Dorme, dorme, meu menino.
Que a tua mãi foi á fonte!
Como ella conhecia aquella cantiga! Quando tinha
sete annos sua mãi dizia-a, nas longas noites
de inverno, ao irmãosinho que morrera!
Lembrava-se bem! Moravam então n'outra casa,
ao pé da estrada de Lisboa; á janella do seu
quarto
havia um limoeiro e a mãi punha, na sua ramagem
luzidia, os coeiros do Joãosinho a seccarem ao
sol. Não conhecera o papá. Fôra
militar, morrera
novo; e a mãi ainda suspirava ao fallar da sua bella
figura com o uniforme de cavallaria. Aos oito annos
ella foi para a mestra. Como se lembrava! A
mestra era uma velhita roliça e branca, que fôra
tacho
das freiras de Santa Joanna d'Aveiro; com os
seus oculos redondos, junto á janella, empurrando a
agulha, morria-se por contar historias do convento:
as perrices da escrivã, sempre a escabichar os dentes
furados; a madre rodeira, preguiçosa e pacata,
com uma pronuncia minhota; a mestra de cantochão,
admiradora de Bocage e que se dizia descendente
dos Tavoras; e a legenda de uma freira que
morrera de amor, e cuja alma ainda em certas noites
percorria os corredores, soltando gemidos dolorosos
e clamando:—Augusto! Augusto!
Amelia ouvia aquellas historias, encantada. Gostava
então tanto de festas d'igreja e da convivencia
dos santos, que desejava ser uma «freirinha,
muito bonita, com um véosinho muito branco.» A
mamã era muito visitada por padres. O chantre Carvalhosa,
um homem velho e robusto, que soprava
de asthma ao subir a escada e tinha uma voz fanhosa,
vinha todos os dias, como amigo da casa. Amelia
chamava-lhe
padrinho. Quando ella
voltava da
mestra, á tarde, encontrava-o sempre a palestrar
com a mãi, na sala, de batina desabotoada, deixando
vêr o longo collete de velludo preto com raminhos
bordados a amarello. O senhor chantre perguntava-lhe
pelas lições e fazia-a dizer a taboada.
Á noite havia reuniões: vinha o padre Valente;
o conego Cruz; e um velhito calvo, de perfil de passaro,
com oculos azues, que fôra frade franciscano
e a quem chamavam frei André. Vinham as amigas
da mãi, com as suas
meias; e um capitão
Couceiro,
de caçadores, que tinha os dedos negros do cigarro
e trazia sempre a sua viola. Mas ás nove horas mandavam-na
deitar; pela frincha do quarto ella via a
luz, ouvia as vozes; depois fazia-se um silencio, e o
capitão, repenicando a guitarra, cantava o
lundum
da Figueira.
Foi assim crescendo entre padres. Mas alguns
eram-lhe antipathicos: sobretudo o padre Valente,
tão gordo, tão suado, com umas mãos
papudas e
molles, d'unhas pequenas! Gostava de a ter entre os
joelhos, torcer-lhe devagarinho a orelha, e ella sentia
o seu halito impregnado de cebola e de cigarro.
O seu amiguinho era o conego Cruz, magro, com o
cabello todo branco, a volta sempre aceada, as fivelas
luzidias; entrava devagarinho, comprimentando
com a mão sobre o peito e uma voz suave cheia
de ss. Já então sabia o catecismo e a doutrina:
na
mestra, em casa, por qualquer «bagatella»
fallavam-lhe
sempre dos castigos do céo; de tal sorte
que Deus apparecia-lhe como um sêr que só sabe
dar o soffrimento e a morte e que é necessario abrandar,
rezando e jejuando, ouvindo novenas, amimando
os padres. Por isso, se ás vezes ao deitar lhe esquecia
uma Salve-Rainha, fazia penitencia no outro
dia, porque temia que Deus lhe mandasse sezões ou
a fizesse cahir na escada.
Mas o seu melhor tempo foi quando começou a
tomar lições de musica. A mãi tinha na
sala de jantar,
ao canto, um velho piano, coberto com um pano
verde, tão desafinado, que servia de aparador!
Amelia costumava cantarolar pela casa; a sua voz fina
e fresca agradava ao senhor chantre, e as amigas
da mãi diziam-lhe:
—Tu tens ahi um piano, porque não mandas
ensinar a rapariga? Sempre é uma prenda! olha
que lhe póde servir de muito!
O chantre conhecia um bom mestre, antigo organista
da Sé d'Evora, extremamente infeliz: a filha
unica, muito linda, fugira-lhe com um alferes
para Lisboa; e, passados dois annos, o Silvestre da
Praça, que ia muito á capital, vira-a descer a
rua do
Norte, de
garibaldi escarlate e
alvaiade n'um olho,
com um marinheiro inglez. O velho cahira em grande
melancolia e grande miseria; e por piedade tinham-lhe
dado um emprego no cartorio da camara
ecclesiastica. Era uma figura triste de romance picaresco.
Muito magro, alto como um pinheiro, deixava
crescer até aos hombros os seus cabellos brancos
e finos; os olhos, cansados, lagrimejavam-lhe
sempre; mas o seu sorriso resignado e bom enternecia:
e parecia muito transido, no seu capote côr
de vinho que só lhe chegava á cintura e que tinha
uma gola d'astrakan. Chamavam-lhe o
Tio
Cegonha
pela sua alta magreza e o seu ar solitario. Amelia
um dia tinha-lhe chamado
Tio
Cegonha; mas mordeu
logo o beiço, toda envergonhada.
O velho poz-se a sorrir:
—Ai, chame, minha rica menina, chame!
Tio
Cegonha?... ora, que tem? Cegonha sou eu, e bem
cegonha!
Era então no inverno. As grandes chuvas com
os sudoestes não cessavam; a aspera
estação opprimia
os pobres. Viam-se n'aquelle anno familias esfomeadas
indo á camara pedir pão. O
Tio
Cegonha
vinha sempre ao meio-dia dar a lição; o seu
guardachuva
azul deixava um ribeiro na escada; tiritava;
e quando se sentava escondia, na sua vergonha
de velho, as botas encharcadas com a sola aberta.
Queixava-se sobretudo do frio das mãos, que o impedia
de ferir com justeza o teclado e não o deixava
escrever no cartorio.
—Prendem-se-me os dedos... dizia tristemente.
Mas quando a S. Joanneira lhe pagou o primeiro
mez das lições, o velho appareceu muito contente,
com umas grossas luvas de lã.
—Ah,
Tio Cegonha, como vem
quentinho! disse-lhe
Amelia.
—Foi o seu dinheiro, minha rica menina. Agora
ando a juntar para umas meias de lã. Deus a
abençôe, minha menina, Deus a
abençôe!
E tinham-se-lhe arrasado os olhos de lagrimas.
Amelia tornára-se a «sua rica
amiguinha». Já lhe
fazia confidencias: contava-lhe as suas necessidades,
as saudades da filha, as suas glorias na Sé d'Evora,
quando diante do senhor
arcebispo,
vistoso na sua
sobrepelliz escarlate, acompanhava o
Lausperenne.
Amelia não se esqueceu das meias de lã do
Tio
Cegonha. Pediu ao chantre que lhe désse
umas
meias de lã.
—Ora essa! para quê? para ti? disse elle com
o seu riso grosso.
—Para mim, sim senhor.
—Deixe fallar, senhor chantre! disse a S. Joanneira.
Olha a idéa!
—Não deixe fallar, não! dê, sim?
Lançou-lhe os braços ao pescoço,
fez-lhe olhinhos
dôces.
—Ah, sereia! dizia o chantre rindo: que esperanças!
ha de ser o diabo!... Pois sim, ahi tens.—E
deu-lhe dois pintos para umas meias de lã.
No dia seguinte tinha-os ella embrulhados n'um
papel, que dizia por fóra em letras garrafaes:
Ao
meu rico amigo Tio Cegonha, a sua discipula.
Uma manhã, depois, viu-o mais amarello, mais
chupado:
—Ó
Tio Cegonha, disse de
repente, quanto lhe
dão lá no cartorio?
O velho sorriu-se:
—Ora, minha rica menina, quanto me hão de
dar? uma bagatella. Quatro vintens por dia. Mas o
snr. Netto faz-me algum bem...
—E chegam-lhe, quatro vintens?
—Ora! como hão de chegar!
Sentiram-se os passos da mãi; e Amelia, retomando
gravemente a attitude de lição,
começou a
solfejar alto, com um ar profundo.
E desde esse dia tanto pediu, tanto exclamou,
que levou a mãi a dar de almoçar e de jantar ao
Tio Cegonha nos dias de
lição. Assim se estabeleceu
entre ella e o velho uma grande intimidade. E o pobre
Tio Cegonha, sahindo do seu frio
isolamento,
acolhia-se áquella amizade inesperada, como a um
conchego tepido. Encontrava n'ella o elemento feminino
que amam os velhos, com as caricias, as suavidades
de voz, as delicadezas de enfermeira; achava
n'ella a unica admiradora da sua musica; e
via-a sempre attenta ás historias do seu tempo,
ás
recordações da velha Sé d'Evora que
elle amava
tanto, e que lhe fazia dizer, quando se fallava de
procissões ou de festas de igreja:
—Para isso Evora! em Evora é que é!
Amelia applicava-se muito ao piano: era a coisa
boa e delicada da sua vida: já tocava contradansas
e antigas arias de velhos compositores; a
snr.
a D. Maria da
Assumpção estranhava que o
mestre lhe não ensinasse o
Trovador.
—Coisa mais linda! dizia.
Mas o
Tio Cegonha só
conhecia a musica classica,
arias ingenuas e dôces de Lully, motivos de minuetes,
motetes floridos e piedosos dos dôces tempos
freiraticos.
Uma manhã o
Tio Cegonha
encontrou Amelia
muito amarella e triste. Desde a vespera queixava-se
de «mal-estar». Era um dia nublado, muito
frio. O velho queria ir-se embora.
—Não, não,
Tio
Cegonha, disse ella, toque alguma
coisa para eu me entreter.
Elle tirou o seu capote, sentou-se, tocou uma
melodia simples, mas extremamente melancolica.
—Que lindo! que lindo! dizia Amelia, de pé
junto ao piano.
E quando o velho deu as ultimas notas:
—O que é? perguntou ella.
O
Tio Cegonha contou-lhe que era o
começo de
uma
Meditação
feita por um frade seu amigo.
—Coitado, disse, teve bem o seu tormento!
Amelia quiz logo saber a historia; e sentando-se
no mocho do piano, embrulhando-se no seu chale:
—Diga,
Tio Cegonha, diga!
Era um homem que tivera em novo uma grande
paixão por uma freira; ella morrera no convento
d'aquelle amor infeliz; e elle, de dôr e de saudade,
fizera-se frade franciscano...
—Parece que o estou a vêr...
—Era bonito?
—Se era! Um rapaz na flôr da vida, rico... Um
dia veio ter commigo ao orgão: «Olha o que eu
fiz»,
disse-me elle. Era um papel de musica. Abria em ré
menor. Poz-se a tocar, a tocar... Ai, minha rica menina,
que musica! Mas não me lembra o resto!
E o velho, commovido, repetiu no piano as notas
plangentes da
Meditação em
ré menor.
Amelia todo o dia pensou n'aquella historia. De
noite veio-lhe uma grande febre, com sonhos espessos,
em que dominava a figura do frade frasciscano,
na sombra do orgão da Sé d'Evora. Via os seus
olhos profundos reluzirem n'uma face encovada: e,
longe, a freira pallida, nos seus habitos brancos, encostada
ás grades negras do mosteiro, sacudida pelos
prantos do amor! Depois, no longo claustro, a
ala dos frades franciscanos caminhava para o côro:
elle ia no fim de todos, curvado, com o capuz sobre
o rosto, arrastando as sandalias, emquanto um grande
sino, no ar nublado, tocava o dobre dos finados.
Então o sonho mudava: era um vasto céo negro,
onde duas almas enlaçadas e amantes, com habitos
de convento e um ruido ineffavel de beijos insaciaveis,
giravam, levadas por um vento mystico; mas
desvaneciam-se como nevoas, e na vasta escuridão
ella via apparecer um grande coração em carne
viva,
todo trespassado de espadas—e as gotas de
sangue que cahiam d'elle enchiam o céo d'uma chuva
escarlate.
Ao outro dia a febre acalmou. O doutor Gouvêa
tranquillisou a S. Joanneira com uma simples palavra:
—Nada de sustos, minha rica senhora, são os
quinze annos da rapariga. Hão de lhe vir
ámanhã
as vertigens e os enjôos... Depois acabou-se. Temol-a
mulher.
A S. Joanneira comprehendeu.
—Esta rapariga tem o sangue vivo e ha de ter
as paixões fortes! acrescentou o velho pratico, sorrindo
e sorvendo a sua pitada.
Por esse tempo o senhor chantre, uma manhã,
depois do seu almoço d'açorda, cahiu de repente
morto
com uma apoplexia. Que consternação inesperada
para a S. Joanneira! Durante dois dias, esguedelhada,
em saias brancas, chorou, gemeu pelos quartos.
D. Maria da Assumpção, as snr.
as
Gansosos
vieram
acalmar, amansar a sua dôr: e a snr.
a
D. Josepha
Dias resumiu as consolações de todas, dizendo:
—Deixa, filha, que te não ha de faltar quem te
ampare!
Era então no começo de setembro; a snr.
a
D.
Maria da Assumpção, que tinha uma casa na praia
da Vieira, propôz levar a S. Joanneira e Amelia para
a estação dos banhos, para ella espalhar, nos
bons
ares saudaveis, em logar differente, aquella dôr.
—É uma esmola que me fazes, dissera a S.
Joanneira. Sempre me lembra que era alli que elle
punha o guardachuva... Alli que elle se sentava a
vêr-me costurar!
—Está bom, está bom, deixa-te d'isso. Come e
bebe, toma os teus banhos, e o que lá vai lá vai.
Olha que elle tinha bem os seus sessenta.
—Ah, minha rica! a gente é pela amizade que
lhes ganha!
Amelia tinha então quinze annos, mas era já alta
e de bonitas fórmas. Foi uma alegria para ella a
estação
na Vieira! Nunca vira o mar; e não se fartava
de estar sentada na areia, fascinada pela vasta
agua azul, muito mansa, cheia de sol; ás vezes no
horisonte passava um fumo delgado de paquete; a
monotona e gemente cadencia da vaga adormentava-a;
e em redor o areal faiscava, a perder de vista,
sob o céo azul-ferrete.
Como se lembrava bem! Logo pela manhã estava
a pé. Era a hora do banho: as barracas de lona
alinhavam-se ao comprido da praia; as senhoras,
sentadas em cadeirinhas de pau, de sombrinhas abertas,
olhavam o mar, palrando; os homens, de sapatos
brancos, estendidos em esteiras, chupavam o cigarro,
riscavam emblemas na areia; emquanto o poeta Carlos
Alcoforado, muito fatal, muito olhado, passeava
só, soturno, junto da vaga, seguido do seu Terra-Nova.
Ella sahia então da barraca com o seu vestido
de flanella azul, a toalha no braço, tiritando de
susto e de frio: tinha-se persignado ás escondidas e
toda tremula, agarrada á mão do banheiro,
escorregando
na areia, entrava na agua, rompendo a custo
a maresia esverdeada que fervia em redor. A onda
vinha espumando, ella mergulhava, e ficava aos
saltos, suffocada e nervosa, cuspindo a agua salgada.
Mas, quando sahia do mar, como vinha satisfeita!
Arfava, com a toalha pela cabeça, arrastando-se
para a barraca, mal podendo com o peso do vestido
encharcado, risonha, cheia de reacção; e em redor
vozes amigas perguntavam:
—Então que tal, que tal? Mais fresquinha, hein?
Depois, de tarde, eram os passeios à beira-mar,
a apanhar conchinhas; o recolher das redes, onde a
sardinha toda viva ferve aos milheiros, luzidia sobre
a areia molhada; e que longas perspectivas de
occasos ricamente dourados, sobre a vastidão do
mar triste, que escurece e geme!
D. Maria da Assumpção tinha sido visitada, logo
ao chegar, por um rapaz, filho do snr. Brito de Alcobaça,
seu parente. Chamava-se Agostinho, ia frequentar
o quinto anno de direito na Universidade.
Era um moço delgado, de bigode castanho, pera,
cabello comprido deitado para traz, e luneta: recitava
versos, sabia tocar guitarra, contava anecdotas de
caloiros, fazia
partidas, e era
famoso na Vieira, entre
os homens, «por saber conversar com senhoras».
—O Agostinho, patife! diziam. É chalaça a esta,
chalaça áquella. Lá para sociedade
não ha outro!
Logo desde os primeiros dias Amelia reparou que
os olhos do snr. Agostinho Brito se fitavam constantemente
n'ella, «p'ra namoro». Amelia córava
muito,
sentia o seio alargar-se-lhe dentro do vestido;
e admirava-o, achava-o muito «dengueiro».
Um dia em casa da snr.
a D. Maria da
Assumpção
pediram a Agostinho para recitar.
—Oh, minhas senhoras, isto aqui não é forja de
ferreiro! exclamou elle, jovial.
—Ora vá! não se faça rogado,
disseram, insistindo.
—Bem, bem, por isso não nos havemos de zangar.
—A
Judia, Brito, lembrou o
recebedor de Alcobaça.
—Qual
Judia! disse elle, ha de ser
mas ha do
ser a
Morena!—E olhou para
Amelia.—Foi uma
poesia que fiz hontem.
—Valeu, valeu!
—E cá o rapaz acompanha, disse um sargento
do 6 de caçadores, tomando logo a guitarra.
Fez-se um silencio: o snr. Agostinho deitou o
cabello para traz, fincou a luneta, apoiou as duas
mãos ás costas d'uma cadeira, e fitando Amelia:
—Á
Morena de Leiria!
disse.
Nasceste nos verdes campos
Onde Leiria é famosa,
Tens a frescura da rosa,
E o teu nome sabe a mel...
—Perdão! exclamou o recebedor, a snr.
a
D.
Juliana não está boa...
Era a filha do escrivão de direito de Alcobaça;
tinha-se feito muito pallida, e, lentamente, desmaiava
na cadeira, com os
braços
pendentes, o queixo
sobre o peito. Borrifaram-na de agua, levaram-n'a
para o quarto de Amelia; quando lhe desapertaram
o vestido e lhe deram vinagre a respirar, ergueu-se
sobre o cotovêlo, olhou em redor, começaram a
tremer-lhe os beiços e rompeu a chorar. Fóra, os
homens em grupo, commentavam:
—Foi o calor, diziam.
—O calor que ella tinha sei eu... rosnou o sargento
de caçadores.
O snr. Agostinho torcia o bigode, contrariado.
Algumas senhoras foram a casa acompanhar a snr.
a
D. Juliana. D. Maria da Assumpção e a S.
Joanneira,
atabafadas nos seus chales, iam tambem. Havia
vento, um criado levava um lampeão, e todos caminhavam
na areia, calados.
—Tudo isto é teu proveito, disse a snr.
a
D. Maria
da Assumpção baixo á S. Joanneira,
demorando-se
um pouco atraz.
—Meu!?
—Teu. Pois tu não percebeste? A Juliana, em
Alcobaça, era namoro do Agostinho. Mas o rapaz aqui
anda pelo beiço pela Amelia. A Juliana percebeu,
viu-o recitar aquelles versos, olhar para ella, zás!
—Ora essa!... disse a S. Joanneira.
—Deixa lá, o Agostinho tem um par de mil cruzados
que lhe deixam as tias. É um partidão!
Ao outro dia, á hora do banho, a S. Joanneira
vestia-se na sua barraca, e Amelia, sentada na areia,
esperava, pasmada para o mar.
—Olá! sósinha! disse uma voz por detraz.
Era Agostinho. Amelia, calada, começou a riscar
a areia com a sombrinha. O snr. Agostinho suspirou,
alisou outro pedaço d'areia com o pé,
escreveu—
Amelia.
Ella, muito vermelha, quiz apagar com a
mão.
—Então! disse elle. E debruçando-se,
baixo:—É
o nome da
Morena, bem vê.
O seu nome sabe a
mel!...
Ella sorriu:
—Ande que fez hontem desmaiar aquella pobre
Juliana, disse.
—Ora! importa-me a mim bem com ella! Estou
farto d'aquelle estafermo! Então que quer? Eu cá
sou assim. Tanto digo que me não importo com ella,
como digo que ha uma pessoa por quem dava
tudo... Eu sei...
—Quem é? É a snr.
a D.
Bernarda?
Era uma velha hedionda, viuva de um coronel.
—É, disse elle rindo. É justamente por quem eu
ando apaixonado, é pela D. Bernarda.
—Ah! o senhor anda apaixonado! disse ella devagar,
com os olhos baixos, riscando a areia.
—Diga-me uma coisa, está a mangar commigo?
exclamou Agostinho puxando uma cadeirinha, sentando-se
junto d'ella.
Amelia pôz-se de pé.
—Não quer que eu me sente ao pé de si? perguntou
elle offendido.
—Eu é que estava cansada de estar sentada.
Calaram-se um momento.
—Já tomou banho? disse ella.
—Já.
—Estava frio hoje?
—Estava.
As palavras de Agostinho eram agora muito sêccas.
—Zangou-se? disse ella dôcemente, pondo-lhe
de leve a mão no hombro.
Agostinho ergueu os olhos, e vendo o bonito rosto
trigueiro, todo risonho, exclamou com vehemencia:
—Estou mesmo doido por si!
—Chut!... disse ella.
A mãi de Amelia, levantando o pano da barraca,
sahia, muito abafada, de lenço amarrado na
cabeça.
—Mais fresquinha, hein? perguntou logo Agostinho,
tirando o chapéo de palha.
—Estava por aqui?
—Vim dar uma vista d'olhos. E agora toca ao
almocinho, hein?
—Se é servido... disse a S. Joanneira.
Agostinho, muito galante, offereceu o braço á
mamã.
E desde então seguia sempre Amelia, de manhã
no banho, de tarde á beira-mar; apanhava-lhe conchas;
e tinha-lhe feito outros versos—o
Sonho. Uma
estrophe era violenta:
Senti-te contra o meu peito
Tremer, palpitar, ceder...
Ella murmurava-os com grande commoção, de
noite, suspirando, abraçando o travesseiro.
Outubro findava, as férias tinham acabado. Uma
noite o alegre rancho da snr.
a D. Maria da
Assumpção
e das amigas fôra dar um passeio ao luar. Á
volta, porém, erguera-se vento, nuvens pesadas empastaram
o céo, cahíram gotas d'agua. Estavam
então
junto a um pequeno pinheiral, e as senhoras, aos
gritinhos, quizeram abrigar-se. Agostinho, com Amelia
pelo braço, rindo alto, foi penetrando longe dos outros
na espessura; e então, sob o monotono e gemente rumor
das ramas, disse-lhe baixo, cerrando os dentes:
—Estou doido por ti, filha!
—Creio lá n'isso! murmurou ella.
Mas Agostinho, tomando subitamente um tom
grave:
—Sabes? talvez eu tenha de me ir ámanhã embora.
—Vai-se?
—Talvez; não sei ainda. Além
d'ámanhã é a
matricula.
—Vai-se... suspirou Amelia.
Elle então tomou-lhe a mão, apertou-lh'a com
furor:
—Escreve-me! disse.
—E a mim escreve-me? disse ella.
Agostinho agarrou-a pelos hombros e machucou-lhe
a boca de beijos vorazes.
—Deixe-me! deixe-me! dizia ella suffocada.
De repente teve um gemido dôce como um arrulho
de ave, e abandonava-se—quando a voz aguda
de D. Joaquina Gansoso gritou:
—Ha uma aberta. É andar! é andar!
E Amelia, desprendendo-se, atarantada, correu
a agachar-se sob o guardachuva da mamã.
Ao outro dia, com effeito, o snr. Agostinho partiu.
Vieram as primeiras chuvas, e dentro em pouco
tambem Amelia, a mãi, a snr.
a D.
Maria da
Assumpção
voltaram para Leiria.
Passou o inverno.
E um dia, em casa da S. Joanneira, D. Maria da
Assumpção deu parte que o Agostinho Brito,
segundo
lhe escreviam de Alcobaça, tinha o casamento
justo com a menina do Vimeiro.
—Caspitè! exclamou D. Joaquina Gansoso, apanha
nada menos que os seus trinta contos! Olha o
méco!
E diante de todos Amelia rompeu a chorar.
Amava Agostinho; e não podia esquecer aquelles
beijos de noite no pinheiral cerrado. Pareceu-lhe então
que não tornaria a ter alegria! Ainda lembrada
d'aquelle moço da historia do
Tio
Cegonha, que
por amor se escondera na solidão de um convento,
começou a pensar em ser freira: deu-se a uma forte
devoção, manifestação
exagerada das tendencias
que desde pequenina as convivencias de padres tinham
lentamente creado na sua natureza sensivel;
lia todo o dia livros de rezas; encheu as paredes do
quarto de lithographias coloridas de santos; passava
longas horas na igreja, accumulando Salve-Rainhas
á Senhora da Encarnação. Ouvia todos
os dias missa,
quiz commungar todas as semanas—e as amigas
da mãi achavam-na «um modêlo, de dar
virtude
a incredulos»!
Foi por esse tempo que o conego Dias e sua
irmã, a snr.
a D. Josepha Dias,
começaram a
frequentar
a casa da S. Joanneira. Dentro em pouco o conego
tornou-se o «amigo da familia». Depois do
almoço
era certo com a sua cadellinha, como outr'ora
o chantre com o seu guardachuva.
—Tenho-lhe muita amizade, faz-me muito bem,
dizia a S. Joanneira. Mas o senhor chantre não ha
dia nenhum que me não lembre d'elle!
A irmã do conego tinha então organisado com a
S. Joanneira a
Associação das
Servas da Senhora da
Piedade. A snr.
a D. Maria da
Assumpção, as Gansosos
«filiaram-se»; e a casa da S. Joanneira tornou-se
um centro ecclesiastico. Foi esse o momento melhor
da vida da S. Joanneira; «a Sé, como dizia com
tedio o Carlos da botica, era agora na rua da Misericordia».
Parte dos conegos, o novo chantre vinham
todas as sextas-feiras. Havia imagens de santos na
sala de jantar e na cozinha. As criadas, por escrupulo,
eram examinadas em doutrina antes de serem
aceitas. Alli muito tempo fizeram-se as
reputações:
se se dizia de um homem—
não é
temente a Deus,
havia o dever de o desacreditar santamente. As
nomeações
de sineiros, coveiros, serventes de sacristia
arranjavam-se alli por intrigas subtis e palavras
piedosas. Tinham tomado um certo vestuario entre o
preto e o rôxo: toda a casa cheirava a cera e a incenso;
e a S. Joanneira, mesmo, monopolisára o
commercio das hostias.
Assim passaram annos. Pouco a pouco, porém, o
grupo devoto dispersou-se: a ligação do conego
Dias
e da S. Joanneira, muito commentada, afastou os
padres do cabido; o novo chantre morrera de apoplexia
tambem—como era de tradição n'aquella
diocese, fatal aos chantres; e já não eram
divertidos
os quinos das sextas-feiras. Amelia mudára muito;
crescera: fizera-se uma bella moça de vinte e dois
annos, d'olhar avelludado, beiços muito frescos—e
achava a sua paixão pelo Agostinho uma «tontice
de criança». A sua devoção
subsistia, mas alterada:
o que amava agora na religião e na igreja era
o apparato, a festa—as bellas missas cantadas ao
orgão, as capas recamadas de ouro, reluzindo entre
os tocheiros, o altar-mór na gloria das flôres
cheirosas,
o roçar das correntes dos incensadores de prata,
os unisonos que rompem briosamente no côro das
alleluias. Tomava a Sé como a sua Opera: Deus era
o seu luxo. Nos domingos de missa gostava de se vestir,
de se perfumar com agua de colonia, de se ir aninhar
sobre o tapete do altar-mór, sorrindo ao padre
Brito ou ao conego Saldanha.—Mas em certos dias,
como dizia a mãi, «murchava»: voltavam
então os
abatimentos d'outr'ora, que a amarellavam, lhe punham
duas rugas velhas ao canto dos labios: tinha
n'essas occasiões horas d'uma vaga saudade parva e
morbida, em que só a consolava cantar pela casa o
Santissimo ou as notas lugubres do toque da Agonia.
Com a alegria voltava-lhe o gosto do culto alegre—e
lamentava então que a Sé fosse uma ampla
estructura
de pedra d'um estylo frio e jesuitico: quereria
uma igreja pequenina, muito dourada, tapetada,
forrada de papel, illuminada a gaz; e padres
bonitos officiando a um altar ornado como uma
étagère.
Fizera vinte e tres annos quando conheceu João
Eduardo, no dia da procissão de
Corpus-Christi, em
casa do tabellião Nunes Ferral, onde elle era escrevente.
Amelia, a mãi, a snr.
a D. Josepha
Dias tinham
ido vêr a procissão da bella varanda do
tabellião,
guarnecida de colchas de damasco amarello.
João Eduardo estava lá, modesto,
sério, todo vestido
de preto. Havia muito que Amelia o conhecia;
mas n'aquella tarde, reparando na brancura da sua
pelle e na gravidade com que ajoelhava, pareceu-lhe
«muito bom rapaz».
Á noite, depois do chá, o gordalhufo Nunes, de
collete branco, foi pela sala exclamando, enthusiasmado,
com a sua voz de grillo:—É tirar pares, é
tirar pares!—emquanto a filha mais velha ao piano
tocava com brio estridente uma mazurka franceza.
João Eduardo aproximou-se de Amelia:
—Ai, eu não danso!... disse ella logo com ar
sêcco.
João Eduardo não dansou tambem, foi encostar-se
a uma hombreira com a mão na abertura do collete,
os olhos fitos em Amelia. Ella percebia, desviava
o rosto, mas estava contente; e quando João
Eduardo, vendo uma cadeira vazia, veio sentar-se
ao pé d'ella, Amelia fez-lhe logo logar accommodando
os folhos de sêda, agradada. O escrevente,
embaraçado,
torcia o bigode com a mão tremula. Por
fim Amelia voltando-se para elle:
—Então o senhor não dansa tambem?
—E a snr.
a D. Amelia? disse elle baixo.
Ella inclinou-se para traz, e batendo nas pregas
do vestido:
—Ai! eu estou velha para estes divertimentos,
sou uma pessoa séria.
—Nunca se ri? perguntou elle, pondo na voz
uma intenção fina.
—Ás vezes rio quando ha de quê, disse ella
olhando-o de lado.
—De mim, por exemplo.
—De si!? ora essa! Está a caçoar commigo? Porque
me hei de eu rir do senhor? Boa!... Então o
senhor que tem que faça rir?—E agitava o seu leque
de sêda preta.
Elle calou-se, procurando as idéas, as delicadezas.
—Então sério, sério, não
dansa?
—Já lhe disse que não. Ai, que é
tão perguntador!
—É porque me interesso por si.
—Ora, deixe lá! disse ella fazendo um indolente
gesto de negativa.
—Palavra!
Mas a snr.
a D. Josepha Dias, que os vigiava,
aproximou-se, de testa muito franzida—e João
Eduardo levantou-se, intimidado.
Á sahida, quando Amelia no corredor punha os
seus agasalhos, João Eduardo veio dizer-lhe, de
chapéo
na mão:
—Cubra-se bem, não apanhe frio!
—Então continúa a interessar-se por mim? disse
ella apertando em redor do pescoço as pontas
da sua manta de lã.
—O mais possivel, creia.
Duas semanas depois veio a Leiria uma companhia
ambulante de
zarzuela. Fallava-se
muito da
contralto, a
Gamacho. A snr.
a
D.
Maria da Assumpção
tinha um camarote, levou a S. Joanneira e Amelia—que
duas noites antes estivera costurando, com
uma pressa commovida, um vestido de cassa todo
florido de laços de sêda azul. João
Eduardo na platéa—emquanto
a Gamacho, empastada de pó de
arroz sob a sua mantilha valenciana, vibrando com
uma graça decrepita o leque de lentejoulas, garganteava
malaguenhas agudas—não se fartou de contemplar,
de desejar Amelia. Á sahida veio comprimental-a,
offerecer-lhe o braço até á rua da
Misericordia:
a S. Joanneira, a snr.
a D. Maria da
Assumpção
seguiam atraz com o tabellião Nunes.
—Então gostou da Gamacho, snr. João Eduardo?
—A fallar-lhe a verdade nem sequer reparei
n'ella.
—Então que fez?
—Olhei para si, respondeu elle resolutamente.
Ella parou immediatamente, disse com a voz
um pouco alterada:
—Onde vem a mamã?
—Deixe lá a mamã!
E João Eduardo, então, fallando-lhe junto do
rosto,
disse-lhe «a sua grande paixão».
Tomou-lhe a
mão, repetia todo perturbado:
—Gósto tanto de si! Gósto tanto de si!
Amelia estava nervosa da musica do theatro;
a noite quente de verão, com a sua vasta
scintillação
de estrellas, tornava-a toda languida. Abandonou
a mão, suspirou baixinho.
—Gosta de mim, não é verdade? perguntou elle.
—Sim, respondeu ella—e apertou os dedos de
João Eduardo, com paixão.
Mas, como ella pensou, «fôra decerto um
fogacho»—porque,
dias depois, quando conheceu mais
João Eduardo, quando pôde fallar livremente com
elle, reconheceu que «não tinha nenhuma
inclinação
pelo rapaz». Estimava-o, achava-o sympathico, bom
moço; poderia ser um bom marido; mas sentia
dentro em si o coração adormecido.
O escrevente porém começou a ir á rua
da Misericordia
quasi todas as noites. A S. Joanneira estimava-o
pelo seu «proposito» e pela sua honradez.
Mas Amelia ia-se mostrando «fria»: esperava-o
á janella
pela manhã quando elle passava para o cartorio,
fazia-lhe olhos dôces á noite,—mas só
para
o não descontentar, para ter na sua existencia desoccupada
um interessesinho amoroso.
João Eduardo um dia fallou à mãi em
casamento:
—Como a Amelia quizer, eu por mim... disse
a S. Joanneira.
E Amelia, consultada, respondeu ambiguamente:
—Mais tarde, por ora não me parece, veremos.
Emfim accordou-se tacitamente em esperar, até
que elle obtivesse o lugar de amanuense do governo
civil, rasgadamente promettido pelo doutor Godinho—o
temido doutor Godinho!
Assim vivera Amelia até à chegada d'Amaro: e,
durante a noite, estas recordações vinham-lhe por
fragmentos, como pedaços de nuvens que o vento
vai trazendo e desmanchando. Adormeceu tarde,
acordou já o sol ia alto: e espreguiçava-se,
quando
ouviu dizer a
Ruça na
sala de jantar:
—É o senhor parocho que vai sahir com o senhor
conego; vão á Sé.
Amelia saltou da cama, correu á janella em camisa,
ergueu uma pontinha da cortina de cassa,
olhou. A manhã resplandecia: e o padre Amaro pelo
meio da rua conversando com o conego, assoava-se
ao seu lenço branco, muito airoso na sua batina
de pano fino.
VI
Logo desde os primeiros dias, envolvido suavemente
em commodidades, Amaro sentiu-se feliz. A
S. Joanneira, muito maternal, tomava um grande cuidado
na sua roupa branca, preparava-lhe petiscos,
e o «quarto do senhor parocho andava que nem um
brinco»! Amelia tinha com elle uma familiaridade picante
de parenta bonita: «tinham calhado um com
outro», como dissera, encantada, D. Maria da
Assumpção.
Os dias iam assim passando para Amaro,
faceis, com boa mesa, colchões macios e a convivencia
meiga de mulheres. A estação ia tão
linda que
até as tilias floresceram no jardim do Paço:
«quasi
milagre»! disse-se: o senhor chantre, contemplando-as
todas as manhãs da janella do seu quarto,
em robe-de-chambre, citava versos das
Eclogas. E
depois das longas tristezas da casa do tio da Estrella,
dos desconsolos do seminario e do aspero inverno
na Gralheira—aquella vida em Leiria era para
Amaro como uma casa sêcca e abrigada onde o alegre
lume estala e a sôpa cheirosa fumega, depois
d'uma noite de jornada na serra, sob trovões e chuveiros.
Ia cedo dizer missa à Sé, bem embrulhado no
seu grande capote, com luvas de casimira, meias de
lã por baixo das botas de alto cano vermelho. As
manhãs
estavam frias: e àquella hora só algumas devotas,
com o mantéo escuro pela cabeça, rezavam
aqui e além, ao pé d'um altar envernizado de
branco.
Entrava logo na sacristia, revestia-se depressa
batendo os pés no lagedo, emquanto o sacristão,
pachorrento, contava «as novidades do dia».
Depois, com o calice na mão, d'olhos baixos, passava
á igreja; e tendo dobrado o joelho rapidamente
diante do Santissimo Sacramento, subia devagar
ao altar onde as duas velas de cera esmoreciam
com uma claridade pallida na larga luz da manhã,
juntava as mãos, murmurava, curvado:
—
Introibo ad altare Dei.
—
Ad Deum qui lætificat juventutem
meam, resmungava,
n'um latim syllabado, o sacristão.
Amaro já não celebrava a missa como nos primeiros
tempos, com uma devoção enternecida.
«Estava
agora habituado», dizia. E como não ceava, e
áquella
hora, em jejum, com a frescura cortante do ar, já
sentia appetite, engorolava depressa, monotonamente,
as santas leituras da Epístola e dos Evangelhos.
Por traz o sacristão, com os braços cruzados,
passava
vagarosamente a mão pela sua espessa barba
bem rapada, olhando de revez para a Casimira França,
mulher do carpinteiro da Sé, muito devota, que
elle «trazía d'olho» desde a Paschoa.
Largas resteas
de sol cahiam das janellas lateraes. Um vago
aroma de junquilhos sêccos adocicava o ar.
Amaro, depois de recitar rapidamente o Offertorio,
limpava o calice com o purificador; o sacristão,
um pouco vergado dos rins, ia buscar as galhetas,
apresentava-as, curvado—e Amaro sentia o cheiro
do oleo rançoso que lhe reluzia no cabello. N'aquella
parte da missa, por um antigo habito de emoção
mystica, Amaro tinha um recolhimento sentido: com
os braços abertos, voltava-se para a igreja, clamava,
com largueza, a exhortação universal á
oração—
Orate,
fratres! E as velhas encostadas aos pilares
de pedra, com o aspecto idiota, a boca babosa,
apertavam mais as mãos contra o peito, d'onde
pendiam grandes rosarios negros. Então o
sacristão
ia ajoelhar-se por traz d'elle, sustentando ligeiramente
com uma das mãos a capa, erguendo na outra
a sineta. Amaro consagrava o vinho, levantava a
hostia—
Hoc est enim corpus
meum!—elevando
alto os braços para o Christo cheio de chagas
rôxas
sobre a sua cruz de pau preto; a campainha tocava
devagar; as mãos batiam concavamente nos peitos;
e no silencio sentiam-se os carros de bois rolando,
com solavancos, sobre o largo lageado da Sé, à
volta
do mercado.
—
Ite, missa est! dizia Amaro emfim.
—
Deo gratias! respondia o
sacristão respirando
alto, com o allivio da obrigação finda.
E quando, depois de ter beijado o altar, Amaro
vinha do alto dos degraus dar a benção, era
já pensando
na alegria do almoço, na clara sala de jantar
da S. Joanneira e nas boas torradas. Áquella hora
já Amelia o esperava com o cabello cahido sobre o
penteador, tendo na pelle fresca um bom cheiro de
sabão d'amendoas.
Pelo meio do dia ordinariamente Amaro subia à
sala de jantar onde a S. Joanneira e Amelia costuravam.
«Estava aborrecido em baixo, vinha um bocado
para o cavaco», dizia. A S. Joanneira, n'uma cadeira
pequena, ao pé da janella, com o gato aninhado
na roda do vestido de merino, cosia de luneta na
ponta do nariz. Amelia, junto da mesa, trabalhava
com o cesto da costura ao lado: a cabeça inclinada
sobre o trabalho mostrava a sua risca fina, nitida,
um pouco afogada na abundancia do cabello; os
seus grandes brincos de ouro, em fórma de pingos
de cera, oscillavam, faziam tremer e crescer sobre a
finura do pescoço uma pequenina sombra; as olheiras
leves côr de
bistre
esbatiam-se delicadamente sobre
a pelle de um trigueiro mimoso, que um sangue
forte aviventava; e o seu peito cheio respirava
devagar. Ás vezes, cravando a agulha na fazenda,
espreguiçava-se devagarinho, sorria, cansada.
Então
Amaro gracejava:
—Ah preguiçosa, preguiçosa! Olha que mulher
de casa!
Ella ria; conversavam. A S. Joanneira sabia as
coisas interessantes do dia: o major despedira a
criada; ou havia quem offerecesse dez moedas pelo
porco do Carlos do correio. De vez em quando a
Ruça vinha ao armario
buscar um prato ou uma
colhér: então fallava-se do preço dos
generos, do
que havia para o jantar. A S. Joanneira tirava as
lunetas, traçava a perna e, balouçando o
pé calçado
n'uma chinela d'ourelo, punha-se a dizer os pratos:
—Hoje temos grão de bico. Não sei se o senhor
parocho gostará, foi para variar...
Mas Amaro gostava de tudo; e mesmo em certas
comidas descobria affinidade de gostos com Amelia.
Depois, animando-se, bolia-lhe no cesto da costura.
Um dia encontrára uma carta; perguntou-lhe
pelo
derriço; ella
respondeu, picando vivamente o
posponto:
—Ai! a mim ninguem me quer, senhor parocho...
—Não é tanto assim, acudiu elle.—Mas
suspendeu-se,
muito vermelho, affectando tossir.
Amelia ás vezes fazia-se muito familiar; um dia
mesmo pediu-lhe para sustentar nas mãos uma meadinha
de retroz que ella ia dobar.
—Deixe fallar, senhor parocho! exclamou a S.
Joanneira. Ora a tolice! Isto, em se lhe dando confiança!...
Mas Amaro promptificou-se, rindo, todo contente:—elle
estava alli para o que quizessem, até para dobadoura!
Era mandarem, era mandarem! E as duas
mulheres riam, d'um riso calido, enlevadas n'aquellas
maneiras do senhor parocho, «que até tocavam
o coração»! Ás vezes Amelia
pousava a costura
e tomava o gato no collo; Amaro chegava-se,
corria a mão pela espinha do
Maltez que se arredondava,
fazendo um
ron-ron de gozo.
—Gostas? dizia ella ao gato, um pouco córada,
com os olhos muito ternos.
E a voz de Amaro murmurava, perturbada:
—Bichaninho gato! bichaninho gato!
Depois a S. Joanneira erguia-se para dar o remedio
á idiota ou ir palrar á cozinha. Elles ficavam
sós; não fallavam, mas os seus olhos tinham um
longo dialogo mudo, que os ia penetrando da mesma
languidez dormente. Então Amelia cantarolava
baixo o
Adeus ou o
Descrente: Amaro accendia o
seu cigarro, e escutava bamboleando a perna.
—É tão bonito isso! dizia.
Amelia cantava mais accentuadamente, cosendo
depressa; e a espaços, erguendo o busto, mirava o
alinhavado ou o posponto, passando-lhe por cima,
para o assentar, a sua unha polida e larga.
Amaro achava aquellas unhas admiraveis, porque
tudo que era
ella ou vinha
d'
ella lhe parecia perfeito:
gostava da côr dos seus vestidos, do seu andar,
do modo de passar os dedos pelos cabellos, e
olhava até com ternura para as saias brancas que
ella punha a seccar á janella do seu quarto, enfiadas
n'uma cana. Nunca estivera assim na intimidade
d'uma mulher. Quando percebia a porta do quarto
d'ella entreaberta, ia resvalar para dentro olhares
gulosos, como para perspectivas d'um paraiso:
um saiote pendurado, uma meia estendida, uma liga
que ficára sobre o bahú, eram como
revelações da
sua nudez, que lhe faziam cerrar os dentes, todo
pallido. E não se saciava de a vêr fallar, rir,
andar
com as saias muito engommadas que batiam as hombreiras
das portas estreitas. Ao pé d'ella, muito fraco,
muito langoroso, não lhe lembrava que era padre:
o Sacerdocio, Deus, a Sé, o Peccado ficavam em
baixo, longe; via-os muito esbatidos do alto do seu
enlevo, como d'um monte se vêem as casas desapparecer
no nevoeiro dos valles; e só pensava então
na doçura infinita de lhe dar um beijo na brancura
do pescoço, ou mordicar-lhe a orelhinha.
Ás vezes revoltava-se contra estes desfallecimentos,
batia o pé:
—Que diabo, é necessario ter juizo! é necessario
ser homem!
Descia, ia folhear o seu Breviario; mas a voz de
Amelia fallava em cima, o
tic-tic
das suas botinas batia
o soalho... Adeus! a devoção cahia como uma
vela a que falta o vento; as boas resoluções
fugiam,
e lá voltavam as tentações em bando a
apoderar-se do
seu cerebro, frementes, arrulhando, roçando-se umas
pelas outras como um bando de pombas que recolhem
ao pombal. Ficava todo subjugado, soffria. E lamentava
então a sua liberdade perdida: como desejaria
não a vêr, estar longe de Leiria, n'uma aldeia
solitaria, entre gente pacifica, com uma criada velha
cheia de proverbios e de economia, e passear pela
sua horta quando as alfaces verdejam e os gallos cacarejam
ao sol! Mas Amelia, de cima, chamava-o—e
o encanto recomeçava, mais penetrante.
A hora do jantar, sobretudo, era a sua hora perigosa
e feliz, a melhor do dia. A S. Joanneira trinchava,
emquanto Amaro conversava cuspindo os caroços
das azeitonas na palma da mão e enfileirando-os
sobre a toalha. A
Ruça,
cada dia mais etica,
servia mal, sempre a tossir: Amelia ás vezes erguia-se
para ir buscar uma faca, um prato ao aparador.
Amaro queria levantar-se logo, attencioso.
—Deixe-se estar, deixe-se estar, senhor parocho!
dizia ella. E punha-lhe a mão no hombro, e os
seus olhos encontravam-se.
Amaro, com as pernas estendidas e o guardanapo
sobre o estomago, sentia-se regalado, gozava muito
no bom calor da sala; depois do segundo copo
da Bairrada tornava-se expansivo, tinha gracinhas;
ás vezes mesmo, com um brilho terno no olho, tocava
fugitivamente o pé de Amelia debaixo da mesa;
ou, fazendo um ar sentido, dizia «que muito lhe pezava
não ter uma irmãzinha assim»!
Amelia gostava de ensopar o miolo de pão no
môlho do guisado; a mãi dizia-lhe sempre:
—Embirro que faças isso diante do senhor parocho.
E elle então rindo:
—Pois olhe, também eu gósto. Sympathia!
magnetismo!
E molhavam ambos o pão, e sem razão davam
grandes risadas. Mas o crepusculo crescia, a
Ruça
trazia o candieiro. O brilho dos copos e das louças
alegrava Amaro, enternecia-o mais; chamava á S.
Joanneira
mamã; Amelia
sorria, d'olhos baixos, trincando
com a ponta dos dentes cascas de tangerina.
D'ahi a pouco vinha o café; o o padre Amaro ficava
muito tempo partindo nozes com as costas da faca
e quebrando a cinza do cigarro na borda do pires.
Áquella hora apparecia sempre o conego Dias;
sentiam-no subir pesadamente, dizendo da escada:
—Licença para dois!
Era elle e a cadella, a
Trigueira.
—Ora Nosso Senhor nos dê muito boas noites!
dizia assomando á porta.
—Vai a gotinha de café, senhor conego? perguntava
logo a S. Joanneira.
Elle sentava-se, exhalando um profundo
uff!—Vá
lá a gotinha do café! E batendo no hombro do
parocho, olhando para a S. Joanneira:
—Então como vai cá o seu menino?
Riam; vinham as historias do dia. O conego costumava
trazer no bolso o
Diario Popular;
Amelia
interessava-se pelo romance, a S. Joanneira pelas
correspondencias amorosas nos annuncios.
—Ora vejam que pouca vergonha!... dizia ella,
deliciando-se.
Amaro então fallava de Lisboa, de escandalos
que lhe contára a tia, dos fidalgos que conhecera
«em casa do senhor conde de Ribamar». Amelia,
enlevada, escutava-o com os cotovêlos sobre a mesa,
roendo vagarosamente a ponta do palito.
Depois do jantar iam visitar a entrevada. A lamparina
esmorecia à cabeceira da cama: e a pobre velha,
com uma medonha touca de rendas negras que
tornava mais lívida a sua carinha engelhada como
uma maçã raineta, fazendo debaixo da roupa uma
saliencia quasí imperceptivel, fixava em todos, com
custo, os seus olhinhos concavos e chorosos.
—É o senhor parocho, tia Gertrudes! gritava-lhe
Amelia ao ouvido. Vem vêr como está.
A velha fazia um esforço, e com uma voz gemida:
—Ah! é o menino!
—É o menino, é, diziam rindo.
E a velha ficava a murmurar, espantada:
—É o menino, é o menino!
—Pobre de Christo! dizia Amaro. Pobre de Christo!
Deus lhe dê uma boa morte!
E voltavam para a sala de jantar onde o conego
Dias, todo enterrado na velha poltrona de chita verde,
com as mãos cruzadas sobre o ventre, dizia logo:
—Ora vá um bocadinho de musica, pequena!
Amelia ia sentar-se ao piano.
—Ó filha, toca o
Adeus!
recommendava a S.
Joanneira começando a sua meia.
E Amelia, ferindo o teclado: