Janeiro de 1905.
Nota—E o Club,
depois do meu
repto, deixou-se ficar
muito calladinho com o cartaz de Monterroso e não o afixou.
O Janeiro, porém, na
Terça feira de Entrudo, em
illustrações
do dia, deu-o em traço ligeiro. Apesar d'isso, eu, mais
meticuloso
e mais pratico, aproveito esta occasião para fazer inserir
n'este logar os dous cartazes. Assim, o leitor verá a
justiça de
meus dizeres e a sinceridade com que eu tracei estas ligeirissimas
linhas. Elles ahi ficam expostos e o publico que os
julgue como entender.
XVI
NA CRUZ
Quadro de JULIO COSTA
Eis ahi duas singelas palavras que envolvem um grandioso
poema de dôr, porque exprimem o final d'esse
drama de soffrimento que passou Christo.
E o pintor portuense Julio Costa, com o seu muito talento
artistico, conseguiu transportar á tela todo esse
sentimento,
realisando um quadro que por si só bastaria para fazer
um nome, se elle de ha muito não estivesse feito.
Esse quadro, estudado com um carinho adoravel de pintor
de raça, com seus laivos de poeta lyrico, é
admiravel de
execução e representa Christo no momento em que,
erguendo
ao ceu o olhar, dizia:—«Perdoai-lhes, Senhor, que elles
não
sabem o que fazem».
N'uma bem lançada cruz, que se destaca, em todo aquelle
fundo tenebroso da noute tragica do Calvario, pende, deliciosamente
desenhado, e admiravelmente tratado, um Christo que
nos chama o olhar, n'uma contemplação muda de
admiração
e respeito.
Que de cousas sentenciosas se poderiam dizer da sua
execução? Mas para que fazel-o, se o publico
conhece bem o
merito artistico do nosso amigo?
E a Camara Municipal do Porto, que parece querer
agora fazer qualquer cousa de bom a bem da arte portugueza,
acaba de adquirir este bello trabalho, para o museu municipal.
Quando os nossos leitores poderem admirar mais este soberbo
quadro de Julio Costa, hão de reconhecer que a
apreciação
que d'elle faço nada tem de exagerada.
Na Cruz―Quadro de Julio Costa
Na Cruz—Quadro de julio costa
1902.
XVII
AMADORES PORTUENSES
D. MARGARIDA RAMALHO
Discipula de JULIO COSTA
Tendo que traçar algumas ligeiras palavras, para as
Notas
d'Arte, a respeito d'uma senhora, que, como
amadora, se torna notavel na pintura, devo pedir
venia, e formando um bello arco com lyrios e rozas enfeitar
esta pagina.
D. Margarida Ramalho
D. Margarida Ramalho
Depois, respeitosamente, com um
certo ar á
Antiga,
pondo um pé atraz, fazer uma
reverencia o mais gentilmente que
possa, e estendendo a minha forte e
grossa mão de trabalhador honesto,
pegar levemente nos dedos finos da
delicada mão d'essa senhora, e levando-a
fidalgamente aos labios,
beijar-lh'a, pedindo-lhe licença para
lhe dedicar duas phrases desataviadas,
n'um pequenino artigo sobre o
seu valor como amadora de pintura.
Ella, sorrindo, naturalmente
dirá que sim, e então eu começarei
a escrever, cheio d'aquelle doce encanto
que nos vem d'esses olhos vivos
e d'um rosto lindo.
E que isto vá sem ar de madrigal, porque estou velho
de mais já para isso, e muito especialmente porque eu
já não
sou só... Adeante!...
Comecemos pois, nada de perder tempo em rebuscamentos
de estylo.
Dentre a multidão enorme de amadores de pintura,
multidão cujo calculo é impossivel fazer, ha
alguns, não muitos
que merecem especial menção, e que devem passar
n'estas
simples
Notas d'Arte
ao lado dos
verdadeiros artistas, como
affirmação de que o talento, acaba por
não distinguir uns dos
outros.
Não pense o leitor que eu vou transplantar para aqui,
todos os amadores de talento que ha na cidade da Virgem.
Isso seria impossivel.
Vou apenas apresentar-vos uns dous ou tres, com incitamentos
para os outros.
E a aprezentação d'estes amadores, visa a dous
fins:—animar
os alumnos, na esperança de se verem glorificados
um dia publicamente, em lettra redonda e excitar os professores
para que desde que encontrem nos seus discipulos aptidões
para o desenho e para a pintura, ou esculptura, os obriguem
a destacar-se no nosso meio artistico.
