Sob a cruz pesada e feia
Da miseria que a consomme
Corre d'aldeia em aldeia,
Na Via-sacra da fome.
De aldeia em aldeia―Arthur Loureiro
De aldeia em aldeia—arthur
loureiro
É um soberbo trabalho, desenhado com cuidado e pintado
com amor. Uma velhita andrajosa atravessa um trecho
de paisagem, por um caminho encharcado. Que
correcção e
que luz, verdadeira obra prima que um grande mestre não
se envergonhará de assignar.
No pinhal. É um delicioso
estudo de pinheiros, graceis
e altos com a sua coma dum verde
foncé, que parece
sussurrar
com a aragem que passa.
Mar agitado. Agua deliciosamente
tratada e transparecendo
atravez d'ella a penedia que ella cobre. Luz deliciosa
de grande ar.
Vaga quebrada. É um
pequeno quadro em que uma vaga
se espadana como champanhe de encontro a um rochedo.
Com que vigor está pintada essa molle de agua, que n'um
desdobrar vertiginoso e bravo encontra um obstaculo e se desfaz
para o ar, como n'um grito de desespero!
Retrato de G. Nogueira. Este retrato
é um primor de
parecença e de trabalho. Loureiro poz n'elle um cuidado
especial
e amigo; é uma obra prima.
Nevogilde. Um trecho de paisagem
portuense, muito
sentida, muito nossa.
Padeira de Avintes. É um
delicioso estudo dos nossos
costumes populares. Modelo gracil e airoso como são todas as
nossas lavradeiras, correctamente desenhado, primorosamente
pintado.
Barcos. Um quadrito interessante,
onde ha dois barcos
que parece boiarem docemente nas aguas mansas do rio, sob
um ceu suave d'um azul transparente e bom.
Mais outros quadros ainda, todos elles confeccionados
com mestria; alguns estudos de desenho, cabeças
rigorosamente
estudadas nos seus claros-escuros.
E esta exposição não está a
abarrotar de exemplares,
mas toda ella comporta coisas lindas e boas.
Ao sahir d'ali, vem-se sob a impressão sincera de que
tudo aquillo é nosso, e muito nosso.
Vem-se tão bem disposto, que se fica com o desejo de
lá voltar muitas mais vezes.
Paisagem―Arthur Loureiro
Paisagem—arthur loureiro
Flora―Quadro de Arthur Loureiro
Flora—Quadro de arthur loureiro
IV
Mais uma visita ao Atelier de ARTHUR LOUREIRO
Eu já disse algures que Arthur Loureiro era um poeta
na pintura e hoje o repito aqui, no desprendimento
sincero de quem o admira pelo seu talento. Os seus
quadros são
bucolicas de
côr e de luz. Ha-os que são como deliciosos
sonetos camoneanos. Ha-os que são verdadeiros poemas.
As pequenas telas veridicamente portuguezas, com a sua
côr e a sua luz d'aldeia, são como cantigas de
namorados entre
os rumorejos do trabalho campestre.
Arthur Loureiro, talvez, porque viveu muito tempo
longe da sua patria, ao voltar, como que tentou, n'um largo
sentimento de amor patrio, desforrar-se d'aqui não ter
vivido
sempre. E n'uma subtileza ideal desenhou e pintou a grande
alma portugueza, desde a Torre dos Clerigos, até ao mais
escondido
recanto do Minho. A sua obra é como que o grito
sentido do filho prodigo que volta ao fim de muito tempo á
casa paterna. E que foi elle senão um filho prodigo da Arte,
que andou por terras estranhas a expandir o seu talento em
grandes manifestações, e que ao voltar, um pouco
abatido da
grande lucta, nos mostrou que, se
alguem o
julgava já um
estrangeiro, a sua alma pulsava no mais sublime enthusiasmo
por tudo o que é nosso, por tudo o que era portuguez, desde
as suas paisagens até aos seus homens.
E agora mais uma vez fallemos dos seus quadros, e dos
do seu discipulo.
Antes porém de entrar na enumeração
dos seus trabalhos
ahi vae uma opinião.
Na occasião em que eu visitava a
exposição entravam
ali um grande pintor portuguez (Souza Pinto), um grande
actor portuguez (Augusto Rosa), e um grande actor francez
(Coquelin Ainé). Pois estes três cavalheiros
insuspeitos para
todos, depois de larga apreciação aos trabalhos
expostos, quedaram-se
em frente d'um quadro que ha muito está no atelier
A Primavera, e Souza Pinto, esse
artista cujo nome resôa no
estrangeiro como um clarim de gloria nacional na arte de
pintura, disse que se admirava que aquelle quadro ainda não
tivesse sido adquirido para o muzeu nacional como um especimen
de boa pintura e de soberbo desenho.
Tambem eu teria soltado o meu brado de admiração,
se
não soubesse que o Estado e as Camaras não teem
dinheiro para
essas cousas, e só o teem para
festejos
balofos, para
comesainas
opiparas
Pinheiros―Arthur Loureiro
Pinheiros
arthur loureiro
e para
bolos rendosos aos
afilhados; para mais nada. A galeria
nacional de pintura no Porto
é talvez mais parca do que a
do mais pequeno amador. É uma
vergonha!!...
Adeante, que vamos gastando
muito tempo com considerações
philosophicas.
Pois os quadros expostos
de Loureiro, são 17 novos e uns
8 já vistos.
Dos antigos nada direi senão
que são soberbos, dos modernos,
d'esses alguma coisa mais
escreverei. Entre todos ha um
que me encanta profundamente.
É
O Pinhal!... Um dia
ouvi dizer
a alguem que o pinheiral era
um motivo que não dava nada
na pintura, pela sua fórma, pela
sua côr e pela sua uniformidade.
N'essa occasião, não me quiz manifestar,
eu não sou pintor e não
queria cahir em erro deante de
quem tinha obrigação de conhecer o assumpto
melhor do que
eu, mas, cá para mim mantinha a minha opinião
formada; o
pinheiro presta-se á pintura, a questão
é sabel-o desenhar e
pintar. E Loureiro com o seu quadro
Pinhal veiu completamente
preencher a minha modesta opinião. Alli, n'aquella
tela esguia, sob a correcção impeccavel de
desenho, erguem-se
uns pinheiros, que parecem balançar sob a pressão
do vento
que passa assobiando na sua ramaria.
A
Feira Nova—É uma
delicada
pochade verdadeiramente
caracteristica do que são as nossas feiras no Minho, sob
barracas de lona branca, que se prendem aos troncos das arvores,
com o borborinho de centos de lavradores e lavradeiras,
acotovelando-se na furia de serem os primeiros a vêr o que ha
alli para vender.
A
Carvalheira—Uma larga arvore de
folhas amarellecidas
que começam a cahir sob o ventinho frio do inverno;
é
deliciosamente estudada.
E a
Desfolhada, e a
Estrada do Gerez (sob a chuva), as
Alminhas e o
Caminho de Besteiros—e todos elles,
emfim,
como são tão verdadeiramente nossos,
tão sentidamente portuguezes,
verdadeiramente minhotos, nos seus verdes inconfundiveis,
na sua luz inimitavel.
Entre as tres
cabeças de
estudo, ha duas de uma velha,
que são um encanto. Traçadas na meticulosidade de
pormenores,
são feitas largamente com pulso de quem é um
verdadeiro
artista.
Além dos trabalhos do mestre, que são como sempre
magnificos, tomando uma das paredes do atelier, estão os
trabalhos
do discipulo, do snr. Manoel Maria Lucio Junior, que
ha unicamente um anno, estuda com Loureiro, desenho e
pintura.
Aos meus collegas da imprensa, como que tem passado
despercebido o trabalho d'este amador, que entra agora no
nosso meio artistico. Ora eu, que inegavelmente sou o mais
incompetente dos apreciadores dos quadros, sempre lhe quero
dispensar duas linhas.
Manuel Lucio é um rapaz da nossa fina sociedade, que
todos nós conhecemos como sendo um dos elegantes da nossa
terra.
Durante muito tempo julguei-o um
bon
vivant, dedicando
unicamente o seu espirito ao talho d'um
veston ou ao
feitio de uma gravata. Um dia, porém, entrando a visitar
Loureiro
no seu atelier-escóla encontrei lá este
cavalheiro dando
lição de desenho. Acabada a aula, Loureiro
mostrou-me trabalhos
de varios discipulos e abrindo uma arca artistica que
elle ali tem, tirou de dentro varios desenhos e
disse-me:—são
feitos pelo Lucio, é um rapaz de habilidade.—E de facto
os desenhos que elle apresentou, revelavam uma certa
disposição
para a Arte.
D. Adelia Ramos : Discipula de Arthur Loureiro
D. Adelia Ramos
Discipula de
Arthur Loureiro
Passaram-se tempos, o mestre foi
para fóra e ao voltar
encontrou-se em frente d'um discipulo
que lhe dá honra, porque Manuel Lucio,
dotado d'uma vontade de ferro em conhecer
o methodo de desenho e de pintura
tem trabalhado denodadamente e tem
conseguido com isso e com as bellas indicações
do professor o que muitos com idas
ao estrangeiro não tem conseguido.
Quatorze são os trabalhos expostos
por este intelligente discipulo de Loureiro.
Cinco trabalhos a oleo, cinco pasteis
e quatro desenhos a lapis.
Entre os desenhos notarei
O
Contador,
que é uma prova irrefutavel do modo
como elle interpretou as noções de perspectiva
indicadas; na pintura a oleo notarei
os
Cravos e um retalho de paisagem,
onde as côres e os
tons estão bem achados, resaltando os planos da chateza
vulgar,
propria dos estudos de amadores.
Aonde porém eu admiro a disposição
artistica de Manuel
Lucio é nos pasteis, especialisando uns
Effeitos d'agua,
um
Poente e um
Ceus
nublados.
Innegavelmente o discipulo dá honra ao mestre e o
mestre deve estar orgulhoso por ter achado, quem tão bem
tenha sabido comprehendel-o e tão sabiamente aproveite as
suas indicações. E recebam os dous, mestre e
discipulo a sincera
expressão do meu applauso.
1903 a 1904.
XIX
AMADORES PORTUENSES
MANUEL MARIA LUCIO JUNIOR
Discipulo de ARTHUR LOUREIRO
O Arthur Loureiro é um velho rapaz, pintor d'alma e
Manuel Lucio no Atelier de Arthur Loureiro
manuel lucio no
Atelier de arthur loureiro
coração, trabalhador infatigavel,
cavaqueador
ameno
e interessante,
amigo dedicado, e, acima de tudo
isto, professor
consciencioso
e sabedor.
Ora eu,
que gosto de
passar bem o
meu tempo,
vou muitas
vezes, e especialmente
aos domingos,
ao Palacio
de Crystal,
dar dous
dedos de cavaco
ao Arthur
Loureiro,
no seu delicado e interessante atelier. Appareço alli por
volta da hora e meia. É quando elle acaba de dar
lição ao
Manuel Lucio, que, quasi sempre, quando eu entro ainda lá
está dentro, com a sua
blouse vestida, paleta em punho,
dando
as ultimas pinceladas no modelo que copia.
