Dezembro de 1902.
Panneaux decorativo na Sala da Bolsa do Porto―Velloso Salgado
Panneaux decorativo
na Sala da Bolsa do Porto
velloso salgado
PINTORES PORTUENSES
Eduardo Moura
Eduardo Moura
José Teixeira Lopes
José Teixeira Lopes
Candido da Cunha
Candido da Cunha
Julio Ramos
Julio Ramos
XI
Uma Exposição de Aguarellas
ORGANISADA por AMADORES
N'um dos salões do Palacio de Crystal, acaba de ser
aberta uma Exposição de Pintura, onde o professor
portuense de desenho Joaquim Marinho e suas
discipulas, sujeitam á apreciação do
publico os seus trabalhos.
Joaquim Marinho
Joaquim Marinho
Fui, como é meu
costume, vêr a
Exposição, sem a
preoccupação de critico
d'Arte, como um bom
vivant, um
mero collecionador, affeito um pouco a
vêr com os olhos do espirito, além dos
olhos da cara.
Não terei portanto aqui, n'este
modesto
compte-rendu, phrases
empulgantes,
nem sentenças judiciosas sobre
os trabalhos expostos. Modesto será o
meu artigo como modestos são os expositores.
Deixo aos outros, aos que
sabem de tudo, aos que chamam a quadros
a oleo
cromolytographias, essa
extraordinaria
tarefa de dizer muito e retumbante,
sem dizer nada.
Fui, como disse acima, vêr a Exposição
e gostei; entre os quadros expostos
ha alguns que destacam, como manifestações de
estudo
e talento.
Não farei a resenha detalhada d'elles, nada d'isso,
sómente
indicarei os que mais fundamente me impressionaram.
Estão n'este caso, como decorativos, os apreciaveis
trabalhos
a pastel de Joaquim Marinho,
A
Camponeza, e os de
D. Zulmira Almeida e D. Izolina B. Sá,
Imitações de
azulejos.
São de completa novidade, dando uma nota
Paisagem―Aguarella de J. Teixeira Lopes
Paisagem—Aguarella de
j.
teixeira lopes
fulgurante de boa
concepção e execução. Estas
duas senhoras, entre varios
outros trabalhos, teem mais,
a primeira, duas paisagens
em pastel, magnificas; a segunda,
uma marinha muito
acceitavel.
Ha mais uma
Cabeça
de creança (pastel) de D. Maria
Leonor, que me impressionou
deliciosamente. Esta
senhora expoz tambem dous
outros quadros, (paisagens),
tambem a pastel, muito interessantes.
D. Guilhermina Marinho,
com os seus estudos a
aguarella, revela-se-nos uma
amadora distincta e conscienciosa;
destacarei d'entre elles
os
Recuerdo del Paiz Vicino,
(interessante scena de
bailado em Andaluzia) e
Rapaz de
Aveiro. Primorosos.
D. Maria Joaquina, dá-nos duas pequeninas
impressões
de Vizella, muito interessantes.
Deixei para o fim propositadamente o fallar do professor.
Este, expõe, entre outros, um quadro que eu admiro
pelo modo como está feito. É um trabalho a
carvão de grandes
dimensões e chama-se a
Batalha de
Malmaison. Todo
aquelle céu está bem trabalhado e cuidadosamente
desenhado.
É magnifico.
Tem tambem tres trabalhos a carvão, em madeira, que
são interessantes e apresentam muita novidade. Um d'elles
especialmente
Um boi,
está magnificamente bem feito.
Não me alargo mais n'este meu
modesto
artigo, mas ao
terminar não posso deixar de manifestar aqui o meu applauso
ao iniciador d'este certamen d'Arte, animando-o a que continue
a mimosear-nos com exposições como esta, que
distrahem
a vista e consolam a nossa alma, farta das ignominiosas scenas,
que vão por esta terra. Aquillo é como um banho
santo
ao nosso espirito enervado e doentio.
Parabens, pois, pela sua exposição.
Novembro de 1900
Cabeça de estudo―Pastel de José de Brito
Cabeça de estudo—Pastel de
josé de brito
XII
PINTORES PORTUENSES
THOMAZ DE MOURA
Eu sou d'estes sujeitos que gosto muito de vêr e de
apreciar tudo quanto de Arte apparece no nosso restricto
meio, e por isso fui ha dous dias até á
Photographia
Guedes, visitar a exposição de quadros de Thomaz
de Moura.
Thomaz de Moura
Thomaz de Moura
Conhecia já este
artista d'uma
exposição, que em Lisboa
se realisara, nas salas da Sociedade Nacional
de Bellas Artes e onde elle concorrera com
sete quadros. N'essa occasião e em um jornal
da capital tive occasião de manifestar a
impressão que então recebera dos seus trabalhos.
Hoje, porém, que elle no Porto se
nos apresenta, não é muito, que, mais uma
vez, me occupe dos seus trabalhos, n'uma rapida
noticia, sem philosophia d'arte nem detalhes
de apreciação, mas unicamente n'uma
resenha breve e simples do que vi.
Na sala do nosso amigo Guedes de
Oliveira, esse bello rapaz, amigo dedicado
dos artistas e tão artista como elles, reune
Thomaz de Moura 39 trabalhos, que dão a nota verdadeiramente
accentuada do seu temperamento artistico.
Talvez, porque a sua alma seja d'um contemplativo, ou
d'um triste, ha nos seus quadros um quer que seja de nostalgico
e de sugestivo. Não é d'aquelles pintores que
distribuem,
ás pinceladas, nos seus quadros, as tintas fortes e
vibrantes;
os vermelhos carmins e ocres amarellos. Não, enche as suas
telas d'umas tintas doces e melancholicas. Depois ha ali muita
paisagem dos paizes brumosos, trabalhos que elle executou lá
por fóra nas suas viagens de estudo. E a paisagem da
França
e da Bretanha, essa paisagem, é muito differente da nossa.
Lá, não se encontra um céu como o
nosso, claro e limpido,
onde as aves passam n'um vôo chilreante de alegria, o sol de
lá, como que apparece envolvido em gaze, não
é retumbante
e claro como o nosso e as tonalidades da
vegetação tem aqui
um forte destaque de frescura que falta n'esses paizes.
E, é talvez d'isso que se sente o nosso artista. Mas,
quando elle retratar a nossa paisagem, esse Minho encantador,
então, vel-o-hemos accentuar perfeitamente as nossas
côres e
nosso tom.
Algumas das telas apresentadas já são da nossa
paisagem,
mas, vistas um pouco ainda com a vista habituada ao
cinzento das paisagens bretãs, d'ahi o não terem
a nitidez
accentuada da paisagem portugueza.
D'entre todas essas telas destacarei para mim como a
mais subtilmente inspirativa—
Christo lamentando
Jerusalem,
de linhas definidas embora, em esquicio, de uma
concepção
bella, d'um effeito sentimental e de uma suave expressão.
Os cuidados de mãe, que
eu já conhecia, são um estudo
de interior que revela muito saber e muita
observação.
O fim da tarde, delicioso poente,
onde o céu tingindo-se
de vermelho, dá ao quadro uma
inspiração suave do quer que
seja de poesia lyrica.
No limiar da porta, bella
cabeça de rapariga, d'um
olhar aveludado e triste, de quem espera por alguem; talvez
pelo seu namorado.
No
Cabeça de rapariga
bretã, ha a mesma serenidade
que no
Limiar.
Um caminho, é um bello
retalho de aldeia, um caminhosito
tortuoso coberto por uma frondosa ramaria. Appetece
descançar um pouco, ali, após um largo passeio.
Os casebres de Alfena,
O lavadouro (Guisec),
Açudes
(Vizella),
Ribeira de Pont
d'Abbé, e mais outros ainda,
são
manchas tocadas com primor e com muita proficiencia.
Os pequenos marinheiros,
é um quadro onde se revela
d'uma maneira accentuadamente definida a
disposição que
Thomaz de Moura tem para a figura. Os dous rapazes estão
perfeitamente desenhados e sahem da tela accentuadamente.
Ha um quadrosito tambem notavel, é o
Nos
campos, um
pequeno sentado sobre a relva parece desfolhar malmequeres
emquanto ao fundo, sob um traço de luz, pastam dous mansos
bois, é inegavelmente um dos mais apreciaveis trabalhos
expostos.
Mais largo poderia e deveria ser este
compte-rendu da
exposição, mas eu prometti apenas uma ligeira
noticia, e as
minhas aptidões criticas não dão para
mais.
E ao acabar permitta-me Thomaz de Moura, que lhe signifique
n'estas rapidas linhas a magnifica impressão que me
deixou a visita que fiz á sua
exposição.
1904.
Panneaux decorativo na Sala da Bolsa no Porto―Velloso Salgado
Panneaux decorativo na
Sala da Bolsa no Porto
velloso salgado
XIII
AMADORES PORTUENSES
D. JOANNA ANDRESSEN SILVA
D. Joanna Andressen Silva
D. Joanna Andressen Silva
Sinceramente
e no mais
grato dos respeitos
vou deixar em breves
linhas as minhas impressões
sobre o merito artistico
d'esta illustre senhora, amadora
distincta d'esculptura, illustre
pelo talento e pela fidalguia
do caracter, um caracter
d'oiro, propenso ao bem, cheio
de fé e de bondade.
Eu sei que biographar
um amador é trabalho de certo
folego, muito especialmente
quando o amador é distincto,
como esta illustre senhora;
mas eu não venho com mais
largas ideias que fazer uma
simples resenha dos seus trabalhos,
resenha esta que servirá
ao mesmo tempo de ligeira
nota de carteira da visita
que fiz ha dias ao seu
atelier. A isso, só a isso, me
abalanço, convencido de que
cumprindo um dever de cortezia
presto ao publico, ao que aprecia as
manifestações d'Arte,
um interessante e util favor.
Não me alargarei em detalhes minuciosos do grande
problema—a
Arte. Rapidamente, aqui
e alli, tocarei aquellas
notas, que veja de mais necessidade ferir, para completo
comprehendimento
do assumpto.
Salão do palacete de D. Joanna Andressen Silva
Salão do palacete de
D. Joanna Andressen Silva
N'esta altura, cabia
perfeitamente, como preambulo
a estes
pseudo-perfis,
uma larga tirada sobre
Escolas d'Arte,
Evoluções
da Arte,
Variedade de gostos
artisticos,
Papel moral
da Arte, etc. Não enveredarei
por esse caminho,
deixo esse estudo aos outros,
aos que com mais
direito e mais conhecimentos
possam fallar do
assumpto.
Sou apenas uma
especie de
reporter artistico,
que vem sempre que
d'isso tem occasião, trazer
a noticia d'um amador
que se torna notado, d'um
artista que está em fóco,
d'um atelier que se recommenda pela sua
disposição e pelo
recheio, e d'um
salon que se abre em
exposição de trabalhos
isolados ou
collectivos.
Feitas as precisas explicações, vou dar principio
á minha
singela narração, sem balofas
adjectivações e sem assumir
o ar solemne e grave de
Pater
Magister. Serei simples e
breve como convem aos que escrevem para todos: para os que
se embrenham nos profundos e intrincados problemas sociaes
e artisticos e para aquelles que só sabem ler. Farei
portanto
todo o possivel para que facilmente me faça compreender e
alguma coisa de util, traga, ao fim, em bem da Arte.
Foi n'uma manhã formosissima, de sol forte e claro que
fiz a minha primeira visita ao atelier da Ex.
ma
Snr.
a D. Joanna
Leheman Andressen Silva.
Ao fundo da Rua Antonio Cardoso, rua que partindo da
formosa Avenida da Boa-Vista, vae findar no Campo Alegre,
fica o sumptuoso palacete onde reside esta talentosa amadora.
A vivenda só em si é um encanto. A bella casa,
circumdada
de formosos parques e jardins, tem um aspecto grandioso e
rico que se impõe. Os jardins e o parque que a rodeiam
são
deliciosos trechos onde as musas predilectas bafejam e inspiram
os menos lyricos a compor deliciosas bucolicas e onde os
menos artistas encontram retalhos de paisagem encantadora e
suggestiva para transplantar á tela.
Canto do Atelier
Canto do Atelier
Eu não posso
fallar d'essa
paisagem adoravel que me
não sinta enlevado pelos
seus encantos naturaes.
Como é bello tudo quanto
d'alli se avista! Como é soberbo
todo esse quadro immenso,
cheio de vida e de
luz, deixando-nos apreciar
por momentos o bulicio da
cidade, a serenidade das
aguas do Douro, que serpeia
lá em baixo, a agitação
continua do mar, cujas
ondas se vem ao longe
n'um revolutear continuo,
e a tranquilidade da vida
aldeã, que se adivinha
com as primeiras casinhas
que se descobrem do outro
lado, no Monte das Chãs!...
Transpostos o jardim
e o parque entra-se
n'uma ampla galeria, onde,
bibelots caros e artisticos se
juntam n'uma delicada confusão
que contrasta com o fino do mobiliario e a riqueza das
tapeçarias.
Apenas alli introduzido, logo me appareceu a distincta
amadora, cheia de attenções e cuidados que
encantam, convidando-me
a visitar o seu atelier. Acedi da melhor vontade e
caminhei vagarosamente encantado pela conversa fluente e
interessante da illustre senhora que tem a alma d'uma fina
artista e a virtude d'uma delicada e cuidadosa dona de casa.
Busto de mademoiselle Eliza Andressen
Busto de mademoiselle
Eliza Andressen
N'essa passagem atravez de todo o
interior formoso e
confortavel da habitação, passagem que fiz com a
religiosa
uncção de quem visita um museu intimo,
tive a grata ventura de pousar a vista em
admiraveis trabalhos de Antonio Teixeira
Lopes, Marques d'Oliveira, Julio Costa,
Julio Ramos, Candido da Cunha e muitos
outros, e entre estes alguns dos mais consagrados
artistas estrangeiros.
E tudo isto, todo este batalhão de
Arte se espalha pela casa, gentilmente,
nos seus logares proprios, n'uma bem estudada
escolha de luz.
Entramos na sala de jantar depois
de termos atravessado o salão de baile.
Maravilhou-me a magnificencia das pratas,
das louças e dos crystaes, mas acima
de tudo a confecção e o estylo do mobiliario.
Avancei uma pergunta:—-«Quem fôra
o auctor d'aquella maravilha? Quem a desenhara?»
E a distincta amadora, sorrindo,
contou-me a historia d'aquella mobilia,
dizendo n'uma adoravel simplicidade que
para a sua execução fizera dous desenhos;
um era aquelle, o outro, mais decorativo, mais cheio de flores,
fôra posto de parte porque seu primeiro marido não
gostara
d'elle.—«E eu tambem», concluiu a illustre
amadora.
Assim devia ser, porque, por mais formoso que o outro
fôsse, aquelle desenho que alli estava, com certeza o havia
de
supplantar, porque é uma verdadeira maravilha de Arte, quer
em concepção, quer em
execução.
Em seguida atravessamos o jardim, onde brincavam os
filhinhos de D. Joanna, e passamos ao atelier. É este
construido
sob a sombra protectora e amiga d'algumas bellas arvores;
banha-o de luz intensissima uma larga janella que lá
do alto se abre para a estrada.
Uma vez alli dentro, analisei detidamente tudo o que lá
se achava, desde o mais insignificante desenho até
á mais bem
lançada esculptura, desde a mais pequena revista
até ao mais
precioso livro de Arte. E apoz isto, entrei n'um largo inquerito.
Sentados n'uns artisticos escabelos, conversamos um pouco
sobre arte, discutimos escolas e processos, analisamos rapidamente
trabalhos que conheciamos de memoria e por ultimo
fallamos da educação artistica da nossa gente.
N'esta altura
averiguei que D. Joanna desde creança revelara uma
grande disposição para a esculptura.
Busto de mademoiselle Ramos Pinto
Busto de mademoiselle
Ramos Pinto
Seu pae, um bom e honrado
negociante allemão, que
viera para o Porto estabelecer-se, pratico como era, costumava
brindar seus filhos com livros de desenho, que mandava
vir d'Allemanha. D. Joanna toda se enthusiasmava
com esses brindes, que collecionava
cuidadosamente e d'onde fazia
copias para estudos, revelando desde essa
epocha uma vocação especial para o desenho.
Quando menina teve como professora
Madame Bizarro, que bem conhecida
foi no Porto pelos seus trabalhos em miniatura
e bordados.
Foi, portanto, sob a direcção d'esta
desenhista correcta e sabedora que ella
começou a seguir verdadeiramente o caminho
da Arte. Depois, foi por algum
tempo para a Allemanha, e ahi, vivendo
na intimidade da familia Katzenstein,
teve occasião de acompanhar muito de
perto e receber mesmo indicações utilissimas
do conhecido pintor Katzenstein, irmão
do Consul d'Allemanha n'esta cidade.
Durante essa epocha D. Joanna amavelmente
pousou para modelo de algumas das
figuras dos quadros d'esse excellente artista,
já por vezes devidamente apreciado
no Porto, por quadros de certo merecimento artistico, que tem
exposto em varios certamens a que tem concorrido.
Com estes dois impulsionadores, Madame Bizarro e
Katzenstein, D. Joanna volta a Portugal, cheia d'uma grande
boa vontade de ser alguma coisa mais do que a vulgaridade
no nosso meio artistico. E para isso chama para lhe completar
a educação d'arte dous dos mais notaveis artistas
e mais insignes
professores: Marques d'Oliveira, o paisagista sabedor e
poetico e Teixeira Lopes o genial estatuario, cujo nome é
uma
verdadeira gloria da Arte Nacional.
Busto de Mademoiselle Maria Joanna Andressen
Busto de Mademoiselle
Maria Joanna Andressen
E, recebendo
lições d'um e d'outro com um
aproveitamento
pouco vulgar, D. Joanna revela-se não uma amadora
distincta, mas uma distinctissima artista. Affirmam-no exuberantemente
os seus trabalhos,
internecedores pelo encanto
com que são concebidos e executados.
D'alguns d'esses magnificos
trabalhos vão aqui photogravuras,
pelas quaes facilmente
se vê que aquillo que affirmo
não é senão a sentida
expressão
da verdade. Na photogravura
Recanto de atelier, ha
uma figurita sobre a meza,
maquette de um trabalho em
tamanho natural, e que se intitula
Rapaz jogando a malha,
que é um assombro de bem
executado.
Entre os gessos que ornam
o atelier ha um que merece
especial mensão. É um
Christo na Cruz original do
grande e saudoso Soares dos
Reis.
Nos trabalhos de D. Joanna salientam-se duas
Cabeças
de rapazes, bustos de dois filhos seus, mas dos quaes
por motivos
especiaes não pude obter photographia.
Parecerá ao leitor que quem executa tão bellos
trabalhos
não necessita mais de professor; não o entende
assim D.
Joanna e, n'essas condições, como quer ser tambem
alem de
esculptura uma pintora distincta, ouve e recebe
orientações
e lições do velho Costa, o meu querido amigo
Antonio José da
Costa, o artista que mais linda e sabiamente pinta flores em
Portugal.
É desnecessario proseguir. Já fica dito o
bastante sobre
as impressões recebidas na primeira visita que fiz ao
atelier
de D. Joanna Leheman Andressen Silva, n'essa manhã
deliciosa, de que conservo as mais gratas
recordações, não só
pelo prazer de avaliar de perto os superiores trabalhos d'essa
illustre amadora, mas muito especialmente pelas preclaras virtudes
do seu caracter delicado e requintadamente attencioso.
Ficarei por aqui, convencido de que a critica sincera e
desapaixonada, dos Mestres d'esta boa terra portugueza, hade
dizer mais e melhor, sobre os meritos artisticos da illustre senhora
a quem acabo de referir-me, quando um dia tiver de
apreciar devidamente os seus trabalhos.
Guarda fiel―Antonio José da Costa
Guarda fiel—antonio
josé da costa
XIV
PINTORES PORTUENSES
ANTONIO JOSÉ DA COSTA
Ha nomes que, em qualquer parte que se pronunciem,
se impõem á consideração de
todos nós.
Antonio José da Costa
Antonio José da Costa
O que encima este artigo é um d'elles.
Como homem e como pintor Antonio
José da Costa
deve ser respeitado e admirado.
Como homem porque
é um cavalheiro em
toda a acepção da palavra;
como pintor porque é um
mestre.
É muito grande a
minha ousadia, em tentar
desenhar, n'um pequeno
artigo, uma figura culminante
da pintura em Portugal;
e não vos admireis,
leitores amigos, que eu diga
isto, nem julgueis que,
ao afirmal-o, queira empanar
a gloria de muitos dos
nossos pintores. Não. Se
considero Antonio José da Costa um grande artista,
não quer
isto dizer que o julgue maior que alguns outros, mas simplesmente
accentuar que elle é um dos grandes artistas da pintura
em Portugal.
Para mais ao deante reservaremos o fallar d'esses artistas,
grandes como este ou talvez ainda mais, mas, cada um no
seu genero.
Rosas e Peonias―Antonio José da Costa
Rosas e Peonias
antonio
josé da costa
Não quero, nem procuro
saber quando e como é que
Antonio Costa se fez pintor: o que tento é provar que elle
hoje é, em Portugal, um
soberbo paisagista e o
primeiro pintor de flores.
E se conseguir isto
parece-me que terei dado
o meu tempo por bem
empregado. Que o mais
facil e o mais demonstrativo
seria dizer: vêde
esses quadros de que vos
dou a gravura; vizitae
as muitas casas de amadores
onde elles estão espalhados:
vizitae as exposições
onde elles apparecem;
ide ao atelier
do artista e ficareis convencidos
d'esta verdade
indiscutivel.
Mas isso é infelizmente
impossivel; os
amadores que possuem
quadros, com raras excepções,
fazem monopolio
dos trabalhos que
compram, parecendo ter medo que os outros, só de lh'os
verem, lh'os damnifiquem. E o artista mora lá para Bellos
Ares, tão longe do centro da cidade, que, chegados ao seu
atelier, o cançaço seria tanto que não
vos deixaria vêr
com a
devida
attenção, as lindas
coisas que elle vos mostraria.
Descançai pois que eu,—dando-vos, a traços
largos, um
relato da obra do artista—vou privar-vos da fadiga d'essa romagem.
Para a pintura como para todas as demais
manifestações
da Arte é necessario, em logar primordial, a
disposição
natural do individuo. Não basta só a boa vontade.
Mas quando
esta se alia áquella então tem-se realisado o
supremo ideal, e,
embora diga o ditado que «querer é
poder» n'este caso esse
ditado falha porque muitos artistas conheço eu de muito boa
vontade e que querem chegar a onde vão os mestres e nunca
lá chegam. E porque? Porque lhe falta a
bossa artistica, a
disposição natural.
Outros tempos. (Esboço)―Antonio José da Costa
Outros tempos. (Esboço)—antonio
josé da costa
Ora com Antonio Costa dá-se o caso de elle ter, alem da
sua grande boa vontade, a intuição, a
disposição natural para
a pintura.
É um paisagista, com uma vista perspicaz de observador,
que, ao tracejar um estudo, faz resaltar logo a nota caracteristica
e determinante do assumpto. E ao olhar esse estudo,
no conjuncto de cores e de tons, nós temos a
impressão
completa e perfeita do que elle queria dizer nos seus quadros.
Dous esboços acompanham este trabalho, e ambos demonstram
sobejamente o movimentado assumpto, que nos seria revelado
pelos quadros, se elles tivessem tido completa
execução.
No primeiro, que chamarei
Outros
tempos e que tem o duplo
interesse de ser um repositorio de figuras conhecidas e muito
populares no Porto, taes como o Dr. Pimentel, pae do escriptor
Alberto Pimentel, o Amorim Vianna,
o professor João
Correia, o pintor
Rezende, o Brown,
No Pinhal. (Esboço)―Antonio José da Costa
No Pinhal. (Esboço)
antonio
josé da costa
etc., que, na janella
e na rua, assistem
ao desfilar do
regimento onde estamos
a vêr perfeitamente
o ar aguerrido
e os jogos malabares
d'esse grupo
de porta-machados
e seu tambor-mór
que, descendo pela
rua da Sovéla abaixo
viram para o seu
lado direito, para a
travessa de Cedofeita,
n'uma cadencia
de marche-marche.
E na massa
quasi informe que
os segue ha a intuição
caracteristica
do grosso do regimento.
No outro, n'um
pinheiral esguio,
onde bate o sol,
veem-se duas figuras por determinar, estando uma com seu
guarda-sol aberto; o terreno é empastado e ha no horisonte
um quer que seja que nos diz que ali é o mar. Mas nada
d'isto está definido, nada disto está executado
e, no entanto,
nós vemos perfeitamente n'aquellas manchas que o quadro
seria assim.
Ora esta particularidade, este modo de fazer os estudos
é que só é peculiar a quem nasceu para
ser artista, e Antonio
Costa é-o e em alto grau.
Depois, como desenha admiravelmente e possue essa
grande propriedade de saber vêr os motivos a pintar, d'um
pequeno retalho de paisagem, d'uma cancella, d'um casebre
tosco, d'um portão de Quinta, d'um
nada, faz um quadro
que é sempre um encanto. Muitos e muitos são os
seus trabalhos
n'este genero. E mesmo n'aquelles, que a critica não
acha completamente bons, ha sempre alguma cousa, muito
até, que é excelente.
Por acaso tenho aqui na minha frente um jornal de
1893 onde um dos nossos criticos d'arte de mais
cotação no
Porto, diz o seguinte a respeito d'um quadro de Antonio
Costa,
Portaes do Marão:
Camelias―Antonio José da Costa
Camelias—antonio josé
da
costa
«É
um pedaço de pintura feito com
uma sinceridade emovidissima
de sensação e
uma franca acção de pincel;
em toda a obra do
pintor portuense eu separo
esta como a que
melhor denuncía o seu
talento por vezes desigual,
com caprichos de
intermitencia, mas talento
legitimo testemunhado
nos intervalos de superioridade
com um explendido
entono glorioso...»
Ora este attestado
passado ha onze annos
ao meu perfilado é a confirmação
do que venho
dizendo, e como na arte
não é vulgar andar-se para
traz, mas sim cada vez
mais aperfeiçoar-se, cada
vez mais estou na minha,
que, se elle n'esse tempo
era um bom artista, hoje é um grande artista.
Mas, Antonio José da Costa que, alem de pintor, tem o
quer que seja de floricultor, um dia, ao cuidar das suas camelias,
dos seus chrisanthemos e das suas rosas, resolveu, tal
como as via, transplantal-as á tela, em pintura; e, com o
seu
muito saber e o seu arreigado gosto artistico, começou de
nos dar quadros tão admiravelmente lindos e frescos como as
flores que cultivava, e assim
se fez o deslumbrante pintor
de flores que agora é.
Junquilhos e Camelias―Antonio José da Costa
Junquilhos e Camelias
antonio
josé da costa
Ha no espirito de muita
gente que pinta, a crença de
que as flores são de facil execução
e d'ahi esse enxame de
amadores, que nos surge de todos
os lados desatando a copiar
flores dos modelos que a França
e a Allemanha nos exporta
continuamente. E pintam flores...
mas que flores, Santo
Deus!!!!
Para pintar flores é necessario
ter na paleta alem das
tintas fortes e vivas... um certo
quê de orvalho, um pouco
de sol e uma porção de ether,
esse fino fluido que nos cerca.
Ora isto é que só elle tem, só
elle possue.
As suas camellias são tão
frescas e tão carnosas que temos
a impressão de que, se as
tocassemos, ellas amareleciam
tal qual as naturaes. Os seus chrisanthemos, na variadissima
e arrevesada forma das suas petalas, parecem sair da tela em
contorneações exoticas, envolvidos no tal ether
em que fallei
mais acima.
E as suas rosas, d'uma frescura e d'uma suavidade unica,
ora aveludadas como seios de mulheres lindas, ora transparentes
como gottas de orvalho, são admiraveis; parece
até
exalarem, em delicias, o aroma que lhes é tão
caracteristico.
Em todas as suas flores emfim, existe o supra-summo
da verdade e da perfeição...
Ao olhal-as não nos julgamos em frente d'um quadro,
julgamo-nos n'um jardim...
Mas não são só flores que elle pinta
deliciosamente. As
fructas, tambem são
tratadas
por este
artista com o mais desvelado
e carinhoso amor.
Conheço alguns quadros n'este genero que são um
verdadeiro
assombro.
Melhor do que eu porém fallam as gravuras publicadas
no
Portugal Artistico,
reproducção de alguns quadros de Antonio
José da Costa.
E julgo ter assim cumprido o meu dever de homenagem
a um artista respeitado e querido.
1904.
Junto ao Cruzeiro―Antonio José da Costa
Junto ao Cruzeiro
antonio
josé da costa
XV
EM FRENTE D'UM CARTAZ!...
chronica do "monitor"
Antes de entrar no assumpto da minha Chronica,
duas palavras de desculpa.
Não appareci na ultima semana porque estive
com as
maleitas, um diabo d'umas
febres que apanhei
quando era rapaz e ia brincar para os campos do Cyrne, alli
para os lados do Reymão.
Pois essas
maleitas, vieram
atacar-me traiçoeiramente,
como costumam, e quando eu me dispunha a escrever a Chronica
tive de me enfiar em
vale de
lençoes a tremel-as... Um
martyrio, que nem o leitor imagina.
Unica razão porque Vossas Excellencias se viram livres
da minha proza a semana passada. Hoje, porém, não
escapam.
Estou agora fino como um pêro e muito
bravo.
Portanto, se virem que arranco da espada com valentia,
não vos afflijaes, porque ella é de
cortiça, como era a da
Justiça,
para matar a
Carriça...
Ora pois, como a espada é de cortiça,
não corta, o mais que pode fazer é arrolhar.
Adiante.
No alto d'este arrazoado escrevi eu:—
Em frente d'um
cartaz!...—E sabeis a que cartaz me refiro?
Não sabeis?
Pois ides sabel-o. Ao cartaz executado por Julião Machado
para reclame aos festejos carnavalescos no Porto.
—Porque vai elle dedicar uma Chronica a este cartaz,
perguntarão lá de si para comsigo os leitores?
—Por um simples motivo, meus senhores, porque entendo,
que aquillo está muito longe de ser o que se desejava.
Julião
Machado é, inegavelmente, um bom artista, mas, d'esta
vez, no traba
—Por um simples motivo, meus senhores, porque entendo,
que aquillo está muito longe de ser o que se desejava.
Julião
Machado é, inegavelmente, um bom artista, mas, d'esta
vez, no trabalho apresentado deixou muito a desejar.
Cartaz―Julião Machado
Cartaz—julião machado
Não quer isto dizer que elle
esteja mal feito, mal desenhado, mal
colorido; não, o que quer dizer é
que não era aquillo que se queria.
Que se queria, não digo bem;
que eu queria e a maior parte do
publico.
Aquillo, é um lindo desenho,
para figurar em ponto pequeno, em
uma pagina de revista, na capa d'um
livro, ou ainda dum reclame-programma,
para distribuir nos theatros,
ou na rua.
Finura de traço, cuidado de
desenho, doçura de cores... tudo
alli
ha; mas, faltam-lhe os requisitos essenciaes
para o verdadeiro cartaz:
largueza de traço, côres fortes e retumbantes,
côres, que collocadas pelas
paredes, tilintassem como crystaes
que se partem, retumbassem como
trovões, vibrassem como clarins,
ou refulgissem como o sol.
Acima de tudo isso, era preciso
que tivesse o caracter genuinamente portuguez, que infelizmente
não tem. As figuras passam n'elle como se fossem a
reprodução d'uma festa em pleno Paris—-o
Boi gordo, por
exemplo.
Unicamente, como nota portugueza, no primeiro plano
um busto de
lavradeira, e
lá entre essa multidão apenas um
capote e lenço, como que
querendo fugir para fóra do traço
delimitador do caixilho, talvez embaçado de se vêr
seguido
por tanta gente, que elle nem sabe quem é.
Os nossos mascaras caracteristicos, os
chechés, os
lavradores,
os
bebés, os
gallegos, etc., etc., que davam a
nota definida
do nosso carnaval, esses, fugiram n'um desespero de se
verem amarfanhados n'aquella
pele-mele de mulheres em
maillot, e mascaras que
nós não conhecemos.
Mas a culpa não foi do artista. Elle viu assim o carnaval;
viu n'aquella
cocote fina e
delicada, que o
pierrot leva
sobre o grande bombo, a
Folia
portugueza, e enganou-se!...
A
Folia portugueza não
é assim tão fina e quasi ingenua, é
muito mais expressiva, mais valente, de gesto largo e de
fundas gargalhadas, atirando um grande punhado de
bombons
ou um
bouquet de violetas, com ar de
quem não está a
estudar posições ao espelho,
despreoccupadamente...
No meu entender, Julião Machado não realisou o
verdadeiro
programma.
Depois, ha alli qualquer coisa a mais, e que infelizmente
me entristece: é vêr suspensas da mão
da Folia, como se fossem
duas grandes bexigas, as mascaras da Russia e do Japão.
Não acho de grande intuição artistica
aquellas duas figuras
n'aquelle logar. Quando duas grandes nações se
degladiam
n'uma sangrentissima guerra, exquisito é que se aproveite
esse caso para que, como n'um ridiculo de troça, a
Folia atira
sobre a multidão que se diverte com essas duas grandes
figuras.
Mas... adeante; isso nem se discute.
Cartaz―Manuel Monterroso
Cartaz
manuel monterroso
O
cartaz ahi está! É o que o publico
póde vêr! Agora,
o que o publico não pode vêr, é o
cartaz que apresentou Manoel
Monterroso, e é pena, porque se o
visse havia de convencer-se de
que este, como ninguem, comprehendeu
qual o verdadeiro caracter
que devia ter o cartaz.
No cartaz d'este distincto
amador, havia de tudo, bello desenho,
côres retumbantes, e verdadeiro
caracter portuguez.
Depois, a concepção era genial,
d'um bello artista.
No seu trabalho, uma verdadeira
caricatura carnavalesca,
revelava-se mais uma vez o seu
espirito fino e observador e o seu
traço caracteristico e definido.
As figuras que elle apresentava,
eram recrutadas no nosso
meio, de genuina originalidade
portugueza. Oh! mas esse não
apparece.
É que a commissão entendeu que devia premiar os
dois e mandar executar só um. E porque seria isto? Que
entendedores
fôram os que determinaram resolução
tão exotica?
Porque não se fará a
exposição do outro cartaz?
Cumpre ao Club, antes de apparecer em publico com o
seu cortejo, fazer afixar o cartaz de Manoel Monterroso; sem
isso terá dado uma prova de favoritismo, de preferencia a um
artista, com o fim, talvez de amesquinhar outro. E isso não
é de pessoas que dirigem um Club cuja divisa
é—
Pelo Porto!
Que appareça o cartaz de Monterroso, para que o publico
o aprecie tal como elle merece, e para que se não fique
julgando que o Carnaval será palido e desenchabido como o
cartaz de Julião Machado.
E que o artista me desculpe, que eu não lhe quero mal.
Venho unicamente, como um dos mais sinceros amigos do Club
Fenianos Portuenses, pugnar pelo bom nome do mesmo e
pelo interesse do meu querido Porto, que se prepara briosamente
para receber os milhares de forasteiros que ahi virão
assistir ao carnaval, que deve ser maravilhoso.