Janeiro de 1905.


Nota—E o Club, depois do meu repto, deixou-se ficar muito calladinho com o cartaz de Monterroso e não o afixou. O Janeiro, porém, na Terça feira de Entrudo, em illustrações do dia, deu-o em traço ligeiro. Apesar d'isso, eu, mais meticuloso e mais pratico, aproveito esta occasião para fazer inserir n'este logar os dous cartazes. Assim, o leitor verá a justiça de meus dizeres e a sinceridade com que eu tracei estas ligeirissimas linhas. Elles ahi ficam expostos e o publico que os julgue como entender.



XVI

NA CRUZ


Quadro de JULIO COSTA


Eis ahi duas singelas palavras que envolvem um grandioso poema de dôr, porque exprimem o final d'esse drama de soffrimento que passou Christo.

E o pintor portuense Julio Costa, com o seu muito talento artistico, conseguiu transportar á tela todo esse sentimento, realisando um quadro que por si só bastaria para fazer um nome, se elle de ha muito não estivesse feito.

Esse quadro, estudado com um carinho adoravel de pintor de raça, com seus laivos de poeta lyrico, é admiravel de execução e representa Christo no momento em que, erguendo ao ceu o olhar, dizia:—«Perdoai-lhes, Senhor, que elles não sabem o que fazem».

N'uma bem lançada cruz, que se destaca, em todo aquelle fundo tenebroso da noute tragica do Calvario, pende, deliciosamente desenhado, e admiravelmente tratado, um Christo que nos chama o olhar, n'uma contemplação muda de admiração e respeito.

Que de cousas sentenciosas se poderiam dizer da sua execução? Mas para que fazel-o, se o publico conhece bem o merito artistico do nosso amigo?

E a Camara Municipal do Porto, que parece querer agora fazer qualquer cousa de bom a bem da arte portugueza, acaba de adquirir este bello trabalho, para o museu municipal.

Quando os nossos leitores poderem admirar mais este soberbo quadro de Julio Costa, hão de reconhecer que a apreciação que d'elle faço nada tem de exagerada.


Na Cruz―Quadro de Julio Costa
Na Cruz—Quadro de julio costa


1902.




XVII

AMADORES PORTUENSES


D. MARGARIDA RAMALHO

Discipula de JULIO COSTA


Tendo que traçar algumas ligeiras palavras, para as Notas d'Arte, a respeito d'uma senhora, que, como amadora, se torna notavel na pintura, devo pedir venia, e formando um bello arco com lyrios e rozas enfeitar esta pagina.

D. Margarida Ramalho
D. Margarida Ramalho

Depois, respeitosamente, com um certo ar á Antiga, pondo um pé atraz, fazer uma reverencia o mais gentilmente que possa, e estendendo a minha forte e grossa mão de trabalhador honesto, pegar levemente nos dedos finos da delicada mão d'essa senhora, e levando-a fidalgamente aos labios, beijar-lh'a, pedindo-lhe licença para lhe dedicar duas phrases desataviadas, n'um pequenino artigo sobre o seu valor como amadora de pintura.

Ella, sorrindo, naturalmente dirá que sim, e então eu começarei a escrever, cheio d'aquelle doce encanto que nos vem d'esses olhos vivos e d'um rosto lindo.

E que isto vá sem ar de madrigal, porque estou velho de mais já para isso, e muito especialmente porque eu já não sou só... Adeante!...

Comecemos pois, nada de perder tempo em rebuscamentos de estylo.

Dentre a multidão enorme de amadores de pintura, multidão cujo calculo é impossivel fazer, ha alguns, não muitos que merecem especial menção, e que devem passar n'estas simples Notas d'Arte ao lado dos verdadeiros artistas, como affirmação de que o talento, acaba por não distinguir uns dos outros.

Não pense o leitor que eu vou transplantar para aqui, todos os amadores de talento que ha na cidade da Virgem. Isso seria impossivel.

Vou apenas apresentar-vos uns dous ou tres, com incitamentos para os outros.

E a aprezentação d'estes amadores, visa a dous fins:—animar os alumnos, na esperança de se verem glorificados um dia publicamente, em lettra redonda e excitar os professores para que desde que encontrem nos seus discipulos aptidões para o desenho e para a pintura, ou esculptura, os obriguem a destacar-se no nosso meio artistico.

