Dies irae, dies ille
Solvent seculum in faville.


N'esse dia um panico profundo envolveu todos os espiritos. As egrejas encheram-se de fieis, que esperavam a catastrophe entre prantos e rezas; ora, por uma doce ironia da natureza, a aurora do primeiro dia do seculo XI raiou esplendida.

Para apreciar bem a importancia d'este facto, que hoje parece pueril, é preciso transportarmo-nos aos primitivos tempos da Edade-Media, avaliarmos a ignorancia extrema de todas as classes sociaes, com rarissimas excepções e essas escondidas principalmente nos conventos; apreciarmos, emfim, o espirito publico n'um tempo em que primava a idéa religiosa, não tendo outros competidores.

A passagem do perigo imminente alliviou a alma humana, dando-lhe expansão ás faculdades creadoras e activando-lhe o exercicio do trabalho. Assim, o segundo periodo da Edade-Media é bem differente do primeiro.

No seculo XI, a sociedade christã entrou n'uma evolução accentuada. O feudalismo achava-se quasi constituido. Esta nova organisação social espalhou-se pela superficie do antigo imperio de Carlos Magno. A terra, toda dividida em feudos, pertencia aos suzeranos; mas os senhores tinham n'esses feudos quasi absolutos direitos de soberania, absorvidos a pouco e pouco aos reis, agora confinados em pequenos Estados propriamente seus.

Em compensação, estes suzeranos recebiam dos feudatarios o respeito pessoal e a defeza da sua honra, auxilios prefixados em homens equipados a cargo dos mesmos feudatarios em caso de guerra e, emfim, rendas pecuniarias, ou certos impostos cobrados por conta do suzerano, que ás vezes tambem conservava o direito de justiça, funcção em geral independente dos senhores feudatarios. Esta organisação politica era, na realidade, uma federação de pequenos Estados, tendo um soberano ou imperador mais ou menos nominal.

O direito reconhecido aos senhores feudaes de crearem dentro dos seus Estados novos feudos, disseminava as baronias e originava uma hierarchia de suzeranos secundarios, seculares e ecclesiasticos. Os grandes dignitarios da egreja, os bispos, eram senhores feudaes na sua diocese e suzeranos nos seus Estados. As grandes doações, feitas á egreja, haviam multiplicado o numero dos senhores feudaes ecclesiasticos, que chegaram a possuir em França e Inglaterra o quinto das terras, e o terço na Allemanha.

N'esta organisação autonoma e guerreira sente-se claramente o espirito dos barbaros, que seculos antes haviam destruido o Imperio Romano. As violencias e as luctas intestinas entre estes senhores eram constantes e traduziam-lhes o caracter audacioso e cupido; o amor pelas aventuras e o desejo ardente do poder arremessavam-n'os uns sobre os outros, impondo-se reciprocamente pelo direito da força n'uma sociedade, onde eram mal reconhecidos pelos fortes e poderosos os principios do direito e os dictames da justiça. Assim, a egreja, em nome da religião, unica influencia energica sobre aquellas almas de bronze em corpos vestidos de ferro, procurou intervir, definindo com modestos resultados a trégua de Deus, a prohibição da lucta em certos dias da semana.

Estas poderosas unidades guerreiras repousavam, como era logico, sobre a servidão das classes civis, principalmente das mais numerosas e pobres. Em verdade, o Christianismo tinha adoçado o caracter duro e barbaro da escravidão classica. No regimen feudal, a classe dos miseraveis, os servos de gleba, que em torno dos castellos agricultavam a terra e eram herdados como fazendo parte d'ella e sendo verdadeiros instrumentos de trabalho, tinha subido um pouco na escala da escravatura, cujos pontos culminantes se desenham no mundo classico e depois no moderno, quando se desenvolveu o infame trafico das raças de côr, consideradas inferiores ás brancas. O feudalismo, repassado pela religião christã, olhava-os como homens, sem direitos politicos e civis é certo; mas estava longe, muito longe ainda, de os considerar, como o antigo regimen, o das monarchias absolutas fundadas no Catholicismo, o fez depois, uma multidão de miseraveis, sem garantias, sem direitos e quasi sem familia, que os cynicos dos seculos XVII e XVIII consideraram massa taillable, et corvéable à merci.

Assim, no segundo periodo da Edade-Media, pelo menos a grande maioria do povo—digamos a palavra—gozava de certas vantagens, que provinham dos dois espiritos em acção parallela: o germanico e o christão. A familia offerecia uma expressão mais elevada e perfeita. Na antiguidade o casamento era um contracto, na Edade-Media um sacramento, que ligava por toda a vida. O Christianismo consolidára a pedra angular das sociedades com a indissolubilidade do matrimonio. Depois, Jesus Christo encarnára-se no seio de uma mulher, a Virgem. O espirito germanico, acceitando estas doutrinas, trouxe a essa unidade da familia, onde o homem se completa, os seus caracteres de hombridade e de liberdade; o seu ponto de honra, emfim, que foi uma feroz creação moral do feudalismo, adoçada pelo Christianismo.

Ainda foi o espirito germanico que implantou no mundo romano o julgamento pelos eguaes—pelos pares—origem do moderno jury. Na Edade-Media o imposto era admittido pelos contribuintes, o que envolvia prévia consulta, nem sempre talvez respeitada, mas em summa reconhecida. A egreja, n'esse tempo ainda, conservava o principio electivo romano para as altas dignidades ecclesiasticas. Estes e outros principios temperavam um pouco a tyrannia feudal, e quasi todos elles desappareceram no regimen despotico das monarchias absolutas e da theocracia pontificia.

As classes civis na Edade-Media agrupavam-se nos grandes centros, onde se mantinham as transacções e as industrias rudimentares do tempo, e nos pequenos burgos, povoações dispersas creadas naturalmente, ou facilitadas pelos senhores dos feudos, que davam guarida e protecção aos fugitivos dos feudos limitrophes; além d'isso, eram formadas por essa multidão de servos de gleba, que dispersos ou concentrados perto dos castellos, constituiam os verdadeiros agricultores, como os sudras da India antiga.

O movimento communal nascera naturalmente nos grandes centros, promovido pelas causas geraes, precedentemente apontadas. Demos n'este ponto idéa da essencia e constituição d'este movimento, em que tiveram acção importante os trabalhadores d'esse tempo, como teem nos tempos modernos os operarios industriaes na formação das futuras sociedades socialistas.

A acção das associações, ou confraternidades operarias, na constituição das communas e a influencia que exerceu uma das mais poderosas, principalmente no periodo ogival, a dos franco-maçons constructores, obrigam-nos a abrir um parenthese para nos occuparmos das suas origens e dos seus fins. As origens provaveis estão nas associações romanas similares, ou por filiação directa e successiva, o que aliás não demonstra a historia no grande collapso do V ao X seculo, ou organisada sob a acção das tradições e das leis romanas na phase activa das construcções do primeiro e segundo periodo romanico, nos seculos XI e XII.

Pelo primeiro ou pelo segundo processo, ou talvez por ambos, ninguem póde deixar de reconhecer a profunda similhança entre as duas associações: as romanas e as da Edade-Media. Já no tempo da Republica, havia em Roma um collegio de pedreiros, cuja existencia se prolongou durante o Imperio. Constituia uma verdadeira associação de classe no sentido moderno da expressão, composta de architectos, pedreiros e canteiros ligados pelos principios da confraternidade moral, mutuo auxilio e protecção ao trabalho. O Estado reconhecera-lhe a existencia. Possuia estatutos, propriedades, salas de reunião; era, emfim, uma instituição legal.

No regimen interno, os associados, classificados mestres, companheiros e aprendizes, tinham assembléas deliberantes, secretarios, fundos proprios administrados por um thesoureiro, archivos, escolas, em summa, tudo que caracterisa uma poderosa associação. As praticas internas, mais ou menos secretas, empregavam symbolismos, entre os quaes figuravam as ferramentas dos respectivos officios.

Esta vasta associação espalhava-se por todo o Imperio—ella, as suas lojas filiaes, ou outras associações congeneres—era privilegiada pelas leis; por exemplo, não pagava impostos. N'estas condições, abrangia uma area tão extensa que existem d'ella noticias historicas na Gallia e na Bretanha, onde provavelmente deu origem, com outras associações romanas, aos primitivos guilds, os antecessores dos poderosos Trade-Unions da Inglaterra moderna.

Esta simples descripção, fornecida pelos escriptores romanos, manifesta similhanças tão singulares com os caracteres fundamentaes das grandes associações constructoras da franco-maçonaria, que pela filiação directa, o que nos parece mais plausivel, ou pela influencia da tradição, as mesmas idéas e os mesmos interesses approximaram estas classes de operarios, salvo as differenças provenientes da acção do Christianismo na Edade-Media.

Dos seculos V ao X, espaço de tempo a que chamamos o primeiro periodo medieval, as miserias, as crises sociaes e a acção mystica do Christianismo haviam desenvolvido o espirito cenobitico e monastico, como necessidade da segurança e do descanço do corpo, e da paz e da liberdade do espirito. As sciencias e as artes refugiaram-se nos primeiros conventos. Em 529, por exemplo, S. Benedicto fundou a celebre ordem dos benedictinos, a cujas praticas religiosas foram impostas tambem, como obrigações scientificas, a conservação da sciencia classica e a copia dos manuscriptos. Esta ordem poderosissima, cujos trabalhos valiosos são conhecidos, espalhou-se por todo o orbe christão, constituindo grandes e historicas abbadias.

Em volta d'estes conventos, que logicamente comprehendiam os architectos e os constructores dos mosteiros e dos templos, agruparam-se os operarios, organisando as primeiras associações christãs. Ora, a tradição e a essencia das grandes associaçães romanas deviam manter-se no espirito e nos archivos dos mosteiros d'esse tempo. Por esta fórma se explica a ligação, directa ou indirecta mas indiscutivel, das associações romanas e das medievaes.

Assim, os primeiros traços historicos da franco-maçonaria datam do seculo XI, isto é, do seculo em que se define o segundo periodo do Estylo Romanico. No seculo XIII, estas associações apparecem já independentes, com organisação completa e construindo as maiores cathedraes do Estylo Ogival. Teremos occasião de desenvolver o assumpto n'outra parte d'este livro.

É indiscutivel que as corporações de artes e mesteres, embora bem rudimentares n'essa epocha, feitas á imagem e similhança das romanas, deviam constituir grandes forças revolucionarias nos primeiros movimentos communaes. A communa nasce, pois, do amor da liberdade, manifestação do espirito germanico, do principio das organisações methodicas e regulares, tradição do espirito romano, e dos sentimentos de caridade e mutuo auxilio, essencia intima do Christianismo. Em nenhum facto historico da Edade-Media se distingue mais clara e profundamente a acção parallela e harmonica das tres manifestações d'esse espirito, de que falavam as escolas de Anaxagoras e de Socrates. A communa, todavia, representava tambem a ligação dos fracos quasi inermes, contra o feudalismo guerreiro e potente. A natureza intima d'esta instituição democratica provém de todos estes principios.

Os primeiros movimentos communaes accentuados datam do seculo XI, embora, como dissemos, as organisações municipaes romanas tivessem subsistido nos pontos do Imperio mais livres das invasões barbaras, por exemplo no sul da França. Nos seculos XII e XIII a organisação communal era já poderosa. Estas communhões, confederações, ou conjurações, segundo os nomes caracteristicos do tempo, haviam-se formado nos antigos centros, ou em centros novos. O seu principal fim, n'esses tempos de guerras e desastres, foi a defeza reciproca; a primeira obrigação dos cidadãos consistia em se reunirem armados, quando tocava a rebate o sino do campanario, em volta do qual se agrupava a communa, e d'onde esculcas vigilantes, noite e dia, espreitavam os perigos de subitas investidas. A organisação interna das communas nasceu logicamente d'estas agremiações primitivas, realisadas á sombra da egreja, que, ás vezes, constituia o ultimo baluarte das luctas entre os burguezes e a cavallaria feudal.

Pela habilidade, pela pertinacia, aproveitando com astucia as occasiões favoraveis das luctas entre os senhores feudaes e a sua necessidade de dinheiro, as communas foram obtendo a pouco e pouco a organisação autonoma, umas livres constituindo quasi feudos burguezes, se nos consentem a expressão, outras sujeitas ao delegado do senhor ou do suzerano, o preboste; mas todas reunindo uma força respeitavel, depois aproveitada pelos senhores mais habeis para instrumento dos planos de restauração da unidade do poder real, que antecedem e preparam a formação das monarchias do direito divino.

No seculo XIII as communas livres e do prebostado eram numerosas e os seus direitos mais ou menos reconhecidos por contratos, entre os senhores feudaes e as agremiações burguezas. Libertadas dos antigos serviços pessoaes, tendo uma organisação administrativa independente e electiva, que envolvia, ás vezes, o direito de justiça, em qualquer caso repousando sobre o julgamento dos pares, livres de tributos arbitrarios substituidos por contribuições fixas, as communas manifestam n'este seculo certa unidade de organisação e os caracteres de liberdade e de vida locaes.

Taes foram, descriptas na essencia e em rapidos traços, as duas forças, o feudalismo e as communas, que fizeram a historia do segundo periodo da Edade-Media. N'este meio social, se a ignorancia era profunda, as sciencias e as artes davam os primeiros passos. A Escholastica, nascida com o Imperador Carlos Magno, depois da morte de Alcuino e de Engenhard, perdera o brilho que attingira nas escolas e academias imperiaes. Revive no seculo XI, em que Abelard, celebre pelos seus amores com Heloisa, lhe imprime um vigoroso impulso, do qual resultará o grande movimento Escholastico do seculo XIII, com as figuras primaciaes de S. Thomás de Aquino, o auctor da Summula Theologica, e de Roger Bacon, o sabio universal e prophetico. Estes dois grandes homens representam duas escolas, a primeira que por evolução successiva devia produzir a theologia e a metaphysica, a segunda que originaria o methodo experimental e é a essencia positiva das sciencias modernas.

No seculo XI começam tambem as guerras religiosas, o embate das grandas forças do islamismo, accumuladas ao sul da Europa, e do Christianismo, occupando o centro e o norte. A primeira lucta corpo a corpo, travada nos campos da Palestina, constituiu a Cruzada do anno de 1096. O feudalismo move-se em peso e 600:000 guerreiros reunem-se em Constantinopla, ponto de partida. As populações servis da Europa christã respiram, alliviadas d'esta força tremenda, que vae a Jerusalem libertar o Santo Sepulcro. As fileiras rareadas do feudalismo facilitam a constituição communal. Alem d'isso, o movimento das Cruzadas, que dura dois seculos, activa as relações de todas as ordens com o Oriente, põe as nações occidentaes em mais directa communicação com a arte byzantina, que tanta influencia tivera já sobre o Estylo Latino, e contribue poderosamente para a riqueza e dispersão dos Estylos Romanico e Ogival.

N'este pequeno quadro dos seculos XI e XII pretendemos definir o meio social, em que se desenvolveram os mais completos estylos da arte christã. A pintura é incompleta, mas um trabalho d'esta natureza não se presta a maiores desenvolvimentos historicos. Os necessarios fal-os-emos tratando dos Estylos Romanico e Ogival. N'este ponto, basta notar que o espirito humano teve rapida e ascensional evolução nos dois seculos XI e XII, o periodo do Estylo Romanico, e que o seculo XIII representa na historia uma phrase brilhante, um relampago da Renascença, em que principia o periodo ogival.



CAPITULO SEGUNDO

ESPIRITO E CARACTERES DO ESTYLO ROMANICO



Os meios sociaes em que se formaram os Estylos Latino e Byzantino descrevemol-os, com rapidos traços, em anteriores capitulos. Seguindo o methodo adoptado, apreciámos as circumstancias historicas em que se operou a fusão d'esses estylos e fizemos depois o quadro do estado social dos seculos XI e XII, periodos medios durante os quaes se definiram as duas feições do Estylo Romanico, o da constituição perfeita e o da transição para o Estylo Ogival.

D'estes quadros, se embora curtos ficaram perfeitos, devemos tirar conclusões geraes. A fusão dos tres espiritos, o classico, o germanico e o christão, está quasi realisada. A homogeneidade do pensamento prepara a das sociedades. É a aurora do mundo moderno, que desponta ha oito seculos. São enormes os dias da historia da Humanidade; duram por longo tempo, como por myriades de seculos se contam os da historia da Natureza.

O espirito da liberdade começa o seu caminho, nem sempre directo e facil mas constante e orientado, para as instituições modernas. Essa força poderosa, a liberdade do pensamento, vae engrandecer as antigas sciencias, crear outras novas e, como a arte é uma sciencia, engrandecel-a tambem em todos os ramos, refundindo a antiga esthetica, como transformou a philosophia classica.

A tendencia para a ordem social produz a riqueza, a relativa instrucção desenvolve o gosto, elementos que constituem a melhor atmosphera do trabalho intellectual e da sua applicação pratica. As sciencias e as artes saem dos conventos, onde a barbarismo dos primeiros seculos as obrigára a procurar refugio. Os senhores fazem os seus votos e cumprem-n'os, elevando templos, e constróem castellos e palacios nos seus Estados. As communas nascentes edificam os seus campanarios e tambem os seus muros e fortalezas. A emulação estabelece-se. Os pequenos tyrannos até procuram salvar as almas, mercadejando com Deus e cobrindo o sangue dos assassinios e as torpezas dos actos com templos admiraveis. Sirva de exemplo a grande Cathedral de Milão, construida em 1386 por João Galeas Visconti, duque de Milão, um dos maiores malvados do seu tempo, aliás bem fertil em individualidades d'esta especie, dispersas por toda a Europa feudal.

O Christianismo domina sem rival; para elle começára tambem a unidade que teve depois n'outros seculos. Chame-se Catholicismo, religião reformada ou orthodoxa
grega, é sempre o mesmo espirito tendo acção identica sobre os destinos do orbe christão, que nós e os hespanhoes havemos de alargar mais tarde, descobrindo os mais longinquos confins do mundo.

Este bello movimento do espirito humano, iniciado nos seculos XI e XII, avigora-se no seculo XIII, cuja atmosphera facilitou a formação do Estylo Ogival, aquelle que até hoje produziu, em menos tempo, a maior quantidade de monumentos de todas as ordens, admiraveis manifestações de grandeza e de qualidades de arte. Agora, porém, circumscrevamos os nossos raciocinios ao Estylo Romanico secundario e ao terciario, chamado de transição, porque n'elle, durante o seculo XII, se opera a passagem para o Estylo Ogival.

As grandes provincias occidentaes do Imperio Romano, a Gallia, a Iberia, a Bretanha, haviam sido devastadas pelas invasões germanicas; a propria Italia, como vimos, soffrera os maiores flagellos, perdera primeiro a hegemonia e depois fôra arrancada á corôa imperial do oriente. A miseria era extrema em toda a parte. Na Italia, por exemplo, no principio do seculo VI, S. Benedicto retirava-se para Subiaco, a cem kilometros de Roma, para n'este vasto deserto levar vida contemplativa e ascetica, creando depois com os adherentes, que dia a dia se agrupavam em volta d'elle, a celebre ordem dos Benedictinos. Este estado social, perigoso e incerto, e o proprio mysticismo da religião christã crearam as primeiras associações religiosas, que satisfaziam ás necessidades do espirito e á segurança e ao socego dos homens, que não andavam envolvidos nas tremendas luctas do tempo. Taes são na essencia as origens das ordens religiosas, que, a pouco e pouco, principalmente depois das Cruzadas, se organisaram regularmente.

N'estas associações se refugiaram a sciencia, a philosophia e a arte, que precisam para boa cultura o socego do corpo e a tranquillidade do espirito. Algumas ordens religiosas, como as dos Benedictinos, tinham nos seus estatutos escriptos, além de regras e praticas religiosas, obrigações de caracter scientifico; ora, esta ordem teve, como é sabido, uma expansão enorme e rapida, depois da fundação, no seculo VI, do primeiro mosteiro em Monte Cassino. De facto, esta poderosa e sabia associação espalhou-se pelo occidente, dando origem a abbadias que ainda hoje teem nome na historia: em França as de Cluny e Citeaux, construidas nos seculos X e XI, na Allemanha as de Ratisbonne e Salsburg, em Inglaterra as de York e de Westminster, para não citar ainda mais outras. Tambem, nos ultimos seculos do primeiro periodo da Edade-Media até ao principio do seculo XI, se formou em Italia a associação civil dos irmãos pontifices, que depois se constituiu em ordem religiosa; os seus fins consistiam em construir e reparar pontes, facilitando assim o caminho das peregrinações, que se dirigiam aos logares santos e a outros pontos de veneração christã.

A existencia d'estas associações religiosas exigia a construcção de grandes edificios, para a vida em communidade, e a da egreja para os exercicios divinos. Os primeiros associados em Christo foram assim, logicamente, os architectos e constructores dos proprios templos; quasi os unicos quando as miserias da sociedade se accentuaram ainda mais nos seguintes seculos. Em volta dos conventos e das egrejas em construcção, agrupavam-se os operarios, os restos das antigas associações romanas, talvez, ou pelo menos gremios nascentes que mais tarde deviam dar origem á franco-maçonaria. Assim, ao lado da sociedade religiosa constituia-se outra associação civil, que os proprios superiores ou abbades cultivavam pela sciencia e pela religião, organisando-as e não desdenhando a honra de fazer parte d'estas corporações de artes e officios.

O movimento iconoclasta favorecia estas organisações, trazendo artistas experimentados do oriente, que no occidente procuravam o trabalho e a protecção dos conventos. Entre os grandes serviços que o Christianismo prestou á Humanidade, durante a Edade-Media, não foi este o menos importante: conservar a sciencia e a philosophia classica e desenvolver novas feições estheticas.

Assim correram as cousas até ao seculo IX, quando sobreveiu a grande invasão dos normandos, que, descendo do norte, infestaram o occidente da Europa, a França e principalmente a Bretanha. Estes grandes piratas do mar, que as tempestades levavam aonde elles queriam ir, assolavam, saqueavam e queimavam tudo na sua passagem, mais sequiosos de presa e mais brutos de sentimentos do que os proprios hunos de Atilla. A pouco e pouco, é certo, uma civilisação superior infiltrou-se-lhes no sangue e adoçou-lhes os costumes selvagens; mas os grandes males estavam feitos e era indispensavel reconstruir os edificios, as egrejas e os conventos, cujas ruinas, ainda negras do fumo dos incendios, attestavam a brutalidade dos novos invasores.

Os primeiros constructores christãos tinham encontrado edificios feitos, as basilicas; apropriaram-se d'ellas, imitaram-n'as por toda a parte, saqueando as riquezas dos antigos templos classicos para as adornar. Agora, os architectos occidentaes, os frades principalmente, encontravam-se em circumstancias differentes. As necessidades do culto tinham modificado as egrejas, embora conservando-lhes a antiga feição; a estabilidade das associações religiosas manifestava outras exigencias na duração dos edificios. O tempo e os flagellos da guerra haviam esgotado os thesouros, d'onde os antigos architectos tinham tirado a ornamentação dos templos primitivos; emfim, ao novo Estylo Byzantino, espalhado e conhecido no occidente, offerecia-se campo largo e aberto, onde a sua influencia se podia exercer com grande actividade. Todas estas condições especiaes tendiam a imprimir novos caracteres ás construcções architectonicas.

A solidez do edificio e a sua maior duração envolviam o problema da natureza da cobertura. Os novos constructores resolveram-n'o empregando a abobada, que fôra excluida das construcções primitivas do Estylo Latino e tinha sido raras vezes usada no Estylo Romanico primario. A abobada de volta inteira ou abatida era muito usada em Roma; mas os edificios escolhidos para egrejas ou para modelos dos templos do Estylo Latino, as basilicas, não a tinham, nem a comportavam, dadas as condições de estabilidade e de espessura dos muros, ou das columnas, sobre as quaes repousava a cobertura. A tradição, principalmente em materia religiosa, tem sempre grande força; por isso, as tradições da basilica foram, n'este ponto, quasi absolutamente conservadas.

Além d'isso, o Estylo Byzantino empregára a cupula de construcção difficil e a abobada em arco de circumferencia, facil de construir; estamos, pois, plenamente convencidos de que o caracter fundamental do Estylo Romanico secundario, a abobada, foi o resultado da influencia do novo estylo oriental. Mas o systema de cobertura abobadada exige, sem discussão, maior espessura de paredes, que lhe possam sustentar o peso e resistir ás pressões lateraes; por isso, os edificios romanicos apresentam estes caracteres, pela diminuição dos vãos abertos e pelo emprego de contrafortes e botareos. Aqui, são as proprias necessidades da construcção, que levam os architectos a adoptar os processos e as fórmas do Estylo Byzantino. Emfim, logicamente, se o arco de circumferencia predomina na parte principal do edificio, a harmonia do estylo indica-o para os outros elementos, portas, janelas e arcos, assim tambem traçados no Estylo Byzantino.

Os architectos latinos, acceitando a ordenação classica, preoccuparam-se pouco com os ornamentos externos; pelo contrario, a interior das basilicas deparára-se-lhes rica e era-lhes facilitada pelos excellentes materiaes e productos artisticos, com que topavam por toda a parte, restos conservados dos precedentes estylos. Os architectos romanicos trabalhavam em mais perfeita liberdade de acção; mas tinham poucos thesouros artisticos para ornamentação das egrejas. Além d'isso, a solidez dos edificios e a sua longa duração provavel convidavam-n'os a estudar e a realisar combinações estheticas, que os embellezassem no exterior.

A extensão do uso dos sinos e a invenção dos relogios exigiram a construcção de elevadas torres, que muitas vezes tambem, como já vimos, satisfaziam a necessidade de defeza, ultimo baluarte da communa, ou castello do convento. Era, pois, natural que essas torres symetricas, por exigencias estheticas e do clima ornadas de agulhas ou de elevados corucheus, se tornassem elementos principaes das fachadas mais ricas e grandiosas.

Por esta fórma, muito logicamente, se deduzem os caracteres fundamentaes do Estylo Romanico, devidos uns a influencias dos anteriores estylos, outros a necessidades de construcção, a novos usos e ritos e até á acção do clima, que em certas circumstancias influe sobre a escolha e emprego dos materiaes e por elles na formação dos estylos.

Expostas estas idéas geraes, que a nosso ver ligam as condições do meio social dos seculos XI e XII, durante os quaes o espirito humano manifestou determinada phase, com os caracteres do estylo que é a sua feição especial nesse periodo da evolução da arte, desçamos a explanações indispensaveis para melhor distinguir e apreciar o Estylo Romanico secundario, que reinou no seculo XII.

É bom notar que a classificação dos estylos por seculos é um pouco arbitraria; querendo, apenas, significar que dentro d'este espaço foi construida a maioria dos principaes monumentos de determinado estylo; o que não quer dizer que alguns o não fossem antes ou depois d'esse limite. Além d'isso, entre as differentes nações, que usaram do mesmo estylo, não se manifesta elle rigorosamente nos mesmos periodos, nem até offerece perfeita unidade e similhança de caracteres, que, pelo menos nos secundarios, apresentam differenças sensiveis provenientes de varias causas, entre as quaes o clima, os materiaes de construcção e as tradições locaes se devem considerar importantes.

As disposições anteriores das egrejas romanicas offerecem muitas variantes. Algumas, talvez as mais numerosas, seguem o typo tradicional das basilicas; tres naves, cortadas pelo transepto, a do centro mais ampla e prolongada pelo côro, que n'este estylo se alongou mais, constituido por um corpo recto terminado pela abside. Como vimos, no primitivo Estylo Latino a abside formava o presbyterio, depois seguiam-se o altar e o côro, dispostos já na nave central; nas egrejas romanicas estes tres elementos foram introduzidos na abside alongada por paredes rectilineas, espaço a que o uso deu o nome geral de côro. Proveiu este engrandecimento de necessidades do culto, da melhor separação do sanctuario em relação ao templo e do uso generalisado dos orgãos.

N'esta fórma, algumas vezes as naves lateraes avançam, ladeando o côro até á curva da abside, outras vezes circumdam-n'a por completo, constituindo a charola, ou deambulatorio, para o qual nos ultimos tempos se abriram capellas. Infelizmente, Portugal não possue exemplar algum completo e rico d'este estylo. Os que existem são pequenos, pobres e estragados por successivas restaurações antigas que lhes deturpam as fórmas e a ornamentação: mas a Sé de Lisboa, a que nos referiremos em capitulo especial, fornece exemplo das disposições particulares do Estylo Romanico.

N'este plano, o mais habitual, desenha-se com nitidez a cruz latina, formada pela nave central e pelo côro, cortados pelo transepto. Em algumas egrejas nota-se o facto singular do eixo do côro, em vez de prolongar o da nave central, inclinar-se para a direita do observador. Esta anomalia foi attribuida a defeitos de construcção descuidada, vulgar nos edificios romanicos menos importantes, ou ao symbolismo da inclinação da cabeça de Jesus Christo, quando expirou sobre a cruz. A segunda hypothese parece-nos mais provavel.

Outras egrejas offerecem a disposição octogonal, imitando n'este caso as byzantinas de S. Vital de Ravenna e do Santo Sepulcro de Jerusalem, que serviu de modelo, como era natural, a muitos templos, até com identica invocação. Existe n'este genero uma egreja, que nos parece constituir excepção muito singular, e onde em cada lado do octogono interior ha uma abside: a de S. Miguel de Entraigues, em França. Emfim, a planta circular, se não abunda, tem exemplos n'este estylo.

Em geral, a porta ou as tres portas de entrada defrontam com o côro; mas egrejas existem de duas absides ou córos fronteiros, isto é, tendo dois transeptos nos extremos da nave central; n'este caso as entradas são lateraes.

A cobertura empregada foi a abobada, principalmente a partir dos fins do seculo XI. Em data anterior nas egrejas subsistiram em geral as coberturas de madeira; este facto é muito provavel ter-se dado nas mais pobres e em regiões ricas de florestas. Assim, pareceu-nos que parte das egrejas das nossas povoações do norte foram do Estylo Romanico secundario ou do periodo de transição, restauradas no tempo ogival e no da renascença manuelina, de que teem em geral muitissimos elementos; ora, estas egrejas tiveram sempre, dada a espessura das paredes e das arcadas das naves, cobertura de madeira. Talvez possam dar d'isto exemplo duas pequenas egrejas excellentes, a de Caminha e a de Villa do Conde. Fazemos esta affirmação com reservas, porque entre nós as restaurações, em regra, foram tão más e radicaes, que mascararam a feição anterior dos edificios; mas que tenham sido do Estylo Romanico secundario ou do terciario, a sua cobertura foi sempre de madeira.

A fórma das abobadas póde reduzir-se a dois typos: o de volta inteira, ou o que resulta da penetração reciproca de cylindros ou cones de base circular, constituindo as abobadas de arestas, ou as de arco de claustro. Estas fórmas são fundamentaes nas construcções do segundo periodo romanico, porque a ogiva, quando apparece nos começos do seculo XII, caracterisa o terceiro periodo, o de transição, como veremos em breve.

Tambem o Estylo Romanico tem as cryptas do latino, maiores ou menores e em geral debaixo do côro, nas egrejas mais importantes.

Ainda as torres caracterisam este estylo. São relativamente pouco elevadas, massiças, ornadas de arcaturas, ou de arcos de volta inteira, e cobertas por agulhas de pequena altura. Umas vezes ficam separadas do corpo do edificio, como é de uso nos de Italia, outras vezes, fazendo parte d'este corpo, ou ornamentando-lhe a fachada. Algumas egrejas teem mais de uma torre, dispostas duas symetricas na fachada e uma outra sobre o cruzeiro, interiormente aberta, formando uma especie de zimborio, ou fechada pela propria abobada d'este cruzeiro. A Sé de Lisboa offereceu a primeira disposição. A terceira torre, caída pelo terramoto de 1755 e de que existem evidentes vestigios, denominava-se torre sineira, o que explica os seus fins especiaes, a que foram depois applicadas as grandes torres da fachada.

Um elemento, que nos parece constituir um dos caracteres importantes do estylo romanico, é a existencia de galerias, mais ou menos largas, sobre as arcadas que dividem a nave central das lateraes. Estas galerias, denominadas triforios, de pequenos arcos simples ou trilobados, são verdadeiras reminiscencias dos porticos superiores das basilicas, onde as viuvas e as virgens assistiam isoladas ás ceremonias religiosas. O exemplo encontra-se na Sé de Lisboa, guarnecida por um triforio nas paredes da nave central e nas do transepto. A construcção moderna tem columnellos com galba e capiteis de dimensões classicas; mas nas sondagens feitas foram encontradas as verdadeiras dimensões do triforio primitivo e o seu typo accentuadamente romanico. Tambem a Sé de Coimbra tem triforio; n'esta egreja, porém, a galeria é muito larga e de fórma especial.

As portas e as janelas são de volta inteira, onde, ás vezes, os arcos geminados byzantinos demonstram o parentesco proximo dos dois estylos. Os supportes, os pilares, as columnas e os capiteis, fugindo a todas as proporções classicas, manifestam-se rudes e fortes. Os grandes pilares das naves, até quando já tendem a tornar-se polystylos, são grossos e curtos. A expressão de força sobrepuja n'elles a de elegancia, dando-lhes, aliás, um aspecto grandioso; umas vezes, apresentam-se quadrados e lisos, ou com columnelos nichados nos angulos; outras vezes, cylindricos ou polygonaes, revestidos de meias columnas. Esta disposição prepara os pilares polystilos, isto é, ornados de finos e elevados columnelos, do Estylo Ogival.

Os capiteis apresentam variadissima ornamentação, em geral differente em todos elles, ainda que pertençam ao mesmo vão. Este facto caracteristico será explicado, quando tratarmos do Estylo Ogival. Offerecem a fórma de pyramides quadradas ou conicas, truncadas e invertidas, coroados por um simples abaco. As columnas desobedecem a todos os modulos classicos, não teem galba, apresentam-se cylindricas, em geral, ou ligeiramente conicas.

As arcadas de volta inteira são formadas de varias molduras, as mais ricas ornadas de desenhos, dos quaes já encontrámos alguns no Estylo Byzantino. No interior e no exterior dos edificios romanicos, as arcaturas, simples ou entrelaçadas, constituem ornamentos muito vulgares e elegantes das paredes, sobre as quaes teem maior ou menor saliencia.

O conjunto exterior dos edificios romanicos produz no espirito uma impressão caracteristica de força e severidade, embora tambem, ás vezes, de elegancia e riqueza. Os coroamentos elevados, em alguns edificios revestidos de ameias, sobre cornijas repousando em macheculis, as torres massiças e quadradas, os muros muito espessos revestidos de botareos pouco salientes, por entre os quaes se abrem as janelas, dão a estes grandes edificios um aspecto de fortificação, de que, em verdade, serviram muitas vezes nos tempos medievaes.

Ao vel-os, melancholicos e sombrios, parece que a sua grande alma de pedra sente ainda as impressões dolorosas das desgraças profundas e dos horriveis flagellos, atravessados pela Humanidade durante essa triste quadra da historia. O seu caracter religioso é para muitos mais completo e elevado do que o dos edificios ogivaes; por isso, hoje o Estylo Romanico começa a ser considerado mais verdadeira expressão da arte christã do que o ogival. Citamos a opinião por curiosidade, embora com ella não estejamos muito de accordo.

As fachadas romanicas variam muito, conforme a inspiração dos architectos, para que possam ser descriptas em schema desenvolvido; mas n'estas fachadas os portaes de entrada, em geral um ou tres, offerecem grande importancia. São formados de archivoltas de muitas molduras mais ou menos ornamentadas, repousando sobre capiteis e columnas da natureza anteriormente descripta. No fundo d'estes portaes de arcadas embocetadas e decrescentes, abre-se o vão da porta, offerecendo em geral um tympano de pedra, ora com baixos relevos symbolicos, ora liso ou formado de pequenos parallelipipedos. D'esta ultima disposição existe entre nós exemplo na antiga porta lateral da Sé de Lisboa, hoje restaurada. Algumas vezes o tympano era de pintura polychromica sobre fundo de ouro, systema que constitue, sem duvida, uma imitação pobre dos ricos tympanos byzantinos de mosaico, como se vêem em S. Marcos de Veneza. Por cima dos portaes, janelas da mesma disposição architectonica dão luz ás naves; a central é a origem da futura rosacea do Estylo Ogival.

O narthex, ou galilé, dos primitivos estylos conserva-se nas condições expostas n'outro ponto d'esta memoria.

A ornamentação geral é variada e caracteristica n'este estylo. Folhagens caprichosas entre phantasticos corvos e cabeças de expressões grotescas, combinações geometricas de galões recamados de perolas, zig-zags e arabescos impossiveis de definir constituem reminiscencias do Estylo Byzantino e são precursores do Estylo Ogival. Na porta lateral da Sé de Lisboa foram descobertos e restaurados dois capiteis do lado esquerdo, que nos parece envolverem uma excepção rarissima no Estylo Romanico. Na base dos capiteis, em cada um, duas pombas bem trabalhadas parece dão bicadas em cachos pendentes da folhagem. São dos mais bellos capiteis que temos visto. A pintura polychromica apresenta-se, ás vezes, nos capiteis dourados, de que existem traços evidentes na Sé de Lisboa, ou pintados, assim como os fustes das columnas, as molduras das archivoltas e certos pontos das paredes.

É evidente que a abundancia e perfeição dos ornamentos dependem da edade do estylo, mais rudes e simples no primitivo, mais perfeitos e variados quando se approxima o Estylo Ogival. Assim, quasi todos os elementos principaes d'este futuro estylo se encontram, mais ou menos esboçados no romanico.

Seria quasi impossivel comprehender bem os dois estylos sem os comparar, estudando-os separadamente. No Estylo Romanico, o caracter de todos os elementos é a força e a severidade: no Ogival a elegancia e a suavidade, que mascaram a força sem a diminuir, a não ser na decadencia d'este ultimo.

Eis em rapidos traços os caracteres mais salientes e geraes do Estylo Romanico secundario. Em verdade, não são muito accentuados, exceptuando a abobada, por isso, o estylo talvez seja definido, ou pelo menos completada a definição, pelos caracteres ornamentaes, aliás, tambem sujeitos ás condições particulares e aos materiaes empregados nos differentes paizes. Assim, no sul da França, como na Italia, onde reinou mais accentuadamente o Estylo Byzantino, os edificios romanicos teem qualidades um pouco differentes, embora sempre subordinadas ás regras geraes e ás feições do estylo. Os do sul são mais leves e cuidados do que os do norte; na Allemanha e na Inglaterra manifestam-se mais pesados e de ornamentação mais barbara e primitiva. Em qualquer caso, a grande influencia do Estylo Byzantino, na constituição da architectura dos seculos XI e XII, manifesta-se incontestavel.

O Estylo Romanico terciario—o de transição—apresenta os mesmos caracteres do secundario; comtudo um elemento não empregado no periodo anterior, o arco em ogiva, produz logicamente importantes modificações na disposição geral dos edificios. Este arco deve ter sido conhecido em todas as nações da antiguidade, que tiveram grandes constructores e edificios importantes. Se o não empregaram em grande escala, foi decerto porque a natureza dos respectivos estylos, com tendencias horisontaes nas linhas mais apparentes, não se adequava estheticamente ás disposições inversas do arco ogival. As investigações scientificas vão demonstrando este facto e o futuro nos dirá o que se póde ainda descobrir.

O arco em ogiva tem propriedades mechanicas tão evidentes em si, tão faceis de provar pelo simples raciocinio e pela mais modesta experiencia, que seria quasi uma offensa á capacidade, aliás extraordinaria, de alguns architectos classicos suppôr que não lhes foram conhecidas e portanto que não applicaram o arco ogival, quando as condições o exigiram. Todos sabem, com effeito, os extremos cuidados de construcção, na perspectiva e na disposição dos materiaes, que os architectos classicos empregaram no Parthenon: sciencia tão profunda, demonstrada pelo moderno estudo do monumento, como depois não houve exemplo, e em que foram até attendidos os erros visuaes nas grandes linhas horisontaes e perpendiculares. Negar a estes e a outros famosos architectos perfeito conhecimento das vantagens da applicação da ogiva seria um indiscutivel absurdo.

No arco em ogiva as componentes horisontaes das pressões, exercidas sobre os pilares, são menores do que no arco de volta inteira e decrescem successivamente com a maior altura da ogiva. Este theorema é tão facil que a mechanica de todos os tempos o devia ter demonstrado. As rasões pelas quaes começou a ser usado no segundo periodo romanico e depois teve geral emprego no Estylo Ogival, a que deu o nome, eis o que nos cumpre investigar como inducção interessante.

É muito provavel que a solidez e a economia das construcções fossem a rasão suprema da sua adopção, sem, todavia, deixarmos de considerar as condições estheticas de edificios, como os romanicos, que iam tomando fórmas elevadas e ponteagudas, repellindo por sua natureza as grandes linhas horisontaes e as curvas continuas. As qualidades estaticas do arco em ogiva prestavam-se a diminuir a espessura das paredes, isto é, davam aos edificios egual solidez real e tornavam-n'os mais economicos, elegantes e ideaes, se nos permittem a palavra; correspondendo, assim, ao espirito essencialmente mystico e religioso que o Christianismo havia desenvolvido na Edade-Media. A ogiva apparece, pois, como elemento logico de um estylo e expressão esthetica do estado especial do espirito humano no periodo historico, que procurámos definir n'outros capitulos d'este livro.

Cumpre-nos, todavia, observar que a ogiva, só por si, não caracterisa o terceiro periodo romanico. Os edificios tomam, sem duvida, um aspecto mais leve; mas a ornamentação tambem offerece transformações importantes. O trabalho é mais perfeito. Novo systema de molduras substitue em parte as primitivas, os ornamentos mais pesados apparecem rejuvescidos, outros novos são creados; emfim, a guarnição vegetal, precursora do ogival, desenvolve-se n'este periodo.

Na esculptura e na pintura persiste a fórma ascetica, delgada e alta, de roupagens de pregas parallelas e apertadas, da arte byzantina. As physionomias são graves e serenas, traduzindo o extasi mystico, de quem abandona o corpo esqueletico e macerado n'este mundo e deixa voar a alma livre para a celeste beatitude do espirito; verdadeiras fórmas hieraticas e tradicionaes, e porque o são, seccas e sem movimento.

Uma decoração magnifica começa a manifestar grande desenvolvimento no ultimo periodo do Estylo Romanico: os vitraes, as vidraças coloridas das janelas. O uso dos vidros nas egrejas parece haver começado no seculo X. É muito provavel que os vitraes ordinarios substituissem longo tempo antes as laminas de pedra rendilhada, que encontrámos no Estylo Latino. Que esses vitraes fossem depois superficialmente pintados, tambem é de crer; mas o verdadeiro vidro polychromico, com a côr fundida e incrustada na massa, não apparece senão no seculo XII, por modo incontestavel e com desenvolvida applicação, de que existem ainda alguns exemplares.

Estes vitraes primitivos offerecem caracteres definidos, pelos quaes é relativamente facil conhecel-os. O tecido de chumbo, que sustenta e encastra as pequenas placas de vidro, tem malhas muito miudas, visto que n'esse tempo cada côr differente correspondia a uma só malha, sendo divididas em muitas as côres de grande superficie, por necessidade de construcção da vidraça. O fundo do quadro offerece, em geral, um mosaico azul. Na parte superior do vitral desenha-se, conforme o periodo, a ogiva ou o arco inteiro, sobrepujando pequenos quadros de scenas do Antigo e Novo Testamento ou de lendas christãs, onde as figuras, bem como alguns ornamentos, manifestam claramente a influencia da arte byzantina nas disposições, no desenho e nas roupagens. Em geral, a côr dos objectos representados não corresponde á natural, sendo as côres escolhidas mais no proposito decorativo do que no da expressão da realidade, que entre certos limites lhes deu a natureza. Esta Estes vitraes primitivos offerecem caracteres definidos, pelos quaes é relativamente facil conhecel-os. O tecido de chumbo, que sustenta e encastra as pequenas placas de vidro, tem malhas muito miudas, visto que n'esse tempo cada côr differente correspondia a uma só malha, sendo divididas em muitas as côres de grande superficie, por necessidade de construcção da vidraça. O fundo do quadro offerece, em geral, um mosaico azul. Na parte superior do vitral desenha-se. conforme o periodo, a ogiva ou o arco inteiro, sobrepujando pequenos quadros de scenas do Antigo e Novo Testamento ou de lendas christãs, onde as figuras, bem como alguns ornamentos, manifestam claramente a influencia da arte byzantina nas disposições, no desenho e nas roupagens. Em geral, a côr dos objectos representados não corresponde á natural, sendo as côres escolhidas mais no proposito decorativo do que no da expressão da realidade, que entre certos limites lhes deu a natureza. Esta admiravel ornamentação, cujo effeito é surprehendente, attinge a maior perfeição no Estylo Ogival; para elle, pois, reservamos mais algumas considerações.

Julgamos haver dito o sufficiente para caracterisar o Estylo Romanico nos dois periodos, o secundario e terciario. Accrescentaremos, apenas, que a classificação dos edificios, principalmente nas epocas de transição de estylos limitrophes, é assumpto delicado, que exige sobretudo muita experiencia e observação de exemplares bem definidos. As idéas geraes não bastam, nem é sufficiente o estudo dos livros. É preciso pela experiencia ter apurado a critica e a sciencia, possuir um senso esthetico educado; uma cousa correspondente a essa qualidade singular que teem os grandes medicos de diagnosticar a doença, quasi adivinhando-a pela simples observação do enfermo.

Além disso, é indispensavel conhecer a historia do monumento, se elle a tem escripta, aliás refazel-a com successivas investigações, estudando pedra a pedra, elemento a elemento, porque nos periodos de transição, principalmente, tudo se sobrepõe e combina por tal fórma que o enygma parece sorrir dos nossos esforços em cada canto dos monumentos.

Entre nós, citaremos um exemplo: ainda hoje vacillamos sobre se a egreja de Alcobaça deve ser considerada romanica do terceiro periodo, ou já ogival. Nas arcadas do côro, mascarada por bellos intercolunmios jonicos manifesta-se o romanico, talvez do segundo periodo, depois, no corpo da egreja, as ogivas dos arcos e das abobadas casam-se com pilares ainda de caracter romanico.

Restaurações successivas, feitas em largos periodos, desnorteiam o observador. Exceptuando, pois, a fachada, do feio e pesado Estylo da Renascença dos principios ou meiados do seculo XVII, parece-nos ser esta egreja um soffrivel exemplar do romanico de transição. Discutiremos este assumpto, interessante sob o aspecto da classificação architectonica dos nossos monumentos, em um dos seguintes capitulos d'este livro.



CAPITULO TERCEIRO

A SÉ PATRIARCHAL DE LISBOA E A SUA RESTAURAÇÃO



Não pretendemos fazer uma monographia da Sé de Lisboa; nem o edificio tem valor architectonico que mereça investigações demoradas, nem ácerca d'elle existem documentos ou dados provaveis, que possam facilitar similhante trabalho. A carencia de elementos historicos, regra pelo menos nos monumentos nacionaes primitivos, não soffre excepção na antiga cathedral metropolitana, cujos archivos foram em grande parte destruidos pelo incendio, que seguiu o terremoto de 1755.

Assim, citamos esta egreja como simples exemplo nacional do Estylo Romanico; porque foi, sem duvida, o melhor dos edificios d'este estylo existentes em Portugal. Effectivamente, entre nós devem apenas considerar-se de relativa importancia, como monumentos romanicos, a Sé de Lisboa, a Sé Velha de Coimbra e a da Guarda, porque, se algumas outras egrejas começaram por ser d'este estylo, successivas reconstrucções e restaurações no periodo ogival e no da renascença mascararam-lhe quasi por completo as feições. Alem d'isso, são estes templos os de maiores dimensões, e excepcionalmente podemos encontrar pelo paiz alem d'elles uma ou outra pequena egreja ou capella do Estylo Romanico, mais ou menos puro.

Ainda assim, dos tres modestos exemplares romanicos, que possuimos, dois, a Sé de Lisboa e a da Guarda, acham-se mais ou menos profundamente alterados por obras realisadas em differentes seculos, algumas assás barbaras. Apenas, o terceiro, a Sé Velha de Coimbra, teve nos ultimos annos conscienciosa restauração, que a repoz quanto foi possivel no estado primitivo. Pensou-se, tambem, ultimamente na Sé de Lisboa e n'este sentido alguma cousa se tem feito; mas tão profunda é a ruina d'este templo e do respectivo claustro, que a estas obras talvez melhor se deverá chamar dispendiosa reconstrucção, do que simples e economica restauração.

Apesar do exposto, faremos rapido bosquejo historico ácerca da Sé Patriarchal de Lisboa; templo que, embora nunca fosse grandioso de dimensões ou rico e cuidado de estylo, deve merecer attentos trabalhos de reconstrucção e de restauração, visto que representa a primeira egreja do paiz na ordem da hierarchia ecclesiastica e é a cathedral de uma importante cidade da Europa.

Sobre o solo de Lisboa, atravez dos longos seculos da sua existencia historica, têem-se succedido muitas invasões de povos de differentes raças e religiões. Sem falarmos, pois, em celtas, phenicios e carthaginezes, que mais ou menos se perdem na noute mythica dos tempos, occuparam-n'a os romanos em primeiro logar, vencidos depois pelos barbaros, alanos, suevos e visigodos, que a seu turno foram dominados pelos arabes, sendo, emfim, estes ultimos expulsos de Lisboa por D. Affonso Henriques, primeiro rei de Portugal. É evidente que n'esta longa serie de seculos, Lisboa atravessou vicissitudes e condições diversas. Foi pagã e polytheista com os romanos, christã ariana com os visigodos, professou o Islamismo com os arabes e o Christianismo orthodoxo, quando assumiu a posição de metropole do pequeno reino de Portugal.

Apesar d'estes estados diversos e duradouros, Lisboa nunca foi uma cidade importante. Os romanos não eram navegadores e o seu commercio, quasi exclusivamente terrestre e oriental, não podia valorisar o excellente estuario do Tejo. Os barbaros constituiam nações rudes ainda, essencialmente guerreiras, embora já penetradas pela civilisação romana e pelos ideaes christãos. Os arabes, finalmente, mais puros e civilisados, haviam-se concentrado no sul da Hespanha, na Andaluzia e em volta de Cordova, a capital do grande Khalifado do Occidente, abandonando as regiões mais occidentaes da peninsula iberica a raças e tribus mais guerreiras e illetradas.

Assim se explica a pobreza quasi absoluta de monumentos arabes na zona de Portugal, que foi habitada por esta raça, emquanto a Andaluzia está cheia de ricas construcções do Estylo do Khalifado, algumas ainda assás completas, como a mesquita de Cordova, o Alcaçar de Sevilha e o Alhambra de Granada, sem falarmos de edificios de menor importancia e de trechos e vestigios, que attestam o grau da elevada civilisação dos arabes, que povoaram aquella parte da Hespanha.

A importancia da cidade de Lisboa nos periodos romano, visigodo e arabe foi sempre secundaria. A sua transformação profunda em verdadeiro emporio commercial proveiu de dois factos posteriores na Historia da Humanidade: a irradiação, para outros pontos do globo, da civilisação dos povos e das nações, dispostas ao longo das costas do Mediterraneo, onde ella se conservou durante os tempos classicos; e a descoberta do caminho maritimo da India e dos vastos continentes da America, que annullou os emporios de Marselha, Genova e Veneza, deslocando os antigos caminhos commerciaes. A grandeza um pouco ephemera de Lisboa manifesta-se nos ultimos quarteis do seculo XV e nos dois primeiros do seculo XVI.

Não admira, pois, que a capital portuguesa fosse sempre tão pobre de monumentos primitivos; quando, alem d'isso, a sua precaria situação na zona dos terremotos não tendesse a destruir os poucos, que o trabalho de longos seculos penosamente accumulou na sua antiga área.

Por muito secundaria que fosse, todavia, a importancia de Lisboa, romanos, godos e arabes n'ella edificaram templos, de que hoje não restam os menores vestigios, a não ser em vagas tradições, colhidas em antigos escriptos. Assim, a antiga Sé de Lisboa teria sido edificada nas proximidades, se não no proprio local, de um templo classico, substituido depois por um templo godo, a seu turno transformado em mesquita no tempo do dominio arabe. Esta tradição é mais do que plausivel, se attendermos á tendencia das religiões victoriosas em se apossarem dos templos das religiões vencidas, facto de que existem numerosos e incontestaveis exemplos em differentes epocas e em diversas nações. A este ponto interessante da Historia da Arte e das Religiões nos referimos n'outro capitulo d'este livro.

A tradição, que affiança haver sido a actual Sé uma antiga mesquita arabe, é evidentemente absurda. Não só o estylo do templo é accentuadamente romanico; mas, se elle houvesse sido construido nos curtos periodos, durante os quaes os christãos occuparam Lisboa depois da conquista dos arabes, estes, voltando a dominar na cidade, teriam apropriado a egreja ao seu culto, caracterisando-a com construcções e ornamentos especiaes, de que não se encontram os menores vestigios.

Seria, porém, o actual edificio da Sé de Lisboa levantado no local de uma mesquita arabe?

Esta tradição parece-nos muito fundada; não suppomos, todavia, que a construcção arabe podesse ser de grande importancia. As mesquitas de Lisboa não deviam soffrer comparação com as de Toledo, Cordova, Granada e Sevilha, centros da civilisação arabe. A Cathedral de Sevilha, por exemplo, repousa sobre o local de uma grandiosa mesquita, da qual se conservam ainda hoje, junto á mesma cathedral, o espaçoso pateo, que precedia as mais consideraveis mesquitas, e a magnifica torre, um primor do Estylo do Khalifado, bem conhecida pelo nome de Giralda.

Seja qual fôr o valor d'estas presumpções, a melhor opinião, fundada em argumentos de ordem historica e architectonica, consiste, segundo pensamos, em que o edificio actual se deve attribuir a D. Affonso Henriques e foi levado a effeito logo depois da conquista de Lisboa aos arabes, em outubro de 1147.

Devia ser rapida a construcção. A simplicidade architectonica e a pobreza de ornamentação, que manifesta a parte primitiva do edificio, não exigiram, de certo, planos muito estudados e completos, nem a propria construcção foi muito cuidada quer na escolha, quer na disposição dos materiaes. Forçoso é confessal-o, embora destôe um pouco dos louvores hyperbolicos de alguns escriptores nacionaes: o edificio da Sé de Lisboa é de acanhadas proporções, de muito pobre estylo e de construcção bastante ordinaria.

Sendo muito provavel que as obras começassem logo após a conquista, não é facil determinar a respectiva duração. O conego Vieira da Silva, em memoria annotada por D. Francisco de S. Luiz, Cardeal Patriarcha em meiados do seculo XIX, deduz, de varios documentos e de investigações proprias, que a primeira constituição do Cabido da Sé de Lisboa data do anno de 1150.

Estaria o primitivo templo acabado n'esse anno, ou pelo menos achar-se-ia já muito adeantado e proximo do seu fim?

Não custa a acredital-o. Em tres annos não seria grande difficuldade elevar edificio d'esta natureza; principalmente se tivermos em attenção que a silharia n'elle empregada foi, sem duvida, explorada em pedreiras muito proximas das respectivas obras.

Uma observação interessante devemos fazer n'esta altura: o primeiro bispo de Lisboa, capital de Portugal, foi o inglez Gilberto. Ora, em Inglaterra floresceu o Estylo Romanico, a que pertence a parte primitiva da Sé Patriarchal.

Depois da sua fundação, o primitivo edificio soffreu muitas reconstrucções, restaurações e alargamentos, dos quaes alguns motivados pelas necessidades do culto e outros provenientes da falta de alojamentos internos para o numeroso pessoal, que exigem a guarda e os serviços religiosos de uma cathedral. As barbaridades artisticas e de construcção, que por estas razões se praticaram, seriam inacreditaveis, se grande parte d'ellas não fossem directamente observadas pelo auctor d'este livro e algumas não existissem ainda, attestando o mau gosto, a ignorancia e o desprezo pelos monumentos e pelas tradições, que ás vezes caracterisa o espirito nacional desde os tempos mais remotos até aos nossos dias.

Seguindo a planta da Sé no seu estado actual, isto é, na data em que escrevemos este livro, é fácil formar clara idéa do plano primitivo da velha egreja de D. Affonso Henriques e das principaes transformações, que ella soffreu durante sete seculos e meio; por isso, chamamos a attenção do leitor para a respectiva planta, observando-lhe que os seus differentes tons correspondem a periodos distinctos da construcção.

A primitiva egreja foi de Estylo Romanico do melhor periodo—o secundario—que em geral floresceu no occidente e no centro da Europa no seculo XI. Quando se levantava a Sé de Lisboa, em meiados do seculo XII, já o Estylo Romanico em geral attingira o periodo terciario, preparando a transição para o Estylo Ogival. Este relativo atrazo não deve, comtudo, causar surpreza; póde considerar-se quasi regra geral na evolução da arte portuguesa em relação á das restantes nações centraes da Europa.

Apesar de coberta de horriveis estuques, que a mascaram ridiculamente de Estylo Classico, e das reconstrucções ogivaes posteriores, não encontrámos durante o estudo minucioso, que temos feito d'esta construcção, um só elemento, que possa contrariar a sua classificação no Estylo Romanico secundario.

A planta primitiva era elegante. A nave central, o transepto e capella-mór formavam uma cruz latina. As naves lateraes avançavam, envolvendo a capella mór, isto é, formavam deambulatorio, ou charola. Não é muito frequente esta disposição no Estylo Romanico secundario; mas, evidentemente, a disposição da planta exige-a como condição indispensavel e de elegancia. Alem d'isso, se não é possivel demonstrar directamente a existencia da charola romanica na Sé de Lisboa, na egreja de Alcobaça, sua coéva, a existencia prova-se pelas fortes columnas e arcadas da capella-mór, que abriam, sem a menor duvida, para uma primitiva charola romanica. Não nos parece nada provavel que a charola romanica da Sé tivesse capellas; como não as tinha talvez tambem a primitiva de Alcobaça. N'uma e n'outra egreja, estas capellas provéem de restaurações ou reconstrucções ogivaes.