Lembras-te d'esse tempo da delicias,
Ó anjo feiticeiro, Amelia amada,
Quando tudo eram risos e ventura
E a vida nos corria socegada?
Lembras-te d'essa noite de poesia
Em que a lua brilhava pelos céos,
E nós unindo as almas, ó Amelia,
Erguemos nossa prece para Deus?...
Mas a despeito de todos os esforços nunca passára
d'estas duas quadras—apesar de as ter produzido
com uma facilidade promettedora—como se o
seu sêr contivesse apenas estas duas gottas isoladas
de poesia, e, soltas ellas á primeira pressão,
nada
mais restasse senão a sêcca prosa do temperamento
carnal.
E esta existencia varia relaxára-lhe tão
subtilmente
todo o machinismo da vontade e da acção,
que qualquer trabalho que lhe pudesse encher a fastidiosa
concavidade das horas infindaveis era-lhe odioso
como o peso d'um fardo injusto. Preferia ainda
os tedios da ociosidade aos tedios da occupação.
A
não serem os deveres estrictos que elle não podia
desleixar sem escandalo e sem
censura—desembaraçára-se,
pouco a pouco, de todas as praticas do
zelo interior: nem a oração mental, nem as
visitas
regulares ao Santissimo, nem as meditações
espirituaes,
nem o rosario á Virgem, nem a leitura á noite
do Breviario, nem o exame de consciencia—todas
estas obras da devoção, estes meios secretos de
santificação progressiva substituia-os pelos
infindaveis
passeios pelo quarto, do lavatorio á janella, e
por maços de cigarros fumados até ao negro dos
dedos.
A missa, pela manhã, era rapidamente engorolada;
o serviço da parochia feito com surdas revoltas
de impaciencia; tornára-se consummadamente o
Indignus sacerdos dos ritualistas; e
tinha na sua
ampla totalidade os trinta e cinco defeitos e os sete
meios defeitos que os theologos attribuem ao
mau
padre.
Só lhe restava através da sua sentimentalidade
um appetite tremendo. E como a cozinheira era excellente,
e a snr.
a D. Maria da
Assumpção, antes da
sua partida para a Vieira, lhe deixára um fornecimento
de cento e cincoenta missas a cruzado—banqueteava-se,
tratando-se a gallinha e a geleia, regando-se
d'um vinho picante da Bairrada que o padre-mestre
lhe escolhera. E alli ficava á mesa, horas esquecidas,
de perna esticada, fumando sobre o café,
e lamentando não ter á mão a sua
Ameliasita...
—Que fará ella por lá, a pobre Ameliasita!
pensava,
espreguiçando-se com tedio e com langor.
A pobre Ameliasita, na Ricoça, amaldiçoava a sua
vida.
Logo durante a jornada no
char-à-banc D. Josepha
lhe fizera tacitamente sentir que d'ella não tinha
a esperar nem a antiga amizade, nem o perdão do
escandalo... E assim foi, quando se installaram. A
velha tornou-se intratavel: era todo um modo cruel
de abandonar o
tu, de a tratar por
menina; uma recusa
rispida se Amelia lhe queria arranjar a almofada
ou aconchegal-a no chale; um silencio reprehensivo
quando ella lhe passava o serão no quarto, costurando;
e a todo o momento allusões suspiradas ao
triste encargo que Deus lhe mandava no fim dos
seus dias...
Amelia, comsigo, accusava o parocho: elle promettera-lhe
que a madrinha seria toda caridade, toda
cumplicidade; entregava-a por fim a uma semelhante
ferocidade de velha virgem devota!...
Quando se viu n'aquelle casarão da Ricoça, n'um
quarto regelado, pintado a côr de canario, lugubremente
mobilado com uma cama de docel e duas cadeiras
de couro, chorou toda a noite com a cabeça,
enterrada no travessseiro—torturada por um cão
que debaixo das janellas, estranhando sem duvida
as luzes e o movimento na casa, uivou até de madrugada.
Ao outro dia desceu á quinta a vêr os caseiros.
Era talvez boa gente com quem podia distrahir-se.
Encontrou uma mulher, alta e lugubre como um cypreste,
carregada de luto: um grande lenço negro tingido,
muito puxado para a testa, dava-lhe um ar de
farricoco; e a sua voz gemebunda tinha uma tristeza
de dobre a finados. O homem pareceu-lhe ainda
peor, semelhante a um ourango-tango, com duas
orelhas enormes muito despegadas do craneo, uma
saliencia bestial de queixo, as gengivas deslavadas,
um corpo desengonçado de tisico, de peito mettido
para dentro. Abalou bem depressa, foi vêr o pomar:
andava maltratado; as ruasitas estavam invadidas
por um hervaçal humido; e a sombra das arvores
muito juntas, n'um terreno baixo, cercado d'altos
muros, dava uma sensação doentia.
Era ainda preferivel passar os seus dias mettida
no casarão; dias infindaveis em que as horas se iam
movendo com o vagar fastidioso d'um desfilar funerario.
O seu quarto era na frente; e pelas duas janellas
recebia a impressão triste da paizagem que se
estendia defronte, uma ondulação monotona de
terras
estereis com alguma magra arvore aqui e além,
um ar abafado em que parecia errar constantemente
a exhalação de paues proximos e de baixas
humidas,
e a que nem o sol de setembro dissipava o
tom sezonatico.
Logo pela manhã ia ajudar a levantar D. Josepha,
accommodal-a no canapé; depois vinha costurar
para ao pé d'ella—como outr'ora na rua da Misericordia
para ao pé da mãi; mas agora em logar das
boas «cavaqueiras» tinha só o silencio
intratavel da
velha e a sua ronqueira incessante. Pensára em fazer
vir o seu piano da cidade; mas, apenas em tal
fallou, a velha exclamou com azedume:
—A menina está doida... Não tenho saude para
tocatas! Ora o desproposito!
A Gertrudes tambem não lhe fazia companhia;
nas horas em que não estava ao pé da velha, ou na
cozinha, desapparecia; era justamente d'aquella freguezia,
e passava o seu tempo pelos casaes, palrando
com as antigas visinhas.
A peor hora era ao anoitecer. Depois de rezar o
seu rozario, ficava junto á janella olhando estupidamente
as gradações da luz poente; todos os campos
pouco a pouco se perdiam no mesmo tom pardo; um
silencio parecia descer, pousar sobre a terra; depois
uma primeira estrellinha tremeluzia e brilhava; e
diante d'ella era então só uma massa inerte de
sombra
muda até ao horisonte, aonde ainda ficava um
momento uma delgada tira côr de laranja desbotada.
O seu pensamento, sem nenhum tom de luz ou contorno
de objecto em redor que o prendesse, ia muito
saudoso para longe, para a Vieira; áquella hora
a mãi e as amigas recolhiam do passeio na praia;
já
todas as redes estavam apanhadas; já pelos palheiros
começam a apparecer as luzes; é a hora do
chá,
dos quinos alegres, quando os rapazes da cidade vão
em rancho pelas casas amigas, com uma viola e uma
flauta, improvisando
soirées. E ella alli,
só!...
Era então necessario deitar a velha, rezar com ella
e com a Gertrudes o terço. Accendiam depois o candieiro
de latão, pondo-lhe diante uma velha chapeleira
para dar sombra ao rosto da doente; e todo o
serão, no silencio lugubre, apenas se ouvia o rumor
do fuso da Gertrudes que fiava agachada a um canto.
Antes de se deitarem, iam trancar todas as portas,
n'um medo constante de ladrões; e então
começava
para Amelia a hora dos terrores supersticiosos.
Não podia adormecer, sentido ao pé a negrura
d'aquellas antigas salas deshabitadas e em redor o
tenebroso silencio dos campos. Ouvia ruidos inexplicaveis:
era o soalho do corredor que estalava, sob
passadas mulplicadas; era a luz da vela que de repente
se dobrava como sob um halito invisivel; ou
a distancia, para os lados da cozinha, o baque surdo
d'um corpo. Accumulava então as
orações, encolhida
debaixo da roupa; mas, se adormecia, as visões
do pesadêlo continuavam-lhe os terrores da vigilia.
Uma vez acordára de repente, a uma voz que dizia,
gemendo, por traz da alta barra da cama:—
Amelia,
prepara-te, o teu fim chegou! Espavorida, em camisa,
atravessou correndo a casa, foi refugiar-se na cama
da Gertrudes.
Mas na noite seguinte a voz sepulchral voltou
quando ella ia adormecer:
Amelia, lembra-te dos teus
peccados! Prepara-te, Amelia! Deu um grito, desmaiou.
Felizmente a Gertrudes, que ainda se não deitára,
correu áquelle ai agudo que cortára o silencio
do casarão. Achou-a estirada ao través do leito,
com
os cabellos soltos da rede rojando no chão, as
mãos
geladas e como mortas. Desceu a acordar a mulher
do caseiro, e até de madrugada foi uma azafama
para a chamar á vida. Desde esse dia a Gertrudes
dormia ao pé d'ella—e a voz não tornou a
ameaçal-a
por traz da barra.
Mas, de noite e de dia, não a deixou mais a idéa
da morte e o pavor do inferno. Por esse tempo, um
vendedor ambulante d'estampas passou pela Ricoça;
e a snr.
a D. Josepha comprou-lhe duas
lithographias—a
Morte do Justo e a
Morte do Peccador.
—Que é bom que cada um tenha o exemplo vivo
diante dos olhos, disse ella.
Amelia não duvidou ao principio que a velha,
que contava morrer no mesmo apparato de gloria
com que expirava o
Justo da estampa,
lhe quizera
mostrar a ella, a
peccadora, a scena
pavorosa que a
esperava. Odiou-a por aquella «picardia». Mas a sua
imaginação aterrada não tardou a dar
á compra da
estampa outra explicação: era Nossa Senhora que
alli
mandára o vendedor de pinturas, para lhe mostrar
ao vivo na lithographia da
Morte do
Peccador o espectaculo
da sua agonia: e estava então certa que
tudo seria assim, traço por traço—o seu anjo da
guarda fugindo aos soluços; Deus-Padre desviando
o rosto d'ella com repugnancia; o esqueleto da morte
rindo ás gargalhadas; e demonios de côres
rutilantes,
com todo um arsenal de torturas, apoderando-se
d'ella, uns pelas pernas, outros pelos cabellos,
arrastando-a com uivos de jubilo para a caverna
chammejante toda abalada da tormenta de rugidos
que solta a Eterna Dôr... E ella podia vêr ainda,
no
fundo dos céos, a grande balança—com um dos
pratos muito alto onde as suas orações
não pesavam
mais que uma penna de canario, e o outro prato cahido,
de cordas retesadas, sustentando a enxerga da
cama do sineiro e as suas toneladas de peccado.
Cahiu então n'uma melancolia hysterica que a envelhecia;
passava os dias suja e desarranjada, não
querendo dar cuidado ao seu corpo peccador; todo o
movimento, todo o esforço lhe repugnava; as mesmas
orações lhe custavam, como se as julgasse
inuteis;
e tinha atirado para o fundo d'uma arca o enxoval
que andava a costurar para o filho—porque o
odiava, aquelle sêr que ella sentia mexer-se-lhe
já
nas entranhas e que era a causa da sua perdição.
Odiava-o—mas menos que o outro, o parocho que
lh'o fizera, o padre malvado que a tentára, a
estragára,
a atirára ás chammas do inferno! Que desespero
quando pensava n'elle! Estava em Leiria socegado,
comendo bem, confessando outras, namorando-as
talvez—e ella alli sósinha, com o ventre condemnado
e enfartado do peccado que elle lá depuzera,
ia-se afundindo na perdição sempiterna!
Decerto esta excitação a teria matado—se
não
fosse o abbade Ferrão que começára
então a vir vêr
muito regularmente a irmã do amigo conego.
Amelia ouvira fallar muitas vezes n'elle na rua
da Misericordia; dizia-se lá que o Ferrão tinha
«idéas
exquisitas»: mas não era possivel recusar-lhe nem
a virtude da vida nem a sciencia de sacerdote. Havia
muitos annos que era alli abbade; os bispos tinham-se
succedido na diocese, e elle alli ficára esquecido
n'aquella freguezia pobre, de congrua atrazada,
n'uma residencia onde chovia pelos telhados. O ultimo
vigario geral, que nunca dera um passo para o
favorecer, dizia-lhe todavia, liberal de palavriado:
—Vossê é um dos bons theologos do reino.
Vossê
está predestinado por Deus para um bispado. Vossê
ainda apanha a mitra. Vossê ha de ficar na historia
da Igreja portugueza como um grande bispo Ferrão!
—Bispo, senhor vigario geral! Isso era bom!
Mas era necessario que eu tivesse o arrojo d'um Affonso
d'Albuquerque ou d'um D. João de Castro, para
aceitar aos olhos de Deus semelhante responsabilidade!
E alli ficára, entre gente pobre, n'uma aldeia de
terra escassa, vivendo de dois pedaços de pão e
uma chavena de leite, com uma batina limpa onde
os remendos faziam um mappa, precipitando-se a
uma meia legua por um temporal desfeito se um parochiano
tinha uma dôr de dentes, passando uma hora
a consolar uma velha a quem tinha morrido uma
cabra... E sempre de bom humor, sempre com um
cruzado no fundo do bolso dos calções para uma
necessidade
do seu visinho, grande amigo de todos os
rapazitos a quem fazia botes de cortiça, e não
duvidando
parar, se encontrava uma rapariga bonita, o
que era raro na freguezia, e exclamar: «Linda
moça,
Deus a abençôe!»
E todavia, em novo, a pureza dos seus costumes
era tão celebre, que lhe chamavam «a
donzella».
De resto, padre perfeito no zelo da Igreja; passando
horas d'estação aos pés do Santissimo
Sacramento;
cumprindo com uma felicidade fervente as
menores praticas da vida devota; purificando-se para
os trabalhos do dia com uma profunda oração
mental, uma meditação de fé, d'onde a
sua alma
sahia mais agil, como d'um banho fortificante; preparando-se
para o somno com um d'estes longos e
piedosos exames de consciencia, tão uteis, que Santo
Agostinho e S. Bernardo faziam do mesmo modo que
Plutarcho e Seneca, e que são a
correcção laboriosa
e subtil dos pequenos defeitos, o aperfeiçoamento
meticuloso da virtude activa, emprehendido com um
fervor de poeta que revê um poema querido... E todo
o tempo que tinha vago, abysmava-se n'um cahos
de livros.
Tinha só um defeito o abbade Ferrão: gostava de
caçar! Cohibia-se, porque a caça tira muito
tempo,
e é sanguinario matar uma pobre ave que anda azafamada
pelos campos nos seus negocios domesticos.
Mas nas claras manhãs d'inverno, quando ainda ha
orvalho nas giestas, se via passar um homem d'espingarda
ao hombro, o passo vivo, seguido do seu
perdigueiro—iam-se-lhe os olhos n'elle... Ás vezes
porém, a tentação vencia: agarrava
furtivamente a
espingarda, assobiava á
Janota, e com as abas do
casacão ao vento, lá ia o theologo illustre, o
espelho
de piedade, através de campos e valles... E d'ahi
a pouco—pum... pum! Uma codorniz, uma perdiz
em terra! E lá voltava o santo homem com a espingarda
debaixo do braço, os dois passaros na algibeira,
cosendo-se com os muros, rezando o seu rosario
á Virgem, e respondendo aos
bons
dias da gente
pelo caminho com os olhos baixos e o ar muito
criminoso.
O abbade Ferrão, apesar do seu aspecto
«gêbo»
e do seu grande nariz, agradou a Amelia, logo desde
a primeira visita á Ricoça; e a sua sympathia
cresceu, quando viu que D. Josepha o recebia com
pouco alvoroço, apesar do respeito que o mano conego
tinha pela sciencia do abbade.
A velha, com effeito depois de ter estado só com
elle n'uma pratica d'horas, condemnára-o com uma
unica palavra, na sua auctoridade de velha devota
experiente:
—É relaxado!
Não se tinham realmente comprehendido. O bom
Ferrão, tendo vivido tantos annos n'aquella parochia
de quinhentas almas, as quaes cahiam todas, de
mães a filhas, no mesmo molde de
devoção simples
a Nosso Senhor, Nossa Senhora e S. Vicente, patrono
da freguezia, tendo pouca experiencia de confissão,
encontrava-se subitamente diante d'uma alma complicada
de devota de cidade, d'um beaterio caturra
e atormentado; e ao ouvir aquella extraordinaria
lista de peccados mortaes, murmurava espantado:
—É estranho, é estranho...
Percebera bem ao principio que tinha diante de
si uma d'essas degenerações morbidas do
sentimento
religioso, que a theologia chama
Doença dos
escrupulos—e
de que na sua generalidade estão affectadas
hoje todas as almas catholicas; mas depois,
a certas revelações da velha, receou estar
realmente
em presença d'uma maniaca perigosa; e instinctivamente,
com o singular horror que os sacerdotes
têm pelos doidos, recuou a cadeira.
Pobre D. Josepha! Logo na primeira noite em
que chegára á Ricoça (contava ella),
ao começar o rosario
a Nossa Senhora, lembrára-lhe de repente que
lhe esquecera o saiote de flanella escarlate, que era
tão efficaz nas dôres das pernas... Trinta e oito
vezes de seguida recomeçára o rosario, e sempre o
saiote escarlate se interpunha entre ella e Nossa Senhora!...
Então desistira, d'exhausta, d'esfalfada. E
immediatamente sentira dôres vivas nas pernas, e
tivera como uma voz de dentro a dizer-lhe que era
Nossa Senhora por vingança a espetar-lhe alfinetes
nas pernas...
O abbade pulou:
—Oh, minha senhora!...
—Ai, não é tudo, senhor abbade!
Havia outro peccado que a torturava: quando rezava,
às vezes, sentia vir a expectoração;
e, tendo
ainda o nome de Deus ou da Virgem na bôca, tinha
de escarrar; ultimamente engulia o escarro, mas estivera
pensando que o nome de Deus ou da Virgem
lhe descia d'embrulhada para o estomago e se ia
misturar com as fezes! Que havia de fazer?
O abbade, d'olhar esgazeado, limpava o suor da
testa.
Mas isto não era o peor: o grave era, que na
noite antecedente estava toda socegada, toda em virtude,
a rezar a S. Francisco Xavier—e de repente,
nem ella soube como, põe-se a pensar como seria
S. Francisco Xavier nú em pêllo!
O bom Ferrão não se moveu, atordoado. Emfim,
vendo-a a olhar anciosa para elle, á espera das suas
palavras e dos seus conselhos, disse:
—E ha muito que sente esses terrores, essas
duvidas...?
—Sempre, senhor abbade, sempre!
—E tem convivido com pessoas que, como a senhora,
são sujeitas a essas inquietações?
—Todas as pessoas que conheço, duzias d'amigas,
todo o mundo... O Inimigo não me escolheu só
a mim... A todos se atira...
—E que remedio dava a essas anciedades d'alma...?
—Ai, senhor abbade, aquelles santos da cidade,
o senhor parocho, o snr. Silverio, o snr. Guedes, todos,
todos nos tiravam sempre d'embaraços... E com
uma habilidade, com uma virtude...
O abbade Ferrão ficou calado um momento: sentia-se
triste, pensando que por todo o reino tantos
centenares de sacerdotes trazem assim voluntariamente
o rebanho n'aquellas trevas d'alma, mantendo
o mundo dos fieis n'um terror abjecto do céo, representando
Deus e os seus santos como uma côrte
que não é menos corrompida nem melhor que a de
Caligula e dos seus libertos.
Quiz então levar áquelle nocturno cerebro de
devota,
povoado de phantasmagorias, uma luz mais
alta e mais larga. Disse-lhe que todas as suas
inquietações
vinham da imaginação torturada pelo terror
d'offender a Deus... Que o Senhor não era um amo
feroz e furioso, mas um pai indulgente e amigo...
Que é por amor que é necessario servil-o,
não por
medo... Que todos esses escrupulos, Nossa Senhora
a enterrar alfinetes, o nome de Deus a cahir no estomago,
eram perturbações da razão doente.
Aconselhou-lhe
confiança em Deus, bom regimen para ganhar
forças. Que não se cansasse em
orações exageradas...
—E quando eu voltar, disse emfim erguendo-se
e despedindo-se, continuaremos a conversar sobre
isto, e havemos de serenar essa alma.
—Obrigada, senhor abbade, respondeu a velha
sêccamente.
E apenas a Gertrudes d'ahi a pouco entrou a
trazer-lhe a botija para os pés, D. Josepha exclamou,
toda indignada, quasi choramingando:
—Ai, não presta p'ra nada, não presta p'ra
nada!...
Não me percebeu... É um tapado... É um
pedreiro-livre, Gertrudes! Que vergonha n'um sacerdote
do Senhor...
Desde esse dia não tornou a revelar ao abbade
os peccados medonhos que continuava a commetter;
e quando elle, por dever, quiz recomeçar a
educação
da sua alma, a velha declarou-lhe sem rodeios
que, como se confessava com o senhor padre Gusmão,
não sabia se seria delicado receber d'outro a
direcção moral...
O abbade fez-se vermelho, respondeu:
—Tem razão, minha senhora, tem razão, deve-se
ter muita delicadeza n'essas coisas...
Sahiu. E d'ahi por diante, depois de ter entrado
no quarto a saber-lhe da saude, de ter fallado do
tempo, da estação, das doenças que
iam, d'alguma
festa na igreja,—apressava-se em se despedir e ir
para o terraço conversar com Amelia.
Vendo-a sempre tão tristonha, interessára-se por
ella; para Amelia, as visitas do abbade eram uma
distracção, n'aquella solidão da
Ricoça; e assim se
iam familiarisando, a ponto que nos dias em que
elle regularmente vinha, Amelia punha um mantelete
e ia pelo caminho dos Poyaes esperal-o até junto
á casa do ferrador. As conversas do abbade, fallador
incansavel, entretinham-na, tão differentes dos mexericos
da rua da Misericordia,—como o espectaculo
d'um largo valle com arvores, plantações, aguas,
pomares e rumor de lavouras, recreia os olhos habituados
ás quatro paredes caiadas d'uma trapeira
da cidade. Tinha com effeito uma d'estas
conversações
semelhantes aos
jornaes semanaes de
recreio,
o
Thesouro das familias
ou as
Leituras para serões,
em que de ha tudo—doutrina moral, historias
de viagens, anecdotas dos grandes homens,
dissertações
sobre a lavoura, citação d'uma boa
chalaça,
traços sublimes da vida d'um santo, um verso aqui
e além, e até receitas, como uma muito util que
deu
a Amelia para lavar as flanellas sem encolherem. Só
era monotono quando fallava da sua familia parochiana,
dos casamentos, baptisados, doenças, questões,
ou quando começava as suas historias de caça.
—Uma vez, minha rica senhora, ia eu pelo Corrego
das Tristes, quando uma revoada de perdizes...
Amelia sabia que, pelo menos uma hora, tudo seriam
façanhas da
Janota,
pontarias fabulosas contadas
em mimica, com imitações de vozes de passaros,
e
pum, pum de fusilaria. Ou
então eram descripções
das caçadas selvagens que elle lêra com
gula—a caça ao tigre do Nepal, ao leão d'Argelia
e ao elephante, historias ferozes que arrastavam a
imaginação da rapariga para longe, para os paizes
exoticos onde a herva é alta como os pinheiros, o
sol queima como um ferro em braza, e entre cada
ramagem reluzem os olhos d'uma fera... E depois,
a proposito de tigres e de malaios, lembrava-lhe
uma historia curiosa de S. Francisco Xavier, e eil-o
lançado, o terrivel palrador, na
descripção dos feitos
da Asia, das armadas da India e das estocadas famosas
do cerco de Diu!
Foi mesmo um d'esses dias, no pomar, em que
o abbade, tendo começado por enumerar as vantagens
que o conego tiraria de transformar o pomar
em terra de lavoura, acabára por contar perigos e
valores dos missionarios da India e do Japão—que
Amelia, então em toda a intensidade dos seus terrores
nocturnos, fallou dos ruidos que ouvia na casa e
dos sobresaltos que lhe davam.
—Oh, que vergonha! disse o abbade rindo;
uma senhora da sua idade ter medo de papões...
Ella então, attrahida por aquella bondade do senhor
abbade, contou-lhe as vozes que ouvia de noite
por detraz da barra da cama.
O abbade pôz-se sério:
—Minha senhora, isso são imaginações
que deve
a todo o custo dominar... Decerto tem havido prodigios
no mundo, mas Deus não se põe assim a fallar
a qualquer, por detraz das barras das camas, nem
permitte ao demonio que o faça... Essas vozes, se
as ouve, e se os seus peccados são grandes, não
vêm
de detraz da cama, vêm-lhe de si mesmas, da sua
consciencia... E póde então fazer dormir ao
pé de
si a Gertrudes, e cem Gertrudes, e todo o batalhão
de infanteria, que as ha de continuar a ouvir... Havia
de as ouvir, mesmo que fosse surda. O que é
necessario é calmar a consciencia que reclama penitencia
e purificação...
Tinham subido ao terraço, fallando assim: e Amelia
sentára-se fatigada n'um dos bancos de pedra
que alli havia, e ficára a olhar a quinta ao longe,
os tectos dos curraes, a longa rua de loureiros, a
eira, e a distancia os campos que se succediam planos
e avivados do tom humido que lhes dera a chuva
ligeira da manhã: agora a tarde estava d'uma
placidez clara, sem vento, com grandes nuvens paradas
que o sol do poente tocava de vivos côr de
rosa tenro... Pensava n'aquellas palavras tão sensatas
do abbade, no descanso que gozaria se cada peccado
que lhe pesava na alma como um penedo se
tornasse ligeiro e se dissipasse sob a acção da
penitencia.
E vinham-lhe desejos de paz, d'um repouso
igual á quietação dos campos que se
estendiam diante
d'ella.
Um passaro cantou, depois calou-se; e recomeçou
d'ahi a um momento com um trinado tão vibrante,
tão alegre, que Amelia sorria, escutando-o.
—É um rouxinol...
—Os rouxinoes não cantam a esta hora, disse o
abbade. É um melro... Ahi está um que
não tem
medo de phantasmas, nem ouve vozes... Olha que
enthusiasmo, o maganão!
Era com effeito um gorgear triumphante, um delírio
de melro feliz, que dera de repente a todo o
pomar uma sonoridade festiva.
E Amelia, diante d'aquelle chilrear glorioso d'um
passaro contente, subitamente, sem razão, n'um d'estes
abalos nervosos que vem às mulheres hystericas,
rompeu a chorar.
—Então, que é isso, que é isso? fez o
abbade
muito surprehendido.
Tomou-lhe a mão, com uma familiaridade de velho
e d'amigo, calmando-a.
—Que infeliz que sou!... murmurou ella aos
soluços.
Elle então muito paternal:
—Não tem razão para o ser... Sejam quaes forem
as afflicções, as
inquietações, uma alma christã
tem sempre a consolação á
mão... Não ha peccado
que Deus não perdôe, nem dôr que
não calme, lembre-se
d'isso... O que não deve é guardar em si o
seu desgosto... É isso que a suffoca, que a faz chorar...
Se eu lhe posso valer, socegal-a, é procurar-me...
—Quando? disse ella toda desejosa já de se refugiar
na protecção d'aquelle santo homem.
—Quando quizer, disse elle rindo. Eu não tenho
horas para consolar... A igreja está sempre aberta,
Deus está sempre presente...
Ao outro dia cedo, antes da hora em que a velha
se erguia, Amelia foi á residencia; e durante
duas horas esteve prostrada diante do pequeno confessionario
de pinho—que o bom abbade por suas
mãos pintára d'azul escuro, com extraordinarias
cabecinhas
d'anjos que em logar d'orelhas tinham
azas, uma obra d'alta arte de que elle fallava com
uma secreta vaidade.
XXIII
O padre Amaro acabára de jantar, e fumava,
com os olhos no tecto, para não vêr o
carão chupado
do coadjutor que havia meia hora alli estava,
immovel e espectral, fazendo cada dez minutos uma
pergunta que cahia no silencio da sala como os quartos
melancolicos que dá de noite um relogio de cathedral.
—O senhor parocho já não é assignante
da
Nação?
—Não senhor, leio o
Popular.
O coadjutor recahiu no silencio, começando logo
a colligir laboriosamente as palavras para uma
nova pergunta. Soltou-a emfim, com lentidão:
—Não se tornou a saber d'aquelle infame que
escreveu o
Communicado?
—Não senhor, foi para o Brazil.
A criada entrou, n'este momento, dizendo que
«estava alli uma pessoa que queria fallar ao senhor
parocho». Era a sua maneira d'annunciar a presença
de Dionysia na cozinha.
Havia semanas que ella não apparecia—e Amaro,
curioso, sahiu logo da sala fechando a porta sobre
si, e chamou a matrona ao patamar.
—Grande novidade, senhor parocho! E vim a
correr, que é sério. Está
cá o João Eduardo!
—Ora essa! exclamou o parocho. E eu justamente
a fallar d'elle! É extraordinario! Olha que coincidencia...
—É verdade, vi-o hoje. Fiquei banzada... E já
estou informada de tudo. O homem está mestre dos
filhos do Morgadinho.
—Que Morgadinho?
—O Morgadinho dos Poyaes... Se vive lá, ou se
vai pela manhã e vem á noite, isso não
sei. O que
sei é que voltou... E janota, fato novo... Eu entendi
que devia avisar, porque póde estar certo que
elle, mais dia menos dia, dá pela Ameliasinha lá
na
Ricoça... É no caminho p'ra casa do Morgado...
Que lhe parece?...
—Forte besta! rosnou Amaro com rancor. Quando
não serve é que apparece. Então por
fim não foi
para o Brazil?
—Pelos modos, não... Que a sombra d'elle não
era, era elle mesmo em carne e osso... A sahir da
loja do Fernandes por signal, e todo peralta... Sempre
é bom avisar a rapariga, senhor parocho, que
se não vá ella plantar de janella...
Amaro deu-lhe as duas placas que ella esperava—e
d'ahi a um quarto d'hora, desembaraçado do
coadjutor, ia no caminho da Ricoça.
Batia-lhe forte o coração quando avistou o
casarão
amarello, pintado de novo, o largo terraço lateral
em linha com o muro do pomar, ornado d'espaço
a espaço no parapeito de vasos nobres de pedra.
Ia emfim, depois de tão longas semanas, vêr a sua
Ameliasinha! E já se alvoroçava á
idéa das exclamações
apaixonadas com que ella lhe cahiria nos
braços.
Ao rez do chão eram as cavallariças, do tempo
da familia morgada que outr'ora alli habitára, agora
abandonadas ás ratazanas e aos tortulhos, recebendo
a luz por estreitas janellas gradeadas que
quasi desappareciam sob camadas de teias de aranha;
entrava-se por um immenso pateo escuro, onde
havia longos annos se acastellava a um canto
toda uma montanha de pipas vazias; e o lance d'escadaria
nobre, que levava aos aposentos, era á direita,
flanqueado de dois leõesinhos de pedra, benignos
e somnolentos.
Amaro subiu até um sotão de tecto de carvalho
apainelado, sem mobilia, com a metade do soalho
coberta de feijão sêcco.
E, embaraçado, bateu as palmas.
Uma porta abriu-se. Amelia appareceu um instante,
toda despenteada e em saia branca; deu um
gritinho, bateu com a porta—e o parocho sentiu-a
fugir para o interior do casarão. Ficou muito desconsolado
no meio do salão, com o seu guardasol
debaixo do braço, pensando na boa familiaridade
com que entrava na rua da Misericordia—que até
pareciam as portas abrir-se de si mesmo e o papel
das paredes clarear-se d'alegria.
Ia bater as palmas outra vez, já quesilado, quando
a Gertrudes
appareceu.
—Oh, senhor parocho! Entre, senhor parocho!
Ora até que emfim! Minha senhora, é o senhor
parocho!—gritava,
na alegria de vêr emfim uma visita
querida, um amigo da cidade, n'aquelle desterro
da Ricoça.
Levou-o logo para o quarto de D. Josepha, ao
fundo da casa, um quarto enorme, onde, n'um pequeno
canapé perdido a um canto, a velha passava
os dias encolhida no seu chale, com os pés embrulhados
n'um cobertor.
—Oh, D. Josepha! Como está? Como está?
Ella não pôde responder, tomada d'um accesso
de tosse que lhe dera a commoção da visita.
—Como vê, senhor parocho, murmurou emfim
muito fraca. Para aqui vou, arrastando esta velhice.
E vossa senhoria? Porque não tem apparecido?
Amaro desculpou-se vagamente com os afazeres
da Sé. E comprehendia agora, ao vêr aquella face
amarella e cavada, com uma medonha touca de rendas
negras, que tristes horas Amelia alli devia passar.
Perguntou por ella; avistára-a de longe, mas
ella deitára a fugir...
—É que não estava decente para apparecer,
disse a velha. Hoje foi dia de barrela.
Amaro quiz então saber em que se entretinham,
como passavam os dias n'aquella solidão...
—Eu para aqui estou. A pequena para ahi anda.
Depois de cada palavra, parecia abater-se n'uma
fadiga e a sua ronqueira crescia.
—Então não se tem dado bem com a
mudança,
minha senhora?
Ella disse que não, n'um movimento de cabeça.
—Deixe fallar, senhor parocho, acudiu a Gertrudes
que ficára de pé, ao lado do canapé,
gozando a
presença do senhor parocho.—Deixe fallar... É
que
a senhora exagera tambem... Levanta-se todos os
dias, dá o seu passeinho até á sala,
come a sua azita
de frango... Temol-a aqui, temol-a arribada...
É o que diz o senhor abbade Ferrão, a saude foge
a toda a brida e para voltar vem a passo...
A porta abriu-se. Amelia appareceu, muito escarlate,
com o seu antigo robe-de-chambre de merino
rôxo, o cabello arranjado á pressa.
—Desculpe, senhor parocho, balbuciou, mas hoje
tem sido um dia de balburdia...
Elle apertou-lhe a mão gravemente: e ficaram
calados, como se estivessem separados pela distancia
d'um deserto. Ella não tirava os olhos do chão,
enrolando
com a mão tremula uma ponta da manta de
lã que trazia solta pelos hombros. Amaro achava-a
mudada, um pouco inchada das faces, com uma ruga
de velhice aos cantos da bôca. Para romper
aquelle silencio estranho, perguntou-lhe tambem se
se dava bem...
—Para aqui vou indo... É um pouco triste isto.
É como diz o senhor abbade Ferrão, é
muito grande
para a gente se sentir em familia.
—Ninguem veio para aqui para se divertir, disse
a velha sem descerrar as palpebras, com uma
voz sêcca que perdera toda a fadiga.
Amelia baixou a cabeça, fazendo-se pallida.
Amaro então, comprehendendo n'um relance que
a velha torturava Amelia, disse com muita severidade:
—É verdade, não foi para se divertirem... Mas
tambem não foi para se entristecerem de proposito...
Pôr-se uma pessoa de mau humor e fazer aos
outros a vida negra, é uma falta horrivel de caridade;
não ha peccado peor aos olhos do Senhor... É
indigno da graça de Deus quem tal pratica...
A velha rompeu a choramingar, muito excitada:
—Ai, o que Deus me guardou para os ultimos
annos da vida...
Gertrudes amimou-a. Então, senhora, que até
lhe fazia peor estar a affligir-se assim... Ora o disparate!
Tudo se havia de remediar com a ajuda de
Deus. Saude não havia de faltar, nem alegria...
Amelia chegára-se á janella, decerto para
esconder
tambem as lagrimas que lhe saltavam dos olhos.
E o parocho, consternado com a scena, começou a
dizer que D. Josepha não estava supportando com
a verdadeira resignação d'uma christã
aquelles dias
de doença... Nada escandalisava mais Nosso Senhor
que vêr as creaturas revoltarem-se contra as dôres
ou os encargos que elle mandava... Era insultar a
justiça dos seus decretos...
—Tem razão, senhor parocho, tem razão, murmurou
a velha muito contrita. Eu ás vezes nem sei
o que digo... São coisas da doença.
—Bem, bem, minha senhora, é resignar-se e
tratar de vêr tudo côr de rosa. É o
sentimento que
Deus mais aprecia. Eu comprehendo que é duro, estar
para aqui enterrada...
—É o que diz o senhor abbade Ferrão, acudiu
Amelia voltando da janella, a madrinha estranha...
Assim arrancada aos habitos de tantos annos...
Notando então a citação repetida das
palavras do
abbade Ferrão, Amaro perguntou se elle costumava
vir vêl-as...
—Ai, tem-nos feito muita companhia, disse Amelia.
Vem quasi todos os dias.
—É um santo! exclamou a Gertrudes.
—Decerto, decerto, murmurou Amaro descontente
d'um enthusiasmo tão vivo. Pessoa de muita
virtude...
—De muita virtude, suspirou a velha. Mas...—Calou-se,
não ousando decerto exprimir as suas
reservas de devota.—E exclamou n'uma supplica:—Ai,
o senhor parocho é que devia vir por aqui,
ajudar-me a levar esta cruz da doença...
—Hei de vir, minha senhora, hei de vir. É bom
para a distrahir, para lhe dar as noticias... E a proposito,
tive hontem carta do nosso conego.
Rebuscou na algibeira, leu alguns periodos da
carta. O padre-mestre já tinha quinze banhos. A praia
estava cheia de gente. A D. Maria passára doente
com um furunculo. O tempo famoso. Todas as tardes
grandes passeatas a vêr recolher as rêdes. A S.
Joanneira, boa, mas fallando sempre na filha...
—Pobre mamã... choramingou Amelia.
Mas a velha não se interessava com as novidades,
gemendo a sua ronqueira. Foi Amelia que perguntou
pelos amigos de Leiria, pelo senhor padre
Natario, pelo senhor padre Silverio...
Ia escurecendo já: a Gertrudes fôra preparar o
candieiro. Amaro emfim ergueu-se:
—Pois, minha senhora, até outro dia. Esteja
certa que hei de apparecer de vez em quando. E nada
d'affligir... Agasalho, boa dieta, e a misericordia
de Deus não a ha de abandonar...
—Não nos falte, senhor parocho, não nos
falte!...
Amelia estendera-lhe a mão, para se despedir alli
no quarto; mas Amaro gracejando:
—Se não lhe causa incommodo, menina Amelia,
sempre é bom vir mostrar-me o caminho, que eu
perco-me n'este casarão.
Sahiram ambos. E apenas no salão, a que as tres
largas vidraças davam ainda uma claridade:
—A velha faz-te a vida negra, filha, disse Amaro
parando.
—Que mereço eu mais? respondeu ella baixando
os olhos.
—Desavergonhada, eu lh'as cantarei!... Minha
Ameliasinha, se soubesses o que me tem custado...
E fallando, ia abraçal-a pelo pescoço.
Mas ella recuou, toda perturbada.
—Que é isso? fez Amaro assombrado.
—O quê?
—Esse modo! Tu não me queres dar um beijo,
Amelia? Tu estás doida?
Ella ergueu as mãos para elle, n'uma
supplicação
anciosa, fallando toda tremula:
—Não, senhor parocho, deixe-me! Isso acabou.
Bem basta o que peccamos... Quero morrer na graça
de Deus... Que nunca mais se falle em semelhante
coisa!... Foi uma desgraça... Acabou-se...
Agora o que quero é o socego de minha alma...
—Tu estás tola! Quem te metteu isso na cabeça?
Ouve cá...
Foi para ella outra vez, com os braços abertos.
—Não me toque, pelo amor de Deus,—e vivamente
recuou até á porta.
Elle olhou-a um momento, n'uma cólera muda.
—Bem, como queira, disse por fim. Em todo o
caso, quero prevenil-a que o João Eduardo voltou,
que passa aqui todos os dias, e que é bom não se
pôr de janella.
—Que me importa a mim o João Eduardo e os
outros e tudo o que passou?...
Elle acudiu, trasbordando d'um sarcasmo amargo:
—Está claro, agora o grande homem é o senhor
abbade Ferrão!
—Devo-lhe muito, é o que sei...
A Gertrudes n'este momento entrava com o candieiro
accêso. E Amaro, sem se despedir d'Amelia,
abalou, de guardachuva em riste, rilhando os dentes
de raiva.
Mas a longa caminhada até á cidade calmou-o.
Aquillo na rapariga por fim era apenas um accesso
de virtude e d'escrupulos! Vira-se alli só n'aquelle
casarão, amargurada pela velha, impressionada pelos
palavrões do moralista Ferrão, longe d'elle, e
tinha-lhe
vindo aquella reacção de devota com os seus
terrores do outro-mundo e appetites de innocencia...
Chalaça! Se elle começasse a ir á
Ricoça, n'uma semana
reganhava todo o seu dominio... Ah, conhecia-a
bem! Era só tocar-lhe, piscar-lhe o olho... Estava
logo rendida.
Passou porém uma noite inquieta, desejando-a
mais que nunca. E ao outro dia á uma hora marchou
para a Ricoça, levando-lhe um ramo de rosas.
A velha ficou toda contente ao vêl-o. É que lhe
dava saude a presença do senhor parocho! E se não
fosse a distancia havia de lhe pedir a esmola de vir
todas as manhãs. Até depois d'aquella visitinha
rezava
com mais fervor...
Amaro sorria, distrahido, com os olhos cravados
na porta.
—E a menina Amelia? perguntou por fim.
—Sahiu... Isso agora todas as manhãs é a
passeata,
disse a velha com azedume. Vai á residencia,
é tôda do abbade...
—Ah! fez Amaro com um sorriso livido. Nova
devoção, hein?... é pessoa de muitos
meritos, o
abbade.
—Ai, não presta, não presta! exclamou D.
Josepha.
Não me percebe. Tem idéas muito exquisitas.
Não dá virtude...
—Homem de livros... disse Amaro.
Mas a velha erguera-se sobre o cotovêlo, e baixando
a voz, com o magro carão accêso em odio:
—E aqui p'ra nós, a Amelia tem-se portado
muito mal! Nunca lh'o hei de perdoar... Confessou-se
ao abbade... É uma indelicadeza, sendo a confessada
do senhor parocho, não tendo recebido de vossa
senhoria senão favores... É uma ingrata,
é uma
traiçoeira!...
Amaro fizera-se pallido.
—Que me diz a senhora?
—A verdade! Que ella não o nega. Até se orgulha!
É uma perdida, é uma perdida! Depois do
favor que lhe estamos a fazer...
Amaro disfarçou a indignação que o
revolvia.
Riu até. Era necessario não exagerar...
Não havia
ingratidão. Era uma questão de fé. Se
a rapariga
pensava que o abbade a podia dirigir melhor, tinha
razão em se abrir com elle... O que todos queriam
é que ella salvasse a sua alma... Que fosse
pela direcção de fulano ou sicrano, isso
não importava...
E nas mãos do abbade estava bem.
E chegando vivamente a cadeira para o leito da
velha:
—E então agora, todas as manhãs vai à
residencia?
—Quasi todas... Que ella não ha de tardar, vai
depois d'almoço, volta sempre a esta hora... Ai, tem-me
causado isto um desgosto!...
Amaro deu um passeiosinho nervoso pelo quarto,
e estendendo a mão á velha:
—Pois minha senhora, eu não me posso demorar,
que vim de fugida... Até um dia cedo.
E sem escutar a velha, que lhe pedia com anciedade
que ficasse para jantar—-desceu os degraus
como uma pedra que rola, metteu furioso pelo caminho
da residencia, ainda com o seu ramo na
mão.
Esperava encontrar Amelia na estrada; e não
tardou em a avistar quasi ao pé da casa do ferreiro,
agachada ao pé do vallado, apanhando sentimentalmente
florinhas silvestres.
—Que fazes tu aqui? exclamou, chegando junto
d'ella.
Ella ergueu-se, com um gritinho.
—Que fazes tu aqui!? repetiu.
Áquelle
tu, e
áquella voz colerica, ella poz rapidamente
um dedo na bôca, assustada. O senhor abbade
estava dentro da casa com o ferreiro...
—Ouve lá, disse Amaro com os olhos chammejantes,
agarrando-lhe o braço—tu confessaste-te ao
abbade?...
—P'ra que quer saber? Confessei... Não é
vergonha
nenhuma...
—Mas confessaste
tudo, tudo?
perguntou elle
com os dentes cerrados de raiva.
Ella perturbou-se, e tratando-o ainda por
tu:
—Foste tu que me disseste muitas vezes... Que
era o maior peccado n'este mundo, esconder alguma
coisa ao confessor!
—Bebeda! rugiu Amaro.
Os seus olhos devoravam-na. E, através da nevoa
de cólera que lhe enchia o cerebro e lhe fazia
latejar as veias na fronte, achava-a mais bonita,
com umas redondezas em todo o corpo que ardia
por abraçar, com uns labios vermelhos avivados
pelo largo ar do campo que elle queria morder até
ao sangue.
—Ouve, disse-lhe cedendo a uma invasão brutal
do desejo. Ouve... Acabou-se, não me importa.
Confessa-te ao diabo se te agrada... Mas has de ser
a mesma para mim!
—Não, não! disse ella com força,
desprendendo-se,
prompta a fugir para casa do ferreiro.
—Tu m'as pagarás, maldita!—rosnou o padre
por entre dentes, voltando as costas, descendo o caminho
com passadas de desesperado.
E não abrandou o passo até á cidade,
levado de
um impulso d'indignação que, sob aquella
dôce paz
d'um meio d'outono, lhe suggeria planos de vinganças
ferozes. Chegou a casa esfalfado, ainda com
o ramo na mão. Mas ahi, na solidão do quarto,
veio-lhe pouco a pouco o sentimento da sua impotencia.
Que lhe podia fazer por fim? Ir pela cidade
dizer que ella estava gravida? Seria denunciar-se a
si. Espalhar que estava amigada com o abbade Ferrão?
Era absurdo: um velho de quasi setenta annos,
d'uma fealdade de caricatura, com todo um
passado de virtude santa... Mas perdel-a, não tornar
a ter nos braços aquelle corpo de neve, não
ouvir mais aquellas ternuras balbuciadas que lhe
arrebatavam a alma para alguma coisa de melhor
que o céo... Isso não!
E era possivel que ella, em seis ou sete semanas,
tivesse assim esquecido tudo? N'aquellas longas
noites na Ricoça, só na cama, não lhe
viria uma
recordação das manhãs no quarto do tio
Esguelhas?...
Decerto: elle sabia-o da experiencia de
tantas confessadas que lhe tinham revelado afflictas
a tentação muda e teimosa que não
deixa a carne
que uma vez peccou...
Não: devia perseguil-a, e por todos os modos
soprar-lhe aquelle desejo que agora ardia n'elle mais
alto e mais ruidoso.
Passou a noite a escrever-lhe uma carta de seis
paginas, absurda, cheia d'implorações
apaixonadas,
de argucias mysticas, de pontos d'exclamação e de
ameaças de suicidio...
Mandou-a ao outro dia cedo, pela Dionysia. A resposta
veio só á noite, por um rapazito da quinta.
Com que sofreguidão rasgou o sobrescripto! Eram
apenas estas palavras: «Peço-lhe que me deixe em
paz com os meus peccados.»
Não desistiu: ao outro dia lá estava na
Ricoça a
visitar a velha. Amelia achava-se no quarto de D.
Josepha, quando elle appareceu. Fez-se muito pallida;
mas os seus olhos não deixaram a costura—durante
a meia hora que elle alli ficou, ora n'um
silencio sombrio acabrunhado para o fundo da poltrona,
ora respondendo distrahidamente á tagarellice
da velha, muito falladora essa manhã.
E na semana seguinte foi o mesmo: se o ouvia
entrar fechava-se rapidamente no quarto: só vinha,
se a velha mandava a Gertrudes dizer-lhe «que estava
alli o senhor o parocho que a queria vêr». Ia
então, estendia-lhe a mão, que elle achava sempre
a escaldar—e tomando a sua eterna costura, junto
da janella, ia picando o posponto com uma taciturnidade
que desesperava o padre.
Tinha-lhe escripto outra carta. Ella não respondera.
Então jurava não voltar á
Ricoça, desprezal-a,—mas
depois de ter passado a noite, rolando-se pela
cama sem poder dormir, com a mesma visão da
nudez d'ella cravada intoleravelmente no cerebro,
lá partia de manhã para a Ricoça,
córando quando o
apontador das obras na estrada, que o via passar todos
os dias, lhe tirava o seu boné d'oleado.
N'uma tarde que choviscava, ao entrar no casarão,
dera com o abbade Ferrão que á porta abria o
seu guardachuva.
—Olá, por aqui, senhor abbade! disse elle.
O abbade respondeu naturalmente:
—Em vossa senhoria é que não ha que estranhar,
que vem por aqui todos os dias...
Amaro não se conteve; e tremendo de cólera:
—E que lhe importa ao senhor abbade se eu venho
ou não? A casa é sua?
Aquella brutalidade tão injustificavel offendeu o
abbade:
—Pois era melhor para todos que não viesse...
—E porque, senhor abbade? e porque?—gritou
Amaro, perdido.
Então o bom homem estremeceu. Commettera,
alli, a culpa mais grave do sacerdote catholico: o
que sabia d'Amaro, dos seus amores, era em segredo
de confissão; e era trahir o mysterio do sacramento,
mostrar que desapprovava aquella insistencia
no peccado. Tirou muito baixo o seu chapéo e disse
humildemente:
—Tem vossa senhoria razão. Peço
perdão do que
disse, sem reflectir. Muito boas tardes, senhor parocho.
—Muito boas tardes, senhor abbade.
Amaro não entrou na Ricoça. Voltou para a cidade
sob a chuva que batia forte agora. E, apenas
em casa, escreveu uma longa carta a Amelia, em
que lhe contava a scena com o abbade, acabrunhando-o
d'accusações—sobretudo de lhe trahir
indirectamente
o segredo da confissão. Como das outras,
d'esta carta não veio resposta da Ricoça.
Então Amaro começou a acreditar que tanta
resistencia
não podia vir só do arrependimento e do
terror do inferno... «Alli ha homem», pensou. E
devorado d'um ciume negro principiou a rondar de
noite a Ricoça; mas não viu nada; o
casarão permanecia
adormecido e apagado. Uma occasião, porém,
ao aproximar-se do muro do pomar, sentiu
adiante no caminho que desce dos Poyaes uma voz
cantarolar sentimentalmente a valsa dos
Dois
mundos,
e um ponto brilhante de charuto accêso adiantar-se
na escuridão. Assustado, refugiou-se n'um casebre
que desmantelava em ruinas do outro lado da
estrada. A voz calou-se; e Amaro, espreitando, viu
então um vulto que parecia embrulhado n'um chalemanta
claro, parado, contemplando as janellas da Ricoça.
Um furor de ciume apossou-se d'elle, e ia saltar
e atacar o homem—quando o viu seguir tranquillamente
ao comprido da estrada, de charuto alto,
trauteando: