The village seems dead and asleep
When Lubin is away!...
Entretanto o conde tinha-se aproximado de Amaro,
que se erguera.
—É negocio feito, disse-lhe elle. O Correia entende-se
com o bispo. D'aqui a uma semana está
nomeado. Póde ir descansado.
Amaro fez uma cortezia e, servil, foi dizer ao ministro
que estava junto do piano:
—Senhor ministro, eu agradeço...
—Á senhora condessa, á senhora condessa, disse
o ministro sorrindo.
—Minha senhora, eu agradeço, veio elle dizer á
condessa, todo curvado.
—Ai, agradeça a Thereza! Ella quer ganhar indulgencias,
parece.
—Minha senhora... foi elle dizer a Thereza.
—Lembre-me nas suas orações, senhor padre
Amaro, disse ella. E continuou, com a sua voz magoada,
dizendo ao piano—as tristezas da aldeia
quando Lubin esta ausente!
Amaro d'ahi a uma semana soube o seu despacho.
Mas não tornára a esquecer aquella
manhã em
casa da senhora condessa de Ribamar,—o ministro
de calças muito curtas, enterrado na poltrona, promettendo
o seu despacho; a luz clara e calma do
jardim entrevisto; o rapaz alto e louro que dizia
yes...Cantava-lhe sempre no cerebro
aquella aria
triste do
Rigoleto; e perseguia-o a
brancura dos
braços de Thereza sob a gaze negra! Instinctivamente
via-os enlaçarem-se devagar, devagar, em
torno do pescoço airoso do rapaz louro:—detestava-o
então, e a língua barbara que fallava, e a terra
heretica d'onde viera; e latejavam-lhe as fontes á
idéa de que um dia poderia confessar aquella mulher
divina e sentir o seu vestido de sêda preta roçar
pela sua batina de lustrina velha, na escura intimidade
do confessionario.
Um dia, ao amanhecer, depois de grandes abraços
da tia, partiu para Santa Apolonia, com um gallego
que lhe levava o bahú. A madrugada rompia.
A cidade estava silenciosa, os candieiros apagavam-se.
Ás vezes uma carroça passava rolando, abalando
a calçada; as ruas pareciam-lhe interminaveis; saloios
começavam a chegar montados nos seus burros,
com as pernas balouçadas, cobertas de altas botas
enlameadas; n'uma ou n'outra rua uma voz aguda
já apregoava os jornaes; e os moços dos theatros
corriam com o pote da massa, pregando nas esquinas
os cartazes.
Quando chegou a Santa Apolonia a claridade do
sol alaranjava o ar por detraz dos montes da Outra-Banda:
o rio estendia-se, immovel, riscado de correntes
de côr de aço sem lustre; e já alguma
vela
de falua passava, vagarosa e branca.
IV
Ao outro dia, na cidade, fallava-se da chegada
do parocho novo, e todos sabiam já que tinha trazido
um bahú de lata, que era magro e alto, e que
chamava
Padre-Mestre ao conego Dias.
As amigas da S. Joanneira,—as intimas—a D.
Maria da Assumpção, as Gansosos, tinham ido logo
pela manhã a casa d'ella
para se
pôrem ao facto...
Eram nove horas; Amaro sahira com o conego. A
S. Joanneira, radiosa, importante, recebeu-as no alto
da escada, de mangas arregaçadas, nos arranjos da
manhã; e immediatamente, com animação,
contou
a chegada do parocho, as suas boas maneiras, o
que tinha dito...
—Mas venham vossês cá abaixo, sempre quero
que vejam.
Foi-lhes mostrar o quarto do padre, o bahú de
lata, uma prateleira que lhe arranjára para os livros.
—Está muito bem, está tudo muito bem, diziam
as velhas andando pelo quarto, devagar, com respeito,
como n'uma igreja.
—Rico capote! observou D. Joaquina Gansoso
apalpando o panno das largas bandas que pendiam
ao comprido do cabide.—É obra para um par de
moedas!
—E a boa roupa branca! disse a S. Joanneira
erguendo a tampa do bahú.
O grupo das velhas curvou-se com admiração.
—A mim o que me consola é que elle seja um
rapaz novo, disse D. Maria da Assumpção,
piedosamente.
—Tambem a mim, disse com auctoridade a D.
Joaquina Gansoso. Estar a gente a confessar-se e a
vêr o pingo do rapé, como era com o Raposo, credo!
até se perde a devoção! E o bruto do
José Migueis!
Não, lá isso Deus me mate com gente nova!
A S. Joaneira ia mostrando as outras maravilhas
do parocho,—um crucifixo que estava ainda embrulhado
n'um jornal velho, o album de retratos, onde
o primeiro cartão era uma photographia do Papa
abençoando a christandade. Todas se extasiaram.
—É o mais que se póde, diziam, é o
mais que
se póde!
Ao sahir, beijando muito a S. Joanneira, felicitaram-na
porque adquirira, hospedando o parocho,
uma auctoridade quasi ecclesiastica.
—Vossês apparecem á noite, disse ella do alto
da escada.
—Pudera!... gritou D. Maria da Assumpção,
já
á porta da rua, traçando o seu
mantelete.—Pudera!...
Para o vermos á vontade!
Ao meio dia veio o Libaninho, o beato mais activo
de Leiria; e subindo a correr os degraus, já gritava
com a sua voz fina:
—Ó S. Joanneira!
—Sobe, Libaninho, sobe, disse ella, que costurava
á janella.
—Então o senhor parocho veio, hein? perguntou
o Libaninho, mostrando á porta da sala de jantar o
seu rosto gordinho côr de limão, a calva luzidia;
e
vindo para ella com o passinho miudo, um gingar
de quadris:
—Então que tal, que tal? tem bom feitio?
A S. Joaneira recomeçou a glorificação
de Amaro:
a sua mocidade, o seu ar piedoso, a brancura
dos seus dentes...
—Coitadinho! coitadinho! dizia o Libaninho, babando-se
de ternura devota.—Mas não se podia
demorar, ia para a repartição!—Adeus, filhinha,
adeus!—E batia com a sua mão papuda no hombro
da S. Joanneira.—Estás cada vez mais gordinha!
Olha que rezei hontem a Salve-Rainha que tu me
pediste, ingrata!
A criada tinha entrado.
—Adeus,
Ruça!
Estás magrinha: pega-te com
a Senhora Mãi dos Homens.—E avistando Amelia
pela porta do quarto entreaberta:—Ai, que estás
mesmo uma flôr, Mélinha! Quem se salvava na tua
graça bem eu sei!
E apressado, saracoteando-se, com um pigarrinho
agudo, desceu a escada rapidamente, ganindo:
—Adeusinho! adeusinho, pequenas!
—Ó Libaninho, vens á noite?
—Ai, não posso, filha, não posso!—E a sua
vozinha era quasi chorosa.—Olha que ámanhã
é
Santa Barbara: tem seis Padre-Nossos de direito!
Amaro fôra visitar o chantre com o conego Dias,
e tinha-lhe entregado uma carta de recommendação
do senhor conde de Ribamar.
—Conheci muito o senhor conde de Ribamar,
disse o chantre. Em quarenta e seis, no Porto. Somos
amigos velhos! Era eu cura de Santo Ildefonso:
ha que annos isso vai!
E, reclinando-se na velha poltrona de damasco,
fallou com satisfação do seu tempo: contou
anecdotas
da Junta, apreciou os homens de então, imitou-lhes
a voz (era uma especialidade de sua excellencia),
os
tics, as caturrices—sobretudo
Manoel Passos,
que elle descrevia passeando na Praça Nova,
com o comprido casaco pardo e o chapéo de grandes
abas, dizendo:
—
Animo, patriotas! o Xavier
aguenta-se!
Os senhores ecclesiasticos da camara riram com
gozo. Houve uma grande cordialidade. Amaro sahiu
muito lisonjeado.
Depois jantou em casa do conego Dias, e foram
passear ambos pela estrada de Marrazes. Uma luz
dôce e esbatida alargava-se por todo o campo; havia
nos outeiros, no azul do ar, um aspecto de repouso,
de meiga tranquilidade; fumos esbranquiçados
sahiam dos casaes, e sentiam-se os chocalhos
melancolicos dos gados que recolhem. Amaro parou
junto da ponte, e disse, olhando em redor a paizagem
suave:
—Pois senhores, parece-me que me hei de dar
bem aqui!
—Ha de se dar regaladamente, affirmou o conego,
sorvendo o seu rapé.
Eram oito horas quando recolheram a casa da
S. Joanneira.
As velhas amigas estavam já na sala de jantar.
Ao pé do candieiro de petroleo, Amelia costurava.
A snr.
a D. Maria da
Assumpção vestira-se, como
nos domingos, de sêda preta: o seu
chinó, d'um louro
avermelhado, estava coberto com as rendas d'um
enfeite negro; as mãos
descarnadas, calçadas de mitenes,
solemnemente pousadas no regaço, reluziam
de anneis; do broche sobre o pescoço até ao
cinto,
um grosso grilhão d'ouro cahia com passadores lavrados.
Conservava-se direita e ceremoniosa, com a
cabeça um pouco de lado, os oculos d'ouro assentes
sobre o nariz acavallado: tinha no queixo um grande
signal cabelludo; e quando se fallava de devoções
ou de milagres dava um geito ao pescoço, e abria
um sorriso mudo que descobria os seus enormes dentes
esverdeados, cravados nas gengivas como cunhas.
Era viuva e rica, e soffria d'um catarrho chronico.
—Aqui tem o senhor parocho novo, D. Maria,
disse-lhe a S. Joanneira.
Ella ergueu-se, fez uma mesura com um movimento
de quadris, commovida.
—Estas são as senhoras Gansosos, ha de ter ouvido...,
disse a S. Joanneira ao parocho.
Amaro comprimentou timidamente. Eram duas
irmãs. Passavam por ter algum dinheiro, mas costumavam
receber hospedes. A mais velha, a snr.
a D.
Joaquina Gansoso, era uma pessoa sêcca, com uma
testa enorme e larga, dois olhinhos vivos, o nariz
arrebitado, a boca muito espremida. Embrulhada no
seu chale, direita, com os braços cruzados, fallava
perpetuamente, n'uma voz dominante e aguda, cheia
de opiniões. Dizia mal dos homens e dava-se toda
á
Igreja.
A irmã, a snr.
a D. Anna, era
extremamente surda.
Nunca fallava, e com os dedos cruzados sobre o
regaço, os olhos baixos, fazia girar tranquillamente
os dois pollegares. Nutrida, com o seu perpetuo vestido
preto de riscas amarellas, um rolo de arminho
ao pescoço, dormitava toda a noite, e só
accentuava a
sua presença de vez em quando por suspiros agudos:
dizia-se que tinha uma paixão funesta pelo recebedor
do correio. Todos a lastimavam, e admirava-se a sua
habilidade em recortar papeis para caixas de dôce.
Estava tambem a snr.
a D. Josepha, a
irmã do conego
Dias. Tinha a alcunha de
castanha
pilada. Era
uma creaturinha mirrada, de linhas aduncas, pelle
engelhada e côr de cidra, voz sibilante; vivia n'um
perpetuo estado de irritação, os olhinhos sempre
assanhados, contracções nervosas de birra, toda
saturada
de fel. Era temida. O maligno doutor Godinho
chamava-lhe a
estação
central das intrigas de
Leiria.
—Então passeou muito, senhor parocho? perguntou
ella logo impertigando-se.
—Fomos quasi até lá ao fim da estrada de
Marrazes,
disse o conego, sentando-se pesadamente por
detraz da S. Joanneira.
—Não achou bonito, senhor parocho? acudiu
snr.
a D. Joaquina Gansoso.
—Muito bonito.
Fallaram das lindas paizagens de Leiria, das boas
vistas: a snr.
a D. Josepha gostava muito do
passeio
ao pé do rio; até já ouvira dizer que
nem em Lisboa
havia coisa assim. D. Joaquina Gansoso preferia a
igreja da Encarnação, no alto.
—Desfruta-se muito d'alli.
Amelia disse sorrindo:
—Eu por mim gósto d'aquelle bocado ao pé da
ponte, debaixo dos chorões.—E partindo com os
dentes o fio da costura:—É tão triste!
Amaro olhou para ella, então, pela primeira vez.
Tinha um vestido azul muito justo ao seio bonito;
pescoço branco e cheio sahia d'um collarinho voltado;
entre os beiços vermelhos e frescos o esmalte
dos dentes brilhava; e pareceu ao parocho que um
buçosinho lhe punha aos cantos da boca uma sombra
subtil e dôce.
Houve um pequeno silencio—o conego Dias
com o beiço descahido ia já cerrando as
palpebras.
—Que será feito do senhor padre Brito? perguntou
D. Joaquina Gansoso.
—Está talvez com a enxaqueca, pobre de Christo!
lembrou piedosamente a snr.
a D. Maria da
Assumpção.
Um rapaz que estava junto do aparador disse
então:
—Eu vi-o hoje a cavallo, ia para os lados da
Barrosa.
—Homem! disse logo com azedume a irmã do
conego, a snr.
a D. Josepha Dias, é
milagre ter o
senhor reparado!
—Porquê, minha senhora? disse elle erguendo-se
e chegando-se ao grupo das velhas.
Era alto, todo vestido de preto: sobre o rosto de
pelle branca, regular, um pouco fatigado, destacava
bem um bigode pequeno muito negro, cahido aos
cantos, que elle costumava mordicar com os dentes.
—Ainda elle o pergunta! exclamou a snr.
a D.
Josepha Dias. O senhor, que nem lhe tira o chapéo!
—Eu!?
—Disse-m'o elle, affirmou ella com uma voz cortante.
E acrescentou: Ai, senhor parocho, bem póde
chamar o snr. João Eduardo para o bom caminho!—E
teve um risinho maligno.
—Mas eu parece-me que não ando no mau caminho,
disse elle rindo, com as mãos nos bolsos. E
a cada momento os seus olhos se voltavam para
Amelia.
—É uma graça! exclamou a snr.
a
D. Joaquina
Gansoso. Olhe, com o que o senhor disse hoje lá em
casa, de tarde, da Santa da Arregassa, não ha de ganhar
o céo!
—Ora essa! gritou a irmã do conego voltando-se
bruscamente para João Eduardo. Então o que tem
o senhor a dizer da Santa? Acha talvez que é uma
impostora?
—Credo, Jesus! disse a snr.
a D. Maria da
Assumpção
apertando as mãos e fitando João Eduardo
com um terror piedoso. Pois elle havia de dizer
isso? Cruzes!
—Não, o snr. João Eduardo, affirmou gravemente
o conego, que espertára, desdobrando o seu lenço
vermelho—não era capaz de dizer uma d'essas.
Amaro perguntou então:
—Quem é a Santa da Arregassa?
—Credo! Pois não tem ouvido fallar, senhor parocho?
exclamou n'uma admiração a snr.
a
D. Maria
da Assumpção.
—Ha de ter ouvido, affirmava a snr.
a D. Josepha
Dias com auctoridade. Diz que os jornaes de Lisboa
vem cheios d'isso!
—É com effeito uma coisa bem extraordinaria,
ponderou com um tom profundo o conego.
A S. Joanneira interrompeu a meia, e tirando a
luneta:
—Ai, não imagina, senhor parocho, é o milagre
dos milagres!
—Se é! se é! disseram.
Houve um recolhimento devoto.
—Mas então...? perguntou Amaro, todo curioso.
—Olhe, senhor parocho, começou a snr.
a
D. Joaquina
Gansoso endireitando-se no chale, fallando com
solemnidade: a Santa é uma mulher que aqui ha
n'uma freguezia perto, que está ha vinte annos na
cama...
—Vinte e cinco, advertiu-lhe baixo D. Maria da
Assumpção, tocando-lhe com o leque no
braço.
—Vinte e cinco? Pois olha, ao senhor chantre
ouvi eu dizer vinte.
—Vinte e cinco, vinte e cinco, affirmou a S.
Joanneira. E o conego apoiou-a, oscillando gravemente
a cabeça.
—Está entrevadinha de todo, senhor parocho!
rompeu a irmã do conego, avida de fallar. Parece
uma alminha de Deus! Os bracinhos são isto!—E
mostrava o dedo minimo.—Para a gente a ouvir é
necessario pôr-lhe a orelha ao pé da boca!
—Pois se ella se sustenta da graça de Deus!
disse lamentosamente a snr.
a D. Maria da
Assumpção.
Coitadinha! que até a gente lembrar-se...
Houve entre as velhas um silencio commovido.
João Eduardo, que por traz das velhas, de pé, com
as mãos nos bolsos, sorria mordicando o bigode,
disse então:
—Olhe, senhor parocho, a coisa é o que os medicos
dizem: é que aquillo é uma doença
nervosa.
Aquella irreverencia fez, entre as velhas devotas,
um escandalo; a snr.
a D. Maria da
Assumpção
persignou-se logo «á cautela».
—Pelo amor de Deus! gritou a snr.
a D. Josepha
Dias, o senhor diga isso diante de quem quizer, menos
de mim! É uma affronta!
—É que até póde cahir um raio, dizia
para os
lados, baixo, a snr.
a D. Maria da
Assumpção,
muito
aterrada.
—Olhe, tambem lh'o digo, exclamou a snr.
a D.
Josepha Dias, o senhor é um homem sem religião
e sem respeito pelas coisas santas.—E voltando-se
para o lado de Amelia, muito azeda:—Olhe, filha
minha é que eu lhe não dava!
Amelia córou; e João Eduardo, fazendo-se vermelho
tambem, curvou-se sarcasticamente:
—Eu digo o que dizem os medicos. E de resto,
acredite que não tenho prentenções a
casar com pessoa
da sua familia! Nem mesmo comsigo, snr.
a D.
Josepha!
O conego deu uma risada muito pesada.
—Arreda! Cruzes! gritou ella, furiosa.
—Mas que faz então a Santa? perguntou o padre
Amaro, para pacificar.
—Tudo, senhor parocho, disse a snr.
a D.
Joaquina
Gansoso: está sempre de cama, sabe rezas
para tudo; pessoa por quem ella peça tem a graça
do Senhor; é a gente apegar-se com ella e cura-se
de toda a molestia. E depois, quando communga,
começa a erguer-se, e fica com o corpo todo no ar,
com os olhos erguidos para o céo, que até chega a
fazer terror.
Mas n'este momento uma voz disse á porta da
sala:
—Ora viva a sociedade! Isto hoje está de truz!
Era um rapaz extremamente alto, amarello, com
as faces cavadas, uma grenha riçada, um bigode á
D. Quixote; quando ria tinha uma sombra na boca,
porque lhe faltavam quasi todos os dentes de diante;
e nos seus olhos encovados, de grandes olheiras,
errava um sentimentalismo piegas. Trazia uma guitarra
na mão.
—Então como vai isso hoje? perguntaram-lhe
logo.
—Mal, respondeu elle com voz triste, sentando-se.
Sempre as dôres no peito, a tossesita ...
Então não se dava bem com o oleo de figados
de bacalhau?
—Qual! fez elle desconsoladamente.
—Uma viagem á Madeira, isso é que era, isso
é
que era! disse a snr.
a D. Joaquina Gansoso com
auctoridade.
Elle riu, com uma jovialidade subita:
—Uma viagem á Madeira! Não está
má! A D.
Joaquina Gansoso tem-nas boas! Um pobre amanuense
de administração com dezoito vintens por dia,
mulher
e quatro filhos... Para a Madeira!
—E como vai ella, a Joannita?
—Coitadita, lá vai! Tem saude, graças a Deus!
Gorda, sempre com bom appetite. Os pequenos, os
dois mais velhos é que estão doentes; de mais a
mais agora a criada tambem cahiu de cama! É o diacho!
Paciencia! paciencia!—E encolhia os hombros.
Mas voltando-se para a S. Joanneira, dando-lhe
uma palmada no joelho:
—E como vai a nossa Madre-Abbadessa?
Todos riram: e a snr.
a D. Joaquina Gansoso
informou
o parocho que aquelle rapaz, o Arthur Couceiro,
era muito engraçado e tinha uma bella voz. Era
a melhor da cidade para modinhas.
A
Ruça tinha
então entrado com o chá; a S.
Joanneira, enchendo as chavenas d'alto, dizia:
—Cheguem-se, cheguem-se, filhas, que este é
do bom! É da loja do Sousa...
E Arthur offerecia assucar com o seu antigo gracejo:
—Se está azedinho é carregar-lhe no sal!
As velhas sorviam a pequenos goles pelos pires,
escolhiam cuidadosamente as torradas, sentia-se o
mastigar ruminado dos queixos; e por causa dos
pingos da manteiga e das nodoas do chá estendiam
prudentemente os lenços sobre o regaço.
—Vai um docinho, senhor parocho? disse Amelia,
apresentando-lhe o prato. São da
Encarnação,
muito fresquinhos.
—Obrigado.
—Aquelle alli. É toucinho do céo.
—Ah! se é do céo... disse elle todo risonho. E
olhou para ella, tomando o bolo com a ponta dos
dedos.
O snr. Arthur costumava cantar depois do chá.
Sobre o piano uma vela alumiava o caderno de musica;
e Amelia, logo que a
Ruça
levou a bandeja,
accommodou-se, correu os dedos sobre o teclado
amarello.
—Então hoje que ha de ser? perguntou Arthur.
Os pedidos cruzaram-se:
—
O guerrilheiro! O noivado do sepulchro! O
descrido! o Nunca mais!
O conego Dias disse do seu canto, pesadamente:
—Ó Couceiro, vá lá aquella do
Tio Cosme, meu
bréjeiro!
As mulheres reprovaram:
—Credo! por quem é, senhor conego! Que
lembrança!
E a snr.
a D. Joaquina Gansoso resumiu:
—Nada: uma coisa de sentimento para o senhor
parocho fazer idéa.
—Isso, isso! disseram: uma coisa de sentimento,
ó Arthur, uma coisa de sentimento!
Arthur pigarreou, cuspilhou; e dando subitamente
á face uma expressão dolorosa, ergueu a voz,
cantou lugubremente:
Adeus, meu anjo! eu vou
partir sem ti!
Era uma canção dos tempos romanticos de 51, o
Adeus! Dizia uma suprema despedida,
n'um bosque,
por uma tarde pallida d'outono; depois, o homem
solitario e precito, que inspirára um amor funesto,
ia errar desgrenhado á beira do mar; havia uma
sepultura esquecida n'um valle distante, brancas
virgens vinham chorar á claridade do luar!
—Muito bonito, muito bonito! murmuravam.
Arthur cantava enternecido, o olhar vago; mas
nos intervallos, durante o acompanhamento, sorria
em redor—e na sua boca cheia de sombra viam-se
os restos de dentes pôdres. O padre Amaro, ao pé
da janella, fumando, contemplava Amelia, enlevado
n'aquella melodia sentimental e morbida: o seu perfil
fino, de encontro á luz, tinha uma linha luminosa;
destacava harmoniosamente a curva do seu peito;
e elle seguia as suas palpebras de grandes pestanas,
que do teclado para a musica se erguiam e
se abaixavam com um movimento dôce. João Eduardo,
junto d'ella, voltava-lhe as folhas da musica.
Mas Arthur, com a mão sobre o peito, a outra
erguida no ar, n'um gesto desolado e vehemente,
soltou a ultima estrophe:
E um dia, emfim, d'este viver fatal,
Repousarei na escuridão da campa!
—Bravo! bravo! exclamaram.
E o conego Dias commentou baixo ao parocho:
—Ah! para coisas de sentimento não ha outro.—E
bocejando enormemente: Pois menino, tenho
tido toda a noite as lulas a conversar cá por dentro.
Mas chegára a hora do loto. Cada um escolhia
os seus cartões habituaes; e a snr.
a
D. Josepha Dias,
com o seu olho d'avara a luzir, chocalhava já vivamente
o grosso sacco dos numeros.
—Aqui tem um logar, senhor parocho, disse
Amelia.
Era junto d'ella. Elle hesitou; mas tinham aberto
espaço, e veio sentar-se um pouco córado,
ageitando
timidamente a
volta.
Fez-se logo um grande silencio; e, com a voz
dormente, o conego começou a tirar os numeros. A
snr.
a D. Anna Gansoso dormitava ao seu canto,
resonando
ligeiramente.
Com o
abat-jour as
cabeças estavam na penumbra;
e a luz crua, cahindo sobre o chale escuro que
cobria a mesa, fazia destacar os cartões ennegrecidos
do uso e as mãos sêccas das velhas, pousadas
em attitudes aduncas, remexendo as marcas de vidro.
Sobre o piano aberto a vela derretia-se com
uma chamma alta e direita.
O conego rosnava os numeros com as pilherias
veneraveis da tradição: 1, cabeça de
porco!—3,
figura de entremez!
—Precisa-se o vinte e um, dizia uma voz.
—Ternei, murmurava outra com gozo.
E a irmã do conego, sôfrega:
—Chocalhe esses numeros, mano Placido! Vá!
—E traga-me esse quarenta e sete ainda que
seja de rastos, dizia o Arthur Couceiro, com a cabeça
entre os punhos.
Emfim o conego
quinou. E Amelia
olhando em
redor pela sala:
—Então não joga, snr. João Eduardo?
disse
ella. Onde está?
João Eduardo sahiu da sombra da janella, por
traz da cortina.
—Tome lá este cartão, ande, jogue.
—E receba as entradas, já que está de
pé, disse
a S. Joanneira. Seja o senhor recebedor!
João Eduardo foi em roda com o pires de porcelana.
No fim faltavam dez reis.
—Eu já dei, eu já dei! exclamavam todos,
excitados.
Fôra a irmã do conego que não
tocára no seu
cobre acastellado. João Eduardo disse, curvando-se:
—Parece-me que a snr.
a D. Josepha
não entrou.
—Eu!? gritou ella, furiosa. Olha uma d'estas!
Até fui a primeira! Credo! Duas moedas de cinco
reis, por signal! Que tal está o homem!
—Ah! bem, disse elle então, fui eu que me esqueci!
Cá ponho.—E rosnou: Beata e ladra!
E a irmã do conego dizia no emtanto baixo á
snr.
a D. Maria da
Assumpção:
—Queria vêr se escapava, o melro! Falta de temor
a Deus!
—Só quem não está feliz é
o senhor parocho,
observaram.
Amaro sorriu. Estava distrahido, e fatigado; ás
vezes mesmo esquecia-se de marcar, e Amelia dizia-lhe,
tocando-lhe no cotovêlo:
—Olhe que não marcou, senhor parocho!
Tinham já apostado dois ternos: ella ganhára;
depois faltou a ambos para
quinarem
o numero
trinta e seis.
Em roda repararam.
—Ora vamos a vêr se
quinam ambos, disse a
snr.
a D. Maria da
Assumpção, envolvendo-os no
mesmo
olhar baboso.
Mas o trinta e seis não sahía; havia outras
quadras
nos cartões alheios; Amelia receava que
quinasse
a snr.
a D. Joaquina Gansoso, que se mexia
muito na cadeira, pedindo o quarenta e oito. Amaro
ria, involuntariamente interessado.
O conego tirava os numeros com uma pachorra
maliciosa.
—Vá! vá! ande com isso, senhor conego!
diziam-lhe.
Amelia, debruçada, os olhos vivos, murmurou:
—Dava tudo para que sahisse o trinta e seis!
—Sim? Ahi o tem... Trinta e seis! disse o conego.
—
Quinamos! gritou ella,
triumphante; e tomando
o cartão do parocho e o seu mostrava-os,
para conferirem, orgulhosa, muito córada.
—Ora Deus os abençôe, disse o conego, jovial,
entornando-lhes diante o pires cheio de moedas de
dez reis.
—Parece milagre! considerou a snr.
a D. Maria
da Assumpção, piedosamente.
Mas tinham dado onze horas; e depois da
tumba
final as velhas começaram a agasalhar-se. Amelia
sentou-se ao piano, tocando ao de leve uma polka.
João Eduardo aproximou-se d'ella, e baixando a voz:
—Muitos parabens por ter
quinado
com o senhor
parocho. Que enthusiasmo!—E como ella ia responder:—Boa
noite! disse elle sêccamente, embrulhando-se
no seu chale-manta com despeito.
A
Ruça alumiava. As
velhas, pela escada, empacotadas
nos abafos, iam ganindo
adeusinhos.
O
snr. Arthur harpejava a guitarra, cantarolando o
Descrido.
Amaro foi para o seu quarto, começou a rezar no
Breviario; mas distrahia-se, lembravam-lhe as figuras
das velhas, os dentes pôdres de Arthur, sobretudo
o perfil de Amelia. Sentado á beira da cama,
com o Breviario aberto, fitando a luz, via o seu penteado,
as suas mãos pequenas com os dedos um
pouco trigueiros picados da agulha, o seu buçosinho
gracioso...
Sentia a cabeça pesada do jantar do conego e da
monotonia do
quino, com uma grande
sêde além
d'isso das lulas e do vinhito do Porto. Quiz beber,
mas não tinha agua no quarto. Lembrou-se então
que na sala de jantar havia uma bilha d'Extremoz
com agua fresca, muito boa, da nascente do Morenal.
Calçou as chinelas, tomou o castiçal, subiu
devagarinho. Havia
luz na sala,
estava o reposteiro
corrido: ergueu-o e recuou com um
ah! Vira n'um
relance Amelia, em saia branca, a desfazer o atacador
do collete: estava junto do candieiro e as mangas
curtas, o decote da camisa deixavam vêr os seus
braços brancos, o seio delicioso. Ella deu um pequeno
grito, correu para o quarto.
Amaro ficou immovel, com um suor á raiz dos
cabellos. Poderiam suspeitar uma offensa! Palavras
indignadas iam sahir decerto através do reposteiro
do quarto, que ainda se balouçava agitado!
Mas a voz de Amelia, serena, perguntou de dentro:
—Que queria, senhor parocho?
—Vinha buscar agua... balbuciou elle.
—Aquella
Ruça! aquella
desleixada! Desculpe,
senhor parocho, desculpe. Olhe ahi ao pé da mesa,
a bilha. Achou?
—Achei! achei!
Desceu devagar com o copo cheio: a mão tremia-lhe,
a agua escorria-lhe pelos dedos.
Deitou-se sem rezar. Alta noite Amelia sentiu por
baixo passos nervosos pisarem o soalho: era Amaro
que, com o capote aos hombros e em chinelas, fumava,
excitado, pelo quarto.
V
Ella, em cima, não dormia tambem. Sobre a commoda,
dentro de uma bacia, a lamparina extinguia-se,
com um mau cheiro de murrão de azeite; brancuras
de saias cahidas no chão destacavam; e os
olhos do gato, que não socegava, reluziam pela
escuridão
do quarto com uma claridade phosphorica
verde.
Na casa visinha uma criança chorava sem cessar,
Amelia sentia a mãi embalar-lhe o berço,
cantar-lhe
baixo:
Dorme, dorme, meu menino,
Que a tua mãi foi á fonte!
Era a pobre Catharina engommadeira, que o tenente
Sousa deixára com um filho no berço, e gravida
d'outro—para ir casar a Extremoz! Tão bonita era,
tão loura—e mirrada agora, tão chupada!