Nota de editor: Devido à existência de erros tipográficos neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final deste livro encontrará a lista de erros corrigidos.

Rita Farinha (Julho 2010)




SOCIEDADE DE GEOGRAPHIA DE LISBOA





OS

DIALECTOS ROMANICOS OU NEO-LATINOS

NA

AFRICA, ASIA E AMERICA

POR

F. ADOLPHO COELHO


Professor do Curso Superior de Lettras e socio effectivo da Sociedade de Geographia de Lisboa


LISBOA

CASA DA SOCIEDADE DE GEOGRAPHIA
89, RUA DO ALECRIM, 89

1881








IMPRENSA NACIONAL





Extrahido do Boletim da Sociedade de Geographia de Lisboa






OS

DIALECTOS ROMANICOS OU NEO-LATINOS

NA

AFRICA, ASIA E AMERICA






N'uma conferencia feita ante a Sociedade de Geographia em 16 de fevereiro de 1878 chamámos a attenção dos nossos consocios e do publico para as fórmas dialectaes particulares que algumas linguas europêas e particularmente o francez, o hespanhol e o portuguez, tinham tomado nas colonias e conquistas da Africa, Asia e America. Esses dialectos têem até hoje attrahido muito pouco a attenção dos linguistas, não existindo ainda nenhum trabalho geral sobre elles.

Era nosso desejo reunir os materiaes para um trabalho especial sobre os dialectos portuguezes, e um trabalho geral comparativo em que tentassemos determinar as leis de formação d'esses dialectos, formação que se póde por assim dizer estudar no vivo, porque um similhante estudo não poderia deixar de nos ministrar dados importantes sob os pontos de vista glottologico, ethnologico e psychologico.

Pedimos n'essa conferencia esclarecimentos, como já o tinhamos feito por outros meios, e os nossos pedidos não foram de todo inuteis. Um mancebo intelligente da ilha de Santo Antão, o sr. Cesar Augusto de Sá Nogueira, que assistíra á conferencia, deu-nos todos os materiaes para o estudo que publicâmos do dialecto creolo d'aquella ilha. O nosso amigo rev. R. H. Moreton continuou nos seus dedicados esforços para nos obter publicações no dialecto portuguez de Ceylão, e a elle devemos em grande parte poder dar hoje uma bibliographia já assás consideravel d'essas publicações e, o que é mais, possuil-as, estando assim habilitados para publicar em breve um estudo bastante completo sobre a Grammatica e vocabulario do indo-portuguez. No meio de outros trabalhos mais consideraveis nunca perdemos de vista os dialectos creolos, que havia muito nos interessavam, e fomos assim reunindo uma serie de noticias, em parte simplesmente bibliographicas, cujo conjuncto nos parece offerecer já doutrina sufficiente para constituir materia de um artigo de ensaio. Por mais incompleto que fique o nosso trabalho estamos certos que vem preencher uma lacuna no quadro da glottologia. Fr. Pott no quadro systematico-bibliographico da glottologia que serve de prefacio ao tomo II, 4 das suas Etymologische Forschungen (1870) nem sequer menciona os dialetos creolos; nos livros geraes de Whitney, Max Müller e outros sobre a glottologia em vão se busca uma noticia d'esses tão interessantes productos; as opiniões expressas por alguns linguistas sobre o caracter d'esses dialectos, são, como veremos, indecisas ou erroneas, ou não apontam os lados por que esses dialectos são mais importantes para o observador. Comprehende-se este facto singular da historia da nossa sciencia quando se sabe que uma parte dos glottologos gastam o seu tempo á busca da solução de problemas ou insoluveis ou cuja chave não está ainda descoberta (etrusco, basco, acadiano, etc.), e outra anda absorvida pelos seus estudos especiaes, sem duvida interessantes e muitas vezes importantes, mas que fazem desviar a attenção de questões de muito maior momento, sendo poucos os que fazem progredir a sciencia de uma maneira sensivel.

O nosso ensaio seria muito mais completo se tivessemos maior numero de informações dos dialectos das nossas colonias e conquistas, e se tivessemos visto diversas publicações sobre os dialectos similhantes das outras linguas europêas, que por diversas causas não podémos examinar. Entre essas causas predominam a raridade de algumas d'essas publicações e miseravel dotação das nossas bibliothecas, que não lhes permitte comprar senão poucos livros que interessem a um pequeno numero de estudiosos.



I. DIALECTOS PORTUGUEZES

1. Creolo da ilha de Santo Antão
(archipelago de Cabo Verde)


Este dialecto é fallado principalmente pela população de côr e pelas creanças que o aprendem com as creadas e amas negras. Distinguem-se duas fórmas: o creolo rachado, creolo fundo, creolo vejo, fallado principalmente no interior da ilha e de que as noticias e documentos que publicâmos dão conhecimento, e o creolo em que a grammatica portugueza é menos ignorada, distinguindo-se quasi unicamente pela pronuncia de algumas palavras ou sons e pelo accento geral.

As cartas seguintes foram escriptas por pessoas instruidas que fallam bem o portuguez, mas conhecem bem o creolo rachado. O unico documento verdadeiramente genuino do dialecto de Santo Antão acha-se na serie de adivinhações que o nosso amigo o sr. Sá Nogueira nos ministrou.

Carta 1.ª



Nha amigo.—Cu préssa en scrêbê ês dôs fója di papel, qui dentro d'ês carta en tâ manda nhô. Meu amigo.—Com pressa escrevi estas duas folhas de papel que dentro d'esta carta lhe envio.

Talvêz algun cúsa, palabra, ou móde nhù crê, stâ êrrado. Cuza qn'en câ tâ dubída; pamóde pâ más criôlo qui nós di Cabo Berde nú sabê, sénpre nu tâ ncontra dificuldade ou enbaráço, quel'ora qui nú pêga na péna pâ nu scrêbê na nós lingua. Talvez alguma cousa, palavra ou como quizer, esteja errada. O que não duvido, porque por mais creolo que nós de Cabo Verde saibâmos, sempre encontrâmos difficuldade ou embaraço logo que pegâmos na penna para escrevermos na nossa lingua.

Ês culpa ê câ di nós, ê di gobérno, qui si al bê animaba nós na calquér cuza, ê tâ oprimíno cú má scoja di sês empregado, qu'ê tâ manda pâ Cabo Berde. A culpa não é nossa, é do governo que longe de animar-nos em qualquer cousa, opprime-nos com a má escolha dos seus empregados, que elle manda para Cabo Verde.

Ê tâ fazê bên mal, pamóde assi ê tâ pêrdê tudo amor, tudo stima qu'ê pôdê tên na pôbo di Cabo Berde. Ês cuza ê câ só na Cabo Berde, ê pâ tudo cábo, unde ê tên un palmo di chôn. En podê flába nhô cuzás chéo a ruspêto di nós gobérno na Cabo Berde, ¿mas paquê? Ês carta ê câ, sima português tâ flâ, di politica, e pamóde ês en tâ bira pâ principio di nós conbersa. Ê sima en staba tâ flâ nhô, en câ sabê si algun cuza stâ tórto ou mál screbêdo nês dôs fójas di papel; mas câ m'inporta cú ês, e nhu ôubi cuss'ê qu'ent â flâ nhô: Na fója un e na linha binte eu binte un, nhu tâ lé na banda di criôlo «nha Dóna di nha Lucía» e na banda di português nhú câ tâ acha nada qui, sima português tâ flâ, tâ corrêspondêl. Faz bem mal, porque assim perde todo o amor e toda a estima que póde ter no povo de Cabo Verde. Isto não é só em Cabo Verde é por toda a parte, onde elle tem um palmo de terra. Eu podia dizer-lhe muitas cousas a respeito do nosso governo em Cabo Verde, mas para que? Esta carta não é, como dizem os portuguezes, de politica, e por isso volto ao principio da nossa conversação. É como lhe estava dizendo, não sei se alguma cousa está errada ou mal escripta n'essas duas folhas de papel; mas não nos importemos com isso, e ouça o que lhe digo: Na folha 1 v. e linhas vinte e vinte um, na columna creola «nha Dona nha Luzia», e no portuguez não encontro nada que, como dizem os portuguezes, lhe corresponda.

Nhú sabê ê pamóde? Ê pamóde ês Dóna ê un nóme qui na criôlo tâ chomádo «nome di cassa», e ê tâ custuma pôdo n'algun minino fémea. Ê pâ ês nóme que ês minino tâ chomado tioqu'ê grande, ou tioqu'ê mórré. Ês uso ê câ só di Cabo Berde, na Brazil tanbê ê tâ usado, e assi mi conchê ghentes chéo cú nome di Nené, Nhanhina, Nhánha, Sinhârínha, Nhásinhára, Júca, Jóca, sin sér sês nome di batismo, ou sês nome di greja. Sabe a rasão? É porque Dona n'aquelle logar é um nome que em creolo se chama «nome de casa», e usa-se nas meninas (creanças). É por esse nome que ellas são chamadas até á maioridade ou até á morte. Este uso não é só de Cabo Verde, no Brazil tambem se usa, e assim conhecemos muita gentecom os nomes de Néné . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . e Joca sem serem os seus nomes de baptismo.

Agora si nhú crê sabê cuss'ê quí Dóna crê flâ, en tâ flâ nhô, no portugués ê avó e Dóno ê avô. Agora se quizer saber o que quer dizer Dona, eu lhe digo, em portuguez é avó e Dono avô.

A ruspêto di berbo, criôlo câ tên tudo tudo qui português tâ choma ténpo. Emquanto a verbos, o creolo não tem tudo quanto o portuguez chama tempo.

Prónóme ê sima ja'n esplicá nhô na fója dôs. Na criôlo di Cabo Berde câ tên bós ou abósvós di português, e ês tâ flâ nhô, o qu'ês tâ papiâ cú alguên só, e nhôs, o qu'ês tâ papiâ cú más d'un. O pronome é como já lhe expliquei na folha 2. No creolo de Cabo Verde só ha bós ou abós para o vós portuguez, e usam de nhô quando fallam a uma pessoa só, e de nhôs quando fallam a mais de uma.

Agora En, min, amin ê quasi tudo ô mésmo, cú algun différença, cónfórme conbersa tâ corrê. Tanbê criôlo tên mi. Ex.: Agora emquanto a En, min, amin é quasi tudo o mesmo, com alguma differença conforme o seguimento da conversação. Tambem o creolo tem mi. Ex.:

En crê ês cuza. Eu quero esta cousa.

Quênhê qui fazê ês cuza? Ê mi. Quem fez isto? Fui eu.

Amin en sâ tâ bá enghênho, ou Amin sâ tâ bá enghênho, ou En sâ tâ bá enghenho. Eu vou ao engenho . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Jâ bástâ. Nhú al stâ enfadado. Agóra tioque nu encontra na biblióthéca. Basta. Deve de estar enfadado. Agora até quando nos encontrarmos na bibliotheca.

Nhú acreditan, cum'amigo (ou sima'amigo) qui tâ respêta nhô chéo. Acredite-me, como amigo, que muito o respeita.

Carta 2.ª


Césa.—Pan fartá-bo bontade en tâ scrêbê-bo na nós lingua, na criôlo rachado, qu'en câ sabê si bô tâ entendê-le. Cesar.—Para vos fazer a vontade eu escrevo-vos na nossa lingua, em creolo fundo, que eu não sei se vós o entendeis.

Flan: pâ que bô mestê pâ nû scrêbêbo nês lingua? Bô tenê gána di estudâ si orige, fazê algun gramatica ou dicionare? S'ê pâ algun dês cussa Deus juda-bos; mas dexam fla-bo mê al fazê-bo suâ tioque bu câ podê más, tioque bi seinti... Dizei-me: para que precisaes de que vos escrevamos n'esta lingua? Tendes desejo de estudar a sua origem, de fazer alguma grammatica ou diccionario? Se é para alguma d'estas cousas, Deus vos ajude, mas sempre vos direi que isso vos fará suar até não poderdes mais, até que o sintaes . . . . . . . . . . . . . .

N'ês ija quasi tudo alguên tenê médo di Duco. Duco bu conchê-le? Estan mâ náu. Duco era un préso que staba na calabôs; ê entendê mê câ stába lâ sábe, ê fugi êle cû dôs companheros; ê stâ riba cháda; tâ mátâ cábra, tâ forçâ mujéres, tâ fazê tudo casta di pouca borgonha. Flado mâ Duco manda flâ Henrique d'Olibéra, Puchim, Maia, Bencesláu pâ ês tomâ seintido cú sês bida, pâ ês câ bá fóra, pamóde se encontra cu êles mê tâ matalos. Fazê idéa mó ês al tênê mêdo! N'esta ilha quasi toda a gente tem medo de Duco: Duco vós conheceil-o? Estou que não. Duco era um preso que estava no calabouço; e entendeu que não estava lá bem; e fugiu com dois companheiros; está em cima da achada; mata cabras, força mulheres, faz toda a casta de pouca vergonha. Diz-se (fallado) que Duco manda dizer a Henrique de Oliveira, Puchim, Maia, Wenceslau para que estes tomem sentido com a sua vida, para estes não irem fóra, poisque se se encontra com elles que os mata. Fazei idéa, como estes terão medo!

P. si bida ê dentro cartore; ê stâ magro sima alguên tisgo; ê flâ mâ só bo que sâ tâ fazê-le falta; ê mandá-bo mantenha chéo. Paulo a sua vida é dentro do cartorio, elle está magro assim como um tisico; diz que sois vós que lhe tendes feito falta; elle manda-vos muitas recommendações.

Ti outr'ora; en câ ten mâs tempo. Bo armun, etc. Até outra occasião; eu não tenho mais tempo. Vosso irmão, etc.

Carta 3.ª


Nha estimado armun. En rêcêbê carta di nhô, qu'in fica munto contente con êl, e pan fazê nhô bontade en tâ cumçâ screbê nhô na criôlo. Primêro nobidade qu'in tâ dâ nhô ê cumâ C. mâ tâ recitâ quês berços di dôda de Albano na criôlo e ê ta cunçal sin: Meu estimado irmão. Eu recebi carta do senhor, que eu fico muito contente com ella, e para fazer ao senhor vontade eu começo a escrever ao senhor em creolo. Primeira novidade que eu dou ao senhor é que C. recita aquelles versos da doida de Albano em creolo, e começa assim:

Benca li nha fijo sucuta: Vem cá meu filho escuta:

Bê ê amigo di bu mái? És amigo de tua mãe?

Bé! nha mái, e que pergunta ê ês? Bem, minha mãe, e que pergunta é essa?

Pôs bên, sima bu ojá ês carnuja carnugado, ferucho feruchado ê sangue di bu pai; i bu tâ juran cumâ bu ta bingal? Pois bem, assim como tu vês este ferro enferrujado é sangue de teu pae, e tu juras-me como o vingas?

En tâ jura! Eu juro!

Ampôz ê Ricardo pai di Maria, qui matâ bu pai! Pois é Ricardo, pae de Maria, que matou teu pae!

Bé! mamái! Pai di Maria en câ podê matal, pamóde Maria stan dente nha côraçon. Bé! mamã! Pae de Maria eu não posso matal-o, porque Maria está dentro de meu coração.

E assim cú munto cuza, mas qu'in câ sabê, e por isso en câ tâ pon. Quen qui costumá tanbê recital ê Brito e mas Quinquim. E assim com muita cousa, mas que eu não sei, e por isso eu não ponho. Quem aqui tambem costuma recital-os é Brito e mais Joaquim.

En pidi nhô di fabôr pá nhú mandan quêl dicionare; en pedi té na português, gora en tâ biral na criôlo. Quê pâ fabur câ nhú desquecê. En tâ, cába ês carta pan porgunta nhô s'ê pêrciso escrêbê nhô en criôlo na tudo bapor, ou náo. Eu pedi ao senhor o favor de mandar-me aquelle diccionario; eu pedi em portuguez, agora eu traduzo (viro) em creolo. Queira por favor não se esquecer. Eu acabo esta carta por perguntar ao senhor se é preciso escrever ao senhor emcreolo por todos os vapores ou não.

Nhu adés, nhú dán tudo alguen mantênha chéo. Tudo ghentes di casa tâ mandâ nhô mantenha chéo.

Phrases diversas


Mâ nhu stâ? ou Mâ nhu pássâ? Como está? ou como passa?

Cômmôdádo, nhô mâ nhu sa ta pássâ? Bom, e o sr. como tem passado?

Mâ ba ghentes tudo dinhô? ou Móde ghentes tudo di nhô stâ? Como estão todos os seus?

Tudo stâ bon, graças a Déus. Todos estão bons, graças a Deus.

Jâ dura qui en ca ôjâ nhô; Unde nhu staba? ou Unde nhu tên stado? Ha muito tempo que o não vejo, onde tem estado?

Mi en stába la na Orgôn, ou En tên stâdo la na Orgôn. Eu estava nos Orgãos, ou eu tenho estado nos Orgãos.

Cuz'é ou Cuss'ê nhu bá fazêba lâ? O que foi lá fazer?

En bába oja (ou en bá ojába) un nhâ parente, qui stába doente. Fui ver uma parenta minha que estava doente.

¿Quênhê, tia di nhô, nhâ Maria? ¿Cuss'ê qu'ê tênba? Quem? a sua tia, a sr.a Maria?

O que tinha ella?

E tênba dór na péto, ou, ê ta quexaba di dór na péto. Tinha dores no peito, ou queixava-se de dores no peito.

Ê jâ stâ milhor? Já está melhor?

En dêxal um pouco milhor, ou, En dêxal más cômôdádo un pouco. Deixei-a um pouco melhor.

Púndo nhu sâ tâ bai? (gossi-n). Para onde vae agora?

En sâ tâ bai Praia. Vou á Praia.

I mi en sâ tâ bai (ou bá) Tarrafal ou Tarfal. E eu vou para o Tarrafal.

Anton nhu tên qui anda chêo inda. Então tem de andar ainda muito.

Qui horas ê gossin? ou Canto hora jâ dâ? Quantas horas são?

Já stâ pâ dôs hora. Devem ser duas horas.

Dêxam bai, tioque nu torna ojá. Deixe-me ir, até quando nos tornarmos a ver.

Nhu adés. (adés). Adeus.

F. En tâ pidi bo pâ bo escrêbên um carta na criôlo, mas num criôlo bêrdadêro.

Bu al acha galante ês pidido; mas oc bu sabê ê pâ cuzé, bu al ficá conténte. Gossin en câ podê flábo ê pâ que fin, pamóde en câ tên ténpo.
F. Peço-te que me escrevas uma carta em creolo, mas em um creolo verdadeiro (puro). Has de achar exquisito (extravagante) este pedido, mas quando souberes para que é, ficarás satisfeito. Agora (n'esta occasião) não posso dizer-te para que fim é, porque não tenho tempo.

Câ bu squêcê, ¿já bu oubí? Não te esqueças, ouviste?

Bo armun amigo. Teu irmão, amigo.

Jâ bu râcêbê nha carta qui en scrêbê-bo na criôlo? Respondên e e mandâ flan mode ghentes tudo stâ. Já recebeste a minha carta que te escrevi em crioulo? Responde-me e manda dizer-me como estão todos.

Titia jâ stâ mijór di si dismaios? Nha Dóna di nha Lucía inda câ cômôda? A tia já está melhor dos seus desmaios? A nha Dona da Luzia ainda não está boa?

Logo qui[1] bu rêcêbê ês carta, bu ta manda chôma Roque, e bu ta flal cumâ en rêcêbê si carta, e su xinti chêo di más, di máo tratos, qui scribons sâ tâ dal. Logo que receberes esta carta mandarás chamar o Roque, e lhe dirás que recebi a carta d'elle, e senti bastante dos maus tratos, que os escrivães lhe têem dado.

Comâ gossin en câ podê fazel náda, e pâ ê spêra tioque en boltâ C. Berde; e anton en tâ oja, si algun cuza en tâ podê alcança na si fabôr. Que agora nada lhe posso fazer, e que espere até (quando) eu voltar a Cabo Verde, e verei então se alguma cousa posso alcançar em seu favor.

Adivinhações


«Os creolos em Cabo Verde, diz-nos o sr. Nogueira, pelo menos em Sant'Iago, têem por costume contarem historias, isto é, lendas ou contos.

«Quasi sempre essas historias são contadas á noite, assentando-se as pessoas que tomam parte n'esse passatempo de caracter verdadeiramente familiar, á porta da rua ou então dentro de casa, fazendo d'esse passatempo um serão. Precedem a essas historias as adivinhações, sendo algumas d'estas bem obscenas.»

Eis uma pequena serie d'essas adivinhas que o nosso collaborador nos ministrou:

1. Xintido. Mi li, mi lá.

2. Porco. Mungo mungo tâ ba rúbera.

3. Chúba na banána. Ráque-ráque na pedragál.

4. Ê un home que mátâ un buro, pamóde um pé de coube. Curupíu de dâs pé mátâ curúpíu de quato pé, sob curupiu de um pé.

5. Ê ôjo. In tên nhâ dôs fijo na janélla nium câ tâ ôjâ companhêro.

6. Falla. In tên nhâ fijo in tâ mandal dento chuba ê câ tâ môjâ.

7. Máma di cadêra. In tên nhâ dôs fijo tâ córê tudo córê, nium câ tâ pássâ companhêro.

8. Oréja. In tên nhâ figuêrinha na pónta di rócha, tâ queí, câ tâ queí.

9. Sónbra. In córê ín câ pêga, in xinta in pêga.

10. Bôca cú dente. In tên nhâ pucarínha cheio d'ôsso.

11. Tripiche. Chôro na cassa di riba, batuque na cassa di baxo.

12. Pánno. Nôte di cumprido, di dia di trabêsado.

13. Caldêron. Ê tên pé ê câ tâ ánda ê tên aça ê câ tâ buâ.

14. Arco d'abêja. Jôn di Pico, Manél d'Orgôn, sê câ súbi ê al trabêssa.

15. Pedra fôgôn. In tên três préto; si ún câ stâ, quêlouto dôs câ tâ sirbi.

16. Óbo. Radondête indête que não tem tapo nem tôpête.

17. Anzol:—ê tâ lêba isca mórto, ê tâ tarcê pexe Préto côrcôbádo que tâ lêba mórto, tâ trâzê bibo.

18. Póte. Ê bá dêtado, ê bên sâquédo.

19. Estréla na Céo. In tên nha cúrál di cábra, nôte pâ manheê nium.

20. Máma de báca. Nha quato bôli bóca pâ báxo lête câ tâ lánça.

21. Estrubado. Nhâ boi tâ bônba lâ na Tarafál, in tâ oubi li.

22. Mandioca. Ríquití pé béjo fésta quê câ chiga, ê câ sabe.

23. Morte. In bai pân cá bên más.

24. Calbicêra. Albo cú mâ albâiáda, verde mâ vêrdête, tên côr di rabu de sancho, mas ê câ êl.

25. Caminho. Un hóme grande sin sónbra.

26. Fumo. Nha cabállo dento cóma na rua.

27. Sino. Sin câ pêga nha boi rábo ê câ tâ bônba.

28. E côco cú si pája, cu cumida, cu ágo. In tên un caza di pája dento quêl caza di pája in tên un caza branca, dento caza branca in tên un fonte d'ágo.

29. Cruz na cháda. In tên nha báca na cháda, in câ tâ dâ pája, in câ tâ dé ágo, tudo alghên qui páçâ ta botan el um mô de pája.

30. Nabíu. In tên un óme grande na mê di mar, s'ê câ bento ê câ tâ anda.

Observações phoneticas


Dos sons do portuguez faltam no creolo de Santo Antão lh, substituido por j (paja, ija, foja, fijo, scoja), v substituido por b (dubida, dêbê, oubi, pobo, conbersa, biro, fabur); os diphthongos nasaes (Jan==João, Orgon==Orgãos, coraçon==coração, armun==irmãos, náo==não); o diphthongo ei, substituido por é, ê (proméro, ruspêto, figuêrinha).

Ha alguma tendencia para o iotacismo: di==de.

I desapparece em pos==pois, mas==mais.

Mudanças varias nas vogaes atonas: armum==irmão, proméro==primeiro, borgonha==vergonha, ruspêto==respeito.

Mudança nas vogaes accentuadas: cuza==cosa, favur==favor.

Apherese de vogal ou de syllaba: sim==assim, nhô==senhor, nha==minha[2]; ==está.

Syncope de vogal: cumçâ==começar, crê==querer, conchê==conhecer.

Apocope de vogal ou de syllaba inteira: calabôs==calaboço, (como)==modo, mo==molho, ês==este.

Apocope de r: regular no infinito (ser é uma excepção, se não ha erro no paradigma que nos enviou o nosso informador); nhô==senhor, ==por.

Varia: ago==agua, sucuta==escuta.

Observações morphologicas


1. Genero. Os adjectivos não têem fórmas que indiquem o genero. A fórma typica é em geral a fórma masculina portugueza; mas ha excepção, como nha==minha.

2. Numero. O emprego das fórmas do plural não se póde estabelecer com certeza dos textos que temos á nossa disposição, nem das noticias que nos ministraram.

Os casos seguintes parecem-nos representar as tendencias do dialecto no emprego do s do plural: a) os adjectivos e pronomes empregados como adjectivos não tomam o signal do plural (mas diz-se quel, quels); b) com os numeraes o substantivo não toma o signal do plural (mas na carta 2.ª ha dôs companheros); c) quando do contexto da phrase resulta a idéa da pluralidade falta o s do plural. Exemplos:


es dos foja.
tres preto.
mujer, mujeres.
estas duas folhas.
tres pretos.
mulher, mulheres.


Com relação ao plural diz-nos o nosso informador: «A tendencia que ha hoje para empregar regularmente as fórmas do plural torna-se muito sensivel».

3. Pronomes. Os pronomes demonstrativos são: ês (este, esse) e quel (aquelle).

Ês home.
Ês mujer.
Ês homes.
Ês mujeres.
Este homem.
Esta mulher.
Estes homens.
Estas mulheres.