Dies irae, dies ille
Solvent seculum in faville.
N'esse dia um panico profundo envolveu todos os
espiritos. As egrejas encheram-se de fieis, que esperavam
a catastrophe entre prantos e rezas; ora, por uma
doce ironia da natureza, a aurora do primeiro dia do
seculo XI raiou esplendida.
Para apreciar bem a importancia d'este facto, que
hoje parece pueril, é preciso transportarmo-nos aos
primitivos tempos da Edade-Media, avaliarmos a ignorancia
extrema de todas as classes sociaes, com rarissimas
excepções e essas escondidas principalmente
nos conventos; apreciarmos, emfim, o espirito publico
n'um tempo em que primava a idéa religiosa, não
tendo outros competidores.
A passagem do perigo imminente alliviou a alma
humana, dando-lhe expansão ás faculdades
creadoras
e activando-lhe o exercicio do trabalho. Assim, o segundo
periodo da Edade-Media é bem differente do
primeiro.
No seculo XI, a sociedade christã entrou n'uma
evolução
accentuada. O feudalismo achava-se quasi constituido.
Esta nova organisação social espalhou-se pela
superficie do antigo imperio de Carlos Magno. A terra,
toda dividida em
feudos, pertencia
aos suzeranos; mas
os
senhores tinham n'esses feudos
quasi absolutos direitos
de soberania, absorvidos a pouco e pouco aos reis,
agora confinados em pequenos Estados propriamente
seus.
Em compensação, estes suzeranos recebiam dos
feudatarios
o respeito pessoal e a defeza da sua honra,
auxilios prefixados em homens equipados a cargo dos
mesmos feudatarios em caso de guerra e, emfim, rendas
pecuniarias, ou certos impostos cobrados por conta do
suzerano, que ás vezes tambem conservava o direito de
justiça, funcção em geral independente
dos senhores
feudatarios. Esta organisação politica era, na
realidade,
uma federação de pequenos Estados, tendo um
soberano ou imperador mais ou menos nominal.
O direito reconhecido aos senhores feudaes de crearem
dentro dos seus Estados novos feudos, disseminava
as baronias e originava uma hierarchia de suzeranos
secundarios, seculares e ecclesiasticos. Os grandes
dignitarios da egreja, os bispos, eram senhores feudaes
na sua diocese e suzeranos nos seus Estados. As grandes
doações, feitas á egreja, haviam
multiplicado o
numero dos senhores feudaes ecclesiasticos, que chegaram
a possuir em França e Inglaterra o quinto
das terras, e o terço na Allemanha.
N'esta organisação autonoma e guerreira sente-se
claramente o espirito dos barbaros, que seculos antes
haviam destruido o Imperio Romano. As violencias
e as luctas intestinas entre estes senhores eram
constantes e traduziam-lhes o caracter audacioso e cupido;
o amor pelas aventuras e o desejo ardente do
poder arremessavam-n'os uns sobre os outros, impondo-se
reciprocamente pelo direito da força n'uma sociedade,
onde eram mal reconhecidos pelos fortes e
poderosos os principios do direito e os dictames da justiça.
Assim, a egreja, em nome da religião, unica influencia
energica sobre aquellas almas de bronze em
corpos vestidos de ferro, procurou intervir, definindo
com modestos resultados a
trégua de
Deus, a prohibição
da lucta em certos dias da semana.
Estas poderosas unidades guerreiras repousavam,
como era logico, sobre a servidão das classes civis,
principalmente das mais numerosas e pobres. Em verdade,
o Christianismo tinha adoçado o caracter duro e
barbaro da escravidão classica. No regimen feudal,
a classe dos miseraveis, os
servos de
gleba, que em
torno dos castellos agricultavam a terra e eram herdados
como fazendo parte d'ella e sendo verdadeiros
instrumentos de trabalho, tinha subido um pouco na
escala da escravatura, cujos pontos culminantes se desenham
no mundo classico e depois no moderno,
quando se desenvolveu o infame trafico das raças de
côr, consideradas inferiores ás brancas. O
feudalismo,
repassado pela religião christã, olhava-os como
homens,
sem direitos politicos e civis é certo; mas estava
longe, muito longe ainda, de os considerar, como o
antigo regimen, o das monarchias
absolutas fundadas
no Catholicismo, o fez depois, uma multidão de miseraveis,
sem garantias, sem direitos e quasi sem familia,
que os cynicos dos seculos XVII e XVIII consideraram
massa
taillable, et corvéable à
merci.
Assim, no segundo periodo da Edade-Media, pelo
menos a grande maioria do povo—digamos a
palavra—gozava
de certas vantagens, que provinham dos
dois espiritos em acção parallela: o germanico e
o christão.
A familia offerecia uma expressão mais elevada e
perfeita. Na antiguidade o casamento era um contracto,
na Edade-Media um sacramento, que ligava por
toda a vida. O Christianismo consolidára a pedra angular
das sociedades com a indissolubilidade do matrimonio.
Depois, Jesus Christo encarnára-se no seio de
uma mulher, a Virgem. O espirito germanico, acceitando
estas doutrinas, trouxe a essa unidade da familia,
onde o homem se completa, os seus caracteres de
hombridade e de liberdade; o seu
ponto de
honra, emfim,
que foi uma feroz creação moral do feudalismo,
adoçada pelo Christianismo.
Ainda foi o espirito germanico que implantou no
mundo romano o julgamento pelos eguaes—pelos
pares—origem do moderno jury. Na Edade-Media
o imposto era admittido pelos contribuintes, o que envolvia
prévia consulta,
nem sempre talvez respeitada,
mas em summa reconhecida. A egreja, n'esse
tempo ainda, conservava o principio electivo romano
para as altas dignidades ecclesiasticas. Estes e outros
principios temperavam um pouco a tyrannia feudal,
e quasi todos elles desappareceram no regimen
despotico das monarchias absolutas e da theocracia
pontificia.
As classes civis na Edade-Media agrupavam-se nos
grandes centros, onde se mantinham as transacções
e
as industrias rudimentares do tempo, e nos pequenos
burgos, povoações dispersas creadas naturalmente,
ou facilitadas pelos senhores dos feudos, que davam
guarida e protecção aos fugitivos dos feudos
limitrophes;
além d'isso, eram formadas por essa multidão
de
servos de gleba, que dispersos ou
concentrados perto
dos castellos, constituiam os verdadeiros agricultores,
como os
sudras da India antiga.
O movimento communal nascera naturalmente nos
grandes centros, promovido pelas causas geraes, precedentemente
apontadas. Demos n'este ponto idéa
da essencia e constituição d'este movimento, em
que
tiveram acção importante os trabalhadores d'esse
tempo, como teem nos tempos modernos os operarios
industriaes na formação das futuras sociedades
socialistas.
A acção das associações, ou
confraternidades operarias,
na constituição das communas e a influencia
que exerceu uma das mais poderosas, principalmente
no periodo ogival, a dos
franco-maçons
constructores,
obrigam-nos a abrir um parenthese para nos occuparmos
das suas origens e dos seus fins. As origens
provaveis estão nas associações
romanas similares, ou
por filiação directa e successiva, o que
aliás não demonstra
a historia no grande collapso do V ao X
seculo, ou organisada sob a acção das
tradições e
das leis romanas na phase activa das construcções
do primeiro e segundo periodo romanico, nos seculos
XI e XII.
Pelo primeiro ou pelo segundo processo, ou talvez
por ambos, ninguem póde deixar de reconhecer a profunda
similhança entre as duas associações:
as romanas
e as da Edade-Media. Já no tempo da Republica,
havia em Roma um collegio de pedreiros, cuja existencia
se prolongou durante o Imperio. Constituia uma
verdadeira associação de classe no sentido
moderno da
expressão, composta de architectos, pedreiros e canteiros
ligados pelos principios da confraternidade moral,
mutuo auxilio e protecção ao trabalho. O Estado
reconhecera-lhe
a existencia. Possuia estatutos, propriedades,
salas de reunião; era, emfim, uma
instituição
legal.
No regimen interno, os associados, classificados
mestres, companheiros e aprendizes, tinham assembléas
deliberantes, secretarios, fundos proprios administrados
por um thesoureiro, archivos, escolas, em
summa, tudo que caracterisa uma poderosa
associação.
As praticas internas, mais ou menos secretas,
empregavam symbolismos, entre os quaes figuravam
as ferramentas dos respectivos officios.
Esta vasta associação espalhava-se por todo o
Imperio—ella,
as suas lojas filiaes, ou outras associações
congeneres—era privilegiada pelas leis; por exemplo,
não pagava impostos. N'estas
condições, abrangia uma
area tão extensa que existem d'ella noticias historicas
na Gallia e na Bretanha, onde provavelmente deu origem,
com outras associações romanas, aos primitivos
guilds, os antecessores dos
poderosos Trade-Unions da
Inglaterra moderna.
Esta simples descripção, fornecida pelos
escriptores
romanos, manifesta similhanças tão singulares com
os
caracteres fundamentaes das grandes associações
constructoras
da
franco-maçonaria, que
pela filiação directa,
o que nos parece mais plausivel, ou pela influencia
da tradição, as mesmas idéas e os
mesmos interesses
approximaram estas classes de operarios, salvo as
differenças
provenientes da acção do Christianismo na
Edade-Media.
Dos seculos V ao X, espaço de tempo a que chamamos
o primeiro periodo medieval, as miserias, as crises
sociaes e a acção mystica do Christianismo haviam
desenvolvido o espirito cenobitico e monastico, como
necessidade da segurança e do descanço do corpo,
e
da paz e da liberdade do espirito. As sciencias e as
artes refugiaram-se nos primeiros conventos. Em 529,
por exemplo, S. Benedicto fundou a celebre ordem dos
benedictinos, a cujas praticas religiosas foram impostas
tambem, como obrigações scientificas, a
conservação
da sciencia classica e a copia dos manuscriptos.
Esta ordem poderosissima, cujos trabalhos valiosos
são conhecidos, espalhou-se por todo o orbe
christão,
constituindo grandes e historicas abbadias.
Em volta d'estes conventos, que logicamente comprehendiam
os architectos e os constructores dos mosteiros
e dos templos, agruparam-se os operarios, organisando
as primeiras associações christãs.
Ora, a
tradição e a essencia das grandes
associaçães romanas
deviam manter-se no espirito e nos archivos dos mosteiros
d'esse tempo. Por esta fórma se explica a
ligação,
directa ou indirecta mas indiscutivel, das
associações
romanas e das medievaes.
Assim, os primeiros traços historicos da
franco-maçonaria
datam do seculo XI, isto é, do seculo em
que se define o segundo periodo do Estylo Romanico.
No seculo XIII, estas associações apparecem
já independentes, com organisação
completa e construindo
as maiores cathedraes do Estylo Ogival.
Teremos occasião de desenvolver o assumpto n'outra
parte d'este livro.
É indiscutivel que as corporações de
artes e mesteres,
embora bem rudimentares n'essa epocha, feitas
á imagem e similhança das romanas, deviam
constituir
grandes forças revolucionarias nos primeiros movimentos
communaes. A communa nasce, pois, do
amor da liberdade, manifestação do espirito
germanico,
do principio das organisações methodicas e
regulares,
tradição do espirito romano, e dos sentimentos
de caridade e mutuo auxilio, essencia intima do
Christianismo. Em nenhum facto historico da Edade-Media
se distingue mais clara e profundamente a acção
parallela e harmonica das tres manifestações
d'esse
espirito, de que falavam as escolas de Anaxagoras
e de Socrates. A communa, todavia, representava tambem
a ligação dos fracos quasi inermes, contra o
feudalismo guerreiro e potente. A natureza intima
d'esta instituição democratica provém
de todos estes
principios.
Os primeiros movimentos communaes accentuados
datam do seculo XI, embora, como dissemos, as
organisações
municipaes romanas tivessem subsistido nos
pontos do Imperio mais livres das invasões barbaras,
por exemplo no sul da França. Nos seculos XII e XIII a
organisação communal era já poderosa.
Estas communhões,
confederações, ou
conjurações, segundo os nomes
caracteristicos do tempo, haviam-se formado nos
antigos centros, ou em centros novos. O seu principal
fim, n'esses tempos de guerras e desastres, foi a defeza
reciproca; a primeira obrigação dos
cidadãos
consistia em se reunirem armados, quando tocava a
rebate o sino do campanario, em volta do qual se
agrupava a communa, e d'onde esculcas vigilantes,
noite e dia, espreitavam os perigos de subitas investidas.
A organisação interna das communas nasceu
logicamente d'estas agremiações primitivas,
realisadas
á sombra da egreja, que, ás vezes, constituia o
ultimo baluarte das luctas entre os burguezes e a cavallaria
feudal.
Pela habilidade, pela pertinacia, aproveitando com
astucia as occasiões favoraveis das luctas entre os senhores
feudaes e a sua necessidade de dinheiro, as
communas foram obtendo a pouco e pouco a
organisação
autonoma, umas livres constituindo quasi
feudos
burguezes, se nos consentem a expressão,
outras sujeitas
ao delegado do senhor ou do suzerano, o
preboste;
mas todas reunindo uma força respeitavel, depois
aproveitada pelos senhores mais habeis para instrumento
dos planos de restauração da unidade do poder
real, que antecedem e preparam a formação das
monarchias
do direito divino.
No seculo XIII as communas livres e do
prebostado
eram numerosas e os seus direitos mais ou menos reconhecidos
por contratos, entre os senhores feudaes e
as agremiações burguezas. Libertadas dos antigos
serviços pessoaes, tendo uma
organisação administrativa
independente e electiva, que envolvia, ás vezes,
o direito de justiça, em qualquer caso repousando sobre
o julgamento dos
pares, livres de
tributos arbitrarios
substituidos por contribuições fixas, as communas
manifestam n'este seculo certa unidade de
organisação
e os caracteres de liberdade e de vida locaes.
Taes foram, descriptas na essencia e em rapidos
traços, as duas forças, o feudalismo e as
communas,
que fizeram a historia do segundo periodo da Edade-Media.
N'este meio social, se a ignorancia era profunda,
as sciencias e as artes davam os primeiros passos.
A Escholastica, nascida com o Imperador Carlos
Magno, depois da morte de Alcuino e de Engenhard,
perdera o brilho que attingira nas escolas e academias
imperiaes. Revive no seculo XI, em que Abelard, celebre
pelos seus amores com Heloisa, lhe imprime um
vigoroso impulso, do qual resultará o grande movimento
Escholastico do seculo XIII, com as figuras primaciaes
de S. Thomás de Aquino, o auctor da Summula
Theologica, e de Roger Bacon, o sabio universal
e prophetico. Estes dois grandes homens representam
duas escolas, a primeira que por evolução
successiva
devia produzir a theologia e a metaphysica, a segunda
que originaria o methodo experimental e é a
essencia positiva das sciencias modernas.
No seculo XI começam tambem as guerras religiosas,
o embate das grandas forças do islamismo, accumuladas
ao sul da Europa, e do Christianismo, occupando
o centro e o norte. A primeira lucta corpo a
corpo, travada nos campos da Palestina, constituiu a
Cruzada do anno de 1096. O feudalismo move-se
em peso e 600:000 guerreiros reunem-se em Constantinopla,
ponto de partida. As populações servis da Europa
christã respiram, alliviadas d'esta força
tremenda,
que vae a Jerusalem libertar o Santo Sepulcro. As
fileiras rareadas do feudalismo facilitam a
constituição
communal. Alem d'isso, o movimento das Cruzadas,
que dura dois seculos, activa as relações de
todas as
ordens com o Oriente, põe as nações
occidentaes em
mais directa communicação com a arte byzantina,
que
tanta influencia tivera já sobre o Estylo Latino, e
contribue
poderosamente para a riqueza e dispersão dos
Estylos Romanico e Ogival.
N'este pequeno quadro dos seculos XI e XII pretendemos
definir o
meio social, em que se
desenvolveram
os mais completos estylos da arte christã. A pintura
é incompleta, mas um trabalho d'esta natureza não
se presta a maiores desenvolvimentos historicos. Os
necessarios fal-os-emos tratando dos Estylos Romanico
e Ogival. N'este ponto, basta notar que o espirito humano
teve rapida e ascensional evolução nos dois
seculos
XI e XII, o periodo do Estylo Romanico, e que o
seculo XIII representa na historia uma phrase brilhante,
um relampago da Renascença, em que principia o periodo
ogival.
CAPITULO
SEGUNDO
ESPIRITO E CARACTERES DO ESTYLO ROMANICO
Os
meios sociaes em que se formaram
os Estylos
Latino e Byzantino descrevemol-os, com rapidos traços,
em anteriores capitulos. Seguindo o methodo adoptado,
apreciámos as circumstancias historicas em que
se operou a fusão d'esses estylos e fizemos depois o
quadro do estado social dos seculos XI e XII, periodos
medios durante os quaes se definiram as duas
feições
do Estylo Romanico, o da constituição perfeita e
o
da transição para o Estylo Ogival.
D'estes quadros, se embora curtos ficaram perfeitos,
devemos tirar conclusões geraes. A fusão dos tres
espiritos,
o classico, o germanico e o christão, está quasi
realisada. A homogeneidade do pensamento prepara a
das sociedades. É a aurora do mundo moderno, que
desponta ha oito seculos. São enormes os dias da historia
da Humanidade; duram por longo tempo, como
por myriades de seculos se contam os da historia da
Natureza.
O espirito da liberdade começa o seu caminho, nem
sempre directo e facil mas constante e orientado, para
as instituições modernas. Essa força
poderosa, a liberdade
do pensamento, vae engrandecer as antigas sciencias,
crear outras novas e, como a arte é uma sciencia,
engrandecel-a tambem em todos os ramos, refundindo
a antiga esthetica, como transformou a philosophia
classica.
A tendencia para a ordem social produz a riqueza,
a relativa instrucção desenvolve o gosto,
elementos
que constituem a melhor atmosphera do trabalho intellectual
e da sua applicação pratica. As sciencias e
as artes saem dos conventos, onde a barbarismo dos
primeiros seculos as obrigára a procurar refugio. Os
senhores fazem os seus votos e cumprem-n'os, elevando
templos, e constróem castellos e palacios nos seus Estados.
As communas nascentes edificam os seus campanarios
e tambem os seus muros e fortalezas. A
emulação estabelece-se. Os pequenos tyrannos
até procuram
salvar as almas, mercadejando com Deus e
cobrindo o sangue dos assassinios e as torpezas dos
actos com templos admiraveis. Sirva de exemplo a
grande Cathedral de Milão, construida em 1386 por
João Galeas Visconti, duque de Milão, um dos
maiores
malvados do seu tempo, aliás bem fertil em individualidades
d'esta especie, dispersas por toda a Europa
feudal.
O Christianismo domina sem rival; para elle
começára
tambem a unidade que teve depois n'outros seculos.
Chame-se Catholicismo, religião reformada ou orthodoxa
grega, é sempre o mesmo espirito tendo
acção
identica sobre os destinos do orbe christão, que
nós e
os hespanhoes havemos de alargar mais tarde, descobrindo
os mais longinquos confins do mundo.
Este bello movimento do espirito humano, iniciado
nos seculos XI e XII, avigora-se no seculo XIII, cuja
atmosphera facilitou a formação do Estylo Ogival,
aquelle que até hoje produziu, em menos tempo, a
maior quantidade de monumentos de todas as ordens,
admiraveis manifestações de grandeza e de
qualidades
de arte. Agora, porém, circumscrevamos os nossos
raciocinios ao Estylo Romanico
secundario e ao terciario,
chamado de transição, porque n'elle, durante o
seculo XII, se opera a passagem para o Estylo Ogival.
As grandes provincias occidentaes do Imperio Romano,
a Gallia, a Iberia, a Bretanha, haviam sido devastadas
pelas invasões germanicas; a propria Italia,
como vimos, soffrera os maiores flagellos, perdera primeiro
a hegemonia e depois fôra arrancada á
corôa
imperial do oriente. A miseria era extrema em toda a
parte. Na Italia, por exemplo, no principio do seculo
VI, S. Benedicto retirava-se para Subiaco, a cem
kilometros de Roma, para n'este
vasto
deserto levar
vida contemplativa e ascetica, creando depois com os
adherentes, que dia a dia se agrupavam em volta d'elle,
a celebre ordem dos Benedictinos. Este estado social,
perigoso e incerto, e o proprio mysticismo da religião
christã crearam as primeiras
associações religiosas,
que satisfaziam ás necessidades do espirito e á
segurança
e ao socego dos homens, que não andavam envolvidos
nas tremendas luctas do tempo. Taes são na
essencia as origens das ordens religiosas, que, a pouco
e pouco, principalmente depois das Cruzadas, se organisaram
regularmente.
N'estas associações se refugiaram a sciencia, a
philosophia
e a arte, que precisam para boa cultura o
socego do corpo e a tranquillidade do espirito. Algumas
ordens religiosas, como as dos Benedictinos, tinham
nos seus estatutos escriptos, além de regras e praticas
religiosas, obrigações de caracter scientifico;
ora, esta
ordem teve, como é sabido, uma expansão enorme e
rapida, depois da fundação, no seculo VI, do
primeiro
mosteiro em Monte Cassino. De facto, esta poderosa
e sabia associação espalhou-se pelo occidente,
dando
origem a abbadias que ainda hoje teem nome na historia:
em França as de Cluny e Citeaux, construidas nos
seculos X e XI, na Allemanha as de Ratisbonne e Salsburg,
em Inglaterra as de York e de Westminster,
para não citar ainda mais outras. Tambem, nos ultimos
seculos do primeiro periodo da Edade-Media até
ao principio do seculo XI, se formou em Italia a
associação
civil dos
irmãos
pontifices, que depois se constituiu
em ordem religiosa; os seus fins consistiam em
construir e reparar pontes, facilitando assim o caminho
das peregrinações, que se dirigiam aos logares
santos
e a outros pontos de veneração
christã.
A existencia d'estas associações religiosas
exigia a
construcção de grandes edificios, para a vida em
communidade,
e a da egreja para os exercicios divinos. Os
primeiros associados em Christo foram assim, logicamente,
os architectos e constructores dos proprios templos;
quasi os unicos quando as miserias da sociedade
se accentuaram ainda mais nos seguintes seculos. Em
volta dos conventos e das egrejas em construcção,
agrupavam-se os operarios, os restos das antigas
associações
romanas, talvez, ou pelo menos gremios nascentes
que mais tarde deviam dar origem á
franco-maçonaria.
Assim, ao lado da sociedade religiosa
constituia-se outra associação civil, que os
proprios
superiores ou abbades cultivavam pela sciencia e pela
religião, organisando-as e não desdenhando a
honra
de fazer parte d'estas corporações de artes e
officios.
O movimento iconoclasta favorecia estas
organisações,
trazendo artistas experimentados do oriente,
que no occidente procuravam o trabalho e a
protecção
dos conventos. Entre os grandes serviços que o
Christianismo prestou á Humanidade, durante a Edade-Media,
não foi este o menos importante: conservar a
sciencia e a philosophia classica e desenvolver novas
feições estheticas.
