AGUARELLAS
É uma das mais interessantes
manifestações da arte
pinctural, este genero de pintura, difficil na
execução, só se
admitte quando o desenho é muito correcto e a tinta
é dada
em pinceladas certas, frescas e vivas... por isso, o terem-me
agradado pouco os trabalhos expostos. A ver:
Francisco A. Moreira de Almeida, n.
os 268 a
271.—Francamente,
francamente, teem um ar ingenuo de chromo-lithographia.
Bartholomeu Sesinando Ribeiro Arthur, n.
os 272 a
278.—É
a especialidade d'este artista a pintura de costumes
militares e com franqueza, tem-nos, primorosos de
execução, o
que não quer dizer que tambem os não tenha
fracos. N'este
certamen agradaram-me o 273,
Official do regimento do
Maranhão,
feito com muito ar e muito boa luz, destacando soberbamente
no seu arrogante
aplomb, e o 274,
Official de estado
maior, tambem bem trabalhado.
Mademoiselle Helena Eisembart, n.º 279.—
Fructas.
Uns cachos de uvas com a sua folhagem, boa aguarella, muito
fresca, muito leve, transparente.
José Souza Moura Girão, n.
os
280 a
285.—Cá temos
outra vez o grande artista das aves. N'esta
secção brilha elle
deliciosamente. As suas aguarellas correspondem precisamente
ás condições exigidas para a boa
aguarella, côres vivas,
transparencia, e frescura; e tudo isso tem as suas. Notaveis
todas as dos n.
os 280, 281, 282, 284, 285 mas
sobretudo o
Fausto e
Margarida, 280,
Entrando, 282, e
Cantando, 285,
que a meu ver são magistralmente feitas.
Jorge Ianz, n.
os 286 a 295.—Outro aguarelista,
que
nos enche, com a sua côr fulgurante. São bem
manchadas as
suas aguarellas, fazendo-me lembrar, não sei
porquê, as do fallecido
Manuel San-Romão, o artista mais mimoso, que eu tenho
conhecido, como manchista, Ianz e inegavelmente um artista
de merecimento. São muito bons para mim, os seus 286, em
Toscana, 288,
Impressões de viagem,
292, 293, 294, tres bellas
marinhas, muito bem tratadas, o 295,
Descarga no
Tejo, é admiravel
de execução; a arcada que se vê ao
fundo do quadro poderia,
com honra, ser admittida n'um concurso de architectura.
Alfredo de Moraes, n.
os 296 e 297.—
Costumes
da
Judea. Não quero dizer que estejam maus, mas
fizeram-me lembrar,
Deus me perdôe, (Deus e o artista) os homens das tamaras.
Entre o almoço e o jantar―Marques d'Oliveira
Entre o almoço e o jantar—marques
d'oliveira
Roque Gameiro, n.º 298.—
Retrato
d'El-rei. Aguarella
de difficil execução, mas superiormente tratada,
boa luz, bella
côr, roupagem magnifica, tom de rosto bom. As luvas
são uma
perfeita illusão. É um bom trabalho.
DESENHO
D. Beatriz Alto Mearim, n.º 299.—
Um
estudo, regularmente
traçado.
Jorge Porphirio, n.º 300.—
Jardim
botanico. Achei-o
palmeirento de mais. Regular.
Candido da Silva Junior, n.º 301.—
Um quadrito com
cinco cabeças. Só me agradaram
as duas feitas a crayon azul.
PASTEL
Não imagine o leitor que eu vou discorrer sobre o effeito
do pastel de fructa, ou de créme, do Baltresqui,
não,
vou fallar do systema de pintar a
pastel—ou por outra, a
crayon de côres, e que por signal não é
lá das coisas mais faceis,
para ser bem feito. Para se trabalhar bem n'este genero
uma das coisas mais necessarias é saber desenho. Que afinal
para se pintar bem o que é preciso é desenhar
muito e bem.
D. Luiza Almedina, n.º 302.—
Retrato de sua
irmã Ilda. N'este trabalho ha varios defeitos,
saltando porém
á vista a
differença da côr entre o rosto, e o
pescoço e collo, que muito
prejudica o effeito do quadro.
D. Beatriz Alto Mearim, n.º 303.—
Estudo.
Uma velhinha.
Regularmente empastado.
Condessa Alto Mearim, n.º 304.—
Estudo.
Este quadro
a meu vêr, devia estar no catalogo na
secção dos desenhos.
É bem feito, vê-se que esta senhora não
descura a base principal
de pintura.
D. Maria Luiza Alto Mearim, n.º 305.—
Um
estudo. As
mesmas considerações expandidas para o
n.º 304.
Leopoldo Batistini, n.º 306.—
Cabeça de
estudo. Magnifica
de empastamento doce e finura de traço, penna é
que encha
tão por completo o quadro. Um pouco mais de margem
e seria para mim muito mais agradavel á vista.
D. Emilia Adelaide Santos Braga, n.º 307.—
Retrato
de
Cupertino Ribeiro. Trabalho bem feito.
José de Brito, n.
os 308 e
309.—Superiormente executado
o n.º 309.—
O frade.
Frederico Cezar Camara Leme, n.
os 310 a
312.—Recortado
de mais o 312,
Ovelhas.
Dá-me a impressão d'estas ovelhas
de cartão e algodão em rama, tendo ao fundo um
vulcão
de theatro, irrompendo bravamente e pondo uma luz forte em
todo o ambiente.
A chegada da diligencia aos Valles em Ferreira do Zezere―Alfredo Keil
A chegada da diligencia aos Valles em Ferreira
do Zezere—alfredo keil
Bemvindo Ceia, n.º 313.—
Um velho
operario, regularmente
tocado,
comme ci, comme
ça.
João G. Mattoso da Fonseca, n.
os 314
a 320.—Destacarei
d'este artista o 314.
Retrato de D. M. E.
F., que tem o cabello
e a pelliça magnificamente tratado.
Ninete, 315 regularmente
feito—especialmente o cabello, e pluma do chapeu.
Não gostei do 316,
A
Fé, porque achei a figura com muito
pouca fé, e o 418,
Ao
espelho, em que noto um determinado
abuzo de branco, na cara.
Adriano de Sousa n.º 321.—
Ave
Maria. A carnação
d'esta figura é muito bem tratada, aveludada e macia.
José Malhôa, n.º 322.—
Retrato
de mademoiselle C. R.
É simplesmente delicioso este quadro. Como desenho, como
technica de execução, como
posição de modelo, como tudo
emfim, é sem discutir esse o primeiro trabalho a pastel da
exposição.
Tenho visto muitos trabalhos n'este genero, mas, nenhum
me deslumbrou como este.
D. Antonio Lobo da Silveira, n.º 328.—
Um
estudo, mau.
Viscondessa de Sistelo, n.
os 324 a
325.—Não tive o gosto
de vislumbrar estes trabalhos na exposição ou
não estavam
lá, ou passaram-me despercebidos, por isso nada direi
d'elles.
GRAVURA
José Simões d'Almeida (Sobrinho), n.º
236.—
Medalha.—Gostei
d'ella.
CARICATURA
Aqui é que é tremer e tremer como varas verdes,
porque,
se estes dois pandegos me descobrem, ainda tenho a
sorte dos caricaturados expostos. Eu, se tivesse pretensões
á
popularidade, bem sei o que fazia: desatava a dizer mal dos
dois e elles, para se vingarem de mim, desenhavam-me ahi
em qualquer jornal burlesco e eu passava á gloria entre as
gargalhadas estridulas do publico e a arrelia das pessoas que
me querem bem. Porque eu, aqui para nós, dava uma boa
caricatura...
Mas não direi mal dos homens, nem bem... direi
só o que sinto... que o primeiro é filho de peixe
e sabe nadar
e o segundo tambem nada menos mal.
Perfilar, que vae passar a patrulha da troça e do chiste.
Manuel Gustavo Bordallo Pinheiro, n.º 387.—Soberbas
caricaturas, que pena é, não virem mais para o
publico, n'esse
Album de Glorias, que tão
estimado é pelos leitores. Aquelle
Chaby está
fulgurantissimo de graça.
Francisco Valenças, n.º 328.—
Typos,
todos elles bons,
mas superior o
Ricardo Jorge,
fazendo-me saltar o riso, naturalmente,
expontaneo.
ARTE APPLICADA
Aqui torce a porca o rabo, ou ainda: o rabo é o peor de
esfolar, como muito bem diz o nosso bom povo nos seus annexins.
E de facto assim é... eis um assumpto em que eu me
vejo assaz embaraçado—arte applicada!... eis uma coisa
onde vejo um largo campo para entretenimento de damas, a
pintura dedicada de bibelots adoraveis para
boudoirs de luxo.
N'esta secção primam com a sua bagagem artistica
todas as
senhoras que expõem.
Umas mais brilhantemente que outras. Não vos massarei
pois com citações de numeros nem de nomes.
O rapto de Ganimedes―Fernandes de Sá
O rapto de Ganimedes—fernandes de sá
Fallarei no emtanto, do n.º 336,
Goblin, do Jorge Ianz,
que na verdade é uma das imitações
mais perfeitas que temos
visto. Bem estudado nas côres, que dão a
impressão nitida de
estarmos em frente de um verdadeiro tecido; só achamos um
poucochinho puxado o preço...
Um conto de réis é dinheiro!
A
Moldura-Luiz XIV, n.º 337, de
José Emygdio Maior,
é bem esculpida, correcta no estylo e no desenho.
Tambem gostamos do n.º 338,
Modelo para uma
floreira,
é muito elegante de fórma e está feita
com certo mimo. Como
arte nova é acceitavel.
Ah! mas o que eu achei subtil, e vaporoso, foi o leque
exposto por D. Maria Bordallo Pinheiro. Que delicia, que encanto.
Aquella senhora vem de ha muito afirmando o seu
grande gosto artistico e o seu forte temperamento creador.
Que isso não nos admira, mal fora que assim não
succedesse,
pois ella é uma grande artista. Todos os seus,
são verdadeiros
artistas, cada qual no seu genero. Bordallo, o incomparavel
e inimitavel caricaturista; Columbano, o soberbo pintor;
Manuel Gustavo, correcto seguidor dos passos de seu pae,
vae largamente pondo-se a par d'elle, na firmeza e na
correcção
de caricatura.
Mas não é d'elles que eu fallo, é da
rendilheira sublime
que consegue que as operarias de Peniche, façam rendas
tão
finas e tão delicadas, que abertamente se podem
pôr ao pé
d'essas custosas rendas de Bruxellas e de Allençon.
Por isso, aqui lhe significa, este provinciano, que felizmente
já conhecia os seus bellos trabalhos, recordando ainda
hoje ao escrever isto, um lenço formosissimo executado por
D. Maria Augusta, com peixes e mariscos, a sua muita
admiração
pelo seu grande talento.
Notaveis tambem as
Fivellas n.
os
342 e 343, de João
da Silva, que achei bem executadas, não devendo
envergonhar-se
ao pé, das saidas de cinzeladores, como Jerdelet.
Ia-me passando falar d'uma japonesice em trez actos,
que é, como quem diz, em
trez
folhas, d'um
paravent, pintado
por Pigasson Ricot, que, na verdade, não está
feio. Estão bem
copiadas as figuras e os effeitos tirados, não
são maus. Acho-lhes
o mesmo defeito do Goblin de Ianz: é muito caro... para
amadores.
Santo Izidoro―Teixeira Lopes
Santo Izidoro—teixeira lopes
Sobre o concurso para a capa do catalogo, nada tenho
que dizer, pois isso era unica e exclusivamente da competencia
da commissão da exposição, que deu o
primeiro premio
ao trabalho de Francisco dos Santos e o segundo a Tertuliano
Marques.
E até que em fim, acabou a massada para o benevolo
leitor.
Desculpe-me, portanto, meu caro redactor, o eu ter estendido
tanto a
massa, como se costuma
dizer, mas desagravel
me seria, ter promettido falar de todos e deixar passar em claro
algum d'elles.
É
provavel que o publico e, muito especialmente,
os artistas, não tenham gostada
minha prosa, por eu ter dito muitas barbaridades,
mas eu sou assim; o que tenho cá
dentro é para se dizer, bem ou mal, segundo
posso e sei. Mas, se esta minha despretenciosa
prosa lhe agradou, de vez em quando, cá apparecerei
com noticias d'arte, lá do norte, do
Porto, d'essa aldeia trabalhadora e honesta,
para onde vou partir, pois já tenho saudades
d'ella...
Março 1903.
P. S.—As gravuras
d'este e d'outros artigos,
nem todas são copias
dos quadros notados
nos mesmos, mas,
na impossibilidade de
adquirir photographias
d'elles, usei de provas
de quadros dos mesmos
artistas, dando assim a
conhecer ao leitor trabalhos
de artistas de
merecimento e valor.
Guarda arabe―Pastel de S. M. El-Rei
Guarda arabe—Pastel de s. m.
el-rei
VIII
PINTORES PORTUENSES
† MANUEL SAN
ROMÃO
É com um grande prazer, cheio de saudade, que rapidamente
me vou occupar d'um bello e real talento
de aguarellista,
infelizmente morto.
Manuel San Romão
Manuel San Romão
Quando elle se finou,
sob a dolorosa impressão
que me deixou a sua morte,
não me atrevi a vir a publico,
depor na sua campa
o meu ramilhete de flores,
fazendo a apologia do seu
saber e das suas largas
aptidões para a pintura.
Esperei esse grande acto de
justiça dos outros, dos que
então eram os criticos d'arte
da nossa terra.
Mas, nenhum, nem
um só, compriu com esse
dever e Manuel San Romão
desceu á mudez profunda
do tumulo sem que alguem
viesse dizer que a Arte tinha
perdido um dos seus
filhos mais estremecidos e o mais apaixonado dos seus amantes.
Não me admirou que a critica artistica da nossa terra
se esquecesse de San Romão, por isso que, o querido morto,
não era d'aquelles que se expunham á
admiração de ninguem;
vivia para os seus trabalhos apenas, dispensando o reclamo
pomposo das gazetas e a vida turbulenta dos
clubs, exempto
de
coteries.
Na Espectativa―Aguarella de M. San Romão
Na Espectativa—Aguarella de
m. san romão
Era talvez um misantropo. Talvez.
Mas, o que inquestionavelmente
elle sempre foi,
era um grande sabedor de
cousas d'arte.
Conheci-o bem na sua
boa intimidade. Era um perfeito
cavalheiro, um verdadeiro
gentleman; cavaqueador
brilhante e fluente fallando
d'Arte com uma tal elevação
e enthusiasmo, com uma tal
proficiencia e um tão grande
saber que, n'essas occasiões,
fazia-nos lembrar um douto
professor preleccionando eloquentemente
sobre assumptos
da sua especial e authorisada
competencia.
Ao ouvi-lo discorrer como
mestre sobre esses mil problemas
intrincados e complexos
da Arte na sua mais ampla
acepção, convenciamo-nos
de que quem fallava não era
um
dilettanti da pintura, mas
um critico justo e sabedor,
um verdadeiro homem do
metier.
Com elle tive longas, longuissimas conversas no seu
confortavel atelier do largo do Viriato, e foi d'alli, talvez, que
me veio este prurido de fallar em artistas e coisas d'arte...
Que saudades tenho d'esse tempo, das magnificas tardes
que passei, em aquelle atelier pequenino e confortavel
como
gabinete d'uma delicada dama,
replecto d'uma suavidade
de luz e n'uma tão artistica
disposição e tão cheio de
flores, que fazia lembrar uma capellinha em festa...
E capellinha era em verdade, onde a Deusa Aguarella
era venerada, com um respeitoso enlevo, pelo seu sacerdote
querido, por isso que Manuel San Romão era um aguarelista
hors ligne.
Paisagem―Aguarella de M. San Romão
Paisagem—Aguarella de
m. san
romão
Para mim, o querido extincto foi
um dos primeiros
aguarellistas portuguezes; a sua maneira especial de manchar
ainda não foi suplantada por mais ninguem. Nem mesmo o
grande pintor Casanova, que foi professor de San Romão, e
que é inegavelmente um mestre na aguarella, nunca conseguiu
dar aos seus trabalhos
aquelle tom especial de mancha
que era uma das grandes
superioridades de Manuel San
Romão. E isto fazia-o elle naturalmente,
instintivamente...
Aquelle modo era o seu, d'ahi
talvez a impossibilidade de ser
igualado.
Depois, San Romão dava
aos seus trabalhos uma tal frescura,
uma tal transparencia e
uma tal suavidade de cores, que
as suas aguarellas eram como
uma pintura ideal que sempre
nos fascinava.
E como elle desenhava!...
Attestavam bem o seu estudo
do desenho as pastas carregadas
de trabalhos feitos por elle...
Muitos d'esses desenhos
tenho-os eu em meu poder, deliciosos
pedaços dum grande
poema d'Arte...
Pelas gravuras que acompanham
o nosso artigo, perfeitamente
o leitor póde verificar
que as affirmações que fazemos
são, por todos os motivos muito justas e muito verdadeiras.
O
fidalgo antigo é uma
soberba aguarella d'um vigor
de execução e d'uma
correcção inexcedivel de desenho, e o
quadro
No directorio, e a
Paisagem de Santa Maria de Boure,
e esses pequenos trabalhos, essas lindas figuras de mulher,
essas deliciosas paginas de livros e todos esses desenhos
não
serão manifestações seguras do seu
talento e do seu valor?!...
São! ninguem o
pode duvidar...
Paisagem―Aguarella de M. San Romão
Paisagem—Aguarella de m. san
romão
Mas, Manuel
San Romão não
era tão conhecido
do publico como
devera ser,
por isso que elle
não vendia os
seus quadros, dava-os.
Foi ao menos
feliz em não
necessitar de negociar
com o seu
trabalho... Vivendo
na abastança
não fazia
da Arte um negocio,
fazia d'ella
unicamente um
culto intenso e
sincero.
D'ahi os seus
quadros, esses
primores de
aguarella estarem
apenas espalhados
por um
meio restrito de
amigos.
Manuel San Romão não era exclusivamente um
aguarellista,
mas tambem um terrivel
bric-à-braquista.
Collecionava
tudo quanto fosse arte, gravuras, quadros, mobiliario,
faianças e, em especial, livros artisticos.
Era uma delicia visitar a sua moradia... Que encantadoras
cousas, formosos contadores, armarios soberbos de talha
antiga, arcas abarrotadas de gravuras notaveis e, pelas paredes,
quadros assignados pelos mais distintos mestres de pintura.
No seu atelier, alli, é que elle reunia o que mais
fundamente
lhe fallava á sua alma de artista, as faianças
mais
delicadas, os moveis mais requintadamente artisticos, as revistas
illustradas e os livros mais preciosos. E n'uma
pele
mele deliciosa tudo se agrupava para dar ao atelier a
forma
gentil e suave do gabinete d'uma fina duqueza e o ar sereno
d'uma capelinha em festa.
Que a memoria saudosa d'este morto querido, que foi
um dos mais deslumbrantes aguarellistas portuguezes, me
releve o vir eu hoje, o mais insignificante dos seus admiradores,
tiral-a da modesta indifferença publica para a
expôr á
veneração e respeito de todos aquelles que
vêem nos artistas
alguma cousa de elevado e de verdadeiramente sublime.
1904.
Uma sevilhana―Aguarella de M. San Romão
Uma sevilhana—Aguarella de
m.
san
romão
IX
A MULHER ARTISTA
S. M. a Rainha
S. M. a Rainha
Ha
dias, n'uma roda onde estavam senhoras, n'uma
conversa larga e em que se debateram varios assumptos,
um houve, que especialmente me prendeu a
attenção. Discutia-se
Arte em
geral, e um dos
homens, cavaqueador
enragé
emerito e apologista
da
não
emancipação da
mulher, desfechou
abruptamente
esta phrase:
«Não posso
admittir que a
mulher seja uma
esculptora ou
uma pintora».
Escusado será
dizer-vos que esta
phrase fez no
grupo o effeito
de um
duche frio
e forte. Após,
porem o choque,
houve, como era de esperar, a reacção, e, como
poderam, os
paladinos
da sala, debateram e rebateram a estranha
declaração,
com factos, n'uma larga demonstração de
erudição e talento.
Eu fiquei-me callado, esperando melhor occasião para
poder dizer serenamente, sem precipitação, as
considerações
que tinha a fazer sobre tal assumpto.
D. Aurelia de Sousa
D. Aurelia de Sousa
E hoje, perfeitamente á
vontade, sem pressões de
especie
alguma nem necessidades de galantear,
vou dizer o que penso da mulher
artista, e como eu teria desarmado
o gracioso se logo me tivesse permittido
dizer-lhe alguma coisa em resposta ao
seu repto.
A mulher é um dos mais perfeitos
trabalhos da natureza, quer vista
sob o lado plastico e physico, quer sob
o moral e espiritual. É como nenhum
outro ente dotada d'um espirito, que,
quando bem educado, se inclina sempre
para o Bello, para o Ideal. Ella,
muito mais do que o homem, deixa-se
assenhorar das impressões, e o seu
coração,
muito mais passionavel que o
nosso, mais facilmente se commove e se
infiltra d'uma doce alegria ou d'uma
saudosa tristeza.
Como nenhum outro individuo
ella descobre e comprehende pequeninos
nadas psychologicos, que passam
despercebidos aos nossos olhos.
Por isso, quando educada e industriada no grande problema
da Arte, deve facilmente adquirir elementos magnificos
para execuções de vulto, e de obras que venham
tocadas
d'uma suave poesia.
Depois, se a mulher tem o direito de dançar e de cantar,
e se lhe admiram as qualidades raras de eximia bordadora,
porque negar-lhe o direito de, tomando os pinceis e o
escopro, pintar, esculpir e indo mais longe mesmo, escrever
livros, cujo encanto será deliciosamente bom? Ora ella canta
e dança desde a origem do mundo e borda desde as eras mais
remotas da antiguidade; portanto, que direito nos assiste a
nós, que caminhamos para o maximo da
perfeição, de evitar
que ella nos dê as manifestações mais
brilhantes do seu ser artistico,
do seu temperamento singular? Impossivel.
Estudo de creança―Aguarella de S. M. a Rainha
Estudo de
creança—Aguarella de s.
m. a rainha
Isto seria verdadeiramente barbaro!...
Para que ella cante ou dance, só se lhe exige que tenha
talento vocal ou choreographico, tal qual o que se exige ao
homem para os mesmos fins. E, se tal succede e a logica existe,
qual a razão porque durante tanto tempo se puzeram entraves
ao franco estudo da pintura, da esculptura e da litteratura,
ás mulheres?
Bem sei que o canto, a dança e a musica, eram considerados
por todos, como dotes necessarios e sem os quaes
uma senhora não podia briosamente frequentar a sociedade.
Menina que não dançasse, em noite de baile, era
como
flôr sem aroma, que se ficava estiolando em canteiro, d'onde
tinham sido colhidas todas as olorosas rozas e violetas. Havia
pois a necessidade de se aprender a dançar, e todas tentavam
ser eximias no
minuete, na
gavota, na
pavana, na
valsa, na
polka, e no
pas-de-quatre.
Tia Bertha―D. Branca Assis
Tia Bertha—d. branca assis
Depois
começou a desenvolver-se o gosto pela musica;
as audições de operas nos theatros
de S. Carlos e S. João, a
organisação de escolas particulares
de canto, os concertos onde
era chic apparecer, foram
creando os amadores distinctos
que no Porto e Lisboa teem
affirmado exuberantemente que
n'este nosso torrão, não ha só
bom sol, ha tambem boas gargantas
e bastante talento, (porque
para se cantar bem não
basta só ter uma boa voz é preciso
tambem talento e arte). E
assim appareceram em Lisboa
e Porto as Ex.
mas Snr.
as
D. Maria
Albergaria, D. Laura Gasparinho,
D. Maria Viterbo Ferreira,
D. Carminda Guerra Andrade,
D. Laura Leite, D. Alice Freire
Silva Braga, M.
elle Lidia Oliveira, M.
me
Sarah Mattos, M.
me
Ilda
Blanc, D. Stela Pinheiro, M.
elle Castello
Branco, Condessa
d'Almeida Araujo, Condessa de Proença-a-Velha, D. Maria
Thereza Valdez Pinto da Cunha, D. Carolina Palhares, D.
Leopoldina Kopke de Carvalho, D. Beatriz Arroyo, D. Izabel
Vallado, D. Elisa Lear, D. Albertina Arnaud, D. Julia Villares,
D. Thereza Wandscheneider, D. Edwiges de Castro, D. Judith
Marques, D. Bertha Leaham Camello, D. Camilla Katzeintein,
D. Margarida Motta, D. Maria Luiza Mourão, D. Idalina
Castro, D. Laura Leite, D. Anna Fins, D.
Conceição Castello
Branco Albuquerque,
D. Margarida
Fernandes Braga,
D. Bertha Arroyo,
D. Julia Pinto
Moreira, D. Olinda
Rocha Leão.
Quem espera desespera―Zeó Wauthelet Batalha Reis
Quem espera desespera—zeó
wauthelet
batalha reis
Mas, tambem
lá estava a necessidade
de apparecer,
de ser notado.
Era preciso cantar
para não ficar
atraz das outras
que apareciam, e
assim se desenvolveu por completo o gosto pelo canto, essa arte
sublime que, como dizia um philosopho, faz um ente transportar-se
ao
sol sem se lembrar de
si.
Com a musica de pianno e rebeca, etc., o mesmo se dava,
era como o canto, um genero de sport artistico. Toda a gente
tocava, mas, era preciso ir mais longe, era preciso tocar bem
para ser notado. Em qualquer parte onde se estivesse, n'uma
sala, havia sempre muitos que podessem exhibir os seus dotes
musicaes, mas, no meio deste mar de tocadores-amadores só
se foram distinguindo os que tinham verdadeiro talento, e
assim se notabilisaram ao pianno: D. Maria Josephina Pacifico,
D. Elisa Baptista Souza Pacheco, D. Ernestina Freixo,
D. Maria de Magalhães, D. Leonor Atalaya, D. Maria Ferraz
Bravo, D. Esther Coelho de Campos, D. Carolina Suggia, D.
Leonilda Moreira de Sá, D. Julieta Vieira Barbosa, D. Elvira
Mattos, D. Maria Julia Brandão, D. Maria Helena Carvalho,
D. Elisa Allegro, D. Bertha Marques Pinto, D. Aurelia Paiva,
D. Maria Augusta Mattos, D. Luiza Margaride, D. Constança
Pinto Moreira, D. Anna Oliveira Ramos, D. Virginia
Suggia.
Em rebeca: D. Judith de Mello, D. Amelia Marques
Pinto, D. Laura Barbosa, D. Irene Fontoura Madureira, D. Rosalia
Maia, D. Ophelia d'Oliveira, D. Luiza Coelho de Campos.
Em violoncello: D. Guilhermina Suggia.
Em harpa: D. Virginia Viterbo e D. Anna Jane Menezes
de Mattos.
E isto como o canto foi impulsionado, porque era preciso
apparecer com vantagens sobre outros.
Condessa d'Alto Mearim
Condessa d'Alto Mearim
Com a pintura e esculptura porem
não se dava isso. Os
amadores de pintura só tinham occasião de mostrar
os seus
trabalhos, quando algum d'estes
cabrions
que teem o nome de
possuidores
de albuns, vinha pedir a esmola
d'uma collaboraçãosinha, para esses
repositorios exoticos de coisas
varias e quiçá exdruxulas, onde se
afundaram muitos poetas e se lapidaram
muitos desenhadores.
E os amadores de esculptura?
Esses, nem os havia. E se algum se
dedicava a esse genero da divina
Arte, era tão escondidamente que
ninguem dava por elle.
Mas, sob o impulso grandioso
do desventurado Silva Porto iniciava-se
uma nova era d'Arte. Começaram
de fazer-se exposições na cidade
de Lisboa e na do Porto, exposições
criteriosas que foram o inicio do renascimento da vida
artistica portugueza e o marco milliario do bom gosto e do
aproveitamento de muitos talentos ignorados e de muitas notabilidades
nacionaes.
Promovidas na capital pelo grupo de Leão, esse brilhante
gremio de que fizeram parte Columbano, Ramalho, Malhôa,
Gyrão, etc.; e aqui, por um grupo de artistas e amadores de
Bellas-Artes, sem designação especial de nome,
mas entre os
quaes figuravam Marques de Oliveira, Julio Costa, Marques
Guimarães, Antonio Costa, o saudoso Xavier Pinheiro, Adriano
Ramos Pinto,—as exposições d'arte teem sido
actualmente
realisadas pelo Instituto de Estudos e Conferencias.
D. Alice Grilo Lima
D. Alice Grilo Lima
D'ahi, do agrupamento desses
artistas, e tentados pela
gloria de se ver aplaudidos pela
opinião publica e instigados
pela critica amiga dos jornaes,
fez-se uma como que revolta
no meio da sociedade, que vive
um pouco do espiritualismo
Artistico do Bello, e como que
resaltou uma nova pleiade de
amadores, que tenta a pintura
e a esculptura. No meio d'essa
pleiade resaltam como caracteres
artisticos definidos e
assentes, individualidades cujos
nomes temos que notar e
descrever.
Apparece no alto, como
verdadeira fulguração na arte
de esculpir, a Duqueza de
Palmella, a maior alma de artista
que pode ter uma amadora.
Os seus trabalhos perfeitamente
executados são confirmações
indiscutiveis do logar proeminente que ella deve
occupar entre os que são sacerdotes na sublime arte de Milo.
No Porto, como sacerdotisa emerita d'essa arte, temos a
Ex.
ma Sr.
a D. Joanna
Andressen Silva, de que mais adeante
fallaremos
em artigo especial.
Na pintura, confirma-se o que a principio digo, só se
exige que as amadoras tenham talento, para se lhe poder garantir
o logar ao lado dos homens na transplantação para
a
tela da natureza, em todas as suas variadas
manifestações. E
assim, tanto no Porto como em Lisboa, todos os dias se fazem
novas revelações de senhoras que são
verdadeiros sportwomen
artisticas. E assim notaremos, D. Francisca Furtado, D. Sophia
de Souza, D. Amelia de Souza, D. Julia Molarinho,
D. Lucilia Aranha Grave, D. Olympia Faria de Abreu, D.
Maria Afflalo, D. Alice Grillo Lima, Condessa d'Alto Mearim,
D. Maria Luiza Alto Mearim, D. Branca de Araujo Assis,
D. Constancia Avides, D. Maria Idalina Carneiro, D. Margarida
Costa Romão, D. Josepha Garcia Greno, (fallecida), D.
Herminia Victoria Lagoa, D. Amelia Lamas, D. Izabel Areias
de Lima Lawer, D. Leopoldina Maia Pinto, D. Maria Teixeira
de Moura, D. Laura Nobre, D. Clotilde Rocha Peixoto,
Viscondessa de Cristello, Zeó Wauthelet Batalha Reis, D.
Margarida
Ramalho, D. Albertina Falker.
E, tudo isto, pela simples razão de haver
exposições,
onde se pode mostrar que se tem aptidões para a pintura ou
para a esculptura, que se tem talento artistico emfim.
Portanto, desde que se tenha esse bello dom natural,
que faz de nós um poucochinho mais do que a vulgaridade,
não acho razão nenhuma para que se queira tirar
á mulher o
direito de publicamente mostrar que é um pouco superiora
ás
outras. Eu, sou d'aquelles que digo: que o saber não occupa
logar, e, que, antes quero ver uma mulher pintar bem um
quadro, do que pintar os olhos e os labios. No primeiro caso
só pode mostrar que a preoccupa o espirito com alguma coisa
donde lhe pode vir honra o louvor, no segundo caso... que
não o preoccupa com nada...
Setembro 1904.
Orchideas―D. Alice Grilo
Orchideas—d. alice grilo
X
NOVAS EXPOSIÇÕES D'ARTE
Ao mesmo tempo duas exposições de pintura, uma
organisada
pelo Instituto de Estudos e Conferencias,
outra organisada pelo snr. Lagôa. Estamos em maré
d'Arte, não ha que vêr. Ora eu, que sou um
bisbilhoteiro de
mil diabos, lá fui, n'um d'estes ultimos dias de bom sol,
visitar
as duas exposições.
Boas e más impressões trouxe d'estes certamens e
é o
que muito despretensiosamente direi para diante, conforme o
meu modo de vêr.
Tem, já se sabe o primeiro logar, a
exposição do Instituto,
e tem-no por muitos e variados motivos; entre esses
porque é formada por trabalhos de artistas, se bem que por
lá
andem anichados puros amadores... Mas, isso fica para depois,
para mais larga conversa quando não houver já que
dizer a
respeito dos artistas.
Ao Instituto de Estudos e Conferencias, se deve, em
parte, a ameudação de
exposições d'esta natureza; pena é que
nem todos os nossos artistas comprehendam o quanto isto é
util para elles.
Sente-se por isso alli a falta dos nossos melhores pintores,
e é pena. Não sei, nem tentarei desvendar a
razão porque
os bons artistas não querem concorrer, mas sinto
profundamente
que Salgado, Malhôa, Columbano, Carlos Reis,
Girão, e
outros, se fiquem, lá de longe, sem nos dar o gosto de lhes
applaudir e admirar o talento nas suas varias telas, que são
quasi sempre admiraveis. Talvez porque não encontrem no
nosso meio quem os saiba comprehender ou quem os saiba
pagar, talvez!...
A exposição, no seu geral, é fraca,
sem interesse (que
barbaro eu sou). A não ser uma meia duzia de telas, o resto
é
insignificante, sem destaque, morrendo pelo... nem sei mesmo
porque... mas
fazendo-nos sentir
a
saudade das
D. Sophia de Sousa
D. Sophia de Sousa
exposições
realisadas no Atheneu Commercial,
ha tantos annos já, e organisadas
por um nucleo de pintores
conhecidos. Isso sim, isso é que foram
exposições onde todos concorriam
cheios d'aquella boa vontade
e d'aquelle enthusiasmo que é peculiar
ás almas novas; que isto não
é dizer que as almas d'hoje sejam
almas velhas, não, são almas novas,
mas formadas pelo systema arte-nova,
tão cheia de curvas e sinuosidades,
que treslouca.
Como de costume, lá fui encontrar
no catalogo nomes dos que
nunca faltam á chamada, honra
lhes seja, Marques d'Oliveira, Torquato
Pinheiro, Candido da Cunha,
José de Brito e Antonio Costa, e
a par d'estes, muitos outros e alguns que começam agora a
apparecer.
D'entre os artistas, que expõem, a meu vêr,
destacam-se
Marques de Oliveira e Candido da Cunha, que são
inegavelmente
os que dão a nota pelo seu modo e pelos seus assumptos.
José de Brito, soberbo no seu pastel
Um
frade, no resto sempre
um tom ingente de nevoa que faz os seus quadros baços.
Torquato Pinheiro, muito bem no
Retrato de meu
filho,
assim como, gostamos d'elle, nos seus—
Fins da tarde
de outomno
e
Rua de Villa Real.
Eduardo Moura, esse pintor, cheio de poesia intensa dos
encantos cazeiros, veio á exposição
com dois quadros que já
lhe conheciamos, mas que por isso não deixarei de os
mencionar,
especialisando para meu gosto o—
Serviço
feito, que
acho primoroso.
Prat, com os seus estudos não foi completamente feliz;
destacam no entanto a
Cabecita de
burro, que me não desagradou.
Victorino Ribeiro, com o seu—
Esperando um
amigo,
está bem apresentado.
D. Sophia de Souza, regularmente, se bem que se nos
tenha mostrado em outras exposições muito melhor.
D. Aurelia de Souza, com o seu estudo—
Um
africano,
muito bem. Emquanto ao resto dos seus trabalhos achei-os inferiores
ao seu muito talento artistico.
Antonio José Costa, como sempre, o primoroso pintor de
flores, dá-nos umas
Camelias bem tocadas e muito
frescas.
De Julio Ramos, pouco ou nada mais temos a dizer do
que o já temos dito: tem talento e sabe do
metier. A sua
Marinha é para mim o seu
melhor trabalho n'esta exposição.
Marques de Oliveira
Marques de Oliveira
Almeida e Silva, esse, parece que
desandou; as suas telas
são demasiadamente recortadas
e esmiuçadas.
Lembrei-me com saudade
de outros quadros seus,
expostos em tempos idos,
como por exemplo, um
Viatico
na aldeia e um
Cabeça
de cabrito.
Augusto Ribeiro, é
um trabalhador incansavel,
produz de mais. Desenha
bem e pinta com certo gosto,
mas pinta muito. Tem
na exposição alguns quadros
de valor e a
Marinha
da Foz,
O atalho ao
sol, são
bons. Como notas typicas
do nosso meio são interessantes
as manchasitas do
Bolhão,
Anjo e dos
Ferros
Velhos.
Francisco Gil, é um
pintor da Figueira da Foz
que tivemos o prazer de
vêr pela primeira vez; os seus trabalhos são
(perdoem-me o
francez)
comme ci comme
ça.
Lago Pinto, é um novo que promette muito e que se
apresenta com vontade de fazer alguma cousa. São muito
recommendaveis os seus quadros
Fim da
tarde e
Lavadeiras,
em que a agua está bem estudada.
Flores―D. Leopoldina Maia Pinto
Flores—d. leopoldina
maia pinto
Teixeira
Bastos, é um pintor de Lisboa que veio ao Porto
mostrar-nos que tem talento artistico, dando-nos a impressão
de que vê muito bem. O que especialmente
o torna notado é o
magnifico tom de luz que dá aos
quadros.
Os castanheiros, foi para
mim o que mais me agradou; são
dignos de menção a
Cabeça da
rapariga e
Canto do
Rato.
D. Leopoldina Pinto é uma
amadora distincta.
Carlos Gomes Fernandes,
é tambem um amador que começa.
É provavel, que de futuro
nos dê quadros, que se tornem
notaveis, por emquanto é, a nosso
vêr, um amador que tem vontade
de fazer alguma coisa.
Fallei de todos mas deixei
para o fim Marques de Oliveira
e Candido da Cunha, porque a
meu vêr são os dous pintores que
attestam profundamente o seu
temperamento artistico.
Marques de Oliveira é inegavelmente um mestre e
não
era preciso que eu o dissesse, eu que sou um
zero no nosso
meio critico. Os seus quadros
Cercanias
d'Agueda,
O Combro
e as
Lavadeiras são obras
primas de desenho, de côr e de luz.
Candido da Cunha, poeta triste da pintura, amando a
luz iriada dos poentes, dá-nos quadros maravilhosos,
destacando
como florão da sua corôa de artista a
Hora nostalgica. Não
devemos porém esquecer a sua
Casa
rustica e os seus
Moinhos
em Leça. Ha tambem na
exposição um trabalho d'este artista
que me extasiou. É o retrato da esposa do pintor, feito a
carvão (claro escuro). Trabalho que por si só
bastaria para
n'outro meio, que não o nosso, dar o nome a um artista.
Correcto
de desenho, é superiormente primoroso.
Falta fallar d'um amador, tão distincto que não
pude
fugir ao desejo de lhe reservar um logar mais para o fundo,
para que fizesse alguma impressão d'elle, ao leitor amigo,
que
tivesse a pachorra de me lêr até ao fim. Refiro-me
a Alberto
Ayres de Gouveia, discipulo de Marques d'Oliveira e que
honra o mestre. Sabiamos de ha muito que este cavalheiro se
dedicava á pintura, mas francamente, julgavamos que elle
fosse um
dellitanti como
A Caridade―Teixeira Lopes
A Caridade—teixeira lopes
muitos
outros, que tendo tempo livre,
se entretinha a fazer pequenas
cousas sem valor,
mas, ao comtemplarmos a
sua obra, ficamos confuzo.
Era uma revelação...
Trabalho agigantado o
seu, topando um assumpto
sublime, tal como a
Vida de Jesus. Pintor mystico
com tal pujança nunca
o imaginaramos. Vemos
que elle se sae brilhantemente
da empreza
em que se metteu. Os seus
quadros a
Palavra do Mestre
e o
Christo morto são
verdadeiras obras d'arte.
Figuras estudadas com
cuidado, pousadas naturalmente
sem poses academicas,
tendo vida e verdade,
luz e côr escolhidas
com sciencia; pinceladas
largas e justas eis o que
se encontra n'aquelles
dois quadros.
No seu
Lettre de Colombine,
ha um effeito de
luz admiravelmente estudado.
Mas, Ayres de Gouveia
não é só correcto nos
seus quadros biblicos e de phantasia, é-o tambem quando faz
o retrato, assim podemos dizer que é bom o seu oleo e
retrato
de mademoisselle M. F. A.
E desenhando a pastel ou a claro-escuro, tambem se
nos revela um verdadeiro artista; são para notar o seu
Apollo
e
Retrato de mademoiselle Allen,
(ambos a pastel)
e cabeça de
estudo, (a crayon).
Mas, não digamos mais nada d'esse amador, que podem
julgar para ahi que eu sou amigo d'elle e vim aqui só para o
elogiar, e eu não quero isso.
Passemos agora rapidamente á esculptura, deixando em
branco as aguarellas, porque francamente não gostamos de
nenhuma.
Em esculptura destaca-se em primeiro logar Fernandes
de Sá com a sua
Cabeça de
Velho e o
retrato do medico Correia
de Barros, este ultimo um trabalho flagrante de
verdade.
D. Joanna Andressen revela-se-nos uma amadora distincta,
pois em pouco tempo fez progressos grandiosos.
D. Albertina Falker: não gostei do seu
Bébé.
Não
sei que lhe achei de mau, talvez a posição
d'aquella cabecita...
Não sei...
Com respeito a arte applicada, só direi, que tenho
visto muito melhor do que aquillo.
E acabou-se a resenha das minhas impressões.
Antes, porém, de fechar este despretencioso artigo uma,
como que nota final.
Eil-a:
Uma coisa urge fazer de futuro em exposições
congéneres.
Destacar em grupos definidos os artistas e os amadores;
a cada um o seu logar.
Poderão mais facilmente ser apreciados os seus trabalhos,
e não teremos ao primeiro relance uma impressão
tão
má. Aproveitam todos mais, os artistas, porque juntos,
ver-se-hão
obrigados a applicar todas as suas aptidões para se
destacarem
uns dos outros: os amadores, no seu modo de fazer um
pouco
gauche, não
terão o confronto dos quadros dos mestres
que, quasi sempre, os esmagam. Assim, ao entrar n'um
Salon
tanto o critico d'arte, como o amador ou o indifferente,
saberá,
logo o desconto que tem a dar aos trabalhos, dos que
começam,
ou fazem arte para entreter e não fará injustas
apreciações.
Este, é o meu modo de vêr e penso bem que os
proprios
artistas me acompanharão n'elle.
Quando porém um amador se impozer pelos seus trabalhos,
como os de Alberto Ayres de Gouveia, então que entre
desassombradamente no gremio dos artistas e que se sujeite
á critica rigorosa dos que sabem do assumpto.
Emquanto assim não acontecer, estas
exposições não terão
um caracter definido, não terão o ar correcto
d'um verdadeiro
Salon. Dar-nos-hão
simplesmente a impressão da sala
d'um burguez endinheirado, que finge ter gosto pela Arte.
Ahi fica a impressão que me deixou a visita feita
á Exposição
de Pintura do Pateo da Misericordia.