Não devem portanto, os que não apparecem n'este
livro,
vêr da minha parte, n'esta falta, o desejo de os
não notar.
Não, não é assim; é que nos
limites d'este volume não
cabem todos, e por isso só aqui aparecem aquelles com quem
mais em contacto estou e de quem mais de perto conheço as
obras.
Se algum dia porém eu voltar a publicar outro volume
como este, então dedicar-lhes-hei uma grande parte d'elle e
alli apparecerão todos os amadores, que o
mereçam, está bem
de ver.
E, não me deixava eu alargar por ahi abaixo em salamalekes
para os amadores da pintura, sem me lembrar, quasi,
que tinha que dedicar estas paginas a uma senhora?
Queira V. Ex.
a desculpar, minha senhora, e
entremos
no nosso assumpto.
—Como foi que eu conheci pessoalmente esta senhora,
que de ha muito conhecia de nome?
Vou explical-o.
Ás noutes reuno-me muitas vezes com o velho amigo
Julio Costa e discutimos muitos e variados casos. Entre essas
conversas muitas vezes nos entretemos a fallar de Arte.
N'uma d'essas occasiões, discutindo aptidões de
alumnos, Julio
Costa fallou-me largamente d'esta sua discipula, que mostrava
uma disposição especial definida para a pintura.
Era, não uma d'estas senhoras, que se prendeu em simples
bibelotagem d'Arte, mas, que, uma vez dada a estudar,
queria ir para deante.
Julio Costa afeiçoou-se a esta discipula e dedica-lhe
uma especial estima.
Uma noute, depois d'uma d'essas conversas muito vulgares
entre nós, disse-me Julio Costa:—Você sabe,
Lemos,
fallei em si e na conversa d'hontem á minha discipula de
Mattosinhos e manifestei-lhe o desejo que você tinha de
visitar
o seu pequenino atelier.
—E ella que disse?
—Que poderia ir quando quizesse, que bastava eu ter-lhe
dito que tinha vontade que você visse os seus trabalhos,
para immediatamente consentir; que eu, como professor, não
lhe teria fallado n'ella, se não visse que ella tinha
qualquer
pequena coisa que merece apenas só vêr-se. E,
confessava-me
o Julio Costa: dizia isto tão cheia de modestia
tão encantadoramente,
que você deve lá ir e muito breve.
—Pois vou lá no domingo. E fui. Era meio dia, quando
me apeei do electrico, na alameda de Mattosinhos, mesmo á
porta da caza onde mora D. Margarida Ramalho.
A caza, com um doce aspecto de frescura, fica alcandorada
um pouco acima do nivel da estrada, circundada por um
jardimsito bem tractado e onde se ostentam bellas flores.
Das janellas desfructa-se o rio Leça, que indolentemente
se espreguiça, n'um
dulce far
niente, até desaguar lá ao
longe
no mar, em Leixões. E, quasi em frente das janellas, na
alameda,
entre a frondosa ramaria das arvores, a figura de Passos
Manuel impassivel e serena, n'uma atitude de resignado
ante a aluvião de zangãos, que por este tempo de
verão se
encarregam de zumbir de volta d'elle, como os
Passos d'hoje
zumbem em volta da sua
Memoria.
Perdoe-me a gentil senhora, mas ao apear-me do electrico
e ao olhar para aquella figura, fiz estas mesmas
considerações.
Pois bem, logo que cheguei subi ao jardim e bati docemente
á porta. Veio abrir-m'a uma creadita loura, d'um louro
acastanhado.
Perguntei se D. Margarida estava e entreguei o meu
cartão de visita.
Voltou dentro em pouco dizendo que sim, que podia
passar á sala. Entrei. D. Margarida não se fez
esperar. É uma
senhora nova, baixinha, magrinha e muito loira, interessante
como um lindo
biscuit. Recebeu-me o
mais amavelmente possivel.
Peço-lhe desculpa do meu atrevimento mas o Julio
Costa tinha me fallado d'ella
com tanto interesse, que tinha
immediatamente feito
nascer no meu espirito de
admirador do bello, procurar
ensejo de ir ver os seus deliciosos
quadros.
Castanheira―D. Margarida Ramalho
Castanheira—d. margarida
ramalho
Eram favores, do seu
professor, dizia ella. Mas já
que tinha vindo então sempre
ia mostrar-me os seus trabalhos.
Entrei no atelier, um
recantosinho alegre onde ella
estuda os seus assumptos e
onde os põe em execução, depois
de ter em pleno ar livre,
feito os esquissos e os precizos
estudos.
