O Carlos, que voltára, apressou-se, offerecendo
flôr de laranja, perguntando se sua excellencia estava
incommodado...
—Cansadote, disse.
Tomou o
Popular de sobre a mesa, e
alli ficou,
sem se mexer, abysmado nas columnas do periodico.
O Carlos tentou fallar da politica do paiz, depois
dos negocios d'Hespanha, depois dos perigos revolucionarios
que ameaçavam a Sociedade, depois da deficiencia
da administração do concelho de que era
agora um adversario feroz... Debalde. Sua excellencia
grunhia apenas monosyllabos soturnos. E o Carlos,
emfim, recolheu-se a um silencio chocado, comparando,
n'um desdem interior que lhe vincava de
sarcasmo os cantos dos beiços, a obtusidade soturna
d'aquelle sacerdote à palavra inspirada d'um Lacordaire
e d'um Malhão! Por isso o Materialismo em
Leiria, em todo o Portugal erguia a sua cabeça d'hydra...
Batia uma hora na torre quando o conego, que
vigiava a Praça pelo canto do olho, vendo passar
Amelia, arremessou o jornal, sahiu da botica sem dizer
uma palavra e estugou o seu passo d'obeso para
casa do tio Esguelhas. A Tótó estremeceu de medo
ao vêr de novo aquella figura bojuda apparecer
á porta da alcova. Mas o conego riu-se para ella,
chamou-lhe Tótósinha, prometteu-lhe um pinto para
bolos; e mesmo sentou-se aos pés da cama com um
ah! regalado, dizendo:
—Ora vamos nós agora conversar, amiguinha...
Esta é que é a pernita doente, hein? Coitadita!
Deixa
que te has de curar... Hei de pedir a Deus... Fica
por minha conta.
Ella fazia-se ora toda branca ora toda vermelha,
olhando aqui e além, inquieta, na
perturbação que
lhe dava aquelle homem a sós com ella tão perto
que lhe sentia o halito forte.
—Então, ouve cá, disse elle chegando-se mais
para ella, fazendo ranger o catre com o seu peso.
Ouve cá, quem é o outro? Quem é que
vem com a
Amelia?
Ella respondeu logo, atirando as palavras d'um
fôlego:
—É o bonito, é o magro, vêm ambos,
sobem
p'r'ó quarto, fecham-se por dentro, são como
cães!
Os olhos do conego injectaram-se para fóra das
orbitas:
—Mas quem é elle, como se chama? O teu pai
que te disse?
—É o outro, é o parocho, o Amaro! fez ella
impaciente.
—E vão p'r'ó quarto, hein? lá p'ra
cima? E
tu que ouves, tu que ouves? Dize tudo, pequena,
dize tudo!
A paralytica então contou, com um furor que dava
tons sibilantes à sua voz de tisica,—como ambos
entravam, e a vinham vêr, e se roçavam um
pelo outro, e abalavam para o quarto em cima, e estavam
lá uma hora fechados...
Mas o conego, com uma curiosidade lubrica que
lhe punha uma chamma nos olhos mortiços, queria
saber os detalhes torpes:
—E ouve lá, Tótósinha, tu que ouves?
Ouves
ranger a cama?
Ella respondeu com a cabeça affirmativamente,
toda pallida, os dentes cerrados.
—E olha, Tótósinha, já os viste
beijarem-se,
abraçarem-se? Anda, dize, que te dou dois pintos.
Ella não descerrava os labios; e a sua face transtornada
parecia ao conego selvagem.
—Tu embirras com ella, não é verdade?
Ella fez que sim n'uma affirmação feroz de
cabeça.
—E vistel-os beliscarem-se?
—São como cães! soltou ella por entre os dentes.
O conego então endireitou-se, bufou outra vez
com o seu grande sôpro d'encalmado, e coçou
vivamente
a corôa.
—Bem, disse, erguendo-se. Adeus, pequena...
Agasalha-te. Não te constipes...
Sahiu; e ao fechar com força a porta exclamou
alto:
—Isto é a infamia das infamias! Eu mato-o! eu
perco-me!
Esteve um momento considerando e partiu para
a rua das Sousas, de guardasol em riste, apressando
a sua obesidade, com a face apopletica de furor.
No largo da Sé, porém, parou a reflectir ainda; e
rodando
sobre os tacões, entrou na igreja. Ia tão levado
que, esquecendo um habito de quarenta annos,
não dobrou o joelho ao Santissimo. E arremessou-se
para a sacristia—justamente quando o padre Amaro
sahia, calçando cuidadosamente as luvas pretas
que usava agora sempre para agradar á Ameliasinha.
O aspecto descomposto do conego assombrou-o.
—Que é isso, padre-mestre?
—O que é? exclamou o conego de golpe, é a
maroteira das maroteiras! É a sua infamia! é a
sua
infamia!...
E emmudeceu, suffocado de cólera.
Amaro, que se fizera muito pallido, balbuciou:
—Que está vossê a dizer, padre-mestre?
O conego tomára fôlego:
—Não ha padre-mestre! O senhor desencaminhou
a rapariga! Isso é que é uma canalhice mestra!
O padre Amaro, então, franziu a testa como descontente
d'um gracejo:
—Que rapariga!? O senhor está a brincar...
Sorriu mesmo, affectando segurança; e os seus
beiços brancos tremiam.
—Homem, eu vi! berrou o conego.
O parocho, subitamente aterrado, recuou:
—Viu!?
Imaginára n'um relance uma traição, o
conego
escondido n'um recanto da casa do tio Esguelhas...
—Não vi, mas é como se visse!—continuou o
conego n'um tom tremendo. Sei tudo. Venho de lá.
Disse-m'o a Tótó. Fecham-se no quarto horas e
horas! Até se ouve em baixo ranger a cama! É uma
ignominia !
O parocho, vendo-se pilhado, teve, como um animal
acossado e entalado a um canto, uma resistencia
de desespero.
—Diga-me uma coisa. O que é que o senhor
tem com isso?
O conego pulou.
—O que tenho!? o que tenho!? Pois o senhor
ainda me falla n'esse tom!? O que tenho é que vou
d'aqui immediatamente dar parte de tudo ao senhor
vigario geral!
O padre Amaro, livido, foi para elle com o punho
fechado:
—Ah, seu maroto!
—Que é lá? que é lá?
exclamou o conego de
guardasol erguido. Vossê quer-me pôr as
mãos?
O padre Amaro conteve-se; passou a mão sobre
a testa em suor, com os olhos cerrados; e depois de
um momento, fallando com uma serenidade forçada:
—Ouça lá, senhor conego Dias. Olhe que eu vi-o
ao senhor uma vez na cama com a S. Joanneira...
—Mente! mugiu o conego.
—Vi, vi, vi! affirmou o outro com furor. Uma
noite ao entrar em casa... O senhor estava em mangas
de camisa, ella tinha-se erguido, estava a apertar
o collete. Até o senhor me perguntou
«
quem está
ahi?» Vi, como estou a vêl-o
agora. O senhor a
dizer uma palavra, e eu a provar-lhe que o senhor
vive ha dez annos amigado com a S. Joanneira, á
face de todo o clero! Ora ahi tem!
O conego, já antes esfalfado dos excessos do seu
furor, ficou agora, áquellas palavras, como um boi
atordoado. Só pôde dizer d'ahi a pouco, muito
murcho:
—Que traste que vossê me sae!
O padre Amaro então, quasi tranquillo, certo do
silencio do conego, disse com bonhomia:
—Traste porquê? Diga-me lá! Traste
porquê?
Temos ambos culpas no cartorio, eis ahi está. E olhe
que eu não fui perguntar, nem peitar a
Tótó... Foi
muito naturalmente ao entrar em casa. E se me vem
agora com coisas de moral, isso faz-me rir. A moral
é para a escóla e para o sermão.
Cá na vida eu
faço isto, o senhor faz aquillo, os outros fazem o que
podem. O padre-mestre que já tem idade agarra-se
á velha, eu que sou novo arranjo-me com a pequena.
É triste, mas que quer? É a natureza que manda.
Somos homens. E como sacerdotes, para honra
da classe, o que temos é fazer costas!
O conego escutava-o, bamboleando a cabeça, na
aceitação muda d'aquellas verdades. Tinha-se
deixado
cahir n'uma cadeira, a descansar de tanta cólera
inutil; e erguendo os olhos para Amaro:
—Mas vossê, homem, no começo da carreira!
—E vossê, padre-mestre, no fim da carreira!
Então riram ambos. Immediatamente cada um
declarou retirar as palavras offensivas que tinha dito;
e apertaram-se gravemente a mão. Depois conversaram.
O conego, o que o tinha enfurecido era ser lá
com a pequena de casa. Se fosse com outra... até
estimava! Mas a Ameliasinha!... Se a pobre mãi
viesse a saber estourava de desgosto.
—Mas a mãi escusa de saber! exclamou Amaro.
Isto é entre nós, padre-mestre! Isto é
segredo de
morte! Nem a mãi sabe de nada, nem eu mesmo
digo á pequena o que se passou hoje entre nós. As
coisas ficam como estavam, e o mundo continua a
rolar... Mas vossê, padre-mestre, tenha cuidado!...
Nem uma palavra á S. Joanneira... Que não haja
agora traição!
O conego, com a mão sobre o peito, deu gravemente
a sua palavra d'honra de cavalheiro e de sacerdote
que aquelle segredo ficava para sempre sepultado
no seu coração.
Então apertaram ainda uma outra vez affectuosamente
a mão.
Mas a torre gemeu as tres badaladas. Era a hora
de jantar do conego.
E ao sahir, batendo nas costas de Amaro, fazendo
luzir um olho d'entendedor:
—Pois seu velhaco, tem dedo!
—Que quer vossê? Que diabo... Começa-se por
brincadeira...
—Homem! disse o conego sentenciosamente, é
o que a gente leva de melhor d'este mundo.
—É verdade, padre-mestre, é verdade!
É o que
a gente leva de melhor d'este mundo.
Desde esse dia Amaro gozou uma completa tranquillidade
d'alma. Até ahi incommodava-o, por vezes,
a idéa de que correspondera ingratamente á
confiança, aos carinhos que lhe tinham prodigalisado
na rua da Misericordia. Mas a tacita approvação
do
conego viera tirar-lhe, como elle dizia, aquelle espinho
da consciencia. Porque emfim, o chefe de familia,
o cavalheiro respeitavel, o cabeça—era o conego.
A S. Joanneira era apenas uma concubina...
E Amaro mesmo, às vezes agora, em tom de galhofa,
tratava o Dias de
seu caro sogro.
Outra circumstancia viera alegral-o: a Tótó
adoecera
de repente: o dia seguinte ao da visita do conego,
passára-o soltando golfadas de sangue: o doutor
Cardoso, chamado á pressa, fallára de tisica
galopante,
questão de semanas, caso decidido...
—É d'estas, meu amigo, tinha elle dito, que é
trás... trás...—Era a sua maneira de pintar a
morte, que, quando tem pressa, conclue o seu trabalho
com uma fouçada aqui, outra além.
As manhãs na casa do tio Esguelhas eram agora
tranquillas. Amelia e o parocho já não entravam
em
pontas de pés, tentando esgueirar-se para o prazer,
despercebidos da Tótó. Batiam com as portas,
palravam
forte, certos que a Tótó estava bem prostrada
de febre, sob os lençoes humidos dos suores constantes.
Mas Amelia, por escrupulo, não deixava de
rezar todas as noites uma salve-rainha pelas melhoras
da Tótó. Ás vezes mesmo ao despir-se,
no
quarto do sineiro, parava de repente, e fazendo um
rostinho triste:
—Ai, filho! até me parece peccado, nós aqui a
gozarmos, e a pobre pequena lá em baixo a luctar
com a morte...
Amaro encolhia os hombros. Que lhe haviam elles
de fazer, se era a vontade de Deus?...
E Amelia, resignando-se á vontade de Deus em
tudo, ia deixando cahir as sáias.
Tinha agora d'aquellas pieguices frequentes que
impacientavam o padre Amaro. Em certos dias apparecia
muito murcha; trazia sempre algum sonho
lugubre a contar, que a torturára toda a noite, e em
que ella pretendia descobrir avisos de desgraças...
Perguntava-lhe ás vezes:
—Se eu morresse, tinhas muita pena?
Amaro enfurecia-se. Realmente era estupido! Tinham
apenas uma hora para se verem, e haviam
d'estar a estragal-a com lamurias?
—É que não imaginas, dizia ella, trago o
coração
negro como a noite.
Com effeito as amigas da mãi estranhavam-na.
Ás vezes durante serões inteiros não
descerrava os
labios, pendida sobre a sua costura, picando mollemente
a agulha; ou então, muito cansada mesmo para
trabalhar, ficava junto da mesa fazendo girar devagar
o
abat-jour verde do candieiro, com
o olhar
vazio e a alma muito longe.
—Ó rapariga, deixa esse
abat-jour em paz! diziam-lhe
as senhoras nervosas.
Ella sorria, dava um suspiro fatigado, e retomava
muito lentamente a sáia branca que havia semanas
andava abainhando. A mãi, vendo-a sempre tão
pallida, pensára em chamar o doutor Gouveia.
—Não é nada, minha mãi, é
nervoso, passa...
O que provava a todos que era nervoso eram os
sustos subitos que a tomavam—a ponto de dar um
grilo, quasi desmaiar, se de repente uma porta batia.
Certas noites mesmo, exigia que a mãi viesse
dormir ao pé d'ella, com medo de pesadêlos e de
visões.
—É o que diz sempre o senhor doutor Gouveia,
observava a mãi ao conego, é uma rapariga que
necessita
casar...
O conego pigarreava grosso.
—Não lhe falta nada, resmungava. Tem tudo o
que precisa. Tem de mais, ao que parece...
Era com effeito a idéa do conego, que a rapariga
(como elle dizia só comsigo) «andava-se a arrasar
de felicidade». Nos dias em que sabia que ella fôra
vêr a Tótó, não se fartava
de a estudar, cocando-a
do fundo da poltrona com um olho pesado e lubrico.
Prodigalisava-lhe agora as familiaridades paternaes.
Nunca a encontrava na escada sem a deter, com coceguinhas
aqui e alli, palmadinhas na face muito
prolongadas. Queria-a em casa repetidas vezes pela
manhã; e emquanto Amelia palrava com D. Josepha,
o conego não cessava de rondar em torno d'ella, arrastando
as chinelas com um ar de velho gallo. E
eram entre Amelia e a mãi conversas sem fim sobre
esta amizade do senhor conego, que decerto lhe deixaria
um bom dote.
—Seu maganão, tem dedo!—dizia sempre o
conego quando estava só com Amaro, arregalando
os olhos redondos. Aquillo é um bocado de rei!
Amaro entufava-se:
—Não é mau bocado, padre-mestre, é um
bom
bocado.
Era este um dos
grandes gozos
d'Amaro—ouvir
gabar aos collegas a belleza d'Amelia, que era chamada
entre o clero «a flôr das devotas». Todos
lhe
invejavam aquella confessada. Por isso insistia muito
com ella em que se ajanotasse nos domingos, á
missa; zangára-se mesmo ultimamente de a vêr
quasi sempre entrouxada n'um vestido de merino
escuro, que lhe dava um ar de velha penitente.
Mas Amelia, agora, já não tinha aquella
necessidade
amorosa de contentar em tudo o senhor parocho.
Acordára quasi inteiramente d'aquelle adormecimento
estupido d'alma e do corpo, em que a lançára
o primeiro abraço de Amaro. Vinha-lhe apparecendo
distinctamente a consciencia pungente da sua culpa.
N'aquelles negrumes d'um espirito beato e escravo,
fazia-se um amanhecimento de razão.—O que era
ella no fim? A concubina do senhor parocho. E esta
idéa, posta assim descarnadamente, parecia-lhe terrivel.
Não que lamentasse a sua virgindade, a sua honra,
o seu bom nome perdido. Sacrificaria mais ainda
por elle, pelos delirios que elle lhe dava. Mas havia
alguma coisa peor a temer que as reprovações do
mundo: eram as vinganças de Nosso Senhor. Era da
perda possivel do paraiso que ella gemia baixo; ou
de mais medonho ainda, d'algum castigo de Deus, não
das punições transcendentes que acabrunham a alma
além da tumba, mas dos tormentos que vêm durante
a vida, que a feririam na sua saude, no seu bem-estar
e no seu corpo. Eram vagos medos de doenças,
de lepras, de paralysias ou de pobrezas, de dias de
fome—de todas essas penalidades de que ella suppunha
prodigo o Deus do seu catecismo. Como em
pequena, nos dias em que se esquecia de pagar á
Virgem o seu tributo regular de salve-rainhas, temia
que ella a fizesse cahir na escada ou levar palmatoadas
na mestra, arrefecia de medo agora, á idéa
de que Deus, em castigo d'ella se deitar na cama
com um padre, lhe mandasse um mal que a desfigurasse
ou a reduzisse a pedir esmola pelas viellas.
Estas idéas não a deixavam, desde o dia em que na
sacristia peccára de concupiscencia dentro do manto
de Nossa Senhora. Tinha a certeza que a Santa Virgem
a odiava, e que não cessava de reclamar contra
ella; debalde procurava abrandal-a, com um fluxo
incessante de orações humilhadas; sentia bem
Nossa Senhora, inaccessivel e desdenhosa, de costas
voltadas. Nunca mais aquelle divino rosto lhe sorrira;
nunca mais aquellas mãos se tinham aberto para
receber com agrado as suas orações, como ramos
congratulatorios. Era um silencio sêcco, uma hostilidade
gelada de divindade offendida. Ella conhecia o
credito que Nossa Senhora tem nos concilios do céo;
desde pequena lh'o tinham ensinado; tudo o que
ella deseja o obtem, como uma recompensa devida
aos seus prantos no Calvario; seu Filho sorri-lhe á
sua direita, o Deus-Padre falla-lhe á esquerda... E
comprehendia bem que para ella não havia
esperança—e
que alguma coisa medonha se preparava
lá era cima, no paraiso, que lhe cahiria um dia
sobre o corpo e sobre a alma, esmagando-a com um
desabamento de catastrophe. Que seria?
Cessaria as suas relações com Amaro, se o
ousasse:
mas receava quasi tanto a sua cólera como a de
Deus. Que seria d'ella, se tivesse contra si Nossa Senhora
e o senhor parocho? Além d'isso, amava-o.
Nos seus braços, todo o terror do céo, a mesma
idéa
do céo desapparecia; refugiada alli, contra o seu
peito, não tinha medo das iras divinas: o desejo, o
furor da carne, como um vinho muito alcoolico, davam-lhe
uma coragem colerica; era com um brutal
desafio ao céo que se enroscava furiosamente ao seu
corpo.—Os terrores vinham depois, só no seu quarto.
Era esta lucta que a empallidecia, lhe punha pregas
d'envelhecimento ao canto dos labios seccos e
ardidos, lhe dava aquelle ar murcho de fadiga que
irritava o padre Amaro.
—Mas que tens tu, que parece te espremeram
o succo? perguntava-lhe elle quando aos primeiros
beijos a sentia toda fria, toda inerte.
—Passei mal a noite... Nervoso.
—Maldito nervoso! rosnava o padre Amaro impaciente.
Depois vinham perguntas singulares que o desesperavam,
repetidas agora todos os dias. Se tinha
dito a missa com fervor? Se tinha lido o Breviario?
Se tinha feito a oração mental?...
—Sabes tu que mais? disse elle furioso. Sêbo!
E esta! Tu pensas que eu sou ainda seminarista, e
que tu és o padre examinador, que verifica se cumpri
a Regra? Ora a tolice!
—É que é necessario estar bem com Deus,
murmurava
ella.
Era com effeito a sua preoccupação, agora, que
Amaro
fosse um bom padre. Contava,
para se salvar
e para se livrar da cólera de Nossa Senhora, com a
influencia do parocho na côrte de Deus: e temia
que elle por negligencia de devoção a perdesse, e
que, diminuindo o seu fervor, diminuissem os seus
meritos aos olhos do Senhor. Queria-o conservar
santo e favorito do céo, para colher os proveitos da
sua protecção mystica.
Amaro chamava a isto «caturrices de freira velha».
Detestava-as, por as achar frivolas—e porque
tomavam um tempo precioso, n'aquellas manhãs da
casa do sineiro...
—Nós não viemos aqui para lamurias, dizia elle,
muito sêccamente. Fecha a porta, se queres.
Ella obedecia,—e então aos primeiros beijos
na penumbra da janella cerrada, elle reconhecia emfim
a sua Amelia, a Amelia dos primeiros dias, o delicioso
corpo que lhe tremia todo nos braços, em espasmos
de paixão.
E cada dia a desejava mais, d'um desejo continuo
e tyrannico, que aquellas horas escassas não satisfaziam.
Ah! positivamente, como mulher não havia
outra!... Desafiava a que houvesse outra, mesmo
em Lisboa, mesmo nas fidalgas!... Tinha pieguices,
sim, mas era não as tomar a sério, e gozar
emquanto
era novo!
E gozava. A sua vida por todos os lados tinha
confortos e doçuras—como uma d'estas salas onde
tudo é acolchoado, não ha moveis duros nem
angulos,
e o corpo, onde quer que pouse, encontra a
elasticidade molle d'uma almofada.
Decerto, o melhor eram as suas manhãs em casa
do tio Esguelhas. Mas tinha outros regalos. Comia
bem: fumava caro n'uma boquilha d'espuma:
toda a sua roupa branca era nova e de linho: comprára
alguma mobilia: e não tinha, como outr'ora,
embaraços de dinheiro, porque a snr.
a
D. Maria da
Assumpção, a sua melhor confessada, lá
estava com
a bolsa prompta. Sobretudo, ultimamente, tivera uma
pechincha: uma noite em casa da S. Joanneira, a
excellente senhora, a proposito d'uma familia d'inglezes
que vira passar n'um
char-á-banc para ir
visitar
a Batalha, exprimira a opinião que os inglezes
eram herejes.
—São baptisados como nós, observára
D. Joaquina
Gansoso.
—Pois sim, filha, mas é um baptismo para rir.
Não é o nosso rico baptismo, não lhes
vale.
O conego então, que gostava de a torturar, declarou
pausadamente que a snr.
a D. Maria dissera
uma blasphemia. O santo concilio de Trento, no seu
canon IV, sessão VII, lá determinára
«que aquelle
que disser que o baptismo dado aos herejes, em nome
do Padre, do Filho e do Espirito, não é o
verdadeiro baptismo, seja excommungado!» E a D.
Maria, segundo o santo concilio, estava desde esse
momento excommungada!...
A excellente senhora teve um flato. Ao outro dia
foi lançar-se aos pés d'Amaro, que em penitencia
da sua injuria feita ao canon IV, sessão VII do santo
concilio de Trento, lhe ordenou trezentas missas de
intenção
pelas almas do purgatorio—que D. Maria
lhe estava pagando a cinco tostões cada uma.
Assim, elle podia ás vezes entrar na casa do tio
Esguelhas com um ar de satisfação mysteriosa e um
embrulhosinho na mão. Era algum presente para
Amelia, um lenço de sêda, uma gravatinha de
côres,
um par de luvas. Ella extasiava-se com aquellas
provas da affeição do senhor parocho; e era
então
no quarto escuro um delirio d'amor, emquanto em
baixo a tisica, sobre a Tótó, ia fazendo
«trás...
trás...»
XX
—O senhor conego? Quero-lhe fallar. Depressa!
A criada dos Dias indicou ao padre Amaro o escriptorio,
e correu acima contar a D. Josepha que o
senhor parocho viera procurar o senhor conego, e
com uma cara tão transtornada que decerto tinha
succedido alguma desgraça!
Amaro abrira abruptamente a porta do escriptorio,
fechou-a de repellão, e sem mesmo dar os bons
dias ao collega, exclamou:
—A rapariga está gravida!
O conego, que estava escrevendo, cahiu como
uma massa fulminada para as costas da cadeira:
—Que me diz vossê!?
—Gravida!
E no silencio que se fez o soalho gemia sob os
passeios furiosos do parocho da janella para a estante.
—Está vossê certo d'isso? perguntou emfim o
conego com pavor.
—Certissimo! A mulher já ha dias andava desconfiada.
Já não fazia senão chorar... Mas agora
é
certo... As mulheres conhecem, não se enganam.
Ha todas as provas... Que hei de eu fazer, padre-mestre?
—Olha que espiga! ponderou o conego atordoado.
—Imagine vossê o escandalo! A mãi, a
visinhança...
E se suspeitam de mim?... Estou perdido...
Eu não quero saber, eu fujo!
O conego coçava estupidamente o cachaço, com
o beiço cahido como uma tromba. Representavam-se-lhe
já os gritos em casa, a noite do parto, a S.
Joanneira eternamente em lagrimas, toda a sua tranquillidade
extincta para sempre...
—Mas diga alguma coisa! gritou-lhe Amaro desesperado.
Que pensa vossê? Veja se tem alguma
idéa... Eu não sei, eu estou idiota, estou de
todo!
—Ahi estão as consequencias, meu caro collega.
—Vá p'r'ó inferno, homem! Não se
trata de moral...
Está claro que foi uma asneira... Adeus, está
feita!
—Mas então que quer vossê? disse o conego.
Não quer decerto que se dê uma droga á
rapariga,
que a arrase...
Amaro encolheu os hombros, impaciente com
aquella idéa insensata. O padre-mestre, positivamente,
estava divagando...
—Mas então que quer vossê? repetia o conego
n'um tom cavo, arrancando as palavras do abysmo
do thorax.
—Que quero!? quero que não haja escandalo!
Que hei de eu querer?
—De quantos mezes está ella?
—De quantos mezes? Está d'agora, está d'um
mez...
—Então é casal-a! exclamou o conego com
explosão.
Então é casal-a com o escrevente!
O padre Amaro deu um pulo:
—C'os diabos, tem vossê razão! É de
mestre!
O conego affirmou gravemente com a cabeça que
era «de mestre».
—Casal-a já! Emquanto é tempo!
Pater est
quem nuptiæ demonstrant... Quem
é marido é que
é pai.
Mas a porta abriu-se, e appareceram os oculos
azues, a touca negra de D. Josepha. Não se pudera
conter em cima, na cozinha, tomada d'um phrenesi
agudo de curiosidade; descera na ponta das chinelas
e collára o ouvido á fechadura do escriptorio;
mas o grosso reposteiro de baetão estava cerrado por
dentro, um ruido de lenha que se descarregava na
rua abafava as vozes. A boa senhora então decidiu-se
a entrar, «a dar os bons dias ao senhor parocho».
Mas debalde, por detraz dos vidros defumados,
os seus olhinhos agudos esquadrinharam anciosamente
o carão espesso do mano e a face pallida d'Amaro.
Os dois sacerdotes estavam impenetraveis como
duas janellas fechadas. O parocho mesmo fallou ligeiramente
do rheumatico do senhor chantre, da
notícia que corria sobre o casamento do senhor secretario
geral... Ao fim d'uma pausa ergueu-se, contou
que tinha n'esse dia uma famosa orelheira para
o jantar—e a snr.
a D. Josepha, roendo-se, viu-o
abalar depois de ter dito já por detraz do reposteiro
ao conego:
—Então até á noite em casa da S.
Joanneira,
padre-mestre, hein?
—Até á noite.
E o conego, muito grave, continuou a escrever.
D. Josepha então não se conteve; e depois de
arrastar
um momento as chinelas em torno da banca do
mano:
—Ha novidade?
—Grande novidade, mana! disse-lhe o conego,
sacudindo os bicos da penna. Morreu o senhor D.
João VI!
—Malcriado! rugiu ella rodando sobre os sapatões,
cruelmente perseguida por uma risadinha do
mano.
Foi á noite, em baixo, na saleta da S. Joanneira,
emquanto Amelia em cima, com a morte n'alma,
martellava a
Valsa dos dois mundos,
que os
dois padres, muito chegados no canapé, de cigarro
nos dentes, por debaixo do tenebroso painel onde
a vaga mão do cenobita se estendia em garra sobre
a caveira, cochicharam o seu plano:—antes de
tudo era
necessario achar
João Eduardo, que
desapparecera
de Leiria; a Dionysia, mulher de faro, ia
bater todos os recantos da cidade para descobrir a
toca em que a fera se acoutava; depois, immediatamente,
porque o tempo urgia, Amelia escrever-lhe-hia...
Só quatro palavras simples: que soubera que
elle fôra victima d'uma intriga; que nunca perdera
nada da amizade que lhe tinha; que lhe devia uma
reparação; e que
viesse
vêl-a... Se
o rapaz hesitasse
agora, o que não era provavel (o conego affirmava-o),
fazia-se-lhe reluzir a esperança do emprego
no governo civil, facil d'obter pelo Godinho, inteiramente
governado pela mulher, que era uma escravasinha
do padre Silverio...
—Mas o Natario, disse Amaro, o Natario que detesta
o escrevente, que dirá elle a esta
revolução?
—Homem, exclamou o conego com uma grande
palmada na côxa, que me tinha esquecido! Pois vossê
não sabe o que aconteceu ao pobre Natario?...
Amaro não sabia.
—Quebrou uma perna! Cahiu da egoa!
—Quando?
—Esta manhã. Eu soube-o agora à noitinha. Eu
sempre lh'o disse: homem, esse animal ferra-lhe alguma!
Pois senhores, ferrou-lh'a. E têsa! Tem p'ra
pêras... E eu que me tinha esquecido! Nem as senhoras
lá em cima sabem nada.
Foi uma desolação, em cima, quando souberam.
Amelia fechou o piano. Todos lembraram logo remedios
que se lhe devia mandar, foi uma gralhada de
offerecimentos—ligaduras, fios, um unguento das
freiras d'Alcobaça, meia garrafinha d'um licôr dos
monges do deserto d'ao pé de Cordova... Era necessario
tambem assegurar a intervenção do céo:
e cada
uma se promptificou a usar do seu valimento
com os santos da sua intimidade: D. Maria da
Assumpção,
que ultimamente praticava com Santo Eleuterio,
offereceu a sua influencia; D. Josepha Dias encarregava-se
d'interessar Nossa Senhora da Visitação;
D. Joaquina Gansoso afiançou S. Joaquim...
—E lá a menina? perguntou o conego a Amelia.
—Eu?...
E fez-se pallida, n'uma tristeza de toda a sua
alma, pensando que ella, com os seus peccados e
os seus delírios, perdera a util amizade de Nossa Senhora
das Dôres.—E não poder ella tambem concorrer
com a sua influencia no céo para restabelecer
a perna de Natario, foi uma das amarguras maiores,
talvez a punição mais viva que sentira desde que
amava o padre Amaro.
Foi em casa do sineiro, d'ahi a dias, que Amaro
participou a Amelia o plano do padre-mestre. Preparou-a,
revelando-lhe primeiro que o conego sabia
tudo...
—Sabe tudo em segredo de confissão, acrescentou
para a socegar. Além d'isso elle e tua mãi
têm
culpas em cartorio... Tudo fica em familia...
Depois tomou-lhe a mão, e olhando-a com ternura,
como compadecendo-se já das lagrimas afflictas
que ella ia chorar:
—E agora escuta, filha. Não te afflijas com o que
te vou dizer, mas é necessario, é a nossa
salvação...
Ás primeiras palavras, porém, do casamento com
o escrevente, Amelia indignou-se com espalhafato.
—Nunca, antes morrer!
O quê? Elle punha-a n'aquelle estado e agora
queria descartar-se d'ella e passal-a a outro? Era ella
porventura um trapo que se usa e que se atira
a um pobre? Depois de ter posto fóra de casa o homem,
havia de humilhar-se, chamal-o e cahir-lhe
nos braços?... Ah, não! Tambem ella tinha o seu
brio! Os escravos trocavam-se, vendiam-se, mas era
no Brazil!
Enterneceu-se então. Ah, elle já não a
amava,
estava farto d'ella! Ah, que desgraçada, que
desgraçada
que era!—Atirou-se de bruços para a cama e
rompeu n'um chôro estridente.
—Cala-te, mulher, que te podem ouvir na rua!
dizia Amaro desesperado, sacudindo-a pelo braço.
—Não me importa! Que ouçam! P'r'á rua
vou
eu gritar que estou n'este estado, que foi o senhor
padre Amaro, e que me quer agora deixar!...
Amaro fazia-se livido de raiva, com um desejo
furioso de lhe bater. Mas conteve-se; e com uma
voz que tremia sob a sua serenidade:
—Tu estás fóra de ti, filha... Dize
lá, posso eu
casar comtigo? Não! Bem, então que queres? Se se
percebe que estás assim, se tens o filho em casa,
vê
o escandalo!... Por ti, estás perdida, perdida p'ra
sempre! E eu, se se souber, que me succede? Perdido
tambem, suspenso, mettido em processo talvez...
De que queres tu que eu viva? Queres que
morra de fome?
Enterneceu-se tambem áquella idéa das
privações
e das miserias do padre interdicto.—Ah, era ella,
era ella que o não amava, e que depois d'elle ter
sido tão carinhoso e tão delicado, lhe queria
pagar
com o escandalo e com a desgraça...
—Não, não! exclamou Amelia em
soluços, lançando-se-lhe
ao pescoço.
E ficaram abraçados, tremendo no mesmo
enternecimento,—ella
molhando de pranto o hombro do parocho,
elle mordendo o beiço com os olhos todos
turvos d'agua.
Desprendeu-se brandamente, emfim, e limpando
as lagrimas:
—Não, filha, é uma desgraça que nos
succede,
mas tem de ser. Se tu soffres, imagina eu! Vêr-te
casada, a viver com outro... Nem fallemos n'isso...
Mas então, é a fatalidade, é Deus que
a manda!
Ella ficára aniquilada, á beira do leito, tomada
ainda de grandes soluços. Tinha chegado emfim o
castigo, a vingança de Nossa Senhora, que ella sentia
preparar-se ha tempos no fundo dos céos, como
uma tormenta complicada. Ahi estava, agora, peor
que os fogos do Purgatorio! Tinha de se separar de
Amaro que imaginava amar mais, e ir viver com o
outro, com o excommungado! Como poderia ella nunca
reentrar na graça de Deus, depois de ter dormido
e vivido com um homem que os canones, o Papa,
toda a terra, todo céo consideravam maldito?... E
devia ser esse seu marido, talvez o pai d'outros filhos...
Ah, Nossa Senhora vingava-se de mais!
—E como posso eu casar com elle, Amaro, se
o homem está excommungado?!
Amaro então apressou-se a tranquillisal-a, prodigalisando
os argumentos. Era necessario não exagerar...
O rapaz, verdadeiramente, excommungado não
estava... Natario e o conego tinham interpretado mal
os canones e as bullas... Bater n'um sacerdote que
não estava revestido não era motivo
d'excommunhão
ipso facto, segundo certos
auctores... Elle, Amaro,
era d'essa opinião... De mais a mais podiam levantar-lhe
a excommunhão.
—Tu comprehendes... Como disse o santo concilio
de Trento, e como sabes,
nós atamos e
desatamos.
O moço foi excommungado?... Bem, levantamos-lhe
a excommunhão... Fica tão limpo como
d'antes. Não, isso não te dê cuidado.
—Mas de que havemos de viver, se elle perdeu
o emprego?
—Tu não me deixaste dizer... Arranja-se-lhe o
emprego. Arranja-lh'o o padre-mestre. Está tudo
combinadinho, filha!
Ella não respondeu, muito quebrada e muito triste,
com duas lagrimas persistentes ao comprido das
faces.
—Dize cá, tua mãi não desconfia de
nada?
—Não, por ora não se percebe, respondeu ella
com um grande ai.
Ficaram calados: ella limpando as lagrimas, serenando
para sahir; elle de cabeça baixa, trilhando
lugubremente o soalho do quarto, pensando nas boas
manhãs d'outr'ora, quando só havia alli beijos e
risadinhas
abafadas; tudo mudára agora, até o tempo
que estava todo nublado, um dia de fim de verão,
ameaçando chuva.
—Percebe-se que estive a chorar? perguntou ella,
compondo ao espelho o cabello.
—Não. Vaes-te?
—A mamã está á minha espera...
Deram um beijo triste, e ella sahiu.
No emtanto a Dionysia farejava pela cidade na
pista de João Eduardo. A sua actividade desenvolvera-se,
sobretudo, mal soubera que o conego Dias, o
ricaço, estava interessado na
«pesquiza». E todos os
dias, á noitinha, esgueirava-se cautelosamente pelo
portão d'Amaro a dar-lhe as novidades: já sabia
que
o escrevente estivera ao principio em Alcobaça com
um primo boticario; depois fôra para Lisboa; ahi,
com uma carta de recommendação do doutor
Gouvêa,
empregára-se no cartorio d'um procurador; mas
o procurador, passados dias, por uma fatalidade,
morrera de apoplexia; e desde então o rasto de
João
Eduardo perdia-se no vago, no cahos da capital. Havia,
sim, uma pessoa que lhe devia saber a morada
e os passos: era o typographo, o Gustavo. Mas
infelizmente o Gustavo, depois d'uma questão com
o Agostinho, deixára o
Districto e desapparecera.
Ninguem sabia para onde fôra; por desgraça, a
mãi
do typographo não a podia informar—porque morrera
tambem.
—Oh, senhores! dizia o conego quando o padre
Amaro lhe ia levar estes fios d'informação. Oh,
senhores!
mas então n'essa historia toda a gente morre!
Isso é uma hecatombe!
—Vossê graceja, padre-mestre, mas é
sério.
Olhe que um homem em Lisboa é agulha em palheiro.
É uma fatalidade!
Então, afflicto já, vendo passar os dias,
escreveu
á tia, pedindo-lhe que esquadrinhasse por toda a Lisboa,
a vêr se por lá apparecera «um tal
João Eduardo
Barbosa...» Recebeu uma carta da tia em garatujas
de tres paginas, queixando-se do Joãosinho, do
seu Joãosinho, que lhe fizera a vida um inferno,
embebedando-se
com genebra a ponto que não lhe paravam
hospedes em casa. Mas estava agora mais
tranquilla: o pobre Joãosinho havia dias
jurára-lhe
pela alma da mamã que d'ahi por diante não
beberia
senão gazosa. Emquanto ao tal João Eduardo
perguntára na visinhança e ao snr. Palma do
ministerio
das obras publicas, que conhecia toda a gente,
mas nada averiguára. Havia, sim, um Joaquim Eduardo
que tinha uma loja de quinquilherias no bairro...
E se fosse o negocio com elle bem ia, que era
um homem de bem...
—Lérias! lérias! interrompeu o conego
impaciente.
Resolveu-se elle então a escrever. E instado pelo
padre Amaro (que não cessava de lhe representar o
que a S. Joanneira e elle mesmo, conego Dias, soffreria
com o escandalo) chegou a auctorisar ao seu
amigo da capital as despezas necessarias para empregar
a policia. A resposta demorou-se, mas veio
emfim, promettedora e magnifica! O habil policia
Mendes descobrira João Eduardo! Somente não lhe
sabia ainda a morada, avistára-o apenas n'um
café;
mas em dois ou tres dias o amigo Mendes promettia
informações precisas.
O desespero dos dois sacerdotes, porém, foi grande
quando, d'ahi a dias, o amigo do conego escreveu
que o indivíduo, que o habil policia Mendes
tomára
por João Eduardo, n'um café da Baixa, sobre
signaes incompletos, era um moço de Santo Thyrso
que estava na capital a fazer concurso para delegado...
E havia tres libras e dezesete tostões de despeza.
—Dezesete demonios! rugiu o conego, voltando
para Amaro furioso. E no fim de contas foi o senhor
que gozou, que se refocillou, e sou eu que estou
aqui a arrasar a minha saude com estas andadas, e
a fazer desembolsos d'esta ordem!
Amaro, dependente do padre-mestre, vergou os
hombros á injuria.
Mas não estava nada perdido, graças a Deus. A
Dionysia lá andava no faro!
Amelia recebia estas noticias com desconsolação.
Depois das primeiras lagrimas, a irremediavel necessidade
impuzera-se-lhe, muito forte. Por fim que
lhe restava? D'ahi a dois ou tres mezes, com aquelle
seu desgraçado corpo de cinta fina e quadris estreitos,
não poderia esconder o seu estado. E que faria
então? Fugir de casa, ir como a filha do tio Cegonha
para Lisboa, ser espancada no Bairro Alto pelos marujos
inglezes, ou como a Joanninha Gomes, que fôra
a amiga do padre Abilio, levar pela cara os ratos
mortos que lhe atiravam os soldados? Não. Então,
tinha de casar...
Depois vir-lhe-hia um menino ao fim dos sete
mezes (era tão frequente!), legitimado pelo sacramento,
pela lei e por Deus Nosso Senhor... E o seu
filho teria um papá, receberia uma
educação, não
seria um engeitado...
Desde que o senhor parocho lhe affirmára, em
juramento, que o escrevente
não estava
realmente
excommungado, que com algumas
orações se lhe
levantaria a excommunhão, os seus escrupulos devotos
esmoreciam como brazas que se apagam. No
fim, em todos os erros do escrevente, ella só podia
descobrir a incitação do ciume e do amor:
fôra n'um
despeito de namorado que escrevera o
Communicado,
fôra n'um furor de paixão trahida que
espancára
o senhor parocho... Ah! não lhe perdoava esta brutalidade!
Mas que castigado fôra! Sem emprego, sem
casa, sem mulher, tão perdido na miseria anonyma
de Lisboa que nem a policia o achava! E tudo por
ella. Pobre rapaz! No fim não era feio... Fallavam
da sua impiedade; mas vira-o sempre muito attento
á missa, rezava todas as noites uma
oração especial
a S. João que ella lhe dera impressa n'um cartão
bordado...
Com o emprego no governo civil podiam ter
uma casinha e uma criada... Porque não seria feliz,
por fim? Elle não era rapaz de botequins, nem de
vadiagem. Tinha a certeza de o dominar, de lhe impôr
os seus gostos e as suas devoções. E seria
agradavel
sahir aos domingos de manhã para a missa,
arranjada, de marido ao lado, comprimentada de todos,
podendo, á face da cidade, passear o seu filho
muito vistoso na sua touca de rendas e na sua grande
capa franjada! Quem sabe se, então, pelos carinhos
que désse ao pequerrucho e pelos confortos de
que cercasse o homem, o céo e Nossa Senhora se
não abrandariam! Ah! para isso faria tudo, para ter
outra vez no céo aquella amiga, a sua querida Nossa
Senhora, amavel e confidente, sempre prompta a curar-lhe
as dôres, a livral-a de infortunios, occupada
a preparar-lhe no paraiso um luminoso conchego!
Pensava assim horas inteiras, sobre a sua costura;
pensava assim, mesmo no caminho para casa do
sineiro; e depois de ter estado um momento com a
Tótó, muito quieta agora, extenuada da febre
lenta,
quando subia ao quarto, a primeira pergunta a Amaro
era:
—Então, ha alguma novidade?
Elle franzia a testa, rosnava:
—A Dionysia lá anda... Porquê, tens muita
pressa?
—Tenho muita pressa, tenho, respondia ella
muito séria, que a vergonha é para mim.
Elle calava-se; e havia tanto odio como amor
nos beijos que lhe dava—áquella mulher que se resignava
assim tão facilmente a ir dormir com outro!
Tinha ciumes d'ella—que lhe tinham vindo ultimamente
desde que a vira conformar-se áquelle
casamento odioso! Agora, que ella já não chorava,
começava a enfurecer-se da falta das suas lagrimas;
e secretamente desesperava-se d'ella não preferir a
vergonha com elle á rehabilitação com
o outro. Não
lhe custaria tanto se ella continuasse a barafustar,
a fazer um alarido de prantos; isso seria uma prova
séria de amor, em que a sua vaidade se banharia
deliciosamente;
mas aquella aceitação do escrevente
agora, sem repugnancia e sem gestos d'horror, indignava-o
como uma traição. Viera a suspeitar que
a ella no fundo não lhe
desagradava a
mudança.
João Eduardo por fim era um homem; tinha a força
dos vinte e seis annos, os attractivos d'um bello bigode.
Ella teria nos braços d'elle o mesmo delirio
que tinha nos seus... Se o escrevente fosse um velho
consumido de rheumatismo, ella não mostraria a mesma
resignação. Então, por
vingança do padre, para
«lhe desmanchar o arranjo», desejava que
João
Eduardo não apparecesse: e muitas vezes, quando a
Dionysia lhe vinha dar conta dos passos, dizia-lhe
com um mau sorriso:
—Não se canse. O homem não apparece. Deixe
lá... Não vale a pena ganhar dôr de
peito...
Mas a Dionysia tinha o peito forte—e uma noite
veio, triumphante, dizer-lhe que estava na pista
do homem! Vira emfim o Gustavo, o typographo, entrar
para a casa de pasto do tio Osorio. Ao outro dia
ia-lhe fallar, e havia de se saber tudo...
Foi uma hora amargurada para Amaro. Aquelle
casamento, por que anciára no primeiro momento de
terror, agora, que o sentia seguro, parecia-lhe a catastrophe
da sua vida.
Perdia Amelia para sempre!... Aquelle homem
que elle expulsára, que elle supprimira, alli lhe vinha,
por uma d'estas peripecias malignas em que a
Providencia se compraz, levar-lhe a mulher legitimamente.
E a idéa que elle ia tel-a nos braços,
que ella lhe daria os beijos fogosos que lhe dava a
elle, que balbuciaria
oh,
João!—como agora murmurava
oh, Amaro!—enfurecia-o. E
não podia evitar
o casamento; todos o queriam, ella, o conego,
até a Dionysia com o seu zêlo venal!
De que lhe servia ser um homem com sangue
nas veias e as paixões fortes d'um corpo são?
Tinha
de dizer adeus á rapariga,—vêl-a partir de
braço
dado com o
outro, com o marido, irem
ambos para
casa brincar com o filho, um filho que era seu! E elle
assistiria á destruição da sua alegria
de braços cruzados,
esforçando-se por sorrir, voltaria a viver só,
eternamente só, e a relêr o Breviario!... Ah! se
fosse no tempo em que se supprimia um homem com
uma denuncia d'heresia!... Que o mundo recuasse
duzentos annos, e o snr. João Eduardo havia de saber
o que custa achincalhar um sacerdote e casar
com a menina Amelia...
E esta idéa absurda, na exaltação da
febre em
que estava, apoderou-se tão fortemente da sua
imaginação
que toda a noite a sonhou—n'um sonho vivido,
que muitas vezes depois contou rindo ás senhoras.
Era uma rua estreita batida d'um sol ardente;
entre as altas portas chapeadas, uma populaça
apinhava-se; pelos balcões, fidalgos muito bordados
retorciam o bigode cavalheiresco; olhos reluziam,
entre as pregas das mantilhas, accêsos n'um furor
santo. E pela calçada, a procissão do
auto-de-fé movia-se
devagar, n'um vasto ruido, sob o tremendo
dobre a finados de todos os sinos visinhos. Adiante
os flagellantes semi-nus, de capuz branco sobre o
rosto, dilaceravam-se, uivando o
Miserere, com as
costas empastadas de sangue: sobre um jumento ia
João Eduardo, idiota de terror, com as pernas pendentes,
a camisa alva sarapintada de diabos côr
de fogo, tendo ao peito um rotulo em que estava
escripto—
POR HEREJE;
por traz um
medonho
servente do Santo Officio espicaçava furiosamente o
jumento; e ao pé um padre, erguendo alto o crucifixo,
berrava-lhe aos ouvidos os conselhos do arrependimento.
E elle, Amaro, caminhava ao lado cantando
o
Requiem, de Breviario aberto n'uma
mão,
com a outra abençoando as velhas, as amigas da rua
da Misericordia que se agachavam para lhe beijar a
alva. Ás vezes voltava-se para gozar aquella pompa
lugubre, e via então a longa fila da confraria
dos Nobres: aqui era um personagem pansudo e
apopletico, além uma face de mystico com um bigode
feroz e dois olhos chammejantes; cada um levava
uma tocha accêsa, e na outra mão sustentava o
chapéo cuja pluma negra varria o chão. Os
capacetes
dos arcabuzeiros reluziam; uma cólera devota
contorcia as faces esfomeadas do populacho; e o
prestito ondeava nas tortuosidades da rua, entre o
clamor do canto-chão, os gritos dos fanaticos, o dobrar
aterrador dos sinos, o tlim-tlim das armas, n'um
terror que enchia toda a cidade,—aproximando-se
da platafórma de tijolo onde já fumegavam as
pilhas
de lenha.
E o seu desengano foi grande, depois d'aquella
gloria ecclesiastica do sonho, quando a criada o veio
acordar cedo com agua quente para a barba.
Era pois n'esse dia que se ia saber do snr. João
Eduardo, e escrever-se-lhe!... Devia encontrar-se
com Amelia ás onze horas; e foi a primeira coisa
que lhe disse, atirando a porta do quarto com mau
modo:
—O homem appareceu... Pelo menos appareceu
o amigo intimo, o typographo, que sabe onde a
bêsta pára...
Amelia, que estava n'um dia de desalento e terror,
exclamou:
—Ainda bem, que se acaba este tormento!
Amaro teve um risinho repassado de fel:
—Então agrada-te, hein?
—Se te parece, n'este susto em que ando...
Amaro teve um gesto desesperado, d'impaciencia.
Susto! Não estava má hypocrisia! Susto de
quê?
Com uma mãi que era uma babosa, que lhe consentia
tudo... O que era, era que queria casar...
Queria outro! Não lhe agradava aquelle divertimento
pela manhã, de fugida... Queria a coisa commodamente,
em casa. Imaginava a menina que o illudia a
elle, um homem de trinta annos e quatro annos de
experiencia de confissão? Via bem através
d'ella...
Era como as outras, queria mudar d'homem.
Ella não respondia, muito pallida. E Amaro, furioso
com o seu silencio:
—Calas-te, está claro... Que has de tu dizer? Se
é a verdade pura!... Depois dos meus sacrificios...
Depois do que tenho soffrido por ti... Apparece-te o
outro, larga para o outro!
Ella ergueu-se, e batendo o pé, desesperada:
—Foste tu que quizeste, Amaro!
—Pudera! Se imaginas que me havia de perder
por tua causa! Está claro que quiz!...—E olhando-a
d'alto, fazendo-lhe sentir um desprezo d'alma
muito recta:—Mas nem vergonha tens de mostrar a
alegria, o furor de ir para o homem!... És uma
desavergonhada,
é o que é...
Ella, sem uma palavra, branca como a cal, agarrou
o mantelete para sahir.
Amaro, exasperado, segurou-a violentamente pelo
braço:
—P'ra onde vaes? Olha bem p'ra mim. És uma
desavergonhada... Estou-te a dizer. Estás morta por
dormir com o outro...
—Pois acabou-se, estou! disse ella.
Amaro, perdido, atirou-lhe uma bofetada.
—Não me mates! gritou ella. É o teu filho!
Elle ficou diante d'ella, enleado e tremulo: áquella
palavra, áquella idéa do seu filho, uma piedade,
um amor desesperado revolveu todo o seu sêr: e
arremessando-se
sobre ella, n'um abraço que a esmagava,
como querendo sepultal-a no peito, absorvel-a
toda só para si, atirando-lhe beijos furiosos que a
magoavam,
pela face e pelos cabellos:
—Perdôa, murmurava, perdôa, minha Ameliasinha!
Perdôa, que estou doido!
Ella soluçava, n'um pranto nervoso;—e toda a
manhã foi no quarto do sineiro um delirio d'amor a
que aquelle sentimento da maternidade, ligando-os
como um sacramento, dava uma ternura maior, um
renascimento incessante de desejo, que os lançava
cada vez mais ávidos nos braços um do outro.
Esqueceram as horas; e Amelia só se decidiu a
saltar do leito quando ouviram em baixo na cozinha
a muleta do tio Esguelhas.
Emquanto ella se arranjava á pressa diante do
bocado d'espelho que ornava a parede, Amaro diante
d'ella contemplava-a com melancolia, vendo-a a passar
o pente nos cabellos—nos cabellos que elle
dentro em breve não tornaria a vêr pentear; deu
um grande suspiro, disse-lhe enternecido:
—Estão a acabar os nossos bons dias, Amelia.
És tu que queres... Has de te lembrar algumas vezes
d'estas boas manhãs...
—Não digas isso! fez ella com os olhos arrazados
d'agua.
E atirando-se-lhe de repente ao pescoço, com a
antiga paixão dos tempos felizes, murmurou-lhe:
—Hei de ser sempre a mesma para ti... Mesmo
depois de casada.
Amaro agarrou-lhe as mãos sôfregamente:
—Juras?
—Juro.
—Pela hostia sagrada?
—Juro pela hostia sagrada, juro por Nossa Senhora!
—Sempre que tenhas occasião?
—Sempre!
—Oh, Ameliasinha! oh, filha! não te trocava
por uma rainha!
Ella desceu. O parocho, dando uma arranjadella
ao leito, ouvia-a em baixo fallar tranquillamente
com o tio Esguelhas; e dizia comsigo que era uma
grande rapariga, capaz d'enganar o diabo, e que
havia de fazer andar n'uma roda viva o pateta do
escrevente.
Aquelle «pacto», como lhe chamava o padre
Amaro, tornou-se entre elles tão irrevogavel que
já
lhe discutiam tranquillamente os detalhes. O casamento
com o escrevente consideravam-no como uma
d'estas necessidades que a sociedade impõe e que
suffoca as almas independentes, mas a que a natureza
se subtrae pela menor fenda, como um gaz
irreductivel. Diante de Nosso Senhor, o verdadeiro
marido d'Amelia era o senhor parocho; era o marido
da alma, para quem seriam guardados os melhores
beijos, a obediencia intima, a vontade; o outro
teria quando muito o
cadaver...
Já ás vezes
mesmo tramavam o plano habil das correspondencias
secretas, dos logares occultos de
rendez-vous...
Amelia estava de novo, como nos primeiros tempos,
em todo o fogo da paixão. Diante da certeza
que em algumas semanas o casamento ia tornar
«tudo branco como a neve», os seus transes tinham
desapparecido, o mesmo terror da vingança do céo
calmára-se. Depois, a bofetada que lhe dera Amaro
fôra como a chicotada que esperta um cavallo que
preguiça e se atraza: e a sua paixão,
sacudindo-se
e relinchando forte, ia-a de novo levando no impeto
d'uma carreira fogosa.
Amaro, esse regosijava-se. Ainda ás vezes, decerto,
a idéa d'aquelle homem, de dia e de noite
com ella, importunava-o... Mas, no fundo, que
compensações!
Todos os perigos desappareciam magicamente,
e as sensações requintavam. Findavam para
elle aquellas atrozes responsabilidades da
seducção,
e ficava-lhe a mulher mais appetitosa.
Instava agora com a Dionysia para que acabasse
emfim aquella fastidiosa campanha. Mas a boa
mulher, decerto para se fazer pagar melhor pela
multiplicidade d'esforços, não podia descobrir o
typographo—aquelle
famoso Gustavo que possuia, como
os anões de romance de cavallaria, o segredo da
torre maravilhosa onde vive o principe encantado.
—Oh, senhor! dizia o conego, isso até já cheira
mal! Ha quasi dois mezes á busca d'um patife!...
Homem, escreventes não faltam. Arranje-se outro!
Mas emfim, uma noite em que elle entrára a descansar
em casa do parocho, a Dionysia appareceu;
e exclamou logo da porta da sala de jantar, onde os
dois padres tomavam o seu café:
—Até que emfim!
—Então, Dionysia?
A mulher, porém, não se apressou: sentou-se
mesmo, com licença dos senhores, porque vinha derreada...
Não, o senhor conego não imaginava os
passos que se vira obrigada a dar... O maldito typographo
lembrava-lhe a historia, que lhe contavam
em pequena, d'um veado que estava sempre á vista
e que os caçadores a galope nunca alcançavam. Uma
perseguição assim!... Mas, finalmente
apanhára-o...
E tocadito, por signal.
—Acabe, mulher! berrou o conego.
—Pois aqui está, disse ella. Nada!
Os dois sacerdotes olharam-na mystificados.
—Nada quê, creatura?
—Nada. O homem foi p'r'ó Brazil!
O Gustavo recebera de João Eduardo duas cartas:
na primeira, onde lhe dava a morada, para o
lado do Poço do Borratem, annunciava-lhe a
resolução
de ir para o Brazil; na segunda dizia-lhe que
mudára de casa, sem lhe indicar a nova
adresse, e
declarava que pelo proximo paquete embarcava para
o Rio; não dizia nem com que dinheiro, nem com
que esperanças. Tudo era vago e mysterioso. Desde
então, havia um mez, o rapaz não
tornára a escrever,
d'onde o typographo concluia que ia a essa
hora nos altos mares...—«Mas havemos de vingal-o!»
tinha elle dito a Dionysia.
O conego remexia pausadamente o seu café, embatocado.
—E esta, padre-mestre? exclamou Amaro, muito
branco.
—Acho-a boa.
—Diabo levem as mulheres, e o inferno as confunda!
disse surdamente Amaro.
—Amen, respondeu gravemente o conego.