Nota de editor:
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Rita
Farinha (Maio 2012)
Reservados todos os direitos de reproducção nos
paizes que adheriram á Convenção de Berne;
Brasil: Lei n.º 2577 de 17 de Janeiro de 1912;
Portugal: Decreto de 18 de Março de 1911.
HUMUS
DO AUTOR
EDIÇÕES DA RENASCENÇA PORTUGUESA
O Cerco do Porto, contado por uma testemunha,
o Coronel Owen—Prefacio e notas (2.ª ed.).
1817—A Conspiração de Gomes Freire (3.ª ed.).
El-Rei Junot (2.ª ed.).
Memorias, 1.º vol. (2.ª ed.).
Humus (2.ª ed.).
RAUL BRANDÃO
Humus
O que tu vês é bello; mais bello o
que suspeitas; e o que ignoras muito
mais bello ainda.
D'um autor desconhecido.
2.ª EDIÇÃO
EDITORES
Renascença Portuguesa—Porto
ANNUARIO DO BRASIL—RIO DE JANEIRO
AO MESTRE COLUMBANO
13 de novembro
Ouço sempre o mesmo ruido de morte que devagar
roe e persiste...
Uma villa encardida—ruas desertas—pateos
de lages soerguidas pelo unico esforço da erva—o
castelo—restos intactos de muralha que não
teem serventia: uma escada encravada nos alveolos
das paredes não conduz a nenhures. Só uma
figueira brava conseguiu meter-se nos intersticios
das pedras e d'ellas extrae succo e vida. A torre—a
porta da Sé com os santos nos seus nichos—a
praça com arvores rachiticas e um coreto de zinco.
Sobre isto um tom denegrido e uniforme: a
humidade entranhou-se na pedra, o sol entranhou-se
na humidade. Nos corredores as aranhas tecem
imutaveis teias de silencio e tedio e uma cinza
invisivel, manias, regras, habitos, vae lentamente
soterrando tudo. Vi não sei onde, n'um jardim
abandonado—inverno e folhas seccas—entre buxos
do tamanho d'arvores, estatuas de granito
a que o tempo corroera as feições. Puira-as e a
expressão não era grotesca mas dolorosa. Sentia-se
um esforço enorme para se arrancarem á pedra.
Na realidade isto é como Pompeia um vasto
sepulchro: aqui se enterraram todos os nossos
sonhos... Sob estas capas de vulgaridade ha talvez
sonho e dôr que a ninharia e o habito não deixam
vir á superficie. Afigura-se-me que estes
sêres estão encerrados n'um involucro de pedra:
talvez queiram falar, talvez não possam falar.
Silencio. Ponho o ouvido á escuta e ouço sempre
o trabalho persistente do caruncho que roe
há seculos na madeira e nas almas.
15 de novembro
As paixões dormem, o riso postiço creou cama,
as mãos habituaram-se a fazer todos os dias os
mesmos gestos. A mesma teia pegajosa envolve
e neutralisa, e só um ruido sobreleva, o da morte,
que tem deante de si o tempo ilimitado para roer.
Há aqui odios que minam e contraminam, mas
como o tempo chega para tudo, cada anno minam
um palmo. A paciencia é infinita e mete espigões
pela terra dentro: adquiriu a côr da pedra e todos
os dias cresce uma polegada. A ambição não
avança um pé sem ter o outro assente, a manha
anda e desanda, e, por mais que se escute, não
se lhe ouvem os passos. Na aparencia é a insignificancia
a lei da vida; é a
insignificancia que governa
a villa. É a paciencia, que espera hoje,
amanhã, com o mesmo sorriso humilde:—Tem
paciencia—e os seus dedos ageis tecem uma teia
de ferro. Não há obstaculo que a esmoreça.—Tem
paciencia—e rodeia, volta atraz, espera anno
atraz d'anno, e olha com os mesmos olhos sem
expressão e o mesmo sorriso estampado. Paciencia...
paciencia... Já a mentira é d'outra casta,
faz-se de mil côres e toda a gente a acha agradavel.—Pois
sim... pois sim... Não se passa
nada, não se passa nada. Todos os dias dizemos
as mesmas palavras, cumprimentamos com
o mesmo sorriso e fazemos as mesmas mesuras.
Petrificam-se os habitos lentamente acumulados.
O tempo moe: moe a ambição e o fel e torna
as figuras grotescas.
Reparem, vê-se daqui a villa toda... Lá está a
Adelia, o Pires e a Pires como figuras de cera.
Ninguem mexe. N'um canto mais escuro a prima
Angelica não levanta a cabeça de sobre a meia.
Tanta inveja ruminou que desaprendeu de falar.
Chega o chá, toma o chá, e apega-se logo á mesma
meia, a que mãos caridosas todos os dias desfazem
as malhas, para ella, mal se ergue, recomeçar a
tarefa. Um dia—uma semana—um seculo—e só
o pendulo invisivel vae e vem com a mesma regularidade
implacavel—p'ra a morte! p'ra a morte!
p'ra a morte!
Passou um minuto ou um seculo? Sobre o granito
salitroso assenta outra camada denegrida, e
as horas caem sobre a villa como gôtas d'agua
d'uma clepsydra. De tanto vêr as pedras já não
reparo nas pedras. A morte roda na ponta dos
pés e ninguem ouve seus passos. Todos os dias
os leva, todos os dias toca a finados. O nada á espera
e a D. Procopia a abrir a boca com somno,
como se não tivesse deante de si a eternidade para
dormir. Tudo isto se passa como se tudo isto não
tivesse importancia nenhuma, tudo isto se passa
como se tudo isto não fôsse um drama e todos os
dramas, um minuto e todos os minutos...
Não há annos, há seculos que dura esta bisca
de tres—e os gestos são cada vez mais lentos.
Desde que o mundo é mundo que as velhas se
curvam sobre a mesma meza do jogo. O jogo banal
é a bisca—o jogo é o da morte... O candieiro
ilumina e a sombra roe as phisionomias,
a magestosa Theodora, a Adelia, a Eleutheria
das Eleutherias, o padre. Salienta-se do escuro uma
boca que remoe, a da D. Bibliotheca. Os padres
exaltam-na, a Egreja exalta a sua caridade, que
rebusca a desgraça para lhe dar tres vintens. Só
destingo, despegadas dos craneos, as orelhas do
respeitavel Elias de Melo e do impoluto Melias de
Melo, lividos como dois fantasmas. Ambos regulam
a consciencia como quem dá corda a um relogio.
Dividas são dividas. Tudo isto parece que fluctua
debaixo d'agua, que esverdeia debaixo d'agua.
A luz do candieiro ilumina as mãos da D. Leocadia,
que põe acima de tudo o seu dever, e
que leva para casa uma orfã a quem sustenta e
que lhe entrapa as pernas: osseas e seccas enchem
a sala toda, o mundo todo...
Não sei bem se estou morto ou se estou
vivo... Decorre um anno e outro anno ainda.
O relento sabe bem, e o tempo passa,
o tempo gasta-as como o salitre aos santos
nos seus nichos. Se o desespero augmenta
não se traduz em palavras. A D. Procopia odeia
a D. Bibliotheca, mas nem ella sabe o que está por
traz d'aquelle odio, contido pelo inferno. Toda a gente
se habitua á vida. Matar matava-a eu, mas varias
palavras me deteem. Detem-me tambem um nada...
Chegamos todos ao ponto em que a vida se
esclarece á luz do inferno. Mas ninguem arrisca
um passo definitivo.
As velhas com o tempo adquiriram a mesma
expressão, com o tempo chegaram a temer um
desenlace. Debruçadas sobre a meza as figuras
não bolem. Não bolem outras figuras que se envolvem
no escuro, e o que me interessa não são as
palavras do padre—Jogo;—nem o que a Adelia
diz baixinho á Eleutheria, para que a velha temerosa
ouça:—A nossa Theodora está cada vez mais
moça!...—o que me interessa são as figuras invisiveis:
é a dôr d'essas figuras imoveis, e sobre
ellas outra figura maior, curva e atenta, que ha seculos
espera o desenlace.
A villa petrifica-se, a villa abjecta cria o mesmo
bolor. Mora aqui a insignificancia e até á
insignificancia o tempo imprime caracter. Moram
na viella ingreme e cascosa, que revê humidade
em pleno verão, velhas a quem só restam
palavras, presas, alimentadas, encarniçadas, como
um doido sobre uma corôa de lata que lhes enche
o mundo todo. Mora d'um lado o espanto, do outró
o absurdo. E todos á uma afastam e repelem de si
a vida. Mora aqui a Telles que passa a vida a limpar
os moveis, só e fechada com os moveis reluzentes,
talvez resto d'um sonho a que se apega com
desespero, e velhas só mesuras, só baba, só rancor.
Ter uma mania e pensar n'ella com obstinação!
Creal-a. Ter uma mania e vêl-a crescer como um
filho!... Mora aqui a D. Restituta, sempre a
acenar que sim á vida, e a Ursula, cuja missão no
mundo é fazer rir os outros.
Cabem aqui sêres que fazem da vida um habito
e que conseguem olhar o céo com indiferença
e a vida sem sobresalto, e esta mixordia de ridiculo
e de figuras somiticas. Mora aqui, paredes
meias com a colegiada, o Santo, que de quando em
quando sae do torpôr e clama:—O inferno! o
inferno!—Moram as Telles, e as Telles odeiam
as Souzas. Moram as Fonsecas, e as Fonsecas passam
a vida, como bonecas desconjuntadas, a fazer
cortezias. Moram as Albergarias, e as Albergarias
só teem um fim na existencia: estrear todos
os semestres um vestido no jardim. Moram os
que moem, remoem e esmoem, os que se fecham á
pressa e por dentro com uma mania, e os que
se aborrecem um dia, uma semana, um anno, até
chegar a hora pacata do solo ou a hora tremenda da
morte.
Mora aqui o egoismo que faz da vida um casulo,
e a ambição que gasta os dentes por casa, o que enche
a existencia de rancores e, atraz d'anno de chicana,
consome outro anno de chicana. Cabem aqui
dentro as velhas scismaticas, atraz de interesses, de
paixões ou de simples ninharias, dissolvendo-se no
ether, e logo substituidas por outras velhas, com
as mesmas ou outras plumas nos penantes, com os
mesmos ou outros ridiculos, fedorentas e maniacas;
os homens a quem se foram apegando pela vida
fóra dedadas de mentira, promptos para a cova—e
o Gabiru e o seu sonho. Cabe aqui o ceu e as
lambisgoias com as suas mesuras, a morte e a
bisca de tres. E cabe aqui tambem uma velha
creada, que se não tira deante dos meus olhos.
Obsidia-me. Carrega. Obedece. Serve as outras velhas
todas. A Joanna é uma velha estupida.
Serviu primeiro na villa, serviu depois na cidade.
Serviu um anthropologista exotico, que fundira
cem contos a juntar caveiras, e de quem a
Joanna dizia ao amollecer-lhe os edêmas dos pés:—Este
senhor é um 2.º Camões!—Serviu a D.
Herminia e a D. Hermengarda. Serviu com uma
saia rôta, as mãos sujas de lavar a louça, uma
camisa, os usos e seis mil reis de soldada. Lavou,
esfregou, cheira mal. Serviu o tropel, a miseria,
o riso, que caminha para a morte com um vestido
d'aparato e um chapeu de plumas na cabeça.
Para contar fio a fio a sua historia bastava dizer
como as mãos se lhe fôram deformando e creando
ranhuras, nodosidades, codeas, como as mãos se
foram parecendo com a casca d'uma arvore. O
frio gretou-lh'as, a humidade entranhou-se, a lenha
que rachou endureceu-lh'as. Sempre a comparei
á macieira do quintal: é inocente e util e não ocupa
logar. A vida gasta-a, corroem-na as lagrimas, e
ella está aqui tal qual como quando entrou para
casa da D. Hermengarda. Faz rir e faz chorar.
Os meninos borraram-na—adorou os meninos. Os
doentes que ninguem quer aturar, atura-os a Joanna.
Já ninguem extranha—nem ella—que a
Joanna aguente, e a manhã a encontre de pé, a rachar
a lenha, a acender o lume, a aquecer a agua.
Há sêres creados de proposito para os serviços
grosseiros. Por dentro a Joanna é só ternura,
por fóra a Joanna é denegrida. A mesma fealdade
reveste as pedras. Reveste tambem as arvores.
É uma velha alta e secca, com o peito raso.
O habito de carregar á cabeça endireitou-a como
um espeque, o habito das caminhadas espalmou-lhe
os pés: a recoveira assenta sobre bases solidas.
Parece um homem com as orelhas despegadas
do craneo e olhos inocentes de bicho. É d'estas
creaturas que dão aos outros em troca da soldada
o melhor do seu sêr, que se apegam aos filhos
alheios e choram sobre todas as desgraças. E
ainda por cima dedicam-se, e quando as mandam
embora, porque não teem serventia, põem-se
a chorar nas escadas.—É preciso escodeal-a—asseverou
a D. Hermengarda quando
lhe foi em pequena para casa. Escodeia-a. Noite
velha e já ella bate de cima com a tranca no
soalho, a chamal-a.—E não te servindo a porta
da rua é a serventia dos cães.—Mas ella
apega-se. Nunca teve outra ama como aquella senhora.
Venera-a. Annos depois diz das pancadas:—Merecia-as.—Já
não é preciso chamal-a: a Joanna
ergue-se n'um sobresalto, alta noite, noite
negra, e dorme com um olho fechado e outro aberto.
Velha, tonta, abre de quando em quando os
olhos, põe o ouvido á escuta num movimento
instinctivo, á espera de uma imaginaria ordem:
ouve sempre a voz da D. Hermengarda a chamal-a.
Mal se comprehende que depois d'uma vida
inteira, esta mulher conserve intacta a inocencia
d'uma creança e o pasmo dos olhos á flôr do
rosto. Trambulhões, fome, o frio da pobreza—o
peor—e, apezar de amolgada, com uma saia de
estamenha, no pescoço pelles, as mãos gretadas
de lavar a louça, uma coisa que se não exprime
com palavras, um balbuciar, um riso... Misturou
á vida ternura. Misturou a isto a sua propria vida.
Aqueceu isto a bafo.
Tem as mãos como cepos.
16 de novembro
Debaixo d'estes tectos, entre cada quatro paredes,
cada um procura reduzir a vida a uma insignificancia.
Todo o trabalho insano é este: reduzir
a vida a uma insignificancia, edificar um muro
feito de pequenas coisas deante da vida. Tapal-a,
escondel-a, esquecel-a. O sino toca a finados, já
ninguem ouve o som a finados. A morte reduz-se
a uma cerimonia, em que a gente se veste de luto
e deixa cartões de visita. Se eu podesse restringia
a vida a um tom neutro, a um só cheiro, o môfo,
e a villa a côr de mataborrão. Seres e coisas criam
o mesmo bolôr, como uma vegetação cryptogamica,
nascida ao acaso n'um sitio humido. Teem o seu
rei, as suas paixões e um cheirinho suspeito.
Desaparecem, resurgem sem razão aparente d'um
dia para o outro n'um palmo do universo que se
lhes afigura o mundo todo. Absorvem os mesmos
saes, exhalam os mesmos gazes, e supuram uma
escorrencia phosphorecente, que corresponde talvez
a sentimentos, a vicios ou a discussões sobre
a imortalidade da alma.
Sempre as mesmas coisas repetidas, as mesmas
palavras, os mesmos habitos. Construimos ao
lado da vida outra vida que acabou por nos dominar.
Vamos até á cóva com palavras. Submetem-nos,
subjugam-nos. Pesam toneladas, teem a espessura
de montanhas. São as palavras que nos
conteem, são as palavras que nos conduzem. Toda
a gente forceja por crear uma atmosfera que a
arranque á vida e á morte. O sonho e a dôr revestem-se
de pedra, a vida consciente é grotesca,
a outra está assolapada.
Remoem hoje, amanhã, sempre as mesmas palavras
vulgares, para não pronunciarem as palavras
definitivas. Toda a gente fala no céo, mas
quantos passaram no mundo sem ter olhado o
céo na sua profunda, na sua temerosa realidade?
O nome basta-nos para lidar com elle. Nenhum
de nós repara no que está por traz de cada sylaba:
afundamos as almas em restos, em palavras, em
cinza. Construimos scenarios e convencionamos que
a vida se passasse segundo certas regras. Isto é
a consciencia—isto é o infinito... Está tudo catalogado.
Na realidade jogamos a bisca entre a
vida e a morte, baseados em palavras e sons.
E, como a existencia é monotona, o tempo chega
para tudo, o tempo dura seculos. Formam-se assim
lentamente crostas: dentro de cada sêr, como
dentro das casas de granito salitroso, as paixões
tecem na escuridão e no silencio, teias de escuridão
e de silencio. Na botica somnolenta ao pae succede
o filho sobre o taboleiro de gamão. Quero resistir,
afundo-me. Começo a perceber que o habito é que
me fez suportar a vida. Ás vezes acordo com este
grito:—A morte! a morte!—e debalde arredo
o estupido aguilhão. Choro sobre mim mesmo como
sobre um sepulchro vazio. Oh como a vida peza,
como este unico minuto com a morte pela eternidade
peza! Como a vida esplendida é
aborrecida
e inutil! Não se passa nada! não se passa nada e
eu sinto aqui ao lado outra vida que me mete medo
e que não quero vêr. Essa vida talvez seja a minha
verdadeira vida. Mas o peor é que eu percebo
que, se se apodera de mim, não posso mais viver.
Agarro-me com desespero ao habito e ás palavras.
Tu não existes! tu não existes! O que existe é
isto com que lido todos os dias, as palavras que
digo todos os dias, os sêres com quem falo todos
os dias.—E tu rodeias-me, tu reclamas-me e
queres viver comigo para todo o sempre. Não
te posso vêr!...
Se há momentos em que o caixão que um
galego leva ás costas me chama á realidade, ao
espanto, desvio logo o olhar e reentro á pressa
na vida comesinha. Finjo que sorrio e esqueço.
Mas sempre não posso! Anno atraz d'anno não
posso! Não há mais nada! não há mais do que
estas figuras paradas, e as horas verdes que de
espaço a espaço caem como gôtas d'agua no fundo
d'um subterraneo. Outro anno ainda! outro passo
ainda para a morte! Sinto uma dôr sem gritos
por traz da immobilidade. Cada hora é menos uma
hora na minha vida. E o tempo foje, o tempo côr
de mataborrão que ao granito salitroso junta camada
denegrida, e ás almas sepultadas outra pazada
de cinza... Há momentos em que as figuras
teem tanta vida como os santos imoveis nos
seus nichos—mas há momentos em que cada um
redobra de proporções, há momentos em que a
vida se me afigura iluminada por outra claridade.
Há momentos em que cada um grita:—Eu
não vivi! eu não vivi!—Há momentos em
que deparamos com outra figura maior que nos
mete medo. A vida é só isto? Por mais que
queira não posso desfazer-me de pequenas acções,
de pequenos ridiculos, não posso desfazer-me de
imbecilidades nem d'este sêr esfarrapado que vae
de pólo a pólo. Tenho de aturar ao mesmo tempo
esta idéa e este gesto ridiculo. Tenho de ser grotesco
ao lado da vida e da morte. Mesmo quando
estou só o meu riso é idiota. E estou só e a noite.
Por traz daquella parede fica o céo infinito. Para
não morrer d'espanto, para poder com isto, para
não ficar só e o doido, é que inventei a insignificancia,
as palavras, a honra e o dever, a consciencia
e o inferno.
E ainda o que nos vale são as palavras, para
termos a que nos agarrar.
É então um mundo de formulas a que eu
obedeço e tu obedeces? Sem elle não poderiamos
existir. Se vissemos o que está por traz não podiamos
existir. O nosso mundo não é real: vivemos
n'um mundo como eu o comprehendo e o
explico. Não temos outro.
Estamos aqui
como peixes
n'um aquario. E sentindo que há outra vida
ao nosso lado, vamos até á cóva sem dar por
ella. E não só esta vida monstruosa e grotesca
é a unica que podemos viver, como é a unica que
defendemos com desespero.—Pois sim... pois
sim...—Estamos aqui a representar. Estamos
aqui todos ao lado da morte e do espanto a jogar
a bisca de tres. Estamos aqui a matar o tempo.
Este passo, que é unico e um só, damol-o como
se fosse uma insignificancia. Mais fundo: não
existem senão sons repercutidos. Decerto não passamos
de echos. Submeto-me, subjugas-me. Já não
reparo, já vejo turvo.—Jogo!—E de repente
todo o meu sêr é sacudido pelo espanto que tacteia
á minha roda. Raras vezes entramos em contacto,
mas sinto-o aqui ao meu lado—sem nos chegarmos
a entender. Nem quero! nem quero! Se me alheio
um momento dou um grito de dôr. Escaldo-me.
Na verdade o que eu não posso é vêr, o que eu
não quero é vêr! A villa regula-se por habitos e
regras seculares—mas há outra coisa enorme
para lá do scenario de que me rodeio. Para não
ter medo criei eu isto, para a não vêr criou o Santo
o inferno. Há outra coisa esfarrapada e dorida.—Jogo!—Cada
vez me sinto mais reles, cada vez
as palavras me parecem mais gastas. Há outro
sêr que vae de pólo a pólo... Esta figura grotesca
não é a minha figura. O salitre roeu os santos
nos seus nichos—roeu-os tambem o sonho...
Curvado sobre a mesa repito os mesmos gestos
inuteis para não desatar aos gritos.—Jogo!—Isto
para fingir que é indiferente o que nos rodeia,
que estamos habituados ao que nos rodeia, que
sorrimos ao que nos rodeia! Está alli a morte—está
aqui a vida—está aqui o espanto—e só a
ninharia consegue deitar raizes profundas.
20 de novembro
Fecho os olhos. A chuva desaba interminavelmente
do céo, e na luz turva vejo sempre a
villa, com as mesmas figuras de museu sentadas
na mesma sala... Insignificancia, insignificancia,
insignificancia. Portas chapeadas que rangem
nos gonzos como portas de prisão, fachadas
com os vidros partidos, e uma, duas, tres camadas
de pó sobrepostas. Lojas terreas d'onde vem um
bafo humido que trespassa... Como todas as almas,
todas as janelas estão perras, e o tempo vae substituindo
uma figura por outra figura, uma pedra
por outra pedra. Ponho-as em fila deante de mim,
com os seus penantes usados, grotescas e maniacas.
