XVI.
Antonio de Azevedo recebeu, ao mesmo tempo, tres cartas, afinadas todas
pelo mesmo tom de felicidade.
Abriu primeiro a de Corinna da Soledade: era uma surpreza desde o
principio. Noticiava o casamento de Felismina com Fernando de Athaide,
e os miudos successos decorridos até ás palavras
proferidas por seu pae
na occasião do brinde.
A ultima pagina continha o seguinte:
«Ainda estamos do Porto; mas brevemente vamos para Lisboa. O
primo Fernando quer que te esperemos lá, onde se
hão de realisar os nossos sonhos, mais cedo do que eu e tu
suppúnhamos, ó meu
querido Antonio! Vem, vem no primeiro navio que sahir Ás
vezes receio morrer antes da tua chegada. Temo que me acordem d'este
sonho. As pessoas infelizes
não
podem familiarisar-se com a ideia de
já o não serem! Imaginas tu que terrores me
atormentam, agora, que tão ditosa me sinto, e tão
grata
levanto as mãos ao Senhor! Lembra-me que já podes
amar-me com menos ardor; lembra-me que estás embevecido na
ambição das riquezas...
Ó meu amigo, até me lembra se terás
morrido! Vê tu
se ha mais cruel imaginação! Nem agora me deixa o
mau destino! Parece que se está assim vingando por
não poder aniquilar-me! Acode aos meus receios, vem sem
demora, sim? Fernando é um anjo de bondade; sobra-lhe
riqueza para dar abundancia e alegria a muita gente. Não
será vergonha recebermos tudo de
sua mão. Que lhe diria o visconde a teu respeito, que elle
ficou pensativo?! Perguntei-lhe o que tinha, e respondeu-me que o teu
caracter, por demasia de austeridade, talvez se não dobrasse
á vontade
d'elle. Comprehendo estas palavras: suspeitam que tu
recusarás favores de posição, devida a
influencia estranha.
É porque não sabem quanto me amas, meu querido
amigo! Eu disse a meu primo que ficava pela tua docilidade:
não me deixes ficar mal,
não?
»
A carta de Fernando de Athaide rezava assim:
«O meu amigo espera que eu de Londres lhe escreva, explicando
a surpreza de uma procuração que lhe deixei, a
fim de tomar conta na direcção
dos meus haveres ahi, no caso de eu me demorar na Europa. Escrevo-lhe
de Portugal, onde estou casado
com minha prima
Felismina. Ja vê que me compuz com Gastão de
Noronha o mais amigavelmente que vossa senhoria podia desejar. Antonio
de Azevedo com duas palavras decidiu do meu destino; e, se
não me engano, abriu uma época de muita
ventura para esta familia, que é hoje a minha, e que deve
ser a sua tão brevemente, quanto depende da sua vinda para
Portugal.
«Eu não lhe peço, apenas lhe digo que
venha. Se necessario fosse pedir, Corinna e eu duvidariamos do seu
amor. Bem sei que ha uma certa dignidade humana, que tem a ferrea
inflexibilidade dos corações duros. Essa, Deus
permittirá que não seja a sua:
se o fosse, a minha gloria seria imperfeita, e essa nuvem bastaria a
toldar esta festiva luz que me alegra a alma.
«Não discutamos tal ponto. Venha, meu
irmão. Os meus negocios deixe-os entregues ao senhor
Valentim da Costa, a quem escrevo.
«Minha mulher offerece uma prenda de noivado a sua futura
esposa: quiz, porém, (caprichos feminis!) que vossa senhoria
fosse o portador da prenda, que ahi lhe ha de ser dada.
«Na proxima semana partimos para Lisboa. Na sua chegada alli
encontrar-me-ha logo.
«Corinna tem as tristezas da duvida. Venha dar-lhe a ventura
que a mais ridente esperança não
póde
dar-lhe
»
A carta do visconde da Cruz incluia a ordem devolvida
dos seis contos de reis, e a historia minudenciosa que Antonio
lêra na carta de Corinna. Como avaliador profundo do caracter
do seu amigo, o visconde combatia de antemão os argumentos
de independencia com que esperava ser contrariado; rematava,
porém, a carta censurando-se a si proprio por ter julgado
tão frio amante o homem que, por amor d'um anjo, se
expatriara alanceado de desgostos......
Entendam lá o coração humano!
Antonio de Azevedo lêra as tres cartas surprendido, mas
não alegre! Que nuvem negra lhe cobria o quadro bello a que
o chamavam as tres cartas! Que presagio d'alma lhe antepunha
ás delicias convidativas da patria uma visão
triste em que elle parecia cravar os olhos espavoridos!
Valentim da Costa, que raro sahia de casa, entrou n'este momento.
—A alegria dá
forças!—exclamou elle—aqui
está o velho a dar os emboras ao mancebo, que foi mais cedo
compensado do que ordinariamente costumam sêl-o os bons!...
Que é isso?! vossê
está triste, Antonio?! As suas cartas que lhe dizem?
—Que Fernando de Athaide casara com uma de suas
primas.
—E que mais?... Não é chamado para ir
casar com
a sua Corinna?
—Sou.
—E então? vossê não
está
ainda louco de alegria? Não cuida em preparar-se para a ida?
—Não, senhor; cuido em ganhar a minha
independencia.
Corinna é a filha de Gastão de Noronha, e eu sou
quem era, quando sahi de Portugal. Estou pobre como vim. A patria para
mim é meramente a terra onde nasci; não
é independencia. Quando aqui vim,
foi a legitima vaidade de homem pundonoroso que me aconselhou; o
pundonor aconselha-me agora que não vá acceitar
de mãos estranhas a subsistencia de
minha mulher e de meus filhos. A maior alma é sempre
insignificante ao pé da pequenissima alma em cuja
dependencia está. Eu não quero dizer a Corinna
que lisonjeie seu cunhado pelos favores que lhe devemos. Ser-me-ia um
permanente infortunio recebel-os de Gastão ou Fernando. Sou
homem: devo-me a mim proprio. E os homens que não podem
viver com muito, vão
ás inferiores escaleiras sociaes procurar a mulher que
quadra á sua mediania, e não devem pensar que o
amor os desculpa de irem ás altas classes convidar uma
senhora a descer onde elles estão. Não caso pobre
com Corinna, e tambem não a faço quinhoeira da
minha dependencia. Quando eu tiver ganhado pollegada a pollegada o
torrão que me sustente na patria, então irei.
Agora, meu bom amigo, vou dar-lhe conta da minha amargura, que
é mais que tristeza. Corinna, ao receber esta resposta,
dirá que eu a não amo. Fernando dirá
que sou indigno d'ella. O fidalgo arrancará
do orgulho ferido injurias contra o meu plebeismo. As irmans
hão de dizer-lhe que eu a sacrifico á bruteza das
minhas ambições. A final só terei por
mim a minha
consciencia pura, se é
que me não ha de pungir a
mágoa de ser assim organisado. Aqui tem, senhor Valentim,
que a minha estrella é má!
—Má!?—exclamou o
velho—É uma estrella de
santificação a sua, meu Azevedo! Sabe o que eu
podia fazer? era argumentar comsigo, e leval-o a convencer-se de que a
dependencia só é vergonhosa quando o dependente
abdica de sua dignidade á força de
fazer-se inutil; dir-lhe-ia que vossê com o seu trabalho de
jurisconsulto, embora mal remunerado, havia de adquirir na patria o
torrão mais que abundante á sua
subsistencia, e que sua senhora e seus filhos viveriam todos felizes
á sombra da mesma arvore; mas...
Antonio de Azevedo interrompeu:
—Os seus argumentos não me moveriam:
perdôe
á minha rebeldia, meu caro amigo. A mediocridade, e ainda
mesmo a pobreza, podem parecer delicias á mulher que ama
contrariada por obstaculos de nascimento ou de fortuna: o amor faz
milagres taes, desfigurando tudo o que está feito e refeito
pelos seculos, e pelo
consenso universal. Quando, porém, o amor cede ao tempo,
á intimidade, aos mais serios deveres da maternidade, e aos
preceitos e preconceitos inexoraveis da sociedade—que acham
sempre
traça de se insinuarem mesmo através do colmado
do trabalhador de enxada—a mãe, que se
vê pobre,
é já
mulher muito diversa da noiva que almejava a pobreza do homem amado. As
flores da poesia fructificaram já em filhos que pedem
alimento, educação e futuro. As amigas de
infancia,
que pareceram baixas almas por se
terem victimado voluntariamente ao oiro d'um velho e aos epigrammas da
mocidade, lá estão ricas, respeitadas e
vaidosas de seus filhos; e com quanto já não
conheçam a amiga pobre que se deu de
coração ao
coração, culpam-na e condemnam-na do alto da sua
severa abundancia. Ora a mulher, na posição de
Corinna, quando se
vê pobre, dois annos depois de casada, e vê ricas
suas irmans, lembra ao marido que peça o amparo d'ellas; e
se esse marido é Antonio de Azevedo, a verdadeira
desgraça domestica principia para ambos desde esse momento.
Aqui tem o que sou e o que penso. Julgue-me e condemne-me o mundo como
puder e quizer. O meu pensamento era salvar a dignidade de
Gastão sem lhe dar riqueza, por me ser impossivel
adquiril-a; depois eu levaria o meu pouco á familia que
vivia de pouco, e seriamos
felizes todos. Não póde já ser assim.
Estão ricos, ou vivem á sombra do homem rico.
Não serei eu quem vá pedir um logar entre pessoas
que se haviam de acotovellar com o plebeu. Que levaria eu que me
recommendasse? Se eu fosse nobre, daria como merito a minha inutil e
inerte nobreza; assim, filho do povo e pobre, todos, menos a generosa
Corinna, a seu tempo perguntariam uns aos outros: «De que
serve este
homem?» Ora um homem sabe pontualmente quando os outros
perguntam o para que elle serve... Em summa, cá estou no
começo da minha tarefa: Deus
dá-me este pensar para que eu o leve a cabo. Outra cousa,
meu amigo. O visconde da Cruz devolve-me a lettra dos
seis contos: aqui a tem vossa senhoria para rehaver os
quatro que benignamente me emprestou. Beijo-lhe segunda vez as
mãos.
Valentim ia replicar com razões de muita força,
que lhe suggeriu o talvez injusto juizo que Azevedo expendera a
respeito das mulheres devotadas á pobreza dos maridos,
quando o bacharel foi procurado por um negociante.
Disse o negociante que recebera ordem de entregar trinta contos de reis
fracos a Antonio d'Azevedo, por mandado de Fernando de Athaide,
accrescentando que era tal quantia a prenda de noivado que a senhora D.
Felismina offerecia a sua irman.
O bacharel disse ao negociante que conservasse em sua mão a
quantia, até lhe ser pedida.
Sahiu o depositario dos trinta contos, e o doutor exaltou a bizarria de
Fernando de Athaide, aconselhando Antonio d'Azevedo a não
dar á sua dignidade umas parecenças de soberba.
—É o dote de Corinna, que seu primo lhe
dá—disse Azevedo—Quando eu tiver egual
quantia,
não me pejarei de ir levantar o deposito. Em verdade,
é grande a alma de Fernando, e por isso mesmo se faz digno
de lidar com almas eguaes á sua.
O velho sahiu captivo do moço; mais extremoso que captivo;
sentia-se amar como pae; ser-lhe-ia doloroso apartar-se d'elle desde
aquella hora. No termo da vida, longa vida em contacto com as pustulas
sociaes, aquella paragem, áquem da eternidade, era-lhe uma
como prelibação das
alegrias dos justos. Pensava
o ancião em dar um adeus á existencia, contente
d'ella, e de si: parecia-lhe que as palavras do consolador lhe
suavisariam o trance. Era já egoista da amizade do seu
Azevedo: disputal-o-ia á mesma Corinna, se o visse em
preparativos de viagem.
—Se eu pudesse dar-lhe desde já a
independencia!—dizia
entre si o velho—Oh! se podia!... Mas, a dar-lh'a, eil-o ahi
está dependente de mim, e a
rejeitar-m'a, e a fugir-me as instancias, e a ser menos meu amigo!
É preciso respeital-o muito para o prender
á minha affeição.
Aqui está a resposta de Antonio d'Azevedo a Corinna:
«Folgo com as venturas de teu pae, e louvo a Deus por me ter
dado uma casual influencia no melhor remedio de seus males. Tudo me faz
crer que tendes em Fernando um bom irmão. Dá um
abraço, por mim, na tua Felismina, e agradece-lhe o valioso
deposito que confiou de mim. Em vez das joias, que vale este dinheiro,
pedir-te-ia, minha Corinna, se estivesses no Lima, que te adornasses de
flores; mas, como vives em Lisboa, os enfeites das flores valem nada
ahi, porque o clima as requeima logo. Esse sol quer reverberar nas
facetas dos brilhantes, senão ninguem dá por
elle.
«Não tens amor aos teus campos e ao teu rio?
Ó minha amiga, ainda me doem saudades das minhas arvores,
ainda peço a minhas irmans que m'as guardem
e cultivem com amor! Não me culpes, se a
minha saudade ainda vai por esse formoso Portugal fóra, para
além do ponto onde estás,
em busca d'outros amores. Amores são, que eram já
muito em minha alma, antes que tu m'a reformasses para olhar a futuros.
Tinha de meu, quando te vi, um passado de innocentes alegrias. A idade,
cortada de penas, pôde tudo, menos despojar-me do que
lá
está, e está para sempre, nas relvas, nas
arvores, nas serras, e no meu Cávado! Vê tu como a
criança
ainda se gosa das lagrimas do homem!
«Que estou eu a devanear, se tu já tens pressa de
saber porque vai esta carta, e não vou eu!
«Não vou, Corinna, porque é cedo para
ser feliz. O puro e duradouro contentamento custa a merecer, e leva
tempo. As alegrias improvisadas vão como vem. Sobre que
bases assentam as nossas
convenções de coração,
minha amiga? Voltar eu a Portugal com o necessario para a decencia da
posição em que te conheci. Se eu fosse,
faltava-te: tu perdoavas-m'o; eu é que não podia
perdoal-o a mim proprio. A decencia da tua
posição não
a tenho ainda. Sei que anjo és, que doce conformidade seria
a tua: mas o mau, o intractavel, e irreconciliavel com os
tremendos nadas da vida
positiva, sou eu. Venho da desgraça, e conheço-a:
as minhas
relações em Lisboa foram os
desgraçados, e estudei-os. Deus confiou-te de mim como d'um
encaminhador e guarda. É forçoso dizer-te que o
bom rosto da fortuna
só
está sorrindo aos teus
olhos, porque és
innocente. Se comigo não tem sido boa, tambem já
se abstem de querer enganar-me. A nossa riqueza, Corinna, é
a esperança: esta, juro-te eu, que vale mais que os
milhões de tua irman. Felismina tem tudo que desejava: Deus
sabe o que ella agora deseja!...
«O que tu queres de mim não é muito
amor, e uma casinha além no nosso Minho, e as serenas
alegrias, promettedoras d'um fim de vida socegada? Lá me
tens o coração, e eu cá o espirito
a grangear o mais. Não o tenho ainda: poucos annos
bastarão a esta opulencia, que tão pouco vale
aqui e lá.
Então, sim, então verás que vai aqui
n'este peito a
ufania d'um principe, o santo orgulho d'um operario, que não
inveja principes. Hei de ir procurar-te, não
aos bailes de Lisboa, mas sim aos arvoredos do Lima. De lá
irás comigo, sem atravessares pompas de
cidades, nem magnificencias onde te fique prêso um desejo.
Lá temos ainda á margem do meu rio a casa de meus
paes: que pobre e formosa vivenda! Augmental-a-hemos para vivermos
todos: plantarás novas arvores, e irás tomar o
teu quinhão das flores de
nossas irmans. As tuas arvores virão a tempo com suas
sombras para nossos filhos; e estes, creados nas asperezas dos
montados, e nas asperezas da religião, ir-se-hão
fazendo e formando entre as duas sublimes e unicas poesias: a da
fé e a da natureza.
«A vida, que me tu pedes, é mui diversa, Corinna.
Teu cunhado é um grande em Portugal, quando
o quizer ser. Teu pae e tua mãe anhelam muita
luz para serem vistos, e embriagam-se nos perfumes da lisonja. Esse ar
a mim empeçonhava-me a vida, e não sei se o
coração. Ahi amava-te
menos, porque perderia o amor de mim proprio, o amor que me extrema do
vulgo, o illustre vulgo, que é o derradeiro plebeismo, sem
individualidade, sem classe, sem mais religião que a das
sensações.
«Corinna, não te aviltes em te julgares menos
amada. Adoro-te respeitosamente; porque sei que rejeitas o sacrificio
da minha dignidade.
«Estamos no ponto onde ha quatro mezes estavamos: a mulher
corajosa espera; e o homem, nobilitado por teu amor, quer ennobrecer-se
para a tua mão. Nada mudou, salvo a
posição de
tua familia. Mas que temos nós que entender com a riqueza de
Fernando de Athaide? A riqueza é d'elle. A mim era-me egual
depender de teu cunhado, ou do visconde da Cruz, ou do primeiro
encontradiço que me offerecesse um obulo. Quando sahi de
Portugal, Felisberto Taveira emprestava-me alguns contos de reis para
eu me estabelecer e casar comtigo. Se então rejeitei um
emprestimo sem desaire, como hei de ir hoje acceitar uma delicada
esmola d'um sugeito que escassamente conheço?
«Isto será amar-me demasiadamente a mim; e
não é menos amar a mulher que está
identificada em
minha vida e honra.
«Adeus, Corinna. A tua alma ha de conservar-se
immaculada ahi em Lisboa, como lá na
solidão das nossas terras. Se o mundo te não
respeitar, tu
saberás respeitar-te a ti mesma. Ahi e em toda a parte
encontrarei sempre a minha Corinna, cuja animadora imagem eu vejo em
tudo que é adoravel e santo. Adeus.»
XVII.
As cartas de Antonio de Azevedo a Corinna e Fernando produziram o que
elle até certo ponto vaticinara, fallando com Valentim.
Corinna duvidou do amor, que se desafogava em
dissertações mysticas, e bucolicas saudades
d'arvores e de rios.
As irmans de Corinna, com o louvavel intento de a consolarem, abundavam
no parecer d'ella.
Fernando de Athaide dizia a sua mulher que não podia caber
amor em coração tão cheio
de orgulho.
D. Mafalda dizia ao marido que era moda a gente baixa fingir philaucia
de fidalgos.
Gastão, acidulado pelo dito da esposa, deu para baixo na
peonagem, e declarou que sempre esperava que sua filha levasse uma boa
lição.
Acontecera estar n'este ensejo em Lisboa, e hospede
de Fernando, o visconde da Cruz e seu
irmão Luiz. A declamação do fidalgo
ferira acremente a
dedicada alma do visconde. Tambem este havia de ter uma carta
explicativa do proceder de Antonio d'Azevedo: esperava-a do Porto, e,
sem a ter lido, não queria arvorar-se defensor do ausente.
Tanto, porém, subiu Gastão em sarcasmos contra o
homem de
Barcellos, que o visconde ergueu-se irado, e
exclamou:
—Senhor Gastão de Noronha! o
homem de
Barcellos, quando vossa excellencia estava em risco
de extrema pobreza...
Corinna correu contra o visconde, e poz-lhe a mão na boca,
supplicando silencio. A prevista menina sabia que duro vexame o pae ia
soffrer com tal
revelação. Calou-se o visconde, e o fidalgo
insistiu na
continuação da phrase, com tregeitos iracundos. O
visconde ia pegar do chapeo, quando Emma lhe disse:
—Não saia assim irritado, visconde. Sou eu que
lh'o rogo.
Parece que Emma podia muito no animo do visconde.
Fernando travou do braço do cavalheiro, e passou
á sala immediata.
—Vossê—disse elle—ha de
dizer-me o resto da phrase. Que
fez Antonio d'Azevedo, quando meu primo estava em risco de extrema
pobreza?
—Mandou-me seis contos de reis para —Mandou-me seis
contos de reis
para eu lhe valer, sem declarar a seu
primo que os mandava elle. No mesmo paquete em que recebi tal ordem,
veio vossê.
Logo que me revelou
quem era e o intento com que vinha, entendi que a
posição de seu primo estava mudada.
Ainda assim, fui a Vianna, e offereci dinheiro a Gastão.
Como não precisava, devolvi a ordem a
Antonio d'Azevedo.
—Bem—disse Fernando—é
forçoso o segredo?
—É. Corinna valeu-me n'um impeto de
cólera;
agora confio de vossê que a minha palavra, dada ao Azevedo,
se não quebrante.
—Confia bem, visconde. Que admiraveis virtudes as d'este
moço! Sabe vossê que um homem,
conhecedor de taes exemplos de honra, nunca está bem com a
sua consciencia!? Eu não sei o que já hei de
fazer a favor de Antonio d'Azevedo!... Aqui me diz o meu correspondente
que elle deixou ficar o dinheiro em deposito até nova ordem.
Está claro que o não
acceita...
—Clarissimo. Se elle não vem, como iria levantar a
prenda
da noiva?!—disse o visconde.
—Que se ha de fazer, meu amigo?
—Não sei: é esperar que elle tenha o
que julga
necessario á sua independencia.
—Vou dar um passo decisivo!—tornou Fernando, depois
de breve
meditação.
—Qual?
—Vossê verá. Vamos á sala.
Receio que
meu primo diga alguma grosseria a Corinna.
Quando entraram, a pobre menina estava chorando, e Felismina,
lançando-lhe os braços sobre os
hombros, segredava-lhe consolações.
Fernando approximou-se de ambos, e disse a
Corinna:
—Está tudo remediado. É
questão de
alguns dias.
E, voltado a Gastão, disse jovialmente:
—Olé, primo! o incidente passou: torna tudo ao seu
curso
regular. Aqui não se falla bem nem mal de Antonio d'Azevedo.
Defendel-o seria ultrajal-o. Accusal-o seria um vilipendio. Ninguem
ficou mais nem menos do que era.
Na noite d'esse dia estava Corinna no seu quarto com Felismina, quando
entrou Gastão de affavel semblante. Sentou-se entre ambas, e
disse com mellica entoação:
—Tu és minha filha, és o meu sangue,
tens
pundonor de raça, e deves estar curada, Corinna. Ha muito
quem te pretenda; e teu cunhado deixa-te a
administração dos vinculos para tu poderes
escolher marido. Tens tres bons partidos a escolher. O morgado de
Villar da Rocha está aqui em Lisboa, viu-te, e
perguntou-me se não estavas promettida. Um filho segundo do
marquez de Travassos, familia mais antiga que a Lusitania, fez-me egual
pergunta. O barão da Teixeira, vindo ha pouco da Bahia, com
mais de quinhentos contos, fallou em ti ao Fernando. Escolhe.
—Não escolho ninguem—disse resolutamente
Corinna—O que eu
escolhia era a morte.
—Antes isso que a vergonha da familia!—replicou o
pae.
—Que vergonhas dá ella á
familia?—perguntou
Felismina com os geitos especiaes de quem tem
dois milhões.
Gastão involuntariamente respeitou a
interpellação da filha millionaria. A bem dizer,
a pergunta era irrespondivel.
D'ahi a pouco estava febril Corinna, e as ancias e soluços
tão frequentes a opprimiram, que a
familia houve medo d'algum accesso de loucura.
Fernando de Athaide, conscio da brevidade do insulto nervoso, disse ao
primo:
—Não volte a injuriar a pobre menina, que a mata a
ella, e
perde a minha estima. Eu hei de necessariamente fazel-a feliz. Se o
não conseguir, maldigo a hora em que a conheci.
Dias depois, Corinna sahira do seu quarto, pallida, desolhada e triste.
O sangue mal lhe acudia ao pulso. As palavras sahiam á
força de caricias. Era
preciso fazel-a chorar para que as lastimas subissem do
coração
aos labios.
Fallavam-lhe em Antonio de Azevedo, e as faces retingiam-se-lhe;
mostravam-lhe o anjo da esperança
a voejar para ella, e o sorriso volitava-lhe em toda a face
até se confundir com as lagrimas de jubilo. Mas este mesmo
jubilo era um accesso de febre. Os medicos tinham-se enganado: aquelle
quebranto de forças e feições eram
prenuncios de
morte. A gente experimentada facilmente diagnostíca
estas insaneaveis doenças: os medicos é que, do
cocuruto da
sciencia, o que ordinariamente palpam n'estes symptomas é
uma doença que entende com o estomago ou com o figado.
De coração
só conhecem
lezões, turgecencias, hypertrophias, aneurismas,
&c. Tem assim, e por conta da sciencia, morrido muita
gente, que se curava com um raio de alegria e um pouco de
compaixão do mundo.
Fernando encerrou-se com Gastão, e disse-lhe:
—Vou liquidar a minha casa ao Rio de Janeiro. Mandei crenar a
galera.
Parto na proxima semana. Minha mulher vai comigo; e Corinna
irá tambem, se o primo a ama e me estima a mim. Se ficar,
morre; e se morrer, Felismina não quer voltar a Portugal.
—Vai procurar o noivo minha filha?—disse
Gastão
ironicamente.
—Vai procurar a vida; e se Antonio d'Azevedo lh'a
dér, bem
haja o salvador da nossa Corinna!
—Pois que vá: nós partiremos para o
Minho.
—Pedia-lhes que ficassem em Lisboa, e não
alterassem os
costumes de minha casa. Tenho relações que desejo
conservar. Meu primo honrará os nossos amigos, recebendo-os.
Em seu poder fica a porção
da fortuna que tenho em Portugal. A sua estima por mim ha de chegar ao
sacrificio de esperar em Lisboa a nossa volta do Brazil.
Não se fez rogar o fidalgo. Sujeitou-se plenamente
á vontade do genro.
Recebeu Corinna da Soledade a nova da viagem. Alvoroçou-se
até recahir na febre; mas a crise
foi leve, e rapida a convalescença.
A galera de Fernando, construida em Inglaterra, era garbosa, linda e
leveira como um cysne. A tolda
era um
camaranchel de sedas, como o das antigas gondolas de Veneza. O chrisma
para «Felismina» fadou-lhe mais ricos destinos. O
amor lhe inventara os adornos, os perfumes, as graças e
garridices que só o amor
desentranha de suas fantasias. A sala de ré era uma
ante-camara de sultana. Ia por esses mares fóra aquella
concha de perolas, namorada das auras que ciciavam no velame, imitando
as branduras de suas irmans derramadas pelas moitas dos gestaes. Que
vontade fazia aquella gentil galera de ir ter um mundo na
vastidão do oceano, e não vêr mais que
ella e ceo, e um
ente amado, debaixo das estrellas a espelharem-se nos paramos azues das
aguas! Como alli o coração, golpeado na terra, se
iria contente, se cá d'estes abysmos levasse ainda a salvo o
condão da poesia que faz sahir mundos sobre mundos dos
abysmos do mar!
A galharda galera, como ovante da gentil alma que levava, sahiu barra
fóra com todo o panno e prospera
monção. A festival menina, por esses mares
fóra, sobre a tolda, a scismar, com os olhos lá
no infinito horisonte, d'onde a chamava o esposo, e os favonios a
enfunarem-lhe as roupas alvissimas... que linda ia! julgareis ver a
pomba sobre a arca fluctuante nas aguas já serenas do
diluvio!
Ao vigesimo nono dia de viagem avistaram pharoes das terras de Santa
Cruz.
Corinna, ao repontar da alva, subiu ao tombadilho, e viu a cidade
d'oiro, a rainha do novo mundo, espreguiçando-se do ultimo
somno entre os ceruleos
coxins do seu immenso
leito com pavilhão de mil flammulas e bandeiras. Parecia-lhe
ver caminhar a terra, mar dentro, a recebel-a; mas tardio era o
avançar da galera a encontral-a.
—D'aqui a meia hora?—disse ella a Fernando.
—Sim, d'aqui a meia hora, minha egoista!—respondeu
o primo, e
continuou sorrindo—D'aqui a meia hora já
não
tens patria, nem irman, nem
cunhado! O Antoninho, que, a estas horas está escrevendo uns
provarás, com o
supremo tedio de que é susceptivel a creatura humana, vai
receber um golpe d'alegria mortal!... Haverá no genero
humano um segundo homem a ponto de experimentar prazer egual?!
É impossivel que elle te não adivinhe, mana
Corinna! salvo se o coração de um jurisconsulto
é tapado a toda a casta de inspiração
divina!
A este tempo, chegava Antonio d'Azevedo Barbosa, ao caes.
Adivinhou, com effeito?—pergunta o leitor.
Nem sombra de presentimento, meu amigo! O que trazia ao caes, e a bordo
de um navio, Antonio d'Azevedo, é successo infausto que tem
uma historia concisa, mas necessaria.
Um dos irmãos do bacharel, Francisco d'Azevedo, era
caixeiro, em Lisboa, n'uma casa de cambio da rua dos Capellistas.
Merecera um bom nome, e cahira em tentação depois
de o ter merecido. As desordens
da vida, as demasias de luxo, a ancia de mostrar-se rico
aos olhos d'uma mulher que distinguia os moços
ricos, induziram-no a subtrahir, com intenção de
os
repor, capitaes, que excediam os seus ordenados de dois annos.
Francisco jogou na esperança de resgatar-se, e cavou mais no
abysmo de sua perdição. Quasi a
ponto de ser descoberto, quando o patrão dava o
balanço, o caixeiro desappareceu, e fugiu caminho do Brazil,
confiado na reforma de seus costumes, e na possibilidade de ganhar
depressa com que restituir o furto.
Chegou ao Rio, e procurou o irmão. Deu
explicações inventadas da sua ida, e conseguiu
logo, mediante Antonio d'Azevedo, boa casa, bom ordenado e muita
estimação dos patrões.
O bacharel estava contente do expediente de seu irmão.
Lembrava-se que assim mais cedo as irmans teriam bom amparo.
Lia, passados trinta dias, Antonio d'Azevedo o
Commercio do Rio de Janeiro, e
casualmente parou os olhos sobre esta correspondencia, intitulada:
Cautela com os ladrões.
E seguia d'este theor:
«
Fugiu de Lisboa, com
direcção ao Brazil, um caixeiro do cambista F***.
Chama-se Francisco de Azevedo, natural de Barcellos. Desfalcou o
patrão em dois contos de reis. Para que o ladrão
não
logre o bom resultado das suas manhas, avisa-se o commercio do
Brazil.»
Antonio d'Azevedo viu entre si e o jornal um redemoinho de scintillas
de lume, e, ao levar as mãos
aos
olhos, tinha perdido os sentidos. Este lance passára-se no
escriptorio de Valentim da Costa.
Entrara o velho, e ouvira o soluçar cortante do seu amigo.
Interrogou-o com paternal carinho. Azevedo ergueu-se como atordoado, e,
ao sahir, murmurou estas palavras:
—A infamia está ahi escripta n'esse jornal.
Foi ao armazem onde Francisco era guarda-livros; entrou no gabinete
particular do negociante, e encontrou-o lendo o jornal.
O negociante estava correndo a primeira pagina, e a noticia vinha na
segunda.
—Por cá, doutor!—disse alegremente o
patrão de
Francisco—Vem saber como vai o nosso homem? Optimamente.
Estou
contentissimo. É seu irmão, e basta!
Eram frechas que varavam o peito de Antonio de Azevedo! A dor
rompeu-lhe em lagrimas. O negociante viu-as, e exclamou:
—Que tem o doutor?! Alguma desgraça de familia
lá na terra? Morreu-lhe algum de seus irmãos?
—Morreu Francisco—balbuciou o bacharel.
—O quê? morreu Francisco! O doutor está
a sonhar!
Pois não o viu quando entrou?!
—Morreu para a honra—tornou já
serenamente Antonio—Ahi
está na segunda pagina d'esse jornal o ignominioso epitaphio
do desgraçado.
—O quê? que diz o doutor de epitaphio?
Azevedo collocou o dedo indicador sobre a correspondencia.
O commerciante leu, e fez-se amarello. Depoz o
jornal, levou as mãos aos raros cabellos brancos, e disse:
—Tem razão, doutor! seu desgraçado
irmão está morto!
—Vim para o levar comigo. Queira o senhor dar-lhe ordem de
sahir.
Rogo-lhe a generosidade de não lhe dizer a causa por que o
despede.
Deteve-se a scismar o
negociante,
e disse com energia
de boa alma:
—Vamos ver se o salvamos.
—Salval-o como?
—Vai com outro nome para o Pará.
—O nome não é o infamado; é
elle.
Creia o meu amigo que eu não vim pedir-lhe a sua
protecção para salvar o homem indigno d'ella. Vim
buscar meu irmão.
Foi chamado Francisco.
—Dá contas ao senhor Silva, que vaes sahir de sua
casa.
O guarda-livros fez-se roixo.
—Não ha explicações
previas—tornou
Antonio—Apresenta os livros a teu cargo ao senhor Silva.
—Os livros estão vistos—disse o
negociante—Não
tenho a menor suspeita da probidade do senhor Francisco.
—Suspeita?—atalhou este.
—Silencio!—disse imperiosamente
Antonio—Vamos.
O commerciante apertou a mão do bacharel, e
lançou ao irmão um olhar compassivo.
Francisco hospedou-se com Antonio. Dois dias depois, recebeu de repente
a noticia da sua volta a Portugal, accrescentada d'estas palavras:
—Entrega esta carta em Lisboa. A pessoa a quem a entregas
irá comtigo a casa do cambista F***, teu patrão
que foi. Darás ao cambista o dinheiro em
que elle se disser roubado por ti. Cobrarás recibo, que me
enviarás. Feito isto, recolhe-te a Barcellos, e pede a tuas
irmans que te dêem um quinhão da sua
subsistencia.
Francisco, lavado em lagrimas, quiz ajoelhar aos pés de seu
irmão, e contar a historia dos seus
desatinos.
—Não ha historia que absolva um
roubo—disse o bacharel.
E no dia seguinte, quando elle acompanhava ao navio o irmão,
é que a vistosa galera
Felismina se baloiçava,
como odalisca, sobre a camilha azul das aguas que reverberavam o sol
nascente, e se cobriam de scintillante lhama de oiro.
Olhem a felicidade de Corinna e a felicidade de Antonio de Azevedo!
XVIII.
Antonio de Azevedo foi abrir a reprêsa de lagrimas no seio do
ancião que o esperava com as suas, unico balsamo das
supremas afflicções.
—Veja a minha vida!—disse entre soluços
o bacharel—Pensar
eu que o muito trabalhar me daria um quieto contentamento, e que,
além dos dissabores do coração, nunca
teria outros!... E agora estes!
os da ultima deshonra! uma vergonha irremediavel que me priva de olhar
de frente para os homens que estimaram meu irmão por amor de
mim!
O velho, combatendo os escrupulos do moço, teve a admiravel
e inspirada eloquencia da verdade. Declinou a deshonra sobre quem a
praticara, e provou ser aquella desgraça mais uma prova para
aquilatar as virtudes do bacharel. Verdadeiros, mas, ainda assim,
inconsolativos argumentos!
Fallaram longo tempo. Valentim não deixara sahir
o amigo n'aquella manhan, receoso de que a
solidão lhe amargurasse a mais as apprehensões.
Quando o moço se impunha a si mesmo o preceito da
força para o trabalho, e o velho insistia nos seus
dictames insinuativos de coragem, entrou no escriptorio Fernando de
Athaide.
Antonio de Azevedo, como a desentorpecer-se de um glacial spasmo,
estendeu-lhe machinalmente a mão e deixou-se
abraçar. Valentim fazia um alarido de
exclamações de espanto, que não
deixavam ouvir o adventicio.
—Vejo-o triste e demudado, senhor Azevedo!—disse o
primo de Corinna.
—É oiro que está ainda ardendo da
ultima
prova!—respondeu o velho—A desgraça
cuidou que o
fulminava; mas a honra venceu.
Antonio d'Azevedo fez um gesto supplicante de silencio ao doutor, e
disse a Fernando:
—Ninguem o esperava no Rio, senhor Athaide.
—Foi uma partida repentina. Assim é que se fazem
as coisas!
—Como ficou Corinna?—perguntou Azevedo; e logo as
lagrimas lhe
saltaram a quatro, e uma ancia lhe ressumou á face em suor
frio.
Sentou-se quebrantado, e murmurou:
—Desculpem-me: estou-me fazendo mulher... Estas lagrimas, se
as
não chorasse, matavam-me.
—São de saudade?—disse Fernando.
—São de desesperança, cuido
eu—respondeu
Azevedo, escondendo os olhos com as mãos.
—Anime-se!—exclamou Athaide—Que
descorçoamento
é esse, improprio d'uma alma de bronze! Azevedo, saia d'essa
lethargia! Olhe que Corinna ama-o como sempre, e espera-o com a
anciedade d'um anjo consolador de todas as suas mágoas.
—Tardia virá a
consolação!—balbuciou
o moço—Deus me livre de a condemnar a soffrer
debaixo da
minha estrella... Escreveu-me ella?
—Que pergunta! Tenho em casa uma carta sem fim, que o meu
amigo ha de
lêr como se ella mesma a estivesse fallando! Venha comigo, e
cuidará que tem entre mãos, não uma
carta, mas o proprio
coração da sua Corinna!
—Agora consinto que vá!—disse o velho.
—E o doutor vem tambem—acudiu Fernando.
—Vamos lá!—voltou o
velho—Vossês os rapazes
andam comigo d'aqui p'r'ali, como se esta gotta não
merecesse respeito nenhum á
geração nova! Ora esperem ahi, que eu vou vestir
a dalmacia, a casaca circumspecta! Sua senhora veio?
—Veio, sim.
—Ah!—disse Azevedo—está
cá a senhora D.
Felismina?!
—Pois eu havia de deixar lá a alma!
Então
vossê não sabe que marido eu sou! Minha mulher sou
eu—disse com festivo semblante o millionario.
Sahiram.
—Isto veio do ceo!—disse Valentim—Quem
distrahiria o meu pobre
Antonio, se lhe não chegassem os bons amigos da patria! Vai
ter um dia cheio, meu amigo! Quem lhe fallaria com mais ternura da sua
Corinna que a irman querida! Felismina se chama ella: hoje é
que é
feliz
mina de consolações para o meu
desterrado!
Assim, com estes dizeres affectuosos do alegre ancião,
chegaram ao grandioso predio, que Fernando habitava.
Na primeira sala esperava-os Felismina. O doutor, que subia na
dianteira, ao vêl-a, exclamou:
—Sim, senhores! É muito linda! Ha muito que
não
vi d'estes fructos da minha terra! Quero e gosto que as senhoras
brazileiras vejam o que lá ha por Portugal!
Felismina sorriu-se ao galanteio do velho, e abraçou Antonio
d'Azevedo.
—Como está abatido!—disse ella.
—Abatido no rosto, mas Sansão na
alma!—acudiu Valentim.
—Acha-me velho?—disse Azevedo—N'este paiz
acaba-se depressa o homem
que se não exercita muito, e endurece ao fogo do sol. A sua
familia, minha senhora, ficou boa? A senhora D. Corinna?
—Como faz essa pergunta, senhor Azevedo!...—disse
Felismina—Que
frialdade! Dar-se-ha caso que vossa senhoria não ame
já minha irman?
—Por Deus, minha senhora!—respondeu o
moço—Todos
os infortunios podem menos sobre mim que
uma injustiça, que deixa de ser injuria por ser dita por
vossa excellencia.
—Se elle ama sua irman!—atalhou o
velho—Ó minha senhora,
se os meus cabellos brancos inspiram confiança, creia vossa
excellencia que o meu Azevedo ama tanto sua irman que, por amor d'ella,
excede-se a si proprio na prática das virtudes. Grande e
distincto deve ser o amor que faz o virtuoso! Vicios e crimes
é o que eu tenho visto resultar dos amores vulgares...
—Está o senhor Azevedo ancioso por que lhe
entreguem a
carta de Corinna—disse Fernando—Vai tu buscal-a,
Felismina.
Abriu-se uma porta, e appareceu Corinna, exclamando:
—Não preciso que me tragam!
E cuidam que ella impallideceu, desmaiou, ou, pelo menos, expediu um ai
de procedencia dramatica?
Não, senhores. Corinna entrou de corrida, leve como um
gnomo, a rir e a chorar, purpureada, com os olhos a saltar-lhe
fóra da face, os braços
abertos e convulsos, a respiração como tomada, e
os labios crispando nervosamente, sem poderem proferir o quer que era
de que só os dramaturgos acham sempre uma
expressão insipida, incolor e inverosimil.
Antonio de Azevedo é que (sem desaire seja dito) deu uns
ares de idiotismo, que, na scena, seriam lastimaveis!
Abraçou Corinna, como a medo: era a primeira vez que a
sentia nos braços. Fitou-a como quem duvída;
remirou-a, como quem teme um
engano dos sentidos; estava-se acordando do sonho; invocava a sua
razão; e, quando a razão lhe mostrou em volta
d'elle todas as faces orvalhadas de lagrimas, é que Azevedo
pôde exclamar:
—Bem hajas, anjo de Deus!...
Imagine agora a minha leitora os successos indescriptiveis d'este
lance. Por pouco imaginativa que seja, vossa excellencia ha de
avultal-o melhor em sua fantasia do que eu poderia dar-lh'o n'esta
pagina. Uma só poesia creou a natureza para taes quadros:
é a
poesia da pintura.
Foram cinco minutos de febre, de delirio, de silencio, de ouvir-se o
bater forte e descompassado de cinco corações.
Ora pintem lá isto, a
não ser em expressão de olhos, de labios, de
feições que
só, em casos d'estes, se vos deparam em pinturas christans,
onde os enlevos são ceo, bemaventurança e alegria
de santos. E
haveis de notar que o proprio pincel profano antes se quer a pintar
expressões angustiosas, porque as visagens da
afflicção mais se prestam ao relevo, como em
Niobe, em Laocoonte, em Ugolino. Quer tudo isto dizer que tenho diante
dos olhos aquelle espectaculo de jubilos, e desisto de descrevel-o para
de todo em todo me não capacitar de minha inhabilidade.
Porque hei de eu dizer tão affoitamente
«espectaculo de jubilos», se Antonio d'Azevedo,
momentos depois, se deixava senhorear da lembrança do
irmão,
banido do numero dos honrados! A candida Corinna encarava
n'elle com olhos aguados, e no lacerante
silencio de sua alma perguntava a si mesma, que fizera ella para ser
menos amada! De que outro modo se explicaria a tristeza do
moço n'aquella primeira hora!
Não pôde ter-se que o não chamasse a um
ponto mais afastado da sala onde se tinham ficado Valentim e Fernando,
em quanto Felismina sahira a dar ordens.
—Tu estás melancolico, Antonio!—disse
ella, tomando-lhe a
mão com estremecida ternura—Viria eu contrariar a
tua
vontade? Estaria eu enganada comtigo?...
—Vejo-me indigno de ti...—respondeu Azevedo.
—Indigno de mim!—tornou ella crescendo no afago da
expressão convulsa de lagrimas—Pois tu
não tens sido mais que nobre para seres digno da mais nobre
e pura mulher! Quererás que eu te recorde as tuas virtudes,
meu querido amigo!?
—As minhas virtudes—replicou o
moço—tão
frageis eram, que talvez a esta hora tenham sido reputadas hypocrisia.
—Ó filho!—exclamou
ella—desconfio da tua
razão! Muito deves ter padecido para te considerares assim,
quando em volta de mim os teus merecimentos são louvados com
admiração de
todos!...
—Escuta-me para me consolares, Corinna. Deus quiz que tu
viesses
á hora em que toda a
esperança me ia fugindo...
Antonio d'Azevedo contou a Corinna a ignominia de seu irmão,
e levantou a voz de modo que Valentim,
no angulo opposto da sala, ouviu tudo. Ergueu-se o velho, caminhou para
elles, e interrompeu a
exposição do bacharel.
—Senhor Antonio d'Azevedo, antes do infortunio de seu
irmão, vossê, no Rio de Janeiro, gosava
nome de intelligente, laborioso e honesto; depois do infortunio de seu
irmão, o nome de Antonio d'Azevedo é
proferido com o acatamento de que homem nenhum de sua idade se tem
gosado. Os velhos honrados da sociedade brazileira querem conhecel-o:
os portuguezes citam o seu glorioso procedimento com orgulho. O facto
é de ha tres dias, e tem corrido de bôca em
bôca como raras vezes acontece a uma boa
acção. Ora pois!
Eu sei bem o que é dignidade; achei que a sua se manteve
sempre na altura dos mais dignos homens d'outros tempos; admirei-o e
louvei-o pelo que outros chamariam demasias de orgulho sob capa de
independencia; agora, porém, é chegada a hora de
eu lhe dizer
que, assim como a suave religião se descaminha
até ao
fanatismo execravel, assim a briosa dignidade, se perde o rumo do bom
juizo, vai dar comsigo n'uns excessos rudes, insociaveis e repellentes.
A sociedade applaude os virtuosos, mas desadora os que fazem de sua
virtude uma tribuna para lhe censurar as fraquezas. O excesso do bem
é um mal que não me aproveita a mim, nem a
outrem. Eu quero que Antonio d'Azevedo se mostre alegre para que o
mundo não diga que a honra tem uns pavores interiores
refractarios ao contentamento. A
boa
consciencia é alegre, senhor. E o melhor beneficio que
vossê póde fazer aos homens é
convencel-os de que vai indo seu caminho, arrancando os espinhos dos
pés, e sorrindo ás novas desventuras que o
impecem. Fallou o velho. Diga agora o anjo, a nossa Corinna, o que
será preciso fazer-se a esta criança
decrepita para a levantarmos do seu abatimento?
—Se eu pudesse...—balbuciou Corinna.
Antonio d'Azevedo levou aos labios a mão de Corinna, e
murmurou:
—Emenda tu os defeitos da minha desgraçada
indole...
Dá-me paz, Corinna; dá-me a
uncção do teu amor, e eu me salvarei de mim
proprio...
—Primeiro passo a dar!—exclamou Valentim da
Costa—O primeiro passo a
dar é casarem-se, meus filhos!
N'este momento entrou Felismina, e disse:
—Está o almoço na mesa.
Valentim continuou:
—Visto que está o almoço na mesa, o
primeiro
passo a dar, meus filhos, é... almoçar!
No decurso da conversação durante o
almoço, disse Fernando de Athaide:
—Ahi vão novidades, meu caro Azevedo. O visconde
da Cruz
casa brevemente com Emma, e Luiz Taveira com Leonor. Eliza tem doze
annos, e já é
pretendida. Quem de certo nos fica solteira é a nossa
Corinna! que pena!
Riram todos, e Valentim exclamou:
—Solteira! essa é boa! Não consentirei
eu que a
belleza assim seja ultrajada! Aqui está a minha
mão, senhora D. Corinna! É um sacrificio que
faço da
minha isempção; mas faço-o para que
suas
manas se não riam de vossa excellencia.
XIX.
Tres mezes depois dos grandes successos froixamente descriptos no
anterior capitulo, Fernando de Athaide e sua mulher vinham caminho de
Portugal; e Corinna da Soledade e seu marido Antonio d'Azevedo
habitavam, nos arrabaldes do Rio de Janeiro, uma chacara de modestas
regalias.
O bacharel era ainda o mesmo laborioso jurisconsulto, associado no
escriptorio de Valentim da Costa. Corinna, simplesmente ajudada d'uma
negra, cuidava do lavor domestico, singelo lavor, que isso mesmo tem de
bom a mediania.
Quizera Fernando que seus cunhados ficassem habitando a casa onde se
hospedaram, e Azevedo, já receoso de desagradar com suas
isempções, mal se atrevia a rejeitar os
offerecimentos; porém Corinna, avaliadora dos secretos
desejos de seu marido, simulou vontade de viver no campo, e assim o
desembaraçou
do desgosto de
acceitar a magnifica vivenda na melhor praça da capital.
Valentim, aconselhando Athaide no melhor modo de haver-se com seu
cunhado, repetia o que no livro divino de frei Luiz de Sousa se
lê, que o cardeal de Lorena dizia, ao embaixador de Portugal,
com referencia ao santo arcebispo bracharense: «.....se o
quereis ter contente, não lhe deis a comer mais que dois
ovos duros.»
Corinna recebêra de Felismina a prenda dos trinta contos
depositados ainda em poder do commerciante. Foi-lhe, porém,
mister guardal-os como cofre de joias, sem lhe dar destino conducente a
alliviar os encargos do marido. Era um dinheiro que não
existia para o bacharel, nem Corinna buscava occasião de
fallar d'elle.
No tocante a felicidade, alguns periodos de uma carta de Azevedo ao
visconde da Cruz dizem o que basta a convencer-nos de que a possuiam,
quanto ella, n'este desterro, se deixa gosar.