—Tudo morre, Zinotchka, tudo, até a propria recordação, até os mais nobres sentimentos. Dão logar a um certo raciocinio: frio, que acalma as saudades. Insurgirmo-nos, para quê? Trata de aproveitar a vida, ama, sê feliz. Ama um vivo! Para que serve o teu amor a um morto?—E comtudo, não me esquéças de todo! Tivémos horas atribuladas, é certo, mas quantos dias de tanta doçura? Ah!—Foram-se de uma vez para sempre!... Escuta,... amei sempre o pôr do sol... Oh! não!... morrer, por quê?... Ah! viver, viver! Lembra-te da primavera! Do sol! Tão lindo! Das flores! Vivemos por uns tempos n'uma festa! E agora, olha! Olha!
E o pobre enfermo a apontar com a mão diáfana o vidro empanado pela giada. Depois agarrou-se ás mãos da Zina e entrou a chorar com amargor. E os soluços a esfacelarem-lhe o já dilacerado peito.
E assim se passou todo o dia: A Zina a dizer-lhe que jamais o olvidaria, que a ninguem n'este mundo viria a dedicar amor egual áquelle que a elle lhe dedicára. E elle a acreditál-a, a sorrir-lhe, a beijar-lhe as mãos.
N'este meio tempo, Maria Alexandrovna, inquiéta, havia já mandado por mais de dez vezes indagar o que seria{186} feito da Zina, a supplicar-lhe que voltasse para casa, que não acabasse de se desacreditar na publica opinião. Até que por fim, ao lusco fusco, resolveu-se, esparvoada de receio, a ir, em pessôa, em procura da filha. Exorou-lhe de joelhos; a Zina a ouvil-a sem a intender. Maria Alexandrovna saíu desesperada. A Zina estava decidida a passar a noite junto do moribundo. Não lhe largou da cabeceira. O estado do infermo ia peorando a olhos vistos: quando rompeu a madrugada, quasi que nem conservava sopro de vida. E não obstante, viveu ainda um dia inteiro. Porém, no momento em que o sol no occaso abrasáva as vidraças, exalou-se a alma com os ultimos raios.
Deu-se então horrivel scena. A edosa mãe abraçou-se com o corpo do filho, e, voltada para a Zina:
—Fôste tu que o deitaste a perder, maldita! clamou.
A Zina, porém, não ouvia coisa nenhuma; estava para ali, qual estatua insensivel, como se, a ella, a alma a tivera deixado tambem. Até que por fim, abaixou-se, fez sobre o defunto o signal da cruz, beijou-o na testa, e saíu do quarto.
Tão tremendas sensações, e aquellas duas noites de véla, quasi que a haviam enlouquecido de todo... e depois, sentia-se prestes a entrar em um novo viver, triste, ameaçador.
Não teria ainda andado dois passos, eis lhe surge na frente o Mozgliakov como se com elle se abrira o chão.
—Zinaida Aphanassievna, disse com timidez, rodando a vista para todos os lados, Zinaida Aphanassievna, sou um jumento; isto é, não é isto que... Se me dá licença, não serei um jumento, visto que procedi briozamente,{187} apezar de todos os pezares... Mas lá que fui um jumento, fui... e estou mais que arrependido... Está-me a parecer que estou a meter os pés pelas mãos, Zinaida Aphanassievna. Perdoe-me, atendendo a este concurso de circunstancias...
E a Zinaida, inconsciente, a olhar para elle, e a seguir seu caminho, sem tugir. Como no passeio não houvesse logar para dois, Mozgliakov desceu para a calçada.
—Zinaida Aphanassievna—proseguiu o mancebo, se m'o consente, estou pronto a renovar o meu pedido, pronto a esquecer tudo, a perdoar-lhe—com uma condição:—Ficará tudo sendo segredo por emquanto. Ausenta-se d'esta terra o mais breve possivel, eu sigo atras, ás escondidas, casamos para ahi seja onde fôr, sem que ninguem dê por isso, e vamos para Petersburgo. E então! Que me diz? Consente, Zinaida Aphanassievna? Responda, depressa, por quem é! Não posso esperar; poderiamos ser vistos.
A Zina não respondeu: olhou para o Mozgliakov, tão somente, mas fêl-o, porém, de modo tal, que elle comprehendeu desde logo, cumprimentou-a e sumiu-se por detrás da primeira esquina.
"Ora esta! matutava; ella, ainda não haverá dois dias, a lançar em rosto a si propria as culpas todas, e agora!..."
N'este comenos, em Mordassov, precipitavam-se os acontecimentos.
O principe, acarretado pelo Mozgliakov para o hotel, n'aquella mesma noite caíu perigosamente enfermo. Os Mordassovenses só vieram a ser informados do caso ao romper do dia. Kalist Stanislavitch não largava a cabeceira do doente. Ao anoitecer, effectuou-se uma conferencia{188} dos medicos todos de Mordassov. Os convites para comparencia eram redigidos em latim. E não obstante, a despeito do latim, o principe achava-se em estado de delirio, e tudo era pedir ao Kalist Stanislavitch que lhe cantasse uma certa romança, a fallar a respeito de chinó e bigode postiço e, de vez em vez, muito assustado, soltava uns berros. Concluiram os medicos que era uma inflammação do estomago, resultante do excesso de hospitalidade mordassovense, e que d'ali tinha passado á cabeça. Alegaram, tambem, não sei com que fundamentos, um tal qual abalo nervoso. E d'ahi, não se esqueceram de notar que o principe havia muito que manifestava predisposições para a morte e que, por conseguinte... está claro!—e que por conseguinte, morria. Esta ultima hypothese pareceu ter certo fundamento: o pobre do ginjinha expirou ao terceiro dia, ahi pelo anoitecer. Obito a tal ponto inesperado consternou Mordassov. Acudiram em chusmas ao hotel, discutiam, abanavam a cabeça, e concluiram acusando directamente "os assassinos do principe, coitado!" (aludindo assim a Maria Alexandrovna e á filha).
Concordava toda a gente em que tão escandalosa historia não deixaria de dar brado, e podia, até, "ir muito longe".
Mozgliakov nem sabia já que fazer á sua vida. A situação, effectivamente, antolhava-se perigosa. Não fôra elle quem accarretara com o principe para casa de Maria Alexandrovna? Não fôra elle tambem que carregara com elle para o hotel? Não sabia o que havia de fazer com o cadaver, onde o enterrar, a quem informar. E de mais a mais, como passava por ser sobrinho do principe, o seu medo todo{189} era não se lembrassem de o accusar de ter morto o veneravel ancião.
Eis que de repente mudam as scenas. Uma bella manhã, chega á cidade um viajante, desconhecido. E Mordassov, em peso, pespegado á janella, a commentar o adventicio.
—O tal viajante era nem mais nem menos que o celebre principe Chtchepilov, parente do defunto, sujeito de seus trinta e cinco annos, usando dragonas de coronel e as agulhetas de ajudante de ordens. Aquella gran-cruz compenetrava de um respeitoso pavor a todos os tchinovnicks[16] do logar. O prefeito de policia por pouco não indoidece.
Em breve se veiu a saber que o principe vinha de S. Petersburgo e já havia passado por Dukhanovo. Não encontrando ali ninguem, viera seguindo as piugadas do principe até Mordassov, onde o surprehendera a fatal noticia. Tomou desde logo a tudo sobre si, e Mozgliakov retirou-se muito encolhido em presença do lidimo sobrinho.
O illustre defunto foi trasladado para o mosteiro. Ao outro dia, a cidade em peso congregou-se a ouvir a missa funeraria. Entre as senhoras, corria que Maria Alexandrovna compareceria em pessoa na egreja, para pedir perdão alto e bom som perante o caixão, em conformidade com as exigencias da lei. Escusado será dizer que tal Maria Alexandrovna não appareceu.
Fôra para o campo e levára a Zina, parecendo-lhe insustentavel a situação na cidade. Lá da sua aldeia, ia recolhendo com inquietação as atoardas e mandava tomar informações.{190}
Do mosteiro a Dukhanovo, o caminho passava a uma versta das janellas de Maria Alexandrovna. Teve pois occasião de ver desfilar o prestito funebre. Atrás do féretro seguia uma longa cauda de trens. E por largo espaço, n'aquelle campo branco de neve, foi perfilando aquelle seu vulto negro, lento e majestoso, o carro melancólico.
D'ali a oito dias, Maria Alexandrovna, com a filha e Aphanassi Matveich, transferiu-se para Moscou. A aldeia e a casa foram postas em leilão.
E assim perdeu para sempre Mordassov uma senhora, o mais comme il faut possivel!
O caso não escapou a commentarios; nem faltou quem affirmasse que o Aphanassi Matveich se achava tambem á venda juntamente com a aldeia...
Rodou um anno, outro ainda, e ninguem tornou a falar em Maria Alexandrovna.
E comtudo, correu que havia adquirido outra aldeia em outro governo, e que outra capital de districto não tardaria em tremer entre as suas potentissimas mãos. A Zina estaria ainda á espera de noivo.
O Aphanassi Matveich...
Mas não nos tornemos éco de boatos sem fundamento. É falso tudo isso.
*
Já lá vão três annos desde que eu escrevi as linhas que acabaes de ler. Quem me diria que ainda havia de vir a folhear o manuscripto para lhe accrescentar ainda mais uma lauda?{191}
Mas vamos ao facto:
Principiarei por Pavel Alexandrovitch Mozgliakov.
Ao ausentar-se de Mordassov, foi direitinho a Petersburgo, onde alcançou o logar que lhe andava prometido havia muito tempo. Não tardou em se lhe franquearem as portas da sociedade, infronhou-se n'umas intrigalhas, guindou-se ás alturas de espirito do século, tornou a apaixonar-se, renovou o seu pedido, voltou a apanhar um não pelas ventas, enguliu-o, e não podendo digeril-o, sollicitou o ser incorporado a uma expedição enviada a um dos cantos mais remotos d'este nosso paiz sem limites.
O corpo expedicionario transpôz sem novidade de maior florestas e desertos, alcançando a capital da longinqua região.
Foi acolhido pelo general-governador.
Era um homem magro e de semblante severo, um velho militar, ferido em diversas campanhas, condecorado com dois cráchás e com uma cruz branca. Convidou a todos os tchinovniks para um baile effectuado aquella mesma noite.
Pavel Alexandrovitch estava encantado. Envergara a sua casaca petersburguense, com a qual contava para produzir immenso effeito, e deu entrada nas salas nobres com modo desassombrado. Não tardou porém a perder o aprumo em presença de tanta dragona de cachos e de tanta farda enfeitada de commendas. Cumpria-lhe ir fazer a sua venia á esposa do governador, nóva, diziam, e formosissima. Aproxima-se, muito senhor de si,—mas—de subito,—escancara a bôca, e fica pregado ao chão, de assombrado. Com um sumptuoso vestido de baile, surge-lhe na frente a Zina, feraz, soberba, linda, e resplandecente{192} de joias, toda ella. Nem conheceu o Pavel Alexandrovitch, os seus olhos nem se detiveram sequer no semblante de mancebo. Mozgliakov recuou e foi perder-se entre a turba-multa, e soube da bôca de um juvenil tchinovnick coisas interessantissimas.
Soube que o governador era casado ia já em dois annos, desde uma viagem que fizéra a Moscou. Desposara uma joven muito rica, de optima familia. A generala era muito soberba e só dansava com generaes, (havia nove no baile). A generala tem em sua companhia a mãe, senhora intelligentissima da mais alta aristocracia, mas que se submete á vontade da filha. E d'ahi, o general extasia-se tambem deante d'esta. Mozgliakov referia-se ao Aphanassi Matveich, mas n'aquella região remota ninguem dava noticia delle.
Um tanto restabelecido d'aquelle seu sobresalto, Mozgliakov deu uma volta pelas salas e lobrigou Maria Alexandrovna, vestida com singeleza e, muito animada, a falar com uma personagem graúda. Faziam-lhe cerco varias senhoras que lhe sollicitavam a boa sombra. Maria Alexandrovna era amavel com toda a gente.
Mozgliakov arriscou-se e foi-se-lhe apresentar. Maria Alexandrovna teve assim a modos de um estremeção, mas sopitou-se, acto-continuo. Dignou-se reconhecêl-o e pediu-lhe novas dos seus amigos de Petersburgo. A respeito de Mordassov, nem palavra e foi como se tal coisa não existisse, em conclusão, proferiu o nome de um qualquer principe estranho ao Mozgliakov, voltou-lhe as costas sem affectação, dirigindo-se a uma personagem graúda de cabello grisalho e aromatizado, e d'ali a instantes, dir-se-hia haver-se esquecido de todo de Pavel Alexandrovitch, que ficou{193} para ali com cara de tolo, diante della. Mozgliakov, engatilhando um sorriso sarcastico, e de chapeu na mão, regressou para a sala nobre. Não sei dizer o motivo, mas considerava-se offendido e não se prestou a dansar. Nunca mais lhe desampararam o semblante quer uns ares tristes e de distracção quer um méfistofélico sorriso! Recovado em pinturesca atitude a uma columna, (parecia que de proposito, tinha columnas o salão), e toda a santa noite, horas a seguir, para ali se deixou estar no mesmo posto, a seguir com os olhos a Zina. Tempo perdido, infelizmente! Todas aquellas artimanhas, aquelles tregeitos todos, aquelles ares romanticos e de nimia decepção... etc... etc... nada lhe valeu... A Zina nem sequer deu fé da sua presença. Até que por fim, estafado, exasperado, com os pés dormentes em resultado da immobilidade, faminto, pois não tinha ceado a fim de melhor sustentar o seu papel de amante dolorido, recolheu para sua casa, derreado, abatido. E esteve a pé horas esquecidas, a matutar no passado... Logo no dia immediato, pediu transferencia e alcançou uma missão que o reconduziu a Petersburgo. Voltou a serenidade a entrar-lhe na alma assim que voltou costas á cidade. Lá ao longe, o espaço, o infinito, o deserto, a denegrida neve das florestas nos confins do horizonte. Ao som das patas dos cavallos a chofrarem, e a acompanharem o retinir e o telintar das campainhas. Pavel Alexandrovitch esteve pensativo, por instantes, mas depois, adormeceu muito socegado da sua vida.
Acordou na terceira muda, fresco, bem disposto, e a pensar noutra coisa.
FIM
{194}