—Passarinho trigueiro,
Salta cá fóra...
Adiante de todos ia o padre Natario: levava a
capa no braço, arrastando pelo chão; a batina
desabotoada
por traz deixava vêr o forro immundo do
collete; e as suas pernas escanifradas, com as meias
pretas de lã cheias de passagens, faziam bordos que
o atiravam contra o silvado.
E no emtanto Brito, com grandes bafos de vinho,
roncava:
—Eu só me contentava em agarrar n'um cajado
e correr tudo! tudo!—E gesticulava com um
gesto immenso que abrangia o mundo.
—Tem as azas quebradas,
Não póde agora...
gania atraz o Libaninho.
Mas pararam de repente: Natario adiante gritava
com uma voz furiosa:
—Seu burro, vossê não vê? Sua
bêsta!
Era á volta do atalho. Tropeçára com
um velho
que conduzia uma ovelha; ia cahindo; e ameaçava-o
com o punho fechado n'uma raiva avinhada.
—Queira vossa senhoria perdoar, dizia humildemente
o homem.
—Sua bêsta! berrava Natario com os olhos
chammejantes. Que o racho!
O homem balbuciava, tinha tirado o chapéo;
viam-se os seus cabellos brancos; parecia ser um
antigo criado de lavoura envelhecido no trabalho;
era talvez avô—e curvado, vermelho de vergonha,
encolhia-se com as sebes para deixar passar
no estreito caminho de carros os senhores padres
joviaes e excitados da vinhaça!
Amaro não os quiz acompanhar até á
fazenda.
Ao fim da aldeia, no cruzeiro, tomou pelo caminho
de Sobros, voltou para Leiria.
—Olhe que é uma legoa á cidade, dizia o abbade.
Eu mando-lhe apparelhar a egoa, collega.
—Qual historia, abbade, a perninha é rija!—E,
traçando alegremente a capa, partiu cantarolando o
Adeus.
Ao pé da Cortegassa o atalho de Sobros alarga-se,
ao comprido d'um muro de quinta coberto de
musgos e erriçado no alto de luzidios fundos de garrafas.
Quando Amaro chegou proximo ao portão de
carros, baixo e pintado de vermelho, encontrou no
meio do caminho, parada, uma grande vacca malhada;
Amaro divertido espicaçou-a com o guarda-chuva;
a vacca trotou balouçando a papeira—e
Amaro ao voltar-se viu Amelia, ao portão, que saudava,
dizendo toda risonha:
—Então está-me a espantar o gado, senhor
parocho?
—É a menina! Que milagre é este?
Ella fez-se um pouco vermelha:
—Vim á quinta com a D. Maria da
Assumpção.
Vim dar uma vista d'olhos á fazenda.
Ao pé de Amelia uma rapariga acamava couves
n'uma canastra.
—Então esta é que é a quinta da D.
Maria?
E Amaro deu um passo para dentro do portão.
Uma rua larga de velhos sobreiros, dando uma
sombra dôce, estendia-se até á casa que
se entrevia
no fundo, branquejando ao sol.
—É. A nossa fazenda fica do outro lado, mas
entra-se tambem por aqui. Vá, Joanna, avia-te!
A rapariga pôz a canastra á cabeça, deu
as boas
tardes, metteu pelo caminho de Sobros, batendo
muito os quadris.
—Sim, senhor! sim, senhor! Parece uma boa
propriedade... considerava o parocho.
—Venha vêr a nossa fazenda! disse Amelia. É
uma migalhinha de terra, mas para fazer uma idéa.
Vai-se por aqui mesmo... Olhe, vamos ter lá baixo
com a D. Maria, quer?
—Valeu. Vamos lá á D. Maria, disse Amaro.
Foram subindo a rua dos sobreiros, calados. O
chão estava cheio de folhas sêccas, e, entre os
troncos
espaçados, moitas de hortensias pendiam abatidas,
amarelladas dos chuveiros; ao fundo a casa
baixa, velha, de um andar só, assentava pesadamente.
Ao longo da parede grandes aboboras amadureciam
ao sol, e no telhado, todo negro do inverno,
esvoaçavam pombos. Por traz o laranjal formava
uma massa de folhagens verde-escuras; uma
nora chiava monotonamente.
Um rapazito passou com um balde de lavagem.
—Para onde foi a senhora, João? perguntou
Amelia.
—Foi p'r'ó olival, disse o rapaz com a sua vozinha
arrastada.
O olival era longe, no fundo da quinta: havia
ainda grandes lamas, não se podia ir lá sem
tamancos.
—Vai-se a gente sujar toda, disse Amelia. Deixar
lá a D. Maria, hein? Vamos nós vêr a
quinta...
Por aqui, senhor parocho...
Estavam defronte d'um velho muro onde cresciam
clematites. Amelia abriu uma porta verde; e
por tres degraus de pedra desconjuntados desceram
a uma rua toldada por uma larga parreira. Junto do
muro cresciam rosas de todo o anno; do outro lado,
por entre os pilares de pedra que sustentavam a latada
e os pés torcidos das cepas, via-se, batido de
luz, com tons amarellados, um grande campo de herva;
os tectos baixos do curral coberto de colmo destacavam
ao longe em escuro, e d'esse lado um fumosinho
leve e branco perdia-se no ar muito azul.
Amelia a cada momento parava, explicava a
quinta:—Alli ia semear-se cevada; além havia de
vêr o cebolinho, estava muito bonito...
—Ah! a D. Maria da Assumpção traz isto muito
bem tratado!
Amaro ouvia-a fallar, com a cabeça baixa, olhando-a
de lado; a sua voz n'aquelle silencio dos campos
parecia-lhe mais rica, mais dôce; o grande ar
dava-lhe uma côr mais picante ás faces; o seu
olhar
rebrilhava. Para saltar umas lamas tinha apanhado
o vestido; e a brancura da meia, que elle entreviu,
perturbou-o como um começo da sua nudez.
Ao fundo da parreira atravessaram um campo ao
comprido d'um regueiro. Amelia riu muito do parocho,
que tinha medo de sapos. Elle então exagerou
os seus sustos. Ó menina Amelia, haveria viboras?
E roçava-se por ella, afastando-se das hervas altas.
—Vê aquelle vallado? Pois para o lado de lá
é
a nossa fazenda. Entra-se pela cancella, vê? Mas veja
lá se está cansado! Que o senhor parece-me que
não é grande caminhador... Ai, um sapo!
Amaro deu um pulinho, tocou-lhe o hombro.
Ella empurrou-o dôcemente, e com um riso calido:
—Seu medroso! seu medroso!
Estava toda contente, toda viva. Fallava na
sua
fazenda com uma vaidadesinha satisfeita de entender
da lavoura, de ser proprietaria.
—A cancella está fechada, parece, disse Amaro.
—Está? fez ella.—Apanhou as saias, deu uma
carreirinha. Estava fechada! Que pena! E abalava,
impaciente, as grades estreitas, entre as duas fortes
hombreiras de madeira encravadas na espessura do
silvado.
—Foi o caseiro que levou a chave!
Agachou-se, gritou para o lado do campo, arrastando
muito tempo a voz:—Antonio! Antonio!
Ninguem respondeu.
—Anda lá para o fundo da quinta! disse ella.
Que sécca! Se o senhor parocho quizesse, aqui adiante
póde-se passar. Ha uma abertura no vallado, chamam-lhe
o
salto da cabra. Póde a
gente saltar para
o outro lado.
E caminhando rente ao silvado, chapinhando a
lama, toda alegre:
—Quando eu era pequena nunca passava pela
cancella, saltava sempre por alli. E cada trambolhão
quando o chão estava resvaladiço com a chuva!
Era um vivo demonio, aqui onde me vê! Ninguém
ha de dizer, senhor parocho, hein? Ai! vou-me
a fazer velha!—E voltando-se para elle, com
um risinho onde luzia o esmalte dos dentes:—Não
é verdade? Estou-me a fazer velha, hein?
Elle sorria. Custava-lhe fallar. O sol, batendo-lhe
nas costas, depois do vinho do abbade, amollecia-o:
e a figura d'ella, os seus hombros, os seus encontros
davam-lhe um desejo continuo e intenso.
—Aqui está o
salto da
cabra, disse Amelia parando.
Era uma abertura estreita no vallado: a terra do
outro lado, mais baixa, estava toda lamacenta. Via-se
d'alli a fazenda da S. Joanneira: o campo plano
estendia-se até um olival, com a herva fina muito
estrellada de pequenos malmequeres brancos; uma
vacca preta, de grandes malhas, pastava; e para
além viam-se tectos aguçados de casaes onde
voavam
revoadas de pardaes.
—E agora? perguntou Amaro.
—Agora saltar, disse ella rindo.
—Cá vai! exclamou elle.
Traçou a capa, saltou; mas escorregou nas hervas
humidas—e immediatamente Amelia, debruçando-se,
rindo muito, com grandes acenos de mãos:
—E agora adeus, senhor parocho, que eu vou
ter com a D. Maria. Ahi fica preso na fazenda. Para
cima não póde o senhor pular, pela cancella
não póde
o senhor passar! É o senhor parocho que está
preso...
—Ó menina Amelia! ó menina Amelia!
Ella cantarolava-lhe, escarnecendo:
Fico sósinha á varanda
Que o meu bem está na prisão!
Aquellas maneirinhas excitavam o padre—e com
os braços erguidos, a voz calida:
—Salte, salte!
Ella então fez voz de mimo:
—Ai, tenho medinho! tenho medinho...
—Salte, menina!
—Lá vai! gritou ella bruscamente.
Saltou, foi cahir-lhe sobre o peito com um gritinho.
Amaro resvalou, firmou-se—e, sentindo entre
os braços o corpo d'ella, apertou-a brutalmente
e beijou-a com furor no pescoço.
Amelia desprendeu-se, ficou diante d'elle, suffocada,
com a face em braza, compondo na cabeça e
em roda do pescoço, com as mãos tremulas, as
pregas
da manta de lã. Amaro disse-lhe:
—Ameliasinha!
Mas ella de repente apanhou os vestidos, correu
ao comprido do vallado. Amaro, com grandes passadas,
seguiu-a atarantado. Quando chegou á cancella,
Amelia fallava ao caseiro, que apparecia com
a chave.
Atravessaram o campo junto ao regueiro, depois
a rua coberta com a parreira. Amelia adiante palrava
com o caseiro; e atraz Amaro, de cabeça baixa,
seguia muito murcho. Ao pé da casa Amelia parou,
fazendo-se vermelha, compondo sempre a manta em
redor do pescoço:
—Ó Antonio, disse, ensine o portão ao senhor
parocho. Muito boas tardes, senhor parocho.
E através das terras humidas correu para o fundo
da quinta, para os lados do olival.
A snr.
a D. Maria da
Assumpção ainda
lá estava,
sentada n'uma pedra, tagarellando com o tio Patricio;
um bando de mulheres, com grandes varas, batiam
em redor a ramagem das oliveiras.
—Que é isso, tonta? D'onde vens tu a correr,
rapariga? Credo, que doida!
—Vim a correr, disse
ella toda
vermelha, suffocada.
Sentou-se ao pé da velha; e ficou immovel, com
as mãos cahídas no regaço, respirando
fortemente, os
beiços entreabertos, os olhos fixos n'uma
abstracção.
Todo o seu sêr se abysmava n'uma só
sensação:
—Gosta de mim! Gosta de mim!
Estava ha muito namorada do padre Amaro—e
ás vezes, só, no seu quarto, desesperava-se por
imaginar
que elle não percebia nos seus olhos a confissão
do seu amor! Desde os primeiros dias, apenas
o ouvia pela manhã pedir de baixo o almoço,
sentia uma alegria penetrar todo o seu sêr sem
razão,
punha-se a cantarolar com uma volubilidade de
passaro. Depois via-o um pouco triste. Porquê? Não
conhecia o seu passado; e, lembrada do frade d'Evora,
pensou que elle se fizera padre por um desgosto
d'amor. Idealisou-o então: suppunha-lhe uma natureza
muito terna, parecia-lhe que da sua pessoa airosa
e pallida se desprendia uma fascinação. Desejou
tel-o por confessor: como seria bom estar ajoelhada
aos pés d'elle, no confessionario, vendo de perto os
seus olhos negros, sentindo a sua voz suave fallar
do paraiso! Gostava muito da frescura da sua boca;
fazia-se pallida à idéa de o poder
abraçar na sua
longa batina preta! Quando Amaro sahia, ia ao quarto
d'elle, beijava a travesseirinha, guardava os cabellos
curtos que tinham ficado nos dentes do pente.
As faces abrazavam-se-lhe quando o ouvia tocar a
campainha.
Se Amaro jantava fóra com o conego Dias estava
todo o dia impertinente, ralhava com a
Ruça,
ás vezes mesmo dizia mal d'elle, «que era
casmurro,
que era tão novo que nem inspirava respeito».
Quando elle fallava d'alguma nova confessada, amuava,
com um ciume pueril. A sua antiga devoção
renascia,
cheia de um fervor sentimental: sentia um
vago amor physico pela Igreja; desejaria abraçar,
com pequeninos beijos demorados, o altar, o orgão,
o missal, os santos, o céo, porque não os
distinguia
bem d'Amaro, e pareciam-lhe dependencias da sua
pessoa. Lia o seu livro de missa pensando n'elle como
no seu Deus particular. E Amaro não sabia, quando
passeava agitado pelo quarto, que ella em cima
o escutava, regulando as palpitações do seu
coração
pelas passadas d'elle, abraçando o travesseiro, toda
desfallecida de desejos, dando beijos no ar, onde se
lhe representavam os labios do parocho!
A tarde cahia quando D. Maria e Amelia voltaram
para a cidade. Amelia adiante, calada, chibatava
a sua burrinha, emquanto D. Maria da Assumpção
vinha palrando com o moço da quinta, que segurava
a arreata. Ao passar junto á Sé tocou a
Ave-Marias. E Amelia, rezando, não podia destacar
os olhos das cantarias da igreja tão grandiosamente
erguidas, decerto para que elle alli celebrasse! Lembravam-lhe
então domingos em que o vira, ao repicar
dos sinos, dar a benção dos degraus do
altar-mór;
e todos se curvavam, mesmo as senhoras do
morgado Carreiro, mesmo a senhora baroneza de
Via-Clara e a mulher do governador civil, tão orgulhosa,
com o seu nariz de cavallete! Dobravam-se sob
os seus dedos erguidos, e achavam decerto tambem
bonitos os seus olhos negros! E era elle que a
tinha apertado nos braços, ao pé do vallado!
Sentia
ainda no pescoço a pressão calida dos seus
beiços:
uma paixão flammejou como uma chamma por todo
o seu sêr: largou a arreata do burrinho, apertou as
mãos contra o peito, e cerrando os olhos,
lançando
toda a sua alma n'uma devoção:
—Ó Nossa Senhora das Dôres, minha madrinha,
faze que elle goste de mim!
No adro lageado conegos passeavam, conversando.
A botica defronte já tinha luz, os bocaes reluziam;
e por detraz da balança a figura do pharmaceutico
Carlos, com o seu boné bordado a missanga,
movia-se magestosamente.
VIII
O padre Amaro voltára para casa aterrado.
—E agora? E agora? dizia elle encostado ao
canto da janella, sentindo o coração encolhido.
Devia sahir immediatamente da casa da S. Joanneira!
Não podia continuar alli, na mesma familiaridade,
depois de ter tido «aquelle atrevimento com
a pequena».
Que ella não ficára muito indignada—apenas
atordoada; contivera-a talvez o respeito ecclesiastico,
a delicadeza para com o hospede, a attenção
para com o amigo do conego. Mas podia contar á
mãi, ao escrevente... Que escandalo! E via já o
senhor
chantre, traçando a perna e fitando-o,—que
era a sua attitude de reprehensão—dizer-lhe com
pompa:—«São esses desregramentos que deshonram
o sacerdocio. Não se comportaria d'outro modo
um Satyro no monte Olympo!»—Poderiam desterral-o
outra vez para alguma freguezia da serra!...
Que diria a senhora condessa de Ribamar?
E depois, se persistisse em vêl-a na intimidade,
ter constantemente presentes aquelles olhos negros,
o sorriso calido que lhe fazia uma covinha no queixo,
a curva d'aquelle peito—a sua paixão, crescendo
surdamente, irritada a toda a hora, recalcada
para dentro, tornal-o-hia doido, «podia fazer alguma
asneira»!
Decidiu-se então a ir fallar ao conego Dias: a
sua natureza fraca necessitava sempre receber forças
d'uma razão, d'uma experiencia alheia: costumava
consultar ordinariamente o conego que, pelo
habito da disciplina ecclesiastica, elle julgava mais
intelligente por ser seu superior na hierarchia; e
não perdera, desde o seminario, a sua dependencia
de discipulo. Depois, se quizesse arranjar uma casa
e uma criada para ir viver só, necessitava o auxilio
do conego, que conhecia Leiria como se a tivesse
edificado.
Encontrou-o na sala de jantar. O candieiro de
azeite esmorecia com um murrão avermelhado. Os
tições da brazeira, cobertos d'uma
pulverisação de
cinza, revermelhavam vagamente. E o conego, sentado
n'uma cadeira de braços, com o capote pelos
hombros, os pés embrulhados n'um cobertor, amodorrado
no calor do lume, com o Breviario sobre os
joelhos, dormitava. Na dobra do cobertor, a
Trigueira
estirada dormitava como elle.
Aos passos de Amaro o conego abriu muito devagar
os olhos, rosnou:
—Ia adormecendo, hein!
—É cedo, disse o padre Amaro. Ainda não tocou
a recolher. Então que preguiça é essa?
—Ah! é vossê? disse o conego com um enorme
bocejo. Cheguei tarde de casa do abbade, tomei uma
gota de chá, veio o quebranto... Então que
é feito?
—Vim por aqui.
—Pois o abbade deu-nos um rico jantar. A cabedella
estava de mão cheia! Eu carreguei-me um
bocado, disse o conego rufando com os dedos na
capa do Breviario.
Amaro, sentado ao pé d'elle, remexia devagar o
brazido:
—Sabe vossê, padre-mestre? disse elle de repente.
Ia acrescentar:—Aconteceu-me um caso!—Mas
reteve-se, murmurou:—Estou hoje exquisito;
tenho andado ultimamente fóra dos eixos...
-Vossê com effeito anda amarello, disse o conego,
considerando-o. Purgue-se, homem!
Amaro esteve um momento calado, a olhar o
lume.
—Sabe? estou com idéa de mudar de casa.
O conego ergueu a cabeça, arregalou os olhinhos
somnolentos:
—Mudar de casa! Ora essa! Porquê?
O padre Amaro chegou a cadeira para elle, e fallando
baixo:
—Vossê percebe... Tenho estado a pensar, é
assim exquisito estar em casa de duas mulheres,
com uma rapariga...
—Ora, historias! Que me vem vossê contar?
Vossê é hospede... Deixe-se d'isso, homem!
É como
quem está na hospedaria.
—Não, não, padre-mestre, eu cá me
entendo...
E suspirou; desejava que o conego o interrogasse,
facilitasse as confidencias.
—Então só hoje é que pensa n'isso,
Amaro?!
—É verdade, tenho estado a pensar hoje n'isto.
Tenho minhas razões.—Ia a dizer:—Fiz uma tolice,—mas
acanhou-se.
O conego olhou para elle um momento:
—Homem, seja franco!
—Sou.
—Vossê acha aquillo caro?
—Não! disse o outro com uma negação
impaciente.
—Bem, então é outra coisa...
—É. Vossê que quer?—E n'um tom magano,
com que julgou agradar ao conego:—A gente tambem
gosta do que é bom...
—Bem, bem, disse o conego rindo, percebo.
Vossê, como eu sou amigo da casa, quer-me dizer
por bons modos que tem nojo de tudo aquillo!
—Tolice! disse Amaro erguendo-se, irritado de
tanta obtusidade.
—Oh, homem! exclamou o conego abrindo os
braços. Vossê quer sahir da casa? Por alguma
é!
Ora a mim parece-me que melhor...
—É verdade, é verdade, dizia Amaro que dava
agora grandes passadas pela sala. Mas estou com esta
ferrada! Veja vossê se me arranja uma casita barata
com alguma mobilia... Vossê entende melhor
d'essas coisas...
O conego ficou calado, muito enterrado na poltrona,
coçando devagar o queixo.
—Uma casita barata... rosnou por fim. Eu verei,
eu verei... Talvez.
—Vossê comprehende, acudiu vivamente Amaro,
chegando-se ao conego. A casa da S. Joanneira...
Mas a porta rangeu, D. Josepha Dias entrou: e
depois de conversarem sobre o jantar do abbade, o
catarrho da pobre D. Maria da Assumpção, a
doença
de figado que ia minando o engraçado conego Sanches—Amaro
sahiu, quasi contente agora de se não
«ter desabotoado com o padre-mestre».
O conego ficou ainda ao pé do lume, ruminando.
Aquella resolução d'Amaro de deixar a casa da S.
Joanneira era bem vinda; quando elle o trouxera
d'hospede para a rua da Misericordia, combinára com
a S. Joanneira diminuir-lhe a mezada que havia annos
lhe dava, regularmente, no dia 30. Mas arrependeu-se
logo; a S. Joanneira, se não tinha hospede,
dormia só no primeiro andar: o conego podia então
saborear livremente os carinhos da sua velhota,—e
Amelia, na sua alcova, em cima, era alheia a este
«conchêgosinho». Quando veio o padre
Amaro, a
S. Joanneira cedeu-lhe o quarto e dormia n'uma cama
de ferro ao pé da filha: e o conego então
reconheceu,
como elle disse, desconsolado—«que aquelle
arranjo tinha estragado tudo». Para gozar as
doçuras
da sésta com a sua S. Joanneira era necessario
que Amelia jantasse fóra, que a
Ruça estivesse
na fonte, outras combinações importunas; e elle,
conego
do cabido, na egoista velhice, quando precisava
ter recato com a sua saude, via-se obrigado a esperar,
a espreitar, a ter nos seus prazeres regulares
e hygienicos as difficuldades d'um collegial que ama
a senhora professora. Ora se Amaro sahisse, a S.
Joanneira descia ao seu quarto, no primeiro andar;
vinham as antigas commodidades, as tranquillas séstas.
É verdade que tinha de dar a antiga mezada...
Daria a mezada!
—Que diabo! ao menos está um homem á sua
vontade, resumiu elle.
—Que está para ahi o mano a fallar só? perguntou
a snr.
a D. Josepha despertando do quebranto
em que ia cahindo, ao pé do lume.
—Estava cá a malucar como hei de castigar a
carne na quaresma...—disse o conego com um
riso grosso.
A essa hora a
Ruça
chamava o padre Amaro para
o chá: e elle subia devagar, com o
coração pequenino,
receando encontrar a S. Joanneira muito
carrancuda, já informada do insulto. Achou só
Amelia—que
tendo-lhe sentido os passos na escada tomára
rapidamente a costura e, com a cabeça muito
baixa, dava grandes agulhadas, vermelha como o lenço
que abainhava para o conego.
—Muito boa noite, menina Amelia.
—Muito boa noite, senhor parocho.
Amelia costumava sempre ter um
olá! ou um
ora viva! muito amavel; aquella
seccura aterrou-o;
disse-lhe logo muito perturbado:
—Menina Amelia, eu peço-lhe que me perdôe...
Foi um atrevimento... Eu nem soube o que fiz...
Mas acredite... Estou resolvido a sahir d'aqui. Até
já pedi ao senhor conego Dias que me arranjasse casa...
Fallava com o rosto baixo—e não via Amelia
erguer os olhos para elle, surprehendida e toda desconsolada.
N'este momento a S. Joanneira entrou, e logo da
porta, abrindo os braços:
—Viva! Então já sei, já sei! Disse-me
o senhor
padre Natario: grande jantar! Conte lá, conte lá!
Amaro teve de dizer os pratos, as pilherias do
Libaninho, a discussão theologica; depois fallaram
da fazenda: e Amaro desceu, sem se ter atrevido a
dizer á S. Joanneira que ia deixar a casa,—o que
era, coitada, para a pobre mulher, uma perda de seis
tostões por dia!
Na manhã seguinte o conego foi a casa d'Amaro,
pela manhã, antes d'ir ao côro. O parocho fazia
a barba á janella:
—Ólá, padre-mestre! Que ha de novo?
—Parece-me que se arranja a coisa! E foi por
acaso, esta manhã... Ha uma casita lá para os
meus
lados, que é um achado. Era do major Nunes, que
vai mudado para o 5.
Aquella precipitação desagradou a Amaro:
perguntou,
dando desconsoladamente o fio á navalha:
—Tem mobilia?
—Tem mobilia, tem louças, tem roupas, tem
tudo.
—Então...
—Então é entrar e começar a gozar. E
aqui para
nós, Amaro, vossê tem razão. Estive a
pensar no
caso... É melhor para vossê viver só.
De modo
que vista-se, e vamos vêr a casita.
Amaro, calado, rapava a cara com desespero.
A casa era na rua das Sousas, d'um andar, muito
velha, com a madeira carunchosa: a mobilia, como
disse o conego, «podia passar a veteranos»; algumas
lithographias desbotadas pendiam lugubremente
de grandes prégos negros; e o immundo major
Nunes deixára os vidros quebrados, os soalhos todos
escarrados, as paredes riscadas de phosphoros, e até
sobre um poial da janella duas piugas quasi negras.
Amaro aceitou a casa. E n'essa mesma manhã o
conego ajustou-lhe uma criada, a snr.
a Maria
Vicencia,
pessoa muito devota, alta e magra como um pinheiro,
antiga cozinheira do doutor Godinho. E (como
considerou o conego Dias) era a propria irmã da
famosa Dionysia!
A Dionysia fôra outr'ora a
Dama das
Camelias,
a Ninon de Lenclos, a Manon de Leiria: gozára a honra
de ser concubina de dois governadores civis e do
terrivel morgado da Sertejeira; e as paixões phreneticas
que inspirára tinham sido para quasi todas as
mães de familia de Leiria causa de lagrimas e de fanicos.
Agora engommava para fóra, encarregava-se
de empenhar objectos, entendia muito de partos,
protegia «o rico adulteriosinho» segundo a singular
expressão do velho D. Luiz da Barrosa cognominado
o
infame, fornecia lavradeirinhas
aos senhores empregados
publicos, sabia toda a historia amorosa do
districto. E via-se sempre na rua a Dionysia com o
seu chale de xadrez traçado, o pesado seio tremendo
dentro d'um chambre sujo, o passinho discreto e
os antigos sorrisos—mas a que faltavam já os dois
dentes de diante.
O conego logo n'essa tarde deu parte á S. Joanneira
da resolução d'Amaro. Foi um grande espanto
para a excellente senhora! Queixou-se, com amargura,
da ingratidão do senhor parocho.
O conego tossiu grosso e disse:
—Escute, senhora. Fui eu que arranjei a coisa.
E eu lhe digo porquê: é que este arranjo de quarto
em cima, etc., está-me a arrazar a saude.
Deu outras razões de prudencia hygienica e
acrescentou, passando-lhe com bondade os dedos
pelo pescoço:
—E o que é perder a conveniencia, não se afflija
a senhora! Eu darei p'r'á panella como d'antes;
e como a colheita foi boa porei mais meia moeda
para os arrebiques da pequena. Ora venha de lá
uma beijoca, Augustinha, sua bréjeira! E ouça,
hoje
como-lhe cá as sopas.
Amaro no emtanto em baixo ia emmalando a sua
roupa. Mas a cada momento parava, dava um
ai
triste, ficava a olhar em redor o quarto, a cama
fôfa, a mesa com a sua toalha branca, a larga cadeira
forrada de chita onde elle lia o Breviario, ouvindo,
por cima, cantarolar Amelia.
—Nunca mais! pensava. Nunca mais!
Adeus as boas manhãs passadas ao pé d'ella,
vendo-a costurar! Adeus as alegres sobremesas, que
se prolongavam á luz do candieiro! Adeus os chás,
ao pé da brazeira, quando o vento uivava fóra e
cantavam as frias goteiras! Tudo tinha acabado!
A S. Joanneira e o conego appareceram então á
porta do quarto. O conego resplandecia; e a S. Joanneira
disse, muito magoada:
—Já sei, já sei, seu ingrato!
—É verdade, minha senhora, fez Amaro encolhendo
os hombros tristemente. Mas ha razões... Eu
sinto...
—Olhe, senhor parocho, disse a S. Joanneira,
não se offenda com o que lhe vou dizer, mas eu já
lhe queria como filho...—E levou o lenço aos olhos.
—Tolices! exclamou o conego. Pois então elle
não póde vir aqui em amizade, passar as noites
para o cavaco, tomar o seu café?... O homem não
vai para o Brazil, senhora!
—Pois sim, pois sim, dizia a pobre senhora desconsolada,
mas sempre era tel-o de portas a dentro!
Emfim, ella bem sabia que a gente na sua casa
está muito melhor... Fez-lhe então grandes
recommendações
sobre a lavadeira, que mandasse buscar
o que quizesse, louças, lençoes...
—E veja lá não lhe esqueça alguma
coisa, senhor
parocho!
—Muito obrigado, minha senhora, muito obrigado...
E, continuando a arrumar a sua roupa, o parocho
desesperava-se agora contra a resolução que
tomára.
A pequena evidentemente não tinha aberto bico!
Para que sahiria então d'aquella casa tão barata,
tão
confortavel, tão amiga? E odiava o conego pelo seu
zelo tão precipitado.
O jantar foi triste. Amelia, decerto para explicar
a sua pallidez, queixava-se de dôres na cabeça. Ao
café o conego quiz a sua «dóse de
musica»; e
Amelia, ou machinalmente ou com intenção, disse a
canção querida:
Ai! adeos! acabaram-se os dias
Que ditoso vivi a teu lado!
Sôa a hora, o momento fadado,
É forçoso deixar-te e partir!
Então, áquella chorosa melodia repassada das
tristezas da separação, Amaro sentiu-se
tão perturbado
que teve de se erguer bruscamente, ir encostar
o rosto á vidraça, esconder as duas lagrimas que
irreprimivelmente lhe saltavam das palpebras. Os
dedos d'Amelia embrulhavam-se tambem no teclado;
até a mesma S. Joanneira disse:
—Oh filha, toca outra coisa, credo!
Mas o conego erguendo-se pesadamente:
—Pois senhores, vão sendo horas. Vamos lá,
Amaro. Eu vou comsigo até a rua das Sousas...
Amaro então quiz dizer adeus á idiota; mas,
depois
d'um forte accesso de tosse, a velha dormia,
muito fraca.
—Deixal-a socegada, disse Amaro. E apertando
a mão á S. Joanneira:—Muito obrigado por tudo,
minha senhora, acredite...
Calou-se, com um soluço na garganta.
A S. Joanneira tinha levado aos olhos a ponta do
seu avental branco.
—Oh, senhora! disse o conego rindo-se, já ha
bocado lhe disse, o homem não vai p'r'ás Indias!
—A gente é pela amizade que lhes ganha...
choramingou a S. Joanneira.
Amaro tentou gracejar. Amelia, muito branca,
mordia o beicinho.
Emfim Amaro desceu: e o João Ruço que na sua
chegada a Leiria lhe trouxera o bahú para a rua da
Misericordia, muito bebedo, cantarolando o
Bemdito,—levava-lh'o
agora para a rua das Sousas, bebedo
tambem, mas trauteando o
Rei-chegou.
Quando Amaro, n'essa noite, se viu só n'aquella
casa tristonha, sentiu uma melancolia tão pungente
e um tedio tão negro da vida, que, com a sua natureza
lassa, teve vontade de se encolher a um canto
e ficar alli a morrer!
Parava no meio do quarto, punha-se a olhar em
redor: a cama era de ferro, pequena, com um colchão
duro e uma coberta vermelha; o espelho com
o aço gasto luzia sobre a mesa; como não havia
lavatorio,
a bacia e o jarro, com um bocadinho de
sabonete, estavam sobre o poial da janella; tudo
alli cheirava a môfo; e fóra, na rua negra, cahia
sem cessar a chuva triste. Que existencia! E seria
sempre assim!...
Desesperou-se então contra Amelia: accusou-a,
com o punho fechado, das commodidades que perdera,
da falta de mobilia, da despeza que ia ter, da
solidão que o regelava! Se fosse mulher de
coração
devia ter vindo ao seu quarto e dizer-lhe: «Senhor
padre Amaro, para que sae de casa? Eu não estou
zangada!» Porque emfim quem irritára o seu desejo?
Ella, com as suas maneirinhas ternas, os seus
olhinhos adocicados! Mas não, deixára-o emmalar a
roupa, descer a escada, sem uma palavra amiga,
indo tocar com estrondo a valsa do
Beijo!
Jurou então não voltar a casa da S. Joanneira. E,
a grandes passadas pelo quarto, pensara no que
havia de fazer para humilhar Amelia. O quê? Desprezal-a
como uma cadella! Ganhar influencia na sociedade
devota de Leiria, ser muito do senhor chantre;
afastar da rua da Misericordia o conego e as Gansosos;
intrigar com as senhoras da boa roda para
que se afastassem d'ella, com seccura, no altar-mór,
á missa do domingo; dar a entender que a mãi era
uma prostituta... Enterral-a! cobril-a de lama! E na
Sé, ao sahir da missa, regalar-se de a vêr passar
encolhida
no seu mantelete preto, escorraçada de todos,
emquanto elle, á porta, de proposito, conversaria
com a mulher do senhor governador civil e seria
galante com a baroneza de Via-Clara!... Depois
prégaria um grande sermão, na quaresma, e ella
ouviria
dizer, na arcada, nas lojas: «Grande homem,
o padre Amaro!» Tornar-se-hia ambicioso, intrigaria
e, protegido pela senhora condessa de Ribamar,
subiria nas dignidades ecclesiasticas: e o que pensaria
ella quando o visse um dia bispo de Leiria, pallido
e interessante na sua mitra toda dourada, passando,
seguido dos incensadores, ao longo da nave
da Sé, entre um povo ajoelhado e penitente, sob os
roucos cantos do orgão? E ella o que seria então?
Uma magra creatura murcha, embrulhada n'um chale
barato! E o snr. João Eduardo, o escolhido d'agora,
o esposo? Seria um pobre amanuense mal pago,
com uma quinzena roçada, os dedos queimados do
cigarro, curvado sobre o seu papel almasso, imperceptivel
na terra, adulando alto e invejando baixo!
E elle, bispo, na vasta escadaria hierarchica que
sobe até ao céo, estaria já muito para
cima dos homens,
na zona de luz que faz a face de Deus-Padre!—E
seria par do reino, e os padres da sua
diocese tremeriam de o vêr franzir a testa!
Na igreja, ao lado, bateram devagar dez horas.
Que faria ella áquella hora? pensava. Costurava
decerto, na sala de jantar: estava o escrevente: jogavam
a bisca, riam—ella roçava-lhe talvez com o
pé, no escuro, debaixo da mesa! Recordou o seu
pé,
o bocadinho da meia que vira quando ella saltava
as lamas na quinta; e essa curiosidade inflammada
subia pela curva da perna até ao seio, percorrendo
bellezas que suspeitava... O que elle gostava
d'aquella maldita! E era impossivel obtel-a! E todo
o homem feio e estupido podia ir á rua da Misericordia
pedil-a á mãi, vir á Sé
dizer-lhe: «Senhor
parocho, case-me com esta mulher», e beijar, sob
a protecção da Igreja e do Estado, aquelles
braços
e aquelle peito! Elle não. Era padre! Fôra aquella
infernal pêga da marqueza d'Alegros!...
Abominava então todo o mundo secular—por
lhe ter perdido para sempre os privilegios: e, como
o sacerdocio o excluia da participação nos
prazeres
humanos e sociaes, refugiava-se, em compensação,
na idéa da superioridade espiritual que elle lhe dava
sobre os homens. Aquelle miseravel escrevente podia
casar e possuir a rapariga—mas que era elle
em comparação d'um parocho a quem Deus conferira
o poder supremo de distribuir o céo e o inferno?...—E
repastava-se d'este sentimento, enchendo
o espirito d'orgulhos sacerdotaes. Mas vinha-lhe
bem depressa a desconsoladora idéa que esse dominio
só era valido na região abstracta das almas;
nunca o poderia manifestar, por actos triumphantes,
em plena sociedade. Era um Deus dentro da Sé—mas,
apenas sahia para o largo, era apenas um plebeu
obscuro. Um mundo irreligioso reduzira toda a
acção sacerdotal a uma mesquinha influencia sobre
almas de beatas... E era isto que lamentava, esta
diminuição
social da Igreja, esta mutilação do poder
ecclesiastico, limitado ao espiritual, sem direito sobre
o corpo, a vida e a riqueza dos homens... O que
lhe faltava era a auctoridade dos tempos em que a
Igreja era a nação e o parocho dono temporal do
rebanho.
Que lhe importava, no seu caso, o direito mystico
d'abrir ou fechar as portas do céo? O que elle
queria era o velho direito d'abrir ou fechar a porta
das masmorras! Necessitava que os escreventes e as
Amelias tremessem da sombra da sua batina... Desejaria
ser um sacerdote da antiga Igreja, gozar das
vantagens que dá a denuncia e dos terrores que inspira
o carrasco, e alli n'aquella villa, sob a
jurisdicção
da sua Sé, fazer estremecer, á idéa de
castigos torturantes,
aquelles que aspirassem a realisar felicidades—que
lhe eram a elle interdictas: e pensando em
João Eduardo e em Amelia, lamentava não poder
accender
as fogueiras da Inquisição!—Assim aquelle
inoffensivo moço tinha durante horas, sob a
excitação
colerica d'uma paixão contrariada,
ambições
grandiosas de tyrannia catholica:—porque todo o
padre, o mais boçal, tem um momento em que é
penetrado
pelo espirito da Igreja ou nos seus lances
de renunciamento mystico ou nas suas ambições de
dominação universal: todo o sub-diacono se julga
uma hora capaz de ser santo ou de ser Papa: não
ha seminarista que não tenha, durante um instante,
aspirado com ternura á caverna no deserto em que
S. Jeronymo, olhando o céo estrellado, sentia descer-lhe
sobre o peito a Graça como um abundante
rio de leite: e o abbade pansudo que á tardinha,
á
varanda, palita o dente furado saboreando o seu
café com um ar paterno, traz dentro em si os indistinctos
restos d'um Torquemada.
A vida d'Amaro tornou-se monotona. Março ia
muito molhado, muito frio; e, depois do serviço na
Sé, Amaro entrava em casa, tirava as botas enlameadas,
ficava em chinelas a aborrecer-se. Ás tres
horas jantava; e nunca levantava a tampa rachada
da terrina sem se lembrar, com uma saudade pungente,
do jantarinho na rua da Misericordia, quando
Amelia, com o seu collar muito branco, lhe passava
a sopa de grãos de bico, sorrindo, toda carinhosa.
Ao lado a Vicencia servia, têsa e enorme,
com o seu corpo de soldado vestido de saias, sempre
constipada; e de vez em quando, desviando a
cabeça, assoava-se ao avental com ruido. Era muito
suja: as facas tinham o cabo humido da agua gordurosa
das lavagens. Amaro, desgostoso e indifferente,
não se queixava; comia mal, á pressa; mandava
vir o café, e ficava horas esquecidas sentado
á mesa, quebrando a cinza do cigarro na borda do
prato, perdido n'um tedio mudo, sentindo os pés e
os joelhos frios do vento que entrava pelas frinchas
da sala desabrigada.
Ás vezes o coadjutor, que nunca o visitára na
rua da Misericordia, apparecia ao fim do jantar: sentava-se
arredado da mesa, e ficava calado, com o
seu guardachuva entre os joelhos. Depois, julgando
agradar ao parocho, repetia, invariavelmente:
—Vossa senhoria aqui está melhor, sempre é
estar em sua casa.
—Está claro... rosnava Amaro.
Ao principio, para consolar o seu despeito, dizia
ligeiramente mal da S. Joanneira, provocando, animando
o coadjutor (que era de Leiria) a contar os
escandalos da rua da Misericordia. O coadjutor, por
servilismo, tinha sorrisos mudos, repassados de perfidia.
—Alli ha pôdres, hein? dizia o parocho.
O outro encolhia os hombros, com as mãos muito
espalmadas ao pé das orelhas, n'uma expressão
de malicia; mas não pronunciava um som, receando
que as suas palavras, repetidas, escandalisassem o
senhor conego. Ficavam então soturnos, trocando, a
espaços, phrases molles: um baptisado que havia; o
que dissera o conego Campos; um frontal do altar
que era necessario limpar. Aquella conversa enfastiava
Amaro: sentia-se muito pouco padre, muito
distante da panellinha ecclesiastica: não o interessavam
as intriguinhas do cabido, as parcialidades
tão commentadas do senhor chantre, os roubos da
Misericordia, as turras da camara ecclesiastica com
o governo civil; e achava-se sempre alheio, mal informado,
nas palestras ecclesiasticas em que tão femininamente
se deleitam os padres, e que têm a
puerilidade d'uma caturrice e a tortuosidade d'uma
conspiração.
—O vento está sul? perguntava elle emfim, bocejando.
—Sempre! respondia o coadjutor.
Accendia-se a luz; o coadjutor erguia-se, sacudia
o guardachuva, e sahia com um olhar de revez
á Vicencia.
Era aquella a peor hora, a da noite, quando ficava
só. Procurava lêr, mas os livros enfastiavam-n'o:
deshabituado da leitura não comprehendia «o
sentido». Ia olhar á vidraça: a noite
estava tenebrosa,
o lagedo reluzia vagamente. Quando acabaria
aquella vida? Accendia o cigarro, e do lavatorio para
a janella recomeçava os seus passeios, com as
mãos atraz das costas. Deitava-se sem rezar ás
vezes:
e não tinha escrupulos: julgava que ter renunciado
a Amelia era já uma penitencia, não necessitava
cansar-se a lêr orações no livro;
celebrára o «seu
sacrificio»—sentia-se vagamente quite com o céo!
E continuava a viver só: o conego nunca vinha
á rua das Sousas, «porque, dizia, era casa que
só o
entrar n'ella até se lhe agoniava o estomago». E
Amaro, cada dia mais amuado, não voltára a casa
da
S. Joanneira. Escandalisára-se muito que ella não
lhe
tivesse mandado pedir para ir ás partidas da sexta-feira;
attribuira «a desfeita» á hostilidade
d'Amelia;
e, mesmo para a não vêr, trocára com o
padre Silveira
a missa do meio-dia onde ella costumava ir,
e dizia a das nove horas, furioso com aquelle novo
sacrificio!
Todas as noites Amelia, ao ouvir tocar a campainha,
tinha uma palpitação tão forte no
coração que
ficava como suffocada um momento. Depois os botins
de João Eduardo rangiam na escada, ou ella conhecia
os passos fôfos das galochas das Gansosos: apoiava-se
então às costas da cadeira, cerrando os olhos,
como na fadiga d'uma desesperança repetida. Esperava
o padre Amaro; e ás vezes, pelas dez horas,
quando já não era possível que elle
viesse, a sua
melancolia era tão pungente que se lhe entumecia a
garganta de soluços, tinha de pousar a costura, dizer:
—Vou-me deitar, estou com umas dôres de cabeça
que não paro!
Atirava-se para a cama de bruços, murmurava
n'uma agonia:
—Oh Senhora das Dôres, minha madrinha! porque
não vem elle, porque não vem elle?
Nos primeiros dias, apenas elle se fôra embora,
toda a casa lhe pareceu deshabitada e lugubre! Quando
vira no quarto d'elle os cabides sem a sua roupa,
a commoda sem os seus livros, rompeu a chorar.
Foi beijar a travesseirinha onde elle dormia,
apertou ao peito com delirio a ultima toalha a que
elle limpára as mãos! Tinha constantemente o seu
rosto presente, elle entrava sempre nos seus sonhos.
E com a separação o seu amor ardia mais forte e
mais alto, como uma fogueira que se isola.
Uma tarde, que fôra visitar uma prima enfermeira
no hospital, viu ao chegar á ponte gente parada,
embasbacada com gozo para uma rapariga de
cuia á banda e
garibaldi
escarlate, que, de punho
no ar, já rouca, praguejava contra um soldado: o
rapazola, um beirão de cara redonda e lorpa coberta
de pennugem loura, virava-lhe as costas, encolhendo
os hombros, as mãos muito enterradas nos
bolsos, rosnando:
—Não lhe fez mal, não lhe fez mal...
O snr. Vasques, com loja de panos na Arcada,
parára a olhar, descontente d'aquella «falta
d'ordem
publica».
—Algum barulho? perguntou-lhe Amelia.
—Olá, menina Amelia! Não, uma brincadeira do
soldado. Atirou-lhe um rato morto á cara, e a mulher
está a fazer aquelle espalhafato. Bebedas!
Mas a rapariga de
garibaldi vermelha
voltára-se—e
Amelia aterrada reconheceu a Joanninha Gomes,
sua amiga da mestra, que fôra amante do padre Abilio!
O padre fôra suspenso, deixára-a; ella partira
para Pombal, depois para o Porto; de miseria em
miseria voltára a Leiria, e ahi vivia n'alguma viella
ao pé do quartel, entisicando, gasta por todo um
regimento!—Que
exemplo, santo Deus, que exemplo!
E tambem ella gostava d'um padre! Tambem
ella, como outr'ora a Joanninha, chorava sobre a
sua costura quando o senhor padre Amaro não vinha!
Onde a levava aquella paixão? Á sorte da
Joanninha!
A ser a
amiga do parocho! E via-se
já apontada
a dedo, na rua e na Arcada, mais tarde abandonada
por elle, com um filho nas entranhas, sem
um pedaço de pão!... E, como uma rajada de vento
que limpa n'um momento um céo ennevoado, o
terror agudo que lhe dera o encontro de Joanninha
varreu-lhe do espirito as nevoas amorosas e morbidas
em que ella se ia perdendo. Decidiu aproveitar
a separação, esquecer Amaro: lembrou-se mesmo
de apressar o seu casamento com João Eduardo para
se refugiar n'um dever dominante; durante alguns
dias forçou-se a interessar-se por elle; começou
mesmo
a bordar-lhe umas chinelas...
Mas pouco a pouco a
idéa
má que, atacada, se
encolhera e se fingira morta,—principiou lentamente
a desenroscar-se, a subir, a invadil-a! De dia, de
noite, costurando e rezando, a idéa do padre Amaro,
os seus olhos, a sua voz appareciam-lhe,
tentações
teimosas! com um encanto crescente. Que faria
elle? porque não vinha? gostava d'outra? Tinha ciumes
indefinidos, mas mordentes, que a queimavam.
E aquella paixão ia-a envolvendo como uma atmosphera
d'onde não podia sahir, que a seguia se ella
fugia, e que a fazia viver! As suas resoluções
honestas
resequiam-se, morriam como debeis florinhas
n'aquelle fogo que a percorria. Se ás vezes a
lembrança
de Joanninha ainda voltava, repellia-a com
irritação; e acolhia alvoroçadamente
todas as razões
insensatas que lhe vinham de amar o padre
Amaro! Tinha agora só uma idéa:—atirar-lhe os
braços ao pescoço e beijal-o... oh! beijal-o!
Depois,
se fosse necessario, morrer!
Começou então a impacientar-se com o amor de
João Eduardo. Achava-o «palerma».
—Que massada! pensava quando lhe sentia os
passos na escada, á noite.
Não o supportava com os seus olhos voltados
sempre para ella, a sua quinzena preta, as suas monotonas
conversas sobre o governo civil.
E idealisava Amaro! As suas noites eram sacudidas
de sonhos lubricos; de dia vivia n'uma
inquietação
de ciumes, com melancolias lugubres, que
a tornavam, como dizia a mãi, «uma môna,
que
até enraivece»!
O genio azedava-se-lhe.
—Credo, rapariga! que tens tu? exclamava a mãi.
—Não me sinto boa. Estou para ter alguma!
Andava, com effeito, amarella, perdera o appetite.
E emfim uma manhã ficou de cama com febre.
A mãi, assustada, chamou o doutor Gouvêa. O velho
pratico, depois de vêr Amelia, veio à sala de
jantar sorvendo com satisfação a sua pitada.
—Então, senhor doutor? disse a S. Joanneira.
—Case-me esta rapariga, S. Joanneira, case-me
esta rapariga. Tenho-lh'o dito tantas vezes, creatura!
—Mas, senhor doutor...
—Mas case-a por uma vez, S. Joanneira, case-a
por uma vez! repetia elle pelas escadas, arrastando
um pouco a perna direita que um rheumatismo teimoso
encolhia.
Amelia emfim melhorou—com grande alegria
de João Eduardo, que emquanto ella estivera doente
vivera n'uma afflicção, lamentando não
poder ser
seu enfermeiro, e derramando ás vezes no cartorio
uma lagrima triste sobre os papeis sellados do severo
Nunes Ferral.
No domingo seguinte, á missa das nove horas
na Sé, Amaro, ao subir para o altar, entre as devotas
que se arredavam viu de relance Amelia ao pé
da mãi, com o seu vestido de sêda preta de largos
folhos. Cerrou um momento os olhos; e mal podia
sustentar o calix com as mãos tremulas.
Quando, depois de resmungar o Evangelho, Amaro
fez uma cruz sobre o missal, se persignou e se
voltou para a igreja dizendo
Dominus
vobiscum—a
mulher do Carlos da botica disse baixo a Amelia
«que o senhor parocho estava tão amarello, que
devia
ter alguma dôr». Amelia não respondeu,
curvada
sobre o livro, com todo o sangue nas faces. E
durante a missa, sentada sobre os calcanhares, absorta,
a face banhada n'um extase baboso, gozou a sua
presença, as suas mãos magras erguendo a hostia,
a sua cabeça bem feita curvando-se na
adoração ritual;
uma doçura corria-lhe na pelle quando a voz
d'elle, apressada, dizia mais alto algum latim: e
quando Amaro, tendo a mão esquerda no peito e
a direita estendida, disse para a igreja o
Benedicat
vos, ella, com os olhos muito abertos, arremessou
toda a sua alma para o altar, como se elle fosse o
proprio Deus a cuja benção as cabeças
se curvavam
ao comprido da Sé, até ao fundo, onde os homens
do campo com os seus varapaus pasmavam para os
dourados do sacrario.
Á sahida da missa começára a chover; e
Amelia
e a mãi, á porta com outras senhoras, esperavam
uma «aberta».
—Ólá! por aqui!? disse de repente Amaro,
chegando-se,
muito branco.
—Estamos á espera que passe a chuva, senhor
parocho, disse a S. Joanneira voltando-se. E immediatamente,
muito reprehensiva:—E porque não tem
apparecido, senhor parocho? Realmente! Que lhe fizemos
nós? Credo, até dá que fallar...
—Muito occupado, muito occupado... balbuciou
o parocho.
—Mas um bocadinho á noite. Olhe, póde
crêr,
tem-me causado desgosto... E todos têm reparado.
Não, lá isso, senhor parocho, tem sido
ingratidão!
Amaro disse, córando:
—Pois acabou-se. Hoje á noite lá
appareço, e
estão as pazes feitas ...
Amelia, muito vermelha, para encobrir a sua
perturbação
olhava para todos os pontos o céo carregado,
como assustada do temporal.
Amaro então offereceu-lhe o seu guardachuva.
E emquanto a S. Joanneira o abria, apanhando com
cuidado o vestido de sêda, Amelia disse ao parocho:
—Até á noite, sim?—E mais baixo, olhando
em redor, com medo:—Oh, vá! Tenho estado tão
triste! tenho estado como doida! Vá, peço-lh'o
eu!
Amaro, voltando para casa, continha-se para não
correr de batina pelas ruas. Entrou no quarto, sentou-se
aos pés da cama, e alli ficou saturado de felicidade,
como um pardal muito farto n'um raio de
sol muito quente: recordava o rosto d'Amelia, a redondeza
dos seus hombros, a belleza dos encontros,
as palavras que lhe dissera:—
Tenho estado como
doida! A certeza de que «a rapariga gostava
d'elle»
entrou-lhe então na alma com a violencia de
uma rajada, e ficou a susurrar por todos os recantos
do seu sêr com um murmurio melodioso de felicidades
agitadas. E passeava pelo quarto com passadas
de covado, estendendo os braços, desejando a
posse immediata do seu corpo: sentia um orgulho
prodigioso: ia defronte do espelho altear a arca
do peito, como se o mundo fosse um pedestal expresso
que só o sustentasse a elle! Mal pôde jantar.
Com que impaciencia desejava a noite! A tarde clareára;
a cada momento tirava o seu «cebolão» de
prata, indo olhar á janella, com
irritação, a claridade
do dia que se arrastava devagar no horisonte.
Engraxou elle mesmo os seus sapatos, lustrou o
cabello de banha. E antes de sahir rezou cuidadosamente
o seu Breviario—porque, em presença
d'aquelle amor adquirido, viera-lhe um susto supersticioso
que Deus ou os santos escandalisados o
viessem perturbar: e não queria, com desleixos de
devoção,
dar-lhes
razão de queixa.
Ao entrar na rua d'Amelia o coração bateu-lhe
tão forte que teve de parar, suffocado; e pareceu-lhe
melodioso o piar das corujas na velha Misericordia,
que ha tantas semanas não ouvia.
Que admiração quando elle appareceu na sala de
jantar!
—Ditosos olhos que o vêem! Pensavamos que
tinha morrido! Grande milagre!...
Estava a snr.
a D. Maria da
Assumpção, as
Gansosos.
Arredaram as cadeiras com enthusiasmo para
lhe dar logar, admiral-o.
—Então que tem feito, que tem feito? E olhe
que está mais magro!
O Libaninho, no meio da sala, imitava foguetes
subindo ao ar. O snr. Arthur Couceiro improvisou-lhe
um
fadinho á viola: