carta de rhodoge para elrei dario, seu filho
"Deram-me novas que ajuntaveis poderosos exercitos
de todas vossas gentes e das alheias, para de novo
offerecerdes batalha a Alexandre. Não sei a que effeito;
pois o poder de toda a redondeza não basta para pelejar
com os deuses immortaes que a elle o favorecem.
Deixae esses pensamentos altivos; apartae-vos da vangloria
d'elles, concedendo á grandeza de Alexandre alguma
cousa; que melhor é deixar o que não podeis
ter, para gosar livremente o que possuis; que, querendo
dominar tudo, ficar sem nada."
Cada um dos presentes gabou estas cartas com tanto
extremo, que não deixaram que com ellas acabasse
Leonardo sua obrigação; porque (disse D. Julio) já pelo
voto de Solino, estas são as cartas, que entram na jurisdicção
de minha curiosidade, não consinto que nos
exemplos seja este genero mais limitado; mórmente
que d'este se tira outra doutrina mais que a das cartas,
que é a variedade das historias e occasiões d'ellas.—Eu
(respondeu Leonardo) ainda tinha cabedal para ir
adeante, se as horas tornaram atrás; mas partirei
(como dizem) a contenda pelo meio, recitando uma
carta, que o grã senhor dos turcos escreveu aos amazonios;
e a valorosa resposta que elles lhe mandaram:
e dizia a primeira:
carta do turco aos amazonios
"Se por defensão de vossa liberdade sustentáreis
guerra contra meu poder, não vos tivera tanto por
inimigos, como por valorosos cidadãos, que pela patria,
filhos, parentes e amigos punheis as vidas. Porém
com nenhuma razão me persuado que os que deixaram
tantos annos governar o reino a mulheres (como
tenho ouvido) recusem agora o imperio, e governo de
homens valorosos."
E a esta carta responderam elles outra, que dizia:
resposta dos amazonios
"Este reino das amazonas, que, como por affronta
nossa nomeaes, com o seu mesmo exemplo nos aconselha
não obedecer a outrem: porque temos por infamia
e torpeza que o exforço varonil seja vencido do
espirito e braço feminino. Pelo que deveis julgar por
invenciveis em armas, e dignos do governo e principado
do mundo homens, entre os quaes até as mulheres
apprenderam a reinar."
E porque com exemplos gentilicos e barbaros não
dê fim á conversação d'esta noite, direi por remate
uma carta que o veneravel sacerdote Beda escreveu a
Carlos Martelo, rei de França, e aos mais potentados
d'aquelle reino sobre a entrada dos mouros em Hespanha,
que dizia:
carta do veneravel beda a carlos martelo
rei de frança
"Em quanto se move perigosa e cruel guerra na
christandade, se apparelha notavel ruina de toda a
Europa: porque os sarracenos, occupada a Africa e
Libya, começando de Ceita, tem conquistada toda a
terra de Hespanha, tirando a das Asturias e Cantabria.
Africa, que o capitão Belizario cobrou aos romanos, e
que cento e setenta annos obedeceu a seu imperio,
juntamente com a Hespanha Betica, tem tomado os
mouros, fazendo-a obedecer a seus falsos ritos, com
grande ignominia e affronta do nome christão. Que
cousa póde haver mais excellente, valorosa e pia, que
contra estes inimigos de Deua tomar armas? Que fizeram
os suevos, os allemães e os mais varões do nome
christão, que com tão grandes destruições tendes perseguidos?
Perto estào, e sobre vossas cabeças os sarracenos,
que com soberbo jugo ameaçam a toda a redondeza
da terra. N'elles tendes formosissimos reinos,
grossas cidades, ricos despojos; e vos esperam grandes
triumphos da victoria: e principalmente incomparavel
premio de gloria com Christo nosso Salvador, que
para tão santa empreza com continuos brados vos está
chamando."
Certo, disse o doutor, que, se pudéra dilatar a noite
pelo interesse de tão proveitosa doutrina; mas porque
n'esta se não ha de dar fim ao nosso exercicio, fiquem
algumas perguntas, que agora escuso, para outra occasião,
pois agora a não tiveram as cartas amorosas nem
as de desafios.—As primeiras (replicou Leonardo) deixei
por ser improprio da minha edade tratar d'ellas;
as segundas, por me não embaraçar com o duello que
está reprovado. Porém fica o campo livre para os mancebos.
Com isto se despediram dando-se boas noites:
e o estudante foi encarecendo ao companheiro o muito
que o espantára vêr tanta côrte em uma aldeia; que
as cousas achadas onde não se esperam, são de maior
admiração, e de mais estima.
DIALOGO IV
DOS RECADOS, EMBAIXADAS E VISITAS
Amanheceu o sol tão claro e gracioso, que alguns
dos amigos por se lograrem d'elle com a occasião da
caça se espalharam pelos montes; mas depois de
horas de vespera visitou o estudante em companhia
de Pindaro ao doutor Livio, com quem passaram a
tarde n'um seu jardim em boa conversação, esperando
a da noite, a que elles foram os primeiros que acudiram,
e se acharam em casa de Leonardo; que
commummente nos lettrados se accende melhor o desejo
de saber, e não n'aquelles aos quaes lhes custou menos.
Sentaram-se á vista do fogo, que á conta dos hospedes
estava melhor ordenado; e depois de gastarem
algumas palavras de cumprimento, chegaram D. Julio
e Solino a quem todos fizeram muita festa; e, reprehendidos
da pequena tardança, disse Solino:—Grande
espaço ha que eu pudera gosar esta companhia, se me
não detivera em esperar resposta de um recado, que
mandei ao sr. D. Julio.—E eu (respondeu elle) se vos não
encontrára, ainda não tinha entendido o vosso moço;
porque de maneira embaraçou o que me mandaveis dizer,
que nem por discrição pude tirar o recado: nem
vos desfaçaes d'elle para os que forem de importancia,
que val a peso de ouro.
A isto se começaram todos a rir, e tornou Solino:—O
meu moço, sr. D. Julio, tem desculpa em ser
nescio, porque é meu moço; que, se soubera mais,
eu o servira a elle; mas os creados dos grandes, como
vós, esses hão de ser discretos, pois são tão bons
como eu: e comtudo eu vos sei dizer que ha aqui
moço que no dar um recado o pudera fazer como ao
que lá mandei, que não é dos peiores da sua ralé, e
já entermette de lêr carta mandadeira: mas nos recados
ainda agora lê por nomes, e não acerta a nenhuma
cousa.—Pouca paciencia tenho (disse o doutor) a um
creado que esperdiça o entendimento de seu amo: mandaes
um recado concertado, discreto e cortezão: e o
madraço, que o leva, muda-lhe os trastos e desentôa
com uma parvoice que vos desacredita, como com os
meus me tem acontecido mil vezes.—Nos vossos não
é muito (disse Solino) que daes os recados guarnecidos
de rhetorica com seus vivos de latim, que são mais
perigosos na bôcca d'estes, que vidro em mão de menino:
mas os meus, que não passam de quatro palavras
em linguagem corrente, e que assim os virem do
carnás e me mettam em vergonha, não é desgraça?
Ora prometto que os de importancia eu mesmo os leve
como aconteceu ao cortezão ausente, que levou elle
proprio a carta a sua mulher: e os que houver de dar
o meu moço, que sejam seus, por não andar remendando
o burel da sua natureza com o trabalho da minha
disciplina. D'aqui por deante bôcca faz jogo: digo,
que o que o meu moço disser, elle o diz, e que me não ha
de chamar por auctor das suas impertinencias.—Certo
(disse Leonardo) deixando de tratar dos meus, e vossos
recados, que importam menos, e de outros em que
vae tão pouco, que é uma das cousas de maior consideração
aos reis, principes, republicas, e aos grandes
mandarem suas embaixadas, visitas e recados por homens
de auctoridade, discretos e bem disciplinados,
em cujas razões e procedimentos consiste muitas vezes
o bom successo do que pretendem. E assim os reis,
principes e republicas nas materias de estado; as cidades
e povos nas occasiões das côrtes; os senhores
particulares nas visitas; devem sempre escolher homens,
que no entendimento se avantajem dos outros,
porque não sómente conseguem o fim da pretenção de
quem os manda; mas o acreditam: e porque ás vezes
por respeitos, privança e valia se antepõem os menos
sufficientes para estes cargos, se deitam a perder negocios
de uma republica, em que consiste a quietação
e honra d'ella.—Pouco e pouco (disse Pindaro) se foi o
sr. Leonardo á materia dos recados, que não ficam fóra
de seu logar, depois de o terem as cartas missivas; e
bem se póde fazer a noite bem assombrada com tão
bom sujeito.—Desculpado estou (respondeu elle) com o
trabalho, que na de hontem cahiu á minha conta, em
fugir d'elle; mas não de approvar a vossa advertencia.
A todos os mais pareceu que seria acertado tratarem
a materia de mais longe; e pediram ao doutor que, tomando-a
á sua conta começasse.—Bem pudera usar (disse
elle) do privilegio do sr. Leonardo, e de outros para
minha escusa; porém ainda que os tinha, e qualquer
dos presentes mais sufficiencia para este encargo por
lhe não pôr a elles ruim fôro, me dou por obrigado.
Digo que
recado é nome que entre nós tem a
etymologia.
A significação é muito duvidosa, pelo modo em
que usamos d'elle: porque, se houveramos de derivar
este nome do verbo italiano
recare, que é
trazer; ou do
verbo
recapacitare que é
recapacitar (d'onde elles chamam
recapacitar ao
recado) nunca
disseramos d'elle tanto,
como na nossa lingua portugueza significamos; mas
se lhe buscarmos a origem do latim, virá mais ao nosso
modo pela differença do messageiro ao que leva recado:
que o primeiro
missa gerit, faz as cousas que lhe
mandam; e o segundo
recautus, este é homem
acautelado,
que sabe o que ha de fazer no que está á sua
conta; que assim convém mais com o nosso modo de
falar, quando dizemos
homem de recado, que quer
dizer
de importancia, posto a bom recado, que é seguro, e
com cautella:
tardar e arrecadar, que é levar ao fim o que começou:
porém seja uma cousa ou outra, ou ambas, o principal
recado de todos é o do embaixador; e estes são
de duas maneiras, ou o que o principe manda a outro
por occasião successiva; ou o que de ordinario assiste
em sua côrte, para conservação da benevolencia e amisade
que entre elles ha: estes segundos tinham os romanos
nas provincias junto á pessoa do consul, que as
governava com titulo de legados, e com elles despachava
os negocios de importancia. Mas aos primeiros
chamavam elles oradores, por serem mui semelhantes
no officio de persuadir, mover e obrigar; e ainda em
nossos tempos se aproveitaram muitos d'essa arte,
sendo escolhidos para o cargo de embaixadores.—Eu
(disse Leonardo) tenho um cartapacio não pequeno de
falas e orações de embaixadores portuguezes feitas a
grandes principes, e não pouco doutas e elegantes,
como foi uma que fez o bispo D. Garcia do Menezes ao
papa Xisto, indo por embaixador por mandado de el-rei
D. Affonso V, e por capitão de uma armada que
elle mandava contra os turcos em favor da egreja no
anno de mil e quatrocentos e oitenta e um: e outra,
que fez o doutor Diogo Pacheco ao papa Julio, indo
com o arcebispo de Braga por embaixador a lhe dar
obediencia por el-rei D. Manuel no anno de mil e quinhentos
e cinco: e outra, que fez o mesmo doutor ao
papa Leão, indo com Tristão da Cunha embaixador a
lhe dar obediencia com aquelle famoso ornamento, que
ainda agora é dignamente celebrado na egreja romana
assim pela grande devoção d'aquelle pio e catholico
rei, no anno de mil e quinhentos e quatorze, á qual o
papa respondeu em publico com uma doutissima oração
de louvores do mesmo rei. E não é este costume
só dos nossos embaixadores, mas de todos os extrangeiros,
assim quando eram enviados a este reino, como
a outros. Vindo a este por embaixador de el-rei Francisco
de França a el rei D. Manuel, que estava em Almeirim,
no anno de mil e quinhentos e seis, Monsieur
de Lanjaca, governador de Avinhão, lhe fez uma douta
oração em sua chegada: fóra outras muitas com que
pudera allegar.—D'esses exemplos ha muitos (disse o
doutor), e continuando com o que convém mais ao fim
do nosso intento, devem ser escolhidos para este cargo
de embaixador os homens das familias mais illustres
do reino, dos illustres os mais discretos e cortezãos,
d'estes os mais animosos e liberaes, dos animosos os
mais apessoados, e de todos os mais bem acostumados;
e são todas estas partes tão necessarias ao embaixador,
que com a falta de qualquer d'ellas ou arriscará o
credito do principe, que o manda, ou o negocio de que
vae a tratar por sua parte. Primeiramente ha de ser
illustre por auctoridade de seu rei e de seu reino, e
dos illustres d'elle, e por honra tambem do principe a
que é mandado, pois ha de fazer as partes de um, e
assistir á ilharga do outro. E assim n'este reino, e nos
vizinhos a elle vimos cada dia entrarem embaixadores
muito chegados em sangue ás casas dos reis que
os enviaram, e sahirem outros da mesma qualidade;
o que não só tem exemplo dos reis da Europa, mas da
Persia, Japão e outras remotas partes do oriente. Depois
de illustre ha de ser discreto e cortezão, porque
parece que mais que todas as outras partes, lhe está
requerendo o mesmo cargo aviso, entendimento, discrição
e cortezia para tratar as cousas convenientes
á sua embaixada, encobrindo, desculpando e persuadindo
o que a seu rei convém; que esta é a differença
do recadista ao embaixador: que o primeiro relata o
que lhe mandam que diga: o outro dispõe, ordena e
conclue o que lhe encommendam que faça: um leva o
recado na lingua, outro no peito, como disse um embaixador
dos romanos aos carthaginezes na guerra de
Sagunto, que levava a paz, e a guerra dentro no peito;
e assim não vindo elles no que os romanos pediam, declarou
a guerra. Além d'isto como o embaixador é um
terceiro, e conciliador da amizade de dois principes,
nenhuma cousa lhe é mais importante, que o entendimento,
e tambem o ser cortezão lhe importa muito,
pois a sua principal assistencia é no paço, e junto á
pessoa do principe, com communicação dos principaes
senhores do reino; e ás vezes por esta parte sendo
engraçado, e acceito áquelle a quem é mandado, acaba
mais facilmente os negocios e pretenções de quem o
manda. Ha de ser animoso e liberal; o primeiro, porque
nas materias que tocarem á guerra, tregua e liga,
ou confederação com seu principe, se não mostre por
sua parte acanhado, timido nem pusillanime: antes obrigue
com seu exemplo a que o respeitem e temam; e
tambem porque na occasião em que se offerecer ao
senhor a quem assiste, acredite com o conselho e com
as obras as armas de seus ascendentes e naturaes. E
o segundo, porque com a magnificencia se conquistam
mais vontades e animos extrangeiros, que com qualquer
outra valia, por grande que seja; e posto que
esta parte a todas as pessoas illustres é necessaria, e
em todos os cargos de guerra e officios da paz é tão
estimada, no de embaixador é muito mais proveitosa
para saber o aviso, o secreto, o intento e a cautella
que convém ao de sua embaixada, e para mover os
ministros e validos, em cuja mão ou conselho está seu
negocio. Convém além d'isto que seja o embaixador
homem apessoado, que pela vista obrigue a respeito e
veneração; que em outro modo o corpo pequeno em
pessoas de grande logar lhes tira muita parte do que
se lhes deve. E um doutor nosso de muito grande nome,
e pequena estatura, mandou pôr ao pé de um retrato
seu uma lettra que dizia:
A presença diminue a
fama.
E outro do mesmo grau, e não de maior corpo, indo
d'este reino com uma embaixada a um rei assás poderoso,
vendo-o elle tão pequeno, lhe perguntou motejando
d'elle: "Se el-rei seu irmão tinha em seu reino
outros homens mais apessoados que enviasse com semelhante
cargo?" Ao que elle respondeu valendo-se do
entendimento, e animo que tinha: "Que na corte d'el-rei
seu senhor havia muitos homens do grande pessoa,
e partes, a que encommendar aquelle cargo; mas que
para sua magestade lhe pareceu que elle bastava, e
por isso o mandára." Finalmente é de muita importancia
ser bem acostumado, para com sua temperança,
continencia, e bom termo conservar, e acreditar o bom
nome, e fama de seu rei, a honra de sua patria, e da
propria pessoa. E porque com alguma demazia de seus
costumes não faça com que se diminua, e perca o respeito,
liberdades, e exempções que tem os embaixadores,
como aconteceu aos da Persia, que vieram a el-rei
Amyntas de Macedonia, que foram mortos por traça
de Alexandre, filho do mesmo rei, o qual, não podendo
soffrer sua estranha dissolução, mandou alguns
moços de bellissima figura, que em habito de damas
os servissem á meza, levando escondidos punhaes com
que se vingassem de qualquer deshonesto acometimento
dos embaixadores; que usando de sua demasiada
luxuria foram mortos a punhaladas. O rei da Persia
offendido de se não guardarem com os seus as leis dos
embaixadores, mandou um poderoso exercito contra
el-rei Amyntas; porém o general d'elle sabendo como
o caso passára, se retirou sem querer dar batalha aos
Macedonios. Tambem importa muito que os embaixadores
sejam escolhidos de sujeito acommodado aos negocios,
de que hão de tratar; que tal occasião se offerece,
em que convém serem humildes; e outra, em que
é melhor mostrarem-se arrogantes; tal, em que hajam
de ser animosos, e arriscados; e outras brandos, e dissimulados.
Francisco Dandalo, embaixador dos Venezianos
ao Papa Clemente V para levantar o interdicto
ao Senado, contra quem estava iroso por razão das
coisas de Ferrara, esteve lançado de bruços grande espaço
á meza do Summo Pontifice, com uma cadeia de
ferro ao pescoço; e com tantas lagrimas, e palavras o
obrigou, que alcançou d'elle o que pedia. Este por sua
grande humildade foi chamado
cão, e por seu valor
succedeu
no Ducado de Veneza. Pelo contrario Orfato Justiniano,
homem de letras, e animo generoso, embaixador
do mesmo Senado a el-rei Fernando de Napoles,
que pelo mau animo, que contra os Venezianos tinha,
não fazia d'elle a conta, e estima que seu valor merecia.
Orfato lhe mostrava tão pouca inclinação, e humildade,
que o rei indignado mandou fazer tão baixa a porta,
por onde entrava a lhe falar, que á força lhe fizesse
dobrar o pescoço: porém elle entendendo a tenção de
Fernando, entrou com as costas para diante, e voltando-se
direito na casa fez a mesma cortezia, que costumava.
Outro dia achando-se em um banquete, que o
rei mandou fazer, dando-lhe de proposito os convidados
tão estreito lugar que achava sua auctoridade,
deixando o que tinha se sentou sobre uma rica toga,
que trazia vestida; e acabado o banquete, a deixou ficar
como os outros assentos.—A mim me parece (disse
Leonardo) que os attributos mais importantes ao embaixador,
e que sempre n'elle devem andar annexos, são
esforço, e entendimento, que são como dois eixos, em
que se revolve o maior peso, e substancia, das coisas
do Estado; o que se colhe dos exemplos que dissestes,
e de outros muitos; porque o esforçado e entendido
em nada falece, nem áquillo a que seu rei o manda,
nem ao que a si mesmo deve, nem á occasião de que
se póde aproveitar, como aconteceu a Pompilio, embaixador
a el-rei Seleuco, sobre conservar amisade com os
Romanos, ou romper com elles guerra: que respondendo
o Rei que se aconselharia devagar no que lhe estava
melhor; e entendendo o Romano que aquella dilação
se fundava em fraqueza, e cautela, com o bordão
que trazia fez um circulo na terra, em que Seleuco ficou
mettido, dizendo-lhe que antes que d'elle sahisse
se havia de determinar na resposta de sua embaixada;
e com isto obrigou ao rei a acceitar a paz que lhe requeria.
E em caso differente Lucio Posthumio, embaixador
aos Tarentinos, lançando-lhe por desprezo sobre
as roupas muitas immundicias com grande rizada, e
escarneo, o Romano lhe respondeu animosamente: Vingai-vos
agora do riso á vontade, porque tendes muito
que chorar quando com vosso sangue se lavarem as
nodoas d'este meu vestido.—Esses casos (accudiu D. Julio)
são da mera jurisdicção do esforço, e cavallaria;
ainda que sejam acompanhados do entendimento, porque
o valor do animo a tudo acode, e em nada perde
ponto. E se não, vede a estimação que fizeram os reis
catholicos do nosso prior do Crato D. Diogo Fernandes
de Almeida, quando estando elles sobre Granada, e o
prior sendo embaixador d'el-rei de Portugal, o ajudou
a combater valorosamente tirando com muitos louvores
d'aquella batalha feridas; e querendo-o el-rei desviar
antes, porque não convinha ao cargo que trazia,
lhe respondeu que, se o officio lh'o defendia, o sangue,
e o animo o obrigava. E em que conta teria el-rei Filippe
I a Frederico Badoaro, que os Venezianos lhe mandaram
por embaixador a Genova, sendo elle principe
de Hespanha, que estando com elles aos officios divinos
no segundo logar, succedeu chamar o principe a
si ao duque de Saboia; e acenando ao veneziano que
lhe désse o lugar, o que elle não quiz fazer, o principe
com acenos, e palavras asperas o mandou muitas vezes
tirar; mas respondeu que antes havia de deixar a
vida, que aquelle lugar, porque com a morte de um
particular se não fazia affronta ao Senado; mas que se
lhe faria muito grande, se désse o lugar, que lhe era
devido, a pessoa inferior em merecimentos. E quanto
á dissimulação, e soffrimento só nos esforços costuma
a achar confiança para metterem em cortezania o que
puderam estranhar com arrogancia: como aconteceu a
Giuberto Dandalo, embaixador dos Venezianos ao Papa
Nicolau III, que já mais foi ouvido, nem pôde alcançar
entrada do Summo Pontifice, por o enojo que tinha
contra o Senado, sobre a possessão de Ancona; até
que, vendo elle o pouco que importavam suas muitas
diligencias, fingio um dia, sahindo com alegre semblante,
haver-lhe fallado, e alcançado o fim do negocio a
que vinha: e sem esperar outra coisa se partiu para
Veneza; onde perguntando-lhe o Senado o que passara,
respondeu: "Não achei o Papa em Roma, nem quem
me soubesse dizer onde o acharia."
—Mui principaes (disse o doutor) são as partes de esforço,
e entendimento no embaixador; porém tem igual
necessidade de todas as outras para representar com
a nobreza a pessoa do seu rei: para com a magnificencia
adquirir as vontades dos ministros, e criados: para
com a gravidade, e brandura ser amavel, e auctorisado:
para com o conhecimento das coisas do Estado, e
experiencia d'ellas acertar nas que se lhe offerecessem:
e para com a gravidade, e gentileza da pessoa dar
uma approvação na vista, de tudo o que se conhecer
de suas obras. Mas porque não pareça que vou fora do
em que comecei: A que os embaixadores não levam
recados, é certo, (que ainda que os seus sejam de maior
confiança) que levam por escripto muito do que hão
de dizer, e do que hão de pedir, ou conceder; porém a
eleição do tempo, occasiões, e palavras fica subordinada
ao seu entendimento; e para isso dão os reis, e seus
conselhos supremos largas instrucções, regimentos, e
ordens de como se hão de haver nas coisas os embaixadores;
que são mais largas, quanto são mais remotas
as provincias, a que são enviados.—O officio (disse
Leonardo) é de tanta importancia, que nenhum outro
demanda maior cabedal de partes da natureza, e das
adquiridas por experiencia: e sei-vos eu dizer que
houve n'este reino famosos homens d'esta profissão,
e taes, que, querendo nomear alguns, faria manifesto
aggravo a outros muitos. Mas se o gran-duque de Florença,
vencido da eloquencia, e partes de Hermolau
Barbaro (que estava em sua corte por embaixador dos
Venezianos) com tantas mercês, e favores o persuadia
a que ficasse em seu serviço; não faltaram outros, que
sahidos d'este reino com o mesmo cargo, fizeram maior
inveja a principes, a monarcas mais poderosos. E algum
teve lugar nos tribunaes supremos da corte de
Hespanha, que para negocios particulares de um principe
d'este reino foi mandado a ella, que pela grande
satisfação, que n'elles deu de sua pessoa, foi escolhido
para os de uma monarquia tão dilatada. Mas não é de
espantar que de um embaixador e messageiro particular
se fizesse um conselheiro de estado, sendo criado
da casa de um senhor, do serviço do qual, como de outro
cavallo Troiano, sahiram heroes famosos, e varões
insignes em todas as profissões: d'onde sahiram vice-reis,
e capitães maiores para o Oriente, e soldados para
capitães, e mestres de campo, que defenderam, e
honraram o Norte; cavalleiros, e bailios, que sustentaram
Malta; fronteiros valorosos, que se assignalaram
em Africa, todos criados da mesma casa, onde se
acharam sempre em grande copia espiritos, que honrem
a Marte, e engrandeçam a Minerva, fazendo inveja
aos mais avantajados nos exercitos, e presidios
hespanhoes, e aos mais insignes nas escolas, e academias
mais nomeadas da Europa.
—Tendes levantado este discurso de maneira (disse
Solino) e está a materia d'elle tão altiva, que me parece
que eu e Pindaro ficamos esta noite camarço, sem
nenhum de nós fazer postoleta: ainda este mau jogo
me fez o meu moço, que não cuidei que d'elle saltasseis
a coisas tão differentes: folgara de saber se haveis
de ficar n'esse tom, porque vos deixarei em termo
com o dono da casa, e o senhor D. Julio; e irei buscar
minha vida.—Ainda não tendes razão de vos queixar
(respondeu elle) que antes por me chegar pouco, e
pouco aos criados, deixei muito dos embaixadores,
após os quaes se seguem logo os agentes, e procuradores,
que as cidades, villas, e lugares mandam a cortes,
e outras vezes a visitas, e occasiões dos principes,
que não menos devem ser escolhidos para estes cargos,
buscando n'elles as partes mais necessarias que
são discrição, experiencia, e pessoa, quando não possam
concorrer todas as mais; porque a cidade, ou villa,
que manda ao principe seu procurador, ou agente,
n'esse mesmo faz representação de sua sufficiencia.—De
um cidadão se conta (disse D. Julio) que, sendo enviado
por procurador a cortes, lhe esqueceu no caminho
o que a cidade lhe encommendára, e tornou a dormir
a casa a perguntar a sua mulher o negocio a que
ía: e fôra melhor eleição, se a mandaram a ella, pois
lhe não esqueceu.—De outro ouvi eu (respondeu Solino)
que jurou por vida da sua a el-rei Filippe I que se havia
de cobrir sua magestade para lhe fallar em nome
de uma cidade d'este reino: fóra outras impertinencias
que na pratica disse, mais dignas de riso, que de credito.
E um conheci eu, a que cahiram as luvas, e o
chapéo da mão, começando a dar o recado de uma cidade
a um principe; e levantando-as, perdeu o que
queria dizer, de maneira que nunca atinou palavra.—Estes
maus successos (proseguiu o doutor) testemunham
o muito cuidado, com que se hão de eleger os
homens para taes cargos; o que não importa menos
aos titulares e fidalgos, que mandam vizitar a outros
em occasiões de pazes, ou parabens, por pessoas, que
saibam accommodar-se á tristeza, ou alegria que o caso
requer, para credito, e boa opinão de quem os
manda.—Certo (accudiu Leonardo) que não julgará bem
quanto isso releva, senão o que já se envergonhou de
ouvir visitas desencaminhadas, como se fez uma a um
fidalgo que eu tratei particularmente, ao qual, estando
enojado por morte de um seu filho, visitou da parte
de um personagem um capellão bem apessoado, e disse
que o senhor N. estimára muito aquella occasião
para mandar visitar a sua M. e se offerecer a seu serviço.
A este conto fizeram todos muita festa. E Solino,
que vio lugar aos seus, accudio logo: "Não sei se virá
muito a proposito; porém tambem eu hei de dizer a
minha historia, em rasão da advertencia, e cuidado
que deve ter quem visita em nome alheio; pois se vê
que mais desattentos, que ignorancias, os erros d'estas
materias. Uma senhora enojada por a morte de um
seu irmão tomava as visitas em uma camilha, como
as mais costumam. A esta mandou visitar outra parenta
sua por uma pessoa de auctoridade; que entrando
na primeira casa achou tão escura que, pegando-se
ás paredes, esperou uma dona que lhe servisse de moço
de cego; a qual o levou por a mão até uma porta
estreita, onde havia um degrau alto; e alli o soltou
para passar deante; a qual não alcançou tão bem o
degrau, que não désse primeiro com as queixadas na
humbreira do portal; e sahido do perigo o tornou a
guiar a dona da mesma maneira até junto da camilha,
onde o tornou a soltar: esta pessoa, cuidando que tinha
alli outra porta, por não errar o degrau por baixo,
levantou o pé de maneira, que o poz nos peitos á enojada,
que dando um grande grito a fez cahir de focinhos.
Muitos, que estavam na casa, e tinham furtada
a luz aos que de novo vinham a ella, levantaram tão
grande riso, e borburinha, que desauctorisaram de todo
o sentimento do nojo, e cahia cada um para sua
parte sem se poder valer." Como Solino tinha graça natural
no que dizia, deu muita a este conto, que foi celebrado
com riso de todos.—Se assim é (disse Solino)
que nesses ha tantos desatinos, e inadvertencias, não
ha que espantar de criados menores, que uns são por
natureza tão rusticos, que em nada acertam; outros
por malicia tão depravados, que não querem saber senão
o que é em favor de sua maldade.—Uma questão
se offerecia agora (acudiu Pindaro) que, ainda que rasteira,
é em materia proveitosa. Convem a saber se é
melhor servir-se um homem de um moço simples, e
nescio; ou de um malicioso ainda que seja esperto.—Eu
estou melhor (tornou D. Julio) com o que me engana,
que com o que me enfada; porque a confiança, que fizer
do meu moço, será segundo a opinião que d'elle tenho
para me poder enganar em pouco: e do nescio
nem posso confiar em um recado as minhas razões,
nem as minhas obras dentro em casa; que o que ignora
o que ha de dizer, menos sabe o que lhe convém
calar: além de que é grande desgosto andar um homem
de continuo ensinando um rustico, sem proveito,
que não tomará em sua vida tinta de discrição, por
mais que o cozam n'ella.—A mim me parece outra coisa
(disse Solino) em razão d'aquelle proverbio:
Antes asno
que me leve, que cavallo que me derrube.—Pelo rifão
(respondeu
Leonardo) entendo que quereis defender o vosso
moço.—Se o não fizer bem, ficarei no seu lugar (replicou
elle). Porém o moço nescio não pode desacreditar
com sua parvoice o entendimento de seu amo, que não
está obrigado ao tirar das escolas de Athenas. E o malicioso,
e esperto, nem por o ser deixa de errar peior
que os outros; porque não aprende o que convém a seu
amo, senão ao intento de sua maldade; e dá ás vezes
por recado o que lhe parece, em lugar do que lhe mandam;
e quando não, troca as palavras ou o sentido
d'ellas; muda o tempo, e a acezão do recado; vai quando
quer, e não ao tempo que vos releva; tira-vos o
credito nas obras, se o conserva nas palavras, porque
dizem que
qual o amo tal o moço; mais vos
desacredita
com a murmuração, do que vos acredita com o recado;
e quando vos lisonjeia, é quando vos rouba. O simples,
se não diz o que lhe dizeis, faz o que quereis, contenta-se
com o que d'elle fiais, e não trata de penetrar o
que pretendeis; e muitas vezes seus erros cahem em
graça como as subtilezas dos outros em damno.—Boas
são essas razões (disse Feliciano) porém é dura coisa
que pelo moço nescio julguem por tal a seu amo; pois
é regra de direito que
faz por si o que manda fazer por
outrem: e se a victoria dos soldados se attribue ao capitão,
os ensinos, e palavras dos moços porque se não
hão de julgar por de quem os governa, e manda? e
menor damno é qualquer dos outros, que o de um homem
parecer nescio á conta do seu moço. E sobre tudo
não se ha de pintar tão perverso o malicioso, que
faça mal, diga mal, e presuma mal, e seja intelligente;
que os mais d'elles cantam de quem roubam; que d'esse
outro modo não é pintar criado, mas inimigo.—E não sabeis
vós (accudiu o doutor) que todos os criados, ou a
maior partes d'elles o são de quem os sustenta? e assim
diz a sentença de Euripides, que não ha maior,
nem peior inimigo que o criado: e Democrito diz que
o criado é coisa tão necessaria, como amargosa: Luciano
diz que os criados sempre tem malicia, e traições
armadas contra seus amos.—A muitos tenho eu
por inimigos (disse Feliciano) porém peior o será o nescio,
que o que o não for; e não sómente sustentará inimigo
em casa, mas senhor, que, como diz S. Jeronymo,
não ha maior servidão que mandar a um nescio.—Eu
tenho procuração em causa propria (disse Solino)
para acudir pelos criados, como testemunha de muitos
fieis, e verdadeiros a seus senhores: e Euripides,
e os mais devem de entender, o que disseram, dos escravos,
que, como lhe temos tomada a coisa mais principal,
e mais sua, que é a liberdade, sempre nos tem
odio, e nos desejam, e procuram mal; porque a vilesa
do seu animo não soffre mostrarem valor na sujeição.—Não
me parece a mim essa boa razão (accudiu o doutor)
porque por dito de Seneca
nenhum escravo ha mais vil,
que o livre, que serve por sua vontade. (Não entendo n'este
conto os nobres, e honrados, que servem aos grandes
por respeitos razoaveis). E dos escravos, a que fez
taes ou a ventura de guerra, ou outra desgraça, temos
os livros cheios de exemplos de valor, e fidelidade, em
que deixaram muito atraz
os proprios filhos. E se não,
vêde se fez algum o que o escravo de Publio Catieno.
que, deixando-o o senhor por universal herdeiro de
seus bens, pela fidelidade com que o servira; elle, por
se mostrar agradecido na morte, se deitou vivo na fogueira
em que queimavam o corpo de seu senhor,
e morreu com elle, mostrando que estimava mais tal
servidão, que a vida, e as riquezas que lhe deixava.
Erotes, escravo de Marco Antonio, se matou de pesar de
ver a seu senhor vencido de Augusto. Euporo, escravo
de Lucio Graco, que se matou sobre o seu corpo. E um
escravo de Papinião, que, vendo que os inimigos entravam
uma quinta, em que o senhor estava, para o
matarem, trocou com elle o vestido, e metteu no dedo
um seu annel de preço: e deitando-o fóra por uma porta,
sahiu pela outra a receber a morte, que haviam
de dar a seu senhor. E Frederico de Eveshim, escravo
de Conrado Imperador, que, sabendo que vinham
para o matar, o fez sahir do paço, e se deitou na
sua cama, onde, cuidando os inimos que era Conrado,
o mataram: o outros muitos escravos sem nome,
que mereciam que o seu ficasse eterno por memoria
de sua fidelidade. Nem se póde esquecer aquelle grande
animo de Lazaro Cherdo, escravo, de nação Serviano,
que vendo seu senhor cativo de turcos, e depois morto,
desejando vingar-lhe a morte por preço de sua vida,
fingindo que vinha fugido dos hungaros, entrou no
campo Turquesco, e dizendo que queria fallar a Amurates,
primeiro imperador d'aquelle imperio, o matou
a punhaladas; d'onde não pôde fugir, mas perdeu a
vida valorosamente.—D'esses escravos (replicou Solino)
não trato eu, que mereciam ser senhores de seus senhores;
como tambem houve criados que mereciam ser
servidos de a quem serviram: que tambem Diogenes
foi escravo; e perguntando-lhe Xeniades, que o comprava,
em que sabia servir, respondeu: que
em mandar
homens livres; por o que Xeniades o libertou dizendo:
aqui te entrego meus filhos para que os mandes. E
Epicteto,
que se chamava escravo de si mesmo: e a Phedão, escravo
de Cebes, ouvi dizer, que Platão dedicara um livro
da immortalidade. Porém a nós não nos cahiram
em sorte estes escravos, senão a gente mais barbara
do mundo como é a de toda a Ethiopia: e alguma escravaria
da Asia, que é da gente mais vil das provincias
d'ella; que uns, e outros tratam os portuguezes
com rigoroso cativeiro n'aquellas partes, vendendo-os
para serviço das minas das Indias de Hespanha como
condemnados á morte: e assim se podem estes chamar
com razão inimigos mortaes de seus senhores.—Tambem
(disse o doutor) houve já n'este reino escravos
illustres de muito valor, entendimento, e sangue,
conhecidos por taes, e tratados como se estiveram em
liberdade, que cativaram nas nossas fronteiras de Africa,
em cujas historias me eu não quero deter por me
não alongar mais do intento do nosso discurso dos recadistas,
que uns e outros representam a pessoa de
quem os manda, no que toca ao recado que dão: o que
a mim me parece que está bem provado com o costume,
que os antigos tinham em mandar os seus, que
não fallavam por terceira pessoa, como é o nosso uso,
que dizemos
diz fuão que vos beija as mãos;
que vos pede
isto;
vos encommenda este outro;
vos lembra tal coisa: antes
costumavam:
N. vos diz,
beijo-vos as
mãos,
rogo-vos isto,
encommendo-vos este outro,
lembro-vos tal
coisa, representando
nas palavras a mesma pessoa que as mandava
dizer; e d'esta maneira ficava arriscado nosso amigo
Solino, representando pelo seu moço: pelo que a mim
me parece que o melhor do recado é ser tão breve,
que o possa dar sem erro quem o leva; e tão claro,
que o entenda sem trabalho a quem se manda. E com
isto, e com vossa licença me hei por desobrigado do
que n'esta materia podia dizer.—Não pela minha parte
(disse D. Julio) porque deixais de fóra um officio de
mais habilidade que todos os de que falastes, em cuja
profissão entra a de embaixador, agente, procurador e
recadista; e ainda outros muitos, que é o do terceiro,
ou alcoviteiro. A isto deram todos grande risada, e disse
Leonardo: O doutor calava esse officio, por ser mais
vil, e reprovado, que os de mais, e se empregar em materia
tão odiosa á Republica: porém sem entrar no fundo
d'elle, nos poderá dizer alguma coisa da superficie.—Bem
sei (respondeu o doutor) que para me metter
em desconfiança levantais essa lebre; e não vos
enganeis, que tanto se deve tratar de officios viciosos
para fugirem d'elles, como dos de virtude para os seguirem,
e desejarem; e posto que esse é tão vil, já os
romanos deram leis á sua profissão, segundo escreve
Pedro Crinito; as quaes estavam escriptas no templo
de Venus; e Licurgo, aquelle grande legislador dos Lacedemonios,
tambem lhes deu regras, e liberdades, posto
que lhe está melhor o castigo com que os nossos direitos
os agasalham; mas se ha officio de muito cabedal,
e pouca honra, é o do alcoviteiro, porque ha alguns
que os não vence Tullio no fallar, Catão no dissimular,
Sallustio no persuadir, Terencio no representar,
Ovidio no fingir, Lucano no encarecer, Diogenes no desprezar,
Ulysses no tecer, Momo no desdenhar; e todas
as artes, e sciencias do mundo tem e empregam em
afeiçoarem com engano vontades innocentes. E para
lhe assignarmos as partes necessarias, fôra acertado
pintar o avesso do embaixador, com que só convém
em ser discreto, e experimentado; porém ha de ser
baixo, vil, desprezivel, avarento, chucarreiro, mentiroso,
ingrato e soffredor de todos os escarneos e zombarias,
porque não só é de sua profissão enganar, mas
tambem obedecer a toda a ignominia, e infamia que
seu exercicio merece.—Muito cruel estais contra elles
(tornou D. Julio) e não tendes razão; quando vitupereis
o seu officio, não vos esqueçais da grandeza das
partes d'elle, pois o alcoviteiro descreve, enfeita, e
encarece melhor que um escriptor: persuade, aconselha,
e convence como um rhetorico: finge, disfarça, e
representa com figuras, espantos, meneios, e hypocrisias
nos gestos, e palavras como um commediante:
pinta, veste, touca, accommoda, guarnece, doura, argenteia
toucados, e vestidos, e trata os rostos, e feições
melhor que um pintor; sabe mais da natureza
das pessoas com que trata, que um philosopho; vende o
falso por verdadeiro, como logico; conhece as enfermidades,
e achaques dos que lisongeia, como medico;
obriga, e engana no interesse, como legista; adivinha
os tempos, occasiões, e vontades melhor que um astrologo.
Não ha finalmente arte liberal, nem mecanica,
de que se não valha, e em que não vença a seus professores.—Ainda
me parece (disse Solino) que haveis de
chegar á Celestina; que posto que o officio é do genero
commum de dois, accommoda-se melhor ao feminino.
E pois de embaixadores descemos a criados, não é
de espantar que tropecemos em tão ruim gente.—Parece-me
(disse o doutor) que de aposta quereis profanar
a minha auctoridade; não vos quero dar esse gosto á
minha custa: e não passemos d'aqui n'esta materia:
e tambem porque é mais tarde do que parece, demos
lugar a que o senhor Leonardo se recolha.
Com isto se levantaram todos, e se despediram, festejando
e agradecendo cada um ao outro o que dissera;
que tanto se contenta o discreto da boa razão
alheia, como o nescio da sua ignorancia propria.
DIALOGO V
DOS ENCARECIMENTOS
Não perdiam tempo os da conversação em se chegarem
aos interesses d'ella: e era em todos tão egual
o desejo, que nem a occupação de cada um os desencontrava;
porque o gosto, em que se enleva o entendimento,
faz menores todos os respeitos ordinarios da
fazenda, e familia. Entraram á noite juntos em casa
do hospede com grande alvoroço, dando cada um no
caminho seu voto sobre a materia, em que se haviam
de gastar aquellas horas. Porém assentados, sem o estarem
ainda no que seria, disse D. Julio: Por certo,
senhores, que estou tão enleado com uma coisa que
vos quero dizer, que temo das razões e da edade faltar
ao decoro que convém ao sujeito d'ellas; porque
nos mancebos as palavras de mero louvor de uma mulher,
ainda sendo mui compostas, parecem lascivas; e
mais facil é de presumir um engano de affeição nos
meus olhos, que de persuadir um espanto a entendimentos
tão levantados como os vossos. Porém seja o
que fôr, e corra o meu credito o risco que ordenardes;
que com todos, os que houver, me aventuro.—Que novidade
é esta, senhor D. Julio (disse Solino), que sermão
quereis fazer, que tomaes a graça, e nos tendes pendurados
a todos no desejo de vos ouvir?—Esta manhã,
(proseguiu elle) porque me pareceu de caça, e por gastar
n'ella o dia, com menos cuidado do desejo da noite,
me fui pôr detraz da nossa serra alongando-me para a
parte do mar um grande espaço de caminho; e voltando
sobre uma fonte, que nasce ao pé de uma corôa de
penedos, coberta da sombra de uns altos hervados, e
atoeiras, cheios de verde rama como no melhor tempo
da primavera, embaraçados com umas vides silvestres
que os atavam, e que ainda de todo não estavam despidas
de sua folha, vi junto a ella, e coberto com elles
o mais formoso rosto, que eu imagino que pode haver
no mundo para satisfação de uns olhos afeiçoados: era
de uma mulher em habito de peregrina, que fiada na
solidão d'aquelle deserto, e por gosar dos raios do sol,
que n'aquelle logar se espalhavam, com os toucados
lançados sobre os ramos á vista da fonte concertava
os cabellos; e eram elles taes, que não sómente faziam
perder ao sol a formosura, mas cobrindo outro mais
formoso, que era o seu rosto, contentavam de maneira
o desejo, que não fazia muito por passar d'elles adiante.
Eu sem atinar no silencio, com que era razão que
me escondesse por lhe não ser pesado, fiquei tão esquecido,
que, afrouxando as redeas ao cavallo, o deixei
tropeçar entre os ramos, e fui sentido da formosa
peregrina; que levantando os olhos, a cuja obediencia
os cabellos se apartaram, qual sôa ferir o relampago
d'entre as nuvens, me saltearam a vista com uma luz
estranha, descobrindo juntamente aquelle thesouro de
ricas pedras, que o ouro dos cabellos escondia. Os olhos
eram duas estrellas de diamantes, em cujo fundo um
verde escuro de esmeraldas apparecia, que communicando
áquella formosa côr a claridade dos raios, que
despediam, roubariam as almas de quem os olhasse;
e descendo d'elles abaixo, era tudo tão cheio de perfeições,
que o menor logar, em que se empregava a
vista, tinha desusados extremos de formosura. A bocca
era um laço de todos os pensamentos amorosos; e
nunca vi coisa tão pequena, em que coubessem tantas
grandezas; pareceu-me um rubi partido pelo meio, que
com um perfilo aleonado se dividia, e por detraz luziam
como por vidraça as perolas, que até então me
não descobrira o pejo, com que ficou de haver visto.
A columna, que sustentava este edificio, era um pescoço
de crystal jaspeado de umas veias roxas, e azues
muito delgadas, que me representaram n'aquella hora
a côr do céo sereno, que pela rotura de duas nuvens
brancas apparece, a que fazia parecer mais formoso o
circulo da sombra, com que se engastava no aspero
burel da esclavina que a romeira vestia: apeei-me eu;
e n'este mesmo tempo lançou ella o toucado sobre os
cabellos, pondo os olhos na fonte como em espelho;
mas como as suas madeixas eram mais compridas,
que a toalha branca, com que as quiz encobrir, se mexericavam
pelos extremos das pontas, que vinham a
guarnecer de fino ouro aquelle grosseiro trajo: falei-lhe
com a cortezia, a que a modestia, e gravidade do
seu rosto me obrigava; e ella sem mostrar outro alvoroço
de minha presença mais, que vestir de escarlata
a branca neve de que parecia formado, me respondeu,
perguntando se estava perto o lugar, e se era aquelle
o caminho. Eu, que não perdia com os olhos um só
movimento dos que os seus faziam, me pareceu tudo
o que tinha visto, sombra da graça e brandura com
que falou com uma voz tão fina, que penetrava o interior
do coração, e tão suave, que o desfazia, e com
uma modestia tão grave, que não dava logar a se pôrem
n'ella os olhos direitamente, senão com um respeito
armado de receios. Perguntei-lhe d'onde era, para
onde ía, encarecendo-lhe o perigo em que punha sua
belleza de ser offendida, fiando-a de desvios tão solitarios.
Mas ella despresando todos os temores, e fazendo
mais difficultosa sua jornada, pelo que d'ella lhe
pendia, que pelos trances que á sua conta se me representavam,
deu a entender muitas cousas, com que
eu perdi o accôrdo, e ousadia de lhe perguntar outras,
e lhe offerecer algumas das que costumam haver mistér
os que fóra da sua patria vem experimentar os
males das alheias. E além de eu estar atalhado com
sua vista, o estava ella tanto com minha presença,
que perdi o interesse de a vêr, por o respeito de a não
molestar: despedi-me magoado: estou arrependido; e
cubiçoso de a tornar a vêr, de maneira que não aparto
o pensamento do logar onde os meus olhos a deixaram.
E porque ainda me parece que deve ser mais estranho
o successo, que a traz n'aquelles vestidos, que
a novidade de sua gentileza, a que se deve todo o cortezão
tributo de vontades bem nascidas; peço ao senhor
Leonardo que por a melhor via, que lhe parecer,
saiba d'esta estrangeira, que por esta noite deve de
estar na aldeia; ouvirá d'ella mesma a sua historia, e
eu acreditarei com a vista o que tenho dito de sua formosura.—Bem
andastes, senhor D. Julio (disse o doutor)
em tomar primeiro carta de seguro para o que havieis
de dizer; porque os encarecimentos d'essa peregrina
são mais pinturas vossas, que gentilesas suas;
porque não ha mulher nas obras da natureza tão perfeita
cá na terra como a soube fingir o vosso entendimento,
ou affeição: e á conta d'ella me parecia bem
que assentassemos o retrato de belleza tão sobrenatural,
que em materias de amor tudo o que reluz é ouro,
e tudo o que assombra é sol; e só com esta desculpa
salvareis louvores tão desacostumados.—A affeição do
que vi não posso eu negar (tornou elle) mas á vista da
peregrina dizei o que quizerdes contra minhas razões,
que nas suas partes hei de achar armas com que defenda
o que disse. Leonardo se offereceu então a mandar
fazer a diligencia com muito cuidado: e voltando
para Solino, que tinha os olhos no chão, lhe disse: Vós,
callaes, quereis allegar serviços ao senhor D. Julio,
porque a vossa natureza não é deixar passar esta mercadoria
sem registo.—Estava agora (respondeu elle)
cuidando nos livros de cavallarias, que ha poucas noites
que defendi; e desejava dar um cavalleiro andante
áquella peregrina; que se uma cousa d'estas apparecêra
a meu amigo Pindaro, que encantamentos não
rompera, e que poesias, e obras heroicas appareceram
de novo no mundo, que alabastros, marfins, marmores,
crystaes, topazios, jacintos, esmeraldas rodaram por
esses ares! Que posto que o senhor D. Julio sahiu d'este
encontro mais elegante do que se esperava; Pindaro,
com sua licença, tem n'esta materia mais direito adquirido;
e não se houvera de contentar de descer do
céo as estrellas, e o sol em similhantes louvores: mas
os archanjos, cherubins, dominações e potestades haviam
de ter logar n'elles.
—Não será fora de proposito (disse o doutor) divertirmo-nos
agora com esta materia em desconto, e recompensa
das passadas; e gastar esta noite em saber a
causa, e o estilo dos encarecimentos namorados, que é
pensamento que já me desvelou em outra edade.—Obrigo-me
eu (disse Leonardo) que a nenhum dos presentes
descontente a vossa escolha; e eu particularmente
estimarei seguil-a, tomando o primeiro voto do Licenciado,
que por hospede, estudioso e cortezão se lhe
deve o logar.—O meu voto (tornou Feliciano) é de pouca
importancia, e o logar devido a outrem; mas com toda
a humildade acceitarei o que me derem: e se com a minha
razão ficar corrido, barato é o saber que se compra
com primeiro errar: e assim digo que os encarecimentos
nascidos de amor não devem parecer estranhos
(por deseguaes que sejam) a nenhum juizo affeiçoado;
porque o amante para pintar a formosura de uma dama,
que satisfaz a seus olhos e pensamentos, difficultosamente
achará nas cousas creadas a que a compare,
que lhe fique parecendo que a encarece; porque, ainda
que sejam formosas as estrellas, lhe não agradam tanto
como os seus olhos; e sendo o Sol tão bello, se alegra
menos com a claridade de sua luz, que com vêr o rosto
de quem ama; e são de menos valia para seu gosto e
desejo o ouro, as perolas, rubins, esmeraldas, e saphiras,
que o riso da sua bôcca e a graça da sua vista; e
de não imaginar na terra um amante cousa que se
eguale ao objecto da sua affeição, dá em o desvario de
a comparar aos espiritos que não alcança com o entendimento,
subindo com elle pelas gerarchias mais levantadas:
a causa é, porque o amor faz as cousas tão formosas
a seus olhos, que leva muita vantagem á natureza
que creou umas, e outras; e a cubiça e opinião, que
engrandeceu a muitas d'ellas: que até do gosto, como
diz Plauto, nem o que tem sabor sem amor é saboroso;
nem ha fel tão amargoso, que com elle não pareça suave:
que não sómente com seus poderes dá perfeição ás
cousas, mas tambem as converte em outra substancia.—Não
estou contra a vossa razão (acudiu Leonardo) mas
parecem-me de forma os encarecimentos de que falaes,
que todos, pouco mais ou menos, não sahem de certos
limites; porque, em descendo da pedraria, os que são
menos lapidarios empeçam em coral, marfim, porfido,
alabastro, rosas, neve, ouro: e, quanto por meu voto,
a paixão de amor não havia de guardar regra certa nas
palavras, e louvores, antes encarecer sua dama com as
cousas que a seu gosto e opinião sejam mais formosas;
e como as affeições são tão differentes, assim o seriam
os gabos, e encarecimentos.—Para louvar (replicou
Feliciano) não ha tantos caminhos como para ter
affeição; porque logo daes com uma estrada Coimbrã,
que é
tão bella como o Sol,
tão clara como
a Lua,
tão alva
como a neve,
tão loura como o ouro; e
d'aqui adeante.—A
mim me parece bem (disse Solmo) a razão do Licenciado,
que o doutor tinha geito de metter os louvores
de uma dama em exemplos caseiros, chamando-lhe
fresca como o seu pomar, linda como o seu jardim,
clara como a sua fonte, e alta como as suas faias: e
como os amantes para encarecer se não contentam com
pouco, todos chegam ao que pode ser: todo o branco é
crystal e diamantes; o corado rosas e rubins; o verde
esmeraldas; o azul saphiras; e o amarello ouro e jacintos;
e até as mães dos meninos, a que naturalmente
tem excessivo amor, não lhes sabem chamar pouco:
quando os tomam nos braços, logo os intitulam de
meu
duque,
meu marquez,
meu
conde; nas pedras
meu diamante,
e nas flôres
meu cravo, e
minha
rosa: quanto mais louvando
mulheres, a quem todo o encarecimento fica
curto, e envergonhado pela fôrça, com que tem captivos
os sentidos, e as potencias dos que hão de falar n'ellas.
E para conclusão de tudo, diga Pindaro o que sente
n'este particular.—Os encarecimentos, de que usam
os amantes (disse Pindaro) menos são seus, que adquiridos
dos famosos poetas, que lh'os ensinaram deixando-os
escriptos em suas obras: porque, como retratadores
das obras excellentes da natureza, buscaram tão
altivos materiaes para darem vivas côres á formosura.
E não é muito que, pintando um rosto formoso da terra,
lhe accommodassem côres, e attributos celestes, quando
para pintarem cousas do mesmo céo usam tantas
vezes de semelhanças, e encarecimentos da riqueza da
terra, como o fez Ovidio na casa de Febo, com tectos
de lavrado marfim, e ladrilhos de ouro, com paredes de
topazios, jacintos, e esmeraldas; e o mesmo fez pintando
os pavões, que no céo levavam o carro da Deusa
Juno, que depois accrescentou em obra e feitio Martiano
Capella. E como a phrase poetica é a mais excellente,
e levantada, e por tal escolhida das Sibyllas, e
Oraculos para usarem d'ella, tambem fizeram os amantes
a mesma eleição; entre os quaes qualquer miuda
consideração de um voltar de olhos é arco, aljava, e
settas de Cupido, com todas as mais allegorias, e transformações
que os poetas usaram.—A verdade é (disse o
doutor) que a perfeição da formosura animada se não
pode devidamente encarecer com alguma semelhança,
que o não seja, porque todas lhe ficam muito inferiores:
o que declarou bem uma dama Florentina, que
perguntando-se-lhe o que lhe parecia de uma figura de
mulher de alabastro, feita por um famoso esculptor
d'aquelle tempo; ella, sem responder com palavras, fez
que uma creada sua formosa e bem proporcionada, despisse
em si as partes, que a figura mostrava núas; e
logo á vista da natural belleza perdeu a pintura, a fama,
e valor que d'antes tinha. E eu vi tambem um jeroglifico
da formosura, que declara engenhosamente este
pensamento: a figura do qual era uma mulher com a
cabeça mettida entre as nuvens, o corpo despido, mas
rodeado de um resplendor, que o não deixava vêr distinctamente;
na mão direita um lirio, e na outra um
compasso; significando com a cabeça mettida no céo,
e no resplendor, que só com as cousas d'elle se podia
encarecer, fazendo impedimento á vista humana como
raios derivados da belleza Divina; o lirio denotando a
graça das partes naturaes, porque em côr, e pureza
foi sempre symbolo da formosura; o compasso a medida,
proporção, e correspondencia dos membros, em
que consiste toda a perfeição d'ella. Mas Pindaro tudo
quer attribuir á sua profissão: e n'esta parte não tem
pouca justiça: porque sómente na licença poetica podem
entrar os desvarios dos namorados, por serem
muito eguaes o furor poetico, e o amoroso. Porém, já
que os encarecimentos estão approvados com tão boas
razões, estimara eu ouvir alguma em desculpa dos que
vivem, morrem, e ressuscitam a cada passo, e que andam
sem almas como cantaros, e sem coração como
furões, que, a meu vêr, é gente que por privilegio de
amor vive exceptuada das leis da natureza.—A razão
(respondeu Feliciano) é a mesma; porque quem encarece
a causa egualmente exagera os effeitos: a pena
de um desfavor, o termo de uma crueldade, ou esquivança
é o maior tormento da morte ao que ama; e um
favor e brandura, que recebe em sua affeição, é na sua
estima o maior bem da vida; e quanto ao estilo de viver
sem alma, e sem coração, o declarou maravilhosamente
um poeta moderno, dizendo em um soneto á sua
dama, da qual estava ausente, que uma parte da alma,
com que vivia, lhe ficara; mas a com que imaginava,
entendia, e amava, tinha sempre com ella. Nem é outra
cousa os desvarios, e desattentos dos que amam,
senão viver em certo modo fora de si, como pareceu a
Propercio, dizendo que o que se entrega ao amor perde
o juizo; e o que eu vejo que poucos em presença da
cousa amada ficam com elle.—Tambem S. Jeronymo (accrescentou
o doutor) escreve que o amor da formosura
é um esquecimento da razão; e assim chamam os poetas
ao amor, inimigo d'ella. E que maior exemplo se
pode imaginar d'esta verdade e mudança dos que
amam, que o de Hercules, a quem os embaixadores de
Lidia acharam lançado no regaço de sua amada, mudando-lhe
os anneis dos dedos, ella com a corôa real
na cabeça, e o famoso Thebano com um sapato seu
d'ella em logar de corôa? que menos esperado que o
de Dionisio Syracuzano, que por mão, e parecer de
Mirta sua amiga despachava os negocios importantes
do seu reino? que mais extranho, que o de Themistocles
Atheniense, famoso capitão de Grecia, que namorado
de uma dama, que captivou na guerra de Epyro,
usava em uma doença, que sua amada teve, dos mesmos
remedios que lhe a ella faziam, tomando as purgas,
e sangrias como a mesma dama, e lavando o rosto
por regalo, e gentileza com o seu sangue d'ella? que
menos crivel, que o de Lucio Vitelio Imperador, que
namorado de uma filha de um escravo seu, a quem libertara,
de tal maneira perdia o juizo, que, tendo uma
esquinencia, não usava outro remedio mais que um
unguento que fazia de mel com o cuspo de sua dama,
imaginando que a virtude do ser seu lhe podia dar
saúde untando com elle a garganta?—De maneira (disse
Leonardo) que amor tira os sentidos, e o juizo a quem
se emprega todo em seus cuidados: e eu tinha para
mim, e ouvi sempre dizer que não podia o nescio ser
bom namorado; o que agora vejo que contradiz a vossa
opinião, pois os que amam não tem entendimento.—Só
o discreto (respondeu Feliciano) sabe ser amante, e por
isso perde o juizo nas mãos de amor; que o nescio mal
poderá perder n'ellas o que não tem. E falando mais
ao ponto da vossa duvida, o amante pelo ser não fica
nescio, mas parece-o em muitas acções dos sentidos,
e entendimento; porque, transportado na imaginação
do que ama, se descuida de tudo o que não é sua paixão.—Extranhamente
(accudiu Solino) me contenta ouvir
esta razão para desculpar commigo os maus successos
de namorados, a que não sabia tão boa desculpa;
que assás grande é para esquecer cousas menores
quem está fora de si: porque, deixados esses exemplos
de amantes, cuja grandeza de estado faz maior, e mais
notavel o desatino, com que nas mãos do amor renunciaram
o entendimento; de outros de menos estofa, e
mais modernos sei eu descuidos, que podiam entrar em
historia n'esta occasião, e por me aproveitar d'ella: Eu
conheci um cortezão mui empenhado em finezas de
amor, que passeava em um terreiro, onde tinha a dama
em um quartão, que já aturava aquelle fadario todos
os dias como em atafona; acertou n'aquelle a ser mais
favorecido da senhora, que de quando em quando lhe
apparecia, cevando com sua vista os desejos do namorado
mancebo, que por seguir a caça se esqueceu do
tempo, e das horas de comer, mettendo-se pelo certão
da calma que n'aquelle tempo fazia; o cavallo, que não
devia de estar tão affeiçoado a aquella estancia como
á sua costumada, estancava muitas vezes do passeio,
sem haver accordo nem espora que o despertasse; até
que uma vez, estando o amante parado com o ponto
no alvo da janella, acertou a passar um macho que levava
uma rede de palha, a que o rocim se arremessou
com tanta furia, que, prendendo os copos da brida nos
laços da rede, se embaraçou de maneira, que levou ao
quartão enamorado por todo o terreiro, onde se resentio
do rapto, sem se poder valer contra os couces do
macho, e risada dos rapazes. Mas não é muito padecer
d'elles afrontas quem do um tão mal acostumado fia
sua liberdade. Outro, que ainda nas guerras de amor
não era armado cavalleiro, passeava a pé á vista de
seu cuidado, ora com os olhos na janella, ora com o
tento na postura, e galanteria de seu bom trajo: a dama,
que não trazia ainda aquella affeição em abertas, e publicadas,
porque não notassem os que passavam os
meneios, e esgares que o mancebo fazia, acenando-lhe
se tirou do posto passando-se a uma janella mais pequena
que cahia sobre uma esquina das mesmas casas:
o galante mais com o tento na mudança, que no caminho,
com os olhos no alto, deu com a testa um grande
encontro na esquina, de que se esmechou, e atolou em
um monte de cal amassada de fresco, que estava arrimado
á parede, ficando até os sendaes mais caiado,
que cantareira d'Alfama.—A todos pareceram os contos
de Solino cheios de graça; e (disse Leonardo) sempre
sahe o amor culpado n'estes ferimentos; e não tenho
por grande desar todo o que succede á sua conta, que
por isso o pintam cego, e são conhecidos por taes os
que o servem: porém a mim me parecia que quando o
amante perde o tento, e o sentido de tudo o mais, devia
ficar só discreto, e avisado para sua dama, que é o
objecto em que todo se emprega; que para lhe falar lhe
sobejariam razões galantes, respostas obrigadas, termos
de subtileza, e galanteria: e eu pela experiencia
acho o contrario, que dos noivos, e dos amantes se contam
as primeiras parvoices.—Não sei (disse Solino) se
dirá agora Pindaro que tomaram isso os namorados
dos poetas, como os encarecimentos.—Os poetas (respondeu
elle) não são havidos por parvos; e quem lhes
quiz fazer todo o mal lhes chamou doidos: o que poderia
ser; que o arrebatarem-se, e alhearem-se de si os
amantes com affeição, como os poetas com o furor divino
que os excita, aprenderiam d'elles. Pelo que o
vosso remoque não deu boa chaça: mórmente que esses
primeiros erros são de outra geração; e nenhum
parentesco tem com a parvoice. Antes é um modo de
se atalhar, e suspender um homem o seu entendimento
com muita razão; porque não pode dizer cousa, que
pareça bem aos outros a primeira vez que fala com
aquella a quem ama; que é passo, onde os mais discretos
o perdem.—Parece-me que está no certo meu companheiro
(disse Feliciano) que eu sei de homens, que entre
os outros podiam falar sem medo, terem-no muito
grande a estes primeiros encontros; que certo me parece
mais respeito que se deve á formosura, que falta
que se possa dar em culpa ao entendimento: pois o
verdadeiro é que amor o apura, e engrandece; e por
este respeito os Athenienses lhe levantaram uma estatua
na Academia de Palas como a sabio, e lhe dedicaram
uma escola os Samios, significando que só na de
amor se alcança com perfeição tudo, o que pelas do
mundo variamente se aprende, e com muito discurso
de annos se alcança: o aviso no falar, a discrição no
escrever, a brandura no conversar, a policia no vestir,
a graça no parecer, a cortezania no tratar, a liberalidade
no dispender, o esforço no pelejar, a largueza no
jogar, a humildade no servir, e a pontualidade no merecer.
Do pensamento, e juizo dos amantes sahiram ao
mundo as emprezas discretas; as chimeras escuras, as
idéas levantadas, os motes avizados, os versos excellentes,
os enredos subtis, as cartas galantes, as fabulas
bem fingidas, os primores, os extremos, e as finezas
tudo é doutrina tirada das escolas de amor. E pois
n'ellas se alcança tudo, não é muito que se ache tambem
um termo de falar encarecido, e levantado sobre
todas as cousas vulgares que tratamos, posto que o
juizo d'este acerto se não deve fazer por homens livres
d'esta paixão amorosa, se pode haver algum, a quem
não coubesse em sorte padecel-a: e bastava sem outros
exemplos, fazer a eleição d'ella o sr. Julio, que em
todas as partes de côrte e gentileza pode servir de espelho
aos mais apurados.—Vós me obrigaes por tantas
vias (respondeu o fidalgo) que fico desconfiado de poder
pagar nem com encarecimento do que mereceis,
nem com a restituição dos louvores injustos que me
daes, que só são devidos ao vosso entendimento. E
pois a victoria d'esta batalha ficou por elle em meu favor,
quero-me aproveitar d'ella, e do cuidado que me
deu o dia com me recolher a casa, e fazer mais comprido
o repouso da noite.—Essa resolução (disse Leonardo)
é em damno de todos: e muito mais de sentir,
porque á força nos obrigaes a que consintamos
n'elle: mas como em logar de preza trouxestes da
caça empreza tão difficultosa, poupaes horas para
cuidar n'ella á nossa custa.—Antes (respondeu elle)
para reformar no somno as que me desvelei na madrugada.
A isto se levantou; e os mais dando boas noites o
iam seguindo, e disse para todos Solino: O senhor D.
Julio vae a sonhar com aquelle thesouro encantado que
lhe appareceu na fonte; e para este cuidado não quer
companhia; que se a communicação dos bens de amor
faz muito maior a gloria d'elles nos contentes; aos
que só o estão de seu pensamento nenhuma cousa é
mais agradavel, que saudosa lembrança.