É no atelier que ella
tem os seus melhores trabalhos, pousados artisticamente pelas
paredes, todos elles com magnificas qualidades de côr.
Aqui, é um quadro representando uma rapariga á
porta
d'uma taverna, com uma assadeira de castanhas, n'um taboleiro,
castanhas já assadas, e n'um cesto ao lado
maçãs. No fogareiro
da assadeira ainda restos de lume. A rapariga, d'uns
doze annos, olhos azues, cabello louro, poderiamos dizer dourado.
Uma expressão dolente, um ar pensativo e triste, talvez,
quem sabe? com receio de que não appareçam
freguezes e ella
tenha que levar tudo aquillo para casa, sem ter apurado vintem.
Por detraz d'ella, vê-se uma grande pipa já vazia,
no fundo
escuro. É um quadro bem tratado, cheio de um intimo
sentimento. Alli, uma
Cabeça de
velho, de barba branca amarellada
e chapeu largo, é verdadeiramente interessante, feito
com proficiencia, destaca deliciosamente da tela, e sente-se,
que se a aragem passasse um pouco forte, aquella barba ondularia
fluente e suave. Mais alem, n'uma boa e sã frescura,
de moça sadia, uma
Rapariga de Villar
d'Andorinho, com o
seu typico chapeu de maçanetas pretas, irradia vida e
côr.
Cabeça de velho―D. Margarida Ramalho
Cabeça de velho
d.
margarida ramalho
Outros mais ainda, mas como nota
final d'este recinto,
um delicioso quadro que intitularei
Volta da
fonte. Uma rapariga
muito esguia e muito
fina desce uma rampa trazendo
ao hombro um cantaro
cheio de agua e isto por
um sentimental fim de tarde.
Em todos estes trabalhos
se denota uma perfeita
orientação, um serio estudo.
Vê-se que D. Margarida Ramalho
não é uma amadora
vulgar, que se atira inconscientemente
a executar a
pintura, sem primeiro a ter
estudado conscienciosamente.
Alli ha valores, tonalidades,
tons e meios tons, perspectiva,
desenho, arte emfim.
Saí do lindo atelier depois
de demorada vizita, e de
agradavel conversa por onde
pude concluir que havia
já 7 annos que estudava. Subindo a escada, no patamar
encontram-se
os seus primeiros estudos em dezenho, dos quaes destacarei
como mais notaveis um
Perfil de
Mulher e uma
Cabeça
de expressão, de guerreiro. A todos esses
trabalhos liga esta
amadora uma especial predileção. A convite da
illustre amadora
entrei depois no seu
boudoir, cheio
do mais profundo respeito.
Este quarto, mobilado com simplicidade, mas fino gosto,
mereceu a minha attenção porque as suas paredes
são decoradas
delicadamente pela sua habitante.
N'um enlevado sentimento de amor pela Arte, D. Margarida
Ramalho, entendeu e muito bem, que no seu quarto
de dormir ella devia reunir e patentear aos seus olhos alguma
coiza que saindo do seu esforço artistico constantemente lhe
desse um doce effluvio emotivo e agradavel, e então
traçou
em largos
panneaux, com os seus
finos pinceis, deliciosas artemizias
e frescas e orvalhadas rozas. Um verdadeiro encanto.
Ao tecto deu o collorido azul duma suave atmosphera, como
um vago sonhar do ceu. E sobre a cabeceira do seu leito pintou
uma linda composição d'aquellas bellas
flores—bons dias
e boas noites, dentre as quaes pende um formozo Christo de
marfim.
Quando o quarto estava completamente pintado, D.
Margarida pediu ao seu professor que lhe pintasse alli qual
couza que podesse, dizia ella, dar um ar de grandeza
áquellas
pobres flores. E Julio Costa, querendo ser agradavel á sua
discipula porque vê n'ella uma verdadeira fanatica da Arte,
e muito e muito a estima, pintou então n'um vão
escuro da
janella, um
Fim de tarde. Numa larga
planicie arida e muito
extensa, lá ao fundo, o sol cae, e ao esconder-se deixa um
tom alaranjado, donde saem fortes e espalhados raios dum
vermelho intenso.
E D. Margarida conta-nos tudo isto timidamente. Porque
ella é uma timida. Tem um grande respeito pela Arte e
esse respeito cria-lhe uma indiscriptivel duvida sobre o seu
poder executante d'obras de largo folego.
Fallei-lhe de trabalhos que conhecia de varios pintores
e ella, como que se alterava, quando eu lhe dizia, que a
achava com forças de tentar obras assim, e só me
respondia:
Está enganado, eu sei lá fazer tanto!... E apesar
disso os seus
trabalhos demonstram bem o contrario.
É vulgar, segundo me diz o Julio Costa, ao apresentar-lhe
um assumpto para tractar, ella dizer-lhe: Eu não
faço isso, porque é muito difficil, muito
difficil. Depois,
principia a desenhar cheia dum grande escrupulo, sempre
com medo de errar, chegando ao fim e tendo executado o desenho
e depois a pintura em equilibrio muito estimavel e
mesmo muito notavel.
E ella faz isto tudo, porque admira intimamente a Arte
e é uma doce adoradora do Bello.
Não se atreve ao mais difficil, sem
consideração, sem
respeito, treme ante o mais modesto e o mais singelo trabalho,
e por isso consegue ser notavel entre os amadores de
pintura.
Tinha feito a minha agradavel vizita e ia despedir-me,
quando ao passar pela sala de visitas notei um bello piano.
Atrevi mais uma pergunta:—Era ella tambem a amadora?...
Era, e executando com talento. Rogada então para se fazer
ouvir, descerrou o piano, passou suavemente os dedos pelo
teclado e soltou lá de dentro um primoroso
Nocturno de
Chopin, que me deixou no espirito a nota viva do seu
grande
amor á Musica. D. Margarida é uma
virtuose doublé de
pianista
e pintora.
Disse-lhe adeus, e ao saír para tomar o electrico que
me trouxesse ao Porto, abençoava o Julio Costa, que tinha
conseguido que eu passasse duas horas deliciosamente.
Impressão de Paris―Candido da Cunha
Impressão de Paris—candido
da cunha
XVIII
Novos quadros de ARTUR LOUREIRO
I
no seu atelier do palacio de crystal
Os quadros que n'este momento se acham expostos
no
atelier do delicado artista
Arthur Loureiro, devem
ser vistos com attenção, porque esses trabalhos
fazem resaltar rapidamente todo o segredo emotivo. Não
são como certos quadros que
precisam para serem comprehendidos
uma intuição especial
e definida.
Arthur Loureiro
Arthur Loureiro
Não, nas telas de
Loureiro logo nos resalta clara
e ridente a verdade, tendo o
grandioso merito de se incutirem
no nosso espirito pelo espectaculo
de linhas e de côres
harmoniosas, de leves sensações,
lembranças e sonhos que se misturam
pouco a pouco com o prazer
da impressão visual.
Arthur Loureiro, inegavelmente,
é um grande artista, e
embora alguem não goste d'isso,
é d'aquelles que aferrado ao seu
trabalho lucta lealmente, sinceramente, na ideia firme e correcta
de mostrar que sabe e que tem fundos recursos para
grandes e luminosos emprehendimentos.
Loureiro, embora o julguem um triste, um melancholico,
não é d'aquelles que preferem o aroma resinoso
dos bosques e
o perfume das flores, na doçura d'um crepusculo, na hora em
que a nossa alma sobe tristemente ás regiões do
ideal, e que
os objectos se descoram e a paisagem toma uma attitude recolhida
e quieta!... Não, elle verdadeiro filho do norte, onde
as raparigas, vermelhas como romãs e os rapazes, valentes
como heroes, cantam poemas sublimes de amor e de luz,
n'uma musica altisonante e harmoniosamente alegre, elle,
ama mais o grande sol de luz intensa e forte e o sussuro que
nos dá a nitida impressão da vida e do trabalho.
E tudo isso se vê nos seus quadros, n'esses cincoenta
trabalhos expostos, que são, como já o disse um
meu collega
da imprensa, como que provas definidas para um concurso de
Arte. Com aquelles documentos, Loureiro affirma que em todos
os generos de pintura é um mestre. No retrato, na paisagem,
na marinha, no estudo d'animaes, no genero decorativo,
em todos elles o nosso artista se nos apresenta verdadeiramente
grande. E senão, á
vol
d'oiseau, rapidamente, vejamos:
Os tigres que anatomia e que
correcção; como se desenha tão
nitida e tão visivelmente o traço de todo aquelle
animal
n'uma postura molle de traição e de
força. Como vemos através
d'aquelle olhar felino e do aveludado da sua garra, a
indole perversa que d'elle se acolhe. E com que verdade
estão
tractados aquelles olhos brilhantes e magoadores, d'um outro,
que por traz do que está no primeiro plano, parecem fitar o
espectador, na esperança de filal-o, n'um salto rapido e
traiçoeiro.
É inegavelmente um d'estes trabalhos que só por
si
fazem o nome laureado a um artista.
Estudo decorativo. Simplesmente
soberbo e encantador.
Entre flores, envolvendo-se n'um veu de gaze transparente e
lucido, sae como uma deslumbrante rosa, toda viço e
frescura,
uma linda creança, encantadora e meiga como um anjo,
tendo na mão uma haste de
flores-
saudades. N'um fundo
rutilante
de luz, como na aureola ridente d'uma fresca manhã
de Agosto, destaca essa linda figura. E como foi desenhada e
como foi executada. Alma de poeta, d'esses poetas que cantam
as manhãs claras do sol e os rostos lindos das raparigas,
foi a que concebeu aquelle quadro e que o executou. Nada
mais...
O retrato do Chico
Anthero.—Perdão, doutor, tratal-o
assim, mas, francamente, quando olhei para o seu retrato não
pude respeital-o e pedi-lhe que contasse uma d'aquellas suas
historietas. Não contou, mas é tal a
semelhança, tal a expressão,
tão seu aquelle modo e tão psychologicamente
estudado
aquelle quadro que me pareceu mesmo ouvil-o a larachear
e a rir.
Retrato de Sá d'Albergaria―Pintado por Arthur Loureiro
Retrato de Sá d'Albergaria—Pintado por
arthur loureiro
É um primor
de execução,
é um assombro
de correcção.
Retrato do
dr. Julio de
Mattos.—Bello
trabalho
feito na
largueza subtil
d'um
quadro d'arte,
não com
a preoccupação
d'um retrato
para
galeria de
definidores
da ordem
terceira, mas
um retrato
intimo, que
temos no
nosso gabinete
de trabalho,
ou no
nosso quarto,
retrato
para nós,
para consolo da nossa alma e dos nossos. Tal é o retrato do
dr.
Julio de Mattos, que incompleto como está, já
mostra que ha-de
ser um quadro tão bello, tão bem feito como o do
Chico
Anthero.
O retrato do dr. Magalhães de
Lemos tambem é um
bello trabalho.
Ha mais dois retratos de senhora, dois estudos, como
Loureiro lhe chamou, mas que são dous primores. Loureiro
adoptou para os seus retratos uma fórma e um tamanho
especial
o que lhe dá uma gracilidade gentil e meiga, deixem-me
assim dizer.
Em quanto á
Paisagem
muito teria que dizer se podesse
alargar este artigo, mas como me não é possivel
n'este momento,
limito-me a fallar dos seguintes quadros:
Rua do Meio.—Da vulgaridade d'uma
rua, com casas de
um lado e d'outro, e uma egreja no primeiro plano, teve Loureiro
a habilidade de fazer um dos seus para mim mais interessantes
quadros.—E porque? perguntará o leitor. Outro
qualquer o faria...—Mas não fazia. Para isso é
preciso saber-se
vêr e vêr muito bem, conhecer mil pequenas cousas e
transplantal-as
para a tela com uma especial pericia e arte... d'onde
se conclue que aquella rua não é como
não é uma coisa
chata, sem relevo. Aquella rua é um quadro e dos mais
interessantes.
Montanhas da Galliza, Corgo, Monte de Santa Tecla,
Alto de Santo Antonio, Barra de Caminha. Tudo isto
são retalhos
sublimes da natureza, que Loureiro transplantou á
tela com uma verdade flagrante e uma technica segura.
Fecho por aqui este meu despretencioso artigo fazendo
apenas uma leve consideração. Ha no nosso Muzeu
quadros
de quasi todos os pintores portuenses, mas não vimos ainda
lá nenhum de Arthur Loureiro. Agora, como nunca ha
occasião
para que a Camara do Porto, que parece se interessa um
pouco pelas cousas d'Arte da nossa terra, compre um quadro
a Loureiro para o Muzeu Municipal.
E porque não ha-de fazel-o!?... Tem este artista dois
quadros que estão a pedir
transplantação para logar, onde
todos os possam apreciar condignamente e são: os
Tigres ou
Por montes e vales.
Cumpre á camara do Porto este dever de gratidão
para
com o artista distincto, que após 20 annos de ausencia,
volta
a Portugal cheio de Arte a glorificar-nos com os seus trabalhos.
II
ARTHUR LOUREIRO e os seus discipulos
Nada ha que mais me enthusiasme e me anime, do que
saber que ainda ha, quem, dentro da esphera da Arte,
tenha iniciativas e emprehendimentos de coisas
uteis e aproveitaveis, sem mira a vanglorias ou a fabulosos
lucros, unica e exclusivamente pela Arte.
Ha annos, todo eu me enthusiasmei, quando meia duzia
de artistas, homens de lettras e amadores, tentaram crear no
Porto uma sociedade de Arte, que infelizmente, como todas
as coisas uteis, cahiu ao tentar elevar-se; digo mais, morreu
de morte affrontosa ao nascer.
Depois, perante a iniciativa do Instituto de Estudos e
Conferencias, que parecia vir dar a nota correcta de que as
exposições d'Arte seriam verdadeiros concursos de
trabalhos
definidos de artistas, tambem me enthusiasmei, porque imaginei
que, com os elementos de que elle dispunha poderia fazer
muito melhor do que o que tem feito, se bem que tenha
feito alguma coisa.
Apparece depois um sr. Magalhães, que não
conheço,
em communicados nas gazetas, a dizer verdades amargas a
respeito do Palacio de Crystal e a reclamar para aquellas duas
alas lateraes, que foram em tempo bazares, escólas de
pintura,
de lavores femininos, etc., emfim, reclamando o aproveitamento
d'aqnelles dois esplendidos
atelieres em alguma coisa
de util para a Arte... Mas, infelizmente as verdades que o
sr. Magalhães dizia, ficaram perdidas como perolas em
chiqueiro
de porcos, porque a gerencia do Palacio de Crystal
achou mais util tel-os assim vasios, do que aproveitados em
qualquer coisa... Assim, podia em
noites de
spleen, passear
n'ellas, como a sombra do Hamlet, sem tropeçar em qualquer
coisa que tornasse o Palacio interessante ao publico, mais do
que os macacos e o sr. Vieira da Cruz!... E essa idéa, como
era boa, morreu, n'um significativo desprezo por parte dos
interessados no rejuvenescimento do Palacio de Crystal.
Veio por fim Arthur Loureiro, esse laureado artista que
todos nós conhecemos, pelo seu talento, e lança a
idéa de
uma escóla d'Arte, tal como ellas são no
estrangeiro. Lucta
com mil difficuldades ao principio para poder realisar o seu
plano, e eu ao saber do seu emprehendimento todo me enthusiasmo
um momento, para pensar logo em seguida que a sua
idéia ha-de morrer, como morreram todas as outras. Mas, tal
não succede; Arthur Loureiro se no fundo é um bom
portuguez
e um genuino portuense, vem saturado d'essa convivencia
de vinte annos com os inglezes, gente que tem tanto de
aventureiros como de previdentes. Debaixo d'essa esplendida
orientação Loureiro cria a sua escola de pintura
para senhoras
e não desanima, confiado em
que querer é poder.
Retrato do dr. Francisco Anthero―Arthur Loureiro
Retrato do dr.
Francisco Anthero
arthur loureiro
E hoje é elle
o unico artista que, no nosso
meio, realisa este grande melhoramento,
em prol da Arte: ter
uma escola onde vão os seus discipulos,
n'uma confraternisação
artistica, tomar as sábias lições
que elle lhes dá com a sua proficiencia
e saber.
E, com que arte, e com que
cuidado, elle soube transformar
uma sala fria e desconfortavel
n'um
atelier, que se não
é um
especimen,
é no entanto um delicado
recinto onde o gosto decorativo
do artista se casa perfeitamente
com a severidade das
paredes, onde pousam como scintilantes
fulgurações de genio, trabalhos,
estudos e composições do
professor, de mistura com gessos de estudo.
Fui ha dias ao
atelier-escola,
precisamente no momento
em que terminavam as lições e as alumnas,
fulgurantes
de mocidade e alegria, saiam n'um chilrear que encantava.
Os cavalletes, espalhados pelo
atelier, eram como sentinellas
que ficavam guardando os logares das discipulas. Passei-os
em revista, cheio de curiosidade e de interesse em notar n'aquelles
esboços as disposições de quem os
tinha executado.
Aqui, desenho dos principiantes, de diversos objectos, taes
como garrafas, jarros, pucaros, etc., e onde elles, emquanto
desenham, vão tendo noções do que
é a perspectiva pratica.
Mais além, estudos de fructas e flores, e entre esses os
d'uma discipula que compõe e applica aos tecidos as flores e
os fructos que desenha e que pinta do natural.
Outros, desenhos de gessos das differentes escolas, grega,
romana e renascença... Mais além,
cópias flagrantes a oleo,
dos modelos vivos e dos costumes populares portuguezes.
Uma verdadeira escola, methodica e definida, onde os
alumnos não copiam os seus trabalhos de modelos que veem
de França ou da Allemanha ás grosas, mas sim do
natural;
estudando desde as mais rudimentares noções de
traços e linhas,
até aos intrincados problemas da perspectiva, sós
por
si, apenas com as indicações do professor.
São tambem para notar as pastas carregadas de estudos
que os discipulos executam em casa, após as
lições, e que são
documentos irrefutaveis do bom aproveitamento d'este systema
de ensinar o desenho e a pintura.
Entre os discipulos de Loureiro, ha um que se torna
notavel, porque com 48 lições apenas, uma cada
semana, tem
feito maravilhosos progressos. D'este discipulo, já eu tive
occasião de fallar, quando em tempo dediquei duas linhas a
uma exposição que Loureiro fez e em que
appareceram alguns
estudos d'elle.
Ha tempos, porém, quando visitei o
atelier-escola, tive
uma boa occasião de vêr de novo trabalhos seus
feitos alli: uma
bella copia a oleo do gesso, correcta de execução
e de desenho
e mais uns trabalhos que elle fizera fóra da escola, em
passeio
d'Arte pelo campo e pela praia. Havia uma marinha bem tocada,
e uma paisagem
delicadamente
pintada e
superiormente
estudada e desenhada, não fallando n'um interessante quadro
de camelias, que me encantou. Talvez porque eu gosto muito
de flores, e aquellas estavam tão frescas, que me fizeram
uma
magnifica impressão.
É elle o sr. Manuel Lucio um dos amadores que, se continuar
assim, mais brilhantemente poderá affirmar o que se
tem dito de Loureiro: que se é grande como artista,
não o é
menos como
professor.
Mas, voltemos á escola. Tem ella sobre todos os outros
atelieres a grande vantagem de estar
installada nos jardins
do Palacio. Quando a primavera, ridente, enche aquelle recinto
de flores e de sol, cá para fóra, para o ar
livre, vem os
discipulos, e, ou recolhem nas suas telas as flores lindas e frescas
e os pontos de vista deliciosos que d'alli se disfrutam, ou
estudam e pintam pequeninos recantos do jardim variados e
bellos. E tudo isto realisa Arthur Loureiro, não sem largas
e
complicadas difficuldades, que felizmente elle vê cobertas de
bom resultado, se bem que com pouco interesse.
Ao vir-me embora depois de ter dado os meus parabens
sinceros ao professor pela sua iniciativa, pensava em como
aquelle bello recinto do Palacio de Crystal poderia ser aproveitado
para tanta, tanta coisa util, em vez de jazer ignominiosamente
alli, mudo e sinistro como um crime.
E que tudo isso se poderia fazer se quem o dirige, visse
mais alguma coisa do que umas
reles
exposições de flores e
aves e do que umas
festarolas de
arraial com
musica do Zé
da
Gaita e
fogo d'artificio do
Devezas!...
Tigres―Arthur Loureiro1
Tigres—arthur loureiro
III
ARTHUR LOUREIRO e a Academia de Bellas-Artes
Ha tempos n'uns bem elaborados artigos da
Voz
Publica,
alguem, que eu não sei quem é, veio apresentar
a ideia de que Arthur Loureiro deveria ser
professor da nossa Academia de Bellas-Artes.
Achei tão acceitavel e tão util para a Academia
essa
ideia, que n'este momento em que me tenho de occupar da
sua exposição de quadros, entendi dever
acompanhar na sua
propaganda quem tão desinteressadamente a apresentou.
Não
é que eu venha a campo combater afincadamente em favor
d'este artista, não, venho só como mero
espectador do grande
palco da vida applaudir quem soube apresentar a ideia.
Arthur Loureiro foi um dos mais distinctos discipulos
das nossas academias de Bellas Artes e tem a sua folha de
bom profissional, resplandecendo de brilho e cheio de gloria
immoredoira.
Não foi no seu paiz natal que elle se completou em
arte, foi no estrangeiro, nas grandes terras onde ser-se pintor
não é uma mera galanteria de gente fina; foi nas
terras onde
se faz da Pintura alguma coisa mais pratica e mais definida
do que entre nós.
Voltou tarde á patria, vinte annos passados sobre o seu
curso. Quer isto dizer, que elle vem mais senhor do
metier do
que aquelles que meramente se demoram lá por fóra
uns tres
ou quatro annos. É certo que muitos que estudaram no
estrangeiro
nem sempre ao voltar veem mais vigorosos e mais
trabalhadores do que quando partiram. Mas elle não.
Arthur Loureiro, foi unicamente para trabalhar e affirmam-no
exuberantemente os cargos que por lá occupou distinctamente,
taes como:—examinador das classes de Arte
da National Gallery of Victoria, e director e professor de 1.ª
classe dos cursos de Dezenho e Pintura do Presbiteriam Ladier
College em Melbourne, na Australia.
Só no mundo―Quadro de Arthur Loureiro
Só no mundo—Quadro de
arthur loureiro
Ora estes cargos dados a um
estrangeiro, a um portuguez,
o que affirmam
é o que o seu
nome era ali conhecido
e que estava á
altura de occupar
esses logares com
toda a hombridade
e todo o saber.
Mas ha mais,
quando terminou o
seu curso em Portugal
foi classificado
para pensonista
em Paris, onde fez
uma larga e profunda
aprendizagem
d'arte.
Concorreu a
muitas e variadas
exposições, onde os
seus quadros foram
sempre apreciados
como mereciam.
Entre esses deveremos
notar como
primordiaes a Exposição
Religiosa
da Belgica onde o seu quadro,
A Visão de
Santo Stanislau de
Kastka, foi acolhido com enthusiasmo por toda a
critica, e
muito especial referencia mereceu ao celebre critico religioso,
l'Albé Moeller. E ainda em
Londres, onde concorreu, a convite,
á Greater Britian Exibition, em 1899 e
foi recompensado
com diploma d'honra e medalha de ouro. Ha pouco foi elle
eleito Academico de Merito da Academia da Victoria, em
Melbourne.
Vê-se bem claro, por tudo isto, que Arthur Loureiro era
considerado e muito, lá fóra, como um verdadeiro
artista que é.
Estou d'aqui a vêr a balburdia que vae no nosso meio
artistico por estas minhas despretenciosas notas, mas não
são
ellas mais do que o desejo de provar que o homem está
á altura
de occupar um logar de professor na nossa Academia.
Porque estou bem certo de que elle, chamado a dar provas
publicas do seu saber artistico, ellas serão convincentes.
Se elle é um grande artista, não é
menos um grande
trabalhador, incansavel; trabalhando, quer em quadros para
expôr e vender, quer dando lições
áquelles que desejam bem
conhecer a arte de pintar, no seu
atelier, no Palacio de Crystal
Portuense. N'esse mesmo
atelier
já por varias vezes tive
o prazer de visitar exposições organisadas por
elle.
Ali me mostrou elle que embora longe de nós por tanto
tempo, não se deshabituara das côres e da luz da
nossa boa
terra. Não veiu inebriado com o nebulozo da Escocia, com o
cinzento da França, nem com o vermelho violaceo da Italia.
Veiu isento de escolas, preoccupando-se só com o que via
na natureza tal qual ella se apresentava, vibrante de luz
se o sol espadanava rutilantemente no espaço, nebuloso e
triste,
se a nevoa cobria a atmosphera e a paisagem que pintava.
Era como que o executor da verdade tal como ella deve
ser. Era, emfim, um paisagista perfeito e definidamente portuguez.
Pois bem, todos ahi viram as suas recentes
exposições,
e que eu saiba, ainda ninguem amesquinhou o seu muito merecimento;
pelo contrario todos foram á uma a dizer que elle
tinha valor. A critica, que deve ser sincera e justa, não
teve
por onde o atacar, nem veiu dizer d'elle senão que era bom,
por isso a sua entrada como professor de paisagem na Academia
de Bellas Artes, do Porto, deveria ser acolhida por todos
os professores e alumnos com enthusiasmo, se bem que a nossa
Academia não seja para largas
manifestações.
Mas deixemos agora o artista para fallarmos da sua ultima
exposição.
No
atelier de Arthur Loureiro, ha um
não sei que de
conforto que nos prende. Sob a sua direcção
tem-se transformado
aquella fria sala n'um bellissimo gabinete, onde se podem
passar horas e horas admiravelmente bem. Decorado
com simplicidade, mas com um especial
cachet de galanteria
os seus quadros destacam alli maravilhosamente.
Vou fallar delles, como sei, ou como entendo.
Como nota primordial destacarei o grande quadro, cujo
titulo é
De aldeia em
aldeia e que inspirou ao bello poeta M.
Ricca, esta quadra: