Laudo Deum, populum voco,
congrego clerum.
Defunctum ploro, pestem fugo, festa decoro...
O que quer dizer, como sabem:
Louvo a Deus, chamo
o povo, congrego o clero, choro os mortos, afugento
as pestes, alegro as festas.
Citava a glosa com respeito, já revestido d'amicto
e alva, no meio da sacristia; e o tio Esguelhas
impertigava-se sobre a sua muleta áquellas palavras
que lhe davam uma auctoridade e uma importancia
imprevista.
O sacristão tinha-se aproximado com a casula
rôxa. Mas Amaro não terminára a
glorificação dos
sinos;—explicou ainda a sua grande virtude em
dissipar as tempestades (apesar do que dizem alguns
sabios presumpçosos), não só porque
communicam
ao ar a unção que recebem da
benção, mas porque
dispersam os demonios que erram entre os vendavaes
e os trovões. O santo concilio de Milão
recommenda
que se toquem os sinos sempre que haja
tormenta...
—Em todo o caso, tio Esguelhas, acrescentou
sorrindo com solicitude pelo sineiro, aconselho-lhe
que n'esses casos é melhor não se arriscar.
Sempre
é estar no alto, e perto da trovoada... Vamos a isso,
tio Mathias.
E recebeu sobre os hombros a casula, murmurando
com muita compostura:
-
Domine, quis dixisti jugum meum...
Aperte
mais os cordões por traz, tio Mathias.
Suave est, et
onus meum leve...
Fez uma cortezia á imagem e entrou na igreja,
na attitude da rubrica, d'olhos baixos e corpo direito;
emquanto o Mathias, depois de ter tambem saudado
com um raspão de pé o Christo da sacristia,
se apressava com as galhetas, tossindo forte para clarear
a garganta.
Durante toda a missa, ao voltar-se para a nave,
no
Offertorio e ao
Orate fratres, o padre Amaro
dirigia-se
sempre (por uma benevolencia que o ritual
permitte) para o sineiro, como se o Sacrificio fosse
por sua intenção particular;—e o tio Esguelhas,
com
a sua muleta pousada ao lado, abysmava-se então
n'uma devoção mais respeitosa. Mesmo ao
Benedicat,
depois de ter começado a benção
voltado para o altar
para recolher do Deus vivo o deposito da Misericordia,
terminou-a, virando-se devagar para o tio
Esguelhas especialmente, como para lhe dar a elle
só as Graças e Dons de Nosso Senhor!
—E agora, tio Esguelhas, disse-lhe baixo ao entrar
na sacristia, vá-me esperar ao pateo que temos
que conversar.
Não tardou a vir ter com elle, com uma face grave
que impressionou o sineiro.
—Cubra-se, cubra-se, tio Esguelhas. Pois eu venho
fallar-lhe d'um caso sério... Verdadeiramente
pedir-lhe um favor...
—Oh, senhor parocho!
Não, não era um favor... Porque, quando se
tratava
do serviço de Deus, todos tinham o dever de
concorrer na proporção das suas
forças... Tratava-se
d'uma menina que se queria fazer freira. Emfim,
para lhe provar a confiança que tinha n'elle, ia-lhe
dizer o nome...
—É a Ameliasinha da S. Joanneira!
—Que me diz, senhor parocho?!
—Uma vocação, tio Esguelhas! Vê-se o
dedo de
Deus! É extraordinario...
Contou-lhe então uma historia diffusa que ia forjando
laboriosamente, segundo as sensações que
imaginava
vêr na face pasmada do sineiro. A rapariga
desgostára-se da vida, com as desavenças que
tivera
com o noivo. Mas a mãi, que estava velha, que
a necessitava para o governo da casa, não queria
consentir, suppondo que era uma velleidade... Mas
não, era vocação... Elle sabia-o...
Infelizmente,
quando havia opposição, a conducta do sacerdote
era
muito delicada... Todos os dias os jornaes impios
(e infelizmente era a maioria!) gritavam contra as
influencias do clero... As auctoridades, mais impias
que os jornaes, punham obstaculos... Havia leis terriveis...
Se soubessem que elle andava a instruir a
menina para professar, ferravam-no na cadeia! Que
queria o tio Esguelhas?... Impiedade, alheismo do
tempo! Ora, elle necessitava ter com a pequena
muitas e muitas conferencias: para a experimentar,
para conhecer as suas disposições, vêr
bem se é para
a Solidão que ella tem geito, ou para a Penitencia,
ou para o serviço dos enfermos, ou para a
Adoração
Perpetua, ou para o ensino... Emfim, estudal-a
por dentro e por fóra.
—Mas onde? exclamou, abrindo os braços como
na desolação d'um santo dever contrariado. Onde?
Em casa da mãi não póde ser,
já andam desconfiados.
Na igreja impossivel, era o mesmo que na rua.
Em minha casa, já vê, menina nova...
—Está claro.
—De modo que, tio Esguelhas... E estou certo
que vossê m'o ha de agradecer... pensei na sua
casa...
—Oh, senhor parocho, acudiu o sineiro, eu, a
casa, os trastes, está tudo ás ordens!
—Bem vê, é no interesse d'aquella alma,
é um
regosijo para Nosso Senhor...
—E p'ra mim, senhor parocho, e p'ra mim!
O que o tio Esguelhas receava é que a casa não
fosse decente e não tivesse as commodidades...
—Ora! fez o padre sorrindo, n'um renunciamento
de todos os confortos humanos. Comtanto que
haja duas cadeiras e uma mesa para pôr o livro da
oração...
De resto, por outro lado, dizia o sineiro, lá como
sitio retirado e casa socegada estava a preceito. Ficavam
alli, elle e a menina, como os monges no deserto.
Nos dias em que o senhor parocho viesse, elle
sahia a dar o seu giro. Na cozinha não poderiam
accommodar-se, porque o quartito da pobre Tótó
era
ao pé... Mas tinham o quarto d'elle, em cima.
O padre Amaro bateu com a mão na testa. Não
se lembrára da paralytica!
—Isso estraga-nos o arranjinho, tio Esguelhas!
exclamou.
Mas o sineiro tranquillisou-o, vivamente. Estava
agora todo interessado n'aquella conquista d'uma
noiva para Nosso Senhor; queria por força que o seu
telhado abrigasse a santa preparação da alma da
menina...
Talvez lhe attrahisse a elle a piedade de
Deus! Mostrou com calor as vantagens, as facilidades
da casa. A Tótó não
embaraçava. Não se mexia da
cama. O senhor parocho entrava pela cozinha do
lado da sacristia, a menina vinha pela porta da rua:
subiam, fechavam-se no quarto...
—E ella que faz, a Tótó? perguntou o padre
Amaro, hesitando ainda.
Coitadita, para alli estava... Tinha manias: ora
fazia bonecas e apaixonava-se por ellas a ponto de
ter febre; outros dias passava-os n'um silencio medonho
com os olhos cravados na parede. Mas ás vezes
estava alegre, palrava, chalaceava... Uma desgraça!
—Devia-se entreter, devia lêr, disse o padre
Amaro para mostrar interesse.
O sineiro suspirou. Não sabia lêr, a pequena,
nunca quizera aprender. Era o que elle lhe dizia—se
pudesses lêr já te não pesava tanto a
vida! Mas
então? Tinha horror a applicar-se... O senhor padre
Amaro devia ter a caridade de a persuadir, quando
viesse a casa...
Mas o parocho não o escutava, todo abysmado
n'uma idéa que lhe alumiára a face d'um sorriso.
Achára subitamente a explicação
natural a dar á S.
Joanneira e ás amigas das visitas d'Amelia a casa do
sineiro: era a ensinar a lêr a paralytica! A educal-a!
A abrir-lhe a alma ás bellezas dos livros santos, da
historia dos martyres e da oração!...
—Está decidido, tio Esguelhas, exclamou, esfregando
as mãos de jubilo. É em sua casa que se ha
de fazer da rapariga uma santa. E d'isto—e a sua
voz deu um grave profundo—um segredo inviolavel!
—Oh, senhor parocho! fez o sineiro, quasi offendido.
—Conto comsigo! disse Amaro.
Veio logo á sacristia escrever um bilhete, que devia
passar em segredo a Amelia, em que lhe explicava
detalhadamente «o arranjinho que fizera para
gozarem novas e divinas felicidades». Prevenia-a que
o pretexto para ella vir todas as semanas a casa do
sineiro devia ser a educação da paralytica: elle
mesmo
o proporia á noite em casa da mamã.
«Que n'isto,
dizia, ha alguma verdade, pois seria grato a Deus
que se alumiasse com uma boa instrucção religiosa
as trevas d'aquella alma. E matamos assim, querido
anjo, dois coelhos com uma só cacheirada!»
Depois entrou em casa. Como se sentou regalamente
á mesa do almoço, com um contentamento
pleno de si, da vida e das dôces facilidades que n'ella
encontrava! Ciumes, duvidas, torturas do desejo,
solidão da carne, tudo o que o consumira mezes e
mezes, além na rua da Misericordia e alli na rua das
Sousas, passára. Estava emfim installado á larga
na
felicidade! E recordava, abysmado n'um gozo mudo,
com o garfo esquecido na mão, toda aquella
meia hora da vespera, prazer por prazer, resaboreando-os
mentalmente um a um, saturando-se da
deliciosa certeza da posse—como o lavrador que
percorre a leira de terra adquirida que os seus olhos
invejaram muitos annos. Ah, não tornaria a olhar de
lado, com azedume, os cavalheiros que passeavam
na Alameda com as suas mulheres pelo braço! Tambem
elle agora tinha uma, toda sua, alma e carne,
linda, que o adorava, que usava boas roupas brancas,
e trazia no peito um cheirinho d'agua de colonia!
Era padre, é verdade... Mas para isso tinha o
seu grande argumento: é que o comportamento do
padre, logo que não dê escandalo entre os fieis,
em
nada prejudica a efficacia, a utilidade, a grandeza da
religião. Todos os theologos ensinam que a ordem
dos sacerdotes foi instituida para administrar os sacramentos;
o essencial é que os homens recebam a
santidade interior e sobrenatural que os sacramentos
contêm; e comtanto que elles sejam dispensados
segundo as formulas consagradas, que importa que
o sacerdote seja santo ou peccador? O sacramento
communica a mesma virtude. Não é pelos meritos
do sacerdote que elles operam, mas pelos meritos
de Jesus Christo. O que é baptisado ou ungido, ou
seja por mãos puras ou por mãos torpes, fica
igualmente bem lavado da macula original, ou
bem preparado para a vida eterna. Isto lê-se em
todos os santos padres, estabeleceu-o o seraphico concilio
de Trento. Os fieis nada perdem, na sua alma
e na sua salvação, com a indignidade do parocho.
E se o parocho se arrepende á hora extrema, tambem
se lhe não fecham as portas do céo. Logo em
definitiva tudo acaba bem, e em paz geral...—E
o padre Amaro, raciocinando assim, sorvia com prazer
o seu café.
A Dionysia, ao fim do almoço, veio saber, muito
risonha, se o senhor parocho fallára ao tio Esguelhas...
—Fallei por alto, disse elle ambiguamente. Não
ha nada decidido... Roma não se construiu n'um
dia.
—Ah! fez ella.
E recolheu-se á cozinha, pensando que o senhor
parocho mentia como um hereje. Tambem, não se
importava... Nunca gostára de arranjos com os senhores
ecclesiasticos; pagavam mal, e suspeitavam
sempre...
E mesmo ouvindo Amaro que sahia, correu á escada
a dizer-lhe—que emfim, ella tinha a olhar pela
sua casa, e quando o senhor parocho tivesse arranjado
criada...
—A snr.
a D. Josepha Dias anda-me a tratar
d'isso,
Dionysia. Espero ter alguem ámanhã. Mas
vossê
appareça... Agora que somos amigos...
—Quando o senhor parocho quizer é chamar-me
da janella para o quintal, disse ella do alto da escada.
Para tudo que precisar. De tudo sei um bocadinho,
até de desarranjos e de partos... E n'este
ponto posso até dizer...
Mas o padre não a escutava: atirára com a porta
de repellão, fugindo, indignado d'aquella utilidade
torpe assim brutalmente offerecida.
Foi d'ahi a dias que elle fallou em casa da S.
Joanneira da filha do sineiro.
Na vespera dera o bilhete a Amelia; e n'essa
noite, emquanto na sala se galrava alto, aproximára-se
do piano, onde Amelia, com os dedos preguiçosos,
corria escalas, e abaixando-se para accender
o cigarro á vela, murmurára:
—Leu?
—Optimo!
Amaro recolheu logo ao grupo das senhoras, onde
a Gansoso estava contando uma catastrophe que
lêra n'um jornal, succedida em Inglaterra: uma mina
de carvão que desabára, sepultando cento e vinte
trabalhadores. As velhas arripiavam-se horrorisadas.
A Gansoso então, gozando o effeito, accumulou
loquazmente os detalhes: a gente que estava fóra
esforçára-se
por desatulhar os infelizes; ouviam-se-lhes
em baixo os gemidos e os ais; era ao lusco-fusco;
havia uma tormenta de neve...
—Desagradavel! rosnou o conego, aconchegando-se
na sua poltrona, gozando o calor da sala e a
segurança dos tectos.
A snr.
a D. Maria da
Assumpção declarou que todas
essas minas, essas machinas estrangeiras lhe causavam
medo. Vira uma fabrica ao pé d'Alcobaça, e
parecera-lhe uma imagem do inferno. Estava certa
que Nosso Senhor não as via com bons olhos...
—É como os caminhos de ferro, disse D. Josepha.
Tenho a certeza que foram inspirados pelo demonio!
Não o digo a rir. Mas vejam aquelles uivos,
aquelle fogaracho, aquelle fragor! Ai, arripia!
O padre Amaro galhofou,—assegurando á snr.
a
D. Josepha que eram ricamente commodos para andar
depressa! Mas, tornando-se logo sério, acrescentou:
—Em todo o caso é incontestavel, que ha n'essas
invenções da sciencia moderna muito do demonio.
E é por isso que a nossa santa Igreja as
abençôa,
primeiro com orações e depois com agua benta.
Hão de saber que é o costume. Com agua benta para
lhes fazer o exorcismo, expulsar o espirito inimigo:
e com orações para as resgatar do peccado
original
que não só existe no homem, mas nas coisas
que elle construe. É por isso que se benzem e se purificam
as locomotivas... Para que o demonio não
se possa servir d'ellas para seu uso.
D. Maria da Assumpção quiz immediatamente
uma explicação. Como era a maneira usual do
Inimigo
se servir dos caminhos de ferro?
O padre Amaro esclareceu-a, com bondade. O
Inimigo tinha muitas maneiras, mas a habitual era
esta: fazia descarrilar um trem de modo que morressem
passageiros, e como essas almas não estavam
preparadas pela Extrema-Unção, o demonio alli
mesmo,
zás, apoderava-se d'ellas!
—É de velhaco! rosnou o conego, com uma
admiração
secreta por aquella manha tão habil do Inimigo.
Mas D. Maria da Assumpção abanou-se
langorosamente,
com o rosto banhado n'um sorriso de beatitude:
—Ai, filhas! dizia pausadamente para os lados,
a nós é que não nos succedia isso...
Que não nos
pilhava desprevenidas!
Era verdade; e todas gozaram um momento
aquella certeza deliciosa de estarem preparadas, de
poderem lograr a malicia do Tentador!
O padre Amaro então tossiu como para preparar
as vias, e apoiando as duas mãos sobre a mesa,
n'um tom de pratica:
—É necessario muita vigilancia para conservar
de longe o demonio. Ainda hoje eu estava a pensar
n'isso (foi mesmo a minha meditação) a respeito
de
um caso bem triste que tenho lá ao pé da
Sé... É
a filhita do sineiro.
As senhoras tinham chegado as cadeiras, bebendo-lhe
as palavras, n'uma curiosidade subitamente
excitada, esperando ouvir a historia picante d'alguma
façanha de Satanaz. E o parocho continuou com uma
voz a que o silencio em redor dava solemnidade:
—Alli está aquella rapariga, todo o santo dia,
pregada na cama! Não sabe lêr, não tem
devoções
habituaes, não tem o costume da
meditação; é por
consequencia, para empregar a expressão de S.
Clemente—
uma
alma sem defeza. O que succede?
Que o demonio, que ronda constantemente e não
perde dentada, estabelece-se alli como em sua casa!
Por isso, como me dizia hoje o pobre tio Esguelhas,
são phrenesis, desesperos, furores sem razão...
Emfim
o pobre homem tem a vida estragada.
—E a dois passos da igreja do Senhor! exclamou
D. Maria da Assumpção, indignada d'aquella
impudencia de Satanaz,
installando-se
n'um corpo,
n'um leito, que apenas a estreiteza do pateo separava
dos contrafortes da Sé.
Amaro acudiu:
—Tem a D. Maria razão. O escandalo é enorme.
Mas então? Se a rapariga não sabe lêr!
Se não sabe
uma oração, se não tem quem a instrua,
quem lhe
leve a palavra de Deus, quem a fortifique, quem lhe
ensine o segredo de frustrar o Inimigo!...
Ergueu-se animado, deu alguns passos pela sala,
de hombros vergados, n'uma mágoa de pastor a
quem uma força desproporcional arrebata uma ovelha
amada. E, exaltado pelas suas palavras, sentia,
com effeito, uma piedade que o invadia, uma compaixão
verdadeira por aquella pobre creatura, a
quem a falta de consolações devia tornar mais
intensa
a agonia da immobilidade...
As senhoras olhavam-se, magoadas com aquelle
caso triste d'abandono d'alma,—sobretudo pela dôr
que elle parecia trazer ao senhor parocho.
A snr.
a D. Maria da
Assumpção, que percorria
em imaginação o abundante arsenal da
devoção,
lembrára logo que se lhe puzessem alguns santos á
cabeceira, como S. Vicente, Nossa Senhora das Sete
Chagas... Mas o silencio das amigas exprimiu bem
a insufficiencia d'aquella galeria devota.
—As senhoras dir-me-hão talvez, disse o padre
Amaro sentando-se de novo, que se trata apenas da
filha do sineiro. Mas é uma alma! É uma alma como
as nossas!
—Todos têm direito á graça do Senhor,
disse
o conego gravemente, n'um sentimento d'imparcialidade,
admittindo a igualdade das classes logo que
não se tratava de bens materiaes e apenas dos confortos
do céo.
—P'ra Deus não ha pobre nem rico, suspirou a
S. Joanneira. Antes pobre, que dos pobres é o reino
do céo!
—Não, antes rico, acudiu o conego, estendendo
a mão para deter aquella falsa
interpretação da lei
divina. Que o céo tambem é para os ricos. A
senhora
não comprehende o preceito.
Beati
pauperes, bemditos
os pobres, quer dizer que os pobres devem-se
achar felizes na pobreza; não desejarem os bens dos
ricos; não quererem mais que o bocado de pão que
têm; não aspirarem a participar das riquezas dos
outros, sob pena de não serem bemditos. É por
isso,
saiba a senhora, que essa canalha que préga que os
trabalhadores e as clases baixas devem viver melhor
do que vivem, vai d'encontro á expressa vontade da
Igreja e de Nosso Senhor, e não merece senão
chicote,
como excommungados que são! Ouf!
E estirou-se, extenuado de ter fallado tanto. O
padre Amaro, esse, permanecia calado, com o cotovêlo
sobre a mesa, esfregando devagar a testa. Ia
lançar a sua idéa, como vinda d'uma
inspiração divina,
propôr que fosse Amelia levar uma
educação
devota á triste paralytica... E hesitava supersticiosamente
diante do seu motivo todo carnal, todo de
concupiscencia. A filha do sineiro apparecia-lhe agora,
exageradamente, abysmada n'uma treva d'agonia.
Sentia toda a caridade que haveria em consolal-a,
entretel-a, fazer-lhe os dias menos amargos...
Esta acção redimiria decerto muitas culpas,
encantaria
Deus, se fosse feita n'um puro espirito de fraternidade
christã! Vinha-lhe uma compaixão sentimental
de bom rapaz por aquelle miseravel corpo
pregado n'uma cama, sem nunca vêr o sol nem a
rua... E alli estava embaraçado, n'aquella piedade
que o invadia, sem se decidir, coçando a nuca, arrependido
quasi de ter fallado ás senhoras da
Tótó...
Mas D. Joaquina Gansoso tivera uma idéa:
—Ó senhor padre Amaro, se se lhe mandasse
aquelle livro com pinturas de vidas dos santos?
Eram pinturas que edificavam. A mim tocavam-me
alma... Não és tu que o tens, Amelia?
—Não, disse ella, sem erguer os olhos da costura.
Amaro então olhou-a. Tinha-a quasi esquecido.
Estava agora do outro lado da mesa, abainhando
um esfregão: a risca muita fina desapparecia na
abundancia espessa do cabello, onde a luz do candieiro
ao lado punha um traço lustroso; as pestanas
pareciam mais longas, mais negras sobre a pelle
da face, d'um trigueiro calido, que uma tinta rosada
aquecia; o vestido justo, que se franzia n'uma
prega sobre o hombro, elevava-se amplamente sobre
a fórma dos peitos, que elle via arfar no rhythmo
da respiração igual... Era aquella a belleza que
mais appetecia n'ella; imaginava-os d'uma côr de
neve, redondos e cheios; tivera-a nos braços, sim,
mas vestida, e as suas mãos sôfregas tinham
encontrado
só a sêda fria... Mas na casa do sineiro seriam
d'elle, sem obstaculo, sem vestidos, á
disposição dos
seus labios. Por Deus! e nada impedia que ao mesmo
tempo consolassem a alma da Tótó! Não
hesitou
mais. E erguendo a voz, no meio do palratorio das
velhas que discutiam agora a desapparição da
Vida
dos Santos:
—Não, minhas senhoras, não é com
livros que
se vale á rapariga... Sabem a idéa que me veio?
Era um de nós, o que estiver menos occupado, levar-lhe
a palavra de Deus e educar aquella alma!—E
acrescentou, sorrindo:—E a fallar a verdade,
a pessoa mais desoccupada aqui de todos nós é a
menina Amelia...
Então foi uma surpreza! Pareceu a mesma vontade
de Nosso Senhor vinda n'uma revelação. Os
olhos de todas accenderam-se n'uma excitação
devota,
á idéa d'aquella missão de caridade,
que partia
alli d'ellas, da rua da Misericordia... Extasiavam-se,
no ante-gosto guloso dos elogios do senhor
chantre e do cabido! Cada uma dava o seu conselho,
n'uma assiduidade de participar da santa obra,
de partilharem as recompensas que o céo certamente
prodigalisaria. D. Joaquina Gansoso declarou com
calor que invejava Amelia; e chocou-se muito vendo-a
de repente rir.
—Imaginas que não o faria com a mesma
devoção?
Já estás com o orgulho da boa
acção... Olha
que assim não t'aproveita!
Mas Amelia continuava tomada d'um riso nervoso,
deitada para as costas da cadeira, suffocando-se
para se conter.
Os olhinhos de D. Joaquina chammejavam.
—É indecente, é indecente! gritava.
Calmaram-na: Amelia teve de lhe jurar sob os
Santos Evangelhos que fôra uma idéa extravagante
que tivera, que era nervoso...
—Ai, disse D. Maria da Assumpção, ella tem
razão
em s'orgulhar. Que é uma honra p'r'á casa! Em
se sabendo...
O parocho interrompeu com severidade:
—Mas não se deve saber, snr.
a D.
Maria da
Assumpção!
De que serve, aos olhos do Senhor, uma
boa obra de que se tire alarde e vangloria?
D. Maria vergou os hombros, humilhando-se á
reprehensão.
E Amaro, com gravidade:
—Isto não deve sahir d'aqui. É entre Deus e
nós. Queremos salvar uma alma, consolar uma enferma,
e não ter elogios nos periodicos. Pois não
é
assim, padre-mestre?
O conego ergueu-se pesadamente:
—Vossê esta noite tem fallado com a lingua de
ouro de S. Chrysostomo. Eu estou edificado; e não
se me dava agora de vêr apparecer as torradas.
Foi então, emquanto a
Ruça não
trazia o chá,
que se decidiu que Amelia, todas as semanas, uma
ou duas vezes segundo fosse a sua devoção,
iria
em
segredo, para que a acção fosse mais valiosa aos
olhos de Deus, passar uma hora à cabeceira da paralytica,
lêr-lhe a
Vida dos Santos,
ensinar-lhe rezas
e insufflar-lhe a virtude.
—Emfim, resumiu a snr.
a D. Maria da
Assumpção
voltando-se para Amelia, não te digo senão
uma coisa: abichaste!
A
Ruça entrou com o
taboleiro, no meio dos risos
que provocára a «tolice de D. Maria»,
como disse
Amelia, que se fizera escarlate.—E foi assim que
ella e o padre Amaro se puderam vêr livremente,
para gloria do Senhor e humilhação do Inimigo.
Encontravam-se todas as semanas, ora uma ora
duas vezes, de modo que as suas visitas caridosas
á paralytica perfizessem ao fim do mez o numero
symbolico de sete, que devia corresponder, na idéa
das devotas, ás
Sete
lições de Maria. Na vespera o
padre Amaro tinha prevenido o tio Esguelhas, que
deixava a porta da rua apenas cerrada, depois de
ter varrido toda a casa e preparado o quarto para
a pratica do senhor parocho. Amelia n'esses dias erguia-se
cedo: tinha sempre alguma saia branca a
engommar, algum laçarote a compôr; a
mãi estranhava-lhe
aquelles arrebiques, o desperdicio d'agua
de colonia de que ella se inundava; mas Amelia
explicava que «era para inspirar á
Tótó idéas de
aceio e de frescura». E depois de vestida sentava-se,
esperando as onze horas, muito séria, respondendo
distrahidamente ás conversas da mãi, com
uma côr nas faces, os olhos cravados nos ponteiros
do relogio: emfim a velha matraca gemia cavamente
as onze horas, e ella, depois d'uma olhadella ao
espelho, sahia, dando uma beijoca á mamã.
Ia sempre receosa, n'uma inquietação de ser
espreitada.
Todas as manhãs pedia a Nossa Senhora
da Boa Viagem que a livrasse de maus encontros; e
se via um pobre dava-lhe invariavelmente esmola,
para lisonjear os gostos de Nosso Senhor, amigo dos
mendigos e vagabundos. O que a assustava era o
largo da Sé, sobre o qual a Amparo da botica, costurando
por traz da janella, exercia uma vigilancia
incessante. Fazia-se então pequenina no seu mantelete,
e abaixando o guardasol sobre o rosto, entrava
emfim na Sé, sempre com o pé direito.
Mas a mudez da igreja, deserta e adormecida
n'uma luz fusca, amedrontava-a: parecia-lhe sentir,
na taciturnidade dos santos e das cruzes, uma reprehensão
ao seu peccado; imaginava que os olhos de
vidro das imagens, as pupillas pintadas dos paineis
se fixavam n'ella, com uma insistencia cruel, e percebiam
o arfar que ao seu seio dava a esperança do
prazer. Ás vezes mesmo, atravessada d'uma
superstição,
para dissipar o descontentamento dos santos,
promettia dar-se n'essa manhã toda á
Tótó, occupar-se
caridosamente só d'ella, e não se deixar tocar
sequer
no vestido pelo senhor padre Amaro. Mas se
ao entrar na casa do sineiro o não encontrava, ia logo,
sem se deter ao pé da cama da Tótó,
postar-se
à janella da cozinha, vigiando a porta massiça da
sacristia
de que ella conhecia uma por uma as chapas
negras de ferro.
Elle apparecia, emfim. Era então nos começos de
março; já tinham chegado as andorinhas;
ouviam-n'as
chilrear, n'aquelle silencio melancolico, esvoaçando
entre os contrafortes da Sé. Aqui e além,
plantas dos logares humidos cobriam os cantos d'uma
verdura escura. Amaro, ás vezes muito galante, ia
procurar uma florzinha. Amelia impacientava-se, rufava
na vidraça da cozinha. Elle apressava-se; ficavam
um momento á porta, apertando-se as mãos,
com olhos brilhantes que se devoravam; e iam emfim
vêr a Tótó—e dar-lhe os bolos que o
parocho
lhe trazia no bolso da batina.
A cama da Tótó era na alcova, ao lado da cozinha;
o seu corpinho de tisica quasi não fazia saliencia
enterrado na cova da enxerga, sob os cobertores
enxovalhados que ella se entretinha a esfiar. N'esses
dias tinha vestido um chambre branco, os cabellos
reluziam-lhe d'oleo; porque ultimamente, desde as
visitas d'Amaro, viera-lhe «uma birra de parecer
alguem»,
como dizia encantado o tio Esguelhas, a
ponto de se não querer separar d'um espelho e
d'um pente que escondia debaixo do travesseiro e
obrigar o pai a encafuar sob a cama, entre a roupa
suja, as bonecas que agora desprezava.
Amelia sentava-se um instante aos pés do catre,
perguntando-lhe se estudára o A B C, obrigando-a a
dizer aqui e além o nome d'uma letra. Depois queria
que ella repetisse sem a errar a oração que lhe
andava ensinando;—emquanto o padre, sem passar
da porta, esperava, com as mãos nos bolsos, enfastiado,
embaraçado com os olhos reluzentes da paralytica
que o não deixavam, penetrando-o, percorrendo-lhe
o corpo com pasmo e com ardor, e que
pareciam maiores e mais brilhantes no seu rosto trigueiro
tão chupado que se lhe via a saliencia das
maxillas. Não sentia agora nem compaixão nem
caridade
pela Tótó; detestava aquella demora; achava
a rapariga selvagem e embirrenta. A Amelia tambem
pesavam aquelles momentos em que, para não escandalisar
muito Nosso Senhor, se resignava a fallar
à paralytica. A Tótó parecia odial-a;
respondia-lhe
muito carrancuda; outras vezes persistia n'um silencio
rancoroso, voltada para a parede; um dia
despedaçára
o alphabeto; e encolhia-se toda encruada
se Amelia lhe queria compor o chale sobre os hombros
ou conchegar-lhe a roupa...
Emfim Amaro, impaciente, fazia um signal a
Amelia; ella punha logo diante da Tótó o livro
com
estampas da
Vida dos Santos.
—Vá, ficas agora a vêr as figuras... Olha, este
é S. Matheus, esta Santa Virginia... Adeus, eu vou
lá a cima com o senhor parocho rezarmos para que
Deus te dê saude e te deixe ir passear... Não
estragues
o livro, que é peccado.
E subiam a escada, emquanto a paralytica, estendendo
o pescoço sôfregamente, os seguia, escutando
o ranger dos degraus, com olhos chammejantes
que lagrimas de raiva ennevoavam. O quarto,
em cima, era muito baixo, sem forro, com um tecto
de vigas negras sobre que assentavam as telhas. Ao
lado da cama pendia a candeia que puzera sobre a
parede um penacho negro do fumo. E Amaro ria
sempre dos preparativos que fizera o tio Esguelhas—a
mesa ao canto com o Novo Testamento, uma
caneca d'agua, e duas cadeiras dispostas ao lado...
—É p'r'á nossa conferencia, para te ensinar os
deveres de freira, dizia elle, galhofando.
—Ensina, então! murmurava ella de braços
abertos, pondo-se diante do padre, com um sorriso
calido onde brilhava um branquinho dos dentes,
n'um abandono que se offerecia.
Elle atirava-lhe beijos vorazes pelo pescoço, pelos
cabellos; às vezes mordia-lhe a orelha; ella dava
um gritinho; e ficavam então muito quedos, escutando,
com medo da paralytica em baixo. O parocho
depois fechava as portadas da janella e a porta
muito perra que tinha d'empurrar com o joelho.
Amelia ia-se despindo devagar; e com as saias cahidas
aos pés ficava um momento immovel, como
uma fórma branca na escuridão do quarto. Em redor
o padre, preparando-se, respirava forte. Ella então
persignava-se depressa, e sempre ao subir para
o leito dava um suspirosinho triste.
Amelia só podia demorar-se até ao meio dia. O
padre Amaro por isso pendurava o seu
cebolão no
prego da candeia. Mas quando não ouviam as badaladas
da torre, Amelia conhecia a hora pelo cantar
d'um gallo visinho.
—Devo ir, filho, murmurava toda cansada.
—Deixa lá... Estás sempre com a pressa...
Ficavam ainda um momento calados, n'uma lassidão
dôce, muito chegados um ao outro. Pelas vigas
separadas do telhado mal junto viam aqui e
além fendas de luz: ás vezes sentiam um gato, com
as suas passadas fofas, vadiar, fazendo bolir alguma
telha solta; ou um passaro, pousando, chilreava e
ouviam-lhe o fremito das azas.
—Ai, são horas, dizia Amelia.
O padre queria detel-a; não se fartava de lhe
beijar a orelhinha.
—Lambão! murmurava ella. Deixa-me!
Vestia-se á pressa no escuro do quarto; depois
ia abrir a janella, vinha ainda abraçar o pescoço
de
Amaro, que ficára estatelado sobre o leito; e ia emfim
arrastar a mesa e as cadeiras, para a paralytica
sentir em baixo, saber que tinha acabado a conferencia.
Amaro não findava ainda de a beijocar: ella
então,
para acabar, fugia-lhe, ia escancarar a porta do
quarto; o padre descia, atravessava em duas passadas
a cozinha sem olhar para a Tótó, e entrava na
sacristia.
Amelia, essa, antes de sahir, vinha vêr a paralytica,
saber se gostára das estampas. Encontrava-a
ás vezes com a cabeça debaixo dos cobertores, que
entalava e prendia com as mãos para se
esconder;
outras vezes, sentada na cama, examinava Amelia
com olhos em que se accendia uma curiosidade viciosa;
chegava o rosto para ella, com as narinas dilatadas
que pareciam cheiral-a; Amelia recuava, inquieta,
córando tambem; queixava-se então de ser
tarde, recolhia a
Vida dos
Santos,—e sahia, amaldiçoando
aquella creatura tão maliciosa na sua mudez.
Ao passar no largo, áquella hora, via sempre a
Amparo á janella. Ultimamente mesmo julgára
prudente
contar-lhe em segredo a sua caridade com a
Tótó. A Amparo, mal a via, chamava-a; e
debruçando-se
toda na varanda:
—Então como vai a Tótó?
—Lá vai.
—Já lê?
—Já soletra.
—E a oração a Nossa Senhora?
—Já a diz.
—Ai, que devoção a tua, filha!
Amelia baixava os olhos, modesta. E o Carlos,
que estava tambem no segredo, deixava o balcão
para vir á porta admirar Amelia.
—Vem da sua grande missão de caridade, hein?
dizia, d'olho arregalado, balanceando-se na ponta das
chinelas.
—Estive um bocado com a pequena, a entretel-a...
—Grandioso! murmurava o Carlos. Um apostolado!
Pois vá, minha santa menina, recados á
mamã.
Voltava-se então para dentro, para o praticante:
—Veja o snr. Augusto aquillo... Em logar de
passar o seu tempo, como as outras, em namoros,
faz-se anjo da guarda! Passa a flôr dos annos com
uma entrevada! Veja o senhor se a philosophia, o
materialismo, e essas porcarias são capazes d'inspirar
acções d'este jaez... Só a
religião, meu caro
senhor! Eu queria que os Renans e essa cambada
de philosophos vissem isto! Que eu, tenha o senhor
em vista, admiro a philosophia, mas quando ella,
por assim dizer, vai de mãos dadas com a
religião...
Sou homem de sciencia e admiro um Newton,
um Guizot... Mas (e grave o senhor estas palavras)
se a philosophia se afasta da religião... (grave
bem estas palavras) dentro de dez annos, snr.
Augusto, está a philosophia enterrada!
E continuava a mexer-se pela pharmacia a passos
lentos, de mãos atraz das costas, ruminando o
fim da philosophia.
XVIII
Foi aquelle o periodo mais feliz da vida de
Amaro.
«Ando na graça de Deus», pensava elle
ás vezes
á noite, ao despir-se, quando por um habito ecclesiastico,
fazendo o exame dos seus dias, via que
elles se seguiam faceis, tão confortaveis, tão
regularmente
gozados. Não houvera, nos ultimos dois mezes,
nem attritos nem difficuldades no serviço da parochia;
todo o mundo, como dizia o padre Saldanha,
andava d'um humor de santo. D. Josepha Dias
arranjára-lhe muito barata uma cozinheira excellente,
e que se chamava Escolastica. Na rua da Misericordia
tinha a sua côrte admiradora e devota; cada
semana, uma ou duas vezes, vinha áquella hora deliciosa
e celeste na casa do tio Esguelhas; e para
completar a harmonia até a estação ia
tão linda, que
já no Morenal começavam a abrir as rosas.
Mas o que o encantava era que nem as velhas,
nem os padres, ninguem da sacristia suspeitava os
seus
rendez-vous com Amelia.
Aquellas visitas á Tótó
tinham entrado nos costumes da casa; chamavam-lhe
«as devoções da pequena»; e
não a interrogavam
com particularidades, pelo principio beato que
as devoções são um segredo que se tem
com Nosso
Senhor. Só ás vezes alguma das senhoras
perguntava
a Amelia—como ia a doente; ella assegurava
que estava muito mudada, que começava a abrir
os olhos á lei de Deus; então, muito
discretamente,
fallavam de coisas differentes. Havia apenas o
plano vago de irem um dia, mais tarde, quando
a Tótó soubesse bem o seu catecismo e pela
efficacia
da oração se tivesse tornado boa, admirar
em romaria a obra santa de Amelia e a humilhação
do Inimigo.
Amelia mesmo, perante esta confiança tão larga
na sua virtude, propuzera um dia a Amaro, como
muito habil—dizer ás amigas que o senhor parocho
ás vezes vinha assistir á pratica piedosa que
ella fazia
á Tótó...
—Assim, se alguem te surprehendesse a entrar
para a casa do tio Esguelhas, já não havia
suspeitas.
—Não me parece necessario, disse elle. Deus
está comnosco, filha, é claro. Não
queiramos intrometter-nos
nos seus planos. Elle vê mais longe que
nós...
Ella concordou logo—como em tudo que sahia
dos seus labios. Desde a primeira manhã, na casa
do tio Esguelhas, ella abandonára-se-lhe absolutamente,
toda inteira, corpo, alma, vontade e sentimento:
não havia na sua pelle um cabellinho, não
corria no seu cerebro uma idéa a mais pequenina,
que não pertencesse ao senhor parocho. Aquella
possessão de todo o seu sêr não a
invadira gradualmente;
fôra completa, no momento que os seus
fortes braços se tinham fechado sobre ella. Parecia
que os beijos d'elle lhe tinham sorvido, esgotado a
alma: agora era como uma dependencia inerte da
sua pessoa. E não lh'o occultava; gozava em se humilhar,
offerecer-se sempre, sentir-se toda d'elle, toda
escrava; queria que elle pensasse por ella e vivesse
por ella; descarregára-se n'elle, com
satisfação,
d'aquelle fardo da responsabilidade que sempre
lhe pesára na vida; os seus juizos agora vinham-lhe
formados do cerebro do parocho, tão naturalmente
como se sahisse do coração d'elle o sangue que
lhe
corria nas veias. «O senhor parocho queria ou o senhor
parocho dizia» era para ella uma razão toda
sufficiente e toda poderosa. Vivia com os olhos n'elle,
n'uma obediencia animal: tinha só a curvar-se
quando elle fallava, e quando vinha o momento a
desapertar o vestido.
Amaro gozava prodigiosamente esta dominação;
ella desforrava-o de todo um passado de dependencias—a
casa do tio, o seminario, a sala branca do
senhor conde de Ribamar... A sua existencia de padre
era uma curvatura humilde que lhe fatigava a
alma; vivia da obediencia ao senhor bispo, á camara
ecclesiastica, aos canones, á Regra que nem lhe
permittia ter uma vontade propria nas suas
relações
com o sacristão. E agora, emfim, tinha alli aos seus
pés aquelle corpo, aquella alma, aquelle sêr vivo
sobre
quem reinava com despotismo. Se passava os
seus dias, por profissão, louvando, adorando e incensando
Deus,—era elle tambem agora o Deus
d'uma creatura que o temia e lhe dava uma devoção
pontual. Para ella ao menos, era bello, superior
aos condes e aos duques, tão digno da mitra como
os mais sabios. Ella mesmo, um dia, dissera-lhe, depois
de ter estado um momento pensativa:
—Tu podias chegar a Papa!
—D'esta massa se fazem, respondeu elle com
seriedade.
Ella acreditava-o—com um receio, todavia, que
as altas dignidades o afastassem d'ella, o levassem
para longe de Leiria. Aquella paixão, em que estava
abysmada e que a saturava, tornára-a estupida e
obtusa a tudo o que não respeitava ao senhor parocho
ou ao seu amor. Amaro de resto não lhe consentia
interesses, curiosidades alheias á sua pessoa.
Prohibia-lhe até que lêsse romances e poesias.
Para
que se havia de fazer doutora? Que lhe importava
o que ia no mundo? Um dia que ella fallára, com
algum appetite, d'um baile que iam dar os Vias-Claras,
offendeu-se como d'uma traição. Fez-lhe em
casa do tio Esguelhas accusações tremendas: era
uma vaidosa, uma perdida, uma filha de Satanaz!...
—Mas mato-te! Percebes? Mato-te!—exclamou,
agarrando-lhe os pulsos, fulminando-a com o olhar
accêso.
Tinha um medo, que o pungia, de a vêr subtrahir-se
ao seu imperio, perder-lhe a adoração muda
e absoluta. Pensava ás vezes que ella se fatigaria,
com o tempo, d'um homem que não lhe satisfazia
as vaidades e os gostos de mulher, sempre mettido
na sua batina negra, com a cara rapada e a corôa
aberta. Imaginava que as gravatas de côres, os bigodes
bem torcidos, um cavallo que trota, um uniforme
de lanceiros exercem sobre as mulheres uma
fascinação decisiva. E se a ouvia fallar d'algum
official
do destacamento, d'algum cavalheiro da cidade,
eram ciumes desabridos...
—Góstas d'elle? Hein? É pelos trapos, pelo
bigode?...
—Gósto d'elle! Oh, filho, eu nunca vi o homem!
Mas escusava de fallar da creatura, então! Era
ter curiosidade, pôr o pensamento n'outro! D'essas
faltas de vigilancia sobre a alma e a vontade é que
se aproveitava o demonio!...
Viera assim a ter um odio a todo o mundo secular—que
a poderia attrahir, arrastar para fóra da
sombra da sua batina. Impedia-lhe, com pretextos
complicados, toda a communicação com a cidade.
Convenceu mesmo a mãi que a não deixasse ir
só
á Arcada e ás lojas. E não cessava de
lhe representar
os homens como monstros d'impiedade, cobertos
de peccados como d'uma crosta, estupidos e falsos,
votados ao inferno! Contava-lhe horrores de quasi
todos os rapazes de Leiria. Ella perguntava-lhe aterrada,
mas curiosa:
—Como sabes tu?
—Não te posso dizer, respondia com uma reticencia,
indicando que lhe fechava os labios o segredo
da comfissão.
E ao mesmo tempo martellava-lhe os ouvidos
com a glorificação do sacerdocio. Desenrolava-lhe
com pompa a erudição dos seus antigos compendios,
fazendo-lhe o elogio das funcções, da
superioridade
do padre. No Egypto, grande nação da antiguidade,
o homem só podia ser rei se era sacerdote! Na Persia,
na Ethiopia, um simples padre tinha o privilegio
de desthronar os reis, dispôr das corôas! Onde
havia
uma auctoridade igual á sua? Nem mesmo na
côrte do céo. O padre era superior aos anjos e aos
seraphins—porque a elles não fôra dado como ao
padre o poder maravilhoso de perdoar os peccados!
Mesmo a Virgem Maria, tinha ella um poder maior
que elle, padre Amaro? Não: com todo o respeito
devido à magestade de Nossa Senhora, elle podia dizer
com S. Bernardino de Sena: «o sacerdote excede-te,
ó mãi amada!»—porque, se a Virgem
tinha
incarnado Deus no seu castissimo seio, fôra só uma
vez, e o padre, no santo sacrificio da missa, incarnava
Deus todos os dias! E isto não era argucia
d'elle, todos os santos padres o admittiam...
—Hein, que te parece?
—Oh, filho! murmurava ella pasmada, desfallecida
de voluptuosidade.
Então deslumbrava-a com citações
venerandas:
S. Clemente, que chamou ao padre «o Deus da terra»;
o eloquente S. Chrysostomo, que disse «que o
padre é o embaixador que vem dar as ordens de
Deus». E Santo Ambrosio que escreveu: «entre a
dignidade do rei e a dignidade do padre ha maior
differença que a que existe entre o chumbo e o
ouro»!
—E o ouro é cá o menino, dizia Amaro com
palmadinhas no peito. Que te parece?
Ella atirava-se-lhe aos braços, com beijos vorazes,
como para tocar, possuir n'elle o «ouro de Santo
Ambrosio», o «embaixador de Deus», tudo o
que
na terra havia mais alto e mais nobre, o sêr que
excede em graça os archanjos!
Era este poder divino do padre, esta familiaridade
com Deus, tanto ou mais que a influencia da sua
voz—que a faziam crêr na promessa que elle lhe
repetia sempre: que ser amada por um padre chamaria
sobre ella o interesse, a amizade de Deus;
que depois de morta dois anjos viriam tomal-a pela
mão para a acompanhar e desfazer todas as duvidas
que pudesse ter S. Pedro, chaveiro do céo; e que
na sua sepultura, como succedera em França a uma
rapariga amada por um cura, nasceriam espontaneamente
rosas brancas, como prova celeste de que a
virgindade não se estraga nos abraços santos d'um
padre...
Isto encantava-a. Áquella idéa da sua cova
perfumada
de rosas brancas, ficava toda pensativa, n'um
antegosto de felicidades mysticas, com suspirinhos
de gozo. Affirmava, fazendo beicinho, que queria
morrer.
Amaro galhofava.
—A fallar da morte, com essas carnesinhas...
Engordára com effeito. Estava agora d'uma belleza
ampla e toda igual. Perdera aquella expressão
inquieta que lhe punha nos labios uma seccura e lhe
afilava o nariz. Nos seus beiços havia um vermelho
quente e humido; o seu olhar tinha risos sob um
fluido sereno; toda a sua pessoa uma apparencia
madura de fecundidade. Fizera-se preguiçosa: em
casa, a cada momento suspendia o seu trabalho, ficava
a olhar longamente com um sorriso mudo e fixo;
e tudo parecia ficar adormecido um momento,
a agulha, o panno que ella costurava, toda a sua
pessoa... Estava revendo o quarto do sineiro, o catre,
o senhor parocho em mangas de camisa.
Passava os seus dias esperando as oito horas, em
que elle apparecia regularmente com o conego. Mas
os serões agora pezavam-lhe. Elle
recommendára-lhe
muita reserva; ella exagerava-a, por um excesso de
obediencia, a ponto de nunca se sentar ao pé d'elle
ao chá, e de nem mesmo lhe offerecer bolos. Odiava
então a presença das velhas, a gralhada das
vozes,
as pachorras do quino: tudo lhe parecia intoleravel
no mundo, excepto estar só com elle... Mas
depois, em casa do sineiro, que desforra! Aquelle
rosto todo alterado, aquellas suffocações de
delirio,
aquelles ais agonisantes, depois a immobilidade da
morte, assustavam ás vezes o padre. Erguia-se no
cotovêlo, inquieto:
—Estás incommodada?
Ella abria os olhos espantados, como resurgindo
de muito longe; e era realmente bella, cruzando os
braços nús sobre o peito descoberto, dizendo
lentamente
com a cabeça que não...
XIX
Uma circumstancia inesperada veio estragar
aquellas manhãs da casa do sineiro. Foi a extravagancia
da Tótó. Como disse o padre Amaro, «a
rapariga
sahia-lhes um monstro»!
Tinha agora por Amelia uma aversão desabrida.
Apenas ella se aproximava da cama, atirava a cabeça
para debaixo dos cobertores, torcendo-se com
phrenesi se lhe sentia a mão ou a voz. Amelia fugia,
impressionada com a idéa de que o diabo que
habitava a Tótó, recebendo o cheiro que ella
trazia
da igreja nos vestidos, impregnados d'incenso e salpicados
d'agua benta, se espolinhava de terror dentro
do corpo da rapariga...
Amaro quiz reprehender a Tótó, fazer-lhe sentir,
em palavras tremendas, a sua ingratidão demoniaca
para com a menina Amelia que vinha entretel-a,
ensinal-a a conversar com Nosso Senhor... Mas
a paralytica rompeu n'um chôro hysterico; depois,
de repente, ficou immovel, hirta, esbugalhando os
olhos em alvo, com uma escuma branca na bôca.
Foi um grande susto; inundaram-lhe a cama d'agua;
Amaro, por prudencia, recitou os exorcismos... E
Amelia desde então resolveu «deixar a fera em
paz». Não tentou mais ensinar-lhe o alphabeto, nem
orações a Sant'Anna.
Mas, por escrupulo, iam sempre ao entrar vêl-a
um instante. Não passavam da porta da alcova,
perguntando-lhe
d'alto «como ia». Nunca respondia. E
elles retiravam-se logo aterrados com aquelles olhos
selvagens e brilhantes, que os devoravam, indo d'um
a outro, percorrendo-lhes o corpo, fixando-se com
uma faiscação metallica nos vestidos d'Amelia e
na
batina do padre, como para lhe adivinhar o que estava
por baixo, n'uma curiosidade avida que lhe dilatava
desesperadamente as narinas e lhe arreganhava
os beiços lividos. Mas era a mudez, obstinada
e rancorosa, que os incommodava sobretudo. Amaro,
que não acreditava muito em possessos e endemoninhados,
via alli os symptomas de
loucura
furiosa.
Os sustos d'Amelia augmentaram.—Felizmente que
as pernas inertes cravavam a Tótó alli na
enxerga!
Senão, Jesus, era capaz de lhes entrar no quarto e
mordêl-os n'um accesso!
Declarou a Amaro que nem lhe sabia bem o prazer
da manhã, «depois d'aquelle
espectaculo»; e
decidiu então, d'ahi por diante, subir para o quarto
sem fallar á Tótó.
Foi peor. Quando a via atravessar da porta da
rua para a escada, a Tótó debruçava-se
para fóra
do leito, agarrada ás bordas da enxerga, n'um
esforço
ancioso para a seguir, para a vêr, com a face
toda descomposta do desespero da sua immobilidade.
E Amelia ao entrar no quarto sentia vir de baixo
uma risadinha sêcca, ou um
ui! prolongado e
uivado que a gelava...
Andava agora aterrada: viera-lhe a idéa que
Deus estabelecera alli, ao lado do seu amor com o
parocho, um demonio implacavel para a escarnecer
e apupar. Amaro, querendo-a tranquillisar, dizia-lhe
que o nosso santo padre Pio IX, ultimamente, declarára
peccado crêr em
pessoas
possessas...
—Mas para que ha rezas, então, e exorcismos?
—Isso é da religião velha. Agora vai-se mudar
tudo isso... Emfim a sciencia é a sciencia...
Ella presentia que Amaro a enganava—e a Tótó
estragava a sua felicidade. Emfim Amaro achou o
meio de escaparem «á maldita rapariga»:
era entrarem
ambos pela sacristia: tinham apenas a atravessar
a cozinha para subir a escada, e a posição
da cama da Tótó, na alcova, não lhe
permittia vêl-os,
quando elles cautelosamente passassem pé ante pé.
Era facil, de resto, porque á hora do
rendez-vous,
entre as onze e o meio dia, nos dias de semana, a
sacristia estava deserta.
Mas succedia que, quando elles entravam em
pontas de pés e mordendo a respiração,
os seus
passos, por mais subtis, faziam ranger os velhos degraus
da escada. E então a voz da Tótó sahia
da
alcova, uma voz rouca e aspera, berrando:
—Passa fóra cão! passa fóra
cão!
Amaro tinha um desejo furioso de estrangular a
paralytica. Amelia tremia, toda branca.
E a creatura uivava de dentro:
—Lá vão os cães! lá
vão os cães!
Elles refugiavam-se no quarto, aferrolhando-se
por dentro. Mas aquella voz d'um desolamento lugubre,
que lhes parecia vir dos infernos, chegava-lhes
ainda, perseguia-os:
—Estão a pegar-se os cães! estão a
pegar-se os
cães!
Amelia cahia sobre o catre, quasi desmaiada de
terror. Jurava não voltar áquella casa maldita...
—Mas que diabo queres tu? dizia-lhe o padre
furioso. Onde nos havemos de vêr então? Queres
que nos deitemos nos bancos da sacristia?
—Mas que lhe fiz eu? que lhe fiz eu? exclamava
Amelia, apertando as mãos.
—Nada! É doida... E o pobre tio Esguelhas
tem tido um desgosto... Emfim, que queres que
lhe faça?
Ella não respondia. Mas em casa, quando se ia
aproximando o dia de
rendez-vous,
começava a tremer
á idéa d'aquella voz que lhe atroava sempre
nos ouvidos e que sentia em sonhos. E este terror
ia-a despertando lentamente do adormecimento de
todo o sêr, era que cahira nos braços do parocho.
Interrogava-se agora: não andaria commettendo um
peccado irremissivel? As affirmações de Amaro,
assegurando-lhe
o perdão do Senhor, já não a
tranquillisavam.
Ella bem via, quando a Tótó uivava,
uma pallidez cobrir o rosto do parocho, como correr-lhe
no corpo um calefrio do inferno entrevisto. E se
Deus os desculpava—porque deixava assim o demonio
atirar-lhes, pela voz da paralytica, a injuria e
o escarneo?
Ajoelhava então aos pés da cama, arremessava
orações sem fim para Nossa Senhora das
Dôres, pedindo-lhe
que a alumiasse, que lhe dissesse o que
era aquella perseguição da
Tótó, e se era sua intenção
divina mandar-lhe assim um aviso medonho.
Mas Nossa Senhora não lhe respondia. Não a sentia
como outr'ora descer do céo ás suas
orações, entrar-lhe
na alma aquella tranquillidade suave como
uma onda de leite que era uma visitação da
Senhora.
Ficava toda murcha, torcendo as mãos,
abandonada da graça. Promettia então
não voltar a
casa do sineiro;—mas quando o dia chegava, á
idéa d'Amaro, do leito, d'aquelles beijos que lhe levavam
a alma, d'aquelle fogo que a penetrava, sentia-se
toda fraca contra a tentação; vestia-se, jurando
que era a ultima vez; e ao toque das onze partia,
com as orelhas a arder, o coração tremendo da
voz da Tótó que ia ouvir, as entranhas
abrazando-se
no desejo do homem que a ia atirar para cima
da enxerga.
Ao entrar na igreja não rezava, com medo dos
santos.
Corria para a sacristia para se refugiar em Amaro, abrigar-se
á auctoridade sagrada da sua batina. Elle então,
vendo-a chegar tão pallida e
tão
transtornada, galhofava para a tranquillisar. Não,
era uma tolice, se iam agora estragar o regalosinho
d'aquellas manhãs, porque havia uma doida na
casa! Promettera-lhe de resto procurar outro sitio
para se vêrem: e mesmo com o fim de a distrahir,
aproveitando a solidão da sacristia, mostrava-lhe
ás
vezes os paramentos, os calices, as vestimentas, procurando
interessal-a por um frontal novo ou por
uma antiga renda de sobrepelliz, provando-lhe, pela
familiaridade com que tocava nas reliquias, que era
ainda o senhor parocho e não perdera o seu credito
no céo.
Foi assim que uma manhã lhe fez vêr uma capa
de Nossa Senhora, que havia dias chegára de presente
d'uma devota rica d'Ourem. Amelia admirou-a
muito. Era de setim azul, representando um firmamento,
com estrellas bordadas, e um centro, de lavor
rico, onde flammejava um coração d'ouro cercado
de rosas d'ouro. Amaro desdobrára-a, fazendo
scintillar junto da janella os bordados espessos.
—Rica obra, hein? centos de mil reis... Experimentamol-a
hontem na imagem... Vai-lhe como
um brinco. Um bocadito comprida, talvez...—E
olhando Amelia, n'uma comparação da sua alta
estatura
com a figura atarracada da imagem da Senhora:—A
ti é que te havia de ficar bem. Deixa vêr...
Ella recuou:
—Não, credo, que peccado!
—Tolice! disse elle adiantando-se com a capa
aberta, mostrando o forro de setim branco, d'uma
alvura de nuvem matutina. Não está benzida...
É
como se viesse da modista.
—Não, não, dizia ella frouxamente, com os
olhos já luzidios de desejo.
Elle então zangou-se. Queria talvez saber melhor
do que elle o que era peccado, não? Vinha agora a
menina ensinar-lhe o respeito que se deve aos vestuarios
dos santos?
—Ora não seja tola. Deixe vêr.
Poz-lh'a nos hombros, apertou-lhe sobre o peito
o fecho de prata lavrada. E afastou-se para a contemplar
toda envolvida no manto, assustada e immovel,
com um sorriso cálido de gozo devoto.
—Oh filhinha, que linda que ficas!
Ella então, movendo-se com uma cautela solemne,
chegou-se ao espelho da sacristia—um antigo
espelho de reflexo esverdeado com um caixilho
negro de carvalho lavrado, tendo no topo uma cruz.
Mirou-se um momento, n'aquella sêda azul celeste
que a envolvia toda, picada do brilho agudo das estrellas,
com uma magnificencia sideral. Sentia-lhe o
peso rico. A santidade que o manto adquirira no
contacto com os hombros da imagem penetrava-a
d'uma voluptuosidade beata. Um fluido mais dôce
que o ar da terra envolvia-a, fazia-lhe passar no
corpo a caricia do ether do paraiso. Parecia-lhe ser
uma santa no andor, ou mais alto, no céo...
Amaro babava-se para ella:
—Oh filhinha, és mais linda que Nossa Senhora!
Ella deu uma olhadella viva ao espelho. Era, decerto,
linda. Não tanto como Nossa Senhora... Mas
com o seu rosto trigueiro, de labios rubros, alumiado
por aquelle rebrilho dos olhos negros, se estivesse
sobre o altar, com cantos ao orgão e um culto
susurrando em redor, faria palpitar bem forte o
coração dos fieis...
Amaro então chegou-se por detraz d'ella, cruzou-lhe
os braços sobre o seio, apertou-a toda—e
estendendo os labios por sobre os d'ella, deu-lhe
um beijo mudo, muito longo... Os olhos d'Amelia
cerravam-se, a cabeça inclinava-se-lhe para traz, pesada
de desejo. Os beiços do padre não se desprendiam,
avidos, sorvendo-lhe a alma. A respiração d'ella
apressava-se, os joelhos tremiam-lhe: e com um
gemido desfalleceu sobre o hombro do padre, descórada
e morta de gozo.
Mas endireitou-se de repente, fixou Amaro batendo
as palpebras como acordada de muito longe;
uma onda de sangue escaldou-lhe o rosto:
—Oh Amaro, que horror, que peccado!...
—Tolice! disse elle.
Mas ella desprendia-se do manto, toda afflicta:
—Tira-m'o, tira-m'o! gritava, como se a sêda
a queimasse.
Então Amaro fez-se muito sério. Realmente
não
se devia brincar com coisas sagradas...
—Mas não está benzida... Não tem
duvida...
Dobrou o manto cuidadosamente, envolveu-o no
lençol branco, collocou-o no gavetão, sem uma
palavra.
Amelia olhava-o petrificada: e só os seus labios
pallidos se moviam n'uma oração.
Quando elle lhe disse, emfim, que eram horas
d'irem a casa do sineiro—recuou, como diante do
demonio que a chamasse.
—Hoje não! exclamou, implorando-o.
Elle insistiu. Era levar realmente muito longe a
pieguice... Ella bem sabia que não era peccado,
quando as coisas não estavam benzidas... Era ser
muito pobre d'espirito... Que demonio, só meia hora,
ou um quarto d'hora!
Ella, sem responder, ia-se aproximando da porta.
—Então não queres?
Ella voltou-se, e com uns olhos supplicantes:
—Hoje não!
Amaro encolheu os hombros. E Amelia atravessou
rapidamente a igreja, de cabeça baixa e olhos
nas lages, como se passasse entre as ameaças cruzadas
dos santos indignados.
No dia seguinte de manhã, a S. Joanneira, que
estava na sala de jantar, sentindo o senhor conego
subir soprando forte, veio encontral-o á escada e fechou-se
com elle na saleta.
Queria contar-lhe a afflicção que tivera de
madrugada.
A Amelia acordára de repente aos gritos,
que Nossa Senhora lhe estava a pousar o pé no
pescoço!
que suffocava! que a Tótó a queimava por detraz!
e que as labaredas do inferno subiam mais alto
que as torres da Sé!... Emfim um horror!... Viera
encontral-a em camisa a correr pelo quarto, como
doida. D'ahi a pouco cahira para o lado com um ataque
de nervos. Toda a casa estivera em alvoroço...
A pobre pequena lá estava de cama, e em toda a
manhã apenas tocára n'uma colher de caldo.
—Pesadêlos, disse o conego. Indigestão!
—Ai, senhor conego, não! exclamou a S. Joanneira,
que parecia acabrunhada, sentada diante d'elle
na borda d'uma cadeira. É outra coisa: são
aquellas
desgraçadas visitas á filha do sineiro!
E então desabafou, com a effusão labial de quem
abre os diques a um descontentamento accumulado.
Nunca quizera dizer nada, porque emfim reconhecia
que era uma grande obra de caridade. Mas,
desde que aquillo começára, a rapariga parecia
transtornada.
Ultimamente, então, andava de todo. Ora
alegrias sem razão, ora umas trombas de dar melancolia
aos moveis. De noite sentia-a passear pela
casa até tarde, abrir as janellas... Ás vezes
tinha
até medo de lhe vêr o olhar tão
exquisito: quando
vinha de casa do sineiro era sempre branca como
a cal, a cahir de fraqueza. Tinha de tomar logo
um caldo... Emfim, dizia-se que a Tótó tinha o
demonio
no corpo. E o senhor chantre, o outro que
tinha morrido (Deus lhe falle n'alma), costumava
dizer que n'este mundo as duas coisas que se pegavam
mais ás mulheres eram tisicas e demonio no
corpo. Parecia-lhe, pois, que não devia consentir
que a pequena fosse a casa do sineiro, sem estar
certa que aquillo nem lhe prejudicava a saude nem
lhe prejudicava a alma. Emfim, queria que uma
pessoa de juizo, d'experiencia, fosse examinar a
Tótó...
—N'uma palavra, disse o conego que escutára
d'olhos cerrados aquella verbosidade repassada de
lamuria, o que a senhora quer é que eu vá
vêr a
paralytica e saber á justa o que se passa...
—Era um allivio p'ra mim, riquinho!
Aquella palavra, que S. Joanneira, na sua gravidade
de matrona, reservava para a intimidade das
séstas, enterneceu o conego. Fez uma caricia ao
pescoço
gordo da sua velhota, prometteu com bondade
ir estudar o caso...
—Ámanhã, que a Tótó
está só, lembrou logo a
S. Joanneira.
Mas o conego preferia que Amelia estivesse presente.
Podia assim vêr como as duas se davam, se
havia influencia do espirito maligno...
—Que isto que eu faço é d'agradecer...
É por
ser p'ra quem é... Que bem me bastam os meus
achaques, sem me occupar dos negocios de Satanaz.
A S. Joanneira recompensou-o com uma beijoca
sonora.
—Ah, sereias, sereias!... murmurou o conego
philosophicamente.
No fundo aquelle encargo desagradava-lhe: era
uma perturbação nos seus habitos, toda uma
manhã
desarranjada; ia decerto fatigar-se, tendo d'exercitar
a sua sagacidade; além d'isso odiava o espectaculo
de doenças e de todas as circumstancias humanas
relacionadas com a morte. Mas, emfim, fiel á sua
promessa, d'ahi a dias, na manhã em que fôra
prevenido
que Amelia ia á Tótó, arrastou-se
contrariado
para a botica do Carlos; e installou-se, com um
olho no
Popular e outro na porta,
á espera que a
rapariga
atravessasse para a
Sé. O amigo Carlos estava
ausente; o snr. Augusto occupava os seus vagares
sentado á escrivaninha, de testa sobre o punho,
relendo o seu Soares de Passos; fóra, o sol já
quente dos fins de abril fazia rebrilhar o lageado do
largo; não passava ninguem; e só quebravam o
silencio
as martelladas nas obras do doutor Pereira.
Amelia tardava. E o conego, depois de ter considerado
longo tempo, com o
Popular cahido
nos joelhos,
o medonho sacrificio que fazia pela sua velhota,
ia cerrando as palpebras, já tomado da quebreira,
n'aquelle repouso calado do meio dia proximo—quando
entrou na botica um ecclesiastico.
—Oh, abbade Ferrão, vossê pela cidade! exclamou
o conego Dias despertando do seu quebranto.
—De fugida, collega, de fugida, disse o outro
collocando cuidadadosamente sobre uma cadeira dois
grossos volumes que trazia, amarrados n'um barbante.
Depois voltou-se e tirou com respeito o seu chapéo
ao praticante.
Tinha o cabello todo branco; devia passar já
dos sessenta annos; mas era robusto, uma alegria
bailava sempre nos seus olhinhos vivos, e tinha dentes
magnificos a que uma saude de granito conservava
o esmalte; o que o desfigurava era um nariz
enorme.
Informou-se logo com bondade se o amigo Dias
estava alli de visita ou infelizmente por motivo de
doença.
—Não, estou aqui á espera... Uma embaixada
de truz, amigo Ferrão!
—Ah, fez o velho discretamente.—E emquanto
tirava com methodo d'uma carteira atulhada de papeis
a receita para o praticante, deu ao conego noticias
da freguezia. Era lá, nos Poyaes, que o conego
tinha a fazenda, a Ricoça. O abbade Ferrão
passára
de manhã diante da casa e ficára surprehendido
vendo que lhe andavam a pintar a fachada. O amigo
Dias tinha algumas idéas d'ir lá passar o
verão?
Não, não tinha. Mas como trouxera obras dentro
e a fachada estava uma vergonha, mandára-lhe dar
uma mão d'oca. Emfim era necessario alguma apparencia,
sobretudo n'uma casa que estava á beira da
estrada, onde passava todos os dias o morgadelho
dos Poyaes, um parlapatão que imaginava que só
elle tinha um palacete decente em dez leguas á roda...
Só para metter ferro áquelle atheu! Pois
não
lhe parecia, amigo Ferrão?
O abbade estava justamente lamentando comsigo
aquelle sentimento de vaidade n'um sacerdote;
mas, por caridade christã, para não contrariar o
collega,
apressou-se a dizer:
—Está claro, está claro. A limpeza é
a alegria
das coisas...
O conego então, vendo passar no largo uma saia
e um mantelete, foi á porta affirmar-se se era Amelia.
Não era. E voltando, retomado agora da sua
preoccupação, vendo que o praticante
fôra dentro ao
laboratorio, disse ao ouvido do Ferrão:
—Uma embaixada da fortuna! Vou vêr uma endemoninhada!
—Ah, fez o abbade, todo sério á idéa
d'aquella
responsabilidade.
—Quer vossê vir commigo, abbade? É aqui
perto...
O abbade desculpou-se polidamente. Viera fallar
ao senhor vigario geral, fôra depois ao Silverio para
lhe pedir aquelles dois volumes, vinha alli aviar
uma receita para um velho da freguezia, e tinha
d'estar de volta aos Poyaes ao toque das duas horas.
O conego insistiu; era um instante, e o caso parecia
curioso...
O abbade então confessou ao caro collega que
eram coisas que não gostava d'examinar. Aproximava-se
sempre d'ellas com um espirito rebelde á
crença, com desconfianças e suspeitas que lhe
diminuiam
a imparcialidade.
—Mas emfim ha prodigios! disse o conego.—Apesar
das suas proprias duvidas, não gostava
d'aquella hesitação do abbade, a proposito d'um
phenomeno sobrenatural, em que elle, conego Dias,
estava interessado. Repetiu com seccura:—Tenho
alguma experiencia, e sei que ha prodigios.
—Decerto, decerto ha prodigios, disse o abbade.
Negar que Deus ou a Rainha do céo possa apparecer
a uma creatura é contra a doutrina da Igreja...
Negar que o demonio possa habitar o corpo de
um homem, seria estabelecer um erro funesto...
Aconteceu a Job, sem ir mais longe, e á familia de
Sara. Está claro, ha prodigios. Mas que rarissimos
que são, conego Dias!
Calou-se um momento olhando o conego, que tapava
o nariz com rapé em silencio—e continuou
mais baixo, com o olho brilhante e fino:
—E depois não tem o collega notado que é uma
coisa que só succede ás mulheres? É
só a ellas, cuja
malicia é
tão grande que o proprio
Salomão não
lhes pôde resistir, cujo temperamento é
tão nervoso,
tão contradictorio que os medicos não as
comprehendem.
É só a ellas que succedem prodigios!... O
collega já ouviu de ter apparecido a nossa Santa
Virgem a um respeitavel tabellião? Já ouviu d'um
digno juiz de direito possuido do espirito maligno?
Não. Isto faz reflectir... E eu concluo que é
malicia
n'ellas, illusão, imaginação,
doença, etc... Não lhe
parece? A minha regra n'esses casos é vêr tudo
isso
d'alto e com muita indifferença.
Mas o conego, que vigiava a porta, brandiu subitamente
o guardasol, fazendo para o largo:
—Pst, pst! Eh lá!
Era Amelia que passava. Parou logo, contrariada
d'aquelle encontro que a ia ainda retardar mais. E
já o senhor parocho devia estar desesperado...
—De modo que, disse o conego á porta abrindo
o seu guardasol, vossê, abbade, era lhe cheirando
a prodigio...
—Suspeito logo escandalo.
O conego contemplou-o um momento, com respeito:
—Vossê, Ferrão, é capaz de dar quinaus
a Salomão
em prudencia!
—Oh, collega! oh, collega! exclamou o abbade,
offendido com aquella injustiça feita á
incomparavel
sabedoria de Salomão.
—Ao proprio Salomão! affirmou ainda o conego
da rua.
Tinha preparado uma historia habil para justificar
a sua visita á paralytica; mas durante a sua
conversação com o abbade ella
escapára-lhe, como
tudo o que deixava um momento nos reservatorios
da memoria; e foi sem transição que disse
simplesmente
a Amelia:
—Vamos lá, tambem quero ir vêr essa
Tótó!
Amelia ficou petrificada. E o senhor parocho, naturalmente,
já lá estava! Mas sua madrinha Nossa
Senhora das Dôres, que ella invocou logo n'aquella
afflicção, não a deixou enleada no
embaraço.—E o
conego, que caminhava ao lado d'ella, ficou surprehendido
ouvindo-lhe dizer com um risinho:
—Viva, hoje é o dia das visitas á
Tótó! O senhor
parocho disse-me que tambem talvez hoje apparecesse
por lá... Talvez lá esteja até.
—Ah! O amigo parocho tambem? Está bom, está
bom. Faremos uma consulta á Tótó!
Amelia então, contente da sua malicia, tagarellou
sobre a Tótó. O senhor conego ia vêr...
Era uma
creatura incomprehensivel... Ultimamente, ella não
tinha querido contar em casa, mas a Tótó
tomára-lhe
birra... E dizia coisas, tinha um modo de fallar de
cães e d'animaes, d'arripiar!... Ai, era um encargo
que já lhe pesava... Que a rapariga não lhe
escutava
as lições, nem as orações,
nem os conselhos...
Era uma fera!
—O cheiro é desagradavel! rosnou o conego
entrando.
Que queria! A rapariga era uma porca, não havia
tel-a arranjado. O pai, esse, um desleixado tambem...
—É aqui, senhor conego, disse, abrindo a porta
da alcova—que agora, em obediencia ás ordens
do senhor parocho, o tio Esguelhas deixava sempre
fechada.
Encontraram a Tótó meio erguida sobre a cama,
com a face accêsa n'uma curiosidade, áquella voz
do
conego que não conhecia.
—Ora viva lá a snr.
a
Tótó! disse
elle da porta,
sem se aproximar.
—Vá, comprimenta o senhor conego, disse Amelia,
começando logo, com uma caridade desacostumada,
a compôr a roupa da cama, a arrumar
a alcova. Dize-lhe como estás... Não te
faças
amuada!
Mas a Tótó permaneceu tão muda como a
imagem
de S. Bento que tinha á cabeceira, examinando
muito aquelle sacerdote tão gordo, tão grisalho,
tão differente do senhor parocho... E os seus olhos,
mais brilhantes todos os dias á medida que se lhe
cavavam as faces, iam, como de costume, do homem
para Amelia, n'uma anciedade de perceber
porque o trazia ella alli, aquelle velho obeso, e
se ia tambem subir com elle para o quarto.
Amelia agora tremia. Se o senhor parocho entrasse,
e alli, diante do cónego, a Tótó,
tomada do
seu phrenesi, rompesse aos gritos, tratando-os de
cães!... Com o pretexto de dar uma arrumadella
foi à cozinha vigiar o pateo. Faria um signal da janella,
apenas Amaro apparecesse.
E o conego, só na alcova da Tótó,
preparando-se
para começar as suas observações, ia
perguntar-lhe
quantas eram as pessoas da Santissima Trindade,—quando
ella, adiantando a face, lhe disse n'uma voz
subtil como um sôpro:
—E o outro?
O conego não comprehendeu. Que fallasse alto!
Que era?
—O outro, o que vem com ella!
O conego chegou-se, com a orelha dilatada de
curiosidade:
—Que outro?
—O bonito. O que vai com ella p'ró quarto. O
que a belisca...
Mas Amelia entrava: e a paralytica calou-se logo,
repousada, com os olhos cerrados e respirando
regaladamente, como n'um allivio repentino de todo
o seu soffrimento. O conego, esse, immobilisado d'assombro,
permanecia na mesma postura, dobrado sobre
a cama como para ascultar a Tótó. Ergueu-se por
fim, soprou como n'uma calma d'agosto, sorveu d'espaço
uma pitada forte; e ficou com a caixa aberta
entre os dedos, os olhos muito vermelhos cravados
na colcha da Tótó.
—Então, senhor conego, que lhe parece cá a minha
doente? perguntou Amelia.
Elle respondeu, sem a olhar:
—Sim senhor, muito bem... Vai bem... É exquisita...
Pois é andar, é andar... Adeus...
Sahiu, resmungando que tinha negocios,—e voltou
immediatamente á botica.
—Um copo d'agua! exclamou, cahindo em cheio
sobre a cadeira.