Ipse ratem conto subigit, velisque ministrat
Et ferruginea subvectat corpora cymba.
Ninguem lhe escapa... Sinto, sinto... Não me esquecerei
de a recommendar nas minhas orações...
E muito methodico, sua excellencia tomou uma
nota a lapis.
Amaro, ao sahir do paço, foi direito á
Sé. Fechou-se
na sacristia, a essa hora deserta: e depois
de pensar muito tempo com a cabeça entre os punhos,
escreveu ao conego Dias:
«Meu caro padre-mestre.—Treme-me a mão ao
escrever estas linhas. A infeliz morreu. Eu não posso,
bem vê, e vou-me embora, porque, se aqui ficasse,
estalava-me o coração. Sua excellentissima
irmã lá
estará tratando do enterro... Eu, como comprehende,
não posso. Muito lhe agradeço tudo...
Até um dia,
se Deus quizer que nos tornemos a vêr. Por mim
conto ir para longe, para alguma pobre parochia de
pastores, acabar meus dias nas lagrimas, na
meditação
e na penitencia. Console como puder a desgraça
da mãi. Nunca me esquecerei do que lhe devo, emquanto
tiver um sopro de vida. E adeus, que nem
sei onde tenho a cabeça.—Seu amigo do
C.—
Amaro
Vieira.»
«P. S. A criança morreu tambem, já se
enterrou.»
Fechou a carta com uma obreia preta; e depois
d'arranjar os seus papeis, foi abrir o grande portão
chapeado de ferro, olhar um momento o pateo, o
barracão, a casa do sineiro... As nevoas, as primeiras
chuvas já davam áquelle recanto da Sé
o seu ar
lugubre d'inverno. Adiantou-se devagar, sob o silencio
triste dos altos contrafortes, espreitou á
vidraça
da cozinha do tio Esguelhas: elle lá estava, sentado
á chaminé, com o cachimbo na bôca,
cuspilhando
tristemente para as cinzas. Amaro bateu de leve nos
vidros—e quando o sineiro abriu a porta, aquelle
interior conhecido, rapidamente entrevisto, a cortina
da alcova da Tótó, a escada que ia para o quarto,
agitaram o parocho de tantas recordações e de
saudades
tão bruscas, que não pôde fallar um
momento,
com a garganta tomada de soluços.
—Venho-lhe dizer adeus, tio Esguelhas, murmurou
por fim. Vou a Lisboa, tenho minha irmã a morrer...
E acrescentou com os beiços tremulos d'um chôro
que ia romper:
—Todas as desgraças vêm juntas. Sabe, a pobre
Ameliasinha lá morreu de repente...
O sineiro emmudeceu, assombrado.
—Adeus, tio Esguelhas. Dê cá a mão,
tio Esguelhas.
Adeus...
—Adeus, senhor parocho, adeus! disse o velho
com os olhos arrazados d'agua.
Amaro fugiu para casa, contendo-se para não
soluçar alto pelas ruas. Disse logo á Escolastica
que
ia partir n'essa noite para Lisboa. O tio Cruz devia
mandar-lhe um cavallo, para ir tomar o comboio a
Chão de Maçãs.
—Eu não tenho senão o dinheiro que é
necessario
para a jornada. Mas o que ahi me fica em lençoes
e toalhas é para vossê...
A Escolastica, chorando de perder o senhor parocho,
quiz beijar-lhe a mão por tanta generosidade:
offereceu-se para fazer a mala...
—Eu mesmo a arranjo, Escolastica, não se incommode.
Fechou-se no quarto. A Escolastica, ainda choramingando,
foi logo recolher, examinar as poucas
roupas que estavam pelos armarios. Mas Amaro
d'ahi a pouco gritou por ella: diante da janella uma
harpa e uma rebeca, em desafinação, tocavam a
valsa dos
Dois mundos.
—Dê um tostão a esses homens, disse o padre
furioso. E diga-lhe que vão p'r'ó inferno... Que
está
aqui gente doente!
E até ás cinco horas a Escolastica não
tornou a
sentir rumor no quarto.
Quando o moço do Cruz veio com o cavallo, pensando
que o senhor parocho adormecera, ella foi-lhe
bater devagarinho á porta do quarto, choramingando
já da despedida proxima. Elle abriu logo. Estava de
capote aos hombros; no meio do quarto prompta
e acorreada a mala de lona que devia ir á garupa
da egoa. Deu-lhe um maço de cartas para ir entregar
n'essa noite à snr.
a D. Maria da
Assumpção, ao
padre Silverio e a Natario: e ia descer, entre os
prantos da mulher, quando sentiu na escada um ruido
conhecido de muleta, e o tio Esguelhas appareceu
muito commovido.
—Entre, tio Esguelhas, entre.
O sineiro cerrou a porta, e depois de hesitar um
momento:
—Vossa senhoria ha de desculpar, mas... Tinha-me
esquecido de todo, com os desgostos que
tenho passado. Já ha tempo que achei no quarto
isto, e pensei que...
E metteu na mão de Amaro um brinco d'ouro.
Elle reconheceu-o logo: era d'Amelia. Muito tempo
ella o procurára debalde; soltára-se decerto
n'alguma
manhã d'amor, sobre a enxerga do sineiro. Amaro
então, suffocado, abraçou o tio Esguelhas.
—Adeus! Adeus, Escolastica. Lembrem-se por cá
de mim. Dê lembranças ao Mathias, tio Esguelhas...
O moço afivelou a maleta ao sellim, e Amaro partiu,
deixando a Escolastica e o tio Esguelhas, a chorar
ambos á porta.
Mas depois de ter passado os açudes, ao pé d'uma
volta da estrada, teve de apear para compôr o estribo:
e ia montar, quando appareceram dobrando o
muro o doutor Godinho, o secretario geral e o senhor
administrador do concelho, muito amigos agora,
e que vinham, depois do passeio, recolhendo para a
cidade. Pararam logo a fallar ao senhor parocho—admirando-se
de o vêr alli, de maleta na garupa,
com ares de jornada...
—É verdade, disse, vou para Lisboa!
O antigo Bibi e o administrador suspiraram invejando-lhe
a felicidade.—Mas quando o parocho
fallou da irmã moribunda, affligiram-se com polidez;
e o senhor administrador disse:
—Deve estar muito sentido, comprehendo... De
mais a mais essa outra desgraça na casa d'aquellas
senhoras suas amigas... A pobre Ameliasinha, morta
assim de repente...
O antigo Bibi exclamou:
—O quê? A Ameliasinha, aquella bonita que
morava na rua da Misericordia? Morreu?
O doutor Godinho tambem o ignorava, e pareceu
consternado.
O senhor administrador soubera-o pela sua criada,
que o ouvira da Dionysia. Dizia-se que fôra um
aneurisma.
—Pois senhor parocho, exclamou Bibi, desculpe
se afflijo as suas crenças respeitaveis, que são
as
minhas de resto... Mas Deus commetteu um verdadeiro
crime... Levar-nos a rapariga mais bonita da
cidade! Que olhos, senhores! E depois com aquelle
picantesinho da virtude...
Então, n'um tom de pezames, todos lamentaram
aquelle golpe que devia ter affectado tanto o senhor
parocho.
Elle disse muito grave:
—Senti-o deveras... Conhecia-a bem... E com
as suas boas qualidades, devia fazer, sem duvida,
uma esposa modêlo... Senti-o muito.
Apertou silenciosamente as mãos em redor—e
emquanto os cavalheiros recolhiam á cidade, o padre
Amaro foi trotando pela estrada, que já escurecia,
para a estação de Chão de
Maçãs.
Ao outro dia, pelas onze horas, o enterro d'Amelia
sahiu da Ricoça. Era uma manhã aspera: o
céo
e os campos estavam afogados n'uma nevoa pardacenta;
e cahia, muito miuda, uma chuva regelada.
Era longe da quinta a capella dos Poyaes. O menino
do côro adiante, de cruz alçada, apressava-se,
chapinhando
a lama a grandes pernadas; o abbade Ferrão,
d'estola negra, abrigava-se, murmurando o
Exultabunt
Domino, sob o guardachuva que sustentava ao
lado o sacristão com o hyssope; quatro trabalhadores
da quinta, abaixando a cabeça contra a chuva
obliqua, levavam n'uma padiola o esquife que tinha
dentro o caixão de chumbo; e, sob o vasto guardachuva
do caseiro, a Gertrudes de mantéo pela cabeça
ia desfiando as suas contas. Ao lado do caminho o
valle triste dos Poyaes cavava-se, todo pardo na neblina,
n'um grande silencio; e a voz enorme do vigario,
mugindo o
Miserere, rolava pela
quebrada humida
onde murmuravam os riachos muito cheios.
Mas ás primeiras casas da aldeia os moços do
caixão pararam derreados; e então um homem, que
estava esperando debaixo d'uma arvore sob o seu
guardachuva, veio juntar-se silenciosamente ao enterro.
Era João Eduardo, de luvas pretas, carregado
de luto, com as olheiras cavadas em dois sulcos negros,
grossas lagrimas a correrem-lhe nas faces. E
immediatamente, por traz d'elle, vieram collocar-se
dois criados de farda, com as calças muito
arregaçadas
e tochas na mão—dois lacaios que mandára
o Morgado, para honrar o enterro d'uma d'essas
senhoras da Ricoça, amigas do abbade.
Então, vendo estas duas librés que vinham
afidalgar
o prestito, o menino do côro rompeu logo,
erguendo mais alto a cruz; os quatro homens, já
sem fadiga, impertigaram-se ás varas da padiola: o
sacristão bramiu um
Requiem tremendo. E pelas lamas
do íngreme caminho da aldeia foi subindo o
enterro, emquanto às portas as mulheres se ficavam
persignando, olhando as sobrepellizes brancas e
o caixão de galões d'ouro, que se iam afastando
seguidos
do grupo de guardachuvas abertos, sob a
chuva triste.
A capella era no alto, n'um adro de carvalheiras:
o sino dobrava: e o enterro sumiu-se para o
interior da igreja escura, ao canto do
Subvenite
sancti que o sacristão entoou em
ronco.—Mas os
dois criados de farda não entraram porque o senhor
Morgado assim o tinha ordenado.
Ficaram á porta, sob o guardachuva, escutando,
batendo os pés regelados. Dentro seguia o
cantochão;
depois era um ciciar d'orações que se amortecia:
e de repente latins funebres lançados pela
voz grossa do vigario.
Então os dois homens, enfastiados, desceram do
adro, entraram um momento na taberna do tio Seraphim.
Dois moços de gado da quinta do Morgado,
que bebiam em silencio o seu quartilho, ergueram-se
logo vendo apparecer os dois criados de farda.
—Á vontade, rapazes, é sentar e beber, disse o
velho baixito que acompanhava João Eduardo a cavallo.
Nós lá estamos, na massada do enterro...
Boas tardes, snr. Seraphim.
Apertaram a mão ao Seraphim, que lhes mediu
duas aguardentes—e informou-se se a defunta era
a noiva do snr. Joãosinho. Tinham-lhe dito que morrera
d'uma veia rebentada.
O baixito riu:
—Qual veia rebentada! Não lhe rebentou coisa
nenhuma. O que lhe rebentou foi um rapagão pelo
ventre...
—Obra do snr. Joãosinho? perguntou o Seraphim,
arregalando o olho bréjeiro.
—Não me parece, disse o outro com importancia.
O snr. Joãosinho estava em Lisboa... Obra d'algum
cavalheiro da cidade... Sabe vossemecê de
quem eu desconfio, snr. Seraphim?...
Mas a Gertrudes, esbaforida, rompeu pela taberna
gritando que o sahimento já ia ao pé do
cemiterio,
e que não faltavam senão «aquelles
senhores»!
Os lacaios abalaram logo, e alcançaram o enterro
quando ia passando a pequena grade do cemiterio,
ao ultimo versiculo do
Miserere.
João Eduardo agora
levava uma vela na mão, ia logo atraz do caixão
d'Amelia, tocando-o quasi, com os olhos ennevoados
de lagrimas fitos no velludilho negro que o cobria.
Sem cessar o sino na capella dobrava desoladamente.
A chuva cahia mais miuda. E todos calados, no
silencio fusco do cemiterio, com passos abafados pela
terra molle, iam-se dirigindo para o canto do muro
onde estava cavada de fresco a cova d'Amelia, negra
e profunda entre a relva humida. O menino do
côro cravou no chão a haste da cruz prateada, e o
abbade Ferrão, adiantando-se até á
beira do buraco
escuro, murmurou o
Deus cujus
miseratione... Então
João Eduardo, muito pallido, vacillou de repente,
e o guardachuva cahiu-lhe das mãos; um dos
criados de farda correu, segurou-o pela cinta; queriam-no
levar, arrancal-o d'ao pé da cova; mas elle
resistiu, e alli ficou, com os dentes cerrados, segurando-se
desesperadamente á manga do criado, vendo
o coveiro e os dois moços amarrarem as cordas
no caixão, fazerem-no resvalar devagar entre a terra
esfarellada que rolava, com um ranger de taboas
mal pregadas.
—
Requiem aeternam donna ei, Domine!
—
Et lux perpetua luceat ei, mugiu o
sacristão.
O caixão bateu no fundo com uma pancada surda:
o abbade espalhou em cima uma pouca de terra
em fórma de cruz: e sacudindo lentamente o hyssope
sobre o velludilho, a terra, a relva em redor:
—
Requiescat in pace.
—
Amen, responderam a voz cava do
sacristão e
a voz aguda do menino do côro.
—
Amen, disseram todos n'um
murmurio, que
ciciou, se perdeu entre os cyprestes, as hervas, os
tumulos e as nevoas frias d'aquelle triste dia de dezembro.
XXVI
Nos fins de maio de 1871 havia grande alvoroço
na Casa Havaneza, ao Chiado, em Lisboa. Pessoas
esbaforidas chegavam, rompiam pelos grupos que
atulhavam a porta, e alçando-se em bicos de pés
esticavam o pescoço, por entre a massa dos chapeus,
para a grade do balcão, onde n'uma taboleta
suspensa se collavam os telegrammas da
Agencia
Havas; sujeitos de faces espantadas sahiam
consternados,
exclamando logo para algum amigo mais pacato
que os esperára fóra:
—Tudo perdido! Tudo a arder!
Dentro, na multidão de grulhas que se apertava
contra o balcão, questionava-se forte; e pelo passeio,
no largo do Loreto, defronte ao pé do estanco, pelo
Chiado até ao Magalhães, era, por aquelle dia
já quente
do começo de verão, toda uma gralhada de vozes
impressionadas onde as palavras—
Communistas!
Versailles! Petroleiros! Thiers! Crime!
Internacional!
voltavam a cada momento, lançadas com
furor, entre o ruido das tipoias e os pregões dos garotos
gritando
supplementos.
Com effeito, a cada hora, chegavam telegrammas
annunciando os episodios successivos da
insurreição
batalhando nas ruas de Paris: telegrammas despedidos
de Versailles n'um terror dizendo os palacios que
ardiam, as ruas que se aluiam; fuzilamentos em massa
nos pateos dos quarteis e entre os mausoleus dos
cemiterios; a vingança que ia saciar-se até
á escuridão
dos esgotos; a fatal demencia que desvairava
as fardas e as blusas; e a resistencia que tinha o furor
de uma agonia com os methodos d'uma sciencia,
e fazia saltar uma velha sociedade pelo petroleo, pela
dynamite e pelo nitro-glycerina! Uma convulsão, um
fim de mundo—que vinte, trinta palavras de repente
mostravam, n'um relance, a um clarão de fogueira.
O Chiado lamentava com indignação aquella ruina
de Paris. Recordavam-se com exclamações os
edificios
ardidos, o Hotel de Ville, «tão bonito»,
a rua Royale,
«aquella riqueza». Havia individuos tão
furiosos
com o incendio das Tulherias como se fosse uma propriedade
sua: os que tinham estado em Paris um ou
dois mezes abriam-se em invectivas, arrogando-se
uma participação de parisiense na riqueza da
cidade,
escandalisados por a insurreição não
ter respeitado
monumentos em que elles tinham posto os seus olhos.
—Vejam vossês! exclamava um sujeito gordo.
O palacio da Legião d'Honra destruido! Ainda não
ha um mez que eu lá estive com minha mulher...
Que infamia! Que patifaria!
Mas espalhára-se que o ministerio recebera outro
telegramma mais desolador: toda a linha do
boulevard
da Bastilha á Magdalena ardia, e ainda a praça
da Concordia, e as avenidas dos Campos-Elyseos até
ao Arco do Triumpho. E assim tinha a revolta arrazado,
n'uma demencia, todo aquelle systema de restaurantes,
cafés-concertos, bailes publicos, casas de jogo
e ninhos de prostitutas! Então houve por todo o largo
do Loreto até ao Magalhães um estremecimento de
furor. Tinham pois as chammas aniquilado aquella
centralisação tão commoda da
patuscada! Oh que infamia!
O mundo acabava! Onde se comeria melhor
que em Paris? Onde se encontrariam mulheres mais
experientes? Onde se tornaria a vêr aquelle desfilar
prodigioso d'uma volta de Bois, nos dias asperos e
seccos d'inverno, quando as victorias das cocottes
resplandeciam ao pé dos phaetons dos agentes da
Bolsa? Que abominação! Esqueciam-se as
bibliothecas
e os museus: mas a saudade era sincera pela
destruição dos cafés e pelo incendio
dos lupanares.
Era o fim de Paris, era o fim da França!
N'um grupo ao pé da Casa Havaneza os questionadores
politicavam: pronunciava-se o nome de Proudhon
que, por esse tempo, se começava a citar vagamente
em Lisboa como um monstro sanguinolento;
e as invectivas rompiam contra Proudhon. A
maior parte imaginava que era elle que tinha incendiado.
Mas o poeta estimado das
Flôres e
Ais acudiu
dizendo «que, à parte as asneiras que Proudhon
dizia,
era ainda assim um estylista bastante ameno».
Então o jogador França berrou:
—Qual estylo, qual cabaça! Se aqui o pilhasse
no Chiado rachava-lhe os ossos!
E rachava. Depois do cognac o França era uma
fera.
Alguns moços porém, a quem o elemento dramatico
da catastrophe revolvia o instincto romantico,
applaudiam a heroicidade da Communa—Vermorel
abrindo os braços como o Crucificado, e sob as balas
que o trespassavam gritando: Viva a humanidade! O
velho Delecluze, com um fanatismo de santo, dictando
do seu leito d'agonia as violencias da resistencia...
—São grandes homens! exclamava um rapaz
exaltado.
Em redor as pessoas graves rugiam. Outras afastavam-se
pallidas, vendo já as suas casas na Baixa a
escorrer de petroleo e a mesma Casa Havaneza presa
de chammas socialistas. Então era em todos os grupos
um furor d'auctoridade e repressão: era necessario
que a sociedade, atacada pela Internacional, se refugiasse
na força dos seus principios conservadores e
religiosos, cercando-os bem de baionetas! Burguezes
com tendas de capellistas fallavam da «canalha» com
o desdem imponente d'um La Tremouille ou d'um
Ossuna. Sujeitos, palitando os dentes, decretavam a
vingança. Vadios pareciam furiosos «contra o
operario
que quer viver como principe». Fallava-se com
devoção na propriedade, no capital!
D'outro lado eram moços verbosos, localistas excitados
que declamavam contra o velho mundo, a
velha idéa, ameaçando-os d'alto, propondo-se a
derruil-os
em artigos tremendos.
E assim uma burguezia entorpecida esperava
deter, com alguns policias, uma evolução social:
e
uma mocidade, envernizada de litteratura, decidia
destruir n'um folhetim uma sociedade de dezoito seculos.
Mas ninguem se mostrava mais exaltado que
um guarda-livros de hotel, que do alto do degrau
da Casa Havaneza brandia a bengala, aconselhando
á França a restauração dos
Bourbons.
Então um homem vestido de preto, que sahira do
estanco e atravessava por entre os grupos, parou,
sentindo uma voz espantada que exclamava ao lado:
—Ó padre Amaro! ó maganão!
Voltou-se: era o conego Dias. Abraçaram-se com
vehemencia, e para conversarem mais tranquillamente
foram andando até ao largo de Camões, e alli
pararam, junto á estatua:
—Então vossê quando chegou, padre-mestre?
Tinha chegado na vespera. Trazia uma demanda
com os Pimentas da Pojeira por causa d'uma servidão
na quinta, tinha appellado para a Relação, e
vinha seguir de perto a questão na capital.
—E vossê, Amaro? Na ultima carta dizia-me que
tinha vontade de sahir de Santo Thyrso.
Era verdade. A parochia tinha vantagens; mas
vagára Villa-Franca, e elle, para estar mais perto da
capital, viera fallar com o senhor conde de Ribamar,
o seu conde, que lá andava obtendo a transferencia.
Devia-lhe tudo, sobretudo á senhora condessa!
—E de Leiria? A S. Joanneira, vai melhor?
—Não, coitada... Vossê sabe, ao principio tivemos
um susto dos diabos... Pensavamos que lhe ia
succeder como á Amelia. Mas não, era
hydropesia...
E alli o que ha é anasarca...
—Coitada, santa senhora! E o Natario?
—Avelhado. Tem tido seus desgostos. Muita
lingua.
—E diga lá, padre-mestre, o Libaninho?
—Eu escrevi-lhe a esse respeito, disse o conego
rindo.
O padre Amaro riu tambem: e durante um momento
os dois sacerdotes pararam, apertando as
ilhargas.
—Pois é verdade, disse emfim o conego. A
coisa tinha sido realmente escandalosa... Porque
emfim, repare o amigo que o pilharam com o sargento,
de tal modo que não havia a duvidar...
E ás dez horas da noite, na alameda! Já
é imprudencia...
Mas emfim a coisa esqueceu, e quando o
Mathias morreu, lá lhe demos o logar de
sacristão,
que é bem boa posta... Muito melhor que o que
elle tinha no cartorio... E ha de cumprir com
zelo!
—Ha de cumprir com zelo, concordou muito sério
o padre Amaro. E a proposito, a D. Maria da
Assumpção?
—Homem, rosnam-se coisas... Criado novo...
Um carpinteiro que morava defronte... O rapaz anda
no trinque.
—Palavra?
—No trinque. Charuto, relogio, luva! Tem pilheria,
hein?
—É divino!
—As Gansosos na mesma, continuou o conego.
Têm agora a sua criada, a Escolastica.
—E da besta do João Eduardo?
—Eu mandei-lhe dizer, não? Lá está
ainda nos
Poyaes. O Morgado está mal do figado. E o João
Eduardo diz que está tisico... que eu não sei,
nunca mais o vi... Quem m'o disse foi o Ferrão.
—Como vai elle, o Ferrão?
—Bem. Sabe quem eu vi ha dias? A Dionysia.
—E então?
O conego disse uma palavra baixo ao ouvido do
padre Amaro.
—Deveras, padre-mestre?
—Na rua das Sousas, a dois passos da sua antiga
casa. O D. Luiz da Barrosa é que lhe deu o dinheiro
para montar o estabelecimento. Pois aqui
estão as novidades. E vossê está mais
forte, homem!
Fez-lhe bem a mudança...
E pondo-se diante, galhofando:
—Ó Amaro, e vossê a escrever-me que queria
retirar-se para a serra, ir para um convento, passar
a vida em penitencia...
O padre Amaro encolheu os hombros:
—Que quer vossê, padre-mestre?... N'aquelles
primeiros momentos... Olhe que me custou! Mas
tudo passa...
—Tudo passa, disse o conego. E depois d'uma
pausa:—Ah! Mas Leiria já não é
Leiria!
Passearam então um momento em silencio, n'uma
recordação que lhes vinha do passado, os quinos
divertidos
da S. Joanneira, as palestras ao chá, as passeatas
ao Morenal, o
Adeus e o
Descrido cantados
pelo Arthur Couceiro e acompanhados pela pobre
Amelia, que agora lá dormia, no cemiterio dos
Poyaes, sob as flôres silvestres...
—E que me diz vossê a estas coisas de França,
Amaro? exclamou de repente o conego.
—Um horror, padre-mestre... O arcebispo, uma
sucia de padres fuzilados!... Que brincadeira!
—Má brincadeira, rosnou o conego.
E o padre Amaro:
—E cá pelo nosso canto parece que começam
tambem essas idéas...
O conego assim o ouvira. Então indignaram-se
contra essa turba de maçons, de republicanos, de
socialistas,
gente que quer a destruição de tudo o que
é respeitavel—o clero, a instrucção
religiosa, a familia,
o exercito e a riqueza... Ah! a sociedade estava
ameaçada por monstros desencadeados! Eram
necessarias as antigas repressões, a masmorra e a
forca. Sobretudo inspirar aos homens a fé e o respeito
pelo sacerdote.
—Ahi ó que está o mal, disse Amaro, é
que nos
não respeitam! Não fazem senão
desacreditar-nos...
Destroem no povo a veneração pelo sacerdocio...
—Calumniam-nos infamamente, disse n'um tom
profundo o conego.
Então junto d'elles passaram duas senhoras, uma
já de cabellos brancos, o ar muito nobre; a outra,
uma creaturinha delgada e pallida, d'olheiras batidas,
os cotovêlos agudos collados a uma cinta d'esterilidade,
pouff enorme no vestido, cuia forte,
tacões de
palmo.
—Caspitè! disse o conego baixo, tocando o
cotovêlo
do collega. Hein, seu padre Amaro?... Aquillo
é que vossê queria confessar.
—Já lá vai o tempo, padre-mestre, disse o
parocho
rindo, já as não confesso senão
casadas!
O conego abandonou-se um momento a uma
grande hilaridade; mas retomou o seu ar ponderoso
de padre obeso, vendo Amaro tirar profundamente
o chapéo a um cavalheiro de bigode grisalho
e oculos d'ouro, que entrava na praça, do lado do
Loreto, com o charuto cravado nos dentes e o guardasol
debaixo do braço.
Era o senhor conde de Ribamar. Adiantou-se com
bonhomia para os dois sacerdotes; e Amaro, descoberto
e perfilado, apresentou «o seu amigo, o senhor
conego Dias, da Sé de Leiria». Conversaram um
momento
da estação, que já ia quente. Depois o
padre
Amaro fallou dos ultimos telegrammas.
—Que diz vossa excellencia a estas coisas de
França, senhor conde?
O estadista agitou as mãos, n'uma
desolação que
lhe assombreava a face:
—Nem me falle n'isso, senhor padre Amaro, nem
me falle n'isso... Vêr meia duzia de bandidos destruir
Paris... O meu Paris!... Creiam vossas senhorias
que tenho estado doente.
Os dois sacerdotes, com uma expressão consternada,
uniram-se á dôr do estadista.
E então o conego:
—E qual pensa vossa excellencia que será o resultado?
O senhor conde de Ribamar, com pausa, em palavras
que sabiam devagar, sobrecarregadas do peso
das idéas, disse:
—O resultado?... Não é difficil prevel-o. Quando
se tem alguma experiencia da Historia e da Politica,
o resultado de tudo isto vê-se distinctamente.
Tão distinctamente como os vejo a vossas senhorias.
Os dois sacerdotes pendiam dos labios propheticos
do homem de governo.
—Suffocada a insurreição—continuou o senhor
conde olhando a direito diante de si com o dedo no
ar, como seguindo, apontando os futuros historicos
que a sua pupilla, ajudada pelos oculos d'ouro, penetrava—suffocada
a insurreição, dentro de tres mezes
temos de novo o imperio... Se vossas senhorias
tivessem visto como eu uma recepção nas Tulherias
ou no Hotel de Ville, nos tempos do imperio,
haviam de dizer, como eu, que a França é
profundamente
imperialista e só imperialista... Temos
pois Napoleão III: ou talvez elle abdique, e a
imperatriz tome a regencia na menoridade do principe
imperial... Eu aconselharia antes, e já o fiz
saber, que era esta talvez a solução mais
prudente.
Como consequencia immediata temos o Papa
em Roma outra vez senhor do poder temporal...
Eu, a fallar a verdade, e já o fiz saber, não
approvo
uma restauração papal. Mas eu não lhes
estou aqui a dizer o que approvo, ou o que reprovo.
Felizmente não sou o dono da Europa...
Seria um encargo superior á minha idade e ás
minhas enfermidades. Estou a dizer o que a minha
experiencia da Politica e da Historia me aponta
como certo... Dizia eu...? Ah! a imperatriz
no throno de França, Pio Nono no throno de Roma,
ahi temos a democracia esmagada entre estas
duas forças sublimes, e creiam vossas senhorias
um homem que conhece a sua Europa e os
elementos de que se compõe a sociedade moderna,
creiam que depois d'este exemplo da Communa não
se torna a ouvir fallar de republica, nem de questão
social, nem de povo, n'estes cem annos mais
chegados!...
—Deus Nosso Senhor o ouça, senhor conde, fez
com unção o conego.
Mas Amaro, radiante de se achar alli, n'uma praça
de Lisboa, em conversação intima com um estadista
illustre, perguntou ainda, pondo nas palavras
uma anciedade de conservador assustado:
—E crê vossa excellencia que essas idéas de
republica, de materialismo, se possam espalhar entre
nós?
O conde riu: e dizia, caminhando entre os dois
padres, até quasi junto das grades que cercam a estatua
de Luiz de Camões:
—Não lhes dê isso cuidado, meus senhores,
não
lhes dê isso cuidado! É possivel que haja ahi um
ou dois esturrados que se queixem, digam tolices
sobre a decadencia de Portugal, e que estamos n'um
marasmo, e que vamos cahindo no embrutecimento,
e que isto assim não póde durar dez annos. etc.
etc. Babuseiras!...
Tinha-se encostado quasi ás grades da estatua, e
tomando uma attitude de confiança:
—A verdade, meus senhores, é que os estrangeiros
invejam-nos... E o que vou a dizer não é
para lisonjear a vossas senhorias: mas emquanto
n'este paiz houver sacerdotes respeitaveis como vossas
senhorias, Portugal ha de manter com dignidade
o seu logar na Europa! Porque a fé, meus senhores,
é a base da ordem!
—Sem duvida, senhor conde, sem duvida, disseram
com força os dois sacerdotes.
—Senão, vejam vossas senhorias isto! Que paz,
que animação, que prosperidade!
E com um grande gesto mostrava-lhes o largo do
Loreto, que áquella hora, n'um fim de tarde serena
concentrava a vida da cidade. Tipoias vazias rodavam
devagar; pares de senhoras passavam, de cuia cheia
e tacão alto, com os movimentos derreados, a pallidez
chlorotica d'uma degeneração de raça;
n'alguma
magra pileca, ia trotando algum moço de nome historico,
com a face ainda esverdeada da noitada de
vinho; pelos bancos da praça gente estirava-se n'um
torpôr de vadiagem; um carro de bois, aos solavancos
sobre as suas altas rodas, era como o symbolo
de agriculturas atrazadas de seculos; fadistas gingavam,
de cigarro nos dentes; algum burguez enfastiado
lia nos cartazes o annuncio d'operetas obsoletas;
nas faces enfezadas de operarios havia como a
personificação das industrias moribundas... E
todo
este mundo decrepito se movia lentamente, sob um
céo lustroso de clima rico, entre garotos apregoando
a loteria e a batota publica, e rapazitos de voz plangente
offerecendo o
Jornal das pequenas
novidades:
e iam, n'um vagar madraço, entre o largo onde se
erguiam duas fachadas tristes de igreja, e o renque
comprido das casarias da praça onde brilhavam tres
taboletas de casas de penhores, negrejavam quatro
entradas de taberna, e desembocavam, com um tom
sujo d'esgoto aberto, as viellas de todo um bairro
de prostituição e de crime.
—Vejam, ia dizendo o conde: vejam toda esta
paz, esta prosperidade, este contentamento... Meus
senhores, não admira realmente que sejamos a inveja
da Europa!
E o homem d'estado, os dois homens de religião,
todos tres em linha, junto ás grades do monumento,
gozavam de cabeça alta esta certeza gloriosa da
grandeza do seu paiz,—alli ao pé d'aquelle pedestal,
sob o frio olhar de bronze do velho poeta, erecto
e nobre, com os seus largos hombros de cavalleiro
forte, a epopeia sobre o coração, a espada firme,
cercado dos chronistas e dos poetas heroicos da
antiga patria—patria para sempre passada, memoria
quasi perdida!
Outubro 1878—Outubro 1879.
Lista de erros corrigidos
Aqui encontram-se
listados todos os erros encontrados e corrigidos:
O original não tem capítulo XI, no entanto, a
numeração das páginas não
apresenta quebra
na narração. Optámos por
não corrigir a
numeração dos capítulos.