Sob a cruz pesada e feia
Da miseria que a consomme
Corre d'aldeia em aldeia,
Na Via-sacra da fome.


De aldeia em aldeia―Arthur Loureiro
De aldeia em aldeia—arthur loureiro


É um soberbo trabalho, desenhado com cuidado e pintado com amor. Uma velhita andrajosa atravessa um trecho de paisagem, por um caminho encharcado. Que correcção e que luz, verdadeira obra prima que um grande mestre não se envergonhará de assignar.

No pinhal. É um delicioso estudo de pinheiros, graceis e altos com a sua coma dum verde foncé, que parece sussurrar com a aragem que passa.

Mar agitado. Agua deliciosamente tratada e transparecendo atravez d'ella a penedia que ella cobre. Luz deliciosa de grande ar.

Vaga quebrada. É um pequeno quadro em que uma vaga se espadana como champanhe de encontro a um rochedo. Com que vigor está pintada essa molle de agua, que n'um desdobrar vertiginoso e bravo encontra um obstaculo e se desfaz para o ar, como n'um grito de desespero!

Retrato de G. Nogueira. Este retrato é um primor de parecença e de trabalho. Loureiro poz n'elle um cuidado especial e amigo; é uma obra prima.

Nevogilde. Um trecho de paisagem portuense, muito sentida, muito nossa.

Padeira de Avintes. É um delicioso estudo dos nossos costumes populares. Modelo gracil e airoso como são todas as nossas lavradeiras, correctamente desenhado, primorosamente pintado.

Barcos. Um quadrito interessante, onde ha dois barcos que parece boiarem docemente nas aguas mansas do rio, sob um ceu suave d'um azul transparente e bom.

Mais outros quadros ainda, todos elles confeccionados com mestria; alguns estudos de desenho, cabeças rigorosamente estudadas nos seus claros-escuros.

E esta exposição não está a abarrotar de exemplares, mas toda ella comporta coisas lindas e boas.

Ao sahir d'ali, vem-se sob a impressão sincera de que tudo aquillo é nosso, e muito nosso.

Vem-se tão bem disposto, que se fica com o desejo de lá voltar muitas mais vezes.

Paisagem―Arthur Loureiro
Paisagem—arthur loureiro





Flora―Quadro de Arthur Loureiro
Flora—Quadro de arthur loureiro





IV

Mais uma visita ao Atelier de ARTHUR LOUREIRO


Eu já disse algures que Arthur Loureiro era um poeta na pintura e hoje o repito aqui, no desprendimento sincero de quem o admira pelo seu talento. Os seus quadros são bucolicas de côr e de luz. Ha-os que são como deliciosos sonetos camoneanos. Ha-os que são verdadeiros poemas. As pequenas telas veridicamente portuguezas, com a sua côr e a sua luz d'aldeia, são como cantigas de namorados entre os rumorejos do trabalho campestre.

Arthur Loureiro, talvez, porque viveu muito tempo longe da sua patria, ao voltar, como que tentou, n'um largo sentimento de amor patrio, desforrar-se d'aqui não ter vivido sempre. E n'uma subtileza ideal desenhou e pintou a grande alma portugueza, desde a Torre dos Clerigos, até ao mais escondido recanto do Minho. A sua obra é como que o grito sentido do filho prodigo que volta ao fim de muito tempo á casa paterna. E que foi elle senão um filho prodigo da Arte, que andou por terras estranhas a expandir o seu talento em grandes manifestações, e que ao voltar, um pouco abatido da
grande lucta, nos mostrou que, se alguem o julgava já um estrangeiro, a sua alma pulsava no mais sublime enthusiasmo por tudo o que é nosso, por tudo o que era portuguez, desde as suas paisagens até aos seus homens.

E agora mais uma vez fallemos dos seus quadros, e dos do seu discipulo.

Antes porém de entrar na enumeração dos seus trabalhos ahi vae uma opinião.

Na occasião em que eu visitava a exposição entravam ali um grande pintor portuguez (Souza Pinto), um grande actor portuguez (Augusto Rosa), e um grande actor francez (Coquelin Ainé). Pois estes três cavalheiros insuspeitos para todos, depois de larga apreciação aos trabalhos expostos, quedaram-se em frente d'um quadro que ha muito está no atelier A Primavera, e Souza Pinto, esse artista cujo nome resôa no estrangeiro como um clarim de gloria nacional na arte de pintura, disse que se admirava que aquelle quadro ainda não tivesse sido adquirido para o muzeu nacional como um especimen de boa pintura e de soberbo desenho.

Tambem eu teria soltado o meu brado de admiração, se não soubesse que o Estado e as Camaras não teem dinheiro para essas cousas, e só o teem para festejos balofos, para comesainas opiparas

Pinheiros―Arthur Loureiro
Pinheiros
arthur loureiro

e para bolos rendosos aos afilhados; para mais nada. A galeria nacional de pintura no Porto é talvez mais parca do que a do mais pequeno amador. É uma vergonha!!...

Adeante, que vamos gastando muito tempo com considerações philosophicas.

Pois os quadros expostos de Loureiro, são 17 novos e uns 8 já vistos.