Outro dia, copiava elle uma velha; quando entrei, estava
já limpando os seus pinceis e a paleta para se ir embora.
Nas faces de Arthur Loureiro pairava um alegre sorriso
de satisfação.
Que se teria passado de extraordinario para que elle estivesse
tão sorridente?!... Alguma boa nova da familia ausente,
ou grande bem estar na sua delicada saude?!... Talvez as
duas coisas juntas!? Quem sabe?...
—Esperemos os acontecimentos, disse eu commigo, avido,
no entretanto de conhecer o motivo d'aquella intima alegria.
O que fôr soará, pensei, porque o Loureiro com a
sua peculiar
franqueza, não occulta por muito tempo o motivo que
o faz estar assim satisfeito e alegre. E assim foi...
Mal o Lucio saiu, virou-se para mim e sem mais, disse-me,
indicando a porta por onde saira:—É um discipulo que
me ha-de dar honra, podes crer... Tem bastante
disposição e
é muito applicado... Ha-de dar muito se continuar assim, e
se
se convencer que isto de pintura não se aprende em dous
dias.
Queres vêr? E sem esperar resposta levantou o tampo
do seu divan-arca, saccou de lá de dentro uma pasta com
desenhos
e algumas pinturas a oleo, dizendo: são d'elle.
Eram de facto estudos que o Manuel Lucio tinha executado
em casa, longe das vistas do professor, mas sob a
orientação
e as lições que o Loureiro lhe dava, proficua e
sabiamente
aproveitadas.
Era especialmente por isso, porque tinha encontrado,
n'aquelles estudos que n'esse dia o discipulo trouxera á sua
apreciação, a boa vontade, a
applicação e a disposição
natural
de que elle era dotado, que Loureiro alegremente se sorria.
E elle tinha razão. Manuel Lucio, que eu tinha por um
exterior, um balofo, quando o via passar ostentosamente, as
suas sobrecasacas talhadas pelos ultimos figurinos, as suas
gravatas espaventosas e ricas, onde pousavam joias caras e
os seus chapeus altos sempre muito polidos e muito lustrados,
não era o que eu pensava.
Olhava-nos, parecia ter um ar sobranceiro de
enfant-gaté,
ou, como eu costumo dizer portuguesissimamente,
menino
bonito, e sentia-se por elle um quer que fosse, que
obrigava
a pôl-o, com uma certa reserva, na devida distancia a que se
põem sempre os infatuados, que não valem nada e
que julgam
ser verdadeiras notabilidades. Era um juizo errado aquelle
que eu fazia; reconheço agora que não o conhecia,
e nunca lhe
tinha encontrado nem podia encontrar predicados por que o
admirasse. Estava de sobre-aviso a seu respeito.
Marinha―Manuel Lucio
Marinha—manuel lucio
Hoje, porém, ponho de
parte essa opinião errada
que
d'elle fazia e isso porque
tendo acompanhado
com grande interesse
os estudos d'esse
discipulo, e o seu aproveitamento
n'aquella
risonha escola d'Arte,
que o bom Loureiro
tem no seu
interessante
atelier dos jardins
do Palacio de Crystal,
e como o reconheço digno
de ser notado entre
os amadores que
n'este momento ha pelo
Porto, vou dedicar-lhe
algumas palavras de incitamento, para que não
esmoreça
na empreza da Arte em que o seu bom gosto e as suas
disposições
artisticas o metteram. Não pense, porém, Manuel
Lucio
que eu vou incensal-o louvaminheiramente; não, vou
rapidamente
em duas leves pennadas dedicar-lhe algumas palavras
de elogio merecido e sincero.
Para isso, soccorro-me de alguns informes que Loureiro
me deu e fallaremos os dous conjunctamente, eu pelo que tenho
visto nas minhas visitas ao atelier-escola, e especialmente
na ultima exposição de trabalhos de discipulos,
elle pelo que
tem apurado do estudo que o discipulo tem feito e de como
tem recebido salutarmente as suas sabias lições.
Comecemos
pois.
Um dia, Arthur Loureiro que tinha aberto ao publico
a sua escola de pintura para senhoras, confiado no bom gosto
que ultimamente se estava desenvolvendo entre as
madames
para esta manifestação de Arte, viu entrar-lhe
pela porta dentro
este rapaz chic, que perguntava se elle quereria dar-lhe
algumas lições de pintura. Loureiro
immediatamente se promptificou
a isso, mas sob condição que elle
deveria começar
por onde todos devem começar, pelos rudimentos de desenho.
Só n'essas condições o poderia
acceitar como discipulo.
Accedeu o nosso amador immediatamente, pois farto
estava elle de saber que o pouco que tinha estudado com um
soi disant de nada lhe valia e logo
combinaram dar breve inicio
aos seus trabalhos.
Ao principiar estas lições, Manuel Lucio, vinha
cheio de
uma inegualavel boa vontade, um honroso desejo de vir a ser
na pintura, alguma coisa mais, do que as habituaes vulgaridades,
e por isso, pondo completamente de parte as
noções que
recebera de um insignificante professor, que d'isso só tinha
o
nome, pois emquanto ao resto era d'uma nullidade completa,
todo elle se dedicou a estudar e a cumprir as
instrucções que
Arthur Loureiro lhe ia dando.
E assim, foi desenhar, desde os primeiros rudimentos até
á perspectiva, e isto por longas
lições, sem nunca dar mostras
de cançaço ou aborrecimento, pelo contrario
sempre cheio
d'um grande prazer em traçar firme e rapidamente o contorno
e o claro-escuro dos objectos que copiava.
E ainda hoje continua e affincadamente, desenhando todos
os dias, mesmo a fóra dos esboços que fez para os
seus
quadros.
Depois de ter desenhado muito a lapis e a carvão, copiando
gessos e modelos, entrou então no desenho a côres,
(pastel) e fez a paisagem e a figura, isto tudo do natural, e fel-o
com uma tal garridice e um tal desenvolvimento que os seus
trabalhos mereceram os applausos, não só do seu
professor,
mas da critica conscienciosa e honesta de alguns entendidos.
Após isto passou a pintar a oleo, no atelier, e sob a vista
e a conceituosa informação de Loureiro,
lançou á tela flores
que estudou em todas as suas minudencias, sem comtudo fazer
dos seus trabalhos, rendilhados e lambidos quadros.
Não, Manuel Lucio, estudou as flores desenhando-as e
colorindo-as depois nos tons e nos valores que ellas deviam ter.
E emquanto no atelier-escola pintava flores sob a vista
do professor, lá por fora, sósinho, apenas com as
sabias noções
recebidas tentava a paisagem a oleo.
Eram estas algumas das que Loureiro me mostrava, e
de que eu vos dou umas gravuras.
Vieram em seguida os estudos a oleo de gessos, feitos
com muita consciencia e extraordinaria proficiencia, e hoje
estuda valentemente, como um verdadeiro amador de talento,
o modelo vivo, e ainda ha pouco n'uma exposição
de alumnos
que Loureiro promoveu no seu atelier, elle lá estava com 19
trabalhos a oleo entre os quaes alguns havia que eram verdadeiramente
maravilhosos de côr, de luz e de verdade, e 9 desenhos,
provas irrefutaveis de quanto elle trabalha e do bem
como trabalha.
Mas Manuel Lucio não é só um amador de
pintura consciencioso,
é tambem um burilador de litteratura
hors
ligne e um
entendedor de coisas d'Arte. Deve-se á sua pessoa o prefacio
do Catalogo da 1.ª Exposição de Alumnos
no
Atelier-Escola.
N'esse prologo o nosso perfilado discorre sabiamente sobre as
vantagens de desenhar perfeitamente para bem pintar. São
uma serie de considerações bem feitas e
profundamente estudadas,
que dão a verdadeira orientação do seu
modo de pensar
e proceder n'este genero de
sport
artistico em que se
metteu.
Depois, como tem muita leitura d'Arte, elle reune a um
bello amador, um cavaqueador agradavel e um conhecedor
cheio de saber.
Ahi fica em rapidas linhas o que eu posso dizer do discipulo
de Arthur Loureiro, o bello discipulo que faz honra ao
professor.
1904.
Barra, Foz do Douro―Manuel Lucio
Barra, Foz do Douro—manuel lucio
XX
UMA EXPOSIÇÃO DE QUADROS
do Instituto de Estudos e Conferencias
No louvavel intento de desenvolver a Arte de pintura
entre nós, o Instituto de Estudos e Conferencias,
realisou no pateo da Misericordia mais uma outra
exposição. É pois d'este certamen
artistico que me vou occupar
n'este rapido artigo.
Sousa Pinto
Sousa Pinto
Fui
lá, quando a exposição era vedada
ao publico. Unicamente
ali tinham entrada os socios do
Instituto e os delegados da imprensa, e
por isso muito á vontade me demorei
por lá umas duas horas a analysar.
Só o quadro de Sousa Pinto me
reteve boa parte do tempo. Que aquillo
é, para mim, o que se chama o requinte
da perfeição.
Não abalançarei opinião sobre tal
trabalho, porque me julgo infinitamente
pequeno para discutir obra tão magistral.
Sousa Pinto, tem o seu nome feito,
nome glorioso que se impõe lá fóra,
nos grandes centros artisticos,
como o
Salon, onde os seus quadros
são recebidos
com toda a consideração e premiados com as
melhores recompensas.
E a critica sabia e correcta dos grandes analystas da
Arte, essa critica que é indomavel como a
justiça, tem dito
que elle é um grande, um superior pintor. Gloriosa coisa
é por
isso, para nós, podermos admirar hoje na nossa
despretenciosa
exposição um trabalho de tão
requintada perfeição como o
Ferreiro de Sousa Pinto. Portanto,
antes de entrar na enumeração
dos trabalhos expostos, consinta a direcção do
Instituto
de Estudos e Conferencias que a felicite por ter, como vulgarmente
se diz, mettido esta lança em Africa; porque Sousa
Pinto não quer sujeitar-se á critica portugueza,
e n'estas condições
foge de apparecer nas nossas exposições.
Mas não nos demoremos mais, sigamos para diante, que
eu vim para lhe fallar do conjuncto da Exposição,
e não só de
um artista.
José de Brito no seu atelier
josé de brito no seu atelier
Aberto pois o catalogo acha-se inscripto como n.º 1 o
snr. Almeida e Silva, que desta vez me convence de que é
um artista. Eu estava mal impressionado com elle, os seus
trabalhos, talvez por muita meticulosidade de acabamento e
pelo recortado das figuras e dos assumptos, tinham o quer
que fosse de oleographico. Mas, n'esta exposição,
elle vem
mais pujante de execução, mais artista. E em
qualquer dos
generos em que se apresenta mostra aptidões definidas. Entre
esses trabalhos destacarei:
O Rio Pavia no
Outomno,
Manhã
d'Outubro,
Veterano de
Ormuz,
Tranquillidade,
Retrato do
snr. D. Diogo d'Almeida (Reriz). Ha mais alguns
quadros, mas
esses são inferiores.
Crepusculo Matutino―Candido da Cunha
Crepusculo Matutino—candido
da cunha
Segue-o José de Brito, com dous retratos a oleo de que
não gosto nada. No entanto noto o
Retrato
de Antonio Ramos
Pinto, a pastel, que é muito bem feito, e
as aquarellas, que
apresenta são todas bem tocadas, especialmente umas tres que
são um primor de execução.
As Margens do Leça, (2
quadros),
Caminho de Nevogilde e
Villarinha, especialmente.
Abel Cardoso, com quatro quadros, dos quaes destacarei
o
Tapada. Ha uma portinha vermelha a
destacar na linha
do muro da quinta, que dá uma nota interessante. O retrato
do militar esse, meu Deus, é phantastico.
Candido da Cunha. Sempre o sentimental artista que
desde sempre conheci. Tem tres quadros, qual d'elles o mais
bem feito, sempre com um ar nostalgico do pôr do sol,
que elle tão distinctamente pinta.
O
Crepusculo Matutino é
um delicioso encanto.
Paisagem―Marques d'Oliveira
Paisagem—Marques d'Oliveira
D.
Alice Grillo, tem tres quadros, um de
Flores, outro
de
Rosas e fructos, e um
Estudo de velha. Para mim os dous
primeiros
são superiores.
As laranjas
são bem pintadas,
de bella côr
e as rosas e os
amores perfeitos,
são lindamente
tocados, d'uma
grande frescura.
Marques d'Oliveira.
Eis um nome
que se impõe
e que sempre que
se apresenta nos
deixa convencidos
de que é um
talentosissimo artista. Nos seus quadros, ha um certo quê que
demonstra a technica superior d'este mestre de pintura. E
embora alguns criticos queiram abocanhar o nome feito d'este
artista, elle supplanta toda essa inveja, que outra cousa
não
era o que eu ouvi dizer d'elle. Dos quadros expostos, pincelados
de uma fórma correcta e distincta, destacarei o
Rua de
Agueda,
Effeito da
tarde (Agueda),
Cães da
Ribeira,
Espinho,
Effeito da tarde (Espinho), o que
quer dizer que são todos.
Guardando vaccas―Eduardo Moura
Guardando vaccas—eduardo moura
D.
Julia
Molarinho. É
pintora da nova
ala que vae
dando a nota
do seu merecimento.
Os
seus quadros
Cabeça de preto,
Cabeça de
rapaz,
Poente
e
Pochade, são
bem feitos, especialmente
os dous primeiros. Tem mais quadros, que não
me prenderam a attenção.
Eduardo Moura. Apresenta-se com um só quadro, se
bem que pelas suas aptidões deveria ter exposto mais.
É um
trabalho bem feito, digno de ser admirado.
Thomaz de Moura. Com uma
Cabecita de
rapariga regularmente
executada. Ha tambem muito de monotono no
fundo, um azul indefinido.
D. Leopoldina Pinto. Tres quadros de
Flores e
fructos.
Tem um quadro de
Geranios que
está bem tocado, d'uma certa
frescura. Esta senhora é especialista n'esta qualidade de
flores.
Já n'outra exposição apresentou um
quadro de geranios
que era um assombro de perfeição. Os crysanthemos
esses não
são bons. No quadro
Fructos, ha umas uvas bem tratadas,
com
bastante transparencia.
Arthur Prat. É um pintor de côres retumbantes. Os
seus quadros são como fanfarras de luz. Gosto d'elles porque
me dão muito bem a nota estridula e alegre dos campos do
sul. Apresenta dez quadros, alguns d'elles regularmente feitos
e regularmente estudados.
Julio Ramos. Esse paisagista que tanto nos tem encantado
com os seus quadros, apresenta-se tambem d'esta vez
com muita distincção, se bem que me
não prenda a attenção,
como d'outras vezes que tem exposto.
Carlos Reis. Ora aqui está um pintor que é para
mim
um genial artista. Seguidor dos moldes de Silva Porto, apresenta-se
n'esta exposição com
cinco quadros que são uma maravilha.
Julio Ramos no seu atelier
julio ramos no seu
atelier
O
Idilio, é uma pintura
deslumbrante.
O retrato de
minha mãe, é tambem um superior
trabalho, feito com toda
a correcção, d'um verdadeiro
mestre.
Augusto Ribeiro, nos
seus quadrinhos
mignons apresenta-se
admiravelmente—até
nem parece o artista de outros
tempos. Agora mais socegado,
mais accentuado, fez-nos a pintura
do nosso Minho em paginas d'album, mas muito bem
feitas.
João Augusto Ribeiro. Com um quadro só, um
Estudo
de velho, primoroso de desenho e de côr,
flagrante de verdade.
Torquato Pinheiro
Torquato Pinheiro
D. Aurelia de Sousa. Dous
trabalhos
a oleo de que não gosto e um
pastel—
N'um jardim antigo, que
está
muito bem executado.
D. Sophia de Sousa. Apresenta
quatro quadros, dos quaes destacarei
como mais digno de menção a
Paisagem.
É uma verdadeira artista.
Julio Teixeira Bastos. Seis telas
expostas. Destaco
O Melro, como
sendo
a que mais impressão me fez.
Torquato Pinheiro. É com toda
a correcção que se nos apresenta, n'este
certamen, este conceituado artista.
Dos seis quadros expostos notarei como
melhores os seguintes:—
Tarde no
Corgo, correctissimo,
Rua da
Pedreira
e
Crepusculo.
João Vaz. O superior pintor de marinhas, vem á
exposição
com tres quadros que são um encanto, especialisando a
Barra de Lisboa onde a agua
é tratada d'um modo irreprehensivel.—
Barracas
de
Pescadores,
tambem muito bem feito. O
outro—
Margens do Sado, tem para mim
uma nota que o torna
desagradavel: é uma serie de piteiras que dão ao
quadro
um quê de bordado a missanga.
Eurico Ricardo Jorge. Apparece pela primeira vez em
publico e apresenta-se muito bem com o seu estudo a
pastel—
Cabeça
de velho.
José David. Tem algumas aguarellas que estão bem
manchadas.
E nada mais porque já vae muito longe este artigo.
Retrato de Bernardino Reaes―Torquato Pinheiro
Retrato de Bernardino Reaes
torquato pinheiro
XXI
Uma Exposição de Carneiro Junior
No Pateo da Misericordia
A Exposição Carneiro Junior é mais
uma confirmação
do talento de quem a organisa. Esse bello rapaz,
desde a primeira vez que com elle fallei logo
conquistou em extremo a minha simpathia.
Alma de poeta epico, idealisando sempre, n'um desejo
fremente de ser grande, quadros que prendam e enthusiasmem
quem os vê.
D'esta vez, no seu grande quadro, mais humano e mais
terreno, deve ter sido melhor comprehendido pelo publico que
tem visitado a exposição.
Assumpto de molde a prender bem a alma de todos os
que ainda tem um pouco d'amor á sua patria, é o
seu quadro
uma pagina flagrante de verdade e de movimento, arrancada
á Historia de Portugal. Figuras talhadas em moldes
verdadeiramente
portuguezes, agrupadas flagrantemente em posturas
naturaes, o seu quadro é, innegavelmente, uma bella obra.
A figura altiva, mas sem arrogancia, do hespanhol vencido
que recebe uma corôa de flores para collocar no punho
da espada, como para dizer que não a elle mas sim a ella se
deve qualquer gloria obtida, é bem estudada; e o portuguez,
que respeitosamente offerece como galharda dadiva de simpathia
a mesma corôa, é de soberba
concepção. Era primeira
intenção do artista dar outra
orientação a estas duas figuras,
mas fez bem em ter resolvido assim o problema. A fidalguia da
guerreira Hespanha não podia tomar
posição humilde deante
d'um portuguez illustre e valoroso que tinha a gentileza de
offerecer-lhe uma capella de flores, que mãos delicadas de
mulher
tinham composto.
Entrega de Evora―Quadro de Antonio Carneiro Junior
Entrega de Evora—Quadro de antonio
carneiro junior
Ha no quadro figuras flagrantes de verdade. Os frades
dão-nos a impressão serafica d'homens que, entre
o latim e o
repasto, não quizeram tambem fugir á
manifestação imponente
que o povo fazia ao guerreiro vencedor.
Os cavallos estão bem estudados especialmente o que
tem a garupa virada ao espectador, cujo tom de côr
dá o verdadeiro
avelulado sedozo de um alazão fogoso e bem tratado.
A neblina que se percebe por entre a porta em arco da
cidade, no seu tom cinzento violaceo tem perfeitamente o tom
do amanhecer dos dias lindos do Alemtejo.
Este quadro, destina-se a ornamentar a escadaria do
sumptuoso palacio do snr. Barahona, d'Evora, um dos homens
que mais tem acompanhado e protegido a Arte nacional.
Destacam-se para mim depois, n'esta exposição, os
retratos.
Ha-os flagrantissimos de verdade taes como o do
Dr.
João Novaes, e do
Antonio
Cruz, esse velho rapaz que conheci
tal qual desde os tempos idos do
Jornal da
Manhã. O retrato
do auctor n'uma postura scismadora e triste, verdadeiro estudo
psycologico da sua individualidade; é soberbo. A figura
distincta e airosa da esposa do seu amigo Alberto d'Oliveira,
executada á noute sob a luz viva d'um largo candieiro de
petroleo,
é adoravel de côr e de
execução.
No
Retrato da Ex.ma Snr.a
D. Emilia de
Carvalho, executado
com primor e cuidado, ha um ar de ingenuidade deliciosa
e amiga que nos prende. A cabecita da pequenina Rachel,
com os seus olhitos vivos e o seu ar risonho, dá-nos a
tentação de um beijo todo amor, todo candura.
Notei na facção de todos os retratos um
quê do genio de
Columbano, mas um quê bom, sem aquella psychologia profunda
e doentia que o mestre dá ás suas
composições. Carneiro
Junior é a meu vêr mais humano, mais positivo.
Da paisagem destacarei para aqui, como tendo-me dado
mais viva impressão as seguintes:
Rio
Tamega (Amarante),
Crepusculo na montanha,
Leça (estudo),
No bosque (impressão),
O mar,
Um
poente e
Rua do
Bomfim (tarde de chuva), os quaes
são flagrantes de luz e de tom.
O
mar, com o seu fundo em iris
avermelhado é bello e a
Rua do
Bomfim, em tarde de chuva,
na sua meia nevoa, é deliciosa.
Os desenhos para o estudo do grande quadro são magnificos
de correcção e de justeza.
Baixo relevo (Bronze)―Antonio Teixeira Lopes
Baixo relevo (Bronze)
antonio
teixeira lopes
Cabeças
estudadas do natural,
nas suas linhas definidas, são primores de quem sabe e
muito da, para mim
difficilima, arte de
desenhar.
Ha na exposição
uma coisa que
me encanta sobre
todas as outras: são
as cabecitas dos filhos
do pintor, desenhadas
a sanguinea.
Não sei se por
ser essa a minha
côr predilecta, se
pelo bem executado
d'ellas. Naturalmente
por ambas
as circumstancias. São retalhos da alma d'esse poeta pintor
que elle copia com um carinho desusado. Já na sua outra
exposição
um dos quadros que mais me enthusiasmou pelo amor
e cuidado com que estava feito foi o retrato da esposa do artista,
aquelle que tinha uma grande abada de flores. Isto confirma
o que eu penso do homem, um
menager
todo conforto e
carinho. Ponto, porém, que eu não estou aqui a
fazer o retrato
psychologico do artista, mas sómente a resenha dos seus
quadros;
mais nada.
A Procissão―Candido da Cunha
A Procissão—candido
da cunha
Fechando,
vou fallar do
esquisso final para o seu quadro
grande.
Elle chama-lhe um esquisso
definitivo, eu chamo-lhe
um quadro completo. Gosto
d'elle tanto ou mais do que do
grande. Se me permitte, chamar-lhe-hei
a miniatura do trabalho
que é o
clou da
exposição.
Que Carneiro Junior desculpe
este deslizar de cousas a
respeito do seu talento artistico
e da sua exposição.
E, a proposito d'esta e outras
exposições, não será mau
repetir que o meu fim não é
outro senão vêr se se obriga
o publico a interessar-se um
pouco mais por o nosso meio
artistico. Conheci alguns homens cheios de dinheiro e com
pretenções a ter bom gosto, que nunca na sua vida
gastaram
dez tostões, que fosse, em uma pintura, a não ser
na pintura
obrigatoria das portas e das janellas da sua casa. Têm,
quando
muito oleographias ricamente encaixilhadas nas suas salas de
receber.
Pois é preciso que esses homens que podem, venham
ás
exposições, puchem pelos cordões
á bolsa, comprem quadros
aos artistas que levam uma vida de trabalho e de estudo para
nos darem com palpitações flagrantes os retratos
que executam,
e com vibrações de luz e de côr as
paisagens que retalham
da grande Mãe Natureza para telas, que poderemos ter
no nosso quarto de trabalho, recordando-nos pedaços da nossa
querida terra, tão bella de paisagens, tão
deslumbrante de sol.
XXII
Notas ligeiras d'uma Exposição
Maio é o mez das flores, dos poetas e dos artistas. E
a comprovar o meu dizer lá se abriu n'este mez
das graças e das bençãos, a
5.ª
Exposição de Bellas-Artes,
que a prestante aggremiação Instituto
de Estudos e Conferencias, com o seu grande empenho de vulgarisar
entre nós o gosto pela Arte, promoveu.
D. Lucilia Aranha Grave
D. Lucilia Aranha Grave
Como simples
informador d'um limitado publico lá
fui n'essa romagem artistica no primeiro
dia, mas, porque me vi rodeado
por todos os pintores portuenses, não
me atirei a tomar notas, nem a esmiuçar
detalhadamente tudo aquillo.
Dois dedos de conversa a este,
mais dous áquelle, ouvindo opiniões
que passavam no ar, n'um quasi sussurro
de confidencias, não podia o meu
espirito socegadamente fazer a apreciação
sentidamente minha, que eu
queria fazer. Depois, eu tenho a veleidade
de ter opinião, de pensar só... e
não fazer como muitos que se deixam
ir na correnteza do que lhe dizem os
espiritos santos de orelha.
Eu vou sempre umas tres ou quatro vezes ás
exposições
d'arte, e fico burguezmente, como um bom mercieiro, estatico
deante de todos os quadros... em alguns como n'uma
adoração
pelo bem executado, n'outros como n'um pasmo, do arrojo
da concepção e n'outros então,
assombrado, fulminado, ante
a imbecilidade com que elles são feitos. E depois,
serenamente,
sem
pretenções, nem vaidades, com a franqueza com
que fallaria
a um conhecido de ha muito, venho dizer ao publico a
impressão que tive.
Paisagem―Aurelia de Sousa
Paisagem—aurelia de sousa
Não
levo a minha franqueza ao ponto de ser descortez
com os artistas
que conheço,
nem a incensar
bajuladoramente
aquelles
de quem sou
amigo: não...
sou um
critico
moderado...
sem
coterie, e
honestamente
independente.
O
vernisage
(eu estou
muito visto em
termos francezes,
não
acham?) esteve este anno, como em poucos, animado de artistas...
O
salon tinha um quer que era de
superior. Os artistas
tinham-se dado ali
rendez-vous...
Aos grillos―Julio Ramos
Aos grillos—julio ramos
Uma coisa faltava para dar
a nota
chic, e fina... eram
os rostosinhos galantes d'algumas
das nossas damas. Se
ellas tem apparecido, poderia
dizer n'este artigo com
aquelle
meu gesto á Augusto Rosa,
que o outro me encontrou, que
a abertura da Exposição tinha
estado muito curiosa, muito
becarre.
Faltaram porém essas
notas estridulas de garridice
das senhoras, mas, em compensação
appareceram por lá magnificos tipos
caricaturaes e
grotescos!... Se até eu
estive lá!!!...
Agradou-me á primeira vista o conjuncto do
certamen,
se bem que de visita mais demorada, como a que em outra
vez fiz, não trouxe de lá a mesma
impressão.
Ahi está, se eu tivesse feito de afogadilho este artigo
teria dito que a exposição era geralmente boa, e
agora não,
não seria tão pessimista. Recortarei pois do
catalogo alguns
nomes como os de mais destaque.
Em primeiro logar, e affirmando cada vez mais a caracteristica
de um primoroso paisagista, Marques de Oliveira,
com as suas trese telas de paisagem e marinha, e ainda como
affirmativa de que elle toca com o mesmo saber a nota da figura,
uma primorosa
Cabeça de
velha, tão finamente tratada,
tão cuidadosamente desenhada e collorida que me maravilhou.
A seguir vem Candido da Cunha, esse delicioso poeta
nostalgico de pintura, que me suggestiona com os seus quadros,
poentes deliciosos, onde parece que, atravez d'uma doce
tonalidade de aldeia, se ouve o religioso toque das
Avè-Marias.
É Candido da Cunha um d'estes pintores que ao serem vistos
uma vez nos seus trabalhos, deixam ficar na nossa retentiva
o seu modo especial de pintar, para nunca mais se esquecer,
tal é o seu sentimento.
Paisagem―Candido da Cunha
Paisagem—candido da cunha
Torquato
Pinheiro tambem se nos apresenta bem, com
uns nove quadros,
que a
não ser aquelle
seu tom
gris-violete,
tão seu, tão
peculiar, me
fariam uma
mais larga
impressão.
Destacarei
porém as
Lavadeiras
na
levada,
Á vista
do Marão,
Sol de tarde e
Fim de tarde (Real, Porto).
Julio Ramos, tambem nos dá quadros que demonstram
o seu saber, especialmente o
Fim da
tarde, que é, a meu vêr,
um explendido trabalho.
José de Brito vem á
exposição com dous retratos a oleo,
um pastel e algumas aguarellas. Dos retratos a oleo notei
como bem executado especialmente o de
D. Margarida G.
Oliveira.
Lavadeiras na levada―Torquato Pinheiro
Lavadeiras na levada—torquato
pinheiro
O seu pastel—
Retrato do
conselheiro Avides, é um
bello trabalho.
Este artista é
para mim um
dos melhores
desenhistas a
pastel. As suas
aguarellas são
bem feitas,
muito bem feitas.
João Augusto
Ribeiro.—Esse
bello
artista que conheci
como um
dos bons, vem
á exposição com seis quadros.
Destacarei
O Estudo (de troncos),
Depois da chuva,
A
Madrugada, que me parecem affirmar
d'uma maneira categorica que Ribeiro
é um bello artista.
D. Margarida Costa Romão
D. Margarida
Costa Romão
Ha ainda Eduardo de Moura com
um quadrinho muito interessante
Um
interior de um aido, onde o assumpto é
estudado com cuidado, e pintado com
saber, dando a confirmação de que este
artista não é uma vulgaridade.
Mais alguns artistas ha na exposição,
mas, para não desviar o espirito
do leitor, nem lhe massar a paciencia,
não me occuparei d'elles, nem dos seus
trabalhos. Não é porque alguns não
mereçam a minha attenção especial,
mas, tenho que dedicar duas palavras
a algumas senhoras artistas, e aos amadores, e se fosse a gastar
muito tempo e espaço, pouco poderia dizer d'estes ultimos.
Quando entrei pela primeira vez na exposição,
logo me
saltou á vista um quadro de
Camelias, que eu julguei ser do
velho Costa o grande pintor de flores. Aproximei-me e com
surpreza vi que não era d'elle, mas, sim de D. Margarida
Costa
Romão, uma nova que ao apparecer nos diz logo quanto vale.
Mas, não admira, lá diz o dictado:—filho de
peixe sabe
nadar—e D. Margarida Costa é filha de um bello pintor, o
Julio
Costa. Pois esta senhora com os seus tres quadros dá-nos
a impressão sincera de que se continuar, como principia,
ha-de
ser uma grande artista.
D. Alice Grillo Lima. Já muito nossa conhecida como
uma verdadeira artista, tambem d'esta vez se nos apresenta
com muita correcção e saber. São bons
os seus dous quadros
de camelias.
D. Sophia de Sousa, n'esta exposição vem desfazer
uma
desagradavel impressão que me tinha ficado d'uma
exposição
anterior.
Agora, com pujança artistica, apresenta-me seis
quadros,
entre os quaes, com uma garridice soberba digna de nota,
o seu
Ao sol,
Ao Sol―Sophia de Sousa
Ao Sol—sophia de sousa
que é um
trabalho largo, definido, cheio de luz,
de côr, de transparencia.
Uma
paisagem e o
Margens do
Ave,
são trabalhos
dignos de
menção.
Apparecem
n'esta exposição
alguns
amadores
entre elles,
um com muitos
quadros, o
sr. Hugemin,
que já em
tempos fez
uma exposição
só sua, onde
deu provas
evidentes de
que é um amador-artista
de valor.
Entre as amadoras está a snr.
a D.
Maria Afflalo, que
pela primeira vez expõe os seus trabalhos e que fazendo-o
prova que tem muitas aptidões artisticas e é uma
discipula
que honra sobremaneira o seu professor José de Brito.
D. Leopoldina Pinto, com o seu quadro
Flores e
fructos,
apresenta mais uma prova do seu saber pinturar.
D. Maria Afflalo
D. Maria Afflalo
D. Clotilde Rocha Peixoto,
é uma discipula da Academia
de Bellas Artes que se apresenta com um largo quadro
inspirado na deliciosa poesia de Campoamor: