás voltas commigo; o seu 134, O Lago, parece feito de vidro fiado e os seus, 137, Entrada para a quinta do Ex.mo Snr. Novaes, 139, Campo do Bomfim, lembram oleographias, o unico aproveitavel, é a meu vêr, o 135, Um trecho de paisagem.

D. Mariana Palma, n.º 140.—Depois do jantar. Um melão phantastico com pevides que parecem dentes, queijo cabeça de preto com manchas de bolor. Um mau vinho, dentro de uns crystaes e d'uns vidros da fabrica da Amora ou da Marinha Grande.

Torquato Pinheiro, n.os 141 a 145.—O retrato de seu filho, 141.—É sem discussão o seu melhor quadro n'esta exposição. Torquato Pinheiro é um paisagista distincto, mas não é menos como retratista. Os seus quadros são tocados sempre de uma certa ingenuidade, que nos encanta, são para notar o 144, Leça de Bailio, profundamente melancholico, e o 145, Fim da Tarde, bem feito, com muita suavidade de luz.

Columbano Bordallo Pinheiro, n.os 146 a 154.—Eis outro artista que se impõe firmemente á nossa admiração, este não é um artista do sol, é, deixem-me dizer, um artista psychologo. Faz talvez mais o retrato da alma do que o retrato do corpo, mas, o que elle sabe é, dar umas pinceladas tão originaes, tão suas, que os seus quadros conhecem-se ao longe, sem precisarmos de lhe vêr a assignatura. O quadro 146—A Peliça é d'uma execução tão subtil, que apetece passar-lhe ao de leve a mão sobre aquella pelle, para se sentir o aveludado da lontra, o 147—Scena d'interior, ha tal expressão na cara de mulher, que se está a sentir e a vêr, o que ella está pensando lá dentro do seu cerebro de velhota matreira.

Mas, superior a todos, a meu vêr, o 152, Retrato do Conde de Arnoso. É extraordinariamente superior.

Manuel H. Pinto, n.os 155 a 156.—Nunca tinha visto nada d'este artista, e fiquei gostando de vêr os seus quadros; são ambos bons, mas o 155, Dar de comer a quem tem fome! é muito bem estudado. Ha ali vida, n'aquella mulher que cuida dos seus bacorinhos com boa menagére e os bacoritos, esses, na sua suinissima figura de resmungões, estão tambem muito bem estudados. E não fui só eu que gostei dos quadros, foi tambem a commissão, que lhe deu uma medalha.

João Porfirio, n.os 157 a 158.—O quadro 158 é um especimen comprovativo das theorias de Darwin.

Carlos Reis, n.os 159 a 164.—Este sim. Os seus quadros confirmam bem o seu bom nome de mestre.

Na figura e na paisagem, em ambos é superior. O seu 159—Retrato de Max Van Ypersele de Strihon, é magnifico, a carnação é flagrante de côr e a mão? ah! a mão! é um primor de correcção. Os 160—Velho castanheiro—161, Mendiga—162, Souto de Castanheiro—163, Poente de abril, são quatro lindas joias da arte pinctural que apetece roubar da exposição para revestir o boudoir gentil da mulher que se ama.

Augusto Ribeiro, n.os 165 a 170.—Verdadeiro pintor impressionista. Unicamente nos dá impressões de paisagens do Norte, onde o azul é mais forte e a vegetação mais luxuriante, verdes d'um matisado mais doce, mais animado. As suas pochades são regularmente tocadas. As que mais me agradaram foram as n.º 167, Poente (Ancora); 169, Poente (Ponte do Lima); 170, Poente (Paredes do Coura). Foi contemplado com uma menção honrosa, bem merecida.

João Augusto Ribeiro, n.º 171.—Um septuagenario, interessante e bem feito.

João Nunes Ribeiro Junior, n.os 172 a 181.—Pintor de paisagem, retrato e quadros de genero; muita coisa para um artista só. Os retratos passaveis, alguns mesmo bons. Paisagem com certo ar, especialmente o 177, que está bem tocado de luz e assumpto bem escolhido; o 178, Campolide, que é interessante. Os fructos e flores, 180, esse achei-o medonho, simplesmente medonho, muito proprio como reclame para a casa Daupias. Pareceu-me um quadro annunciador. Não que, as flores e as fructas têem que se lhe diga, é preciso muita frescura, para as fazer resaltar com vida, dos quadros...

Tomando o chá―Columbano
Tomando o chá—columbano


Adolpho de Sousa Rodrigues, n.os 182 a 195.—O seu maior trabalho é o 182, No trabalho do campo. Não desgostei d'elle, apenas me fez má impressão aquelle verde das lombardas ou tronchudas. Parece-me que as figuras se recortam demais n'aquelle fundo verde. O 184, Sabotier breton, achei-o com boa luz de officina e as figuras bem estudadas. A côr... aquella côr bretã, que eu não conheço, é que me fez esmorecer um pouco. Eu gosto mais da nossa luz. O retrato 195, esse acho-o muito bom, bem executado, bem desenhado.

Fernando A. M. de Sá, n.º 196.—Arredores de Setubal. Mau de execução e de côr.

José Velloso Salgado, n.os 197 a 199.—O grande pintor de retratos e de tudo o mais, que é este artista, quasi que me
dispensava de dizer qualquer cousa d'elle. Os seus trabalhos veem de ha muito, pondo uma verdadeira nota de arte no nosso pequeno meio. A sua fama está feita, o seu nome, ao ser dito, retumba como um echo de gloria na arte da pintura portugueza. Lá para o norte temos coisas tão lindas, e tão primorosamente feitas, d'este artista, no Palacio da Bolsa, que eu acanho-me de fazer opinião sobre os seus trabalhos expostos, que são muito bons. Sobresaindo para mim a todos estes, o 199, retrato de Adolpho Másson.

D. Luiza Stephania da Silva, n.os 200 a 202.—Unicamente me fez sensação o 201, em que ha uma certa frescura, nos lyrios pintados.

Candido da Silva Junior, n.os 203 a 212.—Dois quadros, em que ha retratos, paisagem e flores. Deram-me no goto os n.os 205 a 209—o primeiro uma especie de jardim de velha rabugenta; muita flor, muita flor, e nenhuma disposição. Não só as flores d'este quadro, mas as de todos os outros são duras, sem frescura, sem cambiantes de tom, quasi homogeneos na côr. A magnolia, 209, até parece um limão... Acceitavel o 210, Alfeite, que é uma manchasita que se suporta bem, para amador.

João Ribeiro Christino da Silva, n.os 213 a 218.—Ai pai! que coisas aquellas! O 213, a meu ver, simplesmente horrivel, os outros... adeante... a não ser o 218 que é interessantinho na sua fórma miniatural.

Viscondessa de Sistello, n.os 219 a 224.—É uma amadora de certo, os seus quadros são cheios d'um quer que seja de pretencioso... o n.º 219, Retrato—achei-o sem vida, muito chapado.—Fez-me saudades, porque me pareceu uma imitação má, do bello quadro de Velloso Salgado—Reflexos. O 220 passavel, a não ser o ar estudioso e pensador de mais, do menino, e o 222 a abarrotar de coisas—um pedaço de queijo stilton, que faz lembrar sabão rajado azul, fructas duras, vinhos maus, agrupamento infeliz. O 221 regularmente tocado, como mancha.

Retrato de El-Rei―Carlos Reis
Retrato de El-Rei—carlos reis


João Vaz, n.os 225 a 237.—Deliciosa toda a obra d'este cantor, pelo pincel, da agua. Inexcedivel artista em marinhas; com que veneração eu o admiro, e ao seu savoir faire. Ha tanta verdade em todos os seus quadros, tanta e tanta luz nas suas telas, que ao contemplal-as como que se sente o marulhar cadenciado das ondas. A pesca da sardinha, 225, é um quadro primoroso. O barco algarvio, 229, navegando em pleno mar, parece que se vae afastando pouco a pouco de nós e que ouvimos o bater, compassado dos remos na agua. O moinho do Barredo, 230, airoso e lindo, batido do sol—e O Castello de Montemór, 234, que parece sair arrogantemente do fundo d'um azul primoroso, são obras que encantam. Alli, ha o que se chama faisca artistica, alli ha a nota caracteristica de quem muito bem conhece a arte de pintar.

Emily Wormsley, n.º 238.—Um largo quadro de flores, louça da India e metaes. Boa composição, bem estudado e bem tocado de côres. Foi-lhe conferida uma menção honrosa, bem merecida.

Francisco Xara, n.os 239 a 240.—As Papoulas do 239, fizeram-me lembrar flores de papel de seda feitas por alguma menina da baixa, em horas d'ocio, entre o crochet e o chá com torradas, para enfeitar um chapeu de campo ou algum oratorio de velhota amiga.


ESCULPTURA


José Simões d'Almeida (Sobrinho), n.º 241.—Modelo para uma medalha, bem executado.

Pedro Cartoccio, n.os 242 e 243.—Fez-me especial attenção o 242, Juiz de Phyné. Um ar malicioso de juiz estecta, definidamente traçado, nas suas bem marcadas linhas, é uma bella cabeça lançada com energia e rigorosidade.

Antonio Teixeira Lopes, n.os 244 a 258.—É sem discussão Teixeira Lopes, ao momento, o maior esculptor portuguez. É talvez o unico que póde affirmar ao paiz e ao estrangeiro, que só elle tem o poder de fazer resaltar do marmore ou do bronze, as suas figuras, tão definidamente perfeitas, que se nos afigura terem vida. Notar aqui os seus trabalhos seria fazer a resenha das suas 15 obras, porque todas ellas se nos impõem á admiração, do mesmo modo. No entanto, magestosamente solemne, na serenidade do seu ar, sublime na grandeza do seu pensamento está a figura, da Historia, 252, para o tumulo de Oliveira Martins. E o 244, Santo Izidoro, n'uma serenidade de justo, esculpido com um carinho doce; ao olhal-o sente-se como que, uma unção sublime e casta que nos convida á oração. É um trabalho soberbo, as mãos, o pescoço, a face, as roupagens, tudo emfim, é feito com um rigoroso saber. E os Velhos, 245 e a Flora, 246 e o Bébé, 247, e todos os outros trabalhos? Simplesmente soberbos!... Teixeira Lopes é inegavelmente o primeiro esculptor portuguez.

Antonio Augusto Costa Motta (Sobrinho), n.º 259.—Uma Cabeça de estudo, bem feita.

Jorge Pereira, n.º 260.—Um typo de marinheiro, traçado largamente, sem detalhes de meticulosidade; é na verdade uma bella cabeça, bem estudada e melhor executada.


ARCHITECTURA


N'este genero nada entendo, sou leigo, perfeitamente leigo. No entanto lá vae.

Olaia em flor―Carlos Reis
Olaia em flor—carlos reis


Antonio Couto n.º 261.—Casino, preferia vel-o construido, pois n'esse caso melhor o gosaria.

Raul Lino, n.os 262 e 263.—Gostei do 262, Esboço para a casa em Azeitão. Talvez, pela idéa do conforto que se deve sentir n'aquella casa portugueza, com bibelots caros e mobiliario de talha e bilros.

Tertuliano Marques, n.os 264 e 265.—Projecto do mausoleu a Almeida Garrett. Não desgostei, acho-o bem estudado.

José Alexandre Soares, n.os 266 e 267.—Achei airosa e bem lançada a fachada para o Club militar. Deveria depois de feito ficar uma obra digna do ser admirada aquella Praça Publica.