Dos antigos nada direi senão que são soberbos, dos modernos, d'esses alguma coisa mais escreverei. Entre todos ha um que me encanta profundamente. É O Pinhal!... Um dia ouvi dizer a alguem que o pinheiral era um motivo que não dava nada na pintura, pela sua fórma, pela sua côr e pela sua uniformidade. N'essa occasião, não me quiz manifestar, eu não sou pintor e não queria cahir em erro deante de quem tinha obrigação de conhecer o assumpto melhor do que eu, mas, cá para mim mantinha a minha opinião formada; o pinheiro presta-se á pintura, a questão é sabel-o desenhar e pintar. E Loureiro com o seu quadro Pinhal veiu completamente preencher a minha modesta opinião. Alli, n'aquella tela esguia, sob a correcção impeccavel de desenho, erguem-se uns pinheiros, que parecem balançar sob a pressão do vento que passa assobiando na sua ramaria.

A Feira Nova—É uma delicada pochade verdadeiramente caracteristica do que são as nossas feiras no Minho, sob barracas de lona branca, que se prendem aos troncos das arvores, com o borborinho de centos de lavradores e lavradeiras, acotovelando-se na furia de serem os primeiros a vêr o que ha alli para vender.

A Carvalheira—Uma larga arvore de folhas amarellecidas que começam a cahir sob o ventinho frio do inverno; é deliciosamente estudada.

E a Desfolhada, e a Estrada do Gerez (sob a chuva), as Alminhas e o Caminho de Besteiros—e todos elles, emfim, como são tão verdadeiramente nossos, tão sentidamente portuguezes, verdadeiramente minhotos, nos seus verdes inconfundiveis, na sua luz inimitavel.

Entre as tres cabeças de estudo, ha duas de uma velha, que são um encanto. Traçadas na meticulosidade de pormenores, são feitas largamente com pulso de quem é um verdadeiro artista.

Além dos trabalhos do mestre, que são como sempre magnificos, tomando uma das paredes do atelier, estão os trabalhos do discipulo, do snr. Manoel Maria Lucio Junior, que ha unicamente um anno, estuda com Loureiro, desenho e pintura.

Aos meus collegas da imprensa, como que tem passado despercebido o trabalho d'este amador, que entra agora no nosso meio artistico. Ora eu, que inegavelmente sou o mais incompetente dos apreciadores dos quadros, sempre lhe quero dispensar duas linhas.

Manuel Lucio é um rapaz da nossa fina sociedade, que todos nós conhecemos como sendo um dos elegantes da nossa terra.

Durante muito tempo julguei-o um bon vivant, dedicando unicamente o seu espirito ao talho d'um veston ou ao feitio de uma gravata. Um dia, porém, entrando a visitar Loureiro no seu atelier-escóla encontrei lá este cavalheiro dando lição de desenho. Acabada a aula, Loureiro mostrou-me trabalhos de varios discipulos e abrindo uma arca artistica que elle ali tem, tirou de dentro varios desenhos e disse-me:—são feitos pelo Lucio, é um rapaz de habilidade.—E de facto os desenhos que elle apresentou, revelavam uma certa disposição para a Arte.

D. Adelia Ramos : Discipula de Arthur Loureiro
D. Adelia Ramos
Discipula de
Arthur Loureiro

Passaram-se tempos, o mestre foi para fóra e ao voltar encontrou-se em frente d'um discipulo que lhe dá honra, porque Manuel Lucio, dotado d'uma vontade de ferro em conhecer o methodo de desenho e de pintura tem trabalhado denodadamente e tem conseguido com isso e com as bellas indicações do professor o que muitos com idas ao estrangeiro não tem conseguido.

Quatorze são os trabalhos expostos por este intelligente discipulo de Loureiro. Cinco trabalhos a oleo, cinco pasteis e quatro desenhos a lapis.

Entre os desenhos notarei O Contador, que é uma prova irrefutavel do modo como elle interpretou as noções de perspectiva indicadas; na pintura a oleo notarei os Cravos e um retalho de paisagem, onde as côres e os tons estão bem achados, resaltando os planos da chateza vulgar, propria dos estudos de amadores.

Aonde porém eu admiro a disposição artistica de Manuel Lucio é nos pasteis, especialisando uns Effeitos d'agua, um Poente e um Ceus nublados.

Innegavelmente o discipulo dá honra ao mestre e o mestre deve estar orgulhoso por ter achado, quem tão bem tenha sabido comprehendel-o e tão sabiamente aproveite as suas indicações. E recebam os dous, mestre e discipulo a sincera expressão do meu applauso.


1903 a 1904.




XIX

AMADORES PORTUENSES


MANUEL MARIA LUCIO JUNIOR

Discipulo de ARTHUR LOUREIRO


O Arthur Loureiro é um velho rapaz, pintor d'alma e

Manuel Lucio no Atelier de Arthur Loureiro
manuel lucio no Atelier de arthur loureiro

coração, trabalhador infatigavel, cavaqueador ameno e interessante, amigo dedicado, e, acima de tudo isto, professor consciencioso e sabedor.

Ora eu, que gosto de passar bem o meu tempo, vou muitas vezes, e especialmente aos domingos, ao Palacio de Crystal, dar dous dedos de cavaco ao Arthur Loureiro, no seu delicado e interessante atelier. Appareço alli por volta da hora e meia. É quando elle acaba de dar lição ao Manuel Lucio, que, quasi sempre, quando eu entro ainda lá está dentro, com a sua blouse vestida, paleta em punho, dando as ultimas pinceladas no modelo que copia.

Outro dia, copiava elle uma velha; quando entrei, estava já limpando os seus pinceis e a paleta para se ir embora.

Nas faces de Arthur Loureiro pairava um alegre sorriso de satisfação.

Que se teria passado de extraordinario para que elle estivesse tão sorridente?!... Alguma boa nova da familia ausente, ou grande bem estar na sua delicada saude?!... Talvez as duas coisas juntas!? Quem sabe?...

—Esperemos os acontecimentos, disse eu commigo, avido, no entretanto de conhecer o motivo d'aquella intima alegria. O que fôr soará, pensei, porque o Loureiro com a sua peculiar franqueza, não occulta por muito tempo o motivo que o faz estar assim satisfeito e alegre. E assim foi...

Mal o Lucio saiu, virou-se para mim e sem mais, disse-me, indicando a porta por onde saira:—É um discipulo que me ha-de dar honra, podes crer... Tem bastante disposição e é muito applicado... Ha-de dar muito se continuar assim, e se se convencer que isto de pintura não se aprende em dous dias.

Queres vêr? E sem esperar resposta levantou o tampo do seu divan-arca, saccou de lá de dentro uma pasta com desenhos e algumas pinturas a oleo, dizendo: são d'elle.

Eram de facto estudos que o Manuel Lucio tinha executado em casa, longe das vistas do professor, mas sob a orientação e as lições que o Loureiro lhe dava, proficua e sabiamente aproveitadas.

Era especialmente por isso, porque tinha encontrado, n'aquelles estudos que n'esse dia o discipulo trouxera á sua apreciação, a boa vontade, a applicação e a disposição natural de que elle era dotado, que Loureiro alegremente se sorria.

E elle tinha razão. Manuel Lucio, que eu tinha por um exterior, um balofo, quando o via passar ostentosamente, as suas sobrecasacas talhadas pelos ultimos figurinos, as suas gravatas espaventosas e ricas, onde pousavam joias caras e os seus chapeus altos sempre muito polidos e muito lustrados, não era o que eu pensava.

Olhava-nos, parecia ter um ar sobranceiro de enfant-gaté, ou, como eu costumo dizer portuguesissimamente, menino bonito, e sentia-se por elle um quer que fosse, que obrigava a pôl-o, com uma certa reserva, na devida distancia a que se
põem sempre os infatuados, que não valem nada e que julgam ser verdadeiras notabilidades. Era um juizo errado aquelle que eu fazia; reconheço agora que não o conhecia, e nunca lhe tinha encontrado nem podia encontrar predicados por que o admirasse. Estava de sobre-aviso a seu respeito.

Marinha―Manuel Lucio
Marinha—manuel lucio

Hoje, porém, ponho de parte essa opinião errada que d'elle fazia e isso porque tendo acompanhado com grande interesse os estudos d'esse discipulo, e o seu aproveitamento n'aquella risonha escola d'Arte, que o bom Loureiro tem no seu
interessante atelier dos jardins do Palacio de Crystal, e como o reconheço digno de ser notado entre os amadores que n'este momento ha pelo Porto, vou dedicar-lhe algumas palavras de incitamento, para que não esmoreça na empreza da Arte em que o seu bom gosto e as suas disposições artisticas o metteram. Não pense, porém, Manuel Lucio que eu vou incensal-o louvaminheiramente; não, vou rapidamente em duas leves pennadas dedicar-lhe algumas palavras de elogio merecido e sincero.

Para isso, soccorro-me de alguns informes que Loureiro me deu e fallaremos os dous conjunctamente, eu pelo que tenho visto nas minhas visitas ao atelier-escola, e especialmente na ultima exposição de trabalhos de discipulos, elle pelo que tem apurado do estudo que o discipulo tem feito e de como tem recebido salutarmente as suas sabias lições. Comecemos pois.

Um dia, Arthur Loureiro que tinha aberto ao publico a sua escola de pintura para senhoras, confiado no bom gosto que ultimamente se estava desenvolvendo entre as madames para esta manifestação de Arte, viu entrar-lhe pela porta dentro este rapaz chic, que perguntava se elle quereria dar-lhe algumas lições de pintura. Loureiro immediatamente se promptificou a isso, mas sob condição que elle deveria começar por onde todos devem começar, pelos rudimentos de desenho. Só n'essas condições o poderia acceitar como discipulo.

Accedeu o nosso amador immediatamente, pois farto estava elle de saber que o pouco que tinha estudado com um soi disant de nada lhe valia e logo combinaram dar breve inicio aos seus trabalhos.

Ao principiar estas lições, Manuel Lucio, vinha cheio de uma inegualavel boa vontade, um honroso desejo de vir a ser na pintura, alguma coisa mais, do que as habituaes vulgaridades, e por isso, pondo completamente de parte as noções que recebera de um insignificante professor, que d'isso só tinha o nome, pois emquanto ao resto era d'uma nullidade completa, todo elle se dedicou a estudar e a cumprir as instrucções que Arthur Loureiro lhe ia dando.

E assim, foi desenhar, desde os primeiros rudimentos até á perspectiva, e isto por longas lições, sem nunca dar mostras de cançaço ou aborrecimento, pelo contrario sempre cheio d'um grande prazer em traçar firme e rapidamente o contorno e o claro-escuro dos objectos que copiava.

E ainda hoje continua e affincadamente, desenhando todos os dias, mesmo a fóra dos esboços que fez para os seus quadros.

Depois de ter desenhado muito a lapis e a carvão, copiando gessos e modelos, entrou então no desenho a côres, (pastel) e fez a paisagem e a figura, isto tudo do natural, e fel-o com uma tal garridice e um tal desenvolvimento que os seus trabalhos mereceram os applausos, não só do seu professor, mas da critica conscienciosa e honesta de alguns entendidos.

Após isto passou a pintar a oleo, no atelier, e sob a vista e a conceituosa informação de Loureiro, lançou á tela flores que estudou em todas as suas minudencias, sem comtudo fazer dos seus trabalhos, rendilhados e lambidos quadros.

Não, Manuel Lucio, estudou as flores desenhando-as e colorindo-as depois nos tons e nos valores que ellas deviam ter.

E emquanto no atelier-escola pintava flores sob a vista do professor, lá por fora, sósinho, apenas com as sabias noções recebidas tentava a paisagem a oleo.

Eram estas algumas das que Loureiro me mostrava, e de que eu vos dou umas gravuras.

Vieram em seguida os estudos a oleo de gessos, feitos com muita consciencia e extraordinaria proficiencia, e hoje estuda valentemente, como um verdadeiro amador de talento, o modelo vivo, e ainda ha pouco n'uma exposição de alumnos que Loureiro promoveu no seu atelier, elle lá estava com 19 trabalhos a oleo entre os quaes alguns havia que eram verdadeiramente maravilhosos de côr, de luz e de verdade, e 9 desenhos, provas irrefutaveis de quanto elle trabalha e do bem como trabalha.

Mas Manuel Lucio não é só um amador de pintura consciencioso, é tambem um burilador de litteratura hors ligne e um entendedor de coisas d'Arte. Deve-se á sua pessoa o prefacio do Catalogo da 1.ª Exposição de Alumnos no Atelier-Escola. N'esse prologo o nosso perfilado discorre sabiamente sobre as vantagens de desenhar perfeitamente para bem pintar. São uma serie de considerações bem feitas e profundamente estudadas, que dão a verdadeira orientação do seu modo de pensar e proceder n'este genero de sport artistico em que se metteu.

Depois, como tem muita leitura d'Arte, elle reune a um bello amador, um cavaqueador agradavel e um conhecedor cheio de saber.

Ahi fica em rapidas linhas o que eu posso dizer do discipulo de Arthur Loureiro, o bello discipulo que faz honra ao professor.


1904.


Barra, Foz do Douro―Manuel Lucio
Barra, Foz do Douro—manuel lucio





XX

UMA EXPOSIÇÃO DE QUADROS


do Instituto de Estudos e Conferencias


No louvavel intento de desenvolver a Arte de pintura entre nós, o Instituto de Estudos e Conferencias, realisou no pateo da Misericordia mais uma outra exposição. É pois d'este certamen artistico que me vou occupar n'este rapido artigo.

Sousa Pinto
Sousa Pinto

Fui lá, quando a exposição era vedada ao publico. Unicamente ali tinham entrada os socios do Instituto e os delegados da imprensa, e por isso muito á vontade me demorei por lá umas duas horas a analysar.

Só o quadro de Sousa Pinto me reteve boa parte do tempo. Que aquillo é, para mim, o que se chama o requinte da perfeição.

Não abalançarei opinião sobre tal trabalho, porque me julgo infinitamente pequeno para discutir obra tão magistral.

Sousa Pinto, tem o seu nome feito, nome glorioso que se impõe lá fóra, nos grandes centros artisticos, como o Salon, onde os seus quadros são recebidos com toda a consideração e premiados com as melhores recompensas. E a critica sabia e correcta dos grandes analystas da Arte, essa critica que é indomavel como a justiça, tem dito que elle é um grande, um superior pintor. Gloriosa coisa é por isso, para nós, podermos admirar hoje na nossa despretenciosa exposição um trabalho de tão requintada perfeição como o Ferreiro de Sousa Pinto. Portanto, antes de entrar na enumeração dos trabalhos expostos, consinta a direcção do Instituto de Estudos e Conferencias que a felicite por ter, como vulgarmente se diz, mettido esta lança em Africa; porque Sousa Pinto não quer sujeitar-se á critica portugueza, e n'estas condições foge de apparecer nas nossas exposições.

Mas não nos demoremos mais, sigamos para diante, que eu vim para lhe fallar do conjuncto da Exposição, e não só de um artista.

José de Brito no seu atelier
josé de brito no seu atelier


Aberto pois o catalogo acha-se inscripto como n.º 1 o snr. Almeida e Silva, que desta vez me convence de que é um artista. Eu estava mal impressionado com elle, os seus trabalhos, talvez por muita meticulosidade de acabamento e pelo recortado das figuras e dos assumptos, tinham o quer que fosse de oleographico. Mas, n'esta exposição, elle vem mais pujante de execução, mais artista. E em qualquer dos generos em que se apresenta mostra aptidões definidas. Entre esses trabalhos destacarei: O Rio Pavia no Outomno, Manhã d'Outubro, Veterano de Ormuz, Tranquillidade, Retrato do snr. D. Diogo d'Almeida (Reriz). Ha mais alguns quadros, mas esses são inferiores.

Crepusculo Matutino―Candido da Cunha
Crepusculo Matutino—candido da cunha


Segue-o José de Brito, com dous retratos a oleo de que não gosto nada. No entanto noto o Retrato de Antonio Ramos Pinto, a pastel, que é muito bem feito, e as aquarellas, que apresenta são todas bem tocadas, especialmente umas tres que são um primor de execução. As Margens do Leça, (2 quadros), Caminho de Nevogilde e Villarinha, especialmente.

Abel Cardoso, com quatro quadros, dos quaes destacarei o Tapada. Ha uma portinha vermelha a destacar na linha do muro da quinta, que dá uma nota interessante. O retrato do militar esse, meu Deus, é phantastico.

Candido da Cunha. Sempre o sentimental artista que desde sempre conheci. Tem tres quadros, qual d'elles o mais bem feito, sempre com um ar nostalgico do pôr do sol, que elle tão distinctamente pinta. O Crepusculo Matutino é um delicioso encanto.

Paisagem―Marques d'Oliveira
Paisagem—Marques d'Oliveira

D. Alice Grillo, tem tres quadros, um de Flores, outro de Rosas e fructos, e um Estudo de velha. Para mim os dous primeiros são superiores. As laranjas são bem pintadas, de bella côr e as rosas e os amores perfeitos, são lindamente tocados, d'uma grande frescura.

Marques d'Oliveira. Eis um nome que se impõe e que sempre que se apresenta nos deixa convencidos de que é um talentosissimo artista. Nos seus quadros, ha um certo quê que demonstra a technica superior d'este mestre de pintura. E embora alguns criticos queiram abocanhar o nome feito d'este artista, elle supplanta toda essa inveja, que outra cousa não era o que eu ouvi dizer d'elle. Dos quadros expostos, pincelados de uma fórma correcta e distincta, destacarei o Rua de Agueda, Effeito da tarde (Agueda), Cães da Ribeira, Espinho, Effeito da tarde (Espinho), o que quer dizer que são todos.

Guardando vaccas―Eduardo Moura
Guardando vaccas—eduardo moura

D. Julia Molarinho. É pintora da nova ala que vae dando a nota do seu merecimento. Os seus quadros Cabeça de preto, Cabeça de rapaz, Poente e Pochade, são bem feitos, especialmente os dous primeiros. Tem mais quadros, que não me prenderam a attenção.

Eduardo Moura. Apresenta-se com um só quadro, se bem que pelas suas aptidões deveria ter exposto mais. É um trabalho bem feito, digno de ser admirado.

Thomaz de Moura. Com uma Cabecita de rapariga regularmente executada. Ha tambem muito de monotono no fundo, um azul indefinido.

D. Leopoldina Pinto. Tres quadros de Flores e fructos. Tem um quadro de Geranios que está bem tocado, d'uma certa frescura. Esta senhora é especialista n'esta qualidade de flores. Já n'outra exposição apresentou um quadro de geranios que era um assombro de perfeição. Os crysanthemos esses não são bons. No quadro Fructos, ha umas uvas bem tratadas, com bastante transparencia.

Arthur Prat. É um pintor de côres retumbantes. Os seus quadros são como fanfarras de luz. Gosto d'elles porque me dão muito bem a nota estridula e alegre dos campos do sul. Apresenta dez quadros, alguns d'elles regularmente feitos e regularmente estudados.

Julio Ramos. Esse paisagista que tanto nos tem encantado com os seus quadros, apresenta-se tambem d'esta vez com muita distincção, se bem que me não prenda a attenção, como d'outras vezes que tem exposto.

Carlos Reis. Ora aqui está um pintor que é para mim um genial artista. Seguidor dos moldes de Silva Porto, apresenta-se n'esta exposição com cinco quadros que são uma maravilha.

Julio Ramos no seu atelier
julio ramos no seu atelier

O Idilio, é uma pintura deslumbrante. O retrato de minha mãe, é tambem um superior trabalho, feito com toda a correcção, d'um verdadeiro mestre.

Augusto Ribeiro, nos seus quadrinhos mignons apresenta-se admiravelmente—até nem parece o artista de outros tempos. Agora mais socegado, mais accentuado, fez-nos a pintura do nosso Minho em paginas d'album, mas muito bem feitas.

João Augusto Ribeiro. Com um quadro só, um Estudo de velho, primoroso de desenho e de côr, flagrante de verdade.

Torquato Pinheiro
Torquato Pinheiro

D. Aurelia de Sousa. Dous trabalhos a oleo de que não gosto e um pastel—N'um jardim antigo, que está muito bem executado.

D. Sophia de Sousa. Apresenta quatro quadros, dos quaes destacarei como mais digno de menção a Paisagem. É uma verdadeira artista.

Julio Teixeira Bastos. Seis telas expostas. Destaco O Melro, como sendo a que mais impressão me fez.

Torquato Pinheiro. É com toda a correcção que se nos apresenta, n'este certamen, este conceituado artista. Dos seis quadros expostos notarei como melhores os seguintes:—Tarde no Corgo, correctissimo, Rua da Pedreira e Crepusculo.

João Vaz. O superior pintor de marinhas, vem á exposição com tres quadros que são um encanto, especialisando a Barra de Lisboa onde a agua é tratada d'um modo irreprehensivel.—Barracas de Pescadores, tambem muito bem feito. O outro—Margens do Sado, tem para mim uma nota que o torna desagradavel: é uma serie de piteiras que dão ao quadro um quê de bordado a missanga.

Eurico Ricardo Jorge. Apparece pela primeira vez em publico e apresenta-se muito bem com o seu estudo a pastel—Cabeça de velho.

José David. Tem algumas aguarellas que estão bem manchadas.

E nada mais porque já vae muito longe este artigo.

Retrato de Bernardino Reaes―Torquato Pinheiro
Retrato de Bernardino Reaes
torquato pinheiro





XXI

Uma Exposição de Carneiro Junior


No Pateo da Misericordia


A Exposição Carneiro Junior é mais uma confirmação do talento de quem a organisa. Esse bello rapaz, desde a primeira vez que com elle fallei logo conquistou em extremo a minha simpathia.

Alma de poeta epico, idealisando sempre, n'um desejo fremente de ser grande, quadros que prendam e enthusiasmem quem os vê.

D'esta vez, no seu grande quadro, mais humano e mais terreno, deve ter sido melhor comprehendido pelo publico que tem visitado a exposição.

Assumpto de molde a prender bem a alma de todos os que ainda tem um pouco d'amor á sua patria, é o seu quadro uma pagina flagrante de verdade e de movimento, arrancada á Historia de Portugal. Figuras talhadas em moldes verdadeiramente portuguezes, agrupadas flagrantemente em posturas naturaes, o seu quadro é, innegavelmente, uma bella obra.

A figura altiva, mas sem arrogancia, do hespanhol vencido que recebe uma corôa de flores para collocar no punho da espada, como para dizer que não a elle mas sim a ella se deve qualquer gloria obtida, é bem estudada; e o portuguez, que respeitosamente offerece como galharda dadiva de simpathia a mesma corôa, é de soberba concepção. Era primeira intenção do artista dar outra orientação a estas duas figuras, mas fez bem em ter resolvido assim o problema. A fidalguia da guerreira Hespanha não podia tomar posição humilde deante d'um portuguez illustre e valoroso que tinha a gentileza de offerecer-lhe uma capella de flores, que mãos delicadas de mulher tinham composto.

Entrega de Evora―Quadro de Antonio Carneiro Junior
Entrega de Evora—Quadro de antonio carneiro junior


Ha no quadro figuras flagrantes de verdade. Os frades dão-nos a impressão serafica d'homens que, entre o latim e o repasto, não quizeram tambem fugir á manifestação imponente que o povo fazia ao guerreiro vencedor.

Os cavallos estão bem estudados especialmente o que tem a garupa virada ao espectador, cujo tom de côr dá o verdadeiro avelulado sedozo de um alazão fogoso e bem tratado.

A neblina que se percebe por entre a porta em arco da cidade, no seu tom cinzento violaceo tem perfeitamente o tom do amanhecer dos dias lindos do Alemtejo.

Este quadro, destina-se a ornamentar a escadaria do sumptuoso palacio do snr. Barahona, d'Evora, um dos homens que mais tem acompanhado e protegido a Arte nacional.

Destacam-se para mim depois, n'esta exposição, os retratos. Ha-os flagrantissimos de verdade taes como o do Dr. João Novaes, e do Antonio Cruz, esse velho rapaz que conheci tal qual desde os tempos idos do Jornal da Manhã. O retrato do auctor n'uma postura scismadora e triste, verdadeiro estudo psycologico da sua individualidade; é soberbo. A figura distincta e airosa da esposa do seu amigo Alberto d'Oliveira, executada á noute sob a luz viva d'um largo candieiro de petroleo, é adoravel de côr e de execução.

No Retrato da Ex.ma Snr.a D. Emilia de Carvalho, executado com primor e cuidado, ha um ar de ingenuidade deliciosa e amiga que nos prende. A cabecita da pequenina Rachel, com os seus olhitos vivos e o seu ar risonho, dá-nos a tentação de um beijo todo amor, todo candura.

Notei na facção de todos os retratos um quê do genio de Columbano, mas um quê bom, sem aquella psychologia profunda e doentia que o mestre dá ás suas composições. Carneiro Junior é a meu vêr mais humano, mais positivo.

Da paisagem destacarei para aqui, como tendo-me dado mais viva impressão as seguintes: Rio Tamega (Amarante), Crepusculo na montanha, Leça (estudo), No bosque (impressão), O mar, Um poente e Rua do Bomfim (tarde de chuva), os quaes são flagrantes de luz e de tom. O mar, com o seu fundo em iris avermelhado é bello e a Rua do Bomfim, em tarde de chuva, na sua meia nevoa, é deliciosa.

Os desenhos para o estudo do grande quadro são magnificos de correcção e de justeza.

Baixo relevo (Bronze)―Antonio Teixeira Lopes
Baixo relevo (Bronze)
antonio teixeira lopes

Cabeças estudadas do natural, nas suas linhas definidas, são primores de quem sabe e muito da, para mim difficilima, arte de desenhar.

Ha na exposição uma coisa que me encanta sobre todas as outras: são as cabecitas dos filhos do pintor, desenhadas a sanguinea. Não sei se por ser essa a minha côr predilecta, se pelo bem executado d'ellas. Naturalmente por ambas as circumstancias. São retalhos da alma d'esse poeta pintor que elle copia com um carinho desusado. Já na sua outra exposição um dos quadros que mais me enthusiasmou pelo amor e cuidado com que estava feito foi o retrato da esposa do artista, aquelle que tinha uma grande abada de flores. Isto confirma o que eu penso do homem, um menager todo conforto e carinho. Ponto, porém, que eu não estou aqui a fazer o retrato psychologico do artista, mas sómente a resenha dos seus quadros; mais nada.

A Procissão―Candido da Cunha
A Procissão—candido da cunha

Fechando, vou fallar do esquisso final para o seu quadro grande.

Elle chama-lhe um esquisso definitivo, eu chamo-lhe um quadro completo. Gosto d'elle tanto ou mais do que do grande. Se me permitte, chamar-lhe-hei a miniatura do trabalho que é o clou da exposição.

Que Carneiro Junior desculpe este deslizar de cousas a respeito do seu talento artistico e da sua exposição.

E, a proposito d'esta e outras exposições, não será mau repetir que o meu fim não é outro senão vêr se se obriga o publico a interessar-se um pouco mais por o nosso meio artistico. Conheci alguns homens cheios de dinheiro e com pretenções a ter bom gosto, que nunca na sua vida gastaram dez tostões, que fosse, em uma pintura, a não ser na pintura obrigatoria das portas e das janellas da sua casa. Têm, quando muito oleographias ricamente encaixilhadas nas suas salas de receber.

Pois é preciso que esses homens que podem, venham ás exposições, puchem pelos cordões á bolsa, comprem quadros aos artistas que levam uma vida de trabalho e de estudo para nos darem com palpitações flagrantes os retratos que executam, e com vibrações de luz e de côr as paisagens que retalham da grande Mãe Natureza para telas, que poderemos ter no nosso quarto de trabalho, recordando-nos pedaços da nossa querida terra, tão bella de paisagens, tão deslumbrante de sol.


XXII

Notas ligeiras d'uma Exposição


Maio é o mez das flores, dos poetas e dos artistas. E a comprovar o meu dizer lá se abriu n'este mez das graças e das bençãos, a 5.ª Exposição de Bellas-Artes, que a prestante aggremiação Instituto de Estudos e Conferencias, com o seu grande empenho de vulgarisar entre nós o gosto pela Arte, promoveu.

D. Lucilia Aranha Grave
D. Lucilia Aranha Grave

Como simples informador d'um limitado publico lá fui n'essa romagem artistica no primeiro dia, mas, porque me vi rodeado por todos os pintores portuenses, não me atirei a tomar notas, nem a esmiuçar detalhadamente tudo aquillo.

Dois dedos de conversa a este, mais dous áquelle, ouvindo opiniões que passavam no ar, n'um quasi sussurro de confidencias, não podia o meu espirito socegadamente fazer a apreciação sentidamente minha, que eu queria fazer. Depois, eu tenho a veleidade de ter opinião, de pensar só... e não fazer como muitos que se deixam ir na correnteza do que lhe dizem os espiritos santos de orelha.

Eu vou sempre umas tres ou quatro vezes ás exposições d'arte, e fico burguezmente, como um bom mercieiro, estatico deante de todos os quadros... em alguns como n'uma adoração pelo bem executado, n'outros como n'um pasmo, do arrojo da concepção e n'outros então, assombrado, fulminado, ante a imbecilidade com que elles são feitos. E depois, serenamente,
sem pretenções, nem vaidades, com a franqueza com que fallaria a um conhecido de ha muito, venho dizer ao publico a impressão que tive.

Paisagem―Aurelia de Sousa
Paisagem—aurelia de sousa

Não levo a minha franqueza ao ponto de ser descortez com os artistas que conheço, nem a incensar bajuladoramente aquelles de quem sou amigo: não... sou um critico moderado... sem coterie, e honestamente independente.

O vernisage (eu estou muito visto em termos francezes, não acham?) esteve este anno, como em poucos, animado de artistas...

O salon tinha um quer que era de superior. Os artistas tinham-se dado ali rendez-vous...

Aos grillos―Julio Ramos
Aos grillos—julio ramos

Uma coisa faltava para dar a nota chic, e fina... eram os rostosinhos galantes d'algumas das nossas damas. Se ellas tem apparecido, poderia dizer n'este artigo com aquelle meu gesto á Augusto Rosa, que o outro me encontrou, que a abertura da Exposição tinha estado muito curiosa, muito becarre.

Faltaram porém essas notas estridulas de garridice das senhoras, mas, em compensação appareceram por lá magnificos tipos caricaturaes e grotescos!... Se até eu estive lá!!!...

Agradou-me á primeira vista o conjuncto do
certamen, se bem que de visita mais demorada, como a que em outra vez fiz, não trouxe de lá a mesma impressão.

Ahi está, se eu tivesse feito de afogadilho este artigo teria dito que a exposição era geralmente boa, e agora não, não seria tão pessimista. Recortarei pois do catalogo alguns nomes como os de mais destaque.

Em primeiro logar, e affirmando cada vez mais a caracteristica de um primoroso paisagista, Marques de Oliveira, com as suas trese telas de paisagem e marinha, e ainda como affirmativa de que elle toca com o mesmo saber a nota da figura, uma primorosa Cabeça de velha, tão finamente tratada, tão cuidadosamente desenhada e collorida que me maravilhou.

A seguir vem Candido da Cunha, esse delicioso poeta nostalgico de pintura, que me suggestiona com os seus quadros, poentes deliciosos, onde parece que, atravez d'uma doce tonalidade de aldeia, se ouve o religioso toque das Avè-Marias. É Candido da Cunha um d'estes pintores que ao serem vistos uma vez nos seus trabalhos, deixam ficar na nossa retentiva o seu modo especial de pintar, para nunca mais se esquecer, tal é o seu sentimento.

Paisagem―Candido da Cunha
Paisagem—candido da cunha

Torquato Pinheiro tambem se nos apresenta bem, com uns nove quadros, que a não ser aquelle seu tom gris-violete, tão seu, tão peculiar, me fariam uma mais larga impressão. Destacarei porém as Lavadeiras na levada, Á vista do Marão, Sol de tarde e Fim de tarde (Real, Porto).

Julio Ramos, tambem nos dá quadros que demonstram o seu saber, especialmente o Fim da tarde, que é, a meu vêr, um explendido trabalho.

José de Brito vem á exposição com dous retratos a oleo, um pastel e algumas aguarellas. Dos retratos a oleo notei como bem executado especialmente o de D. Margarida G. Oliveira.

Lavadeiras na levada―Torquato Pinheiro
Lavadeiras na levada—torquato pinheiro

O seu pastel—Retrato do conselheiro Avides, é um bello trabalho. Este artista é para mim um dos melhores desenhistas a pastel. As suas aguarellas são bem feitas, muito bem feitas.

João Augusto Ribeiro.—Esse bello artista que conheci como um dos bons, vem á exposição com seis quadros. Destacarei O Estudo (de troncos), Depois da chuva, A Madrugada, que me parecem affirmar d'uma maneira categorica que Ribeiro é um bello artista.

D. Margarida Costa Romão
D. Margarida
Costa Romão

Ha ainda Eduardo de Moura com um quadrinho muito interessante Um interior de um aido, onde o assumpto é estudado com cuidado, e pintado com saber, dando a confirmação de que este artista não é uma vulgaridade.

Mais alguns artistas ha na exposição, mas, para não desviar o espirito do leitor, nem lhe massar a paciencia, não me occuparei d'elles, nem dos seus trabalhos. Não é porque alguns não mereçam a minha attenção especial, mas, tenho que dedicar duas palavras a algumas senhoras artistas, e aos amadores, e se fosse a gastar muito tempo e espaço, pouco poderia dizer d'estes ultimos.

Quando entrei pela primeira vez na exposição, logo me saltou á vista um quadro de Camelias, que eu julguei ser do velho Costa o grande pintor de flores. Aproximei-me e com surpreza vi que não era d'elle, mas, sim de D. Margarida Costa Romão, uma nova que ao apparecer nos diz logo quanto vale. Mas, não admira, lá diz o dictado:—filho de peixe sabe nadar—e D. Margarida Costa é filha de um bello pintor, o Julio Costa. Pois esta senhora com os seus tres quadros dá-nos a impressão sincera de que se continuar, como principia, ha-de ser uma grande artista.

D. Alice Grillo Lima. Já muito nossa conhecida como uma verdadeira artista, tambem d'esta vez se nos apresenta com muita correcção e saber. São bons os seus dous quadros de camelias.

D. Sophia de Sousa, n'esta exposição vem desfazer uma desagradavel impressão que me tinha ficado d'uma exposição anterior. Agora, com pujança artistica, apresenta-me seis quadros, entre os quaes, com uma garridice soberba digna de nota, o seu Ao sol,

Ao Sol―Sophia de Sousa
Ao Sol—sophia de sousa

que é um trabalho largo, definido, cheio de luz, de côr, de transparencia. Uma paisagem e o Margens do Ave, são trabalhos dignos de menção.

Apparecem n'esta exposição alguns amadores entre elles, um com muitos quadros, o sr. Hugemin, que já em tempos fez uma exposição só sua, onde deu provas evidentes de que é um amador-artista de valor.

Entre as amadoras está a snr.a D. Maria Afflalo, que pela primeira vez expõe os seus trabalhos e que fazendo-o prova que tem muitas aptidões artisticas e é uma discipula que honra sobremaneira o seu professor José de Brito.

D. Leopoldina Pinto, com o seu quadro Flores e fructos, apresenta mais uma prova do seu saber pinturar.

D. Maria Afflalo
D. Maria Afflalo

D. Clotilde Rocha Peixoto, é uma discipula da Academia de Bellas Artes que se apresenta com um largo quadro inspirado na deliciosa poesia de Campoamor: