Quién supiera
escribir!
É um amplo trabalho executado
visivelmente com muita e muita proficiencia.
Ha uma das figuras (o padre)
que está traçado com
correcção e muita
propridade.
Poderei affirmar que esta amadora
é uma das novas que mais firmemente
demonstra que ha-de ser uma bella artista.
Ainda figuram na exposição mais
algumas senhoras, taes como: Viscondessa
de Sistello, Condessa de Alto Mearim, D. Maria Alto
Mearim, D. Beatriz Alto Mearim.
A condessa de Alto Mearim confirma de um modo justificado
o seu talento
hors ligne na
confecção
do bello quadro
Poveretta.
José Romão Junior
José Romão Junior
D. Beatriz Alto Mearim, apparece
com o seu estudo a pastel; tambem lhe
não fica a dever nada. É este seu trabalho
uma prova incontestavel do seu
muito merito artistico.
D. Maria Luiza Alto Mearim apresenta
duas cabecinhas interessantes e
regularmente bem feitas.
Viscondessa de Sistello, com tres
paisagens feitas com conhecimento de
Arte, especialmente uma, que é bellamente
feita.
Ha na exposição dois trabalhos de
esculptura, um de Fernandes de Sá,
Rapto de
Ganymedes, outro
de José Romão Junior,
Cabeça de estudo.
A respeito do primeiro artista já eu disse atraz n'um
desenvolvido artigo, o que pensava d'elle. Successor indiscutivel
de Teixeira Lopes, é um bellissimo talento.
Do segundo, Romão Junior, é a primeira vez que
vejo
trabalhos seus, e confesso que a
Cabeça de
velho que apresenta,
me dá uma magnifica impressão.
Poveretta―Condessa de Alto Mearim
Poveretta—Condessa de
alto mearim
A figura lançada com
largueza tem
magnificos requisitos. É uma
demonstração
evidente de que Romão
Junior maneja o cinzel e o escopro
com proficiencia. Um novo de talento
que, de futuro, ha-de continuar
a affirmar que a raça dos esculptores
portuenses é das de primeira
ordem.
Na secção aguarella só figuram
os nomes de dois concorrentes
José de Brito, de quem atraz já
fallei e D. Isabel Lauer.
Esta ultima com dois quadrinhos
de figuras. Para mim não me
desagrada o operario, se bem que
nenhum d'elles por completo me
prenda muito a attenção. Bastante
amaneirados e muito exquisitos.
Com desenho a pastel apparecem
tambem só dois concorrentes: José de Brito,
artista consumado
n'este genero, e D. Beatriz Alto Mearim.
Falta fallar de duas secções, ainda: desenho a
claro-escuro
e arte applicada. Na primeira das secções ha um
trabalho
delicioso de Torquato Pinheiro, um fino desenho do
Convento
de Santa Clara de Villa do Conde, trabalho impeccavel
de correcção e firmeza.
Luiz Bastos, traz-nos retalhos d'essa linda Coimbra a
cidade dos Bachareis, apanhados em estudos varios do Choupal,
do Rio Mondego, de Santo Antonio dos Olivaes, etc. Alguns
feitos com mestria.
Na arte applicada, Jorge Collaço, o distincto caricaturista
do
Supplemento de O Seculo. Os seus
azulejos são interessantes
e dignos de nota, especialisando o grande quadro
Reviravolta, estudado com interesse
e executado com cuidado.
E eis, meu amigo publico, a impressão sincera de quem
viu a exposição com a independencia
caracteristica do seu
pensar e com a antecipada disposição de
não regatear merecimentos
a quem os tivesse, nem adular aquelles que, sendo
mediocres, aspiram á enfatuada bazofia de serem notaveis.
Sinceridade
e nada mais.
É provavel que os
verdadeiros entendedores
não pensem
como eu, mas lá diz o dictado:—que seria, do amarello se
não houvesse mau gosto.
Deveria fechar já aqui a minha
informação mas vejo lá
expostos uns azulejos,
panneaux,
etc., que se desculpam por
serem o reclame de uma fabrica de Ceramica, porque, se tem
sido apresentados como trabalhos artisticos, então deveriam
ser exautorados rigorosamente.
E adeus, que não tenho tempo para mais, nem sei mesmo
se alguem terá coragem de ler isto até ao fim.
Barcos de pesca―Julio Ramos
Barcos de pesca—julio ramos
XXIII
AMADORES PORTUENSES
ALBERTO AYRES DE GOUVEIA
Discipulo de MARQUES DE OLIVEIRA
Este meu biographado não é precisamente um
amador;
poderia, sem receio ele ser contraditado, e sem medo
de errar, incluil-o francamente no numero dos nossos
mais distinctos pintores, e isso porque os seus trabalhos artisticos
são de molde a dar-lhe esse fôro.
Alberto Ayres de Gouveia
Alberto Ayres de Gouveia
Alegro-me ao escrever este artigo,
e alegro-me porque
é sempre com consolo que me refiro
áquelles que, possuidores de algum valor,
se não deixam adormecer á sombra
ele alguns louros colhidos na paz doce
da mandria, antes tentam a mais e mais
fixar as suas aptidões, n'um trabalho serio
e proveitoso.
E, Alberto Ayres tem feito isto.
