Eu tenho a sizudesa de poupar o leitor ao muito mais estirado discurso
do bacharel. Fallou muito, como fallam os misanthropos quando uma
luzinha de esperança lhes lampeja na sua escuridade. A sua
esperança sorria-lhe d'além-mar, do ceo
hospedeiro do novo-mundo.
V.
Dizia Gastão de Noronha á filha Corinna:
—Vi-te hontem á noite muito distrahida, menina, e
gostei
que te inclinasses áquelle rapaz...
—A qual, papá?
—A qual ha de ser?!—tornou o pae com um gesto de
intelligencia e
comprazimento—é o unico com quem te detiveste uma
boa
hora...
—Ah! já sei... o Taveira?
—Alli tens um excellente marido, Corinna! Trezentos e
cincoenta
contos... Não sabias?
—Não, meu pae—respondeu a menina,
indecisa se devia
desenganal-o, ou evadir-se á
continuação das perguntas.
—É necessario—proseguiu
Gastão em tom
solemne—acabar com as distincções de
raças. A velha nobreza é um merito relativo que o
progresso acata, se outros meritos de natureza commum a sustentam
na altura d'onde procede. As altas
linhagens predominavam, quando eram as representantes dos illustres
nomes e das grandes riquezas. Porém, depois que as
industrias abriram fontes de ouro, sem terem de o fazer á
ponta da espada e da lança, a fidalguia baixou muito do seu
quilate, e teve de associar-se com ellas para não ficar
sósinha, estacionaria e
dessociavel. Tu viste como em França as netas dos grandes
titulares de Luiz XIV vão casando com os netos dos plebeus
d'aquelle tempo. Ennobrecer-se de veneras e titulos custa
tão pouco, ou vale tão pouco no bom juizo
dos governos illustrados, que já hoje póde cada
homem
rico abrir a sua burra, e fazer com que ao mesmo tempo se abra o cofre
das graças. Muita gente irreflectida diz que isto
é um mal; e os atilados acham que a
depreciação dos fóros de fidalguia
é coisa de incalculaveis vantagens para o adiantamento da
humanidade. Entendem elles avisadamente que só assim,
egualando os homens pela nobilitação,
já que
elles não querem egualar-se pelo plebeismo, conseguiremos
ser todos eguaes. Ora nós, filha, que vivemos em
França,
onde as fitinhas são respeitadas, porque todos as desejam e
trabalham para ganhal-as, vencendo uma batalha, apedrejando um rei, ou
inventando uma machina de fazer colchetes, devemos ter na devida conta
de desprêso uma chimera que, felizmente, em Portugal
preoccupa todas as cabeças para, a final, as nivelar todas
na mesma linha...
Corinna da Soledade estava ouvindo e recolhendo
as sentenças do pae, com o proposito de responder com ellas
ao mesmo apostolo da egualdade, se alguma vez carecesse d'isso.
Gastão continuou no mesmo tom de circumspecta gravidade:
—Accrescem razões d'outra ordem no caso especial
em que
estamos, Corinna. A nossa casa está desfalcada a ponto de eu
não poder remediar com a mais apertada economia o mal que
vem de avós, e eu continuei na
emigração, para vos dar decencia,
educação e prazeres. Moços eguaes a ti
em nascimento muitos
haverá; mas, pouco mais ou menos, empobrecidos como
nós, e retirados como realistas á obscuridade dos
seus solares e da sua inactividade. Uns por inercia, outros por
ignorancia, todos se devem considerar formando á parte uma
phalange de estatuas d'algum devastado jardim que não ha de
mais florir. Já vês,
Corinna, que ha difficuldade em achar-se um marido como teus
bisavós o desejariam; mas facil te ha de ser encontral-o
como teu pae t'o deseja. Felisberto Taveira, sobre ser rico,
é um gentil moço, é doutor,
revela fina educação, e... não
é assim?
—Parece-me excellente sujeito—disse Corinna.
—Bem: eu não podia enganar-me—tornou com
alegre semblante
o pae—Já te disse elle que... sim...
manifestou-se-te?
—Nada me disse com relação a casamento,
papá.
—Não admira: era a primeira vez que fallava
comtigo; mas
que te amava...
—Tambem não disse...
—Pois sim; convenho em que o respeito e a delicadeza o
contivessem;
porém tu deves conhecer, depois de uma hora de
conversação...
—Não fallamos a nosso respeito,
papá—disse
candidamente Corinna.
—Pois então?!
—Eu lhe digo: apresentaram-me um sujeito que me disse umas
palavras
muito amarguradas, e sahiu do baile. Fiquei pasmada e curiosa de saber
quem era o tal sujeito. O Antão de Menezes, que m'o tinha
apresentado, trouxe-me o Taveira para me dar as
informações que eu desejava. Ficamos a fallar
d'elle todo aquelle tempo que o papá viu. Ahi tem vossa
excellencia o que foi.
—E quem era o sujeito? que te disse elle? e porque ficaste tu
assim
curiosa de o conhecer?!—perguntou Gastão com
demudado
rosto.
—Era um doutor Azevedo Barbosa, de Barcellos, hospede do
Felisberto
Taveira...
—E que mais?—atalhou o pae precipitadamente.
—E que mais?! o papá que deseja que eu lhe diga
mais?
—Se é rapaz de fortuna... Em Barcellos
não sei
que haja...
—É pobre, e vive muito penalisado, porque tem
quatro
irmans, e cuida que o persegue uma má estrella.
—Pois sim, não duvido que o persiga uma
má
estrella, e que seja pobre e tenha quatro irmans; mas
que tens tu que ver com isso? Em que se funda a tua
interessante curiosidade?!
—Tive compaixão d'elle, papá.
—E gastaste uma hora a colher
informações!... O
Taveira havia de persuadir-se que tamanho interesse significava alguma
coisa mais que simples curiosidade. Se assim foi, como havia de elle
dizer-te que te amava?! Ora, minha filha, nunca faças
praça
d'essas tuas compaixões sem utilidade. Se o Taveira te
procurar nos bailes, agradece-lhe a preferencia, e não lhe
faças suspeitar que o escolhes por medianeiro: isso
não só desanima, mas offende o amor-proprio. Teu
pae pede-te que olhes com toda a seriedade ao teu futuro, que por em
quanto se figura triste. Com um bom casamento davas-te, e davas
á tua familia a felicidade.
Corinna da Soledade, ausente o pae, scismou largo tempo com muita
tristeza, e meditou em fingir-se doente para não ir, na
seguinte noite, ao baile da Torre da Marca.
O fingimento era facil; porém o bom ou mau anjo d'ella
segredou-lhe seducções, que a deliberaram
a conservar-se no goso de sua perfeita saude para ir ao baile dos
condes de Terena.
Antonio d'Azevedo, sinceramente violentado, entrou na sala em que
estava Corinna, e foi ao lado de Taveira cumprimental-a. Momentos
depois, Felisberto ia retirar-se, crendo que assim comprazia a Corinna.
Chamou-o ella, e disse-lhe a resguardo de Azevedo:
—Desagrado a meu pae, que está aqui defronte,
se ficar conversando com o seu amigo.
Peço-lhe que me não deixe só com elle,
e, quando meu pae
estiver jogando, então...
E de feito, Gastão de Noronha fitava os olhos na filha, e
perguntava á pessoa com quem fallava, se o sujeito que
entrara com Taveira era um tal Azevedo, de Barcellos.
Dizia Taveira ao seu hospede:
—Aposto mil contra um... aposto!
—O que?—perguntou Azevedo.
—Que Corinna te ama, e te ama de véras! A
esconder-se do
pae para te fallar! ha nada mais persuasivo! Quando uma menina se
confia n'um confidente, e desconfia de seu pae, e se esconde d'um
terceiro para dizer ao medianeiro que volte com o outro quando o
papá estiver jogando; e quando esse
outro... és tu!...
Antonio d'Azevedo ergueu os hombros, e disse:
—Valha-te Deus! Cuidas tu que eu tenho espirito bem folgado
para
entrar n'estes brinquedos pueris, em que a tua seriedade corre perigo
de sahir-se mal!... Queres tu que eu me capacite de que estamos
figurando n'uma das graves comedias humanas? Pois sim, meu amigo:
figuremos e discutamos. Tu já disseste áquella
senhora que eu sou um pobre bacharel que consumiu sua sensibilidade,
fazendo a
côrte aos ministros da justiça?
—Não lhe disse tudo isso, nem parte d'isso. Como
ella me
não perguntou se eras rico, dispensei-me de ser o
inventariante dos teus pares de botas e dos teus
camapheus. Perguntou-me se eras bom, e eu disse-lhe que
eras um moço honrado, e o coração
d'um anjo. Tudo o mais que dissemos foi commentar o que é
ser-se honrado e ser-se anjo. Provavelmente Corinna, que viu tudo em
Paris, não achou lá a exquisitice do
anjo-coração, e está em ancias de
saber em que tu te apartas do restante do genero humano. Esta
curiosidade é já uma escolha, e a escolha, se a
tua modestia m'o consente, é o amor com todos os seus
recatos e astucias.
Proseguiram n'esta contenda, até que Taveira viu abancar ao
jogo o pae de Corinna; mas, momentos antes, observara elle que o
fidalgo segredara com sua mulher, olhando o bacharel de
travéz com o sabido disfarce dos que olham de
travéz. D. Mafalda fizera um gesto, que vinha a dizer que
estava sciente.
—Vejo que a familia está de
sobre-rolda!—disse Taveira ao
seu amigo—mas ainda assim avisinhemo-nos cautelosamente da
praça.
Corinna acabara de dansar, e passeava pelo braço do
parceiro, que por fortuna era Antão de Menezes, o
apresentante emérito. Este, que adivinhava todas as
subtilezas do coração dos seus apresentados,
approximou-se de Azevedo, e disse-lhe com mui galharda cortezania:
—O thesouro não me pertence. Aqui o tem, que eu
sou apenas
o indicador dos thesouros.... sou uma especie de S. Cyprianno, que
descobre as riquezas encantadas.
Antonio d'Azevedo deu o braço a Corinna, e Felisberto
Taveira retirou-se com Antão.
Agora é que havia de ser umas delicias ouvil-os, se D.
Mafalda, vigilante observadora da passagem innocente, não
mandasse um cavalheiro dizer a sua filha que fosse fallar-lhe.
Corinna respondeu:
—Queira dizer á maman que eu vou já.
—Vá, minha senhora—disse Azevedo.
Não seja eu
causa de sua mãe a desgostar.
—Não importa.... Eu queria pedir-lhe que
não
fosse tão infeliz...
—A mim?!—atalhou Azevedo suavemente enleado pela
musica d'aquella
voz, em que o tom da supplica tinha o mavioso do carinho filial.
—Sim... pois não me disse que era muito
desgraçado?...
—Sou.... era muito desgraçado; mas condoeu-se
vossa
excellencia a tal ponto de mim que....
—Que lhe peço com instancia que se não
deixe
vencer do tedio da sociedade; não fuja das pessoas que
imagina felizes... Olhe que não encontra seis que o sejam
n'estes centenares de pessoas. Eu, se fosse senhora das minhas
acções, tambem aqui não
vinha, e ficaria a soffrer sem nada remediar... Não posso
demorar-me,
que minha mãe está impaciente... Olhe que eu
desejo a sua amizade... Conduza-me a minha mãe... e
não se esqueça...
Este lance, que, a dar-se uma vez na vida do homem,
nunca se repete, foi uma especie de vertigem, que
deixou o espirito de Azevedo na indecisão de quem, a sonhar,
a si mesmo se pergunta se está sonhando.
Corinna sentou-se ao lado de sua mãe, e o bacharel com os
braços pendentes e a boca descerrada para tragar
fôlego que lhe alargasse o peito, ficou, tres passos
distante, arrobado na contemplação da gentil
menina.
Taveira, que não os perdera de vista, estava-se deliciando
no espectaculo que só elle via. Quando achou que era tempo
de acordar o amigo de um extasis desagradavel a D. Mafalda, tomou-o
pelo braço, e disse-lhe simulando seriedade:
—Quando quizeres vamos embora. São duas horas da
manhan.
—Já!—murmurou Azevedo.
—Vê lá.... se queres sonhar mais alguns
minutos....
Azevedo comprehendeu a intenção de Taveira, e
disse com uma voz que não era a sua, e com um brilho d'olhos
que nunca tivera:
—Nasce o novo homem... Sinto o
coração... Agora
sei que ha uma felicidade commum de todos os desgraçados. Se
isto não é uma sensação
passageira, hei de beijar-te as mãos, que me arrancaram do
meu abysmo.
—A beijares as mãos de alguem—disse
Taveira,
sorrindo—é melhor que beijes as mãos de
Corinna.
Antonio d'Azevedo deteve-se um pouco de tempo em recolhimento
silencioso, e disse de sobresalto:
—Isto é uma nova desgraça!
—O quê? uma desgraça beijares as
mãos
de Corinna?
—Vê tu—proseguiu elle como se
não ouvisse a
pergunta galhofeira do amigo—que engenhosa é a
minha
funesta estrella! Hontem tive um pensamento que me deu vigor novo para
crer e esperar. Projectei ir ao Brazil, e logo os horisontes do meu
futuro se rasgaram, e não sei a que luz a
esperança me mostrou dias
ditosos. Sonhei com as alegrias do meu plano, e acordei hoje com um
alvoroço estranho. A desgraça viu que
eu tive algumas horas menos negras, e duvidou da sua omnipotencia.
Trouxe-me aqui para eu sentir que o apartar-me hoje do local onde ouvi
aquella mulher me ha de ser um tormento.
—Melhor!—interrompeu Felisberto—Ella e os
teus amigos não
querem que vás ao Brazil procurar
a felicidade que deixas cá. Onde a procuramos é
que
ella não está.
—Entendes tu—disse o bacharel—que se
é feliz, amando, na
minha posição, uma senhora na
posição de Corinna de Noronha, filha do nobre
Gastão de Noronha...
—Nobre e pobre, accrescenta. Se elle fosse rico como foi,
dizia-te
que, a não quereres renunciar aos teus austeros principios
de dignidade, convinha-te esmagar o coração
debaixo da barra d'oiro que ella
valesse; mas, segundo as informações que hoje me
deram, a filha do fidalgo não tem mais do que tu. Entre
ti e ella está estabelecida a
egualdade humana, no maximo rigor da palavra.
—Ainda não—atalhou Azevedo—Eu
sou filho de um lavrador de
Barcellos.
—Vai tu perguntar aos lavradores de Barcellos se elles
dão
seus filhos ás filhas dos fidalgos que
não tem terras que lavrar.
—Essa é outra questão, meu amigo.
Não
te esqueças que eu sou um homem sem
occupação. Tão
reprehensivel seria eu disputal-a ao pae sendo ella rica e eu pobre,
como se quizesse associal-a á minha pobreza. Que faria eu
d'aquella menina se me fosse permittido casar com ella?
—O que fazem das esposas os maridos que casam pobres. Amam-as
como se
costumam amar os pobres; por amor d'ellas redobram de vigor para
luctarem com a adversidade; por amor dos filhos nunca esmorecem no
desalento em que tantas vezes se nos deparam os celibatarios, que
apenas luctaram um anno com as contrariedades. A familia é
uma
accumulação de forças no
braço do seu chefe. O pae nunca succumbe; o marido tem uma
força providencial que o ampara.
Este dialogo, o primeiro que n'este genero talvez se travou n'um baile
entre dois rapazes menores de vinte e cinco annos, foi interrompido por
Gastão de Noronha, que quiz ser apresentado a Felisberto
Taveira.
VI.
Quiz o fidalgo do Minho apalpar o coração do
filho do millionario, pessoalmente. A sua prosapia soffria-lhe que,
ageitando-se o ensejo, elle mesmo se offerecesse para sogro, e poupasse
o timido moço aos
embaraços de pedir-lhe a filha, e aos receios de ser mal
acolhido.
Ouviu Felisberto Taveira uma longa e não falsa
descripção das virtudes e prendas de Corinna da
Soledade. Aqui se dá um fragmento da paternal
exposição:
—Minha filha, posto que vivesse na melhor roda de Paris, e a
rodeassem
os mais graduados moços d'aquelle viveiro da elegancia,
nunca se captivou d'algum. Não lhe direi que ella se
isentasse por soberba do seu nascimento, bem que pudesse tel-a, porque
meu quinto avô sahiu da casa dos marquezes de Villa-Real, por
onde somos Noronhas; todavia, não era vaidade a frieza de
Corinna. Bem póde saber vossa senhoria que
o coração é de essencia
democrata, e
ao coração se deve o triumpho da democracia, em
virtude de se irem a pouco e pouco amollecendo as durezas de que as
antigas educações callejavam o
coração da mulher de linhagem. O que minha filha
tinha e tem, era um juizo prudencial á prova de todas as
velleidades e pompas, que seduzem o vulgar das meninas. Os seus gostos
foram sempre moderadissimos; riquezas nunca a deslumbraram; os bailes e
os banquetes era preciso obrigal-a a gosal-os; tudo lhe era pesado,
menos a solidão, a meditação e a
obscuridade. Cuidei sempre que
minha filha seria insensivel ao prazer de se ver amada, e mais ainda ao
de receber satisfeita a côrte de algum moço. Em
Portugal, principalmente, é que
não devia esperar vel-a possuida de sentimentos amorosos;
porque, sem desaire da nossa patria, devemos confessar que
nós, os portuguezes, temos em amor uma certa gravidade, que
toca a extrema do aborrecimento. Falta-nos um certo espirito
pétillant, um
não sei quê de que as mulheres se deixam seduzir.
Não acha?
—Sim, senhor... nós temos
isso...—respondeu Felisberto
Taveira, descobrindo um grande fundo de ridiculez através do
aspeito encanecido do fidalgo.
—Sem duvida nenhuma... Pois, meu caro senhor Taveira, penso
poder
affirmar-lhe que a minha filha está pagando o universal
tributo. Descobri que ama! Só o Porto podia fazer tal
milagre!
—É muita honra para o Porto, senhor Noronha! e
muita mais
ainda para o homem escolhido.
—Que vossa senhoria conhece perfeitamente...
—Eu?...—balbuciou Taveira, quasi convencido de que
o fidalgo alludia
a Antonio d'Azevedo.
—Sim, senhor: conhece-o como ás suas
mãos,
porque vossa senhoria e elle formam dois seres n'um só ser:
são inseparaveis.
Isto acabou de persuadir Taveira, que, na mais candida boa
fé, accrescentou:
—E creia vossa excellencia que a pessoa preferida pela
senhora D.
Corinna tem virtudes e coração
dignos d'ella.
—Creio, creio, e o meu maior prazer era vel-os unidos, em
quanto eu
tenho vida e alegria para poder felicitar-me de tão boa
união.
—Agora me convenci—acudiu Felisberto—de
que vossa excellencia ama
sinceramente sua filha, e viu com benignos olhos a
inclinação desegual que ella
manifestou.
—Inclinação desegual! Eu não
sou
parvo de fidalgas desegualdades, senhor Taveira! Soberania ha uma
só, que é a da virtude: o resto
são convenções humanas sem criterio
nem fundamento real. O que eu quero é ver minha filha feliz.
Se os meus appellidos valem alguma coisa, meus netos hão de
chamar-se Noronhas, e a todo tempo que elles queiram humilhar
arrogancias d'outros nobres, poderão sempre abrir a
historia, na certeza de que encontram o nome d'um avô em cada
pagina. Os tempos são outros, senhor Taveira, porque
são outros os corações.
Violentar a vontade
de minha filha!... Deus me
feche os olhos antes que eu tal faça! Respeito-lhe a
inclinação, que ella manifestou, porque sei que a
sua dignidade foi a primeira voz que lhe deu conselho.
—Admiro a grandeza de sua alma!—tornou Taveira com
mui sizuda e
admirativa satisfação—E mais me espanta
que
vossa excellencia, antes de acceder á vontade de sua filha,
não curasse de saber se o homem escolhido é
bastante rico a mantêl-a na decencia
com que foi criada.
—Não, senhor, não quiz saber se era
rico: o que
perguntei foi se era bem comportado, se tinha grangeado a estima
publica, se seria um bom marido e um bom pae. Unanimemente me disseram
que sim.
—E disseram-lhe a verdade, senhor Gastão de
Noronha—confirmou Taveira—A riqueza de Antonio
d'Azevedo
só bem lh'a podem avaliar os que mais perto vivem de sua
nobre alma.
—A riqueza de quem?—atalhou Gastão de
Noronha com um gesto
de irrisorio espanto.
—De Antonio d'Azevedo Barbosa—tartamudeou Taveira,
corrido do engano
em que tinha estado.
—Não nos temos entendido!... Pois vossa senhoria
cuida que
eu estou fallando d'esse tal sujeito?
—Cuidava... Pois não é elle a pessoa
distinguida
por sua filha?!... Perdão! eu entendi mal.
—Vejo que sim; e eu peço tambem perdão
de
entender mal, cuidando que era outra a pessoa... Ora esta!... Pois
não é o senhor Felisberto Taveira?
—Eu!
—Sim, o senhor!
—Não pensei tal... e creio que vossa excellencia
entendeu
mal a propensão da senhora D. Corinna, posto que a escolha
me daria muita gloria.
—Muito bem: façamos de conta que estivemos a
fantasiar—tornou Gastão simulando um desenfado
risonho, que
lá por dentro era accesso de zanga e
vergonha.—Pelo que diz
respeito ao senhor Antonio de... como é?
—Antonio d'Azevedo.
—Ah! sim, d'Azevedo... filhote de Barcellos?
—Justamente.
—Não sei quem são os Azevedos de
Barcellos...
Sejam lá quem forem, meu caro senhor Taveira... tenho a
dizer-lhe...
—Os Azevedos de Barcellos—interrompeu com louvavel
desabrimento
Felisberto—são tão nobres
como os Taveiras do Porto. Meu pae veio da lavoira de Fafe para aqui; o
pae do bacharel Antonio d'Azevedo morreu na lavoira de Barcellos.
—Sim, senhor: convenho em que tão nobres
são uns
como outros; mas a minha filha não ha de, creio eu,
illudir-me mais uma hora. Queira desculpar um engano, em que vossa
senhoria nada perdeu, e rogo-lhe que diga ao senhor Antonio d'Azevedo
que se preoccupe com aspirações mais rasoaveis,
se não
interessa em dar graves desgostos a uma familia que vive tranquilla.
Quando as ultimas linhas d'este dialogo se trocavam
entre os dois, qual d'elles mais corrido do seu
equivoco, outro dialogo terminava entre Corinna e Antonio d'Azevedo por
estas palavras d'ella:
—Eu receio que meu pae se não demore no Porto, e
Deus sabe
se nos veremos mais! Olhe: se tiver precisão de queixar-se
da sua má estrella, faça-o a mim, que sou, desde
hontem, desde sempre, desde que nasci sua amiga, e talvez sua irman por
sympathia de dores. Escreva-me: eu lhe direi de Vianna em que nome me
ha de escrever. Vá visitar-me em espirito á minha
soledade: lá me verá sósinha por entre
as
arvores, em quanto minhas irmans, quasi tão infelizes como
eu, procuram ao menos entreter-se umas com as outras em volta das suas
saudades de Paris... Eu nem isso trouxe de lá...
Não se demore, que vejo meu pae...
Felisberto chegou diante de Antonio d'Azevedo, e disse com
forçado riso:
—Estás outra vez somnambulo, Antonio? Eu estou
peor, porque
venho estupido de spasmo!
—Que é?
—Querem casar-me com a tua Corinna!
Azevedo ergueu a fronte avincada, e disse:
—Pois é costume offerecerem-se assim as filhas
n'um baile
ao homem a quem se é apresentado?!
—Não é costume: é moda
agora... O
Gastão vai sahir com a familia—ajuntou
Felisberto—Podemos
ir, e lá fóra conversaremos.
Ouviu o bacharel o dialogo em resumo; contou ao seu amigo as ultimas
palavras de Corinna; e adorou a
imagem da
primeira mulher amada nos alvores da aurora que repontava. O que elle
então disse, em arrobos de poesia, era o sublime represado
n'aquelle
coração em sua primeira primavera.
Perguntou-lhe Taveira se pensava ainda em ir ao Brazil.
—Hoje mais que nunca—respondeu elle.
—Como assim?! Aquella mulher não te prende
á
patria?
—Prende-me sobre tudo a um sacratissimo dever. Até
agora
pensava em ir ao Brazil para segurar o futuro de quatro irmans
pobremente criadas e boas de contentar com pouco; d'hora em diante hei
de ver no horisonte das minhas ambições,
além de
minhas irmans, Corinna da Soledade, educada com as regalias da sua
condição, e só digna do homem
que a não obrigar a descer de posição
aos olhos da sua sociedade.
—E quem te assevera—redarguiu
Felisberto—que voltas rico a Portugal?
De que genero de trabalho fias tu a tua prosperidade?
—De todos os generos honestos. Se não valer como
advogado,
valerei como caixeiro; se não tiver aptidão para
o negocio, ensinarei o que sei; se tiver de descer, descerei sem
vergonha; se descer tão baixo que nunca possa erguer-me
d'entre os ultimos operarios, ahi ficarei, e lá morrerei:
ninguem dirá, depois,
que transigi com a minha inutilidade.
—Quer-me parecer—retorquiu Taveira—que a
linda Corinna
está sendo ainda pouquissima coisa na
tua alma! Dar-se-ha caso que, em verdade, tu sejas refractario ao amor,
ou que a tua sensibilidade, como disseste, se consumisse em galantear
os ministros da justiça!? Qualquer homem, que não
fosse tu, forte
do amor inspirado por um anjo como Corinna, e com as tuas
habilitações, cuidava desde já em
agenciar na patria uma mediania, que a doçura da vida intima
convertesse em opulencia invejavel aos mais opulentos. Suppondo que tu
não pudesses, n'um ou dois annos, alcançar
emprego, ou clientela como advogado, é
de crer que tivesses um amigo a quem pedisses um, dois, ou mais contos
de reis para te estabeleceres aqui, em Lisboa, na tua terra, ou onde
quizesses viver. Suppondo mais que tu me tivesses na conta do teu
primeiro amigo, era a mim que tu pedias esse emprestimo, e eu com mil
vontades te servia agora, e depois, e sempre.
Antonio d'Azevedo, após algum espaço de
reflexão, respondeu:
—Meu caro amigo, se o verdadeiro amor é uma
desordem da
razão, esse não é o amor
que eu sinto. Que a minha vida está passando por nova phase,
é
certo: esta excitação d'alma, que eu
não sei
se deva chamar alegria da juventude feliz, nunca a experimentei.
Porém nenhuma das minhas faculdades, que pensam, julgam, e
antevêem os successos, se escureceu: ouso até
affirmar-te que o juizo se revigora, e a previdencia se aclara mais.
Depois d'isto, imaginemos que tu me emprestas o cabedal necessario para
eu ter uma casa,
uma esposa, e a subsistencia
certa de algum tempo. A esposa devia ser necessariamente a filha de um
homem que cahiu da sua dignidade offerecendo-t'a porque és
rico, e que se dignou recommendar-me que não perturbasse o
socego de uma familia, que vive tranquilla. Não foi isto?
—Pouco mais ou menos.
—Bem: e não entendes tu que seria uma indignidade
ir eu
perturbar o socego do pae de Corinna, casando-lhe com a filha, por meio
d'um rapto ou da
intervenção da justiça?
—Não entendo assim a dignidade. Se Corinna
consentir em ser
raptada para o mais santo dos intentos a que o
coração a pode impellir; e, se ella
rasoavelmente se não quizer sacrificar á
ambição do pae, nem a tua honra, nem a sua, nem a
da familia illustre ou não illustre, soffrem desaire.
—Discordamos—replicou
Azevedo—Gastão de Noronha quer que
sua filha case rica: entende elle que sua filha só
póde ser feliz sendo rica.
Será absurdidade uma tal opinião? Vai tu
perguntar a qualquer pessoa estranha a Corinna, se a julga feliz na
pobreza: ha de responder-te que a julga mais feliz sendo rica. Pois se
os estranhos pensam assim, que fará um pae?
—Convenho; mas sobejam exemplos de mulheres sacrificadas por
esse erro
dos paes.
—Deixal-os sobejar: ainda mesmo que todos os exemplos fossem
contra os
paes, nem por isso a vontade bem intencionada d'elles deixava de ser
respeitavel;
mas crê tu, meu
amigo, que o maior numero de casos justifica o arbitrio dos paes. Eu
tenho vivido muito arredado d'estes estudos da sociedade em que tu
deves saber muito; assim mesmo, se tu quizeres posso recordar-te de os
ter ouvido a ti e aos outros, alguns casamentos mal agourados por terem
sido contra vontade das filhas, arrancadas por força a
affeições de moços pobres para serem
adjudicadas a homens odiados com toda a sua riqueza. Pois, com o rapido
andar de alguns mezes, se não dias, as esposas violentadas
apparecem radiosas de alegria nas suas carruagens, nos seus camarotes e
nos seus salões; em quanto os mocinhos pobres e
amantissimos, ou porque emmagrecem, ou porque engordam muito, chegam a
passar por as noivas, que os poetas denominam
martyres, sem ellas os conhecerem.
Felisberto riu-se do semblante grave com que o seu amigo proferiu as
ultimas palavras.
Após breve pausa, Antonio d'Azevedo continuou:
—Estamos aqui a fallar de casamento, como se Corinna me
tivesse dito
que quer casar comigo!... O que ha entre nós é
uma
ligação das que se desligam no intervallo de dois
bailes, meu amigo. Lembra-te que eu não sou de todo hospede
n'estas materias: traduzi vinte ou mais volumes de romances, e acredito
nos romances, cujas passagens a minha razão explica. Dado,
porém, que a magîa é duradoura, e que
este amor encerra
em si um drama, que ha de fechar pelo casamento, eu só
poderei ser marido de Corinna quando o
pae
me
acolher,
sem equivoco, como
te acolheu a ti ha poucas horas. É preciso que a
justiça
não interceda a favor do meu coração.
Quando eu puder dizer a
Corinna que sou bom, e ao pae de Corinna que sou rico, então
verei se este presentimento da felicidade era mais que um sonho dos que
os grandes desgraçados convertem logo em excruciante
realidade da vida. Por ora, nem bom nem rico. Para a bondade falta-me
ter esgotado as forças que ainda sinto em adquirir meios com
que sustente uma grande porção do bem-estar,
impossivel de alcançar-se sem elles. Eu não sei
que
merecimentos póde ter, no conceito d'uma mulher, o homem
pobre que, em nome da sua desvairada paixão, a convida a ser
pobre com elle, e a receber da sociedade as, talvez involuntarias,
desattenções que
necessariamente avexam o pobre, se elle não está
santificado pela
paciencia. Ora, a santificação n'estes nossos
dias, meu
amigo, nem o muito amor a póde dar aos casados pobres.
—Do teu arrazoado—disse
Felisberto—concluo, e toda a gente ha de
concluir, que amas Corinna como um inglez, estabelecido nas Antilhas,
amaria a sua noiva, que elle nunca viu, estabelecida em Londres. Dentro
de quinze dias estás mudado, ou então ha
ahi grande aleijão na tua alma! Hei de dar-te um conselho,
se não mudares.
—Então dá-m'o já, que eu
fico pela
minha constancia.
—Ordena-te, faz-te conego, bispo, patriarcha, cardeal, e
não vás ao Brazil.
VII.
Gastão de Noronha, poucos dias depois do baile da Torre da
Marca, sahiu do Porto apressadamente com a familia, por saber que
chegara a Vianna um seu parente de Lisboa, com o intento de passar a
estação da primavera na quinta das margens do
Lima.
Momentos antes da partida, Corinna da Soledade escreveu esta carta:
«Vamos partir. Lembre-se d'esta sua outra irman para lhe
contar os seus dissabores. Póde parecer-lhe que este desejo
das suas cartas é desejo de quem vai viver na
solidão da aldeia, e precisa distrahir-se seja com o que
fôr. Talvez a sua bondade me não
recusasse tal distracção, ainda mesmo tendo o meu
amigo a certeza de ser tamanho e tão de gelo o meu egoismo.
Não, não é assim. Eu, sem pejo, lhe
confessei que o estimava quanto podia, e nenhum accidente da minha vida
me fará mudar. Se vir o caminho da felicidade,
siga-o, meu irmão, e não volva
a face
lá para a minha soledade, para aquelles arvoredos onde eu
hei de esconder-me com as suas cartas.
Adeus.==«
C. da
S.»
Na carta ia incluido um bilhete com um nome de homem, a quem deviam ser
subscriptadas as cartas de Antonio d'Azevedo.
Agora sabe a sensivel leitora se Corinna da Soledade tinha
razão de estar triste mais que suas irmans, quando, idas do
tumultuoso Porto, se viram outra vez no ermo, quando as arvores mal
sacudido tinham os gelos do inverno, e começavam a abrolhar
os gomos da sua nova folhagem.
O parente, que esperava em Vianna, Gastão, era um fidalgo
sexagenario, filho de Lisboa, grande morgado no Alemtejo, e muito amigo
de divertir-se, do que dera cabal prova no decurso de sua vida
celibataria. Chamava-se D. João de Mattos e Noronha, e vinha
a ser segundo primo de Gastão, ou coisa assim parecida. O ir
elle ao Minho, na primavera d'aquelle anno, posso asseverar-lhes que
não era movido por desejo de vêr florido o jardim
de Portugal, nem se lhe a elle dava que as claras aguas do Lima
corressem para baixo ou para cima. O caso era todo medicinal. Como
sentisse as pernas fracas, e o estomago preguiçoso,
consultou varios medicos, e todos lhe disseram que fizesse exercicio, e
bebesse bons ares, especialmente os do Minho. Occorreu logo a D.
João de Mattos que tinha um parente nos suburbios de Vianna;
e, posto que
nunca
se vissem nem
correspondessem, entendeu elle que, a toda a hora, um Noronha seria bem
recebido no solar do fidalgo minhoto. Outra razão vem
condizendo para explicar a escolha da provincia, e era que o velho
fidalgo de Lisboa, na ultima decada da vida, se fizera tão
economico e aváro, quanto fôra
prodigo e dissipado até aos cincoenta annos: d'onde
resultava que o seu grande prazer seria achar bom gasalhado gratuito em
casa de parentes, que se dariam por bem pagos com a honra de o terem
hospede.
Cresceu de ponto a satisfação do velho, quando se
viu alegremente acolhido nos braços de seu primo, dando a
beijar a mão ás cinco formosas meninas,
que lhe chamavam tio D. João.
A medicina teve um triumpho. O estomago de D. João activou
admiravelmente suas digestões; as
pernas pareciam recaldeadas de aço; movia-se o
remoçado velho com a flexibilidade dos seus quarenta annos.
A natureza brindou-o com as suas urnas aromaticas: eram tudo tapetes e
doceis de flores a festejal-o; as calhandras e os rouxinoes
desgarravam-se em cantilenas quando o velho passava com as sobrinhas
pelos braços; até o Lima, recobrando a primitiva
magîa de dar o esquecimento a
quem o transpunha, parecia ter matado no sexagenario saudades, e
renascido esperanças em novo começar de vida.
Esperanças! ora, esperanças aos sessenta annos,
(diz o leitor) em que, a não ser na
salvação de sua alma?
Verão o que d'alli sáe. Hão de
maravilhar-se do influxo d'aquelles ares e aguas do Minho, nas fibras
revelhas de um peito ido de Lisboa, onde as cachexias do
coração vem muito mais temporans—o que,
a meu
ver, se deve ao mau ar e á pessima agua, elementos
importantissimos do sangue.
D. João de Mattos, conversando, uma vez, a sós
com seu primo Gastão, disse ao correr do dialogo:
—Olha, primo, o celibato dá aos moços
vantagens,
que, no velho, são amargamente descontadas. Mil vezes, nos
ultimos vinte annos, me tenho arrependido de não haver
casado. Desprezei grandes fortunas, porque era rico, e formosas
mulheres, porque era um estroina de pessimos costumes: parecia-me que a
belleza é uma flor boa para se aspirar e deixal-a ainda
viçosa para que nol-a invejem e furtem; em quanto que a
obrigação de conservar em casa a flor murcha
é um pesadelo. Isto é que eu pensava com a minha
libertina philosophia dos vinte, dos trinta e dos quarenta annos.
Quando orcei pelos cincoenta, lembrou-me que, aos sessenta, precisaria
de uma familia, de uma esposa, de filhos, de carinhos e das doces
illusões da velhice. Pensei em casar-me. Procurei as
mulheres que amara aos trinta, e achei-as mães e
avós; algumas que se
conservavam solteiras estavam feias e velhas. Veja o primo o poder dos
maus habitos!—quando assim as vi, ainda cá disse
de mim
para mim: «olha se eu tenho
casado, que bonitas creaturas estas para me ajudarem a
bem-morrer!» Muito custa a purgar a peçonha dos
maus
principios,
primo Gastão! Aqui
tem, pois, vossa excellencia que por um triz não cedi
á
tentação de casar com uma menina de vinte e cinco
annos, filha segunda da casa da Trofa em Evora, a qual os paes me davam
com a melhor vontade, e ella tambem não mostrava sombra de
constrangimento; mas um dia, não sei como, vou a casa d'um
tenente de cavallaria, ainda nosso parente, e vejo-lhe sobre uma mesa
um ramo de flores velhas atadas com uma fita de setim verde que eu
mandara á minha futura, atando outro ramilhete, em dia dos
seus annos. Pensei no que vi sem dizer nada. Faz lá ideia do
castigo dos meus erros começados n'aquella hora de ciume!
Ninguem imagina a dor de um velho
ludibriado, se elle
ainda conserva coração com bastante
memoria para lembrar relances reprehensiveis de sua mocidade!... Fui
para Lisboa sem me despedir da noiva, e de lá escrevi ao
pae, dizendo-lhe que seria grande acerto casar sua filha com o tenente
de cavallaria. Como de facto acertaram casando, e lá
estão felizes
com muitos filhos. O que eu nunca pude acabar de entender é
como podia aquella menina acceitar-me, e com que vistas o faria?
Dispunha-se a ser feliz comigo, e vai depois ser feliz com o outro!
Entendam lá as mulheres d'agora tão differentes
das do meu tempo! De maneira, meu caro primo, que a minha decrepitude
será triste a mais não poder. Á hora
da morte hei de
ver-me rodeado dos successores do morgadio, sobrinhos que
aborreço, porque os vejo sempre a contarem-me as rugas novas
da cara, e sei que tem o lisongeiro cuidado
de
perguntarem por mim, todos os dias, aos medicos. Tenho accumulado os
rendimentos por não saber em que dispendel-os; e tudo isto
ha de ir dar áquellas mãos ávidas de
meus sobrinhos, e depois elles
é que hão de saber gosar o que eu já
não
posso.... Triste, tristissima coisa, primo Gastão!
—Isso é assim, primo D.
João....—murmurou com
doloroso tregeito de beiços e olhos o pae das cinco meninas
solteiras; e proseguiu—O primo, ainda assim, por causa de uma
é injusto com as outras mulheres. As de hoje são
como as de todos os tempos: ha bom e mau. Ora assim como D.
João deu com uma das más, podia ter encontrado
uma das muitas que ha boas, e estar a esta hora muito satisfeito, e ter
já um herdeiro dos seus vinculos.
—Palavra de cavalheiro!—exclamou com
alvoroço D.
João—quando penso que podia ter um herdeiro dos
meus
vinculos, e arrancar a minha casa das garras famintas de meus
sobrinhos, morro de
desesperação por me não ter casado!
Que contentamento seria o meu, ó primo! um filho! um
herdeiro!
—Pois ainda está em tempo—atalhou
Gastão—case-se; não hão de
faltar-lhe
noivas, sem sahir da sua qualidade. Ha de achal-as mesmo na sua
parentella, dignas, formosas, capazes de lhe honrarem a velhice, e
encherem de alegria e mocidade os seus ultimos annos.
D. João fitou os olhos descorados e franzidos no rosto do
primo, estendeu-lhe a mão cortada de cordoveias, e
tartamudeou:
—Se eu tivesse vinte annos menos, pedia-lhe uma de minhas
sobrinhas,
primo Gastão.
—Escolha, primo—disse o pae de Corinna
apertando-lhe affectuosamente
a mão.
—Não escolho nem peço
nenhuma—tornou o
velho—Veja se me tira vinte annos das costas, e depois
pedirei a nossa
Corinna, que é um anjinho, mas
não para mim, que posso ser avô d'ella. Nada,
primo, nada: para desgraçado basto eu.
—Façamos um contracto. Eu tracto de sondar a
vontade de
minhas filhas, e especialmente de Corinna. Se esta, ou alguma das
outras se mostrar bem disposta a ser sua esposa, o primo D.
João não se nega.
—Palavra de D. João de Mattos e Noronha, que
não
me nego; pelo contrario, morrerei de felicidade, porque,
além da esposa e da sobrinha, levo comigo a mulher, cujos
costumes tenho apreciado em mez e meio de convivencia a todas as horas.
Fechou-se o dialogo com poucas mais palavras de reciproca
satisfação dos dois fidalgos. Em quanto
elles praticavam, lia Corinna da Soledade a decima carta de Antonio
d'Azevedo, que dizia assim:
«Esta é a ultima carta que lhe escrevo em
Portugal, minha amiga. O navio parte depois de ámanhan de
tarde. Agora vou a Barcellos abraçar minhas irmans, e
despedir-me das memorias da minha infancia. Sinto um prazer amargo em
me ir approximando do seu ermo. Cinco leguas apenas nos hão
de separar quando ler esta carta. Dê-me uma lagrima
como retribuição da
angustia com que eu hei de
lançar a derradeira vista ao ceo que cobre os seus
arvoredos. Quando eu era criança, ia tantas vezes d'um alto,
onde ha ruinas d'um castello, olhar para esses sitios! Que
visão seria aquella da minha alma,
então magoada como se presentisse a saudade de hoje!
«Mande-me ter coragem, minha querida amiga: diga-me antes,
como tantas vezes me tem dito, que a dignidade excessiva me tem dado ao
coração liga
de bronze. Ai! quanto se engana, Corinna! quanto se enganam os mesmos
amigos de quem não escondo um pensamento!
«Levo alegres esperanças. Os bons Taveiras tem-me
dado cartas de summo valor de pessoas muito importantes d'aqui para
outras do Rio de Janeiro. A mim não me ha de custar a
merecer a bem-querença de todos: levo comigo a
segurança no firme proposito que fiz de não sahir
do caminho dos meus deveres. O que fui comsigo, minha amiga, hei de
sêl-o em todas as situações da minha
vida. Se esta
estrada me não guiar á felicidade sem remorsos,
é que não ha nenhuma.
«Vou no intento de advogar. Em poucos annos, com o auxilio de
amigos e fervor de trabalho, posso ganhar a mediania que basta aos
nossos moderados desejos. Poucos annos, Corinna, que rapidos
hão de ir como vão os annos dos felizes.
Verá que a
esperança lhe aligeira o tempo, e as minhas cartas lhe
hão de acudir nas más horas da
desanimação. Temos
Deus
por nós.
Deus,
minha Corinna! Escrevo-lhe estas quatro lettras com quanta
uncção
póde dar a fé ardente d'um homem sem culpa. O
premio que Deus me dá é a consciencia de poder
assim fallar
de mim; e chego a crer que este dom me basta para valer muito em seu
conceito. Se me não sentisse puro de vergonhas e remorsos,
Corinna, julgar-me-ia indigno de si.
«Eu quizera poder dizer a todo o mundo, e a todos os
desventurosos escravos de suas paixões, que nenhum amor, por
mais desmedido que seja, carece de provar que o é com
destinos e excessos censuraveis. É a primeira vez que amo,
Corinna, e amo-a muito: pois, por sua vida lhe juro, que ainda leve
sombra de intenção culposa me não
nubelou a limpida esperança de a ver minha esposa. Estou
chorando e estas lagrimas não sei se qualquer amante as
verte. Sei que muitos as fariam chorar de sangue a outrem, para se
esquivarem ao trance que me está fundamente doendo no
coração. E eu, por mim,
antes quero padecer agora, porque sei que hei de ser consolado. Os dias
prosperos não vem do acaso:
são grangeados, como as searas, a muita fadiga e com muitos
intervallos de desalento: a final a colheita de fructos e de
bençãos; o
coração ainda novo para saborear os fructos, e o
espirito cheio de santa vaidade por ter merecido as
bençãos.
«Espere-me, minha doce amiga; seja o meu anjo
animador; mostre-me de cá sempre a patria
á luz
da sua alma allumiada de graça divina.
«Escreva-me, e mande as suas cartas ao nosso bom amigo
Taveira; as minhas, por mediação d'elle,
todas receberá, e muito longas, para lhe encurtar as horas,
e dar alguma alegria ás minhas noites.
«Corinna, minha querida esposa, não posso
continuar. Sejamos dignos um do outro. Offereço a Deus as
lagrimas que hei de chorar, pedindo-lhe que enxugue as suas com as
consolações da
esperança. Tenha muito animo. A religião ha de
dar-lhe o que o meu amor não puder. Estarei sempre com a sua
alma, e Deus será sempre entre nós, porque muito
do intimo creio que entre dois infelizes sem culpa está
sempre um bom anjo. Adeus.»
VIII.
O jubilo de Gastão de Noronha, causado pela proposta de D.
João de Mattos, foi, n'aquelle mesmo dia, aguado por
extraordinaria e imprevista angustia.
Os vinculos que administrava o descendente dos marquezes de Villa Real,
trouxera-os sua mulher, D. Mafalda de Athaide, natural de Ponte do
Lima, havidos de um tio, que morrera sem descendencia directa.
Em quanto Gastão estivera no estrangeiro appareceu um filho
natural do antecessor dos vinculos administrados por D. Mafalda,
allegando o seu direito á
successão dos bens de Fernão d'Athaide. O fidalgo
não deu pezo ás consideraveis provas de
habilitação do contendor. De mais a mais, como o
seu nome de liberal valesse muito a favor do pretendente, o pleito
decidiu-se contra Gastão em primeira instancia. Seguiu o
processo os termos de appellação para as
superiores instancias. Gastão tinha parentes nos altos
cargos da
judicatura, liberaes
rebuçados, que protegeram o
réo ausente, contra o favorecido author. O pleito ficou
alguns annos trancado no desembargo do paço, até
que o emigrado voltou. Os primeiros annos, que seguiram a
restauração, foram tumultuosos e favoraveis em
todo o sentido para os que, mais ou menos prestantes, se diziam
restauradores. Como em tudo assim era desleixado e imprevisto, o
fidalgo não curou de rematar o litigio, destruindo as provas
do filho natural, nem mesmo quiz averiguar a sua plausibilidade, ou
fazer que o processo se perdesse.
Em 1840 requereu novamente o filho natural, documentando o seu
arrasoado com uma carta de perfilhação concedida
por D. João VI no Rio de Janeiro, para onde
Fernão de Athaide, pae do habilitando,
fôra com o rei em 1807. Ajuntava este aos autos reconstruidos
cartas escriptas por seu pae, tanto a elle, como a sua mãe,
portugueza de origem, que fallecera no Rio de Janeiro, casada e dotada
pelo fidalgo de Ponte do Lima. Accrescia a isto o depoimento de doze
testemunhas de ouvirem dizer ao moribundo Athaide que tinha no imperio
do Brazil um filho natural, chamado Fernando de Athaide, ao qual
testava todos os seus bens livres e vinculados.
Este legado, com quanto em principio devesse tornar duvidosa a
successão de D. Mafalda aos vinculos de seu tio, foi pouco
no conceito dos principaes lettrados, quando Gastão de
Noronha os consultou: diziam que os bens vinculados não
podiam ir ao filho natural, nem
a
declaração do velho á ultima hora da
vida podia esbulhar da successão a legitima descendencia.
Em 1829 viera Fernando de Athaide a Portugal a tomar conta da
herança: achou sua prima empossada n'ella, e a favor d'elle
os jurisconsultos que tinham dado por boa e legitima a
espoliação.
Em 1832, enfadado das delongas da decisão e do patronato que
sua prima tinha em Lisboa, voltou para o Brazil onde tinha o seu
florente commercio de café, herdado de sua mãe,
que morrera abastada, e universal herdeira de seu marido.
Voltara novamente Fernando á patria de seu pae, depois de
visitar as capitaes da Europa, e mais por brio do seu appellido, que
por necessidade de duas duzias de contos de reis, instaurou segunda vez
o pleito, confiou-o a habeis advogados e procuradores, e seguiu viagem
para o Rio de Janeiro.
Esta noticia, com os accessorios funestos de um presumivel perdimento
da causa, foi surprender Gastão de Noronha, quando elle
cogitava no melhor modo de fallar a Corinna em casamento com o tio D.
João. Sahiu o fidalgo para Vianna a ouvir o parecer de
advogados, que lhe foram desfavoraveis. Voltou a casa mais firme na
resolução de segurar a futura
subsistencia da familia, casando uma das filhas com o provecto primo,
cuja abastança daria para viverem todos largamente.
Chamou Corinna a mui secreta prática, e contou-lhe em miudos
a historia do filho natural, as probabilidades
da perda da demanda, a irremediavel pobreza da familia e a
precisão de ella se sacrificar á
decencia de seus paes e suas irmans, casando com o tio D.
João, por ser das cinco a menina que elle preferia, posto
que se não despedisse de casar com uma das outras.
—E nenhuma de minhas manas quer casar com o tio D.
João?—perguntou Corinna.
—Ainda as não consultei; eu é que
desejo que
sejas tu.
—As boas intenções de meu pae
são
providenciar ao futuro de nossa familia por meio d'este casamento?
—Sim, minha filha.
—Eu com lagrimas lhe digo que não posso servir a
esse bom
intento.
—Porque?—atalhou o pae entre pasmado e colerico.
—Porque morro, porque hei de morrer antes de ser mulher do
tio D.
João. Não me recuso, meu
pae: faça vossa excellencia o que quizer.
—Ora!—tornou o pae modificado em sua
ira—Não morres,
não, filha. Isso é o que te parece agora;
tu verás que todos te ajudaremos a levar a cruz. E, depois,
cuidas que teu tio ha de viver muito? Está alli e
está na cova. As escripturas hão de ser
feitas de modo que, ainda mesmo que tu fiques viuva sem filhos, has de
ficar riquissima.
—O pae não quer acreditar-me...—atalhou,
soluçante, Corinna.
—Acreditar o quê?
—Que me mato, se Deus me não levar para si.
—Sei o que é isso...—tornou
Gastão escarlate de
ira—É o homemzinho de Barcellos que te ha de fazer
perder
de todo a minha estima. Não tem duvida: tu te
arrependerás!... Cuidas que, por ser a mais velha, tens os
vinculos? Já te disse que não tens nada. Quando
quizeres um vestido, e não haja em casa um objecto que se
venda para t'o comprar, veremos como te vestes com o amor do valdevinos
de Barcellos.
Disse, e sahiu enfurecido.
A irman de Corinna, sua immediata em idade e formosura, era Emma. Esta
menina parecia a mais meiga, docil e resignada. Devia estas virtudes
á brandura de sua indole fleugmatica e um tanto fria. O seu
prazer era a quietação, que parecia uma
invencivel preguiça. Bem que estranhasse tanto como as
outras a mudança de Paris para a quinta do Lima, foi a
primeira a conformar-se, e achar certa suavidade no socego e silencio,
que affligia as irmans. Era esta tambem a que dava mais trela ao
palavriado do tio D. João, e por vezes se ria a bom rir das
baforadas de juventude que ainda, a tempos, sahiam mornas lá
das cinzas do coração do velhusco. Como amiga de
estar em casa,
sentada ao piano, ou amezendrada n'um tapete, D. João tinha
sempre certa a palestra com aquella pachorrenta sobrinha.
Gastão foi ter com Emma, e encontrou-a aparando as unhas a
D. João, e a rir-se muito das caretas, que o velho fazia,
receando que a tesoura lhe entrasse pelo
sabugo.
Gastão tomou como de bom agoiro a scena intima das unhas.
Compoz o semblante de risos, avisinhou-se do grupo, e achou tambem
graça aos chistes da filha e aos esgares do primo.
—Ahi está o nosso D.
João—disse elle—gosando
um dos milhares de prazeres da vida domestica. Quando era
moço, e requestava damas, sentiu alguns d'esses innocentes
jubilos, primo D. João?
—Já estive a pensar n'isso, primo
Gastão; mas o
diacho da Emma não me deixa pensar em nada se não
em guardar os dedos da implacavel tesoura d'esta linda parca... Olhe
que já me quiz cortar a ponta do nariz, a traquina, que
só não tem preguiça
para cortar narizes... e corações.
Accrescentou D. João ao galanteio um regougo de riso, com o
que a menina desatou uma gargalhada tão pachorrenta, que
acudiram as irmans, salvo Corinna, a rir sem saber de quê. D.
João cuidou que ella se
desmanchava assim, á conta da ultima e novissima careta que
elle fizera.
Logo que o ensejo se proporcionou, Gastão de Noronha
perguntou ao primo se Emma seria uma digna esposa d'elle. O velho
acudiu logo, dizendo:
—Estava eu para lhe dizer, primo, que, a não ser
Corinna,
de boa vontade casaria com Emma. Acho-a mais dada que as outras; mais
socegada e amiga da casa. A creatura passa horas e horas sentada no
tapete, em quanto as outras me estão sempre a convidar a
passeios, e querem que eu salte portellos e vallados como
ellas, senão fazem-me apupadas as doidinhas!
Corinna agradou-me pelo seu juizo; mas, a dizer-lhe a verdade, acho-a
triste de mais; e esposa triste não serve para velho, que
bem lhe basta a rabugice e pezo dos annos. Em fim, primo, se Emma me
quizer, aqui estou.
Poucas horas depois, Gastão encerrado com Emma,
perguntava-lhe se ella quereria segurar uma enorme fortuna, casando com
seu tio D. João.
—O papá está a mangar
comigo!—disse ella rindo.
Com poucas palavras a convenceu da seriedade da proposta. Emma ouviu
tudo com desusada seriedade. Viu no rosto do pae signaes não
fingidos de atribulado, fallando da imminente ruina de seus haveres, e
da
recusação de Corinna. O tom com que elle pedia a
Emma o sacrificio era já supplicante. A menina respondeu
primeiro com lagrimas e depois com a promessa de satisfazer os desejos
de seu pae.
Nunca pae algum beijou sua filha com tamanho transporte de ternura!
Foi logo avisado D. João da resposta de Emma. O velho
desenvolveu de repente um pudor senil de muita graça!
Estava, como noiva que se peja de apparecer ao noivo, na sala onde o
papá a manda chamar, a fim de, em presença de
ambos, confirmar vocalmente os anhelos de todos tres. Esquivava-se D.
João de encontrar a sobrinha; e, quando lhe ouvia a voz,
córava! Era a segunda infancia a fazer milagres de
remoçar
corações mumificados!
Desde este incidente, Corinna da Soledade nunca
mais viu um sorriso, nem ouviu palavra carinhosa de seu pae. As
caricias, repetidas até ao extremo da ridiculez,
eram todas para Emma, a quem elle chamava a salvadora da familia.
Pensava já Gastão no
processo de defraudar a filha mais velha dos vinculos, como esquecido
da demanda em que os vinculos estavam tão arriscados, que
nem o seu proprio advogado lhe dava esperanças de
vencimento.
Cuidaram desde logo os fidalgos em requerer dispensa, que o Nuncio
apostolico residente em Lisboa concedeu.
Em seguida usou o pae da noiva de ardilosos rodeios para levar o futuro
genro a dotar a filha com os bens livres, que valiam muito, e grandes
arrhas. D. João de Mattos, ao principio irresoluto, porque o
animo sovina lhe inspirava duvidas, deu-se a final por vencido, e dotou
a noiva com avultado cabedal em dinheiro depositado em bancos de
Inglaterra, e estabeleceu-lhe arrhas mais que sobejas para uma viuva se
não lembrar mais dos sessenta annos do seu defuncto marido,
ao ver-se sósinha n'este valle de lagrimas.
Estava resolvido que as nupcias seriam celebradas em Lisboa, para onde
iria toda a familia, excepto Corinna, que pedira licença ao
pae, e facilmente a obtivera, de ficar n'um mosteiro de Vianna, em
companhia de uma prima de sua mãe.
A noiva encarava o futuro com a salutar pachorra de sua
compleição, e continuava a aparar as unhas
do noivo e a rir-se das muito engenhosas visagens com
que o bom do velho julgava bem merecer da
estimação da menina. As outras tres meninas, a
cuidarem nos arranjos da partida para Lisboa, andavam
alvoroçadas e felicissimas. Corinna esperava a vespera da
partida, com não menos alvoroço, para entrar no
mosteiro
de Santa Anna.
Sorriam-lhe lá da sua cella as tristezas e a soledade em que
o desafogado coração se gosaria livre,
livre para ir-se além-mar, nas longas cartas, escriptas sem
medo de ser surprendida, pedir ao digno moço que lhe
acceitasse a reclusão, tão voluntaria, como prova
de seu
esperançado amor.
Estava marcado o dia da partida, tomadas as liteiras, as cavalgaduras,
e convidado o prestito dos parentes, que desceriam do alto-Minho para
acompanharem os noivos até ao Porto. Quatro dias antes do
designado, D. João de Mattos e Noronha, assignadas as
escripturas, foi para a mesa, que n'esse dia era lauta e muito
concorrida.
Um dos pratos mais de cobiça, e ingratos a estomagos
fatigados, era o salmão, o salmão de Vianna,
famoso em toda a parte onde a gastronomia tem sacerdotes e martyres.
Entrou o noivo pelo salmão com a voracidade dos vinte e
cinco annos, não obstante o cauteloso primo lhe haver dito
que se abstivesse de competir com a sua Emma em materia tão
indigesta. Parece que Emma gostava muito do appetitoso pescado, e
devemos suppor que o velho, por comprazer com o paladar da noiva,
quiz fazer heroismos de
deglutição.
Perdoavel excesso para quem sabe o que é amar!
Declarou-se a indigestão, quando ainda se estava
á sobremesa. D. João pediu genebra, bebeu em
proporção com o volume do bolo indigesto, e,
dando-se alta na incipiente molestia, comeu ovos mexidos em grande
porção, e correspondeu a todos os brindes
com absorvente enthusiasmo.
Estavam todos admirados do vigor digestivo do sexagenario, e do rubor
juvenil que lhe ressumava nas faces, quando o velho se sentiu anciado,
e pediu um vomitorio prompto. Cada pessoa de familia lhe ministrava um
remedio, e Gastão, mais que todos, mostrava sua
inquietação, mandando chamar medico a Vianna.
Foram logo sensiveis os symptomas de apoplexia. D. João
tinha os olhos injectados de sangue, e a
cabeça em brazas vivas. Votaram todos pela sangria; mas
não havia sangrador, nem sequer lanceta. O abbade da
freguezia estava presente, e, como bom pastor, foi de parecer que seria
muito util ministrar os sacramentos ao enfermo, visto que as apoplexias
eram summarias n'aquellas idades e por taes causas.
Redobraram os sustos de Gastão de Noronha. A morte,
anticipando-se quinze dias, dava um golpe terrivel em toda aquella
familia. O menos damnificado seria de certo o morto. Quem mais soffria
as angustias do moribundo era Gastão! Perguntou elle ao
abbade se seria acertado dizer a D. João que recebesse as
bençãos nupciaes.
O clerigo encarregou-se de lh'o propor. O enfermo, já quasi
desaccordado, ouviu a pergunta e estorceu-se em desesperada
afflicção. Foi então
que elle viu a morte na pessoa do inoffensivo abbade. Á
segunda instancia, D. João fez um esgar repellente, e
sacudiu vertiginosamente os braços e as pernas.
Gastão disse a Emma que se approximasse do leito, e lhe
dissesse algumas palavras confortadoras. Emma foi com semblante de
medo. As feições do velho, já
lassas e lividas, para assim o dizermos, cheiravam a cadaver. A pallida
menina foi tremendo.
—Dá-lhe a mão—disse-lhe o pae
ao ouvido.
Tocou ella na mão tepida e insensivel do agonisante com
repugnancia.
O abbade, instado por Gastão, disse:
—Senhor D. João de Mattos, vossa excellencia
recebe como
sua legitima esposa a senhora D....
O velho deu um sacão, e esgazeou os olhos espavoridos.
Emma retrahiu-se aterrada, e o abbade sahiu a ir buscar os santos
oleos.
—Vai-se embora, abbade?!—perguntou o fidalgo
furioso de sua
afflicção.
—Não ha que fazer aqui, senão
cuidar-lhe da
alma—disse o padre—O homem já
não dá
accordo de
si: o casamento n'este estado ficaria canonicamente nullo, fidalgo!
Sahiu o abbade da egreja com o viatico, e recolheu logo, por lhe
dizerem que D. João tinha expirado.