Nota de editor:
Devido à
existência de erros tipográficos neste texto,
foram tomadas várias decisões quanto à
versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi
mantida de acordo com o original. No final deste livro
encontrará a lista de erros corrigidos.
Rita
Farinha (Julho 2010)
SOCIEDADE DE GEOGRAPHIA DE LISBOA
OS
DIALECTOS ROMANICOS OU NEO-LATINOS
NA
AFRICA, ASIA E AMERICA
POR
F. ADOLPHO COELHO
Professor do Curso Superior de Lettras e socio effectivo da
Sociedade
de Geographia
de Lisboa
LISBOA
CASA DA SOCIEDADE DE GEOGRAPHIA
89, RUA DO ALECRIM, 89
1881
IMPRENSA NACIONAL
Extrahido do Boletim da
Sociedade de Geographia de Lisboa
OS
DIALECTOS ROMANICOS OU NEO-LATINOS
NA
AFRICA, ASIA E AMERICA
N'uma conferencia feita ante a Sociedade de Geographia em 16 de
fevereiro de 1878 chamámos a attenção
dos nossos consocios e do publico
para as fórmas dialectaes particulares que algumas linguas
europêas
e particularmente o francez, o hespanhol e o portuguez, tinham
tomado nas colonias e conquistas da Africa, Asia e America. Esses
dialectos têem até hoje attrahido muito pouco a
attenção dos linguistas,
não existindo ainda nenhum trabalho geral sobre elles.
Era nosso desejo reunir os materiaes para um trabalho especial sobre
os dialectos portuguezes, e um trabalho geral comparativo em que
tentassemos determinar as leis de formação
d'esses dialectos, formação
que se póde por assim dizer estudar
no
vivo, porque um similhante
estudo não poderia deixar de nos ministrar dados importantes
sob os
pontos de vista glottologico, ethnologico e psychologico.
Pedimos n'essa conferencia esclarecimentos, como já o
tinhamos
feito por outros meios, e os nossos pedidos não foram de
todo inuteis.
Um mancebo intelligente da ilha de Santo Antão, o sr. Cesar
Augusto
de Sá Nogueira, que assistíra á
conferencia, deu-nos todos os materiaes
para o estudo que publicâmos do dialecto creolo d'aquella
ilha.
O nosso amigo rev. R. H. Moreton continuou nos seus dedicados
esforços
para nos obter publicações no dialecto portuguez
de Ceylão, e a
elle devemos em grande parte poder dar hoje uma bibliographia
já
assás consideravel d'essas publicações
e, o que é mais, possuil-as, estando
assim habilitados para publicar em breve um estudo bastante
completo sobre a
Grammatica e vocabulario do
indo-portuguez. No meio
de outros trabalhos mais consideraveis nunca perdemos de vista os
dialectos
creolos, que havia muito nos interessavam, e fomos assim reunindo
uma serie de noticias, em parte simplesmente bibliographicas,
cujo conjuncto nos parece offerecer já doutrina sufficiente
para constituir
materia de um artigo de ensaio. Por mais incompleto que fique o
nosso trabalho estamos certos que vem preencher uma lacuna no quadro
da glottologia. Fr. Pott no quadro systematico-bibliographico da
glottologia que serve de prefacio ao tomo II, 4 das suas
Etymologische
Forschungen (1870) nem sequer menciona os
dialetos creolos; nos
livros geraes de Whitney, Max Müller e outros sobre a
glottologia em
vão se busca uma noticia d'esses tão
interessantes productos; as opiniões
expressas por alguns linguistas sobre o caracter d'esses dialectos,
são, como veremos, indecisas ou erroneas, ou não
apontam os lados por
que esses dialectos são mais importantes para o observador.
Comprehende-se
este facto singular da historia da nossa sciencia quando se
sabe que uma parte dos glottologos gastam o seu tempo á
busca da solução
de problemas ou insoluveis ou cuja chave não está
ainda descoberta
(etrusco, basco, acadiano, etc.), e outra anda absorvida pelos seus
estudos especiaes, sem duvida interessantes e muitas vezes importantes,
mas que fazem desviar a attenção de
questões de muito maior
momento, sendo poucos os que fazem progredir a sciencia de uma maneira
sensivel.
O nosso ensaio seria muito mais completo se tivessemos maior numero
de informações dos dialectos das nossas colonias
e conquistas, e
se tivessemos visto diversas publicações sobre os
dialectos similhantes
das outras linguas europêas, que por diversas causas
não podémos examinar.
Entre essas causas predominam a raridade de algumas d'essas
publicações e miseravel
dotação das nossas bibliothecas, que
não lhes
permitte comprar senão poucos livros que interessem a um
pequeno
numero de estudiosos.
I. DIALECTOS PORTUGUEZES
1. Creolo da ilha de Santo Antão
(archipelago de Cabo Verde)
Este dialecto é fallado principalmente pela
população de côr e
pelas creanças que o aprendem com as creadas e amas negras.
Distinguem-se
duas fórmas: o creolo
rachado, creolo
fundo, creolo
vejo,
fallado principalmente no interior da ilha e de que as noticias e
documentos
que publicâmos dão conhecimento, e o creolo em que
a grammatica
portugueza é menos ignorada, distinguindo-se quasi
unicamente
pela pronuncia de algumas palavras ou sons e pelo accento geral.
As cartas seguintes foram escriptas por pessoas instruidas que fallam
bem o portuguez, mas conhecem bem o creolo rachado. O unico
documento verdadeiramente genuino do dialecto de Santo
Antão
acha-se
na serie de adivinhações que o nosso amigo o sr.
Sá Nogueira nos
ministrou.
Carta 1.ª
| Nha
amigo.—Cu préssa en scrêbê ês
dôs fója di papel, qui dentro d'ês carta
en tâ manda nhô. |
Meu
amigo.—Com
pressa escrevi estas duas
folhas de papel que dentro d'esta
carta lhe envio. |
| Talvêz
algun cúsa, palabra, ou móde nhù
crê, stâ êrrado. Cuza qn'en câ
tâ dubída; pamóde pâ
más criôlo qui nós di Cabo Berde
nú sabê, sénpre nu tâ ncontra
dificuldade ou enbaráço, quel'ora qui
nú pêga na péna pâ nu
scrêbê na nós lingua. |
Talvez
alguma cousa, palavra ou como quizer, esteja errada. O que
não duvido, porque por mais creolo que nós de
Cabo Verde saibâmos, sempre encontrâmos
difficuldade ou embaraço logo que pegâmos na penna
para escrevermos na nossa lingua. |
| Ês
culpa ê câ di nós, ê di
gobérno, qui si al bê animaba nós na
calquér cuza, ê tâ oprimíno
cú má scoja di sês empregado,
qu'ê tâ manda pâ Cabo Berde. |
A
culpa não é nossa, é do governo que
longe de animar-nos em qualquer cousa, opprime-nos com a má
escolha dos seus empregados, que elle manda para Cabo Verde. |
| Ê
tâ fazê bên mal, pamóde assi
ê tâ pêrdê tudo amor, tudo
stima
qu'ê pôdê tên na pôbo
di Cabo Berde. Ês cuza ê câ só
na Cabo Berde, ê pâ tudo cábo, unde
ê tên un palmo di chôn. En podê
flába nhô cuzás chéo a
ruspêto di nós gobérno na Cabo Berde,
¿mas paquê? Ês carta ê
câ, sima português tâ flâ, di
politica, e pamóde ês en tâ bira
pâ principio di nós conbersa. Ê sima en
staba tâ flâ nhô, en câ
sabê si algun cuza stâ tórto ou
mál screbêdo nês dôs
fójas di papel; mas câ m'inporta cú
ês, e nhu ôubi cuss'ê qu'ent â
flâ nhô: Na fója un e na linha binte eu
binte un, nhu tâ lé na banda di criôlo
«nha Dóna di nha Lucía» e na
banda di português nhú câ tâ
acha nada qui, sima português tâ flâ,
tâ corrêspondêl. |
Faz
bem mal, porque assim perde todo o amor e toda a estima que
póde ter no povo de Cabo Verde. Isto não
é só em Cabo Verde é por toda a parte,
onde elle tem um palmo de terra. Eu podia dizer-lhe muitas cousas a
respeito do nosso governo em Cabo Verde, mas para que? Esta carta
não é, como dizem os portuguezes, de politica, e
por isso volto ao principio da nossa conversação.
É como lhe estava dizendo, não sei se alguma
cousa está errada ou mal escripta n'essas duas folhas de
papel; mas não nos importemos com isso, e ouça o
que lhe digo: Na folha 1 v. e linhas vinte e vinte um, na columna
creola
«nha Dona nha Luzia», e no portuguez não
encontro nada que, como dizem os portuguezes, lhe corresponda. |
| Nhú
sabê ê pamóde? Ê
pamóde ês Dóna
ê un
nóme qui na criôlo tâ chomádo
«nome di cassa», e ê tâ custuma
pôdo n'algun minino fémea. Ê
pâ ês nóme que ês minino
tâ chomado tioqu'ê grande, ou tioqu'ê
mórré. Ês uso ê câ
só di Cabo Berde, na Brazil tanbê ê
tâ usado, e assi mi conchê ghentes chéo
cú nome di Nené, Nhanhina, Nhánha,
Sinhârínha, Nhásinhára,
Júca, Jóca, sin sér sês nome
di batismo, ou sês nome di greja. |
Sabe
a rasão? É porque Dona n'aquelle logar
é um nome que em creolo se chama «nome de
casa», e usa-se nas meninas (creanças).
É por esse nome que ellas são chamadas
até á maioridade ou até á
morte. Este uso não é só de Cabo
Verde, no Brazil tambem se usa, e assim conhecemos muita gentecom os
nomes de Néné
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . e
Joca sem serem os seus nomes de baptismo. |
| Agora
si nhú crê sabê cuss'ê
quí Dóna crê flâ, en
tâ flâ nhô, no portugués
ê avó e Dóno
ê avô. |
Agora
se quizer saber o que quer dizer Dona, eu lhe digo, em portuguez
é avó e Dono avô. |
| A
ruspêto di berbo, criôlo câ tên
tudo tudo qui português tâ choma ténpo. |
Emquanto
a verbos, o creolo não tem tudo quanto o portuguez chama
tempo. |
| Prónóme
ê sima ja'n esplicá nhô na
fója dôs. Na criôlo di Cabo Berde
câ tên bós ou abós
pâ vós di
português, e ês
tâ flâ nhô, o
qu'ês
tâ papiâ cú alguên
só, e nhôs, o
qu'ês tâ
papiâ cú más d'un. |
O
pronome é como já lhe expliquei na folha 2. No
creolo de Cabo Verde só ha bós
ou abós para o vós
portuguez, e usam de nhô quando fallam
a uma pessoa
só, e de nhôs quando fallam
a mais de uma. |
| Agora
En, min, amin
ê quasi tudo ô
mésmo, cú algun différença,
cónfórme conbersa tâ corrê.
Tanbê criôlo tên mi.
Ex.: |
Agora
emquanto a En, min, amin
é quasi tudo o mesmo, com
alguma differença conforme o seguimento da
conversação. Tambem o creolo tem mi.
Ex.: |
| En
crê ês cuza. |
Eu
quero esta cousa. |
| Quênhê
qui fazê ês cuza? Ê mi. |
Quem
fez isto? Fui eu. |
| Amin
en sâ tâ bá enghênho, ou Amin
sâ tâ bá enghênho, ou En
sâ tâ bá enghenho. |
Eu
vou ao engenho . . . . .
. . . . . . . . . .
. . .
. . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . |
| Jâ
bástâ. Nhú al stâ enfadado.
Agóra tioque nu encontra na
biblióthéca. |
Basta.
Deve de estar enfadado. Agora até quando nos encontrarmos na
bibliotheca. |
| Nhú
acreditan, cum'amigo (ou sima'amigo) qui
tâ
respêta nhô chéo. |
Acredite-me,
como amigo, que muito o respeita. |
Carta 2.ª
| Césa.—Pan
fartá-bo bontade en tâ
scrêbê-bo
na nós lingua, na criôlo rachado, qu'en
câ sabê si bô tâ
entendê-le. |
Cesar.—Para
vos fazer a vontade eu escrevo-vos na nossa lingua, em creolo fundo,
que eu não sei se vós o entendeis. |
| Flan:
pâ que bô mestê pâ nû
scrêbêbo nês lingua? Bô
tenê gána di estudâ si orige,
fazê algun gramatica ou dicionare? S'ê pâ
algun dês cussa Deus juda-bos; mas dexam fla-bo mê
al fazê-bo suâ tioque bu câ
podê más, tioque bi seinti... |
Dizei-me:
para que precisaes de que vos escrevamos n'esta lingua? Tendes desejo
de estudar a sua origem, de fazer alguma grammatica ou diccionario? Se
é para alguma d'estas cousas, Deus vos ajude, mas sempre vos
direi que isso vos fará suar até não
poderdes mais, até que o sintaes . . . . . . . . . . . . . . |
| N'ês
ija quasi tudo alguên tenê médo di Duco.
Duco bu conchê-le? Estan mâ náu. Duco
era un préso que staba na calabôs; ê
entendê mê câ stába
lâ sábe, ê fugi êle
cû dôs companheros; ê stâ riba
cháda; tâ mátâ
cábra, tâ forçâ
mujéres, tâ fazê tudo casta di pouca
borgonha. Flado mâ Duco manda flâ Henrique
d'Olibéra, Puchim, Maia, Bencesláu pâ
ês tomâ seintido cú sês bida,
pâ ês câ bá fóra,
pamóde se encontra cu êles mê
tâ matalos. Fazê idéa mó
ês al tênê mêdo! |
N'esta
ilha quasi toda a gente tem medo de Duco: Duco vós
conheceil-o? Estou que não. Duco era um preso que estava no
calabouço; e entendeu que não estava
lá bem; e fugiu com dois companheiros; está em
cima da achada; mata cabras, força mulheres, faz toda a
casta
de pouca vergonha. Diz-se (fallado) que Duco manda dizer a Henrique de
Oliveira, Puchim, Maia, Wenceslau para que estes tomem sentido com a
sua vida, para estes não irem fóra, poisque se se
encontra com elles que os mata. Fazei idéa, como estes
terão medo! |
| P.
si bida ê dentro cartore; ê stâ magro
sima alguên tisgo; ê flâ mâ
só bo que sâ tâ fazê-le falta;
ê mandá-bo mantenha chéo. |
Paulo
a sua vida é dentro do cartorio, elle está magro
assim como um tisico; diz que sois vós que lhe tendes feito
falta; elle manda-vos muitas recommendações. |
| Ti
outr'ora; en câ ten mâs tempo. Bo armun, etc. |
Até
outra occasião; eu não tenho mais tempo. Vosso
irmão, etc. |
Carta 3.ª
| Nha
estimado armun. En rêcêbê carta di
nhô, qu'in fica munto contente con êl, e pan
fazê nhô bontade en tâ
cumçâ screbê nhô na
criôlo. Primêro nobidade qu'in tâ
dâ nhô ê cumâ C. mâ
tâ recitâ quês berços di
dôda de Albano na criôlo e ê ta
cunçal sin: |
Meu
estimado irmão. Eu recebi carta do senhor, que eu fico muito
contente com ella, e para fazer ao senhor vontade eu começo
a escrever ao senhor em creolo. Primeira novidade que eu dou ao senhor
é que C. recita aquelles versos da doida de Albano em
creolo, e começa assim: |
| Benca
li nha fijo sucuta: |
Vem
cá meu filho escuta: |
| Bê
ê amigo di bu mái? |
És
amigo de tua mãe? |
| Bé!
nha mái, e que pergunta ê ês? |
Bem,
minha mãe, e que pergunta é essa? |
| Pôs
bên, sima bu ojá ês carnuja carnugado,
ferucho feruchado ê sangue di bu pai; i bu tâ juran
cumâ bu ta bingal? |
Pois
bem, assim como tu vês este ferro enferrujado é
sangue de teu pae, e tu juras-me como o vingas? |
| Ampôz
ê Ricardo pai di Maria, qui matâ bu pai! |
Pois
é Ricardo, pae de Maria, que matou teu pae! |
| Bé!
mamái! Pai di Maria en câ podê matal,
pamóde Maria stan dente nha côraçon. |
Bé!
mamã! Pae de Maria eu não posso matal-o, porque
Maria está dentro de meu coração. |
| E
assim cú munto cuza, mas qu'in câ sabê,
e por isso en câ tâ pon. Quen qui
costumá tanbê recital ê Brito e mas
Quinquim. |
E
assim com muita cousa, mas que eu não sei, e por isso eu
não ponho. Quem aqui tambem costuma recital-os é
Brito e mais Joaquim. |
| En
pidi nhô di fabôr pá nhú
mandan quêl dicionare; en pedi té na
português, gora en tâ biral na criôlo.
Quê pâ fabur câ nhú
desquecê. En tâ, cába ês carta
pan porgunta nhô s'ê pêrciso
escrêbê nhô en criôlo na tudo
bapor, ou náo. |
Eu
pedi ao senhor o favor de mandar-me aquelle diccionario; eu pedi em
portuguez, agora eu traduzo (viro) em creolo. Queira por favor
não se esquecer. Eu acabo esta carta por perguntar ao senhor
se é preciso escrever ao senhor emcreolo por todos os
vapores ou não. |
| Nhu
adés, nhú dán tudo alguen
mantênha chéo. Tudo ghentes di
casa tâ mandâ nhô mantenha
chéo. |
|
Phrases diversas
| Mâ
nhu stâ? ou Mâ nhu
pássâ? |
Como
está? ou como passa? |
| Cômmôdádo,
nhô mâ nhu sa ta pássâ? |
Bom,
e o sr. como tem passado? |
| Mâ
ba ghentes tudo dinhô? ou
Móde ghentes tudo di nhô stâ? |
Como
estão todos os seus? |
| Tudo
stâ bon, graças a Déus. |
Todos
estão bons, graças a Deus. |
| Jâ
dura qui en ca ôjâ nhô; Unde nhu staba? ou
Unde nhu tên stado? |
Ha
muito tempo que o não vejo, onde tem estado? |
| Mi
en stába la na Orgôn, ou En
tên stâdo la na Orgôn. |
Eu
estava nos Orgãos, ou eu tenho estado nos Orgãos. |
| Cuz'é
ou Cuss'ê nhu bá
fazêba lâ? |
O
que foi lá fazer? |
| En
bába oja (ou en bá
ojába) un nhâ parente, qui stába doente. |
Fui
ver uma parenta minha que estava doente. |
| ¿Quênhê,
tia di nhô, nhâ Maria? ¿Cuss'ê
qu'ê tênba? |
Quem?
a sua tia, a sr.a Maria?
O que tinha ella? |
| E
tênba dór na péto, ou,
ê ta quexaba di dór na péto. |
Tinha
dores no peito, ou queixava-se de dores no peito. |
| Ê
jâ stâ milhor? |
Já
está melhor? |
| En
dêxal um pouco milhor, ou,
En dêxal más
cômôdádo un pouco. |
Deixei-a
um pouco melhor. |
| Púndo
nhu sâ tâ bai? (gossi-n). |
Para
onde vae agora? |
| En
sâ tâ bai Praia. |
Vou
á Praia. |
| I
mi en sâ tâ bai (ou
bá) Tarrafal ou Tarfal. |
E
eu vou para o Tarrafal. |
| Anton
nhu tên qui anda chêo inda. |
Então
tem de andar ainda muito. |
| Qui
horas ê gossin? ou Canto hora
jâ dâ? |
Quantas
horas são? |
| Já
stâ pâ dôs hora. |
Devem
ser duas horas. |
| Dêxam
bai, tioque nu torna ojá. |
Deixe-me
ir, até quando nos tornarmos a ver. |
F.
En tâ pidi bo pâ bo escrêbên um
carta na criôlo, mas num criôlo
bêrdadêro.
Bu al acha galante ês pidido; mas oc bu sabê
ê pâ cuzé, bu al ficá
conténte. Gossin en câ podê
flábo ê pâ que fin, pamóde en
câ tên ténpo. |
F.
Peço-te que me escrevas uma carta em creolo, mas em um
creolo
verdadeiro (puro). Has de achar exquisito (extravagante) este pedido,
mas quando souberes para que é, ficarás
satisfeito. Agora (n'esta occasião) não posso
dizer-te para que fim é, porque não tenho tempo. |
| Câ
bu squêcê, ¿já bu
oubí? |
Não
te esqueças, ouviste? |
| Bo
armun amigo. |
Teu
irmão, amigo. |
| Jâ
bu râcêbê nha carta qui en
scrêbê-bo na criôlo? Respondên
e e mandâ flan mode ghentes tudo stâ. |
Já
recebeste a minha carta que te escrevi em crioulo? Responde-me e manda
dizer-me como estão todos. |
| Titia
jâ stâ mijór di si dismaios? Nha
Dóna di nha Lucía inda câ
cômôda? |
A
tia já está melhor dos seus desmaios? A nha Dona
da Luzia ainda não está boa? |
| Logo
qui[1] bu
rêcêbê ês carta, bu
ta manda chôma Roque, e bu ta flal cumâ en
rêcêbê si carta, e su xinti
chêo di más, di máo tratos, qui
scribons sâ tâ dal. |
Logo
que receberes esta carta mandarás chamar o Roque, e lhe
dirás que recebi a carta d'elle, e senti bastante dos maus
tratos, que os escrivães lhe têem dado. |
| Comâ
gossin en câ podê fazel náda, e
pâ ê spêra tioque en boltâ C.
Berde; e anton en tâ oja, si algun cuza en tâ
podê alcança na si fabôr. |
Que
agora nada lhe posso fazer, e que espere até (quando) eu
voltar a Cabo Verde, e verei então se alguma cousa posso
alcançar em seu favor. |
Adivinhações
«Os creolos em Cabo Verde, diz-nos o sr. Nogueira, pelo menos
em Sant'Iago, têem por costume contarem historias, isto
é, lendas ou
contos.
«Quasi sempre essas historias são contadas
á noite, assentando-se as
pessoas que tomam parte n'esse passatempo de caracter verdadeiramente
familiar, á porta da rua ou então dentro de casa,
fazendo d'esse
passatempo um serão. Precedem a essas historias as
adivinhações, sendo
algumas d'estas bem obscenas.»
Eis uma pequena serie d'essas adivinhas que o nosso collaborador
nos ministrou:
| 1.
Xintido. |
Mi
li, mi lá. |
| 2.
Porco. |
Mungo
mungo tâ ba rúbera. |
| 3.
Chúba na
banána. |
Ráque-ráque
na pedragál. |
| 4.
Ê un home que mátâ un
buro, pamóde um pé de
coube. |
Curupíu
de
dâs pé mátâ
curúpíu de quato pé, sob curupiu de um
pé. |
| 5.
Ê
ôjo. |
In
tên nhâ dôs fijo na
janélla nium câ tâ
ôjâ
companhêro. |
| 6.
Falla. |
In
tên nhâ fijo in tâ mandal
dento chuba
ê câ tâ
môjâ. |
| 7.
Máma di cadêra. |
In
tên nhâ dôs fijo tâ
córê tudo córê,
nium
câ tâ pássâ
companhêro. |
| 8.
Oréja. |
In
tên nhâ figuêrinha na pónta di
rócha,
tâ queí, câ tâ queí. |
| 9.
Sónbra. |
In
córê ín câ pêga, in
xinta in pêga. |
| 10.
Bôca cú dente. |
In
tên nhâ pucarínha cheio d'ôsso. |
| 11.
Tripiche. |
Chôro
na cassa di riba, batuque na cassa di baxo. |
| 12.
Pánno. |
Nôte
di cumprido, di dia di trabêsado. |
| 13.
Caldêron. |
Ê
tên pé ê câ tâ
ánda ê tên aça
ê câ tâ buâ. |
| 14.
Arco d'abêja. |
Jôn
di Pico, Manél d'Orgôn, sê
câ súbi ê al trabêssa. |
| 15.
Pedra fôgôn. |
In
tên três préto; si ún
câ stâ, quêlouto dôs
câ tâ sirbi. |
| 16.
Óbo. |
Radondête
indête que não tem tapo nem
tôpête. |
| 17.
Anzol:—ê tâ lêba isca mórto,
ê tâ tarcê pexe |
Préto
côrcôbádo que tâ
lêba mórto, tâ trâzê
bibo. |
| 18.
Póte. |
Ê
bá dêtado, ê bên
sâquédo. |
| 19.
Estréla na Céo. |
In
tên nha cúrál di cábra,
nôte pâ manheê nium. |
| 20.
Máma de báca. |
Nha
quato bôli bóca pâ báxo
lête câ tâ
lánça. |
| 21.
Estrubado. |
Nhâ
boi tâ bônba lâ na Tarafál, in
tâ oubi li. |
| 22.
Mandioca. |
Ríquití
pé béjo fésta quê
câ chiga, ê câ sabe. |
| 23.
Morte. |
In
bai pân cá bên más. |
| 24.
Calbicêra. |
Albo
cú mâ albâiáda, verde
mâ vêrdête, tên côr
di rabu de sancho, mas ê câ êl. |
| 25.
Caminho. |
Un
hóme grande sin sónbra. |
| 26.
Fumo. |
Nha
cabállo dento cóma na rua. |
| 27.
Sino. |
Sin
câ pêga nha boi rábo ê
câ tâ bônba. |
| 28.
E côco cú si pája, cu cumida, cu
ágo. |
In
tên un caza di pája dento quêl caza di
pája in tên un caza branca, dento caza branca in
tên un fonte d'ágo. |
| 29.
Cruz na cháda. |
In
tên nha báca na cháda, in câ
tâ dâ pája, in câ tâ
dé ágo, tudo alghên qui
páçâ ta botan el um
mô
de pája. |
| 30.
Nabíu. |
In
tên un óme grande na mê di
mar,
s'ê câ bento ê câ tâ
anda. |
Observações phoneticas
Dos sons do portuguez faltam no creolo de Santo
Antão
lh, substituido
por
j
(
paja,
ija,
foja,
fijo,
scoja),
v substituido por
b
(
dubida,
dêbê,
oubi,
pobo,
conbersa,
biro,
fabur); os diphthongos nasaes
(
Jan==
João,
Orgon==
Orgãos,
coraçon==
coração,
armun==
irmãos,
náo==
não);
o diphthongo
ei, substituido por
é,
ê
(
proméro,
ruspêto,
figuêrinha).
Ha alguma tendencia para o iotacismo:
di==
de.
I desapparece em
pos==
pois,
mas==
mais.
Mudanças varias nas vogaes atonas:
armum==
irmão,
proméro==
primeiro,
borgonha==
vergonha,
ruspêto==
respeito.
Mudança nas vogaes accentuadas:
cuza==
cosa,
favur==
favor.
Apherese de vogal ou de syllaba:
sim==
assim,
nhô==
senhor,
nha==
minha[2];
tâ==
está.
Syncope de vogal:
cumçâ==
começar,
crê==
querer,
conchê==
conhecer.
Apocope de vogal ou de syllaba inteira:
calabôs==
calaboço,
mó
(como)==
modo,
mo==
molho,
ês==
este.
Apocope de
r: regular no infinito
(
ser é uma
excepção, se não ha
erro no paradigma que nos enviou o nosso informador);
nhô==
senhor,
pâ==
por.
Varia:
ago==
agua,
sucuta==
escuta.
Observações morphologicas
1.
Genero. Os adjectivos
não têem fórmas que indiquem o genero.
A fórma typica é em geral a fórma
masculina portugueza; mas ha
excepção, como
nha==
minha.
2.
Numero. O emprego das
fórmas do plural não se póde
estabelecer
com certeza dos textos que temos á nossa
disposição, nem das noticias
que nos ministraram.
Os casos seguintes parecem-nos representar as tendencias do dialecto
no emprego do
s do plural: a) os
adjectivos e pronomes empregados
como adjectivos não tomam o signal do plural (mas diz-se
quel,
quels); b) com os numeraes o
substantivo não toma o signal do plural
(mas na carta 2.ª ha
dôs
companheros); c) quando do contexto da phrase
resulta a idéa da pluralidade falta o
s do plural. Exemplos:
es
dos
foja.
tres
preto.
mujer,
mujeres. |
estas
duas folhas.
tres pretos.
mulher, mulheres. |
Com relação ao plural diz-nos o nosso informador:
«A tendencia
que ha hoje para empregar regularmente as fórmas do plural
torna-se
muito sensivel».
3.
Pronomes. Os pronomes
demonstrativos são:
ês (este, esse) e
quel (aquelle).
Ês
home.
Ês mujer.
Ês homes.
Ês mujeres. |
Este
homem.
Esta mulher.
Estes homens.
Estas mulheres. |