Desde que se emprehendeu a pintar
tem trabalhado com afinco e muitissimo
proveito.
Conhecia de ha muito este rapaz, que, pela sua avultada
fortuna, pelas relações de familia, e por viver
na alta roda,
onde se dava o prazer de ser um dos eleitos, eu tinha na conta
de um excellente cavalheiro, um fino homem de sala, cavaqueador
com espirito e mais nada!
Mas, enganei-me redondamente, o que não é para
admirar,
porque acontece a muito boa gente.
O meu biographado era tudo aquillo e ainda mais alguma
coisa:—um amador
enragé
da pintura.
Como soube eu isto e como tive emfim a
confirmação
do seu merecimento artistico? Vou tentar dizel-o em poucas
palavras.
Nas noites frias de inverno temos por costume reunirmo-nos
alguns amigos em cavaqueira alegre e discutimos
n'essas occasiões muitissimas coisas, problemas d'Arte,
mundanismo,
casos alegres do dia, philosophando de vez em quando
sobre politica, litteratura, celebridades, theatros, etc., etc.
Não é um cenaculo, nem uma academia, é
um
cercle algo espiritual,
onde a alegria tem especialmente o seu logar.
Pois n'uma d'essas cavaqueiras abordou-se o assumpto
pintores e amadores, e entre outros nomes veiu á tela da
discussão
o nome de Alberto Ayres de Gouveia, que um dos circunstantes
conhecia perfeitamente.
Elogiou-o, fez a historia da sua aprendizagem d'Arte e
eu fiquei como se costuma dizer com a
pedra no
sapato e, como
observador que sou, tratei immediatamente de me informar
do merecimento verdadeiro ou falso d'este amador.
De divagação em divagação e
de informe a informe,
vim a concluir que o meu amigo tinha muita razão e que
Alberto
Ayres era de facto um rapaz de incontestavel merecimento
artistico.
Mas, não só como pintor elle deveria ser
apreciado,
como auctor e amador dramatico tambem. Eu me explico.
Um anno, estando a banhos como de costume, na formosa
e aristocratica praia da Granja, alli deu as suas provas
de amador, desempenhando, n'uma festa de caridade, alguns
papeis de umas deliciosas comedias, que elle proprio tinha escripto,
e que, segundo entendedores do genero, eram verdadeiras
joias litterarias finamente buriladas.
E, com esta minha eterna mania de conversar, uma tarde,
no atelier do meu muito amigo e infeliz Manuel San Romão,
fallando-lhe dos divertimentos da Granja e a respeito do
baile Luiz XV que alli se dera, das finas recitas que a gentil
colonia alli a banhos, costuma realisar, o nome de Ayres de
Gouveia foi citado e eu disse como me tinham inspirado sobre
o seu merito litterario e artistico.
Manuel San Romão, com aquelle seu modo correcto e
fino e aquelle seu espirito ousado e emprehendedor, n'um
gesto todo de enthusiasmo fallou-me d'elle dizendo, que no
que elle era notavel era na pintura e citava um formoso retrato
do Snr. D. Antonio Ayres de Gouveia, então Bispo de
Bethesaida, hoje Arcebispo da Calcedonia e tecendo-lhe os mais
rasgados elogios, affirmou-me que elle era um amador que
havia de futuro marcar epocha entre os artistas (mestres) portuguezes.
A palavra do Mestre―Alberto Ayres de Gouveia
A palavra do Mestre—alberto ayres
de gouveia
A opinião de Manuel San Romão, era para mim como
uma pagina do Evangelho; elle que lhe via merecimento era
porque na verdade o tinha.
O retrato se não era uma maravilha, dizia San
Romão,
era no entanto uma obra acceitavel e cheia de bellos predicados,
um verdadeiro quadro tocado com proficiencia, desenhado
com saber, d'um colorido doce e d'uma mais que regular
semelhança.
Ao ouvir isto, logo se me arreigou no espirito a ideia
de que elle tinha talento e me nasceu o desejo de ter de
vizu
a confirmação d'isso, o que só poderia
conseguir visitando o
seu atelier e a sua galeria, pois que elle, nem expunha, nem
vendia os seus trabalhos.
Como conseguir porém isto? Quasi impossivel, porque
o amador fugia á visita que eu tentava fazer-lhe, querendo
assim deixar-se ficar no encoberto mysterio d'uma modestia,
que não tinha razão de existir.
Passara-se tempo, muito tempo, sem que eu tivesse o
prazer de, encontrando-o, lhe manifestar o desejo que tinha
de n'uma visita ao seu atelier, vêr o que elle tinha
realisado
em Arte.
Em 1902, abre uma das exposições que o Instituto
de
Estudos e Conferencias tão proveitosamente tem organisado
e realisado no Pateo da Misericordia. Era um magnifico dia
de
vernisage, e eu ao entrar sou
immediatamente attrahido
d'um modo particular e suggestivo, por umas poucas de telas
que me saltam á vista impressionantemente. Tomo do catalogo
e folheando inquiri quem é o seu auctor. O nome de Alberto
Ayres de Gouveia era o que se lia por cima dos numeros
que eu procurava. Eram, de facto, de molde a impressionar
os trabalhos expostos. Á mente me saltou, como uma
doce recordação, a conversa que tivera com Manuel
San Romão
e immediatamente me convenci de que quem pintava
aquelles quadros não podia ser apellidado de simples amador.
Era indiscutivelmente muito mais do que isso, era um
verdadeiro artista e com trabalhos taes, que alguns pintores,
com nome feito, não desdenhariam assignar.
Em artigo que n'outro logar publíco a elles me referi e
alli disse alguma coisa do que pensava a tal respeito. Agora
porém que dedico ao seu auctor duas paginas do meu livro,
em especial, não será demais tornar a fallar
d'elles.
Eram para mim esses trabalhos primorosos, mas, se alguns
defeitos tinham eram elles por si tão insignificantes que
apenas mereciam o reparo ligeiro e unicamente indicativo,
sem que viesse aggravado com a investida descortez e brutal
de certa critica imperduravel e muitas vezes inconsciente.
Porque os trabalhos expostos eram indicados no catalogo simplesmente
como d'amador, mas d'amador distincto e correcto
em verdade.
E bastava só isto, que elles fossem de amador, mas feitos
firmemente com largueza de traço, precisão de
côr, correcção
de desenho e de perspectiva, definidos emfim como de verdadeiro
artista, para espantar a critica de campanario e os entendedores
bon marché.
E tudo isto porque? Porque habitualmente os amadores
quando apparecem em publico com trabalhos seus, são
estes tão banaes e tão simples que passam
perfeitamente desapercebidos
entre os trabalhos dos artistas, sem lhe fazerem
mossa, ou sem lhe provocarem confrontos.
Com Alberto Ayres, porém, não se dava isso,
apparecia
pela primeira vez, mas tão desassombradamente e com
trabalhos
de tal folego, que até houve quem não quizesse
acreditar
que eram d'elle. Mas eram e tão bons que poderiam entrar
com gloria em qualquer concurso, pois tenho a certeza que ao
seu auctor seria dada uma primeira classificação.
Christo morto―Alberto Ayres de Gouveia
Christo morto—alberto ayres
de gouveia
Então é que mais e mais se me encasquetou na
cabeça
a ideia de observar toda a sua obra, conhecel-o no seu intimo,
na sua maneira de vêr e de pintar, e depois de um assedio em
forma consegui que elle me desse a honra de permittir-me
uma visita d'Arte. E visitei então a sua formosissima casa,
onde se espalham artisticos
bibelots
e bellos trabalhos de muito
valor artistico. Fiz esta visita cheio d'uma suave
uncção que
se deve aos templos onde se sacrifica a um Deus. N'aquella
casa sacrificava-se a Deusa Arte e por isso reverente alli me
conservei.
Conversando durante algum tempo contou-me a sua
iniciação na arte de pintar, e como, sob a
competente e abalisada
inspecção do grande Marques d'Oliveira,
pôde conseguir
o que fazia.
Desenhou muito, e quando lançava os seus vôos para
mais alto, sob indicações do professor, foi em
viagem artistica
pela Europa, aos paizes onde mais afincadamente se rende
culto á Arte e alli estudou nos museus e nas escolas de
pintura
alguma coisa que lhe désse conhecimentos uteis. E assim,
analysando e estudando os quadros geniaes dos mestres e
acompanhando os adeantamentos e os progressos das novas
escolas, percorreu os muzeus de Madrid, Paris, Londres e Italia,
não com a despreoccupação de um
touriste, mas com a
observação religiosa d'um crente, sob a
indicação e a companhia
de Marques de Oliveira, seu professor e que é entre os
que pontificam na Pintura, um dos que mais sabiamente sabem
vêr, porque é dotado d'um espirito critico
especial e finissimo.
Da visita que fiz ao atelier d'este distincto amador, ficou
a mais grata e a melhor das impressões.
D'entre as telas que vi, as que mais fundamente me
impressionaram foram a
Leitura das
prophecias,
Retrato do
Ex.mo e Rev.mo Snr.
Arcebispo de Calcedonia,
A palavra do Mestre,
Retrato do proprio auctor,
Retrato de A. Burnay,
Estudo,
Baixo imperio,
Appolo e
Cabeça d'estudo
(carvão), que são
admiraveis.
S. João lendo as prophecias―Alberto Ayres de Gouveia
S. João lendo as prophecias—alberto
ayres de gouveia
D'alguns d'estes trabalhos, apresento as gravuras, que
pude conseguir, quebrando quasi á força a
modestia do meu
biographado.
El-Rei D. Carlos, n'uma visita que fez á
Exposição de
Bellas-Artes em Lisboa, fez menção especial dos
seus quadros,
chamando-lhe pintor notavel e de pulso.
E de facto El-Rei não se enganou porque Alberto Ayres
de Gouveia está na galeria dos artistas de pintura
portuguezes
mais distinctos.
Paisagem―Candido da Cunha
Paisagem—candido da cunha
Estudo―João Augusto Ribeiro
Estudo—joão augusto
ribeiro
XXIV
Uma Exposição de Estatuetas
FRANCISCO GOUVEIA
Já era tempo de dedicar algumas palavras de
justiça, ao
distincto artista Francisco Gouveia, ácerca da visita
que fiz á sua magnifica exposição de
esculptura, aberta
aqui no Porto, no Salão da Photographia Guedes, e
cumprir o dever gratissimo de corresponder á galanteria e ao
modo penhorante como elle me acolheu.
Francisco Gouveia
Francisco Gouveia
E faço-o, porque nunca
antepuz á
manifestação
de admiração pelos trabalhos de
qualquer artista de valor, outra qualquer
manifestação.
A Arte, para mim a mais sublime das
cousas, a mais insinuante das manifestações,
tem um logar tão alto, tão deslumbrante,
tão culminante que em frente d'ella
eu julgo-me insignificantemente pequeno, e
curvando-me reverente, fico depois extatico,
cheio d'uncção na mais santa e na melhor
das adorações.
Por isso, ao abalançar-me ao cumprimento d'um dever
sagrado, eu commetteria um crime de lesa-religião artistica
se
não dedicasse algumas paginas á deliciosa
exposição, que ha
tempos tive o prazer de visitar.
Já o tenho dito varias vezes e hoje o repito: eu sempre
que tenho ensejo de admirar uma obra de arte, pintura, esculptura,
musica, ou seja o que fôr, nunca falto; sou dos que
vou primeiro, e, quasi sempre, dos que sahem no fim.
É facil ficar perfeitamente embasbacado em frente
d'um quadro, ou d'uma esculptura, durante horas, alheio a
tudo quanto se passa em volta de mim, tal me tem succedido
ante as obras de Malhôa, Salgado, Carlos Reis, Marques de
Olivieira, etc., e como em nenhumas
outras, ante as extraordinarias
creações do sublime Teixeira Lopes.
Teixeira Lopes―F. Gouveia
Teixeira Lopes
f. gouveia
Por
isso, como um fanatico pela Arte eu accorri ao Salão
da Photographia Guedes a vêr os trabalhos,
já para mim conhecidos de nome,
do nosso querido concidadão Francisco
Gouveia.
Que este artista, como todos os
bons esculptores portuguezes, tambem
é filho do Porto.
Francisco Gouveia, era um nome
que se impunha já de ha muito á
consideração
e á admiração de todos nós,
porque
lá fóra, no estrangeiro, affirmava
exhuberantemente,
com os seus trabalhos,
que nós os portuguezes tambem somos
capazes de dar provas evidentes e definidas
de intellectualidade e aptidão artisticas.
Entre muitos dos seus bellos trabalhos destacarei, para
fazer notar aqui, o seu
Beatriz de
Portugal, que marcou d'uma
fórma confirmativa e energica o seu saber e o seu modo de
esculpir.
Este trabalho ao apparecer em Paris, de tal nomeada
foi cercado, que mereceu a honra de ser reproduzido em diversas
illustrações estrangeiras, onde se fizeram
referencias
honrosamente dignas ao nome do nosso artista.
Mas, como diz Xavier de Carvalho n'um pequeno esboço
critico a respeito de Francisco Gouveia: «quiz ser o artista
naturalista no minucioso detalhe, começando por nos dar um
Eça de Queiroz apanhado
n'uma
pose verdadeiramente natural
e sincera. Depois temos a serie das suas esplendidas estatuetas,
tão cheias de vida plastica, d'um correctissimo desenho,
mesmo quando o esculptor passa da maneira emocional
do seu mestre querido Injabert á larga
ébauche de Rodin que
mesmo chegou a attingir na silhueta do grande artista
rebelde».
E de facto assim é. Francisco Gouveia realisou este
desideratum
e ao abrir ao publico indifferente e á critica honrada
e honesta d'uns, venenosa e malsinada d'outros, a sua
exposição, fel-o, sem aspirar as louvaminhiches
dos primeiros
nem temer boas ou más apreciações dos
segundos. Fel-o como
affirmação publica do seu talento artistico e da
sua persistencia
do trabalho, fel-o como era justo que o fizesse.
Para isso traz-nos 78 trabalhos qual d'elles o mais fino,
qual d'elles o mais correcto, qual o mais bem estudado, e
mais bem executado.
Desde a estatueta séria á estatueta caricatural,
desde os
medalhões graves ás mascarasitas patinados, nada
ha alli que
não seja correcto e que não seja perfeito.
Estudos regularmente anatomisados, dando o individuo
em todo o seu ser, em todo o seu aspecto, com todo o ar natural,
parecendo mover-se regular e compassadamente, vivificados,
com movimentações naturaes, expressão
definida no
rosto. E tudo isto em estatuetas que variam
entre 40 e 60 centimetros d'alto.
Eça de Queiroz―F. Gouveia
Eça de Queiroz
f.
gouveia
Mas,
ha para mim, entre todos os
trabalhos expostos, um, que é dos mais
extraordinarios—a caricatura psychologica
do grande morto
Eça de
Queiroz!—Fulgurantissima
de genio. Vemos n'ella,
n'aquelle bronze, atravez da esgrouviada
figura do romancista que nos assesta o
monoculo n'uma persistente meticulosidade
de observador a sua alma analysta,
com um quê de sarcastico, como sorrindo-se
interiormente de toda esta nossa sociedade,
que elle olha atravez da sua impertinente
lente. É simplesmente assombroso.
A minha vontade era fazer notar
uma a uma as estatuetas, as composições, as
caricaturas, as
medalhas, mas isso é impossivel e portanto, em mais duas
palhetadas
vou fechar este artigo.
Entre os trabalhos
estatueta-retratos, muitos d'elles
de
pessoas nossas conhecidas, ha alguns com quem appetece conversar
um pouco. A do
Marcos Guedes, a do
Pae Ramos, (ambos
estes collegas do
Janeiro), a do
Snr. Caetano Pinho da
Silva, a do nosso querido
Teixeira Lopes, a de
Guedes d'Oliveira
são magnificas. Ha tambem um retrato do grande poeta
Guerra Junqueiro (phantasia), que
é muito interessante. Guerra
Junqueiro é apresentado com uma tunica que lhe cae
sumptuosamente
como a um propheta, tendo o braço direito levantado
em menção de quem préga o Evangelho, e
no braço
esquerdo as taboas
da lei. É delicioso
de concepção
e de execução.
Marcos Guedes―Guedes d'Oliveira―Guerra Junqueiro―Pae Ramos―Francisco Gouveia
Marcos Guedes—Guedes d'Oliveira—Guerra
Junqueiro—Pae Ramos—
francisco
gouveia
Na
estatueta-composição
destacarei:
A viajante,
A primeira esculptura,
A parisiense,
A tristeza,
Meditações,
Grupo
de leitoras,
Saudades
e
Ama parisiense
(do jardim de Luxemburgo).
Mas que estou eu aqui a destacar, se todas ellas são
boas, se todas ellas me encantaram?!...
As outras, terras-cotas, bronzes, etc., são, como estas,
deliciosas obras, que merecem ser vistas e apreciadas devida
e detalhadamente.
Não é esta exposição de
molde a ser visitada como uma
exposição de quadros, onde as côres nos
venham de longe em
varias tonalidades, á vista. Não, aqui precisamos
de parar,
analysar feições, expressões, linhas,
tudo, emfim. É preciso
deixar a vista pousar durante um pouco, para examinar toda
aquella perfeição, toda aquella
correcção, que não se póde
vêr
á
vol d'oiseau.
É preciso fazer como eu fiz, estar lá horas e
voltar
lá mais vezes, que de cada vez que se lá volta
novas cousas
se descobrem nos trabalhos expostos. Quem vê só
uma
vez, quasi sempre não vê nada.
Vou acabar por aqui, antes, porém, devo dizer que Francisco
Gouveia é um d'estes rapazes insinuantes, com quem se
sympathisa logo que se falle com elle uma vez.
Modesto em extremo, é um trabalhador de verdadeiro
merito, e um espirito lucidissimo. E eu, ao fechar o meu artigo
para as
Notas d'Arte,
aqui lhe
deixo significadas, ainda
que muito pallidamente, a minha admiração ao seu
grande
talento artistico e a convicção de que o seu nome
tem o direito
indiscutivel de figurar a par do dos nossos primeiros artistas,
pois exuberantemente conquistou um dos primeiros logares,
como sacerdote magno, no templo da sublime Arte
Portugueza.
Paisagem―Lucilia Aranha Grave
Paisagem—lucilia aranha grave
Teixeira Lopes
Teixeira Lopes
Caim―Teixeira Lopes
Caim—teixeira lopes
XXV
MANUEL MONTERROSO
Tenho para mim este modo de pensar, talvez exotico,
mas convicto, de que a caricatura é um maravilhoso
remedio para muitas doenças sociaes.
Bem sei que nem sempre a cura se faz e a caricatura é
applicada sem resultados praticos.
Manuel Monterroso
Manuel Monterroso
Mas, muitas vezes, a maior
parte d'ellas, a applicação adquada,
d'uma caricatura, no momento psychologico,
produz tal revolução no
meio onde é lançada, que a doença
social desapparece como por encanto.
Com todos os remedios acontece
a mesma coisa. Quantas vezes um
illustre clinico applica um caustico,
cheio de confiança, convencido que
dentro de duas horas a pelle do doente
estará levantada e suppurante, e
apesar do medicamento estar em pleno
effeito, o caustico falha, ou porque
o doente já não dá
reacção para
que o resultado seja satisfatorio, e
n'esse caso está morto, ou então por
que a pelle é de tal fórma grossa e
callejada que não ha nada que a possa atravessar e remover!
As doenças da sociedade são tal qual as
doenças dos homens.
E ella propria tambem tem anomalias como qualquer
doente.
Uma sociedade morta, ou quasi a dar o ultimo suspiro,
póde ser causticada com caricaturas, que não
resurgirá. E o
mesmo succederá se ella pela desfarçatez dos seus
caracteres
fôr uma sociedade
estanhada, endurecida e callejada.
Mas se
entre essa sociedade alguma coisa houver ainda que vitalmente
sinta as picadas ardentes da caricatura, então ella
resaltará
e viverá pondonorosamente espurgada do mal que a
amortecia e definhava.
Dr Leopoldo Mourão
Dr Leopoldo Mourão
Caricatura
de manuel monterroso
Publicada na Voz Publica
A mesma
revolução se faz na
vida social dos homens isoladamente.
Caricaturados por um lapis mordaz,
mas fino, que os apresente á irrisão
publica, sob qualquer dos seus
aspectos ridiculos, elles remorder-se-hão
na sua vaidade intima e, procurarão,
embora disfarçadamente, curar-se
dos seus defeitos, se é que o
mal da desfarçatez os não contaminou
tão intimamente, que os tenha
posto por completo fóra da acção
benefica,
embora torturante do medicamento.
Muitos, muitissimos factos poderiam
ser apontados como provas
indiscutiveis e irrefutaveis, se quizessemos
d'um modo affirmativo e terminante
impôr a nossa opinião. Mas,
não, não temos nem esse desejo, nem
essa vaidade. Ao delinear estas linhas,
simplesmente o fazemos como
o
avant-propos á
apresentação que
tentamos fazer d'um dos mais distinctos medicos portuenses,
e no momento presente o primeiro caricaturista portuguez.
Hoje que infelizmente perdemos o maior de todos os
nossos caricaturistas—o grande, o incomparavel mestre—Bordalo
Pinheiro, posso dizer abertamente que Manuel Monterroso
é entre nós o unico capaz de seguir
tão gloriosamente
como o Mestre, as suas deslumbrantes pisadas e seu genio fulgurante
e radioso.
Uma pagina da Parodia―Manuel Monterroso
Uma pagina da Parodia—manuel
monterroso
E, não quero que Monterroso me agradeça estas
verdades
sinceras que me saltam da penna, ditadas pelo pensamento,
espontaneamente, lealmente, taes como as sinto. Não, nem
o meu fim é esse. Se lhe dedico algumas palavras
é porque na
minha pequenez de insignificante amador de Arte, tenho por
elle, pelo seu lapis fino e caustico e pelo seu muito talento
artistico,
uma profunda admiração.
Extasiava-me diante das
caricaturas de Bordalo com a
veneração adoravel de verdadeiro admirador, do
engraçado,
do mordaz, do bello e do correcto.
Hoje ante o traço fino, seguro, preciso e mordaz de
Monterroso
tambem me permitto ficar extasiado. E tudo isto porque
o considero um optimo caricaturista, um perfeito desenhista.
Incapaz, como sou, de faltar á verdade, não
escrevia
que o achava grande, nem o diria tão afoitamente, se
não estivesse,
como estou, convencido de tal.
Não digo isto, é bom que se saiba, para me dar
ares; digo-o
porque rebuscando e procurando na pequena galeria dos
caricaturistas portuguezes, não
encontro nenhum que possa passar-lhe
adiante.
João Oliveira Ramos
João Oliveira Ramos
Caricatura de manuel monterroso
Publicada na Voz Publica
Nem mesmo o
Manuel Gustavo, que ainda assim,
para, mim, é um dos melhores.
Pois, nem mesmo esse, que
tão intimamente conviveu com o
Mestre, que tão de perto recebeu
as suas lições, póde dizer ousadamente
a Manuel Monterroso:—eu
valho mais do que tu... o primeiro
logar pertence-me...
Por que de facto não vale.
Manuel Monterroso tendo a intuição
natural de
fazer bonecos, (como
elle diz), conhecendo anatomicamente
o homem (ou elle não
tivesse sido um dos bons discipulos
do terrivel Lebre
[1],
possuidor
d'uma retentiva verdadeiramente
photographica, elle, vendo
uma vez um individuo, apanha-lhe immediatamente, não
só
as linhas geraes, mas os mais pequenos detalhes caricaturaes:
e, n'estas condições, com estes predicados e alem
de tudo isto
uma boa dóse de talento, realisa desenhando verdadeiras
obras
primas.
Raphael Bordallo Pinheiro
Raphael Bordallo Pinheiro
Caricatura em barro
de manuel monterroso
Fulgurantissimas
de graça são as varias paginas,
que
muitas vezes, de collaboração com os
litteratos Campos Monteiro e Guedes
d'Oliveira, viram a luz na
Parodia.
Notavel como trabalho de verve
fina e delicadissima a caricatura que foi
offerecida ao Dr. João Pereira Dias Lebre,
professor de anatomia da Escola
Medica do Porto, no anno em que elle
se jubilou.
Notaveis os seus trabalhos, que
tem distribuidos por amigos, em amistosas
dadivas.
Caricaturas avulsas de typos conhecidos
feitas em intimas camaradagens
e que o grande publico nunca teve
o prazer de vêr, mas que eu conheço
perfeitamente bem. Não fallando nas caricaturas
que a largos traços de carvão
elle lança rapidamente sobre o papel
branco que friamente apparece ao publico,
quando em algum concerto de caridade
elle vem tambem coadjuvar o luzimento
d'essa festa, com a irradiação do seu genio
repentista
e correcto.
N'essas occasiões é que elle tem mostrado mais
publicamente
a facilidade com que retem e executa o desenho caricatural
dos typos apresentados.
A todos quantos tenho visto fazer este genero de trabalho,
tenho notado uma coisa: elles ao apresentarem-se em publico
trazem já no seu cerebro estudados e desenhados os typos
a executar, e assim invariavelmente nos atiram com o
José Luciano, o Hintze Ribeiro, o Burnay, o Zé
Povinho, o
Rei de Inglaterra, o Rei de Portugal e outros personagens,
cujo perfil está de ha muito conhecido e estudado, perfis
que,
a maior parte das vezes, eu mesmo, leigo em desenho e em
caricatura, ia desenhar depois de uma leve
recordação.
Manuel Monterroso, não faz assim. Uma vez no palco
ou estrado, lança a vista por sobre a plateia, e com
aquelles
olhinhos vivos e penetrantes fóca um individuo. Olha-o duas
vezes e em seguida, costas voltadas ao publico elle ahi vae,
carvão em punho, traçando, rapida e precisamente
o typo que
escolheu. É assim que elle faz; nunca trouxe de casa, no seu
caderno de apontamento, as notas
typicas dos
individuos a
desenhar.
Mas, não só como desenhista e caricaturista a
lapis ou
a aguarella, elle é notavel. Ha alguma coisa mais a notar no
meu artista.
Como ceramista tambem é para ser notado e muito.
O Rei da Peça―Caricatura de Manuel MonterrosoO Rei da Peça―Caricatura de Manuel Monterroso
O Rei da Peça—Caricatura de manuel
monterroso
Publicada no Primeiro de Janeiro
—Ora? dirá o leitor!
Como
ceramista? Pois não lhe conhecia
essa prenda?!
—Nem eu! Mas ha tempos
em conversa, a rirmos sobre mil coisas
diversas e muito especialmente
sobre
bonecos, Manuel Monterroso
disse-me á queima roupa: Sabe, vou
fazer
bonecos em barro, caricaturas
de outra especie.
—Você está a brincar, disse-lhe
eu.
—Não estou, não, verá. E a
primeira ha-de ser a do Bordalo
(ainda elle era vivo). Dito isto, despediu-se
de mim, e, bem contra minha
vontade, não o tornei a vêr durante
uns poucos de dias.
Nem mais me tinha lembrado
d'isso, quando uma bella manhã
vejo entrar o Monterroso pela
porta dentro
com
um embrulhosito
na
mão, dizendo:—Cá
está a
obra.
Os Donos da Casa―Caricatura de Manuel Monterroso
Os Donos da Casa—Caricatura de manuel
monterroso
Publicada no Primeiro de Janeiro
Corri apressado ao seu encontro, obrigo-o a mostrar-me
o embrulhito e... ante a apparição que se fazia
deante dos
meus olhos eu ficava estasiado.
Uma delicada, uma fina maquete da figura em corpo
inteiro do grande mestre da Caricatura, apparecia diante de
mim, admiravelmente lançada, sabiamente estudada e medida,
bellamente executada. Não parecia
o primeiro trabalho de um amador,
não. Era o trabalho de quem
sabe e muito, como o barro se espalma
e se contorna, como se
modela e
como se vivifica.
José Ribeiro―Caricatura em barro de Manuel Monterroso
José Ribeiro—Caricatura
em barro
de
manuel monterroso
Não penseis que
faço o
elogio
balofo d'uma insignificancia. Faço
simplesmente a resenha verdadeiramente
sincera de uma das mais notaveis
manifestações do talento do meu
querido caricaturista.
Não resisti, abracei-o, felicitando-o
e pedi-lhe que continuasse n'aquelle
novo systema de caricaturar
os homens notaveis do nosso tempo,
e do nosso conhecimento. Prometteu-me
continuar mas, a sua medicina e
os seus muitos afazeres, não tem consentido que os meus
olhos
possam vêr mais d'aquellas deliciosas obras.
A reproducção em bronze da
maquete, em que fallei foi
elle, como manifestação da sua muita
admiração e amizade
pelo grande mestre, levar-lh'a a Lisboa, onde Bordalo, como
eu, se extasiou ante a disposição artistica de
Monterroso e a
execução d'aquelle trabalho.
E, posto isto, posso fechar o artigo porque já provei bem
á evidencia que Manuel Monterroso é
innegavelmente um rapaz
de indiscutivel talento.
Mas, perguntará o leitor: a que veiu aquelle prologo
em que se fez jogar a medicina e a caricatura como meios curativos
da sociedade e das gentes?!
Eu explico. É que se não tivesse gasto tanto
tempo
ainda vos havia de dizer como é que o Manuel Monterroso
póde ser ao mesmo tempo um grande caricaturista e um bello
medico. Isso porém fica para segundas leituras.
XXVI
A BAIXELLA BARAHONA
Venho cheio d'um sincero enthusiasmo fallar-vos agora
exclusivamente d'um dos maiores acontecimentos
para a arte de ourivezaria portugueza, e não
só para ella como para a Arte,
na verdadeira accepção da
palavra; da Baixella Barahona!
Columbano Bordallo Pinheiro
Columbano Bordallo Pinheiro
É
esta já bem conhecida
em todo o Portugal, pelo que
d'ella tem dito os jornaes de
Lisboa, mas um brado mais,
d'um sincero amador, nunca
faz mal para engrossar o côro
de hossanas, que em volta de
tão magnificente obra, se tem
levantado por todos quantos
a tem visto.
A casa Leitão & Irmão,
innegavelmente os primeiros
joelheiros e ourives portuguezes,
levaram a cabo a execução
da obra mais monumental
e mais artistica no seu genero,
que se tem feito em Portugal
ha cem annos para cá.
E estou bem certo que será
preciso passar um incalculavel numero de annos para que se
faça uma outra obra assim.
Dous são os motivos, que me levam a acreditar n'esta
profecia: «A falta de homens de gosto e de dinheiro, como o
dr. Francisco Barahona; e a falta de comprehensão da maior
parte da gente, de que a Arte é a
manifestação mais bella e
mais brilhante do desenvolvimento espiritual e intellectual
d'uma nação».
Serpentina da Baixella Barahona
Serpentina da Baixella Barahona
Mas,
como não me julgo com competencia para
divagações
philosophicas sobre
Arte,
Dinheiro e
Gosto, vou entrar
no meu assumpto—A Baixella Barahona—da
qual estão em exposição
o
Centro de meza, e as
Duas
serpentinas.
São estes tres monumentos,
deixem-me assim chamar-lhe, uma
coisa phantastica. Delineados sobre
motivos esculpturaes do tempo
de D. João V, harmonisou-se n'uma
contextura brilhante, encantadora,
fazendo-nos passar, como que em
revista as decorações architectonicas
dos monumentos da epocha, os
escudos d'armas da casa real de D.
João V, as talhas douradas dos
conventos, as conchas nacaradas
dos mares, que nós portuguezes dominamos
nos nossos tempos de navegadores,
e as aguas espraindo-se
nas nossas formosissimas praias onde
o mar bate altisonante, cantando ainda restos das nossas
passadas glorias.
É como que a orquestração muda d'uma
epopeia de
deslumbramento e de luxo. Mereciam um poema, tal é o seu
primor e a sua riqueza.
Por ambas as vezes, que fui vêr estas deslumbrantes
obras de arte, fiquei estasiado algumas horas, na
contemplação
d'ellas, e cada vez que as olhava novos encantos
lhe achava; aqui eram os festões de flores que pareciam
baloiçar ao sopro da aragem, pendentes das mãos
torneadamente
papudas dos deliciosos amores; mais em baixo,
os golphinhos com as suas fauces escancaradas d'onde jorram
torrentes d'agua que se espraiam pelo enconchado da base;
de todos os lados, as nacaradas conchas encurvadas caprichosamente
n'um anichamento sublime de preciosidades do fundo
do mar, e contornando tudo isto n'uma justeza de fórma, n'um
carocolar de serpente, d'um brunido admiravel, como que uma
fita de seda que mãos delicadas de fadas se entretivessem a
dispôr alli, como cercando aquella serie de deliciosas
coisas.
Alguem que tenha visto a Baixella, dirá: e as figuras
que alli existem onde as deixará ficar o chronista?
As figuras essas são deslumbrantes de contextura, e se
me deixei ficar para o fim a fallar n'ellas, é, que
tão fundo
me feriram no espirito que lhe reservo um logar mais ao fim
do artigo para que quem me ler nunca se esqueça d'ellas.
Centro de meza da Baixella Barahona
Centro de meza da Baixella Barahona
O centro, como muito bem diz o nosso amigo M. Oliveira
Ramos, na memoria escripta expressamente para ser
distribuida pela casa Leitão aos seus convidados,
compõe-se
d'uma taça oblonga de amplo bojo, enfunada para a base e
recordando talvez na sua fórma, o casco dos nossos
galeões
do periodo aureo.
De cada lado d'esta taça e como sentados no rebordo,
ha duas figuras; um Fauno e uma Bachante.
O Fauno, tendo n'uma das mãos uma frauta de Pan, ri
brejeiramente para um amor que parece ter-se deitado na base
a analysar aquelle typo tão caracteristico e tão
bem delineado.
E a Bachante com um exhuberante cacho d'uvas, tenta o
outro amor que, deitado tambem, nos dá a
impressão suave
d'um delicioso
bébé a quem
uma nympha estivesse fazendo
negaças com em brinquedo.
Mas, é tal o deslumbrante das fórmas e o rigor da
anatomia
d'estas figuras, tão primorosamente modeladas e
tão
assombrosamente executadas que parece que aquella fria prata,
de que são feitas, se anima e palpita. Todo o conjuncto
é
bello, mas as figuras extasiaram-me.
Columbano Bordallo Pinheiro, ao modelar aquelles primores
de arte, (talvez isto seja uma heresia), fez, a meu vêr, um
dos seus trabalhos mais geniaes,
a manifestação mais
ampla do seu muito talento.
Magdalena―Columbano Bordallo Pinheiro
Magdalena
columbano bordallo
pinheiro
Porque é preciso ter-se
muito talento para se realisarem
obras d'aquellas.
Ficarei por aqui, se
bem que não era esse o meu
desejo, mas a falta d'espaço
e de tempo, a isso me obrigam.
Antes porém de fechar
cumpre-me fazer, por este
meio, o que já fiz pessoalmente,
dar um aperto de
mão, a quem se abalançou
a uma empreza como esta e
saudar enthusiasticamente
com o meu fraco appoiado os
grandes collaboradores d'esta
manifestação de arte portugueza,—o
dr. Francisco Barahona, o verdadeiro patriota
que sabe como ninguem comprehender para que serve o
dinheiro,—Columbano
Bordallo Pinheiro, que para essa obra
deu parte do seu
eu
artistico—Augusto Luiz de Sousa e Francisco
Ignacio Cardoso os dois artistas ourives sob a
direcção
dos quaes se executou tal obra.
Aos snr. Leitão & Irmão um bravo! Um
bravo enthusiastico
d'um humilde admirador.
E para fechar, folgarei immenso ouvindo dizer que esses
tres monumentos vão mostrar ao mundo inteiro, na
Exposição
de Paris, que em Portugal ha verdadeiros artistas e homens
de arte.