Considero. Vejo vir os gestos, as cortezias,
as acções do confim dos seculos. Isto é nada—é
vulgar e quotidiano. É uma aparencia.
A villa é um simulacro. Melhor: a vida é um
simulacro.
Atraz desta villa há outra villa maior. A
lentidão, o gesto usado, a meia tinta mesmo em
plena luz, toldam-me a visão. Sobre cada sêr cahiu
uma camada de pó. A villa é isto—e a villa
não é isto. Que me importa a Adelia, um dia d'inveja,
um dia de aquiescencia, um sorriso, baba,
mesura atraz de mesura? Outra velha mexe por
traz desta velha mesquinha. As lettras assignadas,
as lettras protestadas d'este sêr absorto, o
exagero minusculo, teem outra significação. A realidade
é a manha, a astucia que cada um
põe em
jogo. Não há velhas com cartas na mão; há orgulho,
soberba, inveja paciente. Há intuitos, cautela
de quem caminha na ponta dos pés. Há forças
e experiencia, avareza e astucia. E mais fundo
outro, outro sobterraneo... Todas as palavras que
se empregam teem, além da significação banal,
uma significação que cada um peza e calcula,—e
outra significação superior. Há palavras que
requerem uma pausa e silencio, e há palavras
que é preciso afundar logo n'outras palavras.
Há pelo menos dois sêres n'este homem que toda
a gente conhece, pautado, regrado, methodico.
Elle e o doido morto por fazer esgares. Elle e
o doido que só consegue comprimir á força de
pontualidade. Esta velha não é a velha com quem
lidamos—é outra. Tem tido um trabalhão para
fazer mal, nunca conseguiu fazel-o. Se se arrisca,
há-de contar comsigo mesma para se contrariar.
É uma discussão que não acaba, com a bocca amarga,
arrependimento—e por fim não realisa uma
catastrophe authentica, que a engrandeça. Curvada
sobre o lar remexe sempre as mesmas cinzas
frias...
Todos se defendem. Por isso existe uma certa
grandeza em repetir todos os dias a mesma coisa.
O homem só vive de detalhes e as manias teem
uma força enorme: são ellas que nos sustentam.
Reparo melhor na vida secreta e na vida
subterranea. Comprehendo como é dificil viver todos
os dias e todas as horas, como atravez de tudo
é forçoso seguir um fio invisivel—e ser reles e
sorrir. Gasta-me uma força superior, e com todas
as chagas e todos os vicios, com a vida mesquinha
e a vida quotidiana, o nada, o penante usado,
o fel e o vinagre, tenho de arcar com uma coisa
immensa de que me separa apenas um tabique.
Tudo o que faço é um arremedo. Está alli outra
coisa quando falo, quando me calo, quando me rio.
E falo mais alto porque a ouço mexer... Todos
suportam o drama de todos os dias, o cinzento de
todos os dias, as aflicções e a usura que tornam
as figuras ridiculas e coçadas. Todos suportam
os tratos que envelhecem e preparam para a cóva,
os pequenos interesses, a inveja, a ambição, a
dôr phisica. Todos os dias a Hermengarda amarga
os brazões da Bibliotheca, a Bisborria todos os
dias scisma na sua respeitabilidade, e aturam o
azedo que pouco e pouco se deposita nas almas—e
com isto uma coisa desconforme, que se levanta
e deita comnosco, não se tira do nosso lado,
em quem ninguem fala e com quem temos por
força de cohabitar; deante de quem é forçoso
ser vulgar e dissimulado, fazendo que a não vemos
e com ella á cabeceira da cama...
Atraz da insignificancia andam os céos, os
mundos, os vagalhões doirados. Anda o desespero.
Anda o
instincto feroz. Atraz disto
andam as enxurradas
de soes e de pedras, e os mortos mais
vivos do que quando estavam vivos. Atraz do tabique
e das palavras anda a Vida e a Morte e outras
figuras tremendas. Atraz das palavras com que
te iludes, de que te sustentas, das palavras magicas,
sinto uma coisa descabelada e phrenetica,
o espanto, a mixordia, a dôr, as forças monstruosas
e cegas.
Em certas ocasiões, se as palavras e a insignificancia
desaparecessem da vida, só ficava de pé
o espanto.
Só a insignificancia nos permite viver. Sem
ella já o doido que em nós prega, tinha tomado
conta do mundo. A insignificancia comprime uma
força desabalada.
Para não vêr, para não ouvir, é que nos curvamos
sobre a mesa de jogo. Para te não ouvires
a ti mesmo, para não vêres o que te gasta a todos
os minutos e a todas as horas, usura immensa
que não sentes e que te vae levar para o escantilhão
sofrego, que te vae mergulhar no silencio
profundo. Usura de todos os instantes. Gasta-nos,
desgasta-nos. E todos os dias acordamos mais
velhos, todos os dias acordamos mais inuteis. Todos
os dias acordamos com mais fél. E todos os
dias com mesuras, sem gritos de terror, nos curvamos
sobre esta mesa de jogo, não vendo, fingindo
que não existe, o espanto que está ao nosso
lado, e o espanto peor que trazemos comnosco.
Chama-se a isto o quotidiano. Isto não tem importancia
nenhuma. Com isto enchemos a vida até
chegar a morte. Esta mesa de jogo é a nossa
existencia vulgar, a vida de todos os dias, com o
galope da outra vida ao lado. Não se passa nada!
Não se passa nada! No verão o calor sufoca,
d'inverno a mesma nuvem impregna
o granito, e apega-se, amollece, dissolve pilares
das janellas, casebres e a oliveira da
praça, só tronco e duas folhinhas cinzentas.
Em volta um circulo de montanhas, descarnadas
e atentas, espera a tragedia—e as montanhas
não desistem. De quando em quando, na solidão
que á noite redobra, cahem do alto da Sé as badaladas,
uma a uma, pausa a pausa. O som tem
um peso desconforme.
Estamos aqui todos á espera da morte! estamos
aqui todos á espera da morte!
6 de dezembro
Chove. Cada vez vejo mais turvo, cada vez
tenho mais medo. Estamos enterrados em convenções
até ao pescoço: usamos as mesmas palavras,
fazemos os mesmos gestos. A poeira entranhada
sufoca-nos. Pega-se. Adhere. Há dias em
que não distingo estes sêres da minha propria
alma; há dias em que atravez das mascaras vejo
outras phisionomias, e, sob a impassibilidade, dôr;
há dias em que o céo e o inferno esperam e desesperam.
Presinto uma vida oculta, a questão é fazel-a
vir á supuração.
Esta manhã de chuva é um minuto no rodar
infinito dos seculos, e os sêres que passam meras
sombras. Tudo isto me pesa e pesa-me tambem
não viver. Do fundo de mim mesmo protesto
que a vida não é isto. A arvore cumpre, o bicho
cumpre. Só eu me afundo soterrado em cinza.
Terei por força de me habituar á aquiescencia
e á regra? Crio cama e todos os dias sinto a usura
da vida e os passos da morte mais fundo e mais
perto.
—É necessario abalar os tumulos e desenterrar
os mortos.
É o Gabiru que se põe a falar sem tom nem
som. Um homem absurdo. Olhos magneticos de
sapo. É uma parte do meu sêr que abomino, é a
unica parte do meu sêr que me interessa. Ás vezes
deita-me tinta nos nervos. Fala quando menos
o espero. Chamo-o, não comparece. Se quero
ser pratico, gesticula dentro do casaco arripiado:—A
alma! a alma!—Singular philosopho! É capaz
de desejar a morte para vêr o que há lá dentro;
é capaz de achar vulgares até as coisas eternas.
Ao lado da vida constroe outra vida. Sonha,
e os seus sonhos são sempre irrealisaveis, transformam-se-lhe
nas mãos em barro informe. Toda
a gente se ri—já sonha outra vez... Para elle
a vida consiste, encolhido e transido, em embeber-se
em sonho, em desfazer-se em sonho, em atascar-se
em sonho. Mezes inteiros ninguem lhe
arranca palavra, dias inteiros ouço-o monologar
no fundo de mim proprio. Ignora todas as realidades
praticas. Na arvore vê a alma da arvore,
na pedra a alma da pedra. Deforma tudo. Põe a
mão e molha. Destinge sonho...
—A alma—diz elle—ao contrario do que
tu supões, a alma é exterior: envolve e impregna
o corpo como um fluido envolve a materia.
Em certos homens a alma chega a ser visivel,
a athmosphera que os rodeia toma côr. Há sêres
cuja alma é uma continua exhalação: arrastam-na
como um cometa ao oiro esparralhado da cauda—immensa,
dorida, phrenetica. Há-os cuja alma
é d'uma sensibilidade extrema: sentem em si todo
o universo. D'ahi tambem simpathias e antipathias
subitas quando duas almas se tocam, mesmo
antes da materia comunicar. O amor não é senão
a impregnação d'esses fluidos, formando uma só
alma, como o odio é a repulsão d'essa nevoa sensivel.
Assim é que o homem faz parte da estrella
e a estrella de Deus. Nos vegetaes, nas arvores,
a alma é interior, pequenina emoção, pequenina
alma ingenua e humilde, que se exteriorisa em
ternura a cada primavera: tocada pelo grande
fluido esparso, onde andam as nossas lagrimas,
vem á tona em oiro e verde, em deslumbramento.
Nos mineraes, na pedra concentrada e recalcada,
que dôr inconsciente, que esforço cego e mudo
por não poder abalar as paredes e comunicar com
a alma do universo! A pedra espera ainda dar
flôr.
Para elle estas coisas ethereas são visiveis.
Vê tão exactamente como eu te vejo a ti a paixão,
o odio, o amor, os grandes fluidos desgrenhados
d'oiro, de piedade e de genio. Há noites em que
não resisto: fecho-me com elle a sete chaves.
Tem-me estragado tudo. É o doido que em nós
préga e nos deixa aturdidos. Ás vezes consigo
afastal-o, mas succede que fico sempre com pena:
se o ouvisse talvez fosse mais feliz e mais desgraçado...
Desdenho-o, e sinto-lhe a falta quando
o não tenho ao pé de mim. Deita-me a perder
se me apanha desprevenido. Quasi sempre é elle
quem manda em minha casa, e, mesmo quando
falo como toda a gente fala, e quando rio
como toda a gente ri, só a elle o ouço no mundo.
Diz-me coisas que nunca ouvi, isola-me n'um valle
apertado e scismatico, longe de toda a terra, arrasta-me,
ou desespera-me. Desaparece como um cão
vadio, e quando volta, com lama de todos os caminhos,
folhas de todas as florestas, reflexos de
todos os enxurros, vem exhausto, mudo e feliz.
Vem feliz! É elle que me préga:—Toda a agitação
é inutil. Não tenhas medo da desgraça!—E
eu tenho medo da desgraça. Á força de habito
cheguei a mantel-o no seu logar, mas nunca o
pude suprimir, e quanto mais me aproximo da
morte, mais saudades levo do Gabiru, que me
estragou a vida toda.
Mora n'um velho pardieiro encostado á muralha,
abafado d'um lado pela muralha da villa,
que á noite redobra de porporções. O granito
enegreceu, poliu-o a chuva, e a escadaria de pedra
dá calafrios a quem entra.
—Essa alma, essa alma disforme, que vae
de mundo a mundo, e que em cada sêr realiza
uma primavera é que é tudo. O resto insignificancia.
É ella que nos devora e faz da morte a
vida e da vida a morte...
D'um lado a muralha de dentes arreganhados
para o céo, do outro o sordido pardieiro, no
alto a noite de luar como uma camelia gelada.
Dentro d'isto sonho.
Ponho-me a olhar para elle—ponho-me a olhar
para mim. Passou a vida n'aquella inutilidade,
de que sae a revêr sonho, e com os côtos partidos
a esvoaçar na noite dorida. Primeiro afundou-se
em experiencias do laboratorio, á procura da pedra
philosophal.—Ridiculo. Depois na aplicação
da electricidade aos vegetaes, que se consomem
de febre, que se desentranham em flôr, sem produzirem
fructo.—Grotesco. Agora ninguem o arranca
a infindaveis monologos cahoticos:—A
morte! a morte! a morte!— Incongruencia, obscuridade
e dôr tambem; a dôr de quem vem da irrealidade,
encolhido e transido; a figura estranha
de quem se debate com o sonho e sae da lucta
esfarrapado e doirado. Se o tiram do sonho titubia
e não sabe onde põe os pés. Tem as azas partidas.
Comprehende então a sua inutilidade e desespera-se
até reentrar na nuvem que o envolve.
Puxa a si o misterio, e, entre as arvores e os fios
eletricos que correm todo o quintal e ligam todas
as arvores, ouço a sua voz magnetica, que impregna
de sonho o luar todo branco:
—Isto é um fluido dôr, falta-me condensal-o.
É uma nuvem que envolve tudo, que vem do turbilhão
da Via Lactea, arrasta tudo comsigo, e
ascende em espiral até Deus. Não, a sensibilidade
não é individual, é universal. Basta ferir a sensibilidade,
que vae dos nossos nervos até á Via
Lactea, para transformar as noções do tempo, do
espaço, da vida e da morte—basta deitar dentro
d'um tanque uma gota de vermelho para tingir
toda a agua. Deito-lhe sonho dentro...
7 de dezembro
A villa é tumular e encardida, mas oculta
dentro dos seus muros um sonho desconforme.
Talvez desconexo, mas desconforme. O sonho é
d'elle: a propria casa de granito revê sonho. O
Gabiru mistura, revolve, extrahe sonho do sonho.
Debalde o que é mesquinho lhe mostra os dentes:
o Gabiru não ouve, não vê, não sente. O sonho
isolou-o da propria mulher transida de frio, no casarão
que deu á costa como uma nau do passado,
com o cavername roido pelo mar das trevas.
É um sêr quasi ethereo. Nem sei dizer se existiu,
se a criei; sei que se sumiu n'um sôpro cada
vez mais ephemera, com dois olhos verdes de
espanto. Sei que me pegou sonho, e que fui levado,
perdido, como uma coisa inerte...
Morreu transida de frio. Uma mulher palida—o
que vale um passaro. Ternura e dois olhos
verdes de espanto. Hesita, mal pousa os pés no
chão, chora baixinho, e vae talvez acordal-o, queixar-se...
Não se atreve, e esboça um sorriso
logo molhado de lagrimas. Morre de frio. Agosto—morre
de frio. Até para lhe sorrir se esconde,
e põe-se então a olhar o muro (vou-te dizer o
sitio) a falar com o muro, a queixar-se á grande
nodoa de humidade da parede. Dois olhos verdes
de espanto, um vestido de seda, e as meias
rotas nos calcanhares. Um nada de ternura tel-a-hia
salvo—ninguem o arranca áquelle sonho informe.
Morta...
Ninguem. Depois que a perdeu tresvariou.
Estende fios no chão entre as arvores, e as arvores,
sob o fluido electrico, todo o inverno se desentranham
em flôr. Pegou-lhes sonho tambem. É
um desbarato, uma profusão que as devora. Absurdo.
O quintalorio ao pé da muralha, que há
seculos revê humidade, não é maior que um lenço;
a primavera só chega aqui tarde e de mau modo,
com pena das arvores de saguão. Arrepende-se
logo. Já veem que o absurdo é maior ainda...
Dezembro e primavera. O céo gelado, um brilho
de estrellas em engastes novos, e, entre a carie
das paredes, as macieiras baixinhas e humildes
como exhalações de ternura. Mortas. Mortas, seccas
de sonho. Mortas as arvores desfeitas em
flôr.
—Este efluvio é que é tudo: a torrente de
ideias e a torrente de paixões. A minha athmosphera,
a alma, penetra a tua athmosphera, e dissolve-a,
domina-a, conquista-a. Recua, tacteia,
hesita. Mas escusas de falar para que eu te entenda.
A materia muitas vezes não me deixa comprehender,
mas é raro que eu não saiba logo quem
tu és, e, mesmo que seja a primeira vez que te
fale, as vezes que te tenho encontrado no mundo.—E
logo:—A vida perdi-a a sonhar. Depois de
morta é que dei com ella. Mas que importa!
Acabei com a morte, vou resuscital-a. Viveremos
sempre, amar-nos-hemos sempre...
A noite é d'aparato. A lua de coral sobe por
traz da montanha em osso, e depois na chanfradura
das ameias. Mais flôres—todos os galhos
dão flôr. Sente-se, quasi se ouve, a dôr das arvores,
dos sêres vegetativos, ao terem de apressar,
de modificar a sua vida lenta, dispersos em ternura.
—Perdi-a, perdi a vida! Esqueci-a como esqueci
tudo. Perdi-a e mais dois dias e tinha suprimido
a morte!
Sob o fluido electrico o quintal tresnoita. Cae
neve e abrem os primeiros botões. A arvore transforma-se
n'um sêr dorido e esplendido—transforma-se
em sonho—em sonho desfeito em flôr,
em flores espezinhadas uma atraz das outras por
camadas sucessivas. Os ramos espremidos escorrem
dôr. Até as pedras deitam tinta. O quintal
escorre sonho como a alma do Gabiru. Atrevem-se
e acordam as coisas apodrecidas, e velhas pedras
iludidas põem-se a cantar n'esse pio triste dos sapos,
que sae da fealdade como uma inutil queixa
de desventura. A noite concava e branca—gelada—cobre
indiferentemente tudo isto. Que não
cobre a noite? Quatro paredes negras, no fundo
remexe o sonho. Perco tambem a noção da realidade.
—Tanta flôr!
—Para a sua cóva.—E pondo em mim os
olhos atonitos:—O que é preciso é ir buscal-os
ao fundo da mixordia, arrancal-os á obscuridade,
juntar outra vez as boccas dispersas. Não morrer
é nada: vou resuscital-os...
Imagina o negrume d'um poço—imagina dentro
o espanto, e não sei que luz viva, não sei que
dôr recalcada, não sei que de humilde, que quer
viver apesar de dorido. Vivo, e a pata enorme
que espezinha e esmigalha. Escuridão e oiro—silencio
e oiro—espanto e oiro.
—Vê tu a arvore... Uma camada de flôr—um
grito; outra camada de flôr—outro grito.
Vê tu a arvore como se transforma n'um phantasma
d'arvore, e depois em emoção!...
Suprimir a morte! É uma coisa grotesca. O
sonho transborda, o luar transborda—branco e
dôr—branco e sonho. Depois o silencio, depois
a sua voz magnetica—depois a sombra immensa
que ameaça desabar sobre nós, no quintal do tamanho
d'um lenço. Desato aos gritos quando todas
as roseiras, fartas de dar rosas, seccam, quando
da cathedral e do silencio caem uma, duas,
tres badaladas, que me apertam uma, duas, tres
vezes o coração. E o Gabiru com olhos de phrenesi
insiste:
—Não morrer é nada, suprimi a morte. O
que é preciso é arrancar os outros ao silencio. É
uma coisa simples, é uma questão de synthese.
—A morte,—afirmo-lh'o—é o repouso
eterno.
—Repouso eterno, estupido! É exactamente
o que está vivo, a morte. É o que está mais vivo.
10 de dezembro
Na escuridade e no silencio o sonho deita
braços desconformes. Pega-se-me. Debalde lucto
contra o fluido que avança para mim como uma
exhalação de phrenesi e de nervos. A teia invisivel
rodeia lentamente a inutilidade, a teia dissolve
as almas, e fios impalpaveis apoderam-se da villa
quieta e absurda onde só elle se atreve e scisma...
Isto é possivel ou isto não passa d'um sonho
grotesco, de mais outro sonho grotesco?
De que é feita a tibornea, o liquido viscoso,
côr de sabão, com filamentos verdes, que o Gabiru
com olhos de sapo revê no vidro, atravez
da luz—a maior descoberta do seculo, o sôro
que acaba de vez com a velhice e arreda a morte
para confins ilimitados? Alguns saes, o sodium,
o enxofre, o magnesio, o bromio, o carbone—e
sonho. Dezasete elementos, entre os quaes a prata,
o cobre, o oiro, o arsenico—e dôr. Materia, espirito
e concentração. O misterio é este e mais nenhum:
é exprimir como o que é espirito se transforma
em materia, como a poeira se condensa,
como a alma se faz corpo. Gritos, mais desespero.
Contar o quê? As noites infinitas, as mãos que tentam
arrancar farrapos ao manto em que o misterio
se envolve e procuram retel-o quando elle
se dissipa? Outra vez absorpção, outra vez o rebuscar
em ti mesmo o inexplicavel, e os nervos que
tendem e quebram o cerebro que doe, o lento acordar
das vozes submersas, a discussão, o tumulto,
e poder distinguir entre tantas boccas que falam,
a unica que tem direito a falar. É d'esta obscuridade,
d'esta discordancia, que emerge a ideia de
suprimir a morte. Não te rias. Já t'o disse: é um
sêr aparte com côtos em vez d'azas, que se agitam
n'um desespero para voar. Não se contenta
com esta vida nem dá por ella, mas fica sempre
a meio caminho, e tão dorido que não é possivel
tocar-lhe. Já t'o disse: é um sêr grotesco que põe
em mim os olhos turvos e teima, insiste, repete:
—Sobre a villa, repara, paira uma athmosphera
cinzenta, composta de todas as athmospheras:
é a alma da villa.—E afirma cheio de convicção:—Deito-lhe
sonho dentro.
Queira ou não queira faz-me scismar... Na
realidade morrer é absurdo. Nunca me capacitei
a serio que tivesse de morrer. Morrer é estupido.
Não comprehendo a morte, e, por mais que desvie
o olhar, prendo-me sempre a essa hora extrema,
só essa hora me interessa... Um sêr grotesco,
um unguento verde, e aquella voz aos meus ouvidos.
É caricato e pega-me doirado.
E o peor é que este sonho é afinal o meu sonho
e o teu sonho. Ninguem o confessa senão a si
proprio. O nosso sonho é não morrer. Quando a
gente se esquece a vida tem já passado. E quando
a vida tem já passado é que nos agarramos com
mais saudades á vida. A resignação custa muitas
horas doridas em que ficamos alheados e suspensos.
A morte... A morte é inevitavel?—pergunto
baixinho. E como a morte é inevitavel,
como não lhe posso fugir, para não perder tudo,
criei a outra vida. E afinal quem sabe se este
sonho que a humanidade traz comsigo desde que
pôz o pé no mundo não é o maior de todos os
sonhos e o unico problema fundamental?
A verdade é que teima. Não nos larga na vida
e levamol-o escondido para a cóva. A verdade é
que foi esta sempre a nossa maior aspiração, que
há-de acabar talvez por se converter em realidade.
Temos construido o universo assim, podemos construil-o
de outro modo. Falta só um passo... A
vida eterna admitimol-a, mas, no fundo, o que nós
queremos é este sol, esta pobreza, esta dôr, estas
ilusões moídas e remoídas. Deixem-nos a vida
que acceitamos tudo. Aqui há, portanto, um erro
primario. Protestas do fundo do teu sêr: a morte
é absurda. É preciso cortar um nó que não existe.
E passar do imperio do possivel para o imperio
do impossivel é talvez uma questão de vontade.
A vida é um acto de fé de todos os instantes. Acordo
e grito:—Eu não vivi! eu não vivi!—E
cada vez o meu protesto ascende mais alto. Quero
tornar a viver a mesma vida aborrecida e inutil,
quero recomeçar a desgraça.
Ninguem pode com semelhante peso. Não há
quem possa com elle. Na solidão, a primeira coisa
que procuro é a ninharia para esquecer a morte.
Um minuto sós a sós com o espanto, recamado
de mundos, que caminha desabaladamente no silencio,
dura um seculo e outro seculo ainda. Não
posso, nem tu nem eu, viver sobre o fio d'uma
espada e olhar para a voragem d'um e d'outro
lado; não posso arcar todos os dias com esta
usura que me gasta sem mergulhar na insignificancia.
E agora até a insignificancia me é impossivel.
O silencio... O peor de tudo é o silencio
e o que se cria no silencio, o que eu sinto que
remexe no silencio...
Carrega em cima de nós tal peso que ninguem
o suportava se désse por elle. É o peso do espanto.
Juntem a isto a villa comesinha, e o negrume
que levanta os côtos esfarrapados, como se fosse
voar, quando o padre Thimotheo dá o seu passeio
habitual no pateo da Misericordia, e, na meia duzia
de metros quadrados com arvores ethicas do
jardim, as Souzas arrastam os vestidos, ultima
moda do Grandella. Juntem a isto a grande nodoa
de humidade a que ella costumava queixar-se.
Juntem a isto a Morte e aquela voz de desespero
cada vez mais phrenetica, que não cessa de prégar,
e que me põe em frente de mim mesmo, que
é o que mais temo no mundo.
—O que eu quero, é tornar a viver. A minha
saudade é esta. O que eu quero é recomeçar a
vida gota a gota, até nas mais pequenas coisas.
Não reparei que vivia e agora é tarde. Sinto-me
grotesco. Recomeçal-a nas tardes estonteadas da
primavera e na alegria do instincto. Encontrei
há pouco uma arvore carcomida: deixaram-na de
pé, e um unico ramo ainda verde desentranhou-se
em flôr... Podesse eu recomeçar a vida!—Cala-te!—Terei
de confessar a mim proprio que
nunca amei, que nunca fui arrastado até ao amago
pelo desespero ou pela paixão e que de tal forma
se me entranharam as palavras e as regras, que
passei a vida a mascar palavras e regras? Terei
de confessar a mim mesmo que vou para a cóva
com a bocca a saber-me a vulgaridade e a pó?
Antes me soubesse a fél—antes a dôr!...—Mas
sonhaste, estupido!—Sonho. E o que me resta nas
mãos inermes, nas mãos para que olho com espanto
e terror, nas mãos de velho, senão grotesco, farrapos
de grotesco, restos de grotesco, com alguma
tinta em cima?... Não; viver é que é bom, viver
com o instincto, como os ladrões e os bichos, os
malfeitores e as féras, sem pensar, sem sonhar,
sem palavras nem leis, até cahir a um canto, morto
e feliz, de barriga para o ar. Isso sim! isso
sim!...—Quantas conversas temos tido juntos! quantas
discussões inuteis! quantos desesperos de que
não há sahir, batendo com a cabeça na mesma parede!
Ás vezes subjugo-o:—Cala-te! cala-te!—Ás
vezes fala elle mais alto e domina-me. Rio-me de
ti e impões-te-me. És ridiculo e só tu te atreves;
só tu és feliz porque te atreves a dizer inconveniencias
sem fé nem lei. Só tu não tens methodo,
só tu te fechas a sete chaves á tua vontade, livre,
feliz e despresado. No fundo invejo-te.
Aquilo incha, trasborda, como um rio que
alaga tudo. Pega-se-me e molha-me. Aturde-me.
É só elle que fala no mundo, cada vez mais obsecado
e mais alto, com interjeições e gestos desordenados
pelo meio:—Estupido!—Hei-de falar!
quero falar! hei-de por força falar!—E há aqui
dôr e ridiculo. Há um esgrouviado a dizer vulgaridades,
e uma coisa que vem da raiz da vida n'um
fremito e que me mete medo. Um bafo, e logo mil
vozes que aproveitam o momento e desatam a
prégar sem tom nem som.—Toda a gente se ri
de ti...—Deixal-o.—Toda a gente se ri! toda a
gente se ri!—Quero por força tornar a viver!
hei-de por força tornar a viver! Sinto que a minha
vida não termina aqui. Este sonho hei-de leval-o
a cabo.
Debalde lhe aconselho calma, o Gabiru insiste:
—Entrevejo na morte um sofrimento atroz.
O inferno não é uma palavra vã. É um desespero
sem consciencia nem gritos. A vida não é senão
uma tregua—um ah—e logo um mergulho n'esse
inferno de dôr. Na dôr estreme. Eis o que é a
morte: a dôr estreme, a dôr emudecida. O terror
instinctivo da morte é uma advertencia. Não quero
morrer e vou resuscital-os!... Viver sempre! amar
sempre! sonhar sempre!—que esplendido sonho!
A vida é quasi nada. Tudo que custou tanto
desespero, tudo sumido n'um buraco para sempre.
Ouves? Para todo o sempre. De que serviram os
gritos, as lagrimas, subir, trepar, chegar ao tôpo
do calvario? Para todo o sempre! Bem sei: aquillo
a que me apego é impalpavel: é a mulher que
passou, assomando-lhe ao focinho uma expressão
de ternura, e que nunca mais tornarás a encontrar;
é aquella manhã de chuva em que nos molhamos
juntos (e ainda me sinto molhado) e que
se não repete, é o minuto que nos escorre das mãos
como um fio d'agua, mas doira-o o sol, e é esse
mesmo minuto translucido que quero tornar a viver,
sem a sombra da morte a meu
lado. É a essa mesma
ninharia que é a vida a que deito as mãos com
desespero. A vida é nada—é esta côr, esta tinta,
esta desgraça. É saudade e ternura. É tudo. É os
meus mortos e os meus vivos. Levo pena de tudo,
até da fealdade. Agarro-me a tudo, tudo me prende,
o sonho que não existe, as horas inuteis, o possivel
e o impossivel. A floresta não faz parte do
meu sêr, e eu tenho aqui a floresta, o som e o
aroma da floresta, a vida da floresta; o céo não
faz parte do meu sêr, e eu sou o céo profundo, o
céo tragico e o céo esplendido. Dá-me a vida—dou-te
tudo em troca... Agarro-me como um naufrago,
agarro-me com uma saudade, que vem não
só de mim, mas de muito mais longe, da base mesmo
da vida. Para sempre! para todo o sempre!—E,
com um suspiro mais fundo, repete:—Suprimi
a morte, vou resuscital-os!
Trago comigo um pó capaz de doirar a propria
eternidade. Não sei d'onde me vem, nem porque
nome lhe hei-de chamar. Todas as noites sufoco
deante do negrume—elle reanima-me. Insiste deante
das forças desabaladas e da imagem da morte.
Quero a vida! quero-a! quero-a vulgar, tumultuaria
e cega. Inerte não! inconsciente não! Tenho-lhe
horror.
Se com o nosso esforço colectivo forjamos o
mundo, porque deixamos a morte de pé? Criei o
universo. Destaquei da massa confusa o tempo—destaquei
o sonho.
Fui eu que dei valôres e perspectiva ao quadro.
Fui eu que lhe entornei ilusão. Na verdade
só existem côres como só existem gritos. Porque
não hei-de acabal-o? É talvez uma questão de
vontade. Se até para dar o primeiro passo precisamos
de crêr, porque não havemos de dar o
ultimo passo? Ilusão, mentira? Mas eu é que faço
a verdade e a mentira. Dou-lhes o meu bafo.
Deus cria-me a mim, eu crio Deus. Uma verdade
pode não existir. Com uma mentira posso forjar
outro mundo. Arredemos de vêz este suor frio.
A noite vem, a noite avança. Sinto os mortos.
Ainda vivo, já estou em seu poder: faço parte da
legião. Noite immensa sem gritos. Peor que sofrer
é não sofrer—para sempre. É nunca mais sentir.
É ter as orbitas vazias voltadas para o céo e n'ellas
não se reflectir a luz das estrellas. Mais um passo
e é o silencio absoluto. Mais um passo e tapas-me
para sempre a bocca.
Não me importa ser feliz—não me importa
ser desgraçado. O que me importa é o que há depois,
é o que está por baixo da terra e o que está
por cima da terra.
Já não lucto. E elle insiste e cada vez préga
mais alto:
—Eu não vivi. Que importa, vaes morrer!
Para sempre, para todo o sempre, o mesmo buraco
d'onde não sae rumôr. Escuta isto: d'onde
não sae rumôr. Repete isto: para todo o sempre.
Nenhuma explicação te é licita, nenhuma transacção
é possivel. A morte não espera nem atende.
É estupida. Primeiro é estupida, depois é incomprehensivel.
É tremenda porque contem em si mistificação
ou belleza. Absurdo ou uma belleza com
que não posso arcar. O nada ou uma coisa que a
minha imaginação não atinge. Se é o misterio, e
se desvenda d'um golpe, apavora-me. Se é o nada
repugna-me. Apenas um minuto, e lá em cima
as mesmas estrellas, e outros vagalhões de estrellas...
Para ella tanto vale um segundo como um
seculo, carrega um sêr inutil ou um sêr delicado
com a mesma indiferença para o tumulo. Tens
passado a vida a esperal-a. Que outra coisa fizeste
na vida senão esperar a morte? É a tua maior
preocupação. Debalde a arredamos: a vida não
é senão uma constante absorpção na morte. Então
para que nasci? Para vêr isto e nunca mais
vêr isto? Para adivinhar um sonho maior e nunca
mais sonhar? Para presentir o misterio e não
desvendar o misterio? Levo dias, levo noites a
habituar-me a esta ideia e não posso. Tenho-te
aqui a meu lado. Nunca se cerra de todo a porta
do sepulchro. Estou nas tuas mãos... Adeus sól
que não te torno a vêr, e agua que te não torno a
vêr. Arvores, adeus arvores que minha mãe dispôz;
adeus pedra gasta pelos seus passos e que
meus passos ajudaram a gastar. Para sempre!
para todo o sempre! Tenho-te horror e odeio-te.
Interrompes os meus calculos. És o maior dos
absurdos. Vêr para não vêr, ouvir para não ouvir,
viver para morrer!...
E aqui te faço uma confissão: o que mais me
custa a largar é, como á cobra a pelle, a vida comesinha.
Se é a vida superior é tambem o meu
lume. É o ruido monotono da chuva nas vidraças.
Além da alma há outra alma que se apega ás pequenas
coisas, á columna d'oiro perfumada que
me entra de manhã pela janella—outra alma humilde
e pequenina, que se acomoda com um fio
d'agua, um cantinho de lume... É a alma da materia.
Não, o fim logico da vida não é morrer, é viver
sempre, é ascender sempre. Até onde? Até Deus. Vou
resuscital-os! Vou resuscital-os! E em elles se pondo
a caminho vaes vêr doirado. A vida toma novo impulso.
Desaparecendo a morte é que tu abranges
a vida. Vaes vêr a côr que toma o mundo, as tintas
que o mundo escorre, e as flôres que as arvores
criam... Vou resuscital-os! Vou resuscital-os!...
A terra remexe. Sinto um esforço e revive
o suor da desgraça; um arranco na profundidade,
e todas as primaveras dispersas não tardam, uma
atraz de outra, a reflorir. Há sepulchros até ao
fundo do globo. De mais longe vem um impeto—são
outros mortos ainda. Uma sombra desmedida,
uma sombra que se despega da obscuridade,
com todas as lagrimas que se choraram no mundo
condensadas, vae desabar sobre nós. As suas palavras
criam. O peor foi tocar-lhe! Neste debate
entra agora o mundo todo. Entram as arvores
e as pedras. Não há duvida para mim: quando
sahir disto tenho renascido: o mundo não é o mesmo
mundo, o céo o mesmo céo, a vida a mesma
vida. O que existe é outra coisa doirada e immensa,
esfarrapada e immensa. Põe-se a caminho outro
panorama, como se todo o infinito de repente se
aproximasse de nós, com os seus mundos, o seu
misterio indecifrado. Põe-se a caminho a immensa
floresta apodrecida, outras arvores como nunca
vi arvores, e outros sêres desmedidos e phreneticos.
Põe-se a caminho uma vida que há muito
sentia aqui ao lado, sem me atrevêr a olhal-a.
Tudo mudou de repente. Repara que o céo augmentou
em profundidade. O que existe são gritos, o
que existe é o espanto. O peor foi tocar-lhe...
Um remexer de treva, que até agora podémos
recalcar, soltou-se da escuridão e pôz-se a caminho.
Já não há esforços que a contenham...
Um borrão tragico avança—outro borrão informe
prepara-se. Os mortos empurram os vivos—desde
profundidades desconhecidas...
Passa no mundo a estranha ventania: é a
morte que custa a separar da vida. O rasto que
fica atraz, a perspectiva que fica adiante foi cortada.
A morte está aqui d'um lado, está do outro
a vida. Tinha raizes enormes: arrancaram-lhas
de vez. Agora atrevo-me a tudo. O turbilhão colerico
abala o mundo, oiro e negro, esplendido
e feroz. Desenraiza tudo. As almas acordam n'um
sobresalto, e não há homem que se não ponha á
escuta. Passa no mundo a doida ventania das
nossas aspirações secretas, das nossas duvidas,
dos nossos desesperos. É uma voz—são muitas
vozes. É um grito—são muitos gritos.—É o grito
contido há milhares d'annos, o grito dos mortos
libertos.