Não devem portanto, os que não apparecem n'este livro, vêr da minha parte, n'esta falta, o desejo de os não notar. Não, não é assim; é que nos limites d'este volume não cabem todos, e por isso só aqui aparecem aquelles com quem mais em contacto estou e de quem mais de perto conheço as obras.

Se algum dia porém eu voltar a publicar outro volume como este, então dedicar-lhes-hei uma grande parte d'elle e alli apparecerão todos os amadores, que o mereçam, está bem de ver.

E, não me deixava eu alargar por ahi abaixo em salamalekes para os amadores da pintura, sem me lembrar, quasi, que tinha que dedicar estas paginas a uma senhora?

Queira V. Ex.a desculpar, minha senhora, e entremos no nosso assumpto.


—Como foi que eu conheci pessoalmente esta senhora, que de ha muito conhecia de nome?

Vou explical-o.

Ás noutes reuno-me muitas vezes com o velho amigo Julio Costa e discutimos muitos e variados casos. Entre essas conversas muitas vezes nos entretemos a fallar de Arte. N'uma d'essas occasiões, discutindo aptidões de alumnos, Julio Costa fallou-me largamente d'esta sua discipula, que mostrava uma disposição especial definida para a pintura.

Era, não uma d'estas senhoras, que se prendeu em simples bibelotagem d'Arte, mas, que, uma vez dada a estudar, queria ir para deante.

Julio Costa afeiçoou-se a esta discipula e dedica-lhe uma especial estima.

Uma noute, depois d'uma d'essas conversas muito vulgares entre nós, disse-me Julio Costa:—Você sabe, Lemos, fallei em si e na conversa d'hontem á minha discipula de Mattosinhos e manifestei-lhe o desejo que você tinha de visitar o seu pequenino atelier.

—E ella que disse?

—Que poderia ir quando quizesse, que bastava eu ter-lhe dito que tinha vontade que você visse os seus trabalhos, para immediatamente consentir; que eu, como professor, não lhe teria fallado n'ella, se não visse que ella tinha qualquer pequena coisa que merece apenas só vêr-se. E, confessava-me o Julio Costa: dizia isto tão cheia de modestia tão encantadoramente, que você deve lá ir e muito breve.

—Pois vou lá no domingo. E fui. Era meio dia, quando me apeei do electrico, na alameda de Mattosinhos, mesmo á porta da caza onde mora D. Margarida Ramalho.

A caza, com um doce aspecto de frescura, fica alcandorada um pouco acima do nivel da estrada, circundada por um jardimsito bem tractado e onde se ostentam bellas flores.

Das janellas desfructa-se o rio Leça, que indolentemente se espreguiça, n'um dulce far niente, até desaguar lá ao longe no mar, em Leixões. E, quasi em frente das janellas, na alameda, entre a frondosa ramaria das arvores, a figura de Passos Manuel impassivel e serena, n'uma atitude de resignado ante a aluvião de zangãos, que por este tempo de verão se encarregam de zumbir de volta d'elle, como os Passos d'hoje zumbem em volta da sua Memoria.

Perdoe-me a gentil senhora, mas ao apear-me do electrico e ao olhar para aquella figura, fiz estas mesmas considerações.

Pois bem, logo que cheguei subi ao jardim e bati docemente á porta. Veio abrir-m'a uma creadita loura, d'um louro acastanhado.

Perguntei se D. Margarida estava e entreguei o meu cartão de visita.

Voltou dentro em pouco dizendo que sim, que podia passar á sala. Entrei. D. Margarida não se fez esperar. É uma senhora nova, baixinha, magrinha e muito loira, interessante como um lindo biscuit. Recebeu-me o mais amavelmente possivel. Peço-lhe desculpa do meu atrevimento mas o Julio Costa tinha me fallado d'ella com tanto interesse, que tinha immediatamente feito nascer no meu espirito de admirador do bello, procurar ensejo de ir ver os seus deliciosos quadros.

Castanheira―D. Margarida Ramalho
Castanheira—d. margarida
ramalho

Eram favores, do seu professor, dizia ella. Mas já que tinha vindo então sempre ia mostrar-me os seus trabalhos.

Entrei no atelier, um recantosinho alegre onde ella estuda os seus assumptos e onde os põe em execução, depois de ter em pleno ar livre, feito os esquissos e os precizos estudos.

É no atelier que ella tem os seus melhores trabalhos, pousados artisticamente pelas paredes, todos elles com magnificas qualidades de côr.

Aqui, é um quadro representando uma rapariga á porta d'uma taverna, com uma assadeira de castanhas, n'um taboleiro, castanhas já assadas, e n'um cesto ao lado maçãs. No fogareiro da assadeira ainda restos de lume. A rapariga, d'uns doze annos, olhos azues, cabello louro, poderiamos dizer dourado. Uma expressão dolente, um ar pensativo e triste, talvez, quem sabe? com receio de que não appareçam freguezes e ella tenha que levar tudo aquillo para casa, sem ter apurado vintem. Por detraz d'ella, vê-se uma grande pipa já vazia, no fundo escuro. É um quadro bem tratado, cheio de um intimo sentimento. Alli, uma Cabeça de velho, de barba branca amarellada e chapeu largo, é verdadeiramente interessante, feito com proficiencia, destaca deliciosamente da tela, e sente-se, que se a aragem passasse um pouco forte, aquella barba ondularia fluente e suave. Mais alem, n'uma boa e sã frescura, de moça sadia, uma Rapariga de Villar d'Andorinho, com o seu typico chapeu de maçanetas pretas, irradia vida e côr.

Cabeça de velho―D. Margarida Ramalho
Cabeça de velho
d. margarida ramalho

Outros mais ainda, mas como nota final d'este recinto, um delicioso quadro que intitularei Volta da fonte. Uma rapariga muito esguia e muito fina desce uma rampa trazendo ao hombro um cantaro cheio de agua e isto por um sentimental fim de tarde.

Em todos estes trabalhos se denota uma perfeita orientação, um serio estudo. Vê-se que D. Margarida Ramalho não é uma amadora vulgar, que se atira inconscientemente a executar a pintura, sem primeiro a ter estudado conscienciosamente. Alli ha valores, tonalidades, tons e meios tons, perspectiva, desenho, arte emfim.

Saí do lindo atelier depois de demorada vizita, e de agradavel conversa por onde pude concluir que havia já 7 annos que estudava. Subindo a escada, no patamar encontram-se os seus primeiros estudos em dezenho, dos quaes destacarei como mais notaveis um Perfil de Mulher e uma Cabeça de expressão, de guerreiro. A todos esses trabalhos liga esta amadora uma especial predileção. A convite da illustre amadora entrei depois no seu boudoir, cheio do mais profundo respeito. Este quarto, mobilado com simplicidade, mas fino gosto, mereceu a minha attenção porque as suas paredes são decoradas delicadamente pela sua habitante.

N'um enlevado sentimento de amor pela Arte, D. Margarida Ramalho, entendeu e muito bem, que no seu quarto de dormir ella devia reunir e patentear aos seus olhos alguma coiza que saindo do seu esforço artistico constantemente lhe desse um doce effluvio emotivo e agradavel, e então traçou em largos panneaux, com os seus finos pinceis, deliciosas artemizias e frescas e orvalhadas rozas. Um verdadeiro encanto. Ao tecto deu o collorido azul duma suave atmosphera, como um vago sonhar do ceu. E sobre a cabeceira do seu leito pintou uma linda composição d'aquellas bellas flores—bons dias e boas noites, dentre as quaes pende um formozo Christo de marfim.

Quando o quarto estava completamente pintado, D. Margarida pediu ao seu professor que lhe pintasse alli qual couza que podesse, dizia ella, dar um ar de grandeza áquellas pobres flores. E Julio Costa, querendo ser agradavel á sua discipula porque vê n'ella uma verdadeira fanatica da Arte, e muito e muito a estima, pintou então n'um vão escuro da janella, um Fim de tarde. Numa larga planicie arida e muito extensa, lá ao fundo, o sol cae, e ao esconder-se deixa um tom alaranjado, donde saem fortes e espalhados raios dum vermelho intenso.

E D. Margarida conta-nos tudo isto timidamente. Porque ella é uma timida. Tem um grande respeito pela Arte e esse respeito cria-lhe uma indiscriptivel duvida sobre o seu poder executante d'obras de largo folego.

Fallei-lhe de trabalhos que conhecia de varios pintores e ella, como que se alterava, quando eu lhe dizia, que a achava com forças de tentar obras assim, e só me respondia: Está enganado, eu sei lá fazer tanto!... E apesar disso os seus trabalhos demonstram bem o contrario.

É vulgar, segundo me diz o Julio Costa, ao apresentar-lhe um assumpto para tractar, ella dizer-lhe: Eu não faço isso, porque é muito difficil, muito difficil. Depois, principia a desenhar cheia dum grande escrupulo, sempre com medo de errar, chegando ao fim e tendo executado o desenho e depois a pintura em equilibrio muito estimavel e mesmo muito notavel.

E ella faz isto tudo, porque admira intimamente a Arte e é uma doce adoradora do Bello.

Não se atreve ao mais difficil, sem consideração, sem respeito, treme ante o mais modesto e o mais singelo trabalho, e por isso consegue ser notavel entre os amadores de pintura.

Tinha feito a minha agradavel vizita e ia despedir-me, quando ao passar pela sala de visitas notei um bello piano. Atrevi mais uma pergunta:—Era ella tambem a amadora?... Era, e executando com talento. Rogada então para se fazer ouvir, descerrou o piano, passou suavemente os dedos pelo teclado e soltou lá de dentro um primoroso Nocturno de Chopin, que me deixou no espirito a nota viva do seu grande amor á Musica. D. Margarida é uma virtuose doublé de pianista e pintora.

Disse-lhe adeus, e ao saír para tomar o electrico que me trouxesse ao Porto, abençoava o Julio Costa, que tinha conseguido que eu passasse duas horas deliciosamente.

Impressão de Paris―Candido da Cunha
Impressão de Paris—candido da cunha





XVIII

Novos quadros de ARTUR LOUREIRO


I

no seu atelier do palacio de crystal


Os quadros que n'este momento se acham expostos no atelier do delicado artista Arthur Loureiro, devem ser vistos com attenção, porque esses trabalhos fazem resaltar rapidamente todo o segredo emotivo. Não são como certos quadros que precisam para serem comprehendidos uma intuição especial e definida.

Arthur Loureiro
Arthur Loureiro

Não, nas telas de Loureiro logo nos resalta clara e ridente a verdade, tendo o grandioso merito de se incutirem no nosso espirito pelo espectaculo de linhas e de côres harmoniosas, de leves sensações, lembranças e sonhos que se misturam pouco a pouco com o prazer da impressão visual.

Arthur Loureiro, inegavelmente, é um grande artista, e embora alguem não goste d'isso, é d'aquelles que aferrado ao seu trabalho lucta lealmente, sinceramente, na ideia firme e correcta de mostrar que sabe e que tem fundos recursos para grandes e luminosos emprehendimentos.

Loureiro, embora o julguem um triste, um melancholico, não é d'aquelles que preferem o aroma resinoso dos bosques e o perfume das flores, na doçura d'um crepusculo, na hora em que a nossa alma sobe tristemente ás regiões do ideal, e que os objectos se descoram e a paisagem toma uma attitude recolhida e quieta!... Não, elle verdadeiro filho do norte, onde as raparigas, vermelhas como romãs e os rapazes, valentes como heroes, cantam poemas sublimes de amor e de luz, n'uma musica altisonante e harmoniosamente alegre, elle, ama mais o grande sol de luz intensa e forte e o sussuro que nos dá a nitida impressão da vida e do trabalho.

E tudo isso se vê nos seus quadros, n'esses cincoenta trabalhos expostos, que são, como já o disse um meu collega da imprensa, como que provas definidas para um concurso de Arte. Com aquelles documentos, Loureiro affirma que em todos os generos de pintura é um mestre. No retrato, na paisagem, na marinha, no estudo d'animaes, no genero decorativo, em todos elles o nosso artista se nos apresenta verdadeiramente grande. E senão, á vol d'oiseau, rapidamente, vejamos: Os tigres que anatomia e que correcção; como se desenha tão nitida e tão visivelmente o traço de todo aquelle animal n'uma postura molle de traição e de força. Como vemos através d'aquelle olhar felino e do aveludado da sua garra, a indole perversa que d'elle se acolhe. E com que verdade estão tractados aquelles olhos brilhantes e magoadores, d'um outro, que por traz do que está no primeiro plano, parecem fitar o espectador, na esperança de filal-o, n'um salto rapido e traiçoeiro. É inegavelmente um d'estes trabalhos que só por si fazem o nome laureado a um artista.

Estudo decorativo. Simplesmente soberbo e encantador. Entre flores, envolvendo-se n'um veu de gaze transparente e lucido, sae como uma deslumbrante rosa, toda viço e frescura, uma linda creança, encantadora e meiga como um anjo, tendo na mão uma haste de flores-saudades. N'um fundo rutilante de luz, como na aureola ridente d'uma fresca manhã de Agosto, destaca essa linda figura. E como foi desenhada e como foi executada. Alma de poeta, d'esses poetas que cantam as manhãs claras do sol e os rostos lindos das raparigas, foi a que concebeu aquelle quadro e que o executou. Nada mais...

O retrato do Chico Anthero.—Perdão, doutor, tratal-o assim, mas, francamente, quando olhei para o seu retrato não pude respeital-o e pedi-lhe que contasse uma d'aquellas suas historietas. Não contou, mas é tal a semelhança, tal a expressão, tão seu aquelle modo e tão psychologicamente estudado aquelle quadro que me pareceu mesmo ouvil-o a larachear e a rir.

Retrato de Sá d'Albergaria―Pintado por Arthur Loureiro
Retrato de Sá d'Albergaria—Pintado por
arthur loureiro

É um primor de execução, é um assombro de correcção.

Retrato do dr. Julio de Mattos.—Bello trabalho feito na largueza subtil d'um quadro d'arte, não com a preoccupação d'um retrato para galeria de definidores da ordem terceira, mas um retrato intimo, que temos no nosso gabinete de trabalho, ou no nosso quarto, retrato para nós, para consolo da nossa alma e dos nossos. Tal é o retrato do dr. Julio de Mattos, que incompleto como está, já mostra que ha-de ser um quadro tão bello, tão bem feito como o do Chico Anthero.

O retrato do dr. Magalhães de Lemos tambem é um bello trabalho.

Ha mais dois retratos de senhora, dois estudos, como Loureiro lhe chamou, mas que são dous primores. Loureiro adoptou para os seus retratos uma fórma e um tamanho especial o que lhe dá uma gracilidade gentil e meiga, deixem-me assim dizer.

Em quanto á Paisagem muito teria que dizer se podesse alargar este artigo, mas como me não é possivel n'este momento, limito-me a fallar dos seguintes quadros:

Rua do Meio.—Da vulgaridade d'uma rua, com casas de um lado e d'outro, e uma egreja no primeiro plano, teve Loureiro a habilidade de fazer um dos seus para mim mais interessantes quadros.—E porque? perguntará o leitor. Outro qualquer o faria...—Mas não fazia. Para isso é preciso saber-se vêr e vêr muito bem, conhecer mil pequenas cousas e transplantal-as para a tela com uma especial pericia e arte... d'onde se conclue que aquella rua não é como não é uma coisa chata, sem relevo. Aquella rua é um quadro e dos mais interessantes.

Montanhas da Galliza, Corgo, Monte de Santa Tecla, Alto de Santo Antonio, Barra de Caminha. Tudo isto são retalhos sublimes da natureza, que Loureiro transplantou á tela com uma verdade flagrante e uma technica segura.

Fecho por aqui este meu despretencioso artigo fazendo apenas uma leve consideração. Ha no nosso Muzeu quadros de quasi todos os pintores portuenses, mas não vimos ainda lá nenhum de Arthur Loureiro. Agora, como nunca ha occasião para que a Camara do Porto, que parece se interessa um pouco pelas cousas d'Arte da nossa terra, compre um quadro a Loureiro para o Muzeu Municipal.

E porque não ha-de fazel-o!?... Tem este artista dois quadros que estão a pedir transplantação para logar, onde todos os possam apreciar condignamente e são: os Tigres ou Por montes e vales.

Cumpre á camara do Porto este dever de gratidão para com o artista distincto, que após 20 annos de ausencia, volta a Portugal cheio de Arte a glorificar-nos com os seus trabalhos.




