DIALOGO VI
DA DIFFERENÇA DO AMOR, E DA COBIÇA
Cada um dos amigos ao outro dia fez curiosa diligencia
por saber algumas novas da peregrina, que D.
Julio tanto encarecera a noite passada; e não achando
d'ella nenhuma noticia, tiveram a historia por fingimento.
Juntaram-se ás horas acostumadas á porta de
Leonardo, a tempo que tambem o fidalgo apparecia, e
que o velho os vinha a esperar ao peitoril da escada
com um hospede que lhe viera, que era um clerigo de
edade, pessoa, e trajo auctorisado; que dos mais foi
logo conhecido por ser prior de uma egreja que perto
d'alli ficava: sentaram-se agasalhando-o entre si com
a devida urbanidade; e depois de lhe perguntarem de
sua saude; como estavam com o desejo de tirarem a
terreiro a D. Julio, fizeram signal a Solino que começasse;
porém Leonardo não deu logar á boa vontade
que elle tinha, e se lhe adiantou na pergunta.—Bem
cuidava eu, senhor D. Julio, (disse elle) que aquella
formosa peregrina era encantada, e que foi traça do
vosso entendimento fazer a todos cavalleiros d'essa
aventura; porém a mim só a encommendastes; que
pela edade pudéra já estar aposentado para tal empreza;
eu a tomei por vos obedecer, e andei bem cuidadoso
no seguimento d'ella, sem até agora atinar no
caminho, em que vos perdestes.—Minha foi só a desgraça
(respondeu elle) pois perdi comvosco, e com os
mais o credito do que disse, e para meu desejo a glo ria
do que pudéra tornar a vêr em sua formosura.—Essa
levantastes vós tanto sobre as estrellas (disse Solino)
que se devia de agasalhar com ellas no céo, e enjeitar
a pouzada d'esta aldeia.—Parece-me (accudiu o prior)
segundo o que vos ouço, que nós podiamos mostrar o
jogo; porque a occasião, que me trouxe a este logar,
e leva a Lisboa, é uma estranha peregrina que hontem
appareceu na nossa aldeia, de cujos successos, e formosura
se podiam contar grandes extremos; que já
pode ser que seja a de que falaes.
Com esta nova se mostraram os amigos mui alvoroçados,
e D. Julio contente; e Leonardo respondeu
ao prior:—Não imaginei que tinha tanto bem junto
com o de vos ter n'esta casa; affirmo-vos que, se ella
não fôra vossa, não poderieis pagar melhor a pouzada,
que com tão boas novas: pelo que vos peço que
as não dilateis, contando-nos mui particularmente
d'essa peregrina, que tem tão obrigados os desejos dos
que aqui estamos, como agora pendurados os olhos,
e ouvidos do que nos haveis de dizer.—Hontem á
tarde (proseguiu o prior) a tempo que já o sol se ía
encobrindo com as azas da noite, andava eu continuando
com a obrigação da reza à vista da egreja;
veiu fazer oração á porta d'ella, e d'alli ter commigo
uma mulher em habito de romeira; que se a
minha vida merecera a Deus que mandasse a algum
anjo falar comigo, podera imaginar que ella o seria;
porque a sua belleza passava os limites do encarecimento
humano, e com uma voz, que respondia bem á
honestidade do seu rosto, e á humildade do seu trajo,
me falou (posto que em lingua estrangeira) de modo
que se deixava entender mui sem trabalho: perguntou-me
se acharia gasalhado em algum hospital, ou casa
de caridade d'aquella terra, em que passasse a noite,
e pela manhã guia de confiança para ir ter á cidade,
offerecendo que n'ella pagaria bem a quem a encaminhasse.
Eu, que no merecimento de sua vista achei
que era pouco tudo o que lhe podia offerecer, fiquei
enleado; porém lhe disse: Senhora, esta terra é muito
pequena; e para o que vós representaes, outra maior
me parecera limitada. Eu, posto que sacerdote, e d'esta
edade, tenho em minha casa uma irmã viuva, e sobrinhas,
que vos saberão servir melhor que as naturaes
da aldeia; fazei-me mercê de aceitardes a pousada,
qual ella é, e, á conta do que faltar ao que vós mereceis,
supprirá a vontade que é muito grande. Ella me
deu as graças do offerecimento com poucas palavras,
mostrando que o acceitava: vim com ella a minha casa,
onde foi agasalhada, e servida com grande gosto, pelo
que as moças tinham de se estarem revendo nas graças
da sua belleza. Depois da cêa, em que a peregrina
fez pouco damno, lhe pedimos nos contasse a causa
de sua peregrinação, e como sem companhia viera ter
ao nosso logar: e ella mudando a côr em um suspiro,
entre algumas lagrimas, e com tão discretas razões,
que as não saberei eu agora referir com a perfeição
propria (posto que algumas palavras eram de linguagem
alheia) contou o seguinte:
Na ilha de Irlanda, e na cidade de Dublin principal
de seus estados, no maior enleio, e dissensão dos principes
d'ella, que com a differença, e variedade das erradas
seitas de Inglaterra, a cujo rei obedecem, vinham
em total ruina, e destruição d'aquella provincia, nasci
de generosos paes, tão mimosa dos afagos, e enganos
da fortuna em meu principio, quanto depois a senti
esquiva, e deshumana em minhas desgraças. Não tiveram
meus progenitores outro fructo, em que empregassem
o amor paternal, (que faziam notavel excesso
á qualidade de seu sangue) mais que a mim, que com
esta boa sorte era invejada de todas as de minha edade,
e pertendida dos mais illustres mancebos de toda
Irlanda. No melhor de meus tenros annos, que a estes
costuma morder sempre por varios modos a inveja venenosa
da dura parca, de uma arrebatada enfermidade
perdeu minha mãe a vida; e eu como ainda na minha
não provara outros males, senti este primeiro com
grande pena: mas como a sorte m'o ordenara para ensaio
de novas desgraças, depois de me ter encetado o
soffrimento; em poucos mezes depois perdi meu pae,
e senhor, a quem muito amava, e fiquei mettida entre
parentes cubiçosos de minha herança, e amantes fingidos,
que obrigados das riquezas d'ella me procuravam
por esposa. Tinha eu a todos, os que me offereciam,
pouca vontade; e grande obrigação de tomar estado
conveniente aos respeitos de minha nobreza. E
como os favores, em que me creei, me ensinaram a ser
altiva (que este é um dos grandes damnos que faz a
prosperidade) puz o pensamento em quem com despreso,
e ingratidão castigou minha arrogancia: havia
n'aquella mesma cidade um principe, mui chegado por
descendencia ao sangue real de Bretanha, cheio de
muitas graças da natureza; que, ainda que me era
muito desegual por nascimento, tinha tão poucos bens
da fortuna, que fazia eu no meu dote confiança para o
pretender. Alcançou elle d'isto alguns signaes, que teve
em pouco; não advertindo que a vontade de uma dama
sempre põe em divida a um espirito generoso, que
conhece o preço d'ellas. Succedeu pois que, tendo eu
já de minha pretenção poucas esperanças, o elegeram
os da ilha de Lister, Ragrim, e das mais da parte oriental
de Irlanda, por capitão de uma armada de corsarios,
afim de fazerem uma preza muito importante no
mar Oceano: e como ás vezes o castigo dos maus intentos
é a mesma fortuna, (posto que outras como cega
os favorece) se perdeu esta armada com uma tormenta,
na qual a maior parte da gente pereceu; e a que ficou
do miseravel naufragio se salvou em uma enseada,
onde foi captiva de um turco corsario, que a levou a
Argel, e alli por o pouco segredo dos seus ficou o seu
general conhecido por quem era; e como o sangue,
d'onde descendia, junto ao cargo que levava, o faziam
de mór preço para os que o captivaram, ficou impossibilitado
o seu resgate, e elle sem remedio n'aquella prisão
alguns annos: até que a necessidade, e apêrto d'ella
me aconselharam que de novo emprehendesse o de que
com seus despresos desconfiara, mandando-lhe offerecer
liberalmente meu dote para resgate de sua liberdade.
E elle com o desejo d'ella, e obrigado d'esta lembrança,
tendo por menores grilhões os que de novo lhe
punha, que os que elle trazia, aceitou a offerta, e me
mandou em satisfação um escripto, em que me jurava
por sua esposa. Puz eu, sem mais cautella, em execução
o meu intento, perdendo a affeição ás muitas riquezas,
que tinha, pela honra e contentamento, que
d'aquelles desposorios esperava. Tornou livre á sua
patria, e mudou de improviso a tenção que fingira para
alcançar o remedio á custa do meu engano. Estranhou-lhe
o mundo esta crueldade: e os meus vendo-me sem
dote, e sem marido, e, o que o havia de ser, tão ingrato,
e na opinião de todos tão culpado, me levaram a o
demandar por justiça nos tribunaes supremos, onde,
depois de convencido, me foi julgado por devedor, e
por esposo. Mas como a minha vontade não era que
elle o fôsse contra a sua, esperei o tempo mais conveniente
para a declarar. Obrigado emfim da justiça, e,
depois d'ella, rendido aos conselhos dos principaes parentes
que o tratavam; o dia, em que se havia de desposar
comigo, cumprindo por sentença a palavra que
me tinha dado, antes de lhe dar a mão, metti na sua
um papel em logar da minha, que era quitação plenaria
de tudo o que por elle déra, e juntamente do que
elle com tanta ingratidão recusara, escolhendo para
castigo de minha altiveza a humildade da religião mais
apertada. Fez isto em toda a ilha grande espanto; e
eu com o resto, que do meu dote ficára, aborrecendo a
patria como a madrasta, determinei logo buscar em
reino alheio segura morada. E porque a fama da religião
portugueza, e da famosa cidade de Lisboa, onde
muitas religiosas do illustre sangue de Bretanha vivem
santamente em clausura, me trazia mais affeiçoado o
desejo; mandei por alguns mercadores de confiança o
maior cabedal do que possuia a quem até á minha chegada
o detivesse; e eu como tive a certeza de este dote
mais necessario estar seguro, fugindo ás affrontas, e
odio de meus naturaes, me embarquei com o mais que
me ficava; e com prospero vento tomei porto em Galiza,
e visitei a casa, e sepultura do glorioso apostolo Santiago;
d'onde caminhando por terra, livre já dos enredos de minha
ventura, não pude escapar á cobiça dos criados que
me acompanhavam; que esquecidos da fé que me deviam,
e pouco affeiçoados da catholica que professava
á sua vista com tanta firmeza, me roubaram as joias,
o dinheiro que trazia, deixando-me n'estes desvios
desamparada. Senti mais esta derradeira desgraça,
por ser a que me tomou com a paciencia quasi rendida
aos trabalhos da viagem, que venceram o descostume
e fraqueza femenina; e tambem por me achar tão só
na confusão d'estes caminhos: porém se pelos que parecem
tão errados me quer Deus guiar ao mais seguro,
eu ponho em suas mãos o soffrimento: e por elle,
senhor, vos peço como a ministro seu que em tudo pareceis,
que, ainda que vos dê cuidado, me mandeis
d'aqui em companhia de confiança, até onde d'aquellas
bemaventuradas religiosas seja conhecida; que á
sua vista poderei logo satisfazer a diligencia: a vós
pagará o céo este trabalho, e a estas senhoras o amor
com que favorecem o meu desamparo; que a maior
consolação, que devem ter os perseguidos da sorte, é
saber que a todo o tempo, que se acolherem a Deus,
acham n'elle brandura; e que tem á sua conta pagar
largamente as boas obras, que no decurso de seus trabalhos
receberam.
Esta historia contou a peregrina com os olhos cheios
de agua, com que orvalhava de quando em quando as
rosas do seu rosto; e a nenhum dos que alli estavam
faltaram lagrimas. Eu lhe disse: Senhora, se o estado
que buscaes com tanto desejo, não fôra melhor que o
que vos roubou a ventura, muito era para sentir a que
vos offende. Porém como o caminho dos que Deus escolhe
é tão differente do que seguem aquelles que lhe
vão fugindo; não podeis n'este ter maior seguro, que
saber que vos acompanha nos trabalhos presentes, e
vos ha de dar o galardão e premio de todos: e para
que eu tenha n'elles alguma parte de merecimento, me
offereço ao remedio dos que ficam até tomardes logar
n'essa clausura. Lisboa é terra grande; e a muita confusão
da gente e trafego d'ella a faz embaraçada; e vós
é razão que com a decencia e commodidade, que vossa
pessoa e qualidade requer, vos deis a conhecer. Pelo
que, se quizerdes descançar com estas minhas parentas,
e ja criadas vossas n'esta aldeia, eu irei á cidade,
e procurarei servir-vos com todo o cuidado. Isto me
agradeceu a estrangeira com muito boas palavras,
mostrando tambem nas côres do rosto signaes de obrigação.
E hoje, antes da minha partida, me fez uma
lembrança do que por sua parte havia de perguntar.
No caminho me atalhou a jornada uma occasião forçosa,
que me fez passar a noite tão perto de casa como
vêdes, mas com o maior interesse que podia esperar:
pois, além das mercês do senhor Leonardo, goso a
conversação de tantos amigos e senhores, que é fim, a
que se podiam dirigir outras jornadas maiores.—Já
agora (disse D. Julio) não serão tão culpados meus extremos;
pois nos que disse o senhor prior da peregrina
ficam acreditados; e passam as suas obras tanto
adiante das minhas palavras, que deixa a sua egreja
e familia para por a servir no que eu nem ainda me
soube offerecer: e contou ao prior o como encontrara,
andando á caça, a mesma estrangeira, e o que n'aquella
conversação tinha passado sobre os louvores, com
que elle quizera pintar sua formosura.—Nenhuns lhe
podieis dar (proseguiu elle) que não ficassem os maiores
encarecimentos devendo muito á verdade: e o maior
espanto, que eu achei nos de sua gentileza, foi que,
sendo ella tal, houvesse um homem bem nascido, que
sobre obrigações tão forçosas a despresasse.—Isso (tornou
D. Julio) não tenho eu por espanto; que d'esse
modo se costuma vingar a sorte da naturesa, quando
na perfeição de suas obras a não pode egualar: mais
se me representa a mim que seria o homem nobre, e
sem entendimento, como ha muitos, pois fugiu de tantos
e tão poderosos attributos, como eram formosura,
riqueza, magnificencia, cortezia, e humanidade, todos
empregados em seu favor.—E a mim (acodiu Solino) me
pareceu ingrato, mas discreto, fugindo o jugo de uma
mulher que lhe ficava sendo duas vezes senhora, uma
pelos poderes naturaes de sua belleza, e outra por a
divida, e preço de seu resgate.—O meu voto é (disse Pindaro)
mui differente; antes julgo que o que o homem
aceitou por necessitado, veiu a enjeitar por cubiçoso,
vendo que se dispendera com sua liberdade o dote que
dourava as perfeições de sua esposa; que nunca deixara
de o ser, se fôra tão rica como no principio, em
que o libertou; porque a cobiça e o amor são grandes
competidores.—Não me descontentam as opiniões (disse
Leonardo) mas já que vos entalastes entre esses dois
inimigos do socego humano, seja a questão e a materia
da conversação da noite á conta d'elles. E perguntou
ao doutor, qual dos dois é mais poderoso, e obriga os
homens a maiores extremos?
—Se houvessemos de dar credito (respondeu o doutor)
á experiencia, e tomar os successos do mundo por argumento,
com poucas porfias se manifestará a verdade
da vossa pergunta: mas tratando primeiro das razões,
vejamos em que se parecem, e os poderes em
que os antigos igualaram o amor, e a cubiça; que de
ambos deixaram jeroglificos, e figuras. Pintaram pois
ao amor menino, formoso, com os olhos tapados, despido,
com azas nos hombros, e armado de arco e settas:
menino, por facil e fagueiro; formoso, porque a belleza
é o objecto dos amantes; despido, porque se não
póde encobrir; cego, porque não vê, nem conhece a
razão; com azas nos hombros, por ligeiro, e mudavel;
armado, por forte, poderoso e cruel. A cubiça pintaram-a
mulher, despida, com os olhos tapados, e azas
nos hombros. Despida, pela facilidade com que por
seus effeitos se descobre; cega, porque não vê nenhum
respeito humano em rasão do que deseja: com azas
pela velocidade com que segue aquelle objecto, que
debaixo da especie de proveito se lhe representa. Assim
que só nas armas, e no sexo feminino achamos na
pintura differença: porém se considerarmos os effeitos
da cubiça, ou foi que na pintura de mulher as quizeram
cifrar todas, ou que lhes faltou lugar para tantas
armas; porque se amor é forte e poderoso, e vence a
tudo, como disse o poeta; o mesmo confessa que a todos
os extremos fórça, e obriga a sede do ouro aos humanos;
se a amor como a poderoso o fingiram Deus
cruel, como diz o poeta Seneca; não só a cubiça é Deus
do avarento e cubiçoso, mas o mesmo ouro que deseja,
como d'elles disse um doutor santo; se lhe chamam
cruel pelos damnos que no mundo fizeram seus poderes,
mais reinos assolados, cidades destruidas, e damnos
immortaes se fizeram no mundo por cubiça, que
por amor: e antes de chegar aos exemplos, com que
se póde provar esta verdade, vejamos em seu nascimento
que coisa seja amor humano; e o que é cubiça.
A elle chamaram muitos auctores furor; e este definio
maravilhosamente um doutor grego, que disse que
amor era um desejo irracional, que facilmente se emprega,
e com grande difficuldade se perde. E da cubiça
escreve outro mais moderno, que é um appetite fóra
da medida certa, que ensina a razão; que não tem modo,
nem fim. É certo que cada um d'elles podia trocar
com o outro esta definição, sem ficar enganado; porque
o mesmo é excesso de um desejo irracional, que
appetite fóra dos limites da rasão: e o mesmo ser leve
em se empregar, e deixar-se com difficuldade, que
não ter modo, nem fim. Mas posto que na pintura, e
nascimento os podiamos igualar, os effeitos da cubiça
são com mais força, e vehemencia, que os do amor;
porque, se faz cego o amante para perder o lume da
razão, todavia não o faz vil, antes o engrandece: e o
cubiçoso é cego para não vêr razão, nem honra, e para
se abaixar a todas as infamias, a que se sujeita o
interesse: se o pintam despido para se não poder encobrir,
com mais vergonhosas mostras se pinta a cubiça:
o que na mesma pintura de mulher está declarado.
Se é ligeiro o amor para se empregar, com tudo
busca sempre a formosura como objecto seu, e obra a
que honrou a mesma natureza: e a cubiça se emprega
nas mais humildes e indignas coisas da terra, como
d'ellas possa tirar fructo o cubiçoso: que a Tito cheirava
bem o dinheiro que cobrava das immundicias de
Roma; e no que são atrevimentos e ousadias, muito
atraz ficaram os amantes dos cubiçosos. Romper as
entranhas da terra, e chegar á vista do inferno por tirar
ouro: descer ao fundo do mar por buscar perolas,
descobrir novas regiões, soffrer climas estranhos, e
barbaras gentes para adquirir commercios, obras foram
de cubiça, e não de amor, como tambem o foi a
navegação, que na empreza do Velocinio d'ouro começou:
e se amor é cruel, muito menos o parece nas obras
que a cubiça, pois elle ao amante offende com suavidade
amorosa, e aos estranhos com animo compassivo
tanto mais nobre, quanto elle o é mais, que a cubiça,
que mata no mundo mais homens em um só dia, que
o amor em muitos annos. Assim que a meu ver em
competencia, ella tem mais poderes, e na semelhança
se parece tanto com o amor, que é elle mesmo; mas
com tal differença, que elle ama a formosura humana,
e a cubiça a riqueza.
—Não consinto (disse o prior) que o vosso entendimento
faça tão grande aggravo ao amor, como é igualar
com elle a cubiça: porque quando em poderes tenham
grande semelhança, na nobresa e nascimento
tem muito maior desegualdade; que posto que o amor
considerado como appetite carnal seja excesso de um
desejo fóra da razão; significado como affeição humana,
é uma força que ajunta, ou deseja unir duas vidas
em uma, a do amante e da coisa amada, e é este amor
tão natural a todos, que é defeito e torpeza não saber
amar, como diz S. Chrysostomo. E pelo contrario Aristoteles
chamou a cubiça desejo fóra da natureza. O
amor nasce tão nobremente, que tem por objecto a
belleza humana, e os dotes naturaes mais excellentes
como são graça, juizo, parecer, e perfeição: e assim
diz S. Agostinho, que amamos coisas boas, porém com
amor mal intencionado. E a cubiça como é vicio do entendimento,
e appetite preternatural, sempre é mal
nascida, e inclinada a coisas baixas. Assim que sejam
os poderes, e as pinturas quão parecidas quizerdes;
são as naturezas de ambos mui differentes.—Parece-me,
senhor doutor (disse Feliciano) que aquella razão ha
de achar muitos votos contra o vosso, porém eu por
me pegar ao melhor parado, nem quero ir contra elle,
nem hei de encontrar o do senhor prior, antes ajudado
da doutrina de ambos accrescentarei o meu pouco,
mettendo-me entre tão boas partes pela de amor; e
digo que posto que elle e a cubiça sejam semelhantes
no poder, no que é amar são em tudo deseguaes, porque
não se ama a coisa que pelo que é, e por amor de si
propria se não ama; e menos se póde amar a que se
não conhece: e assim seria erro chamar amor ao do
cubiçoso, que se emprega em coisas que por si não
merecem amor, e em outras, de que não tem nenhum
conhecimento: amar a uma pessoa, que obriga e sujeita
a nossa vontade; é ter-lhe amor por qual ella é, e
por essa a desejamos unir comnosco, por natural appetite:
mas empregar a affeição no dinheiro, e no ouro,
que não amamos pelo que é, senão pelo que com elle
se alcança, não póde ser amor. E menos o será amar
o que ainda não conhecemos, como faz o cubiçoso a
muitas coisas, que não vio, pelo interesse que d'ellas
espera. E não tratando ainda de que o amor não se
considera só no que ama, senão tambem na coisa amada;
e que falta correspondencia, sendo essa insensivel:
o amor todo se emprega no interesse dos sentidos; e
este falta em todos elles ao cubiçoso: porque, se a sua
temerosa côr o cativara, nem d'essa o deixa usar o
seu cativeiro. D'onde veio dizer o poeta Horacio que o
ouro para os avaros não tinha côr, porque o enterram
segunda vez, pois por essa e por seu nascimento lhe
podem chamar desenterrado: nem com a voz deleita
os ouvidos, nem com a suavidade do cheiro recrea,
nem com o tacto agrada, nem com o gosto satisfaz.
Diga-o Midas, que o pediu aos Deozes por dom: e como
lhe ficou por mantimento, perecia na abundancia
do que tanto desejara. Diga-o Pithio, o qual deu a el-rei
Dario o platano e videira de ouro: o gosto, que
achou na ceia que sua mulher lhe ordenára: o qual
com sua demasiada cubiça não dava lugar aos seus cidadãos
de se empregarem em outro trabalho mais,
que em beneficiar as minas do ouro, em cuja ruina
muitos d'elles miseravelmente pereciam: pelo que,
vendo as matronas da cidade tanto damno, foram juntas
pedir á mulher de Pithio que, compadecendo-se de
tão grande mal, rogasse por ellas a seu marido, pedindo-lhe
que désse aos seus melhor tratamento: e ella,
a quem não faltava entendimento, nem piedade, conhecendo
que era vão vencer com rogos a sua cobiça,
ordenou a Pithio uma ceia esplendida em um dia de
festa; na qual todas as eguarias, que lhe deu, eram
formadas de ouro. Alegrou-se muito com ellas na primeira
vista, e com a magnificencia do apparato, com
que lhas apresentavam: porém quando pelo discurso do
banquete não viu nenhuma de que podesse comer, perguntou
pelas eguarias verdadeiras, confessando d'aquellas
que eram fingidas. Como (respondeu então a
sabia matrona) queres que te apresente outra comida,
se só no cuidado da que tens deante occupas a
todos
teus vassallos, pois se não lavram os campos, nem
se cultivam as arvores, nem se pescam os rios, nem
se caçam as aves, nem se criam os animaes, pelo exercicio
continuo de tirar ouro? Contenta-te tambem com
o fruto d'elle por mantimento. E com este ardil emendou
em alguma parte sua demasia.
Bem parece que entendia esta verdade Halaono imperador
da Tartaria, que vencendo, em Baldaco, o Califa
mestre da seita Mahometica, que era o mais poderoso
rico, que então havia no mundo, vendo que, por
se não ajudar de suas riquezas, e as não despender
em soldo, não tivera resistencia contra o exercito dos
Tartaros; depois de captivo o mandou metter em uma
camara entre o ouro e joias preciosas, que antes tinha,
sem lhe mandar dar outro mantimento, dizendo
que d'aquelle comesse á sua vontade: e assim entre a
grande abundancia de suas riquezas o miseravel Califa
morreu de fome.
Pois se o ouro por si não póde satisfazer ao gosto,
nem deleitar sentido senão com o engano do que com
elle alcança, como póde ser capaz de amor?
—Vós (disse Pindaro) temestes ao doutor; porém não
o seguistes: e eu ajudado do vosso receio, e da sua auctoridade,
me hei de valer da primeira opinião que propoz,
e é que o amante e o cubiçoso não differem mais
no amor, que no emprego d'elle; e para isto me fundo
em uma opinião moderna, que tem por si muitas auctoridades
antigas; e é que nenhuma pessoa ama mais a
outra, que a si mesma, nem póde ter amor a outro, se
primeiro se não amar a si; e do amor que se tem, nasce
o desejar e amar as coisas a que se affeiçoa, e inclina
mais a sua natureza: amo isto, porque me parece bem,
e o quero unir a mim, pelo que me quero, e desejo tudo
o que me agrada e satisfaz por meu respeito; e por
isso chamaram ao amigo uma alma em dois corpos,
e, como diz o proverbio,
o amigo é outro eu;
quero-lhe
tudo o que para mim quero, e amo-o como a minha
alma unida com a sua. E Aristoteles diz que o amigo
se hade egualar no amor com o que cada um tem a si:
logo tanto quer e deseja o amante o objecto da belleza,
em que se emprega, como o cubiçoso o ouro, que
quer para si. E quanto á objecção de que o ouro senão
ama pelo que é, senão pelo que vale, e por o que
com elle se compra e alcança, os vossos mesmos exemplos
dirão por mim o contrario; que o cubiçoso, e avaro
antes perderá a vida, que resgatal-a com o ouro, a
que quer mais que a ella; e antes perece á fome, que
satisfazel-a com dispender o que tem em mais estima
que a fartura; que para elle é mór damno gastar, que
todos os outros; como Lucilo conta de um avarento
chamado Hermones, que, sonhando uma noite que gastara
certa quantidade de dinheiro, foi tanta a sua paixão
e dôr, que, cuidando que era verdade, se afogou.
E assim diz S. Jeronymo que tanta necessidade tem o
cubiçoso do que possue, como do que lhe falta, pois lhe
falta animo para usar d'elle: e diz n'outro lugar que
só a avareza e cubiça fez no mundo pobres, porque assás
o é mais, que todos, o que tudo deseja; e possuindo
mendiga, e padece como se lhe faltára. Logo certo
é que o ouro ama o cubiçoso, e não já o que com elle
se compra; pois o não quer para comprar, senão para
o possuir. E respondendo á deleitação dos sentidos,
que o amor humano offerece, e na cubiça falta, ousarei
a dizer que o ouro, ainda enterrado, parece melhor
ao cubiçoso, que ao amante a formusura que appetece;
e que é mais suave a seus ouvidos o rumor, e tinido
do dinheiro, que a brandura de todos os requebros,
e galanterias namoradas; e que nenhum gosto para
elle é egual com o que tem de tocar, tratar, e revolver-se
entre o mesmo dinheiro: o que se póde ver com
grande admiração n'aquelle afamado cubiçoso o Imperador
Caligula, que, depois que a muitos obrigou que
o instituissem por herdeiro, aos quaes, depois de testarem,
fez matar com peçonha (rindo-se de haver homem
que quizesse viver mais depois de haver testado)
atraz de em sua casa instituir publica mancebia de todos
os vicios, de que tirava um copioso tributo, se lançava
despido entre o dinheiro, que d'estas infames
obras procedia; e, dando sobre elle mil voltas, tinha
em menos conta todas as outras delicias, que os homens
a preço do dinheiro procuravam. Certo é logo
que o ouro ama, e a elle quer, e com elle se deleita o
avaro e cubiçoso; que, se o desejára para o empregar
em o que com elle se alcança, perdera o primeiro nome,
e podera merecer o de rico, prudente, e liberal:
porque o ouro, e as riquezas, como diz S. Leão Papa,
não são boas de si, nem más; mas o bom ou mau uso
d'ellas engrandece, ou desacredita a quem as possue:
e assim não é rico o que muito tem, senão o que com
o que tem se contenta: e não ha maior pobreza, que,
por empregar o desejo em um baixo metal, que sem
bom uso não presta, deixarem os homens o muito que
com sua valia poderam adquirir.
—Todos (disse Solino) deram sua pancada a esta lebre;
Leonardo, que a levantou, deixou-se ficar no covil; e
eu fiquei atrás dos galgos sem dar um brado; farei
muito, se agora quizer desmanchar o bemdito de todos.
Comtudo a minha opinião é que quanto tendes feito
na grandeza e poderes da cubiça é errado, e que se
haviam de attribuir ao ouro, e não a ella. E tratando
da pintura, em que a embaraçastes, e quizestes assemelhar
com o amor, tenho por mui errada a declaração
d'ella: e posto que seja contradizer a tão grandes
entendimentos, a hei de explicar ao meu modo, que
me parece que a pintaram os antigos: mulher por sua
fraqueza; pois é tal, que se rende a qualquer pequeno,
e vil interesse; despida como desavergonhada, por
quão sem respeito, nem moderação se atreve a commetter
qualquer infamia; com azas por a ligeireza,
com que se arremessa a qualquer preza como ave de
rapina; cega por pedinte, mendiga, e importuna: e se
isto não é, venho a presumir que a fingiram com o rosto
de mulher, e as pennas de ave como a harpia, que na
etymologia propria do seu nome manifesta o roubo e
condição do cubiçoso: e assim como a harpia damna,
e descompõe todos os manjares a que chega, assim
a cubiça estraga e corrompe toda as virtudes: pelo
que me parece que nenhum parentesco tem com amor,
que na nobreza é tão desegual, e pelos louvores de sua
excellencia tão conhecido. O a que se podera voltar a
nossa porfia, e arguir mil historias extremadas, é a
tratar dos poderes do ouro, e da valia do interesse,
que já nos tempos antigos, e no prezente de agora póde
tanto, que obrigou a dizer a um auctor que esta é
a verdadeira edade do ouro, porque só elle senhoreia
os animos dos homens. E viera isto mais ao proposito
da vossa peregrina, que com elle e sua formosura não
pôde vencer a um coração ingrato.—A mim me parece
(respondeu Leonardo) que vós tinheis mui boa razão
se a não guardareis para tão tarde: porém em a noite
d'amanhã se lhe fará justiça; que n'esta é rasão que
se dê ao hospede lugar conveniente para o repouso,
pois ha de ir á cidade e voltar no mesmo dia.—Por não
mandar em casa alheia (disse o prior) não defendo a
minha parte; mas prometto, se voltar a horas que
possa passar a noite tão bem como esta, de a não perder.
Então se levantaram os mais e se despediram; e o
prior gastou muitas palavras em manifestar a Leonardo
a inveja que tivera d'aquella companhia: ao que
elle respondeu com a que a todos fazia com a vista da
peregrina, que lhe ficára em casa; que posto que a
boa conversação é manjar da alma, a vista de uma
estranha formosura, que rouba as de todos, tem muito
maior poder sobre o desejo.
DIALOGO VII
DOS PODERES DO OURO E DO INTERESSE
No mesmo tempo, em que os amigos se juntaram
para o seu costumado exercicio, se apeava o prior no
pateo de Leonardo; que o desejo que lhe causara a
noite do dia d'antes, o fez tornar mais cedo da cidade.
Foi recebido com alegria: e depois de lhe perguntarem do
bom successo de sua jornada, lhe disse Solino:—Agora
vejo que roubou a ventura a empreza d'aquella peregrina
ao sr. D. Julio: pois a deu a quem a deixa de vêr
por nos ouvir.—Antes vereis (respondeu o prior) quão
poderoso é o ouro, que até para ouvir falar n'elle deixo
a propria casa, e n'ella a vista de tão extremada formosura.—Não
sois vós (acudiu Leonardo) o primeiro
que a deixastes por ouro, nem usaes n'esta occasião
como avarento, pois que vindes com esse titulo de cobiça
enriquecer a todos, e a esta casa.—Vós (respondeu
elle) me individaes para me empobrecer com a mercê
e cortezia que me fazeis; de maneira que sempre o
meu erro é dourado para contentar os cobiçosos, quando
pareça a Solino culpa deixar a vista da minha hospeda
pelo interesse da vossa conversação.—Não é só
elle o que vos accusa (disse D. Julio) antes eu de a vós
deixardes me queixo, ainda que de a acompanhardes
tinha ciumes.—Só esses faltavam (tornou Solino) para
a conversação ficar de ouro e de azul; mas se d'este
se batera moeda, nenhum de nós se queixára de pobre,
porque a dos comprimentos é a mais corrente de
todas. Porque o maior mal que o avaro faz ao ouro, é
impedir-lhe a corrente com a prisão em que o encerra,
podendo com elle até ás prisões fazer agradaveis e formosas,
que para isso imagino que se inventaram as
cadeias e grilhões de ouro, que d'elle servem para ornato,
e dos outros metaes para castigo.—Não me descontenta
essa razão (disse Leonardo), porque se ao ouro
quando sahe da mina, antes de o pôrem em seus quilates,
chamam os artifices
ouro bruto, quanto com mais
razão merece este nome o que o avarento tem escondido
e fechado? E a este proposito me cabe contar
uma historia que li esta manhã; e se fôr sobejo, pelo
que callei a noite passada, se póde descontar o que
agora disser.
Houve em Italia, em um dos mais conhecidos logares
d'ella, um honrado pae de familia, nobilissimo por
geração, rico de bens procedidos da herança e nobreza
antiga de seus antepassados, dotado de muitas partes,
e graças da natureza, e tão liberal do que possuia, que
mais parecia dispenseiro das riquezas, que carcereiro
d'ellas. Teve este em sua mocidade um filho tão industrioso
e experto nos negocios de mercancia, que
ajuntou em poucos annos grande copia de dinheiro, o
qual elle guardava com tão solicito cuidado, como costumam
os que com cobiça e trabalhos o adquiriram: e
era notavel espanto aos naturaes verem em um velho
a largueza e liberalidade de mancebo; e em o filho a
avareza e tenacidade de velho. O pae, que o via responder
tão mal a suas inclinações, e que já com a edade
e continuação de gastar largo, estava menos rico, muitas
vezes lhe dizia e aconselhava com brandura que
conservasse, com o que ganhara, a honra que tinha de
seus passados; e não degenerasse d'elles, por seguir a
villeza do interesse: que usasse das riquezas como nobre,
e favorecesse a velhice de quem o creára, e honrasse
aos pequenos irmãos que tinha; que fosse proveitoso
aos amigos e parentes; benigno aos pobres e
se não captivasse ao trabalho de enthesourar riquezas
sem fructo. Mas como falar a um morto, e aconselhar
a um avarento é cuidado vão, nenhum effeito faziam
os paternos rogos em sua má natureza. Succedeu que
o senado d'aquella republica por a nobreza, e pessoa
do mancebo, e pela industria e sagacidade que mostrava,
o elegeram em companhia de outros para ir com
uma embaixada a Roma ao Summo Pontifice. Depois
de sua partida, vendo o pae occasião ao que havia
muito que desejava, mandou secretamente fazer chaves
falsas, com que entrou na camara do filho; e abriu
os cofres em que aquelle inutil thesouro estava depositado;
e com a brevidade que o desejo lhe pedia, vestiu
a si, a sua mulher e filhos custosamente; deu libré
a seus creados; comprou ricas armações e baixellas;
encheu a estrebaria de cavallos formosos; fez esmolas
a muitos pobres; acudiu em occasiões a parentes e
amigos necessitados; dispendeu emfim aquella prata
e ouro que o filho com muitas vigilias ajuntára da maneira
em que elle, quando florescia em riquezas usava
d'ellas. Gastado o dinheiro encheu os saccos em que
antes estava, de miudos seixos e areia: e posto tudo
na mesma ordem em que o filho o deixára, tornou a
fechar os cofres e as casas como d'antes. Tornou depois
o filho da sua embaixada: e os pequenos irmãos
o foram esperar á entrada da cidade vestidos custosamente,
e com o magnifico apparato de que então usavam.
Vendo-se o irmão rodeado d'elles ficou confuso;
e enleado lhes perguntou logo d'onde houveram tão
ricos vestidos, e tão formosos cavallos. Ao que elles
com uma simplicidade innocente responderam que seu
pae e senhor vivia com differente largueza da que d'antes
tinha; e que outros trajos e cavallos de maior preço
lhe ficavam. Entrando depois em casa de seu pae,
nem a ella, nem a elle conhecia, pelo differente estado
em que a deixára: e como n'esta mudança se lhe não
aquietava o coração, foi-se com muita pressa aonde o
tinha posto. Entrou na sua camara, abriu os cofres: e
vendo que os saccos estavam cheios, e da maneira que
elle os deixára, se aquietou, porque não dava logar a
mais vagarosa experiencia a pressa com que os companheiros
o chamavam, e o senado o esperava. Depois
que deu fim a aquella obrigação (que a elle não pareceu
que fosse tão custosa) fechando-se devagar no seu
aposento, abriu as arcas e os saccos, em que lhe parecia
que estava a sua bemaventurança; e vendo o engano
da areia e seixos que dentro tinham, começou a
gritar com grandes lamentações e brados. A que primeiro,
que todos, acudiu o generoso velho, perguntando-lhe
que tinha? de que se queixava? e quem o offendera?
Ai de mim (disse elle) que me roubaram as riquezas,
que com tantos trabalhos, e em tão largo discurso
de annos tinha grangeadas. Como é possivel que
te roubaram (respondeu o pae) se eu vejo esses cofres
e saccos cheios, que parece que não podiam tirar nada
d'elles, nem elles levarem mais? Ai triste de mim (tornou
o filho) que o de que elles estão cheios, não é do
ouro e prata, com que os deixei; que não tem agora
mais que pedras e areia sem proveito. A isto respondeu
o generoso pae, sem no rosto fazer mudança: Ah!
enganado filho! que importava para ti que estes saccos
estivessem cheios de ouro fino ou de areia grossa,
se a tua avareza te não deixava fazer nas obras differença
d'ella? Cessaram os brados, mas não já o sentimento
do filho com esta resposta; que a mim me pareceu
digna de ser contada entre as mais celebres do
mundo.
—Eu a tenho por tal (disse o prior), e a historia por
maravilhosa para o nosso intento; e andou muito bem
o pae de cumprir em vida o testamento do filho; porque,
como disse Pub. Mimio, nenhuma cousa o avaro
faz boa, senão quando morre, porque deixa o que tem a
quem possa usar d'elle.—E o mesmo (disse Feliciano)
escreveu que para ninguem o avarento é bom: e para
si peior que para todos; pois nem dispende, nem se
aproveita: e n'este sentido me parece maravilhosa a
allegoria d'aquella engenhosa fabula de Midas, que,
pedindo aos deuses, como cobiçoso, que tudo o que tocasse
se lhe convertesse em ouro, perecia de fome na
grande abundancia do que pedira. E quando a necessidade
o fez mudar a petição forçado do mal, que como
bem procurára, lhe mandaram que se fosse lavar ao
rio Pactolo; que fez corrente do que elle queria fazer
estanque, pondo em suas douradas areias, para communicar
a todos, o que Midas só para si queria ter usurpado.—Bem
se representou em Midas (accrescentou
Pindaro) um cobiçoso no pedir e em se não aproveitar:
que por isso disse Seneca que mais facilmente se atreveria
a alcançar da fortuna que désse, que de um cobiçoso
que não pedisse. Mas deixemol-os a elles com
seu engano, e falemos nos poderes do ouro, que é o
para que Solino nos convidou a noite passada.—Como
é certo (disse elle) que para o ouro todos se convidam
de boa vontade, e vós, pela que tendes a este metal,
parece que estivestes de ponto sobre a materia.—Não
a apontei (respondeu Pindaro) por esse respeito, mas
por me contentar da que escolhestes; e é desgraça
minha que para os outros levantaes d'ouros, e para
mim de espadas.—Eu me quero metter entre ellas (acudiu
D. Julio) e se assim parecer aos mais, diga Solino
todos os males do ouro, pois tem boa mão para dizer
mal; o Pindaro todos os bens: e sobre o que ambos
disserem ficará logar aos mais de darem suas razões.—Errastes,
sr. D. Julio (disse o doutor), que para Solino
dizer mal no sentido que vós quereis, ha de dizer bem do
ouro, e Pindaro os males.—Dou-me por vencido, respondeu
elle:—E eu por obrigado (disse Pindaro) a obedecer.
Todos festejaram a eleição; e ordenando que
fosse o primeiro, começou d'esta maneira!
Se as causas são pelos effeitos conhecidas, e elles
testemunham a excellencia ou maldade d'ellas, qual o
foi de maiores males e damnos na redondeza, e metteu
aos homens em mais perigosos trabalhos que o ouro,
a quem com muita razão podiam todos chamar
peste
do mundo? E posto que os notaveis exemplos das destruições
e ruinas que n'elle fez, podiam tomar mais
tempo do que agora tenho para tratar d'elle; quero
começar primeiro de seu nascimento, para que mostrem
os seus arriscados principios os desastrados successos
para que a malicia humana o descobriu. E
não desprezando o que diz Plinio tão doutamente, que
não contentes os homens com o que a superficie da
terra produzia para sua recreação e mantimento, a
formosura das arvores, a diversidade dos fructos, a
belleza e cheiro das flores, a verdura das hervas, o esmalte
das boninas, a abundancia dos legumes; quizeram
desentranhar do centro d'ella os segredos que a
benigna natureza nos escondia. Nasce o ouro nas entranhas
dos montes, e nas arterias occultas dos penedos;
e subindo como arvore da profunda raiz, d'onde
começa, vae espalhando os ramos em desegual medida,
convertendo o sol com seus poderes aquella materia
disposta e propinqua, até que chega a ser ouro, e se
demonstra por duvidosos signaes na face da terra;
que logo d'aquella emprenhidão se mostra triste,
dando por indicios da riqueza que encerra, herva descórada,
delgada, subtil e sequinhosa areia, e barro leve,
secco e sem proveito; e até as aguas, que por entre as
veias descem, sahem cruas e com sabor pesado. Espreitando
estes signaes a industria humana, entra fazendo
guerra ao profundo, caminhando por debaixo
dos montes sustentados em columnas da mesma terra,
deixando a vista do sol e das estrellas, pondo as vidas
ao risco das ruinosas machinas, que mil vezes o opprimem,
que tanto a nossa sede fez cruel á benigna terra,
que parece menor temeridade tirar do fundo do mar
perolas e aljofar, que do seu seio o inimigo ouro, que
ainda então o não é mais que nas esperanças. Depois
de tirado com tão custosas diligencias, sahindo como
parto de venenosa vibora, rompendo as maternas entranhas,
com o fogo se aparta, apura o aperfeiçoa.
ficando menos apto para o serviço dos homens, na cultivação
dos campos e arvoredos, e mais apparelhado
para sua destruição e ruina: porque ou se lavra para
ostentações e demasias da vaidade, ou se bate e cunha
em moeda, cujo preço tyrannisa os poderes e graças
da natureza. Tirou o ouro a valia a todas ellas, e fez
em si estanque de todos os commercios do mundo, no
qual, antes que elle apparecesse, se trocavam as cousas
umas por outras, com uma composição e trato
mais conforme e obrigado á necessidade e commodos
da vida que aos roubos da cobiça, maldades da avareza
e sobejidões da vaidade; e apoderou-se tanto de
tudo o que na terra havia, que veiu a ser preço até da
liberdade dos homens contra o direito natural, em que
viviam. Foram crescendo seus atrevimentos: e se antes
de sahir do centro da terra começou a matar homens,
sahindo d'ella se levantou contra o céo, fazendo
guerra de rosto a rosto a todas as virtudes: tirou logo
a vara das mãos á justiça: e deitado em sua balança
perverteu o fiel de sua egualdade. Diga-o Commodo
imperador, que todos os crimes de homicidios e insultos
deseguaes, remiu a preço de ouro, vendendo por
elle publicamente não só a pena dos delictos, mas os
proprios logares dos julgadores. Cerrou os olhos á misericordia,
para não se compadecer dos affligidos: como
se viu no exercito de Tito Vespaziano, que tendo cercada
Jerusalem, os moradores, que opprimidos da fome
se sahiam da cidade com licença sua, enguliam primeiro
uma pequena moeda de ouro, para que na passagem
o pudessem salvar dos inimigos; os quaes sabendo
esta astucia, a dois mil, que em dois dias sahiram
da cidade, partiram pelo meio para lhes tirarem
do bucho a moeda, por não esperarem que com o termo
commum da natureza d'ahi a pouco espaço a lançassem
fóra: assim que aquella pequena quantidade de
ouro, qual de finissima peçonha, lhes tirou a vida.
Derribou a columna, e quebrou os braços á fortaleza,
atados com as prisões de seu interesse: diga-o Ulysses
que por elle vendeu a Priamo o corpo de Heitor
Troyano; e Aulo Posthumio, que a preço de ouro deixou
a empreza da guerra de Jugurtha, e a gloria d'ella.
Desterrou do mundo a fidelidade; pois por elle vendia
Nicias aos romanos a vida de el-rei Pyrrho seu senhor:
Demonica a cidade de Efezo a Bresso capitão
francez, que de industria a afogou com peso de ouro:
Tarpeia Romana, a entrada do Capitolio aos Sabinos,
que do mesmo modo com o peso de ouro e dos escudos
a acabaram. Depravou a piedade, e veneração
que os antigos tinham aos mortos, não perdoando a
suas sepulturas, como el-rei Dario, enganado com o
letreiro da de Semiramis, que dizia que, se algum rei
seu successor se visse em necessidade, abrisse aquella
sepultura, e acharia um thesouro: elle confiado creu
o letreiro, revolveu a pedra; e achou outro que dizia:
Se não foras cobiçoso, não andaras desenterrando os
mortos.
Os romanos desenterraram os mortos de Corintho
para lhes tirarem a moeda que tinham por costume
metter comsigo na sepultura; para o que é mais notavel
aquelle caso extranho que conta Paulo Diacono,
de Rodoaldo rei de Lombardia, o qual, porque seu pae
se mandára enterrar com as insignias reaes de ouro,
abriu uma noite secretamente a sepultura, e, depois
de roubar e despojar o cadaver paterno, lhe appareceu
S. João Baptista, em cuja egreja aquelle corpo estava
enterrado; e reprehendendo-o rigorosamente, lhe
mandou em castigo do atrevimento que commettera,
que mais não entrasse n'aquella sua egreja: e assim
querendo o rei alguma vez commetter a entrada, foi
pelo mesmo santo lançado fóra. O ouro sustenta e favorece
a todos os peccados capitaes, a soberba com
suas pompas, apparatos e vaidades. As baixellas de
Midas, as grandezas de Cresso, os escravos de Claudio,
o theatro de Nero, as casas de Clodio, e todos os mais
excessos da vangloria d'elle nasceram. A avareza n'elle
como em materia propria se conserva e accrescenta;
por elle deixava Oco, riquissimo rei dos persas, de sahir
de casa por não dar certas moedas de ouro ás mulheres
que o sahiam a receber como era costume d'aquelle
reino, como conta Plutarcho. Nero despojava por
este as matronas bem vestidas, e roubava as tendas dos
mercadores: e Angeloto, de quem escreve Pontano que
era tão avaro, que se levantava de noite a furtar a ração
a seus proprios cavallos; e sendo achado pelo estribeiro
ás escuras no furto, o açoutou cuidando que era
dos escravos da estrebaria. A sensualidade com o ouro
se cria, pois a força d'elle corrompe a pudicicia, como
os antigos engenhosamente significáram na fabula de
Danae, a quem Jupiter enganou convertido em chuva
de ouro: d'elle nasceram os estupros de Commodo, os
incestos de Caligula, as luxurias de Heliogábalo, os
adulterios de Julio Cesar; pois só a perola com que
conquistou a Servilia, mãe de Bruto, lhe custou seiscentos
sestercios. Por ouro tem a ira feito abominaveis
estragos e homicidos no mundo. Pygmalion matou
a seu cunhado Sichueu por lhe roubar o thesouro
que tinha. Polimnestor tirou a vida a Polidoro, de
quem era tutor, por lhe roubar a herança das riquezas
que esperava. As demazias e sordidezas da gula,
a delicia e sobejidão dos manjares com elle se compram.—Das
mezas de Cleópatra, das hortas e banquetes
de Lucúlo, dos manjares e convites de Heliogábalo
elle tem a culpa. A venenosa inveja n'elle, como em
seu objecto natural, se emprega toda. Herifile invejosa
das manilhas de ouro de Adrasto entregou á morte
Amfiarau seu marido; e Julio Cesar invejoso das riquezas
da Luzitania, se fez salteador das cidades d'ella.
A preguiça e descuido sobre o ouro descança e se
aquieta: elle fez preguiçosa e muda a lingua de Demósthenes
com o preço que lhe deram por não orar:
e o symbolo e jeroglifico da preguiça foi o kagado, por
o vagar e peso com que se move. Que cousa com mais
difficuldade e tardança se abala, que um rico? E se a
diligencia cahiu em sorte á pobreza, pois a necessidade
foi inventora das artes e subtilezas; o peso do ouro
entorpece os sentidos empregados todos n'aquella materia:
e, por conhecer esta verdade, Crates Thebano o
afogou no mar para apprender a philosophia. Pitaco e
Anacarso não acceitaram a Cresso o que lhes mandava:
Anacreonte tornou a engeitar a Policrates o que
lhe déra: e Curio recusou aos Samnitas o grande peso
d'elle que lhe traziam.
Foi o ouro finalmente a ruina de todos os bens, que
mereciam este nome; e um veneno mortifero para a
vida humana: e se muitos a perderam indo em seus
alcances pelo centro da terra, e outros buscando as extranhas,
em que elle se cria, por remotos climas entre
irracionaes Ethiopes feneceram; não estão seguros do
mesmo damno os que dentro em suas casas, e fechado
em seus cofres o possúem. E fazendo pausa em seus
males (que para os contar todos fôra infinito) só um
bem tem o ouro, que eu não quero deixar á conta dos
louvores de Solino, que é o que os Gregos declararam
n'aquelle seu celebrado proverbio, que diz:
O de que
serve ao ouro a pedra de toque, serve o ouro ao homem; pois
no toque d'elle, como em um espelho de desenganos,
é conhecido: e se elle d'esta minha invectiva se houver
por aggravado, vingança lhe tem dado a ventura
até ao que de seus males me fica por dizer.
Todos ficaram por extremo satisfeitos de ouvir a
pratica de Pindaro; e o prior a gabou de bem ordenada,
e elegante; e gastaram n'isto algumas razões, tendo
os olhos em Solino, que começando a falar com engraçadas
mostras os obrigou a silencio, e disse:
—Posto que eu podera dizer do ouro, como a raposa
de Ezopo das uvas, a que nào chegava; nem quero tomar
tão humilde vingança de quem me foge, nem (como
alguns costumam) dizer mal de meu proprio desejo:
a empreza é facil, e só no muito, que ha para dizer
d'ella, difficultosa: porém se a copia aos discretos empobrece,
(como um d'elles disse) nào pode ser que a do
ouro faça effeito tào desegual; pois que n'elle consiste
toda a riqueza. Bem o posso invocar como poderoso, e
desejar ao menos uma bôcca de ouro, de que sahiram
dignamente os seus louvores; mas é tào inimigo do
que lhe quero, que, por me offender a mim, fugíra d'elles.
E começando do nascimento d'este desejado metal,
que quanto mais queremos culpar engrandecemos:
Nasce (como Pindaro disse) nas entranhas dos montes,
porque até a mesma natureza nos ensinou a fazer
d'elle thesouro, pondo tantos muros da terra, para o
defender, para que tambem a difficuldade e rareza lhe
dê maior valia. Logo sahindo da mina, onde se cria, e
provado no fogo, em que se apura, começa a fazer competencia
com sua formosa côr ás mais bellas obras da
natureza. O mais nobre dos planetas, que é o sol, dourado
nos apparece, e o seu luzente carro com raios de
ouro allumia a terra: o fogo, mais nobre e poderoso
dos elementos, da sua côr se veste; o arco celeste, que
nas tempestades da terra nos assegura, perfilado de
ouro se descobre; as nuvens ao pôr do sol, da sua côr
guarnecem os horisontes. As rosas brancas e encarnadas,
os lirios roxos, e azues, as cecens brancas, os
bem-me-queres, e as boninas com uma roza dourada
no meio se guarnecem, e enfeitam para os olhos dos
homens; os fructos das arvores, quando chegam á sua
desejada perfeição, e as searas na fertilidade de suas
espigas se tornam de ouro: e as mais formosas creaturas
humanas, com as cabeças douradas, mostram
sua belleza; e a esta imitação trazem os principes, e
monarchas do mundo o ouro sobre a cabeça; os reis e
imperadores nas corôas, os papas nas thiaras, os bispos
nas mitras, e as matronas illustres nos toucados,
ao pescoço, sobre o peito, e pendurado das orelhas,
nos dedos, e nos braços, fazendo voluntarias prisões de
sua formosura. No culto divino elle orna e aformosea
os templos sagrados, as cruzes, imagens, retabulos, calices,
patenas, lampadas, e castiçaes; com elle se adornam
os tectos, frizos, columnas, pedestaes, e todos os
ornamentos, e vestiduras da egreja. Batido em moeda
é preço, e resgate das cousas de maior valia, sem que
n'elle se começasse o trato, e commercio do dinheiro:
pois antes que o cunhassem de ouro, o houve de prata,
cobre, e latão: assim que, sem prejudicar a seus louvores
o mal que usam d'elle os avarentos, lhe podiamos
com razão chamar formosura do mundo; ornato,
e guarnição de todas as virtudes. A humildade carregada
de ouro se inclina mais, e é mais formosa, como
foi a de Primislau primeiro rei de Bohemia; que no
maior poder de sua riqueza, e senhorio, mandava trazer
ante si as alparcas de pastor com que se creara,
mandando que andassem em morgado a seus descendentes
para antidoto contra a soberba da dignidade
real. E deixando exemplos estrangeiros, a nossa rainha
Santa Izabel, o nosso infante D. Fernando, a nossa infante
D. Sancha, D. Branca, e D. Joanna, e o condestavel
D. Nuno Alvares Pereira, bem douraram com sua
grandeza, e poder a virtude da humildade. Com o ouro
se exercita, e põe em pratica a liberalidade, que sem
elle parecera virtude sem mãos; que mal as tivera Marco
Antonio triumviro para aquelle excesso de magnificencia,
que usou com um amigo, se o não tivera: porque,
mandando-lhe dar pelo seu thesoureiro vinte cinco
mil escudos, parecendo ao avarento creado que aquella
largueza nascia da ignorancia de seu senhor, lhe mostrou
aquella quantidade de dinheiro sobre uma meza,
dizendo lhe que aquillo era o que mandava dar. Mas o
romano por desmentir a malicia do thesoureiro (que
entendeu logo) lhe disse: Fizeste bem de me avisar;
que não cuidei que dava tão pouco: pelo que sobre estes
accrescenta outros vinte cinco mil; e dá-lhe cincoenta.
O mesmo, e quasi pelo mesmo modo, ouvi que
acontecera a um principe de Hespanha com seu pae,
mandando dar a uma moça humilde trinta mil cruzados.
E vindo aos nossos exemplos: bem dourou e engrandeceu
a liberalidade com seus poderes o nosso primeiro
rei D. Affonso Henriques, que nas terras, que
conquistava, edificou mais egrejas ricas, que Paços
Reaes, e casas pobres: bem o seguiram os mais de seus
descendentes em differente modo. D. Pedro o justiçoso
com os pobres, que até a manga do braço direito mandava
fazer mais larga, e comprida, para alcançar a todos
no fazer mercês, como o mesmo rei dizia. Seu filho
el-rei D. João o I, foi tão liberal com os vassallos
que o serviram, que deixara sem patrimonio a corôa,
se el-rei D. Duarte seu filho não fizera a lei mental,
com que limitou sua largueza. El-rei D. Manuel com os
poderes de sua riqueza, e a magnificencia de sua condição
assombrou as nações extranhas, e ao nome portuguez
fez mais honrado. A castidade mais excellente,
e formosa parece guarnecida de ouro, que nos humildes
trajos da pobreza; e por isso foi tão louvada em
Scipião, que poderoso, rico, e vencedor, quando entrando
Carthago lhe offereceram captiva uma formosa
dona, e bem nascida, em logar de gosar d'ella a mandou
honradamente acompanhada a seu marido com o
resgate, que por sua liberdade lhe offereciam. Não faltou
esta excellencia em muitas donzellas do sangue
real d'este reino, que, deixando riquissimos dotes da
ventura, offereceram a Deus este da natureza. E se é
celebrado el-rei D. Affonso o Casto em Hespanha, não
desmerecia este nome o rei portuguez, que persuadido
de seu valoroso animo, e errado conselho, perdeu a vida
nos campos africanos. A paciencia quanto é mais louvavel
e excedente no poderoso rico, que no miseravel,
em quem não tem execução a ira, nem a vingança.
Rico e poderoso no mundo era Filippe, rei de Macedonia,
que perguntando aos embaixadores athenienses o
que lhe queriam, respondeu com inconsideravel liberdade
um d'elles, que
vêl-o sem vida; e elle voltando aos
outros com muita brandura disse:
Dizei aos Athenienses
que mais modesto é quem soffre essas palavras, que os
sabios de Athenas, de quem elles se prezam. E se contam
d'el-rei D. Affonso I, rei de Napoles, que, sabendo que
um creado seu dizia mal d'elle, lhe fez muitas mercês,
com que elle obrigado disse depois de suas obras mil
louvores; e o rei avisado d'isto disse:
Folgo que esteja
em minha mão dizerem bem de mim: tambem houve rei em
Portugal que em muitas occasiões usou o mesmo termo,
como se verá da chronica d'el-rei D. João o II, e de
muitas memorias do III, não esquecendo a paciencia
d'el-rei D. Diniz com seu filho, e a d'el-rei D. Pedro,
sendo principe, com seu pae. A temperança medida
por vasos de ouro, e ainda á vista d'elle, é mais estimada:
como a de Curio, que com o ouro dos Samnitas
deante não deixou a panella de couves, e nabos que
cozinhava; antes respondeu aos que lh'o traziam, que
não era necessario a quem com tão humildes viandas
se sustentava. A sobriedade, e temperança nos nossos
reis naturaes é tão louvada, que de mui poucos sabemos
que bebessem vinho, e de nenhum que comesse
demasiado: e tanto pareceu isto bem ás nações extrangeiras,
que a imperatriz D. Leonor, filha d'el-rei D. Duarte
de Portugal, e mulher de Frederico III, Imperador
de Allemanha, não tendo geração, e averiguando os
medicos que por a frialdade d'aquella provincia não
concebia, porém que, se bebesse vinho, teriam filhos;
ella não consentio no remedio: e Frederico disse que
antes queria sua mulher esteril, que mal acostumada.
A caridade, subida sobre columnas de ouro, se levanta
sobre as estrellas; e ainda nos que sem lume da Fé a
conheceram, com o poder do ouro a sustentaram: como
Cimon Atheniense, poderoso, e rico, que mandava abrir
as portas aos jardins e pomares, que tinha para que
entrassem livremente os necessitados a colher seus
fructos: mandava aos seus que, achando algum velho
mal vestido trocassem com elle os seus para o melhorarem;
dava todos os dias banquete publico aos que
mendigavam pela cidade: e aos pobres de qualidade
sustentava com esmolas secretas. Não fôram n'isto os
nossos reis e principes portuguezes inferiores, como o
testemunham os varios hospitaes, mosteiros, casas de
caridade, e santos costumes, que deixaram n'este reino,
para agasalhar peregrinos, sustentar, e vestir pobres,
e curar enfermos e feridos: no que fôram, entre os outros,
insignes os reis D. Affonso I, D. João I, II, e III, e o
insigne cardeal e devoto rei D. Henrique. Á diligencia
com muita razão lhe calçáram os antigos esporas douradas,
pois o duro estorvo da pobreza, como pintou Alciato,
impede as azas e limita os passos á diligencia.
Com ouro e com os poderes d'elle conquistaram Alexandre,
e Cesar em mui limitados annos a redondeza:
o nosso rei D. Diniz com os poderes d'elle accrescentou
em seu reino quarenta e quatro villas com castellos,
e fortalezas; izentou a Ordem de S. Thiago de Portugal;
e instituio a de Christo; e fez os primeiros estudos
de Coimbra. E os reis D. João, e D. Manuel descobriram,
e ganharam para a Fe as terras do Oriente
com tanta inveja, como espanto das nações extrangeiras.
De maneira que, se os avarentos, que usam mal
do ouro e das riquezas, guerream com elle contra as
virtudes, nenhuma cousa ha que tanto como elle as
engrandeça e alevante. E se os cubiçosos na sua conquista
perdem tantas vidas, muitas mais se compram,
e resgatam a preço d'elle. E deixando o balsamo de
ouro, tão admiravel nas feridas, o ouro potavel, tão celebrado
dos distilladores nas enfermidades; qual risco
da vida, qual perigo ou necessidade d'ella, qual oppressão
ou captiveiro não remio o ouro? Elle faz a formosura
das cidades, a belleza dos edificios, a fortaleza
dos exercitos, a bizarria dos trajos, a galanteria das
côrtes: com elle se alcançam n'ellas as honras, dignidades,
titulos, e privanças, e até os louvores e as mesmas
graças da natureza: todos o buscam, o desejam,
e o conquistam: e ainda os outros metaes se querem
converter n'elle por meio de alquime; os animaes se
rendem á sua formosura; pois não ha caça mais certa
que a que se toca com laço de ouro, nem melhor pescaria
que a que se alcança com anzol d'elle: e é tão
grande a fôrça de seus poderes, que se atreveu a dizer
um auctor, que na maior furia de um leão, de um tigre,
e de outra qualquer féra, se lhe lançarem moedas
de ouro deante, amansarão com ellas sua braveza. E
passando por todas as cousas da terra sua valia, podem
os ricos subir ao céo por escadas de ouro, e dar-lhe com
elle assalto e bataria, pondo as balas e settas d'este
metal nas mãos da caridade. E de elle se subir em tanta
altura nasce ficar de mim tão longe, como está de ser
digno de seus louvores meu humilde talento, que, se
fôra de tão illustre metal, tudo alcançara.
A todos pareceu extremada a oração de Solino, posto
que alguns a esperavam menos grave, e mais engraçada:
e assim lhe disse Leonardo:—Parecestes-me esta
noite mais orador insigne, que murmurador galante.
Folgo que, errando eu a eleição, acertasseis vós tambem
os louvores.—Não vos agradeço (respondeu elle) os
que me daes; por quanto d'antemão vos vingastes d'elles.
Porém se quereis vêr em outrem com gravidade o
que de mim esperaveis como satyra e agudeza, pois
os bens e males do ouro estão encetados; diga o senhor
prior agora os poderes do interesse, que no successo
da sua peregrina achará largo campo para esta materia.—Essa
é mui larga (disse o prior) e são passadas muitas
horas da noite; e eu me não escusara com ellas, se
não imaginara que todas as verdades, que cahem sobre
este sujeito, hão de parecer murmuração. Porque
dizer que o interesse tudo vence, e a tudo alcança, é
sentença antiga, e experiencia moderna; porém, se particularisar
os modos e termos, com que batalha, será
ir com os dedos aos olhos de muitos. Se disser que o
interesse quebrou muitos sceptros reaes, quem se defenderá
d'elles? Se affirmar que torce, e derriba varas
da justiça, quantas se virarão para castigar-me? Se
ousar a dizer que profana as leis, e offende a immunidade
das egrejas, temo que até na minha me neguem
a entrada. Se contar que é carta de seguro de salteadores,
couto de homicidas, torre do facinorosos, e merecimento
de descuidados, quantos se levantarão contra
minha verdade? Só direi em um conto breve o que
de sua valia se pode presumir na necessidade; e será
julgar pelas unhas o leão, e pela pisada de Hercules a
medida de sua grandeza.
Um homem curioso, bem intencionado, e não mal
entendido, andou alguns annos na milicia do Oriente:
e vindo d'elle a este reino para se despachar, trouxe
entre algumas cousas de menos valia, que curiosidade,
umas imagens de santos, e anjos de marfim, maravilhosamente
obrados. E depois de entrar em seu requerimento,
deu conta a um amigo, pratico nas cousas da
côrte, do estado de seus negocios; aconselhou-o elle
como convinha e buscando entre o movel, que trouxera,
peça que podesse offerecer a um ministro, com
quem tinha intelligencia, lhe inculcava aquelles santos
de marfim, que o tinham muito affeiçoado.—Como
(disse elle) não trouxestes da India algum pagode, ou
idolo de ouro d'esses gentios?—Para que? lhe perguntou
o pouco esperto requerente.—Ah, respondeu
o amigo, que para o que vós pretendeis, e cá se costuma,
Mais podem diabos de ouro, que anjos de marfim. E
assim não me parece que está mal o dito vulgar do
povo,
que o interesse é diabo. E pois o tempo é tão
curto,
seja isto uma cifra do que se pode dizer de seus poderes;
que são tão grandes, que a mim me tiram a liberdade
de falar, contra o desejo que tenho de vos obedecer.
E sendo elles taes, e o ouro o principal interesse
de todos, mui bem lhe cabem com os males, que Pindaro
d'elle disse, os louvores com que Solino o celebrou
fazendo a differença sómente no uso d'elle. Que se Santo
Agostinho lhe chamou enfermidade da soberba, fraqueza
das virtudes, materia de trabalhos, perigo do
possuidor, senhor insoffrivel, e escravo atraiçoado;
Santo Ambrosio, laço do demonio; S. Chryzostomo, escola
dos vicios, e doença da alma; e se d'elle nasceu a
Cresso a soberba, a Heliogábalo e Sardanápalo a luxuria,
a Nero a crueldade, a Cómmodo e Vitelio a gula:
se por elle Polycrates morreu na forca, Cresso na fogueira,
Crasso degolado, Heliogábalo arrastrado, e outros
ricos tiveram fins semelhantes; não teve a culpa o
ouro, senão a má avareza de quem o possuia, ou a cubiçosa
sede do que o desejava; pois elle nos animos livres
não impede o caminho das virtudes, antes lhes dá forças,
lustre e grandeza: como em um Constantino Magno, que
enriqueceu a egreja Romana; um Carlos IV, que comprou
com elle a vida; um Emmanuel, que honrou o nome
Portuguez, o dilatou a fé catholica pelo Oriente; um
Lourenço de Medicis, que honrou Florença: um Leonardo
Lauredano, que libertou Veneza; um Carlos Brugi,
que soccorreu a esterilidade de Flandres; e outros muitos,
que o souberam dispender valorosamente. De maneira
que n'elle está a condemnação ou justificação, a
morte ou a vida de quem o possue ou deseja. Para o
que eu acho extremada aquella historia, que toca Auzonio
poeta em um seu epigramma. E é que um homem
desesperado com uma paixão, que teve, se hia enforcar
em um logar secreto, levando comsigo o baraço, em
que havia de deixar a vida. Succedeu que com a força
que fez, cahindo uma parte da terra n'aquelle logar, se
lhe descobrio um thesouro; a cuja vista mudou logo o
pensamento: e, levando o que achara, deixou em seu
logar o baraço que trazia. Vindo depois o que alli o
escondera, e achando-o menos, e em seu logar a tentação
de sua desventura, fez, porque perdera um thesouro,
o que o outro deixou de fazer porque o achara:
de modo que a um deu a vida o ouro, a outro matou a
avareza d'elle.—Com tão boa historia (accudiu D. Julio
levantando-se) é razão que vamos satisfeitos, e deixemos
ao senhor prior bem agazalhado, posto que pelo
interesse de sua conversação deixara eu muitos dos
que os outros desejam; porque se a opinião dos cubiçosos
deu preço ao ouro e pedraria, á conversação dos
sabios o não pode tirar a mesma ventura.