CAPITULO
SEXTO
O ESTYLO OGIVAL ENTRE NÓS
Eis um capitulo por natureza curto. Se Portugal é,
infelizmente, pobre em monumentos, a sua penuria
manifesta-se extrema nos do Estylo Ogival. O Estylo
Romanico deixou entre nós algumas
construcções, mais
ou menos importantes, embora, em geral, estragadas
depois por inscientes restaurações, que o cuidado
e o
gosto moderno vão a pouco e pouco substituindo, a
fim de darem aos edificios a possivel pureza primitiva.
A Sé de Coimbra, egreja romanica do segundo
periodo, é bom exemplo d'este gosto e cuidado.
Pelo paiz inteiro, pelo menos na parte por nós
percorrida, encontram-se de quando em quando trechos
do Estylo Romanico de soffrivel valor, escondidos
no mesmo edificio por entre outros ogivaes e da
renascença. Assim, um dos nossos primeiros monumentos,
o Convento de Christo em Thomar, offerece
construcções
differentes. A subida importancia que outr'ora
teve este Mosteiro, sem duvida o mais rico do
paiz, a extrema e curiosa diversidade de estylos, que
elle manifesta, aconselha-nos mais detida
descripção,
embora exceda em parte os quadros d'este livro.
Planta da Parte Monumental do Convento de Christo em Thomar
| 1 Terreiro e
escadorio. |
6 Sacristia. |
| 2
Adro. |
7 Portaria. |
| 3 Charola, egreja
primitiva. |
8 Côro e corpo da egreja. |
| 4 Antiga porta da egreja
primitiva. |
9
Claustro de João III—Filippes. |
| 5 Claustro do D. Henrique ou Cemiterio. |
10 Refeitorio. |
| 11 Claustro de Santa Barbara. |
Na anterior planta estão descriptos os elementos do
grande edificio, que nós suppomos deverem ser considerados
verdadeiramente monumentaes; o que não quer
dizer que n'outros pontos, já na parte pertencente
ao Estado, já n'aquella que infelizmente foi vendida,
não existam trechos de verdadadeiro valor artistico e
historico, dignos de cuidadosa defeza e
conservação.
CONVENTO DE THOMAR—Fachada da Egreja
CONVENTO DE THOMAR—Fachada da Egreja
A egreja actual é formada por dois corpos, construidos
em seculos differentes. O circular, que parece
hoje constituir a charola da egreja, foi o templo primitivo.
Pertence ao Estylo Romanico, talvez terciario,
visto que a ogiva, embora pouco accentuada, se desenha
sob as camadas de estuque, que revestem os oito
arcos do recinto octogonal, cuja abobada forma uma
especie de zimborio sobre o altar.
Primitivamente, este recinto tinha o aspecto de torre
central, elevando-se a respectiva abobada bastante
acima da abobada anelar da nave envolvente. A antiga
porta de entrada, virada ao nascente, foi transformada
em janela, quando á egreja romanica se annexou
o corpo rectangular. N'esta fórma do primitivo
templo sente-se a indiscutivel influencia de S. Vital
de Ravenna e do Santo Sepulcro de Jerusalem.
Nos começos do seculo XV foi construido ao norte
da primitiva egreja o Claustro de D. Henrique ou do
Cemiterio, que, embora muito simples e pequeno, é de
assás puro e elegante Estylo Ogival; talvez do terceiro
periodo, se attendermos aos caracteres dos capiteis
das columnas, unicos elementos que poderão
servir para rigorosa classificação architectonica
d'este
claustro.
Nos fins do mesmo seculo XV e principios do XVI
elevou-se a construcção do actual corpo da
egreja, que
abre para o primitivo templo circular, transformado
em capella-mór, por grande arco, rasgado na respectiva
parede. A nova entrada, olhando o sul, é formada
por um magnifico e elegante portal. Assim,
antes da construcção do Claustro de D.
João III,
vulgarmente chamado dos Filippes, toda a fachada
sul da egreja, comprehendendo este portal e duas grandes
janelas de volta inteira, bem como a fachada Occidental,
ficavam livres e visiveis.
O côro, outr'ora guarnecido de excedente obra de
talha, occupa quasi metade do corpo da egreja e firma-se
sobre a abobada da casa do capitulo. Por esta
fórma, a fachada occidental, ladeada por dois formosos
e originaes botareos, offerece entre elles na parte
superior uma rosacea, abrindo no côro, e na inferior,
illuminando a casa do capitulo, uma magnifica janela
com rica ornamentação de algas, embora na
realidade
um pouco pesada. Toda esta parte do edificio é do
Estylo da Renascença do primeiro periodo, entre
nós
chamado manuelino, manifestando-se na fachada occidental
grande influencia do oriente, principalmente na
decoração dos botareos e da janela das algas.
Pouco depois do meiado do seculo XVI foi construido
e encostado á fachada sul da egreja, da qual mascara
grande parte, o Claustro de D. João III, erradamente
denominado dos Filippes. Este claustro, que faz recordar
os magnificos pateos dos palacios florentinos, é
de excellente Estylo da Renascença italiana. Emquanto
a nós, se não constitue o unico exemplar nacional
d'este
estylo, deve pelo menos ser considerado o mais puro
e completo. Para o claustro, ou mais rigorosamente
para este pateo, abria outr'ora a porta do refeitorio,
que da parte monumental é elemento integrante e
indispensavel,
como o indica a planta.
Esta bella e ampla sala abobadada pertence tambem
ao Estylo da Renascença; hoje, porém, encontra-se
separada do monumento, havendo sido murada
a respectiva porta. Embora seja propriedade do Estado,
anda ha longos annos arrendada ao proprietario
de parte do Mosteiro e da respectiva cêrca, servindo-lhe
de celleiro! Todos os esforços empregados até
agora para acabar com este arrendamento, ainda os
mais recentes feitos pelo Conselho dos Monumentos
Nacionaes, têem sido infructiferos
[4]!
Do Claustro do Cemiterio passa-se para a sacristia,
peça de secundario valor architectonico, construida
nos fins do seculo XVI em Estylo da Renascença, frio
e pesado, que faz lembrar muito a singular physionomia
da renascença do Escurial.
Esta succinta descripção demonstra a importancia
architectonica do Mosteiro de Thomar, bello exemplar
onde se casam os mais perfeitos estylos com
ornamentações
ricas e caracteristicas. Devemos, porém, observar
que, no rigor da palavra, a parte não monumental do
grande edificio monastico envolve tambem elementos
e trechos de bastante valor artistico. Assim, no Claustro
da Micha, não comprehendido na planta junta, existem
tres grandes salas, onde a tradição affirma que
se reuniram as Côrtes de Thomar. Se é possivel
duvidar
d'esta tradição, embora o estylo das salas seja
da
epoca, não padece duvida alguma que todas, principalmente
a da Nobreza, são bellas e dignas de
conservação,
ou talvez melhor de salvamento, porque o
tempo e o vandalismo acabarão por destruil-as sem
remedio
[5].
Além d'isso, o Mosteiro manifesta riquissima
construcção
quer em materiaes, quer em trabalho; assim,
por exemplo, os corredores para onde abrem as cellas,
na realidade multiplas, vastas e sobrepostas galerias
cortando-se em angulo recto, são cobertos por
tectos de volta inteira e apainelados de excellente carvalho
do norte. De espaços em espaços, encontram-se
n'estas galerias bellos trechos e baixos-relevos da pura
arte da renascença.
A conservação em que tudo isto se encontra,
exceptuando
os edificios monumentaes descriptos, menos
descurados hoje, é quasi deploravel na parte pertencente
ao Estado; porque a outra parte do Mosteiro,
talvez a maior, encravada nas pertenças nacionaes
sem ordem e sem nexo, bem como a bella cêrca e
outras valiosas propriedades conventuaes, foram vendidas
por somma irrisoria
[6].
Entre todos os mosteiros nacionaes, exceptuando o
de Mafra e o de Alcobaça, suppomos que o de Thomar
é o maior e o segundo na ordem da riqueza artistica
e historica. Uma administração nacional sensata
e illustrada teria conservado completo e mobilado
este bello monumento, como typo da vida e dos costumes
monasticos. Seria, por assim dizer, um exemplar
unico no mundo. Hoje, alienada parte do edificio,
vendidos a desbarate ou roubados os moveis e os
livros, esta restauração seria quasi impossivel;
mas, no
que nos resta ao menos, o edificio deveria ser conservado
como excellente exemplo de uma feição
caracteristica
e importante das organisações sociaes dos seculos
passados
[7].
Grande parte das egrejas no norte do paiz, foram
primitivamente do Estylo Romanico do primeiro ou do
segundo periodo, mas são de
construcção acanhada e
pobre, offerecendo cobertura de madeira. No sul ainda
a escassez de monumentos é maior. Em todo o Algarve,
depara-se-nos apenas a Sé de Faro e a de Silves,
que merecem alguma attenção. Julgamos que a
ultima obedece aos principios das construcções do
norte: Estylo Romanico do terceiro
periodo—transição—naves
cobertas de madeira, côro abobadado, mas
tudo em lastimoso estado de conservação
artistica.
A Egreja Matriz de Caminha parece-nos constituir
um bello exemplo d'este typo de egrejas do norte. Sem
duvida, a primeira construcção foi romanica do
segundo
periodo. Soffreu, depois, grandes restaurações no
tempo
da renascença manuelina. A fachada, composta de tres
corpos distinctos desenhando as naves internas, é
d'este definido estylo.
No interior, muito interessante, existem tres naves.
A cobertura é de carvalho e de castanho, com vigas
descobertas. Arcos de volta inteira sobre columnas
delgadas dividem as naves. As paredes lateraes d'estas
naves não tinham primitivamente capellas; as que
hoje existem são dos seculos XVI e XVII. A egreja
acha-se revestida até á altura dos capiteis das
naves
por azulejos ordinarios, datados de 1690. D'ahi para
cima as paredes estão caiadas. O templo primitivo
não
tinha côro sobre a porta principal, o que existe na
actualidade é de construcção moderna.
A capella-mór, tambem manuelina, é coberta por
uma bonita abobada. No exterior d'esta capella-mór
corre um bello friso de corda e por baixo d'elle outro,
simulando uma cadeia de ferro. É o primeiro que vimos
n'este genero. Na fachada lateral da egreja ha
uma bonita porta da renascença. A
construcção é toda
de granito. Em geral, os ornatos estão muito apagados,
porque o granito empregado tem o grão muito
grosso e esborôa-se, exposto á
acção do tempo. Fazemos
esta ligeira descripção para darmos
idéa de um
typo assás vulgar das nossas egrejas secundarias do
norte e do seu estado actual.
Parece-nos dever concluir, do que temos visto, que as
construcções religiosas em Portugal foram
bastante activas
nos seculos XI e XII, isto é, no periodo romanico.
O periodo ogival não manifesta a mesma actividade.
Na Sé de Lisboa, como nas de Evora e de Braga e
n'outros pontos, o ogival apparece certamente; mas,
em geral, parece-nos que foi trazido pelas
restaurações
dos edificios e pela construcção de capellas
annexas.
Assim, na Sé de Lisboa, como vimos, a charola é
ogival, guarnecida de capellas, resultando da
restauração
da antiga charola do romanico secundario, estylo
a que pertence a egreja. O claustro é tambem
ogival e deve datar da restauração da charola.
Á esquerda,
logo a principio da nave lateral da egreja, foi
construida nos meiados do seculo XIV uma elegantissima
capella ogival, por testamento de Bartholomeu
Joannes. Esta capella é talvez, apesar das suas pequenas
dimensões, um dos mais ricos exemplares do
ogival francez do segundo periodo, existente em Portugal.
As suas disposições fazem
lembrar—até
certo
ponto e com a devida modestia—as da Sainte Chapelle
de Paris. Está hoje em adeantada
restauração;
devendo constituir, em breve, a unica construcção
completa do Estylo Ogival em Lisboa.
A Egreja do Carmo, como o attestam as respectivas
ruinas, foi um edificio ogival do segundo periodo, de
certa grandeza e de bastante valor architectonico,
muito embora diminuido por evidentes
restaurações,
sobre tudo na capella-mór e nas capellas lateraes das
naves, que a primitiva egreja não devia ter. Esta
construcção,
começada alguns annos depois da do Mosteiro
da Batalha, seguiu-lhe o plano, pelo menos nas
disposições geraes; sem, comtudo, ter podido
nunca
manifestar a elegancia e a pureza de estylo do seu
bello modelo. É para lamentar que o terremoto de
1755 inutilisasse o unico edificio ogival importante
de Lisboa. Hoje, não seria rasoavel restaural-o
completamente;
mas dever-se-ia tentar, com proveito para
a arte nacional e para a decoração da cidade, a
restauração
das ruinas,—se nos consentem a
expressão—o
que não seria obra difficil nem dispendiosa.
Da Egreja de Alcobaça já falámos
anteriormente,
classificando-a de preferencia no Estylo Romanico de
transição. Julgamos, pois, opportuno apresentar
agora
as rasões de ordem architectonica, em que fundamos
esta classificação, que póde ser
talvez impugnada.
Este edificio religioso, um dos maiores se não o maior
que entre nós existe, é attribuido tambem a D.
Affonso
Henriques; sendo, portanto, coévo da Sé de
Lisboa;
seria, porém, completamente edificado no seculo XII,
ou apenas restaurado e engrandecido n'esse seculo um
templo primitivo existente?
Confessamos não possuir elementos sufficientes para
dar fundada resposta a esta pergunta, embora nos inclinemos
para a segunda hypothese. Esta investigação,
que aliás teria importancia para o estudo perfeito
do monumento, é dispensavel no caso presente, em
que apenas procuramos classifical-o e firmar a nossa
opinião em affirmações claras e
positivas.
Em seguida, apresentamos a planta da parte monumental
do Mosteiro de Alcobaça, famoso pela grandeza
do edificio, pelas ricas propriedades conventuaes
e pelas tradições de opulencia gastronomica dos
frades
beneditinos, que o habitaram.
Planta de Parte Monumental do Convento de Alcobaça
| 1 Egreja. |
5 Sacristia. |
| 2 Sala dos
Reis. |
6 Capella do Santissimo. |
| 3 Sala dos
tumulos. |
7 Claustro de D. Diniz. |
| 4 Vestibulo. |
8 Sala do Capitulo |
A parte monumental é relativamente pequena em
relação
á enorme superficie do Mosteiro; todavia, a egreja
deve em comprimento considerar-se a maior do paiz.
A fachada foi, evidentemente, restaurada, ou melhor,
reconstruida já no periodo da renascença, talvez
a partir dos meiados do seculo XVII, aproveitando-se
pelo menos parte do antigo portal. Esta fachada manifesta-se
fria e pesada, pertencendo ao estylo, assás
espalhado entre nós, que de bom grado chamariamos
jesuitico; porque nos parece
traduzir a ferrea disciplina,
o caracter forte e combatente, o methodo implacavel
e severo d'essa machina de guerra religiosa,
chamada Companhia de Jesus, que, durante seculos,
dominou a sociedade portugueza, organisando-a á sua
imagem e similhança nas instituições,
na philosophia,
na sciencia, na religião e até nas
manifestações estheticas.
É preciso, em verdade, confessar que a fachada da
Egreja de Alcobaça, apesar das qualidades indicadas,
offerece elevado cunho de severidade e um grande aspecto
solemne, que até certo ponto se nos impõe,
resgatando
os defeitos do respectivo estylo. É como a
disciplina e o espirito jesuiticos, aos quaes, por mais
antipathicos que se manifestem á nossa intelligencia
e ao nosso sentimento, não podemos deixar de reconhecer
grandeza e de tributar um odiento respeito.
CONVENTO DE ALCOBAÇA—Fachada da Egreja
CONVENTO DE ALCOBAÇA—Fachada da Egreja
A egreja no interior não exprime, tambem, o sentimento
religioso, que se apodera da alma em edificios
ogivaes d'esta natureza, principalmente na bella
Egreja do Mosteiro da Batalha. Este facto provém talvez
mais de condições secundarias do que das
disposições
geraes architectonicas. É possivel que a
impressão
fosse profundamente modificada, se a egreja tivesse
um dia completa e perfeita restauração e os
vitraes
polychromicos produzissem a suave e poetica
luz, que hoje falta por completo ao grande templo.
Em todo o caso, a egreja não deixa de causar uma
sensação profunda de majestosa e solemne
severidade,
exactamente aquella que produzem os edificios romanicos
e, sem duvida, provém da synthese caracteristica
dos elementos fundamentaes do estylo.
A egreja tem tres elevadas naves, cujas respectivas
abobadas se elevam a egual altura. As lateraes são
muito estreitas e como excepção, que julgamos
assás
rara, inflectem-se em angulo recto, acompanhando os
braços do transepto. A capella-mór, relativamente
pequena,
é envolvida pela charola, onde foram abertas
capellas. Suppomos que estas capellas devem ter sido
construidas no periodo ogival; estão, porém,
tão cobertas
de obra de talha dourada, que não é
facil fazer
seguras affirmações sobre este ponto.
As columnas romanicas da capella-mór, bem caracterisadas,
segundo pensamos, do periodo secundario,
são visiveis da charola; pela frente, estão
mascaradas
por intercolumnios classicos semicirculares, de
construcção
relativamente moderna, muito elegantes: o
inferior da Ordem Jonica e superior da Composita.
N'este ponto reside, sem duvida, uma das difficuldades
e um dos problemas de qualquer futura
restauração.
O Claustro de D. Diniz—damos-lhe a
designação
vulgar—fica encostado á parede norte da egreja,
commum a ambas as construcções. É um
bello e
grande claustro, o terceiro na ordem architectonica
dos que existem no paiz, considerando o primeiro o do
Mosteiro da Batalha pela unidade e delicioso estylo e
o segundo o do Mosteiro dos Jeronymos. Primitivamente
este claustro apenas teve, como o da Batalha,
porticos inferiores, segundo todas as probabilidades
cobertos por terraços; nos fins do seculo XV ou no XVI
foram construidos os porticos superiores, cuja cobertura
é de madeira e telhados amouriscados.
A Sala do Capitulo abre no portico oriental inferior
do claustro. É uma bella peça architectonica;
sobretudo, a grande porta, ladeada de quatro janelas,
duas de cada banda, constitue um dos melhores exemplares
romanicos, existentes no paiz. Ninguem acreditará,
por certo, que esta porta e estas janelas, tão
puras e caracteristicas, se acham muradas, ficando
separada da parte monumental a respectiva sala, que
outr'ora serviu de
picadeiro ao
regimento de cavallaria
aquartelado no velho Mosteiro e hoje está occupada
pelo
gymnasio militar!
Os restantes edificios, exceptuando a chamada Sala
dos Reis, são construcções
posteriores, annexas ou encostadas
ao antigo monumento. Por pouco se recommendam,
embora sejam elementos integrantes e indispensaveis
da parte monumental.
A Sala dos Reis deve ser coéva da egreja e do
claustro, quer seja primitivo o seu estado actual, quer
resulte de posteriores reconstrucções.
Não tem valor architectonico.
A sua designação provém
de umas estatuas (?!)
de gêsso com olhos pintados, que sobre
misulas de pedra
ornam as paredes do
recinto. Uma
só phrase define estas grotescas personagens:
ridiculas
e vergonhosas. Seria uma obra de misericordia
artistica
e de amor patrio tirar d'ali aquelles
mônos, que attestam
a esthetica dos gordos frades de Alcobaça e nos
envergonham perante nacionaes e estrangeiros, hoje
começando a affluir em visita ao monumento.
A Sala dos Tumulos, abrindo no ramo sul do transepto,
é de construcção posterior
á da egreja. Edificio
vulgar, contém, apenas, alguns sarcophagos de valor,
principalmente o de D. Pedro I e o de D. Ignez de
Castro, magnificos exemplares do Estylo Ogival, embora
um pouco damnificados pelas profanações, que
em geral soffreram as nossas ricas sepulturas
no tempo
dos francezes. É a defeza habitual da
incuria e falta de
respeito pelas tradições e pelos mortos.
Tambem, muito posteriormente á
construcção da
egreja, uma das capellas envolventes da charola foi
rasgada para ligar o templo com a sacristia actual.
Esta sacristia, de Estylo da Renascença, é muito
pobre
e quasi glacial. Parece-nos posterior á
restauração
da fachada. No extremo da sacristia vê-se um Relicario
circular, todo forrado de talha dourada e de bustos
de madeira, em geral assás feios e mal feitos, que
encerravam as reliquias. Apesar dos defeitos e do pessimo
estylo, se esta palavra se póde applicar ao caso,
este Relicario deveria ser restaurado, como exemplar
dos costumes religiosos do tempo.
Em frente da sacristia encontra-se uma capella,
actualmente do Santissimo, sem valor architectonico
absolutamente algum. Todavia, no vestibulo, que serve
esta capella e á sacristia, as duas respectivas portas
são de excedente Estylo da Renascença manuelina.
Eis a succinta descripção da planta da parte
monumental
do Mosteiro de Alcobaça. No resto do edificio
nada encontramos que mereça attenção a
não ser
a Sala da Bibliotheca, do Estylo da Renascença, vastissimo
salão com estuques modernos a caír em
pedaços
e ameaçando proxima e perigosa ruina. Nos vãos
das respectivas janelas existem ainda vestigios da
antiga ornamentação, onde se nota a influencia
dos
frescos e pinturas muraes de Pompeia, tão usadas
depois da descoberta, no meiado do seculo XVIII, e das
excavações d'esta antiga cidade romana, situada
nas
margens do Golpho de Napoles.
Não mencionaremos a
pantagruelica cozinha dos
gastronomos frades de Alcobaça, que, segundo parece,
a todas as artes preferiam, a julgar pelo
sanctuario,
a arte culinaria e as famosas
tremendas, pequenas
refeições de um arratel de toucinho assado!
A que estylo pertencem a egreja e o claustro, ao
Romanico de transição ou ao Ogival primario?
É claro que em face d'estes edificios vamos collocar-nos
como os classificadores zoologicos ou botanicos
em frente de novos exemplares. Além d'isso, não
temos
a pretensão de resolver o problema; desejamos,
apenas, enuncial-o claramente, o que em mathematica
se considera meia resolução.
Comecemos pela egreja, fazendo notar não só a
impressão
particular, que ella produz, mas tambem a circumstancia
de que tanto este edificio, como o claustro
e a casa do capitulo se encontram tão ligados, tendo
paredes communs, que no respectivo conjunto a
construcção
deve ter sido pelo menos quasi simultanea.
Enumeremos, pois, os principaes caracteres romanicos
bem definidos d'estas construcções.
A egreja offerece os seguintes:
1.º Os pilares das arcadas, que dividem as naves,
são rectangulares, massiços e muito fortes,
embora
assás elevados. Os cinco primeiros de cada lado, a
contar do transepto, têem columnas nichadas nos quatro
angulos. Nas faces exteriores d'estes pilares, as columnas,
que sustentam os arcos da nave central perpendiculares
ao respectivo eixo, são chanfradas em
certa altura, não chegando ao pavimento. Nos oito
pilares seguintes, tambem de cada lado, desapparecem
as columnas nichadas e as das faces exteriores assentam
sobre fortes misulas. Todas estas columnas,
que revestem de grandes em grandes espaços os pilares
rectangulares, embora sejam muito elevadas, manifestam
relativamente grande grossura.
Estamos, pois, bem longe dos pilares polistylos ogivaes.
Assim, se a um architecto dessem isoladamente
a secção d'estes pilares e parte da sua
elevação, cremos
que não duvidaria em classifical-os romanicos.
2.º Em algumas bases das columnas da egreja apparecem
garras, cuja fórma nos parece accentuadamente
romanica.
3.º As portas da Sala dos Reis, a da entrada para
o claustro e a do refeitorio, no portico norte d'este
claustro, manifestamente primitivas, são
caracterisadamente
romanicas.
4.º Os arcos primitivos da capella-mór
são de
puro
Estylo Romanico.
5.º As janelas da capella-mór, as orientaes do
transepto e as lateraes das naves, excepto a ultima de
cada lado proximas do transepto, são de volta inteira.
D'esta exposição suppomos dever concluir a
supremacia
do arco continuo nos elementos fundamentaes
da egreja. A ogiva apparece, sem duvida, mas nem
ao menos é dominante. Assim, na abobada da nave
central apresenta-se pouco accentuada e se o é nas
lateraes, póde o facto attribuir-se á
condição da egual
altura dos fechos das abobadas nas tres naves, que
obrigou o constructor a dar maior ponto aos arcos,
pronunciando a ogiva.
É verdade que o portal da fachada principal é
ogival;
mas nada prova que esse portal seja o primitivo.
Além d'isso, os respectivos capiteis, de folhagens e
galões com muito pequeno relevo, são mais
romanicos
do que ogivaes.
Passemos agora ao claustro:
1.º A porta e as janelas da Sala do Capitulo são
absolutamente romanicas.
2.º Os porticos inferiores são formados de dois ou
tres arcos geminados de ogiva bem definida, com pequenas
rosaceas sobre os angulos curvilineos; mas o
grande arco envolvente é
sempre de volta inteira.
3.º O pavilhão da fonte tem janelas nas quaes a
ogiva mal se desenha.
Se a tudo isto juntarmos que o coroamento do edificio,
na parte primitiva, é formado de ameias, repousando
sobre forte e simples cachorrame, teremos
dado a summula dos argumentos architectonicos, em
que nos fundamos para a classificação do
monumento.
Outros mais entendidos do que nós que os apreciem,
porque na realidade não temos em geral grande
amor ás nossas idéas e em todas as
occasiões da nossa
vida, sem sacrificio de vaidade, temos procurado apenas
a verdade.
Este bello Mosteiro de Alcobaça teve sorte egual ao
de Thomar. Não o venderam, é certo; mas
transformaram-n'o
em caserna e abandonaram-n'o á pilhagem.
Verdade seja que hoje lá vamos com diminuta somma
restaurando lentamente o magnifico claustro.
Afóra isto, nada mais existe no paiz do Estylo Ogival,
pelo menos que o conheçamos, a não ser em
pequenos
edificios e em trechos encravados em egrejas
romanicas; eis o que nos parece incontestavel. Assim,
na realidade, o unico monumento puro, completo e
relativamente grande, que Portugal possue do Estylo
Ogival, é o Mosteiro da Batalha; por isso mais detidamente
o vamos estudar e descrever.
Da Renascença não é tão
accentuada a nossa pobreza.
Durante os seculos XVI, XVII e XVIII reparou-se
e construiu-se bastante entre nós. As
construcções
são em geral acanhadas, é certo; ás
vezes, de um
estylo de pessimo gosto, como o de quasi todas as
egrejas d'esse estylo frio, deselegante, disciplinado e
monotono, que, segundo dissemos, parece ter nascido
da influencia do espirito jesuitico, dominante n'esses
seculos. Mas edificios existem, como o Mosteiro dos Jeronymos
em Belem, o Palacio da Ajuda, o Convento
de Mafra, o Convento da Madre de Deus e a Egreja
da Estrella em Lisboa, o Convento de Santa Joanna
em Aveiro e ainda alguns outros, que possuem qualidades
estheticas e architectonicas dignas de admiração
e louvor.
D'este ponto não nos podemos occupar n'este livro,
limitado pela prévia definição do
assumpto; reservando
para mais tarde o delicado estudo do Estylo
da Renascença, se podérmos ainda tentar e
realisar
este trabalho
[8].
PARTE QUARTA
O MOSTEIRO DE SANTA MARIA DA VICTORIA
NA BATALHA
MOSTEIRO DA BATALHA—Vista geral
MOSTEIRO DA BATALHA—Vista geral
CAPITULO
PRIMEIRO
ORIGENS E CONSTRUCÇÃO DO MOSTEIRO
O Mosteiro da Batalha é, sem possivel
contestação,
o nosso primeiro monumento do Estylo Ogival, quasi
poderiamos dizer o unico entre nós pela unidade e
grandeza, porque os outros offerecem valor secundario.
Tivemos occasião de apreciar esta
asserção no
capitulo precedente.
A verdade é, ainda, que deve ser considerado, não
pelas dimensões mas pela architectura, um dos primeiros
do mundo. Seria inutil, com effeito, comparal-o
com as enormes Cathedraes de Milão, Sevilha, Strasburgo
e Colonia. A pequena Egreja da Batalha caberia
quasi nos transeptos das duas primeiras cathedraes,
vastos colossos de cinco grandes naves, cujas abobadas
se elevam a mais de quarenta metros nas naves
centraes.
A posição primacial do Mosteiro da Batalha, entre
a multidão dos monumentos ogivaes, é-lhe fixada
pelas formosas condições architectonicas, pela
unidade
e harmonia de estylo, rarissimas nas outras cathedraes,
pelo sentimento indescriptivel de poesia e
de mysticismo que infunde a todos os visitantes, embora
sejam versados no estudo de outros monumentos
e tenham visto alguns dos principaes. Ora, devemos
observar que é necessario ter um edificio singulares
qualidades estheticas para resistir á falta de grandeza,
que constitue, sem duvida, um requisito quasi
indispensavel nas construcções monumentaes.
Assim, por exemplo, o Alhambra de Granada com o
seu lindo pateo dos Leões, um primor da arte arabe,
visto em gravuras causa grande impressão, que é
modificada
depois de visitado, por effeito da pequenez do recinto.
O aspecto é encantador, de certo; mas falta-lhe
a solemnidade das dimensões. Os porticos do pateo dos
Leões, formados de pequenas columnas cujos capiteis
mal excedem a altura elevada de um homem, offerecem
mesquinho aspecto. O nosso espirito procura augmentar
tudo aquillo, alargar-lhe as dimensões, dar-lhe,
emfim, grandeza e com ella a solemnidade.
Já o mesmo não succede na antiga mesquita de
Cordova, transformada em Cathedral. Se o edificio é
baixo, como em regra o eram os do Estylo Arabe, as
vastas alamedas de columnas, ligadas por dois arcos
sobrepostos e cortando-se perpendicularmente em
enorme superficie, dão-lhe um aspecto original e
grandioso.
Outro tanto não poderemos dizer da Sainte
Chapelle de Paris, riquissimo exemplar do Estylo
Ogival, mas tão pequeno e rendilhado que faz nascer
a idéa de estarmos dentro de um riquissimo e gigantesco
cofre cinzelado. Taes são as impressões,
que produzem,
pelo menos no nosso espirito, estes dois pequenos
monumentos: o arabe e o christão.
Assim, as condições excepcionaes do Mosteiro da
Batalha, quer em relação á nossa
riqueza artistica,
quer pela sua elevada classificação entre os
monumentos
do Estylo Ogival, obrigam-nos a estudal-o mais
detidamente, procurando, se for possivel, fixar a seu
respeito doutrinas e opiniões, que ainda nos parecem
pelo menos incertas e confusas.
Origem e data da
construcção.—No momento
critico,
em que a batalha de Aljubarrota, dada em 14 de
agosto de 1385, esteve perdida para os portuguezes,
D. João I e o seu grande condestavel Nuno Alvares
Pereira faziam, talvez ao mesmo tempo, o voto de edificar
um templo ao Deus dos Exercitos, porque só elle
os podia salvar n'esse terrivel transe. A victoria dos
castelhanos teria sido, com effeito, a perda irremediavel
do pequeno reino de Portugal, visto que as
condições
politicas do tempo eram differentes das de 1640.
Os votos dos dois poderosos senhores foram entre
nós origem de duas construcções
ogivaes. O espirito
religioso da Edade Media produziu estes resultados
em muitos pontos. Foi, como dissemos, uma das causas
da grande dispersão do Estylo Ogival por todo o
orbe christão no periodo do feudalismo, que aliás
em
rigor não existiu entre nós.
O rei cumpriu o voto, edificando perto dos campos
de Aljubarrota o Mosteiro de Santa Maria da Victoria,
o condestavel elevando em Lisboa o templo do convento,
onde em vida mystica passou os ultimos annos
da sua existencia. Esta egreja, destruida pelo terramoto
de 1755, é conhecida pelo nome de Ruinas do
Carmo.
A data do começo dos trabalhos do Mosteiro da Batalha
não é facil de fixar. Os archivos do convento,
como aconteceu com os de muitos outros, foram dispersos
e roubados, principalmente depois da revolução
constitucional. Existem, todavia, documentos, pelos
quaes se póde definir com muita probabilidade esta
data e o periodo da construcção.
Na carta regia de 4 de abril de 1388, el-rei
D. João I fez doação do convento
á Ordem de S. Domingos.
É, pois, natural que n'esta data os trabalhos
estivessem começados e parte do convento, pelo menos,
em estado de receber os frades. O cardeal patriarcha
de Lisboa, D. Francisco de S. Luiz, auctor
de uma memoria valiosa sobre o Mosteiro da Batalha,
homem instruido que viveu durante alguns annos no
convento e pôde ainda consultar os archivos mais
ou menos completos, manifesta a opinião de que o
edificio teria sido iniciado em 1387, ou quando mais
cedo no anno precedente.
A necessidade de fazer projectos e de reunir mestres
e operarios habeis, principalmente para obra de
estylo grandioso e rico pouco cultivado entre nós,
exclue, a nosso ver, o curto espaço de um anno entre
o voto e o começo da construcção.
Além d'isso, frei
Luiz de Sousa, o chronista do Mosteiro, cuja
descripção
constitue um primor de estylo e linguagem do
tempo, frade no proprio convento, na sua
Historia da
Ordem de S. Domingos escreve estas phrases:
«com as
armas ás costas—D. João
I—revia
traças, consultava
architectos, buscava officiaes e, ganhando por uma
parte logares rebeldes que lhe resistiam, ia por outra
edificando paredes sagradas. E foi assim que já havia
tres annos que a obra do Mosteiro corria, quando, estando
de cerco sobre o castello de Melgaço, assentou
de o dar á ordem de S. Domingos».
Esta citação demonstra a vida agitada do monarcha
e o seu cuidado em buscar architectos e artifices
para a realisação do voto, mas em parte
está evidentemente
incorrecta, porque, datando a doação do convento
de 1388, não podia a respectiva
construcção
ter já n'essa epocha tres annos, visto que tambem tres
annos antes se ferira a batalha de Aljubarrota.
Por estas rasões, corroboradas por outras que exporemos
em logar competente, somos levados a fixar o
começo dos trabalhos em 1387 e com grande probabilidade
a suppor, em harmonia com o espirito peculiar
dos votos, que foi escolhido para este acto o dia
do anniversario da victoria sobre os castelhanos, 14
de agosto.
Periodo da
construcção.—O conjunto do
Mosteiro,
como existiu outr'ora porque depois parte do convento
foi arrasada para desaffrontar o monumento,
deve ter sido construido em tres epochas differentes.
A primeira epocha abrange os edificios principaes,
como a egreja, a capella do fundador, o claustro, a
sacristia, o refeitorio e a casa do capitulo. Estes elementos,
os de maior valor, constituem uma parte monumental
do Mosteiro e são do melhor e mais puro
Estylo Ogival, embora em pontos muito secundarios
offereçam vestigios da renascença manuelina.
A segunda epocha comprehende um outro claustro,
denominado de D. Affonso V e os antigos annexos do
convento.
A terceira epocha envolve as
capellas
imperfeitas e
o respectivo vestibulo.
Occupar-nos-emos, agora, só dos edificios da primeira
epocha, porque os da segunda e os da terceira
serão succintamente apreciados em um dos seguintes
capitulos.
Uma das impressões profundas, que á simples vista
produzem logo os edificios ogivaes da primeira epocha,
é a sua perfeita harmonia e unidade, tão
completas
que no nosso espirito se radica a opinião de que o conjunto
teve planos estudados e realisados por um só
architecto. Esta impressão é manifestada por
todos os
homens versados no assumpto. Citaremos dois.
Murphy, architecto inglez, que em 1793 viajou
em Portugal e visitou o Mosteiro da Batalha, onde
fez estudos desenvolvidos, publicou dois livros conhecidos,
um sobre as viagens, outro sobre o Mosteiro,
acompanhado de magnificas gravuras. Ora, este architecto
escreve ácerca dos edificios, agora considerados:
«no todo vêem-se tal
correcção e regularidade
que apparentemente parece ter sido o resultado de
bem concebido plano original e, ao mesmo tempo, é
evidente que este plano foi seguido e executado em
progressão regular, sem as alterações
e as interrupções
a que estão, em geral, sujeitas estas grandes
construcções».
Um grande engenheiro portuguez, Luiz Mousinho
de Albuquerque, que durante longo tempo dirigiu as
primeiras obras de restauração do Mosteiro,
distinguindo-se
nas dos vitraes, observa, em memoria que
corre impressa, terem todos os edificios da primeira
epocha paredes communs e directas communicações.
Esta observação indica que a
construcção não podia
deixar de ser simultanea e de obedecer a um plano
geral definitivo, organisado sob as vistas harmonicas
em concepção e estylo de um architecto, ou pelo
menos
de poucos animados do mesmo espirito.
Além d'isso, demonstra que os edificios deviam ter
sido construidos em curto praso. Com effeito, vimos
que nas grandes cathedraes do periodo ogival faltam
em regra a unidade e a harmonia, porque nos longos
periodos de construcção, ás vezes
abrangendo seculos,
muitos architectos se seguiram na direcção das
obras e, durante tão largos espaços, o
meio social e o
gosto artistico tiveram tempo de se transformar sensivelmente,
influindo sobre a unidade e a harmonia
dos monumentos. Nos edificios considerados do Mosteiro
da Batalha não se deve ter dado este facto. Eis
o que resulta da simples observação; ora, os
documentos
e as presumpções positivas demonstram esta
verdade, por fórma irrefutavel.
No testamento de D. João I, feito em 1426, lêem-se
em relação ao estado do edificio as seguintes
phrases:
«que o Mosteiro se acabe de Crasta, casarias, e
de todolos outros edificios, que a bom comprimento
do dito Mosteiro forem necessarios». Anteriormente, no
mesmo documento, El-rei designa para sua sepultura
a
capella-mór, onde jazia
a rainha D. Filippa, sua mulher,
ou
na outra que Nós ora mandamos fazer,
depois
que for acabada. Cotejando estas duas
citações devemos
concluir que a egreja estava quasi acabada em
1415, anno da morte de D. Filippa, porque o respectivo
epitaphio refere a trasladação do corpo da rainha
para o Mosteiro da Batalha, em 15 de outubro de 1416.
Assim, comparadas estas datas, é ponto incontroverso
que em 1416 a egreja se achava terminada e
estavam em adeantada construcção o claustro
principal
e a capella do fundador; portanto, tambem o
deviam estar a casa do capitulo, o refeitorio e a sacristia,
como corpos annexos e por necessidade do proprio
desenvolvimento das obras.
D. João I morreu em agosto de 1433. Seu filho,
D. Duarte, continuou os edificios, já muito proximos
do fim. O cardeal D. Francisco de S. Luiz transcreve
uma carta d'este ultimo rei, escripta de Setubal,
em 10 de maio de 1436, a Fernão Rodrigues,
védor das
obras—sublinhamos propositadamente o
cargo—dizendo-lhe:
«vimos a carta que nos escreveste pelo
Ruy Fernandes, vosso filho, sobre certas obras que
dizeis que eram ordenadas por El-Rei, nosso Senhor
que Deus haja, que se fizessem logo n'esse Mosteiro e
que quereis saber o que n'este caso havemos por bem
que se fizesse, convem a saber: em vir a agua da
fonte dos valles, ou da jardoeira, ou da calvaria para
o lavatorio do dito Mosteiro».
As expressões d'esta carta provam que em 1436 a
construcção tocava o fim, porque o lavatorio, a
que
evidentemente se refere D. Duarte, é a bella fonte de
excellente estylo, abrigada no pequeno pavilhão, construido
n'um dos angulos do claustro principal e fazendo
parte integrante da respectiva construcção.
A exposição das opiniões de ordem
technica e a
comparação dos documentos historicos, que
acabamos
de fazer, auctorisam e fundamentam a hypothese de
que todos os edificios da primeira epocha foram construidos
e terminados, pelo menos nos seus elementos
principaes, de 1387 a 1433, isto é, no periodo de quarenta
e seis annos.
Contra esta hypothese podem apenas suscitar-se
duvidas de caracter muito secundario e facilmente
explicaveis, por exemplo: a cruz de Christo e a esphera
armillar, emblemas manuelinos, existentes nos
tecidos rendilhados dos tympanos de alguns arcos do
claustro principal. É evidente que estes elementos podem
ter sido feitos posteriormente, porque não eram
indispensaveis para os usos do Mosteiro; alem d'isso,
é muito possivel que provenham de
restaurações,
visto que a pedra empregada nos edificios é branda
em excesso e, nas peças finas e rendilhadas principalmente,
mostra-se muito sensivel á acção
corrosiva do
tempo.
CAPITULO
SEGUNDO
O ESTYLO ARCHITECTONICO DO MOSTEIRO
Quando tratámos dos Estylos Romanico e Ogival,
expozemos as rasões pelas quaes os nomes dos architectos
d'esses periodos eram pouco conhecidos. Tambem
o do Mosteiro da Batalha segue esta regra quasi
geral; todavia, é assumpto muito interessante esta
investigação, que, ao mesmo tempo, nos
esclarecerá,
sobre varios pontos historicos e technicos do nosso
primeiro monumento ogival. Ouçamos os documentos;
depois virão as deducções geraes e os
argumentos de
ordem technica. Veremos se é possivel lançar
alguma
luz n'estas densas trevas.
«D. João I chamou de
longes
terras, escreve frei
Luiz de Sousa, os mais celebres architectos que se sabiam,
convocou de todos os pontos officiaes de cantaria
destros e sabios; convidou uns com honras, a outros
com grandes partidos, obrigou a outros com tudo
junto. Á voz da grandeza da obra acudiu de
todo o
mundo numero infinito de peonagem a servir e trabalhar
e ganhar jornaes—que este bem têem as grandes
obras, manter muitos pobres».—E n'outro ponto faz
notar que os religiosos não eram chamados a dar voto,
nem traça, nem ordem nas obras, «unicamente
dirigidas
por officiaes reaes».
Estas affirmações na bocca de um escriptor grave,
eminentemente nacional, que devia ter ao seu alcance
os archivos e conhecer as tradições oraes
monasticas do
Mosteiro da Batalha, offerecem decisiva auctoridade.
Frei Luiz de Sousa viveu por largos annos no convento;
attesta-o a magnifica descripção que d'elle fez
na sua
grande obra, escripta no principio do seculo XVII, isto
é, cerca de duzentos annos apenas depois da
construção
do Mosteiro. Se os archivos do convento já não
existiam, havia a tradição oral, admissivel em
tão
curto espaço de tempo, principalmente n'uma
associação
monastica. Frei Luiz de Sousa não cita o nome do
architecto; mas escreve expressamente que foram chamados
de
longes terras os mais celebres
architectos;
ora, n'este caso, a expressão designa
nações estrangeiras.
Esta interpretação não póde
soffrer duvida, porque
o mesmo auctor mais abaixo explica que o pessoal
acudiu de
todo o mundo. A
declaração é expressa.
Por outro lado, José Soares da Silva, nas
Memorias
de D. João I, affirma que n'outra memoria
do
dominicano Antonio de Madureira se dizia ter sido o
primeiro architecto do Mosteiro da Batalha um irlandez
chamado David Aquete, que então vivia em Vianna
do Castello. Debalde procurámos encontrar esta ultima
memoria, ou determinar a data em que existiu este
frade dominicano, o que poderia constituir valioso
subsidio para a resolução do problema; todavia,
parece-nos
dever concluir d'estas citações que, entre os
frades dominicanos, passava por averiguado ter sido
estrangeiro o primeiro architecto da Batalha.
O patriotismo dos nossos escriptores antigos, por
vezes exagerado, não teria por certo deixado escapar
a occasião de enaltecer o nome nacional com a gloria
da creação de monumento, que em todos os tempos
foi profunda e geralmente admirado.
Esta furia patriotica offerece um eloquente exemplo.
Murphy, fundando-se na asserção de Soares da
Silva,
anteriormente citada, traduziu Aquete—fórma
portugueza—pelo
nome inglez, que sonicamente lhe corresponde,
escrevendo Hakett, appellido irlandez por
signal. D. Francisco de S. Luiz critica este procedimento
do architecto inglez, que aliás teve tambem
outros motivos technicos importantes para acceitar a
origem ingleza do creador do plano do Mosteiro, e declara-o
exagerado. E como se não bastasse este triste
argumento, accrescenta, com incrivel arrojo, que n'esse
tempo da construcção do Mosteiro eramos a
nação
mais adeantada em architectura e nas outras artes, exceptuando
apenas a Italia!
Ora, n'este ponto, o Cardeal, aliás erudito e grave,
demonstrou pequenos conhecimentos, porque não só
no ogival a Italia nunca teve a primazia, mas n'essa
epoca já a França, a Allemanha, a Inglaterra e os
Paizes
Baixos estavam cobertos de monumentos dos mais
puros estylos, não falando nas outras artes.
Em contraposição a estes indicios, cujo valor
é incontestavel,
temos a opinião de frei Manuel dos Santos,
que diz chamar-se o mestre da obra Affonso Domingues,
natural de Lisboa, morador na freguezia da
Magdalena, homem digno de eterna memoria pela capacissima
idéa, com que delineou a fabrica. Devemos observar
que este chronista do seculo XVIII, pela sua
posição
official, não nos deve infundir grande confiança
em questões patrioticas. Além d'isso, estudou
tão mal
a questão que, linhas abaixo, escreve haver-se executado
a construcção do Mosteiro de 1385 a 1388, o que
era em absoluto impossivel no curto espaço de tres
annos, confundindo assim a data da doação do
convento,
feita por D. João I, com a do fim dos trabalhos.
D. Francisco de S. Luiz, como é logico, acceita esta
versão e dá-lhe certa plausibilidade. O futuro
Cardeal
Patriarcha de Lisboa estivera por muito tempo no
Mosteiro da Batalha, onde estudou o monumento e
consultou os archivos, existentes no principio do seculo
passado, colhendo preciosas informações sobre os
seus
successivos architectos, pintores e vidraceiros, nomes
que hoje estariam perdidos, se não fossem o zêlo e
a
curiosidade do illustre prelado. Ora, entre os documentos
do archivo, este escriptor viu um de 1402, que se
referia a Affonso Domingues e já o dava por fallecido
n'esta data. Como os trabalhos haviam começado
em 1387, segundo a nossa opinião, este architecto, se
o foi, podia bem ter sido o primeiro, ou um dos primeiros
do Mosteiro da Batalha; não se devendo concluir
d'aqui, comtudo, que fosse o unico, ou o auctor
do plano primitivo, que bem poderia ter vindo de
longes
terras. Em todo o caso a
observação tem valor.
Affonso Domingues seria architecto? Eis a duvida.
Um grande architecto não se forma isoladamente. No
gabinete estuda-se a arte, que se pratica depois. A
imaginação, a sciencia da
construcção, a firmeza do
estylo, emfim, as grandes qualidades de um architecto,
se dependem do proprio genio, desenvolvem-se pela
pratica e, sobretudo, pela influencia do
meio.
O que existia em Lisboa n'esse tempo tendo verdadeiro
valor architectonico, a não ser do Estylo Romanico
e d'esse bem pobre e pouco? O que estava em
construcção, onde se aquecesse e formasse o seu
genio?
Porque produzir no gabinete e realisal-o depois, sem
a experiencia e a influencia de grandes obras existentes
ou em construcção, plano como o do Mosteiro da
Batalha, seria um rasgo genial, quasi superior ao de
Pascal, que, sendo novo, pelo unico esforço do proprio
genio deduziu os trinta e seis primeiros theoremas de
Euclides. Mas entre a mathematica e a architectura,
as differenças são profundas: na primeira, as
verdades
absolutas existem e concatenam-se no raciocinio; na
segunda, a intelligencia não póde supprir os
factos
numerosos, que constituem a arte e a sciencia do constructor.
É verdade que no seu tempo, em meiados do seculo
XIV, acabára a construcção em Lisboa
de uma
pequena capella do Estylo Ogival, n'este momento em
via de restauração, encostada á velha
Sé; mas o exemplar,
simples e modesto, é do ogival francez do segundo
periodo, como o attestam os seus caracteres architectonicos
e a assignatura do seu auctor n'uma pilastra
principal, conforme era de uso ás vezes, segundo
já dissemos: uma flor de lyz bem definida, que, se
occulta o nome, define a nacionalidade.
Finalmente, para citarmos uma opinião inesperada
e singular, o auctor da collecção de memorias
relativas
aos pintores, esculptores, architectos e gravadores
estrangeiros, que estiveram em Portugal, cita o nome
de Benjamin Comte. Esta citação não
envolve valor
algum, porque estas memorias, impressas em 1827,
manifestam grosseiras inadvertencias. O nome parece
francez; todavia, cumpre notar que depois da conquista
dos normandos foram introduzidos em Inglaterra muitos
nomes de origem franceza. Esta supposição podia
tomar vulto, se o segundo mestre, ou architecto do
Mosteiro da Batalha, que apparece no documento citado
de 1402, como testemunha e já era fallecido em
1450, Mestre Ouguet, Huet, ou Huguet, não fosse,
como é provavel, a fórma sonica portuguesa do
nome
bem inglez Hewett.
D. Francisco de S. Luiz, para reforçar a hypothese
de que Affonso Domingues foi o architecto do Mosteiro,
diz que bem póde ser este mestre Ouguet o
Aquete, nomeado por Soares da Silva segundo a memoria
do dominicano Antonio de Madureira.
Bem avaliados os documentos e as citações
apresentadas,
o nosso espirito fica perplexo. Sem duvida,
Affonso Domingues existiu e teve importante ingerencia
nas obras do Mosteiro da Batalha; mas isto não
significa que, se dirigiu as obras, fosse d'elle o plano
primitivo do Mosteiro. Em primeiro logar, poderia
apenas tel-o executado; depois—parece-nos esta
observação
importante—a situação de Affonso
Domingues
tambem podia ser a de simples fiscal da obra,
contractada com uma corporação
franco-maçonica, que
a teria projectado e realisado, como tudo nos leva a
crer e explicaremos mais adeante.
Esta ultima asserção nossa é
corroborada pela carta
de El-Rei D. Duarte, anteriormente citada e escripta
de Setubal a Fernão Rodrigues,
védor das obras, do
Mosteiro da Batalha, em 1436. N'este anno, vivia ainda
o architecto Hewett, que se suppõe ter sido o segundo
mestre das respectivas obras, porque D. Duarte lhe
fez doação em 1436 de umas casas, que elle Hewett
habitava junto das obras; ora, este principe morreu em
1438, reinando apenas cinco annos. N'este periodo de
tres annos de 1433 a 1436, ou pelo menos em parte
d'elle, o architecto inglez teve, como
védor ou fiscal,
Fernão Rodrigues, delegado regio.
Se este devia ser logicamente o systema, como o é
na actualidade nas grandes empreitadas do Estado,
nada repugna ao espirito que o mesmo facto se desse
em epocha anterior com o architecto David Hacket e
o
védor Affonso
Domingues. Assim, ficaria explicado
o apparecimento do nome do segundo no documento
de 1402, que infelizmente, ainda visto por D. Francisco
de S. Luiz, já hoje não existe.
Esta investigação é assás
difficil e uma conclusão,
mais ou menos segura, carece de ser fundada em argumentos
e provas de outras ordens, que em seguida
procuraremos adduzir. Por emquanto, a nosso ver, a
mais provavel supposição reduz-se a estas
proposições:
que o plano do Mosteiro da Batalha é de origem estrangeira,
ingleza provavelmente, e que o primeiro
architecto, que delineou e começou a realisar este
plano, não era nacional, mas tambem, segundo as
maiores probabilidades, de nação ingleza.
Se os argumentos de ordem historica nos levam a
estas conclusões, vejamos agora onde nos conduzem
outros argumentos e outras inducções de natureza
architectonica.
As construcções ogivaes, obedecendo á
influencia
do
meio particular das
nações, entre as quaes se desenvolveram,
tomaram feições proprias em cada uma,
muito embora subordinadas ás leis e aos caracteres
geraes do estylo. O mesmo facto succedeu com o Estylo
Romanico. Assim, as feições especiaes, diriamos
talvez mais nitidamente, as physionomias do ogival
allemão, francez e inglez são por tal
fórma definidas,
que os grandes entendedores da arte as distinguem
com facilidade. A evolução e a decadencia do
estylo
não se manifestaram, tambem, em identicos periodos;
por exemplo, a Inglaterra conservou mais puro e duradouro
o bom estylo, não offerecendo quasi o periodo
de decadencia. Eis o que escrevemos a proposito do
Estylo Ogival e agora por applicavel repetimos.
No fim do seculo XIV, quando começou a
construcção
do Mosteiro da Batalha, manifestava-se já certa
decadencia na arte ogival do continente, emquanto a
ingleza era, ainda, pura e florescente. É certo que, pelas
suas condições geographicas e particulares,
Portugal
recebia o influxo das artes um pouco em atrazo;
devemos, pois, entrar em linha de conta com este
facto.
O estylo architectonico do Mosteiro da Batalha
é de um ogival purissimo, de perfeita unidade e
harmonia nas linhas geraes, elegantissimo, sobrio
na ornamentação aliás fina e
distincta; em summa,
traduz os melhores caracteres da arte na mais florescente
edade. Esta impressão resalta do conjunto
do monumento e do estudo das suas differentes
partes.
Faremos notar, por exemplo, a extraordinaria e formosa
visão architectonica, permitta-se-nos a phrase,
que, mais talvez do que em nenhum outro ponto,
o monumento produz, visto do canto do claustro principal,
no terrado junto ao pequeno pavilhão da fonte.
Jámais outros grandes monumentos, dos que vimos,
nos provocaram tão profunda sensação e
sempre repetida;
a não ser, talvez, a grande charola da Cathedral
de Milão.
A construcção do Mosteiro da Batalha
começou,
pois, quando no continente o Estylo Ogival resvalava
para a decadencia; pelo mesmo tempo, erguiam-se em
Sevilha e Milão duas enormes cathedraes de estylo
bem menos puro. Esta coincidencia da pureza architectonica
do Mosteiro da Batalha com a da arte ingleza
parece-nos assás caracteristica; outras rasões
ha, porém, que ainda mais apertam estas
relações.
Em assumpto tão delicado procuremos a opinião
de um mestre inglez, bem conhecido historiador da
arte. «Nós não encontramos, tambem, em
Inglaterra,
diz Hope, esses porticos profundos, cheios de estatuas
e encimados de grande rosaceas, que se vêem nas
Cathedraes de Strasburgo, Reims, París, Chartres,
Amiens e outros pontos. Apenas podemos formar
idéa d'isto pela rosacea, relativamente insignificante,
da egreja de Exester. Por toda a parte—em
Inglaterra—o
portal e a rosacea são substituidos por uma
porta e uma janela sem proporção alguma entre si,
a
porta sendo muito pequena e a janela muito grande.»
Não multiplicamos as citações para
evitar longa exposição
e porque esta nos parece caracteristica.
Olhando a fachada principal e a do sul do Mosteiro,
porque a egreja está orientada, como era costume,
voltando a capella-mór para o oriente, encontraremos
realisada a regra do historiador inglez, principalmente
na ultima. Outras similhanças se manifestam
nos caracteres do coroamento e da ornamentação,
que seria prolixo descrever. Além d'isso, em todo o edificio
predominam as grandes janelas com maior ou
menor numero de maineis; só duas insignificantes rosaceas
existem na casa do capitulo e essas talvez não
sejam primitivas.
Uma observação fizemos logo n'uma das nossas
primeiras
visitas ao Mosteiro da Batalha, guiado, de
certo, pelas presumpções e pelos factos
historicos, a
que nos havemos mais tarde de referir; pareceu-nos
que a feição, a physionomia artistica do Mosteiro
offerecia
grandes analogias com a da Cathedral de York,
apesar das profundas differenças nas respectivas linhas
geraes.
Assim, foi com alguma surpreza e contentamento
que se nos deparou, depois, a seguinte opinião de
Raczynski, cuja obra sobre as Artes em Portugal é
bem conhecida: «logo que eu conheci, diz este sabio,
a soberba Egreja da Batalha pelas gravuras de Murphy,
achei-lhe tal analogia com a Cathedral de York,
que não me restou duvida sobre a origem commum
d'estes edificios».
Ora, deve notar-se que este grande critico da arte
não podia ter presumpções fundadas,
nem perfeito
conhecimento dos factos historicos portuguezes, que o
levassem, como a nós, a ser bem guiado ou enganado
por elles. O testemunho é, pois, valioso e insuspeito.
É tambem verdade que Murphy, o architecto inglez
de quem já falámos e a quem Raczynski se refere,
no
seu livro
Viagens em Portugal, diz
que Falkenstein bibliothecario
em Dresde, lhe escreveu: «ser fóra de duvida
que a maior parte das cathedraes ogivaes eram
obra da inspiração de architectos, ou pedreiros
livres—
franco-maçons.
Havendo, tambem, acrescenta Murphy,
recebido informações de empregados dos archivos
de Lisboa, que lhe affirmaram ter sido um architecto
inglez, chamado Stephen Stephenson, o constructor
do Mosteiro da Batalha.
«Foi a Rainha D. Filippa, continúa Murphy, filha
do duque João de Lencastre e neta de Eduardo III,
de Inglaterra, quem deve ter tido maior acção na
escolha
do architecto. É fóra de duvida que
Stephen
Stephenson fazia parte dos
free and accepted
masons,
cujo centro em Inglaterra era York—
grand-loge of
free masons at York.» Esta
observação valiosissima
podia ter guiado Raczynski; mas não seria sufficiente
para lhe formar a opinião das parecenças, visto
que
lhe faltavam outros elementos.
A affirmação de Murphy póde ser
contestada; d'ella
se conclue, porém, embora implicitamente, que o architecto
inglez encontrára os caracteres do Estylo
Ogival da sua nação no Mosteiro da Batalha,
aliás
não acceitaria nem exporia as hypotheses apresentadas.
Por todas estas rasões, parece-nos demonstrado que
o estylo do Mosteiro é do ogival inglez. Vejamos ainda
se os factos historicos e as respectivas datas, bem
como outros argumentos, corroboram esta conclusão.
Em primeiro logar, a construcção da Cathedral de
York, levada a effeito pelos
franco-maçons da
loja-mestra
d'aquella cidade, começou cêrca do anno de
1245 e tinha terminados os principaes elementos, naves,
transepto, etc., etc., de 1291 a 1360. As obras
do mosteiro da Batalha, havendo sido iniciadas em
1387, permittem as datas não só a influencia
directa
da Cathedral de York sobre o monumento portuguez,
mas explicam até esta influencia pela possibilidade de
ter sido feito o plano respectivo por architectos inglezes
da loja-mestra dos
franco-maçons d'aquella
cidade,
chamados depois a Portugal por D. João I para o
executarem.
Um facto muito secundario na apparencia parece-nos
avigorar esta presumpção. Alguns nomes
portuguezes
dos elementos architectonicos ogivaes são
perfeitas adulterações das palavras
correspondentes
inglezas, por exemplo: o
maynel, ou
pinazio das janelas,
traduzido por
mainel, o
butress transformado em
botareos, a
gargoil em
gargula. Estes termos, pelo menos,
são de origem ingleza.
Assim tambem, nos tempos modernos, os operarios
inglezes, que primeiro trabalharam no caminho de
ferro entre Lisboa e Porto, deixaram, entre outros
termos especiaes, os
rails, carris,
traduzidos pelo portuguez
popular em
ralhes e as
sleepers, travessas, transformadas
em
chulipas. A analogia tem aqui
grande importancia
e demonstra, a nosso ver, que na primitiva
construcção do Mosteiro da Batalha trabalharam
operarios
inglezes; ora, sendo inglezes, a logica leva-nos
a suppor que deviam ser de York, pertencentes á
grande corporação
franco-maçonica, que
levantou a
grande cathedral d'esta cidade.
Os factos da historia do tempo mais corroboram
ainda esta fundada presumpção. É
impossivel fazer
n'este ponto um quadro completo d'essa phase historica
nacional; por isso, citaremos apenas, apreciando-os
e comparando-os, alguns factos culminantes, que mais
directamente interessam o presente assumpto.
As nossas relações com a Inglaterra eram
então
muito intimas. N'esse tempo, em que não existia
representação
dip
As nossas relações com a Inglaterra eram
então
muito intimas. N'esse tempo, em que não existia
representação
diplomatica permanente, Portugal tinha
n'aquella nação dois embaixadores, cujos nomes a
historia
conservou: D. Fernando Affonso de Albuquerque
e Lourenço Annes Fogaça.
Eduardo III, o pae do celebre
Principe
Negro, acabava
de crear condados para dois dos seus filhos,
dando-lhes soberania quasi independente: o de Leicester,
para João de Gaunt, e o de York, para Eduardo
de Langley. Os condados eram limitrophes e no segundo
approximava-se do fim a construcção da grande
cathedral, que passa por ser a melhor da Inglaterra e
uma das melhores do mundo.
Sem entrarmos em outros pormenores, digamos que
em começos de 1386 chegaram a Portugal emissarios
de João de Gaunt, duque de Leicester, annunciando
a sua chegada e pedindo navios. De facto, o
duque desembarcou na Corunha, em 25 de junho do
mesmo anno. Em novembro seguinte, n'uma conferencia
realisada no Porto, ficou ajustado o casamento
de D. João I com D. Filippa de Lencaster, filha do
duque inglez. Assim, em fevereiro de 1387 realisou-se
no Porto o casamento.
A fórma, pela qual os factos se precipitam em tempos,
em que as communicações eram difficeis, demonstra
as relações intimas e constantes das duas
côrtes.
É, pois, natural que D. João I, informado pelo
duque
de Leicester das magnificencias da Cathedral de York,
cuja fama corria já por toda a Inglaterra, lhe pedisse
esses
celebres architectos e officiaes de cantaria de
longes
terras, de que fala Frei Luiz de Sousa.
Esta presumpção é logica e humana.
Seria absolutamente
impossivel suppor que D. João I não falasse ao
duque, seu futuro genro e auxiliar na guerra, na batalha
de Aljubarrota e no cumprimento do voto; como
impossivel é, tambem, que a tal respeito o interlocutor
não se referisse á Cathedral de York.
É muito provavel,
portanto, haverem sido encommendados os planos
para Inglaterra, ou pedidos os architectos para os fazer
em Portugal, dirigindo depois a respectiva
construcção.
A proxima vinda para Portugal de Filippa
de Lencaster facilitava esta resolução.
De certo, estes raciocinios só por si poderiam representar
simples coincidencias de datas; mas ponderados
e cotejados com os restantes, já desenvolvidos, assumem
um caracter de plausibilidade de incontestavel
valor.
Ora, não existe duvida alguma em que architectos
e operarios da loja-mestra
franco-maçonica de York
foram os constructores da grande cathedral; portanto,
é rigorosamente logico e muito natural que a essa
corporação se fossem buscar os elementos para a
construcção
do Mosteiro da Batalha. A prova da cathedral
ingleza, quando outra não houvesse, daria nome e fama
universal aos seus habeis constructores.
É, além d'isso, muito provavel que as
associações
franco-maconicas fossem
empreiteiras, como existem
sociedades modernas. Em qualquer tempo, a eguaes
necessidades sociaes correspondem instituições
similhantes,
ou pelo menos equivalentes. Se assim não
aconteceu, manifesta-se ainda provavel que estas
associações
franco-maçonicas, creadas
tambem para
defeza dos respectivos operarios de todas as ordens,
se garantissem por meio de contratos de trabalho.
Qualquer d'estes factos, ambos naturaes e logicos, explica
a existencia do
védor, ou
fiscal das obras, Fernão
Rodrigues, que vivia no tempo de D. Duarte.
Assim, ficaria egualmente fundamentada a nossa hypothese:
Affonso Domingues poderia muito bem ter
sido o primeiro
védor
real das obras do Mosteiro da
Batalha.
De todos estes raciocinios e factos, expostos e comparados,
resulta, segundo pensamos, a plena convicção
de que o Mosteiro da Batalha, sendo do Estylo Ogival
inglez, foi planeado e construido por architectos
e operarios inglezes, que faziam parte da
associação
franco-maçonica da
grande-loja de York.