De dentro do embrulho sahiu um gemido. Correu
então para o casebre—quasi esbarrou com a
Carlota, que se apoderou logo da criança.
—Ahi está, disse elle. Mas ouça lá.
Isto agora é
sério. Agora é outra coisa. Olhe que o
não quero
morto... É para o tratar. O que se passou não
vale...
É para o criar! é para viver. Vossê tem
a sua
fortuna... Trate d'elle!...
—Não tem duvida, não tem duvida, dizia a mulher
apressada.
—Escute... A criança não vai bem agasalhada.
Ponha-lhe o meu capote.
—Vai bem, senhor, vai bem.
—Não vai, com mil diabos! É o meu filho! Ha
de levar o capote! Não quero que morra de frio!
Atirou-lh'o aos hombros com força, traçando-lh'o
sobre o peito, agasalhando a criança;—e a mulher
já enfastiada metteu rapidamente pela estrada.
Amaro ficou alli plantado no meio do caminho,
vendo o vulto perder-se na negrura. Então todos os
seus nervos, depois d'aquelle choque, se relaxaram
n'uma fraqueza de mulher sensivel—e rompeu a
chorar.
Muito tempo rondou a casa. Mas ella permanecia
na mesma escuridão, n'aquelle silencio que o aterrava.
Depois, triste e fatigado, veio voltando para a
cidade, quando batiam as dez badaladas na Sé.
A essa hora, na sala de jantar da Ricoça, o doutor
Gouvêa ceava tranquillamente o frango assado que
lhe preparára a Gertrudes, para depois das canceiras
do dia. O abbade Ferrão, sentado junto da mesa,
assistia-lhe á ceia; viera munido dos sacramentos para
o caso de haver perigo. Mas o doutor estava satisfeito;
durante as oito horas de dôres a rapariga
mostrára-se corajosa; o parto fôra feliz, de
resto, e
sahira um rapagão que fazia muita honra ao papá.
O bom abbade Ferrão baixava castamente os
olhos áquelles detalhes, no seu pudor de sacerdote.
—E agora, dizia o doutor trinchando o peito do
frango, agora que eu introduzi a criança no mundo,
os senhores (e quando digo os senhores, quero dizer
a Igreja) apoderam-se d'elle e não o largam até
á
morte. Por outro lado, ainda que menos sôfregamente,
o Estado não o perde de vista... E ahi começa
o desgraçado a sua jornada do berço á
sepultura,
entre um padre e um cabo de policia!
O abbade curvou-se, e tomou uma estrondosa
pitada preparando-se para a controversia.
—A Igreja, continuava o doutor com serenidade,
começa, quando a pobre creatura ainda nem tem sequer
a consciencia da vida, por lhe impôr uma
religião...
O abbade interrompeu, meio sério, meio rindo:
—Ó doutor, ainda que não seja senão
por caridade
com a sua alma, devo advertil-o que o sagrado
Concilio de Trento, canon decimo terceiro, commina
a pena d'excommunhão contra todo o que disser
que o baptismo é nullo, por ser imposto sem a
aceitação da razão.
—Tomo nota, abbade. Eu estou acostumado a
essas amabilidades do Concilio de Trento para commigo
e outros collegas...
—Era uma assembléa respeitavel! acudiu o abbade
já escandalisado.
—Sublime, abbade. Uma assembléa sublime. O
Concilio de Trento e a Convenção foram as duas
mais
prodigiosas assembléas d'homens que a terra tem
presenciado...
O abbade fez uma visagem de repugnacia áquelle
cotejo irreverente entre os santos auctores da doutrina
e os assassinos do bom rei Luiz XVI.
Mas o doutor proseguiu:
—Depois, a Igreja deixa a criança em paz algum
tempo emquanto ella faz a sua dentição e tem
o seu ataque de lombrigas...
—Vá, vá, doutor! murmurava o abbade, escutando-o
pacientemente, de olhos cerrados—como significando
«anda, anda, enterra bem essa alma no
abysmo de fogo e pez»!
—Mas quando se manifestam no pequeno os primeiros
symptomas de razão, continuava o doutor,
quando se torna necessario que elle tenha, para o distinguir
dos animaes, uma noção de si mesmo e do
universo, então entra-lhe a Igreja em casa e explica-lhe
tudo! Tudo! Tão completamente, que um gaiato
de seis annos que não sabe ainda o
b-a-bá tem
uma sciencia mais vasta, mais certa, que as reaes
academias combinadas de Londres, Berlim e Paris!
O velhaco não hesita um momento para dizer como
se fez o universo e os seus systemas planetarios;
como appareceu na terra a creação; como se
succederam
as raças; como passaram as revoluções
geologicas
do globo; como se formaram as linguas; como
se inventou a escripta... Sabe tudo: possue
completa e immutavel a regra para dirigir todas as
acções e formar todos os juizos; tem mesmo a
certeza
de todos os mysterios; ainda que seja myope
como uma toupeira vê o que se passa na profundidade
dos céos e no interior do globo; conhece, como
se não tivesse feito senão assistir a esse
espectaculo,
o que lhe ha de succeder depois de morrer... Não
ha problema que não decida... E quando a Igreja
tem feito d'este marmanjo uma tal maravilha de saber,
manda-o então aprender a lêr... O que eu pergunto
é: para que?
A indignação tinha emmudecido o abbade.
—Diga lá abbade, para que os mandam os senhores
ensinar a lêr? Toda a sciencia universal, o
res scibilis, está no
Catecismo: é metter-lh'o na memoria,
e o rapaz possue logo a sciencia e consciencia
de tudo... Sabe tanto como Deus... De facto, é
Deus mesmo.
O abbade pulou.
—Isso não é discutir, exclamou, isso
não é discutir!...
Isso são chalaças á Voltaire! Essas
coisas
devem-se tratar mais d'alto...
—Como chalaças, abbade? Tome um exemplo: a
formação das linguas. Como se formaram? Foi Deus,
que descontente com a Torre de Babel...
Mas a porta da sala abriu-se, e appareceu a Dionysia.
Havia pouco o doutor tinha-lhe dado uma desanda
no quarto d'Amelia; e agora a matrona fallava-lhe
sempre encolhida de terror.
—Senhor doutor, disse ella no silencio que se
fez, a menina acordou e diz que quer o filho.
—E então? A criança levaram-n'a, não?
—A criança levaram-n'a... disse a Dionysia.
—Bem, acabou-se...
Dionysia ia fechar a porta, mas o doutor chamou-a.
—Ouça lá, diga-lhe que a criança vem
ámanhã...
Que ámanhã sem falta que lh'a trazem. Minta.
Minta como um cão; aqui o senhor abbade dá
licença... Que durma, que socegue.
A Dionysia retirou-se. Mas a controversia não
recomeçou:
diante d'aquella mãi que acordava depois
da fadiga do parto e reclamava o seu filho, o filho
que lhe tinham levado para longe e para sempre, os
dois velhos esqueceram a Torre de Babel e a
formação
das linguas. O abbade sobretudo parecia commovido.
Mas o doutor não tardou, sem piedade, a
lembrar-lhe que eram aquellas as consequencias da
situação do padre na sociedade...
O abbade baixou os olhos, occupado na sua pitada,
sem responder, como ignorando que houvesse
um padre n'aquella historia infeliz.
O doutor então, seguindo a sua idéa, discursou
contra a preparação e
educação ecclesiastica.
—Ahi tem o abbade uma educação dominada
inteiramente pelo absurdo: resistencia ás mais justas
solicitações da natureza, e resistencia aos mais
elevados movimentos da razão. Preparar um padre é
crear um monstro que ha de passar a sua desgraçada
existencia n'uma batalha desesperada contra os
dois factos irresistiveis do universo—a força da Materia
e a força da Razão!
—Que está o senhor a dizer? exclamou assombrado
o abbade.
—Estou a dizer a verdade. Era que consiste a
educação d'um sacerdote?
Primò: em o preparar
para o celibato e para a virgindade; isto é, para a
suppressão violenta dos sentimentos mais naturaes.
Secundò: em evitar todo o
conhecimento e toda a
idéa que seja capaz d'abalar a fé catholica; isto
é, a
suppressão forçada do espirito
d'indagação e d'exame,
portanto de toda a sciencia real e humana...
O abbade erguera-se, ferido d'uma piedosa
indignação:
—Pois o senhor nega á Igreja a sciencia?
—Jesus, meu caro abbade, continuou tranquillamente
o doutor, Jesus, os seus primeiros discipulos,
o illustre S. Paulo representaram em parabolas, em
epistolas, n'um prodigioso fluxo labial, que as
producções
do espirito humano eram inuteis, pueris, e
sobretudo perniciosas...
O abbade passeava pela sala, indo contra um e
outro movel como um boi espicaçado, apertando as
mãos na cabeça na desolação
d'aquellas blasphemias;
não se conteve, gritou:
—O senhor não sabe o que diz!... Perdão, doutor,
peço-lhe humildemente perdão... O senhor faz-me
cahir em peccado mortal... Mas isso não é
discutir...
Isso é fallar com a leviandade d'um jornalista...
Lançou-se então com calor n'uma
dissertação sobre
a sabedoria da Igreja, os seus altos estudos gregos
e latinos, toda uma philosophia creada pelos santos
padres...
—Leia S. Basilio! exclamou. Lá verá o que elle
diz dos estudos dos auctores profanos, que são a
melhor preparação para os estudos sagrados! Leia
a
Historia dos mosteiros na meia
idade! Era lá que
estava a sciencia, a philosophia...
—Mas que philosophia, senhor, mas que sciencia!
Por philosophia meia duzia de concepções d'um
espirito mythologico, em que o mysticismo é posto
em logar dos instinctos sociaes... E que sciencia!
Sciencia de commentadores, sciencia de grammaticos...
Mas vieram outros tempos, nasceram sciencias
novas que os antigos tinham ignorado, a que o ensino
ecclesiastico não offerecia nem base nem methodo,
estabeleceu-se logo o antagonismo entre ellas
e a doutrina catholica!... Nos primeiros tempos, a
Igreja ainda tentou supprimil-as pela
perseguição, a
masmorra, o fogo! Escusa de se torcer, abbade... O
fogo, sim, o fogo e a masmorra. Mas agora não o
póde fazer e limita-se a vituperal-as em mau latim...
E no emtanto continúa a dar nos seus seminarios e
nas suas escólas o ensino do passado, o ensino anterior
a essas sciencias, ignorando-as, e desprezando-as,
refugiando-se na escolastica... Escusa d'apertar
as mãos na cabeça... Estranha ao espirito
moderno,
hostil nos seus principios e nos seus methodos
ao desenvolvimento espontaneo dos conhecimentos
humanos... O senhor não é capaz de negar isto!
Veja o
Syllabus no seu canon
terceiro excommungando
a Razão... No seu canon decimo terceiro...
A porta abriu-se timidamente; era ainda a Dionysia:
—A pequena está a choramingar, diz que quer
a criança.
—Mau, mau! disse o doutor.
E depois d'um momento:
—Que tal aspecto tem ella? Está córada?
Está
inquieta?
—Não senhor, está bem. Só a
choramingar, a
fallar no pequeno... Diz que o quer hoje por força...
—Converse com ella, distraia-a... Veja se ella
adormece...
A Dionysia retirou-se; e o abbade logo com cuidado:
—Ó doutor, suppõe que lhe possa fazer mal o
affligir-se?
—Póde-lhe fazer mal, abbade, póde—disse o
doutor que rebuscava na sua pharmacia portatil. Mas
eu vou-a fazer dormir... Pois é verdade, a Igreja
hoje é uma intrusa, abbade!
O abbade tornou a levar as mãos á
cabeça.
—Escusa de ir mais longe, abbade. Veja a Igreja
em Portugal. É grato observar-lhe o estado de decadencia...
Pintou-lh'o a largos traços, de pé, com o seu
frasco
na mão. A Igreja fôra a
Nação; hoje era uma minoria
tolerada e protegida pelo Estado. Dominára nos
tribunaes, nos conselhos da corôa, na fazenda, na armada,
fazia a guerra e a paz; hoje um deputado da
maioria tinha mais poder que todo o clero do reino.
Fôra a sciencia no paiz; hoje tudo o que sabia era algum
latim macarronico. Fôra rica, tinha possuido no
campo districtos inteiros e ruas inteiras na cidade; hoje
dependia para o seu triste pão diario do ministro
da justiça, e pedia esmola á porta das capellas.
Recrutára-se
entre a nobreza, entre os melhores do reino;
e hoje, para reunir um pessoal, via-se no embaraço
e tinha de o ir buscar aos engeitados da Misericordia.
Fôra a depositaria da tradição
nacional,
do ideal collectivo da patria; e hoje, sem
communicação
com o pensamento nacional (se é que o ha)
era uma estrangeira, uma cidadã de Roma, recebendo
de lá a lei e o espirito...
—Pois se está assim tão prostrada, mais uma
razão para a amar!—disse o abbade, erguendo-se
escarlate.
Mas a Dionysia tinha de novo apparecido á porta.
—Que temos mais?
—A menina está-se a queixar d'um peso na cabeça.
Diz que sente faíscas diante dos olhos...
O doutor então immediatamente, sem uma palavra,
seguiu a Dionysia. O abbade, só, passeava pela
sala ruminando toda uma argumentação
erriçada de
textos, de nomes formidaveis de theologos, que ia
fazer desabar sobre o doutor Gouvêa. Mas, meia hora
passou, a luz do candieiro ia esmorecendo, e o
doutor não voltou.
Então aquelle silencio da casa, onde só o som
dos seus passos sobre o soalho da sala punha uma
nota viva, começou a impressionar o velho. Abriu a
porta devagarinho, escutou; mas o quarto d'Amelia
era muito afastado, ao fim da casa, ao pé do
terraço;
não vinha de lá nem rumor nem luz.
Recomeçou
o seu passeio solitario na sala, n'uma tristeza
indefinida que o ia invadindo. Desejaria bem ir
vêr tambem a doente; mas o seu caracter, o pudor
sacerdotal não lhe permittiam aproximar-se sequer
d'uma mulher no leito, em trabalho de parto, a não
ser que o perigo reclamasse os sacramentos. Outra
hora mais longa, mais funebre, passou. Então, em
pontas de pés, córando na escuridão
d'aquella audacia,
foi até ao meio do corredor: agora, aterrado,
sentia no quarto d'Amelia um ruido confuso e surdo
de pés movendo-se vivamente no soalho, como n'uma
lucta. Mas nem um ai, nem um grito. Recolheu á
sala, e abrindo o seu Breviario começou a rezar.
Sentiu os chinelos da Gertrudes passarem rapidamente,
n'uma carreira. Ouviu uma porta a distancia
bater. Depois o arrastar no soalho d'uma bacia de
latão. E emfim o doutor appareceu.
A sua figura fez empallidecer o abbade: vinha
sem gravata, com o collarinho espedaçado; os
botões
do collete tinham saltado; e os punhos da camisa,
voltados para traz, estavam todos manchados
de sangue.
—Alguma coisa, doutor?
O doutor não respondeu, procurando rapidamente
pela sala o seu estojo, com a face animada d'um
calor de batalha. Ia já sahir com o estojo, mas
lembrando-lhe
a pergunta anciosa do abbade:
—Tem convulsões, disse.
O abbade então deteve-o á porta, e muito grave,
muito digno:
—Doutor, se ha perigo, peço-lhe que se lembre...
É uma alma christã em agonia, e eu estou
aqui.
—Certamente, certamente...
O abbade tornou a ficar só, esperando. Tudo dormia
na Ricoça, D. Josepha, os caseiros, a quinta, os
campos em redor. Na sala, um relogio de parede,
enorme e sinistro, que tinha no mostrador a carranca
do sol e em cima sobre o caixilho a figura esculpida
em pau d'uma coruja pensativa, um movel de
castello antigo, bateu a meia noite, depois uma hora.
O abbade a cada momento ia até ao meio do
corredor: era o mesmo rumor de pés n'uma lucta;
outras vezes um silencio tenebroso. Voltava então
para o seu Breviario. Meditava n'aquella pobre rapariga
que, além no quarto, estava talvez no momento
que ia decidir da sua eternidade: não tinha ao
pé nem a mãi, nem as amigas: na memoria apavorada
devia passar-lhe a visão do peccado: diante
dos olhos turvos apparecia-lhe a face triste do Senhor
offendido: as dôres contorciam o seu corpo miseravel:
e na escuridão em que ia penetrando, sentia
já o halito ardente da aproximação de
Satanaz.
Temeroso fim do tempo e da carne!—Então rezava
fervorosamente por ella.
Mas depois pensava no outro que fôra uma metade
do seu peccado, e que agora na cidade, estirado
na cama, resonava tranquillamente. E rezava então
tambem por elle.
Tinha sobre o Breviario um pequeno
crucifixo.
E
contemplava-o com amor, abysmava-se enternecido
na certeza da sua força, contra a qual era bem pouca
a sciencia do doutor e todas as vaidades da razão!
Philosophias, idéas, glorias profanas,
gerações
e imperios passam: são como os suspiros ephemeros
do esforço humano: só ella permanece e
permanecerá,
a cruz—esperança dos homens, confiança
dos desesperados, amparo dos frageis, asylo dos
vencidos, força maior da humanidade:
crux
triumphus
adversus demonios, crux oppugnatorum murus...
Então o doutor entrou, muito escarlate, vibrante
d'aquella tremenda batalha que estava dando lá dentro
á morte; vinha buscar outro frasco; mas abriu
a janella, sem uma palavra, para respirar um momento
uma golfada d'ar fresco.
—Como vai ella? perguntou o abbade.
—Mal, disse o doutor sahindo.
O abbade, então, ajoelhou, balbuciou a
oração
de S. Fulgencio:
—Senhor, dá-lhe primeiro a paciencia, dá-lhe
depois a misericordia...
E alli ficou, com a face nas mãos, apoiado á
beira
da mesa.
A um rumor de passos na sala ergueu a cabeça.
Era a Dionysia, que suspirava, recolhendo todos os
guardanapos que encontrava nas gavetas do aparador.
—Então, senhora, então? perguntou-lhe o abbade.
—Ai, senhor abbade, está perdidinha... Depois
das convulsões que foram d'arripiar, cahiu n'aquelle
somno, que é o somno da morte...
E olhando para todos os cantos como para se assegurar
da solidão, disse muito excitada:
—Eu não quiz dizer nada... Que o senhor doutor
tem um genio!... Mas sangrar a rapariga
n'aquelle estado é querer matal-a... Que ella tinha
perdido pouco sangue, é verdade... Mas nunca se
sangra ninguem em semelhante momento. Nunca,
nunca!
—O senhor doutor é homem de muita sciencia...
—Póde ter a sciencia que quizer... Eu tambem
não sou nenhuma tola... Tenho vinte annos d'experiencia...
Nunca me morreu nenhuma nas mãos, senhor
abbade... Sangrar em convulsões! Até causa
horror!...
Estava indignada. O senhor doutor tinha torturado
a creaturinha. Até lhe quizera administrar chloroformio...
Mas a voz do doutor Gouvêa berrou por ella do
fundo do corredor—e a matrona abalou, com o seu
mólho de guardanapos.
O medonho relogio, com a sua coruja pensativa,
bateu as duas horas, depois as tres... O abbade,
agora, cedia a espaços a uma fadiga de velho, cerrando
um momento as palpebras. Mas resistia bruscamente:
ia respirar o ar pesado da noite, olhar
aquella treva de toda a aldeia; e voltava a sentar-se,
a murmurar, com a cabeça baixa, as mãos postas
sobre o Breviario:
—Senhor, volta os teus olhos misericordiosos
para aquelle leito d'agonia...
Foi então Gertrudes que appareceu commovida.
O senhor doutor mandára-a a baixo acordar o moço
para pôr a egoa ao
cabriolet.
—Ai, senhor abbade, pobre creaturinha! Ia tão
bem, e de repente isto... Que foi por lhe tirarem o
filho... Eu não sei quem é o pai, mas o que sei
é
que n'isto tudo anda um peccado e um crime!...
O abbade não respondeu, orando baixo pelo padre
Amaro.
O doutor então entrou com o seu estojo na
mão:
—Se quizer, abbade, póde ir, disse.
Mas o abbade não se apressava, olhando o doutor,
com uma pergunta a bailar-lhe nos labios entreabertos,
e retendo-a por timidez: emfim, não se
conteve, e n'um tom de medo:
—Fez-se tudo, não ha remedio, doutor?
—Não.
—É que nós, doutor, não devemos
aproximar-nos
d'uma mulher em parto illegitimo senão n'um
caso extremo...
—Está n'um caso extremo, senhor abbade, disse
o doutor, vestindo já o seu grande casacão.
O abbade então recolheu o Breviario, a cruz—mas
antes de sahir, julgando do seu dever de sacerdote
pôr diante do medico racionalista a certeza da
eternidade mystica que se desprende do momento
da morte, murmurou ainda:
—É n'este instante que se sente o terror de
Deus, o vão do orgulho humano...
O doutor não respondeu, occupado a afivelar o
seu estojo.
O abbade sahiu—mas, já no meio do corredor,
voltou ainda, e fallando com inquietação:
—O doutor desculpe... Mas tem-se visto, depois
dos soccorros da religião, os moribundos voltarem
a si de repente, por uma graça especial... A
presença do medico então póde ser
util...
—Eu ainda não vou, ainda não vou, disse o
doutor, sorrindo involuntariamente de vêr a
presença
da Medicina reclamada para auxiliar a efficacia
da Graça.
Desceu, a vêr se estava prompto o
cabriolet.
Quando voltou ao quarto d'Amelia, a Dionysia e
a Gertrudes, de rojos ao lado da cama, rezavam. O
leito, todo o quarto estava revolvido como um campo
de batalha. As duas velas consumidas extinguiam-se.
Amelia estava immovel, com os braços
hirtos, as mãos crispadas d'uma côr de purpura
escura—e
a mesma côr mais arroxeada cobria-lhe a
face rigida.
E debruçado sobre ella, com o crucifixo na mão,
o abbade dizia ainda, n'uma voz d'angustia:
—
Jesu, Jesu, Jesu! Lembra-te da
graça de
Deus! Tem fé na misericordia divina! Arrepende-te
no seio do Senhor!
Jesu, Jesu, Jesu!
Por fim, sentindo-a morta, ajoelhou, murmurando
o
Miserere. O doutor que
ficára á porta retirou-se devagarinho,
atravessou em bicos de pés o corredor, e
desceu á rua, onde o moço segurava a egoa
atrellada.
—Vamos ter agua, senhor doutor, disse o rapaz
bocejando de somno.
O doutor Gouvêa ergueu a gola do paletot, accommodou
o seu estojo no assento—e d'ahi a um momento
o
cabriolet rodava surdamente pela
estrada,
sob a primeira pancada de chuva, cortando a escuridão
da noite com o clarão vermelho das suas duas
lanternas.
XXV
Ao outro dia desde as sete da manhã, o padre
Amaro esperava a Dionysia em casa, postado á janella,
com os olhos cravados na esquina da rua, sem
reparar na chuva miudinha que lhe fustigava a face.
Mas a Dionysia não apparecia: e elle teve de partir
para a Sé, amargurado e doente, a baptisar o filho
do Guedes.
Foi uma pesada tortura para elle vêr aquella
gente alegre que punha na gravidade da Sé, mais
sombria por esse escuro dia de dezembro, todo um
rumor mal contido de regosijo domestico e de festa
paterna; o papá Guedes resplandecente de casaca
e gravata branca, o padrinho compenetrado com
uma grande camelia ao peito, as senhoras de gala,
e sobretudo a parteira rechonchuda, passeando com
pompa um montão de rendas engommadas e de
laçarotes
azues onde mal se percebiam duas bochechinhas
trigueiras. Ao fundo da igreja, com o pensamento
bem longe na Ricoça e na Barrosa, foi engorolando
á pressa as ceremonias: soprando em cruz
sobre a face do pequerrucho para expulsar o Demonio
que já habitava aquellas carninhas tenras; impondo-lhe
o sal sobre a bôca para que elle se desgostasse
para sempre do sabor amargo do peccado
e tomasse gosto a nutrir-se só da verdade divina;
tocando-o com saliva nas orelhas e nas narinas, para
que elle não escutasse jámais as
solicitações da carne
e jámais respirasse os perfumes da terra. E em
roda, com tochas na mão, os padrinhos, os convidados,
na fadiga que davam tantos latins rosnados
á pressa, só se occupavam do pequeno, n'um receio
que elle não respondesse com algum desacato impudente
ás tremendas exhortações que lhe fazia
a
Igreja sua Mãi.
Amaro, então, pondo de leve o dedo sobre a touquinha
branca, exigiu do pequerrucho que elle, alli
em plena Sé, renunciasse para sempre a Satanaz,
ás
suas pompas e ás suas obras. O sacristão Mathias,
que dava em latim as respostas rituaes, renunciou
por elle—emquanto o pobre pequerrucho abria a
boquinha a procurar o bico da mama. Emfim o parocho
dirigiu-se á pia baptismal seguido de toda a
familia, das velhas devotas que se tinham juntado,
de gaiatos que esperavam uma distribuição de
patacos.
Mas foi toda uma atrapalhação para fazer as
unções: a parteira commovida não
atinava a desapertar
os laçarotes do chambre, para pôr a nú
os
hombrosinhos, o peito do pequeno; a madrinha quiz
ajudal-a: mas deixou escorregar a tocha, alastrou de
cera derretida o vestido d'uma senhora, uma visinha
dos Guedes, que ficou embezerrada de raiva.
—Franciscus, credis?—perguntava Amaro.
O Mathias apressou-se a affirmar, em nome de
Francisco:
—Credo.
—Franciscus, vis baptisari?
O Mathias:
—Volo.
Então a agua lustral cahiu sobre a cabecinha redonda
como um melão tenro: a criança agora perneava
n'uma perrice.
—Ego te baptiso, Franciscus, in nomine Patris...
et Filiis... et Espiritus Sancti...
Emfim, acabára! Amaro correu á sacristia a
desvestir-se—emquanto
a parteira grave, o papá Guedes,
as senhoras enternecidas, as velhas devotas e
os gaiatos sahiam ao repique dos sinos; e agachados
sob os guardachuvas, chapinhando a lama, lá
iam levando em triumpho Francisco, o novo christão.
Amaro galgou os degraus de casa com o presentimento
que ia encontrar a Dionysia.
Lá estava, com effeito, sentada no quarto, esperando-o,
amarrotada, enxovalhada da lucta da noite
e da lama da estrada: e apenas o viu começou a
choramingar.
—Que é, Dionysia?
Ella rompeu em soluços, sem responder.
—Morta! exclamou Amaro.
—Ai, fez-se-lhe tudo, filho, fez-se-lhe tudo! gritou
emfim a matrona.
Amaro tombou para os pés da cama como morto
tambem.
A Dionysia berrou pela criada. Inundaram-lhe a
face d'agua, de vinagre. Elle recuperou-se um pouco,
muito pallido: afastou-as com a mão, sem fallar;
e atirou-se de bruços para sobre o travesseiro, n'um
chôro desesperado,—emquanto as duas mulheres
consternadas iam recolhendo á cozinha.
—Parece que tinha muita amizade á menina,
começou a Escolastica, fallando baixo como na casa
d'um moribundo.
—Costume d'ir por lá. Foi hospede tanto tempo...
Ai, eram como irmãos...—disse a Dionysia,
ainda chorosa.
Fallaram então de doenças de
coração—porque
a Dionysia contára á Escolastica que a pobre
menina
tinha morrido d'um aneurisma rebentado. A Escolastica
tambem soffria do coração; mas n'ella eram
flatos,
dos maus tratos que lhe dera o marido... Ah,
tinha sido bem infeliz tambem!
—Vossemecê toma uma gotinha de café, snr.
a
Dionysia?
—Olhe, a fallar a verdade, snr.
a Escolastica,
tomava
uma gotinha de geropiga...
A Escolastica correu á taberna ao fim da rua,
trouxe a geropiga n'um copo de quartilho debaixo
do avental: e ambas á mesa, uma molhando sopas
no café, outra escorropichando o copo, concordavam,
com suspiros, que n'este mundo tudo eram sustos e
lagrimas.
Deram onze horas: e a Escolastica pensava em
levar um caldo ao senhor parocho, quando elle chamou
de dentro. Estava de chapéo alto, com o casaco
abotoado, os olhos vermelhos como carvões...
—Escolastica, vá a correr ao Cruz que me mande
um cavallo... Mas depressa.
Chamou então a Dionysia: e sentado ao pé d'ella,
quasi contra os joelhos da mulher, com a face rigida
e livida como um marmore, escutou em silencio
a historia da noite—as convulsões de repente,
tão fortes que ella, a Gertrudes e o senhor doutor
mal a podiam segurar! o sangue, as prostrações em
que cahia! depois a anciedade da asphyxia que a fazia
tão rôxa como a tunica d'uma imagem...
Mas o moço do Cruz chegára com o cavallo. Amaro
tirou d'uma gaveta, d'entre roupa branca, um pequeno
crucifixo, deu-o á Dionysia que ia voltar á
Ricoça
para ajudar a amortalhar a menina.
—Que lhe ponham este crucifixo no peito, tinha-m'o
ella dado...
Desceu, montou; e apenas na estrada da Barrosa
despediu a galope. Não chovia, agora; e entre as
nuvens pardas algum raio fraco do sol de dezembro
fazia brilhar a relva, as pedras molhadas.
Quando chegou ao pé do poço entulhado, d'onde
se avistava a casa de Carlota, teve de parar, para
deixar passar um longo rebanho d'ovelhas que tomava
o caminho; e o pastor, com uma pelle de cabra
ao hombro e a borracha a tiracollo, fez-lhe lembrar
de repente Feirão, toda a vida passada, que lhe
voltava por fragmentos bruscos—aquellas paizagens
afogadas nos vapores pardacentos da serra; a Joanna
rindo estupidamente dependurada da corda do
sino; as suas ceias de cabrito assado na Gralheira,
com o abbade, defronte da chaminé, onde a lenha
verde estalava; os longos dias em que se desesperava
na tristeza da residencia, vendo fóra sem cessar
cahir a neve... E veio-lhe um desejo ancioso
d'essas solidões da serra, d'essa existencia de lobo,
longe dos homens e das cidades, sepultado lá com
a sua paixão.
A porta da Carlota estava fechada. Bateu, foi de
roda chamar, atirando a voz por cima do telhado dos
curraes, para o pateo, onde sentia cacarejar os gallos.
Ninguem respondeu. Seguiu então pelo caminho
da aldeia, levando a egoa pela arreata; parou na
taberna, onde uma mulher obesa fazia meia sentada
á porta. Dentro, no escuro da baiuca, dois homens
com os seus quartilhos ao lado, batiam as cartas
n'uma bisca renhida; e um rapazola d'uma amarellidão
de sezões, com um lenço amarrado na
cabeça,
olhava-lhes o jogo tristemente.
A mulher tinha justamente visto passar a snr.
a
Carlota, que até parára a comprar um quartilho de
azeite. Devia estar em casa da Michaela, ao adro.
Chamou para dentro; uma rapariguita vesga appareceu
de traz da sombra das pipas.
—Corre, vai á Michaela, dize à snr.
a
Carlota
que
está aqui um senhor da cidade.
Amaro voltou para a porta da Carlota, esperou
sentado n'uma pedra, com o seu cavallo pela redea.
Mas aquella casa fechada e muda aterrava-o. Foi pôr
o ouvido á fechadura, na esperança d'ouvir um
chôro,
uma rabuje de criança. Dentro pesava um silencio
de caverna abandonada. Mas tranquillisava-o a
idéa que a Carlota teria levado a criança
comsigo,
para Michaela. Devia realmente ter perguntando á
mulher na taberna, se a Carlota trazia uma criança
ao collo... E olhava a casa bem caiada, com a sua
janella em cima que tinha uma cortininha de cassa,
um luxo tão raro n'aquellas freguezias pobres; recordava
a boa ordem, o escarolado da louça da cozinha...
Decerto, o pequerrucho devia ter tambem
um berço aceado...
Ah, estava doido decerto na vespera, quando puzera
alli, na mesa da cozinha, quatro libras em ouro,
preço adiantado d'um anno de criação,
e dissera
cruelmente ao anão—«conto comsigo»!
Pobre pequerruchinho!...
Mas a Carlota comprehendera bem,
á noite na Ricoça, que elle agora queria-o vivo,
o
seu filho, e creado com mimo!... Todavia não o
deixaria alli, não, sob o olho raiado de sangue do
anão... Leval-o-hia essa noite á Joanna Carreira
dos
Poyaes...
Que as sinistras historias da Dionysia, a
tecedeira
d'anjos, eram uma legenda insensata. A
criança estava
muito regalada em casa de Michaela, chupando
aquelle bom peito de quarentona sã... E vinha-lhe
então o mesmo desejo de deixar Leiria, ir enterrar-se
em Feirão, levar comsigo a Escolastica, educar
lá a criança como sobrinho, revivendo n'elle
largamente
todas as emoções d'aquelle romance de dois
annos; e alli passaria n'uma paz triste, na saudade
de Amelia, até ir como o seu antecessor, o abbade
Gustavo que tambem creára um sobrinho em Feirão,
repousar para sempre no pequeno cemiterio, de verão
sob as flôres silvestres, de inverno sob a neve
branca.
Então a Carlota appareceu; e ficou attonita ao
reconhecer Amaro, sem passar da cancella, com a
testa franzida, a sua bella face muito grave.
—A criança? exclamou Amaro.
Depois d'um momento, ella respondeu, sem
perturbação:
—Nem me falle n'isso, que me tem dado um
desgosto... Hontem mesmo, duas horas depois de
ter chegado... O pobre anjinho começa a fazer-se
rôxo, e alli me morreu debaixo dos olhos...
—Mente! gritou Amaro. Quero vêr.
—Entre, senhor, se quer vêr.
—Mas que lhe disse eu hontem, mulher?
—Que quer, senhor? Morreu. Veja...
Tinha aberto a porta, muito simplesmente, sem
cólera nem receio. Amaro entreviu n'um relance, ao
pé da chaminé, um berço coberto com um
saiote escarlate.
Sem uma palavra voltou as costas, atirou-se para
cima do cavallo. Mas a mulher, muito loquaz subitamente,
rompeu a dizer que tinha ido justamente
à aldeia para encommendar um caixãosinho
decente...
Como vira que era filho de pessoa de bem,
não o quisera enterrar embrulhado n'um trapo. Mas
emfim, como o senhor alli estava, parecia-lhe razoavel
que désse algum dinheiro para a despeza...
Uns dois mil reis que fossem.
Amaro considerou-a um momento com um desejo
brutal de a esganar; por fim, metteu-lhe o dinheiro
na mão. E ia trotando no carreiro, quando a
sentiu ainda correndo, gritando
pst!
pst! A Carlota
queria-lhe restituir o capote que elle emprestára na
vespera: tinha feito muito bom serviço, que a
criança
chegára quente como um rojãosinho...
Infelizmente...
Amaro já a não escutava, esporeando furiosamente
a ilharga da cavalgadura.
Na cidade, depois de apear à porta do Cruz, não
entrou em casa. Foi direito ao paço do bispo. Tinha
agora uma idéa só: era deixar aquella cidade
maldita,
não vêr mais as faces das devotas, nem a fachada
odiosa da Sé...
Foi só ao subir a larga escadaria de pedra do
paço, que lhe lembrou com inquietação
o que o Libaninho
dissera na vespera da indignação do senhor
vigario geral, da denuncia obscura... Mas a affabilidade
do padre Saldanha, o confidente do paço, que
o introduziu logo na livraria de sua excellencia, tranquillisou-o.
O senhor vigario geral foi muito amavel.
Estranhou o ar pallido e perturbado do senhor parocho...
—É que tenho um grande desgosto, senhor vigario
geral. Minha irmã está a morrer em Lisboa. E
venho pedir a vossa excellencia licença para lá
ir,
por uns dias...
O senhor vigario geral consternou-se com bondade.
—Decerto, consinto... Ah! somos todos passageiros
forçados da barca de Charonte.