Assim correram as cousas até ao seculo IX, quando
sobreveiu a grande invasão dos normandos, que, descendo
do norte, infestaram o occidente da Europa, a
França e principalmente a Bretanha. Estes grandes
piratas do mar, que
as tempestades levavam aonde elles
queriam ir, assolavam, saqueavam e queimavam tudo
na sua passagem, mais sequiosos de presa e mais
brutos de sentimentos do que os proprios hunos de
Atilla. A pouco e pouco, é certo, uma
civilisação superior
infiltrou-se-lhes no sangue e adoçou-lhes os costumes
selvagens; mas os grandes males estavam feitos
e era indispensavel reconstruir os edificios, as egrejas
e os conventos, cujas ruinas, ainda negras do fumo
dos incendios, attestavam a brutalidade dos novos invasores.
Os primeiros constructores christãos tinham encontrado
edificios feitos, as basilicas; apropriaram-se
d'ellas, imitaram-n'as por toda a parte, saqueando as
riquezas dos antigos templos classicos para as adornar.
Agora, os architectos occidentaes, os frades principalmente,
encontravam-se em circumstancias differentes.
As necessidades do culto tinham modificado as
egrejas, embora conservando-lhes a antiga feição;
a
estabilidade das associações religiosas
manifestava outras
exigencias na duração dos edificios. O tempo e
os flagellos da guerra haviam esgotado os thesouros,
d'onde os antigos architectos tinham tirado a
ornamentação
dos templos primitivos; emfim, ao novo Estylo
Byzantino, espalhado e conhecido no occidente, offerecia-se
campo largo e aberto, onde a sua influencia se
podia exercer com grande actividade. Todas estas
condições especiaes tendiam a imprimir novos
caracteres
ás construcções architectonicas.
A solidez do edificio e a sua maior duração
envolviam
o problema da natureza da cobertura. Os novos
constructores resolveram-n'o empregando a
abobada,
que fôra excluida das construcções
primitivas do Estylo
Latino e tinha sido raras vezes usada no Estylo Romanico
primario. A abobada de volta inteira ou abatida
era muito usada em Roma; mas os edificios escolhidos
para egrejas ou para modelos dos templos do Estylo
Latino, as basilicas, não a tinham, nem a comportavam,
dadas as condições de estabilidade e de espessura
dos muros, ou das columnas, sobre as quaes repousava
a cobertura. A tradição, principalmente em
materia
religiosa, tem sempre grande força; por isso, as
tradições
da basilica foram, n'este ponto, quasi absolutamente
conservadas.
Além d'isso, o Estylo Byzantino empregára a
cupula
de construcção difficil e a abobada em arco de
circumferencia,
facil de construir; estamos, pois, plenamente
convencidos de que o caracter fundamental do
Estylo Romanico secundario, a
abobada, foi o resultado
da influencia do novo estylo oriental. Mas o systema
de cobertura abobadada exige, sem discussão,
maior espessura de paredes, que lhe possam sustentar
o peso e resistir ás pressões lateraes; por isso,
os edificios
romanicos apresentam estes caracteres, pela
diminuição
dos vãos abertos e pelo emprego de contrafortes
e botareos. Aqui, são as proprias necessidades
da construcção, que levam os architectos a
adoptar os
processos e as fórmas do Estylo Byzantino. Emfim,
logicamente, se o arco de circumferencia predomina
na parte principal do edificio, a harmonia do estylo
indica-o para os outros elementos, portas, janelas e
arcos, assim tambem traçados no Estylo Byzantino.
Os architectos latinos, acceitando a ordenação
classica,
preoccuparam-se pouco com os ornamentos externos;
pelo contrario, a interior das basilicas deparára-se-lhes
rica e era-lhes facilitada pelos excellentes
materiaes e productos artisticos, com que topavam por
toda a parte, restos conservados dos precedentes estylos.
Os architectos romanicos trabalhavam em mais
perfeita liberdade de acção; mas tinham poucos
thesouros
artisticos para ornamentação das egrejas.
Além
d'isso, a solidez dos edificios e a sua longa
duração
provavel convidavam-n'os a estudar e a realisar
combinações
estheticas, que os embellezassem no exterior.
A extensão do uso dos sinos e a
invenção dos relogios
exigiram a construcção de elevadas torres, que
muitas vezes tambem, como já vimos, satisfaziam a
necessidade de defeza, ultimo baluarte da communa,
ou castello do convento. Era, pois, natural que essas
torres symetricas, por exigencias estheticas e do clima
ornadas de agulhas ou de elevados corucheus, se tornassem
elementos principaes das fachadas mais ricas
e grandiosas.
Por esta fórma, muito logicamente, se deduzem os
caracteres fundamentaes do Estylo Romanico, devidos
uns a influencias dos anteriores estylos, outros a necessidades
de construcção, a novos usos e ritos e
até á
acção do clima, que em certas circumstancias
influe
sobre a escolha e emprego dos materiaes e por elles na
formação dos estylos.
Expostas estas idéas geraes, que a nosso ver ligam
as condições do
meio social dos seculos XI e XII,
durante
os quaes o espirito humano manifestou determinada
phase, com os caracteres do estylo que é a sua
feição especial nesse periodo da
evolução da arte, desçamos
a explanações indispensaveis para melhor
distinguir
e apreciar o Estylo Romanico secundario, que
reinou no seculo XII.
É bom notar que a classificação dos
estylos por seculos
é um pouco arbitraria; querendo, apenas, significar
que dentro d'este espaço foi construida a maioria
dos principaes monumentos de determinado estylo; o
que não quer dizer que alguns o não fossem antes
ou
depois d'esse limite. Além d'isso, entre as differentes
nações, que usaram do mesmo estylo,
não se manifesta
elle rigorosamente nos mesmos periodos, nem até offerece
perfeita unidade e similhança de caracteres, que,
pelo menos nos secundarios, apresentam differenças
sensiveis provenientes de varias causas, entre as quaes
o clima, os materiaes de construcção e as
tradições
locaes se devem considerar importantes.
As disposições anteriores das egrejas romanicas
offerecem
muitas variantes. Algumas, talvez as mais
numerosas, seguem o typo tradicional das basilicas;
tres naves, cortadas pelo transepto, a do centro mais
ampla e prolongada pelo côro, que n'este estylo se
alongou mais, constituido por um corpo recto terminado
pela abside. Como vimos, no primitivo Estylo
Latino a abside formava o
presbyterio, depois seguiam-se
o altar e o côro, dispostos já na nave central;
nas egrejas romanicas estes tres elementos foram
introduzidos na abside alongada por paredes rectilineas,
espaço a que o uso deu o nome geral de côro.
Proveiu este engrandecimento de necessidades do culto,
da melhor separação do sanctuario em
relação ao templo
e do uso generalisado dos orgãos.
N'esta fórma, algumas vezes as naves lateraes
avançam,
ladeando o côro até á curva da abside,
outras
vezes circumdam-n'a por completo, constituindo a
charola,
ou deambulatorio, para o qual nos ultimos tempos
se abriram capellas. Infelizmente, Portugal não possue
exemplar algum completo e rico d'este estylo. Os
que existem são pequenos, pobres e estragados por
successivas restaurações antigas que lhes
deturpam as
fórmas e a ornamentação: mas a
Sé de Lisboa, a que
nos referiremos em capitulo especial, fornece exemplo
das disposições particulares do Estylo Romanico.
N'este plano, o mais habitual, desenha-se com nitidez
a cruz latina, formada pela nave central e pelo
côro, cortados pelo transepto. Em algumas egrejas
nota-se o facto singular do eixo do côro, em vez de
prolongar o da nave central, inclinar-se para a direita
do observador. Esta anomalia foi attribuida a defeitos
de construcção descuidada, vulgar nos edificios
romanicos
menos importantes, ou ao symbolismo da inclinação
da cabeça de Jesus Christo, quando expirou
sobre a cruz. A segunda hypothese parece-nos mais
provavel.
Outras egrejas offerecem a disposição octogonal,
imitando n'este caso as byzantinas de S. Vital de Ravenna
e do Santo Sepulcro de Jerusalem, que serviu
de modelo, como era natural, a muitos templos, até
com identica invocação. Existe n'este genero uma
egreja, que nos parece constituir excepção muito
singular,
e onde em cada lado do octogono interior ha uma
abside: a de S. Miguel de Entraigues, em França.
Emfim, a planta circular, se não abunda, tem exemplos
n'este estylo.
Em geral, a porta ou as tres portas de entrada defrontam
com o côro; mas egrejas existem de duas
absides ou córos fronteiros, isto é, tendo dois
transeptos
nos extremos da nave central; n'este caso as entradas
são lateraes.
A cobertura empregada foi a abobada, principalmente
a partir dos fins do seculo XI. Em data anterior
nas egrejas subsistiram em geral as coberturas de
madeira; este facto é muito provavel ter-se dado nas
mais pobres e em regiões ricas de florestas. Assim,
pareceu-nos que parte das egrejas das nossas
povoações
do norte foram do Estylo Romanico secundario
ou do periodo de transição, restauradas no tempo
ogival
e no da renascença manuelina, de que teem em geral
muitissimos elementos; ora, estas egrejas tiveram sempre,
dada a espessura das paredes e das arcadas das
naves, cobertura de madeira. Talvez possam dar d'isto
exemplo duas pequenas egrejas excellentes, a de Caminha
e a de Villa do Conde. Fazemos esta affirmação
com reservas, porque entre nós as
restaurações,
em regra, foram tão más e radicaes, que
mascararam a
feição anterior dos edificios; mas que tenham
sido do
Estylo Romanico secundario ou do terciario, a sua cobertura
foi sempre de madeira.
A fórma das abobadas póde reduzir-se a dois
typos:
o de volta inteira, ou o que resulta da
penetração reciproca
de cylindros ou cones de base circular, constituindo
as abobadas de arestas, ou as de arco de claustro.
Estas fórmas são fundamentaes nas
construcções do
segundo periodo romanico, porque a ogiva, quando
apparece nos começos do seculo XII, caracterisa o terceiro
periodo, o de transição, como veremos em breve.
Tambem o Estylo Romanico tem as cryptas do latino,
maiores ou menores e em geral debaixo do côro,
nas egrejas mais importantes.
Ainda as torres caracterisam este estylo. São relativamente
pouco elevadas, massiças, ornadas de
arcaturas,
ou de arcos de volta inteira, e cobertas por
agulhas de pequena altura. Umas vezes ficam separadas
do corpo do edificio, como é de uso nos de Italia,
outras vezes, fazendo parte d'este corpo, ou ornamentando-lhe
a fachada. Algumas egrejas teem mais de
uma torre, dispostas duas symetricas na fachada e
uma outra sobre o cruzeiro, interiormente aberta, formando
uma especie de zimborio, ou fechada pela propria
abobada d'este cruzeiro. A Sé de Lisboa offereceu
a primeira disposição. A terceira torre,
caída pelo
terramoto de 1755 e de que existem evidentes vestigios,
denominava-se
torre sineira, o que
explica os
seus fins especiaes, a que foram depois applicadas as
grandes torres da fachada.
Um elemento, que nos parece constituir um dos caracteres
importantes do estylo romanico, é a existencia
de galerias, mais ou menos largas, sobre as arcadas
que dividem a nave central das lateraes. Estas galerias,
denominadas
triforios, de pequenos
arcos simples
ou trilobados, são verdadeiras reminiscencias dos porticos
superiores das basilicas, onde as viuvas e as virgens
assistiam isoladas ás ceremonias religiosas. O
exemplo encontra-se na Sé de Lisboa, guarnecida por
um triforio nas paredes da nave central e nas do transepto.
A construcção moderna tem columnellos com
galba e capiteis de dimensões classicas; mas nas sondagens
feitas foram encontradas as verdadeiras dimensões
do triforio primitivo e o seu typo accentuadamente
romanico. Tambem a Sé de Coimbra tem triforio;
n'esta egreja, porém, a galeria é muito larga e
de fórma
especial.
As portas e as janelas são de volta inteira, onde,
ás vezes, os
arcos
geminados byzantinos demonstram o
parentesco proximo dos dois estylos. Os supportes, os
pilares, as columnas e os capiteis, fugindo a todas as
proporções classicas, manifestam-se rudes e
fortes. Os
grandes pilares das naves, até quando já tendem a
tornar-se polystylos, são grossos e curtos. A
expressão
de força sobrepuja n'elles a de elegancia, dando-lhes,
aliás, um aspecto grandioso; umas vezes, apresentam-se
quadrados e lisos, ou com columnelos nichados
nos angulos; outras vezes, cylindricos ou polygonaes,
revestidos de meias columnas. Esta disposição
prepara
os pilares polystilos, isto é, ornados de finos e elevados
columnelos, do Estylo Ogival.
Os capiteis apresentam variadissima ornamentação,
em geral differente em todos elles, ainda que pertençam
ao mesmo vão. Este facto caracteristico será
explicado,
quando tratarmos do Estylo Ogival. Offerecem
a fórma de pyramides quadradas ou conicas,
truncadas e invertidas, coroados por um simples abaco.
As columnas desobedecem a todos os modulos classicos,
não teem galba, apresentam-se cylindricas, em
geral, ou ligeiramente conicas.
As arcadas de volta inteira são formadas de varias
molduras, as mais ricas ornadas de desenhos, dos
quaes já encontrámos alguns no Estylo Byzantino.
No
interior e no exterior dos edificios romanicos, as
arcaturas,
simples ou entrelaçadas, constituem ornamentos
muito vulgares e elegantes das paredes, sobre as quaes
teem maior ou menor saliencia.
O conjunto exterior dos edificios romanicos produz
no espirito uma impressão caracteristica de força
e severidade, embora tambem, ás vezes, de elegancia
e riqueza. Os coroamentos elevados, em alguns
edificios revestidos de ameias, sobre cornijas repousando
em
macheculis, as torres
massiças e quadradas,
os muros muito espessos revestidos de botareos pouco
salientes, por entre os quaes se abrem as janelas, dão
a estes grandes edificios um aspecto de
fortificação,
de que, em verdade, serviram muitas vezes nos tempos
medievaes.
Ao vel-os, melancholicos e sombrios, parece que
a sua grande alma de pedra sente ainda as impressões
dolorosas das desgraças profundas e dos horriveis
flagellos, atravessados pela Humanidade durante
essa triste quadra da historia. O seu caracter
religioso é para muitos mais completo e elevado do
que o dos edificios ogivaes; por isso, hoje o Estylo
Romanico começa a ser considerado mais verdadeira
expressão da arte christã do que o ogival.
Citamos
a opinião por curiosidade, embora com ella não
estejamos
muito de accordo.
As fachadas romanicas variam muito, conforme a
inspiração dos architectos, para que possam ser
descriptas
em schema desenvolvido; mas n'estas fachadas
os portaes de entrada, em geral um ou tres, offerecem
grande importancia. São formados de archivoltas
de muitas molduras mais ou menos ornamentadas, repousando
sobre capiteis e columnas da natureza anteriormente
descripta. No fundo d'estes portaes de
arcadas embocetadas e decrescentes, abre-se o vão
da porta, offerecendo em geral um tympano de pedra,
ora com baixos relevos symbolicos, ora liso ou formado
de pequenos parallelipipedos. D'esta ultima
disposição
existe entre nós exemplo na antiga porta lateral
da Sé de Lisboa, hoje restaurada. Algumas vezes
o tympano era de pintura polychromica sobre fundo
de ouro, systema que constitue, sem duvida, uma
imitação
pobre dos ricos tympanos byzantinos de mosaico,
como se vêem em S. Marcos de Veneza. Por
cima dos portaes, janelas da mesma disposição
architectonica
dão luz ás naves; a central é a origem
da
futura rosacea do Estylo Ogival.
O
narthex, ou galilé, dos
primitivos estylos conserva-se
nas condições expostas n'outro ponto d'esta
memoria.
A ornamentação geral é variada e
caracteristica
n'este estylo. Folhagens caprichosas entre phantasticos
corvos e cabeças de expressões grotescas,
combinações
geometricas de galões recamados de perolas,
zig-zags e arabescos impossiveis de definir constituem
reminiscencias do Estylo Byzantino e são precursores
do Estylo Ogival. Na porta lateral da Sé de Lisboa foram
descobertos e restaurados dois capiteis do lado esquerdo,
que nos parece envolverem uma excepção rarissima
no Estylo Romanico. Na base dos capiteis, em cada
um, duas pombas bem trabalhadas parece dão bicadas
em cachos pendentes da folhagem. São dos mais
bellos capiteis que temos visto. A pintura polychromica
apresenta-se, ás vezes, nos capiteis dourados, de que
existem traços evidentes na Sé de Lisboa, ou
pintados,
assim como os fustes das columnas, as molduras das
archivoltas e certos pontos das paredes.
É evidente que a abundancia e
perfeição dos ornamentos
dependem da edade do estylo, mais rudes e
simples no primitivo, mais perfeitos e variados quando
se approxima o Estylo Ogival. Assim, quasi todos os
elementos principaes d'este futuro estylo se encontram,
mais ou menos esboçados no romanico.
Seria quasi impossivel comprehender bem os dois
estylos sem os comparar, estudando-os separadamente.
No Estylo Romanico, o caracter de todos os elementos
é a força e a severidade: no Ogival a elegancia e
a
suavidade, que mascaram a força sem a diminuir, a
não ser na decadencia d'este ultimo.
Eis em rapidos traços os caracteres mais salientes
e geraes do Estylo Romanico secundario. Em verdade,
não são muito accentuados, exceptuando a abobada,
por isso, o estylo talvez seja definido, ou pelo menos
completada a definição, pelos caracteres
ornamentaes,
aliás, tambem sujeitos ás
condições particulares e aos
materiaes empregados nos differentes paizes. Assim,
no sul da França, como na Italia, onde reinou mais
accentuadamente o Estylo Byzantino, os edificios romanicos
teem qualidades um pouco differentes, embora
sempre subordinadas ás regras geraes e ás
feições do
estylo. Os do sul são mais leves e cuidados do que os do
norte; na Allemanha e na Inglaterra manifestam-se
mais pesados e de ornamentação mais barbara e
primitiva.
Em qualquer caso, a grande influencia do Estylo
Byzantino, na constituição da architectura dos
seculos XI e XII, manifesta-se incontestavel.
O Estylo Romanico terciario—o de
transição—apresenta
os mesmos caracteres do secundario; comtudo
um elemento não empregado no periodo anterior,
o
arco em ogiva, produz logicamente
importantes modificações
na disposição geral dos edificios. Este arco
deve ter sido conhecido em todas as nações da
antiguidade,
que tiveram grandes constructores e edificios
importantes. Se o não empregaram em grande escala,
foi decerto porque a natureza dos respectivos estylos,
com tendencias horisontaes nas linhas mais apparentes,
não se adequava estheticamente ás
disposições
inversas do arco ogival. As investigações
scientificas
vão demonstrando este facto e o futuro nos dirá o
que
se póde ainda descobrir.
O arco em ogiva tem propriedades mechanicas tão
evidentes em si, tão faceis de provar pelo simples
raciocinio
e pela mais modesta experiencia, que seria
quasi uma offensa á capacidade, aliás
extraordinaria,
de alguns architectos classicos suppôr que não
lhes
foram conhecidas e portanto que não applicaram o
arco ogival, quando as condições o exigiram.
Todos
sabem, com effeito, os extremos cuidados de
construcção,
na perspectiva e na disposição dos materiaes, que
os architectos classicos empregaram no Parthenon:
sciencia tão profunda, demonstrada pelo moderno estudo
do monumento, como depois não houve exemplo,
e em que foram até attendidos os erros visuaes nas
grandes linhas horisontaes e perpendiculares. Negar
a estes e a outros famosos architectos perfeito conhecimento
das vantagens da applicação da ogiva seria
um indiscutivel absurdo.
No arco em ogiva as componentes horisontaes das
pressões, exercidas sobre os pilares, são menores
do
que no arco de volta inteira e decrescem successivamente
com a maior altura da ogiva. Este theorema é
tão facil que a mechanica de todos os tempos o devia
ter demonstrado. As rasões pelas quaes começou a
ser
usado no segundo periodo romanico e depois teve geral
emprego no Estylo Ogival, a que deu o nome, eis o que
nos cumpre investigar como inducção interessante.
É muito provavel que a solidez e a economia das
construcções fossem a rasão suprema da
sua adopção,
sem, todavia, deixarmos de considerar as
condições estheticas
de edificios, como os romanicos, que iam tomando
fórmas elevadas e ponteagudas, repellindo por
sua natureza as grandes linhas horisontaes e as curvas
continuas. As qualidades estaticas do arco em ogiva
prestavam-se a diminuir a espessura das paredes, isto
é, davam aos edificios egual solidez real e tornavam-n'os
mais economicos, elegantes e ideaes, se nos
permittem a palavra; correspondendo, assim, ao espirito
essencialmente mystico e religioso que o Christianismo
havia desenvolvido na Edade-Media. A ogiva
apparece, pois, como elemento logico de um estylo e
expressão esthetica do estado especial do espirito humano
no periodo historico, que procurámos definir
n'outros capitulos d'este livro.
Cumpre-nos, todavia, observar que a ogiva, só por
si, não caracterisa o terceiro periodo romanico. Os
edificios tomam, sem duvida, um aspecto mais leve;
mas a ornamentação tambem offerece
transformações
importantes. O trabalho é mais perfeito. Novo systema
de molduras
substitue em
parte as primitivas, os ornamentos
mais pesados apparecem rejuvescidos, outros
novos são creados; emfim, a guarnição
vegetal, precursora
do ogival, desenvolve-se n'este periodo.
Na esculptura e na pintura persiste a fórma ascetica,
delgada e alta, de roupagens de pregas parallelas
e apertadas, da arte byzantina. As physionomias
são graves e serenas, traduzindo o extasi mystico,
de quem abandona o corpo esqueletico e macerado
n'este mundo e deixa voar a alma livre para a celeste
beatitude do espirito; verdadeiras fórmas hieraticas
e tradicionaes, e porque o são, seccas e sem movimento.
Uma decoração magnifica começa a
manifestar
grande desenvolvimento no ultimo periodo do Estylo
Romanico: os
vitraes, as
vidraças coloridas das janelas.
O uso dos vidros nas egrejas parece haver começado
no seculo X. É muito provavel que os vitraes
ordinarios substituissem longo tempo antes as laminas
de pedra rendilhada, que encontrámos no Estylo Latino.
Que esses vitraes fossem depois superficialmente
pintados, tambem é de crer; mas o verdadeiro vidro
polychromico, com a côr fundida e incrustada na
massa, não apparece senão no seculo XII, por modo
incontestavel e com desenvolvida applicação, de
que
existem ainda alguns exemplares.
Estes vitraes primitivos offerecem caracteres definidos,
pelos quaes é relativamente facil conhecel-os. O
tecido de chumbo, que sustenta e encastra as pequenas
placas de vidro, tem malhas muito miudas, visto
que n'esse tempo cada côr differente correspondia a
uma só malha, sendo divididas em muitas as côres
de
grande superficie, por necessidade de construcção
da
vidraça. O fundo do quadro offerece, em geral, um
mosaico azul. Na parte superior do vitral desenha-se,
conforme o periodo, a ogiva ou o arco inteiro, sobrepujando
pequenos quadros de scenas do Antigo e
Novo Testamento ou de lendas christãs, onde as figuras,
bem como alguns ornamentos, manifestam claramente
a influencia da arte byzantina nas disposições,
no desenho e nas roupagens. Em geral, a côr dos objectos
representados não corresponde á natural, sendo
as côres escolhidas mais no proposito decorativo do
que no da expressão da realidade, que entre certos
limites lhes deu a natureza. Esta
Estes vitraes primitivos offerecem caracteres definidos,
pelos quaes é relativamente facil conhecel-os. O
tecido de chumbo, que sustenta e encastra as pequenas
placas de vidro, tem malhas muito miudas, visto
que n'esse tempo cada côr differente correspondia a
uma só malha, sendo divididas em muitas as côres
de
grande superficie, por necessidade de construcção
da
vidraça. O fundo do quadro offerece, em geral, um
mosaico azul. Na parte superior do vitral desenha-se.
conforme o periodo, a ogiva ou o arco inteiro, sobrepujando
pequenos quadros de scenas do Antigo e
Novo Testamento ou de lendas christãs, onde as figuras,
bem como alguns ornamentos, manifestam claramente
a influencia da arte byzantina nas disposições,
no desenho e nas roupagens. Em geral, a côr dos objectos
representados não corresponde á natural, sendo
as côres escolhidas mais no proposito decorativo do
que no da expressão da realidade, que entre certos
limites lhes deu a natureza. Esta admiravel
ornamentação,
cujo effeito é surprehendente, attinge a maior
perfeição
no Estylo Ogival; para elle, pois,
reservamos
mais algumas considerações.
Julgamos haver dito o sufficiente para caracterisar
o Estylo Romanico nos dois periodos, o secundario e
terciario. Accrescentaremos, apenas, que a
classificação
dos edificios, principalmente nas epocas de
transição
de estylos limitrophes, é assumpto delicado, que
exige sobretudo muita experiencia e observação de
exemplares bem definidos. As idéas geraes não
bastam,
nem é sufficiente o estudo dos livros. É preciso
pela
experiencia ter apurado a critica e a sciencia, possuir
um senso esthetico educado; uma cousa correspondente
a essa qualidade singular que teem os grandes
medicos de diagnosticar a doença, quasi adivinhando-a
pela simples observação do enfermo.
Além disso, é indispensavel conhecer a historia
do
monumento, se elle a tem escripta, aliás refazel-a com
successivas investigações, estudando pedra a
pedra,
elemento a elemento, porque nos periodos de
transição,
principalmente, tudo se sobrepõe e combina por
tal fórma que o enygma parece sorrir dos nossos
esforços
em cada canto dos monumentos.
Entre nós, citaremos um exemplo: ainda hoje vacillamos
sobre se a egreja de Alcobaça deve ser considerada
romanica do terceiro periodo, ou já ogival.
Nas arcadas do côro, mascarada por bellos intercolunmios
jonicos manifesta-se o romanico, talvez do segundo
periodo, depois, no corpo da egreja, as ogivas
dos arcos e das abobadas casam-se com pilares ainda
de caracter romanico.
Restaurações successivas, feitas em largos
periodos,
desnorteiam o observador. Exceptuando, pois, a fachada,
do feio e pesado Estylo da Renascença dos
principios ou meiados do seculo XVII, parece-nos ser
esta egreja um soffrivel exemplar do romanico de
transição.
Discutiremos este assumpto, interessante sob o
aspecto da classificação architectonica dos
nossos monumentos,
em um dos seguintes capitulos d'este livro.
CAPITULO
TERCEIRO
A SÉ PATRIARCHAL DE LISBOA E A SUA
RESTAURAÇÃO
Não pretendemos fazer uma monographia da Sé de
Lisboa; nem o edificio tem valor architectonico que
mereça investigações demoradas, nem
ácerca d'elle
existem documentos ou dados provaveis, que possam
facilitar similhante trabalho. A carencia de elementos
historicos, regra pelo menos nos monumentos nacionaes
primitivos, não soffre excepção na
antiga cathedral
metropolitana, cujos archivos foram em grande
parte destruidos pelo incendio, que seguiu o terremoto
de 1755.
Assim, citamos esta egreja como simples exemplo
nacional do Estylo Romanico; porque foi, sem duvida,
o melhor dos edificios d'este estylo existentes em
Portugal. Effectivamente, entre nós devem apenas
considerar-se
de relativa importancia, como monumentos
romanicos, a Sé de Lisboa, a Sé Velha de Coimbra
e
a da Guarda, porque, se algumas outras egrejas começaram
por ser d'este estylo, successivas reconstrucções
e restaurações no
periodo ogival e no da renascença
mascararam-lhe quasi por completo as feições.
Alem d'isso, são estes templos os de maiores
dimensões,
e excepcionalmente podemos encontrar pelo paiz alem
d'elles uma ou outra pequena egreja ou capella do
Estylo Romanico, mais ou menos puro.
Ainda assim, dos tres modestos exemplares romanicos,
que possuimos, dois, a Sé de Lisboa e a da
Guarda, acham-se mais ou menos profundamente alterados
por obras realisadas em differentes seculos, algumas
assás barbaras. Apenas, o terceiro, a Sé Velha
de Coimbra, teve nos ultimos annos conscienciosa
restauração, que a repoz quanto foi possivel no
estado
primitivo. Pensou-se, tambem, ultimamente na Sé de
Lisboa e n'este sentido alguma cousa se tem feito;
mas tão profunda é a ruina d'este templo e do
respectivo
claustro, que a estas obras talvez melhor se deverá
chamar dispendiosa reconstrucção, do que simples
e economica restauração.
Apesar do exposto, faremos rapido bosquejo historico
ácerca da Sé Patriarchal de Lisboa; templo que,
embora nunca fosse grandioso de dimensões ou rico
e cuidado de estylo, deve merecer attentos trabalhos
de reconstrucção e de
restauração, visto que representa
a primeira egreja do paiz na ordem da hierarchia
ecclesiastica e é a cathedral de uma importante
cidade da Europa.
Sobre o solo de Lisboa, atravez dos longos seculos
da sua existencia historica, têem-se succedido muitas
invasões de povos de differentes raças e
religiões. Sem
falarmos, pois, em celtas, phenicios e carthaginezes,
que mais ou menos se perdem na noute mythica dos
tempos, occuparam-n'a os romanos em primeiro logar,
vencidos depois pelos barbaros, alanos, suevos e visigodos,
que a seu turno foram dominados pelos arabes,
sendo, emfim, estes ultimos expulsos de Lisboa por
D. Affonso Henriques, primeiro rei de Portugal. É
evidente que n'esta longa serie de seculos, Lisboa
atravessou vicissitudes e condições diversas. Foi
pagã
e polytheista com os romanos, christã ariana com os
visigodos, professou o Islamismo com os arabes e o
Christianismo orthodoxo, quando assumiu a posição
de metropole do pequeno reino de Portugal.
Apesar d'estes estados diversos e duradouros, Lisboa
nunca foi uma cidade importante. Os romanos
não eram navegadores e o seu commercio, quasi exclusivamente
terrestre e oriental, não podia valorisar
o excellente estuario do Tejo. Os barbaros constituiam
nações rudes ainda, essencialmente guerreiras,
embora já penetradas pela civilisação
romana e pelos
ideaes christãos. Os arabes, finalmente, mais puros e
civilisados, haviam-se concentrado no sul da Hespanha,
na Andaluzia e em volta de Cordova, a capital do
grande Khalifado do Occidente, abandonando as regiões
mais occidentaes da peninsula iberica a raças e
tribus mais guerreiras e illetradas.
Assim se explica a pobreza quasi absoluta de monumentos
arabes na zona de Portugal, que foi habitada
por esta raça, emquanto a Andaluzia está cheia
de ricas construcções do Estylo do Khalifado,
algumas
ainda assás completas, como a mesquita de Cordova,
o Alcaçar de Sevilha e o Alhambra de Granada, sem falarmos
de edificios de menor importancia e de trechos
e vestigios, que attestam o grau da elevada
civilisação
dos arabes, que povoaram aquella parte da Hespanha.
A importancia da cidade de Lisboa nos periodos
romano, visigodo e arabe foi sempre secundaria. A
sua transformação profunda em verdadeiro emporio
commercial proveiu de dois factos posteriores na Historia
da Humanidade: a irradiação, para outros pontos
do globo, da civilisação dos povos e das
nações, dispostas
ao longo das costas do Mediterraneo, onde ella
se conservou durante os tempos classicos; e a descoberta
do caminho maritimo da India e dos vastos continentes
da America, que annullou os emporios de
Marselha, Genova e Veneza, deslocando os antigos
caminhos commerciaes. A grandeza um pouco ephemera
de Lisboa manifesta-se nos ultimos quarteis do
seculo XV e nos dois primeiros do seculo XVI.
Não admira, pois, que a capital portuguesa fosse
sempre tão pobre de monumentos primitivos; quando,
alem d'isso, a sua precaria situação na zona dos
terremotos
não tendesse a destruir os poucos, que o trabalho
de longos seculos penosamente accumulou na
sua antiga área.
Por muito secundaria que fosse, todavia, a importancia
de Lisboa, romanos, godos e arabes n'ella edificaram
templos, de que hoje não restam os menores
vestigios, a não ser em vagas
tradições, colhidas em
antigos escriptos. Assim, a antiga Sé de Lisboa teria
sido edificada nas proximidades, se não no proprio local,
de um templo classico, substituido depois por um
templo godo, a seu turno transformado em mesquita
no tempo do dominio arabe. Esta tradição
é mais do
que plausivel, se attendermos á tendencia das
religiões
victoriosas em se apossarem dos templos das religiões
vencidas, facto de que existem numerosos e incontestaveis
exemplos em differentes epocas e em
diversas nações. A este ponto interessante da
Historia
da Arte e das Religiões nos referimos n'outro capitulo
d'este livro.
A tradição, que affiança haver sido a
actual Sé uma
antiga mesquita arabe, é evidentemente absurda.
Não
só o estylo do templo é accentuadamente romanico;
mas, se elle houvesse sido construido nos curtos periodos,
durante os quaes os christãos occuparam Lisboa
depois da conquista dos arabes, estes, voltando a dominar
na cidade, teriam apropriado a egreja ao seu
culto, caracterisando-a com construcções e
ornamentos
especiaes, de que não se encontram os menores
vestigios.
Seria, porém, o actual edificio da Sé de Lisboa
levantado no local de uma mesquita arabe?
Esta tradição parece-nos muito fundada;
não suppomos,
todavia, que a construcção arabe podesse ser de
grande importancia. As mesquitas de Lisboa não deviam
soffrer comparação com as de Toledo, Cordova,
Granada e Sevilha, centros da civilisação arabe.
A
Cathedral de Sevilha, por exemplo, repousa sobre o
local de uma grandiosa mesquita, da qual se conservam
ainda hoje, junto á mesma cathedral, o espaçoso
pateo, que precedia as mais consideraveis mesquitas,
e a magnifica torre, um primor do Estylo do Khalifado,
bem conhecida pelo nome de Giralda.
Seja qual fôr o valor d'estas
presumpções, a melhor
opinião, fundada em argumentos de ordem historica
e architectonica, consiste, segundo pensamos, em
que o edificio actual se deve attribuir a D. Affonso
Henriques e foi levado a effeito logo depois da conquista
de Lisboa aos arabes, em outubro de 1147.
Devia ser rapida a construcção. A simplicidade
architectonica
e a pobreza de ornamentação, que manifesta
a parte primitiva do edificio, não exigiram, de
certo, planos muito estudados e completos, nem a
propria construcção foi muito cuidada quer na
escolha,
quer na disposição dos materiaes.
Forçoso é
confessal-o, embora destôe um pouco dos louvores
hyperbolicos de alguns escriptores nacionaes: o edificio
da Sé de Lisboa é de acanhadas
proporções,
de muito pobre estylo e de construcção bastante
ordinaria.
Sendo muito provavel que as obras começassem
logo após a conquista, não é facil
determinar a respectiva
duração. O conego Vieira da Silva, em memoria
annotada por D. Francisco de S. Luiz, Cardeal
Patriarcha em meiados do seculo XIX, deduz, de varios
documentos e de investigações proprias, que a
primeira constituição do Cabido da Sé
de Lisboa data do anno de 1150.
Estaria o primitivo templo acabado n'esse anno, ou
pelo menos achar-se-ia já muito adeantado e proximo
do seu fim?
Não custa a acredital-o. Em tres annos não seria
grande difficuldade elevar edificio d'esta natureza;
principalmente se tivermos em attenção que a
silharia
n'elle empregada foi, sem duvida, explorada em
pedreiras muito proximas das respectivas obras.
Uma observação interessante devemos fazer n'esta
altura: o primeiro bispo de Lisboa, capital de Portugal,
foi o inglez Gilberto. Ora, em Inglaterra floresceu
o Estylo Romanico, a que pertence a parte primitiva
da Sé Patriarchal.
Depois da sua fundação, o primitivo edificio
soffreu
muitas reconstrucções,
restaurações e alargamentos,
dos quaes alguns motivados pelas necessidades do
culto e outros provenientes da falta de alojamentos
internos para o numeroso pessoal, que exigem a guarda
e os serviços religiosos de uma cathedral. As barbaridades
artisticas e de construcção, que por estas
razões
se praticaram, seriam inacreditaveis, se grande parte
d'ellas não fossem directamente observadas pelo auctor
d'este livro e algumas não existissem ainda,
attestando o mau gosto, a ignorancia e o desprezo
pelos monumentos e pelas tradições, que
ás vezes caracterisa
o espirito nacional desde os tempos mais
remotos até aos nossos dias.
Seguindo a planta da Sé no seu estado actual, isto
é, na data em que escrevemos este livro, é
fácil formar
clara idéa do plano primitivo da velha egreja de
D. Affonso Henriques e das principaes
transformações,
que ella soffreu durante sete seculos e meio; por
isso, chamamos a attenção do leitor para a
respectiva
planta, observando-lhe que os seus differentes tons
correspondem a periodos distinctos da
construcção.
A primitiva egreja foi de Estylo Romanico do melhor
periodo—o secundario—que em geral floresceu
no occidente e no centro da Europa no seculo XI.
Quando se levantava a Sé de Lisboa, em meiados do
seculo XII, já o Estylo Romanico em geral attingira o
periodo terciario, preparando a transição para o
Estylo
Ogival. Este relativo atrazo não deve, comtudo,
causar surpreza; póde considerar-se quasi regra geral
na evolução da arte portuguesa em
relação á das restantes
nações centraes da Europa.
Apesar de coberta de horriveis estuques, que a mascaram
ridiculamente de Estylo Classico, e das
reconstrucções
ogivaes posteriores, não encontrámos durante
o estudo minucioso, que temos feito d'esta
construcção,
um só elemento, que possa contrariar a sua
classificação
no Estylo Romanico secundario.
A planta primitiva era elegante. A nave central, o
transepto e capella-mór formavam uma cruz latina.
As naves lateraes avançavam, envolvendo a capella
mór, isto é, formavam
deambulatorio, ou
charola. Não é
muito frequente esta disposição no Estylo
Romanico
secundario; mas, evidentemente, a disposição da
planta
exige-a como condição indispensavel e de
elegancia.
Alem d'isso, se não é possivel demonstrar
directamente
a existencia da charola romanica na Sé de Lisboa, na
egreja de Alcobaça, sua coéva, a existencia
prova-se
pelas fortes columnas e arcadas da capella-mór, que
abriam, sem a menor duvida, para uma primitiva
charola romanica. Não nos parece nada provavel que
a charola romanica da Sé tivesse capellas; como
não
as tinha talvez tambem a primitiva de Alcobaça.
N'uma e n'outra egreja, estas capellas provéem de
restaurações
ou reconstrucções ogivaes.