II

ARTHUR LOUREIRO e os seus discipulos


Nada ha que mais me enthusiasme e me anime, do que saber que ainda ha, quem, dentro da esphera da Arte, tenha iniciativas e emprehendimentos de coisas uteis e aproveitaveis, sem mira a vanglorias ou a fabulosos lucros, unica e exclusivamente pela Arte.

Ha annos, todo eu me enthusiasmei, quando meia duzia de artistas, homens de lettras e amadores, tentaram crear no Porto uma sociedade de Arte, que infelizmente, como todas as coisas uteis, cahiu ao tentar elevar-se; digo mais, morreu de morte affrontosa ao nascer.

Depois, perante a iniciativa do Instituto de Estudos e Conferencias, que parecia vir dar a nota correcta de que as exposições d'Arte seriam verdadeiros concursos de trabalhos definidos de artistas, tambem me enthusiasmei, porque imaginei que, com os elementos de que elle dispunha poderia fazer muito melhor do que o que tem feito, se bem que tenha feito alguma coisa.

Apparece depois um sr. Magalhães, que não conheço, em communicados nas gazetas, a dizer verdades amargas a respeito do Palacio de Crystal e a reclamar para aquellas duas alas lateraes, que foram em tempo bazares, escólas de pintura, de lavores femininos, etc., emfim, reclamando o aproveitamento d'aqnelles dois esplendidos atelieres em alguma coisa de util para a Arte... Mas, infelizmente as verdades que o sr. Magalhães dizia, ficaram perdidas como perolas em chiqueiro de porcos, porque a gerencia do Palacio de Crystal achou mais util tel-os assim vasios, do que aproveitados em qualquer coisa... Assim, podia em noites de spleen, passear n'ellas, como a sombra do Hamlet, sem tropeçar em qualquer coisa que tornasse o Palacio interessante ao publico, mais do que os macacos e o sr. Vieira da Cruz!... E essa idéa, como era boa, morreu, n'um significativo desprezo por parte dos interessados no rejuvenescimento do Palacio de Crystal.

Veio por fim Arthur Loureiro, esse laureado artista que todos nós conhecemos, pelo seu talento, e lança a idéa de uma escóla d'Arte, tal como ellas são no estrangeiro. Lucta com mil difficuldades ao principio para poder realisar o seu plano, e eu ao saber do seu emprehendimento todo me enthusiasmo um momento, para pensar logo em seguida que a sua idéia ha-de morrer, como morreram todas as outras. Mas, tal não succede; Arthur Loureiro se no fundo é um bom portuguez e um genuino portuense, vem saturado d'essa convivencia de vinte annos com os inglezes, gente que tem tanto de aventureiros como de previdentes. Debaixo d'essa esplendida orientação Loureiro cria a sua escola de pintura para senhoras e não desanima, confiado em que querer é poder.

Retrato do dr. Francisco Anthero―Arthur Loureiro
Retrato do dr.
Francisco Anthero
arthur loureiro

E hoje é elle o unico artista que, no nosso meio, realisa este grande melhoramento, em prol da Arte: ter uma escola onde vão os seus discipulos, n'uma confraternisação artistica, tomar as sábias lições que elle lhes dá com a sua proficiencia e saber.

E, com que arte, e com que cuidado, elle soube transformar uma sala fria e desconfortavel n'um atelier, que se não é um especimen, é no entanto um delicado recinto onde o gosto decorativo do artista se casa perfeitamente com a severidade das paredes, onde pousam como scintilantes fulgurações de genio, trabalhos, estudos e composições do professor, de mistura com gessos de estudo.

Fui ha dias ao atelier-escola, precisamente no momento em que terminavam as lições e as alumnas, fulgurantes de mocidade e alegria, saiam n'um chilrear que encantava.
Os cavalletes, espalhados pelo atelier, eram como sentinellas que ficavam guardando os logares das discipulas. Passei-os em revista, cheio de curiosidade e de interesse em notar n'aquelles esboços as disposições de quem os tinha executado. Aqui, desenho dos principiantes, de diversos objectos, taes como garrafas, jarros, pucaros, etc., e onde elles, emquanto desenham, vão tendo noções do que é a perspectiva pratica.

Mais além, estudos de fructas e flores, e entre esses os d'uma discipula que compõe e applica aos tecidos as flores e os fructos que desenha e que pinta do natural.

Outros, desenhos de gessos das differentes escolas, grega, romana e renascença... Mais além, cópias flagrantes a oleo, dos modelos vivos e dos costumes populares portuguezes.

Uma verdadeira escola, methodica e definida, onde os alumnos não copiam os seus trabalhos de modelos que veem de França ou da Allemanha ás grosas, mas sim do natural; estudando desde as mais rudimentares noções de traços e linhas, até aos intrincados problemas da perspectiva, sós por si, apenas com as indicações do professor.

São tambem para notar as pastas carregadas de estudos que os discipulos executam em casa, após as lições, e que são documentos irrefutaveis do bom aproveitamento d'este systema de ensinar o desenho e a pintura.

Entre os discipulos de Loureiro, ha um que se torna notavel, porque com 48 lições apenas, uma cada semana, tem feito maravilhosos progressos. D'este discipulo, já eu tive occasião de fallar, quando em tempo dediquei duas linhas a uma exposição que Loureiro fez e em que appareceram alguns estudos d'elle.

Ha tempos, porém, quando visitei o atelier-escola, tive uma boa occasião de vêr de novo trabalhos seus feitos alli: uma bella copia a oleo do gesso, correcta de execução e de desenho e mais uns trabalhos que elle fizera fóra da escola, em passeio d'Arte pelo campo e pela praia. Havia uma marinha bem tocada, e uma paisagem delicadamente pintada e superiormente estudada e desenhada, não fallando n'um interessante quadro de camelias, que me encantou. Talvez porque eu gosto muito de flores, e aquellas estavam tão frescas, que me fizeram uma magnifica impressão.

É elle o sr. Manuel Lucio um dos amadores que, se continuar assim, mais brilhantemente poderá affirmar o que se tem dito de Loureiro: que se é grande como artista, não o é menos como professor.

Mas, voltemos á escola. Tem ella sobre todos os outros atelieres a grande vantagem de estar installada nos jardins do Palacio. Quando a primavera, ridente, enche aquelle recinto de flores e de sol, cá para fóra, para o ar livre, vem os discipulos, e, ou recolhem nas suas telas as flores lindas e frescas e os pontos de vista deliciosos que d'alli se disfrutam, ou estudam e pintam pequeninos recantos do jardim variados e bellos. E tudo isto realisa Arthur Loureiro, não sem largas e complicadas difficuldades, que felizmente elle vê cobertas de bom resultado, se bem que com pouco interesse.

Ao vir-me embora depois de ter dado os meus parabens sinceros ao professor pela sua iniciativa, pensava em como aquelle bello recinto do Palacio de Crystal poderia ser aproveitado para tanta, tanta coisa util, em vez de jazer ignominiosamente alli, mudo e sinistro como um crime.

E que tudo isso se poderia fazer se quem o dirige, visse mais alguma coisa do que umas reles exposições de flores e aves e do que umas festarolas de arraial com musica do Zé da Gaita e fogo d'artificio do Devezas!...


Tigres―Arthur Loureiro1
Tigres—arthur loureiro






III

ARTHUR LOUREIRO e a Academia de Bellas-Artes


Ha tempos n'uns bem elaborados artigos da Voz Publica, alguem, que eu não sei quem é, veio apresentar a ideia de que Arthur Loureiro deveria ser professor da nossa Academia de Bellas-Artes.

Achei tão acceitavel e tão util para a Academia essa ideia, que n'este momento em que me tenho de occupar da sua exposição de quadros, entendi dever acompanhar na sua propaganda quem tão desinteressadamente a apresentou. Não é que eu venha a campo combater afincadamente em favor d'este artista, não, venho só como mero espectador do grande palco da vida applaudir quem soube apresentar a ideia.

Arthur Loureiro foi um dos mais distinctos discipulos das nossas academias de Bellas Artes e tem a sua folha de bom profissional, resplandecendo de brilho e cheio de gloria immoredoira.

Não foi no seu paiz natal que elle se completou em arte, foi no estrangeiro, nas grandes terras onde ser-se pintor não é uma mera galanteria de gente fina; foi nas terras onde se faz da Pintura alguma coisa mais pratica e mais definida do que entre nós.

Voltou tarde á patria, vinte annos passados sobre o seu curso. Quer isto dizer, que elle vem mais senhor do metier do que aquelles que meramente se demoram lá por fóra uns tres ou quatro annos. É certo que muitos que estudaram no estrangeiro nem sempre ao voltar veem mais vigorosos e mais trabalhadores do que quando partiram. Mas elle não.

Arthur Loureiro, foi unicamente para trabalhar e affirmam-no exuberantemente os cargos que por lá occupou distinctamente, taes como:—examinador das classes de Arte da National Gallery of Victoria, e director e professor de 1.ª classe dos cursos de Dezenho e Pintura do Presbiteriam Ladier College em Melbourne, na Australia.

Só no mundo―Quadro de Arthur Loureiro
Só no mundo—Quadro de
arthur loureiro

Ora estes cargos dados a um estrangeiro, a um portuguez, o que affirmam é o que o seu nome era ali conhecido e que estava á altura de occupar esses logares com toda a hombridade e todo o saber.

Mas ha mais, quando terminou o seu curso em Portugal foi classificado para pensonista em Paris, onde fez uma larga e profunda aprendizagem d'arte.

Concorreu a muitas e variadas exposições, onde os seus quadros foram sempre apreciados como mereciam. Entre esses deveremos notar como primordiaes a Exposição Religiosa da Belgica onde o seu quadro, A Visão de Santo Stanislau de Kastka, foi acolhido com enthusiasmo por toda a critica, e muito especial referencia mereceu ao celebre critico religioso, l'Albé Moeller. E ainda em Londres, onde concorreu, a convite, á Greater Britian Exibition, em 1899 e foi recompensado com diploma d'honra e medalha de ouro. Ha pouco foi elle eleito Academico de Merito da Academia da Victoria, em Melbourne.

Vê-se bem claro, por tudo isto, que Arthur Loureiro era considerado e muito, lá fóra, como um verdadeiro artista que é.

Estou d'aqui a vêr a balburdia que vae no nosso meio artistico por estas minhas despretenciosas notas, mas não são ellas mais do que o desejo de provar que o homem está á altura de occupar um logar de professor na nossa Academia.

Porque estou bem certo de que elle, chamado a dar provas publicas do seu saber artistico, ellas serão convincentes.

Se elle é um grande artista, não é menos um grande trabalhador, incansavel; trabalhando, quer em quadros para expôr e vender, quer dando lições áquelles que desejam bem conhecer a arte de pintar, no seu atelier, no Palacio de Crystal Portuense. N'esse mesmo atelier já por varias vezes tive o prazer de visitar exposições organisadas por elle.

Ali me mostrou elle que embora longe de nós por tanto tempo, não se deshabituara das côres e da luz da nossa boa terra. Não veiu inebriado com o nebulozo da Escocia, com o cinzento da França, nem com o vermelho violaceo da Italia.

Veiu isento de escolas, preoccupando-se só com o que via na natureza tal qual ella se apresentava, vibrante de luz se o sol espadanava rutilantemente no espaço, nebuloso e triste, se a nevoa cobria a atmosphera e a paisagem que pintava.

Era como que o executor da verdade tal como ella deve ser. Era, emfim, um paisagista perfeito e definidamente portuguez.

Pois bem, todos ahi viram as suas recentes exposições, e que eu saiba, ainda ninguem amesquinhou o seu muito merecimento; pelo contrario todos foram á uma a dizer que elle tinha valor. A critica, que deve ser sincera e justa, não teve por onde o atacar, nem veiu dizer d'elle senão que era bom, por isso a sua entrada como professor de paisagem na Academia de Bellas Artes, do Porto, deveria ser acolhida por todos os professores e alumnos com enthusiasmo, se bem que a nossa Academia não seja para largas manifestações.

Mas deixemos agora o artista para fallarmos da sua ultima exposição.


No atelier de Arthur Loureiro, ha um não sei que de conforto que nos prende. Sob a sua direcção tem-se transformado aquella fria sala n'um bellissimo gabinete, onde se podem passar horas e horas admiravelmente bem. Decorado com simplicidade, mas com um especial cachet de galanteria os seus quadros destacam alli maravilhosamente.

Vou fallar delles, como sei, ou como entendo.

Como nota primordial destacarei o grande quadro, cujo titulo é De aldeia em aldeia e que inspirou ao bello poeta M. Ricca, esta quadra: