18 de dezembro
Em logar do uso de palavras fazia isto melhor
com o emprego de dois tons—cinzento e oiro:
uma nodoa que se entranha noutra nodoa. O sonho
turva a villa. A primavera toca n'este charco
só lôdo e azul: tinge-o e revolve-o. Mas o habito
de tal forma se entranhou na vida, que cohabitam
com o espanto e continuam a ir á repartição.
Horas na torre. Mais silencio. A morte roda aqui
por perto, alguem fala:—Então como passou? passou
bem?—O habito tem profundidades de legoa.
A principio olham-se desconfiados, com medo
uns dos outros. Sem duvida gostam de viver mais
um seculo, mais dois seculos, mas não sabem ainda
que emprego hão-de dar á existencia. Não se lhes
dava mesmo de morrer com tanto que continuassem
a jogar o gamão no
infinito. O que lhes custa
mais
a perder não é a vida, são os habitos. Veem-se
e não se reconhecem. Há almas embrionarias,
velhos lojistas que olham para si proprios com
terrôr. A maior parte da gente, nasce, morre sem
ter olhado a vida cara a cara. Não se atrevem ou
ignoram-na: a outra existencia falsa acabou por
os dominar. Não há mascara que não custe a arrancar—há
mentiras que teem raizes mais fundas
que a verdade. Por isso, para uns não morrer é
continuar a jogar o gamão pela eternidade, para
outros é juntar uma moeda a outra moeda, um
dia a outro dia inutil. Sempre... Já na botica dois
idiotas recomeçaram com escrupulo uma partida
que deve durar cem annos, e o bocal amarello,
as moscas mortas estão alli com outro ar. Fixaram-se.
Estão alli embirrentas e sordidas para
toda a eternidade.
Pouco e pouco o sonho dissolve, a nodoa d'oiro
alastra. Vae mexer com o subterraneo, acorda os
mortos, desenterra o sonho submerso há dois mil
annos, sobresalta o instincto, bole com todas as
almas sobrepostas até ao fundo da vida. Transforma,
volta a existencia do avesso, deita o muro
abaixo. Por ora é só uma idéa, mas sae-nos de
cima o peso do mundo... Mexe em tudo, revolve
todas as raizes que se apoderaram da villa. O sonho
cae na regra, no charco de interesses, na hypocrisia
que se não atreve, nos dentes afiados
que se transformaram em sorrisos, na paciencia
de quem espera uma herança com vagares de
quem tece uma teia. Certas existencias são formidaveis,
outras existencias são como alcovas onde
nunca entrou a luz (cheiram a relento) e onde agora
se agita e gesticula um sêr desconhecido. Certas
existencias são feitas de odio minusculo, de inveja
que sorri—porque nem a inveja se atreve. Certas
existencias são crepusculares. Em certas existencias
são os mortos que ordenam, muito mais vivos
e imperiosos depois que estão no sepulchro. Quasi
toda esta gente se desconhece. Nunca se atreveram
e agora perguntam-se:—Sou eu? sou eu?
Aqui estou eu que finjo que sorrio, e acabo
por fingir toda vida. A minha vontade era anular-te—e
finjo, e o sorriso acaba por ganhar
cama, a bocca por se habituar á mentira, a ponto
de já não saber discernir o meu sêr, do sêr artificial
que criei peça a peça.—Pois sim... pois
sim...—Mas atraz disto há outra coisa—há fél;
E quando tiro a mascara? Mas eu já não posso
tirar a mascara, mesmo quando me fecho a sete
chaves: a mentira entranhou-se-me na carne.
Este phantasma chegou a ter mais vida que a
propria realidade. E aqui andam outros sêres.
Eu não sei quem sou e até o meu metal de voz
estranho. Eu não sou quem falo. A meu lado,
atraz de mim, vem um cortejo de phantasmas,
uma cauda disforme que me conduz e empurra, e
adiante de mim há uma projecção de vida até
aos confins dos seculos.
Acaba a hypocrisia. Acaba principalmente a
hypocrisia para comnosco, mais dificil de largar
que a propria pelle. Eu minto mais a mim mesmo
do que minto aos outros, finges tanto com a tua
alma como com a minha. Primeiro é a hipocrisia
que descasca. Acabou! acabou! E com espanto
ouço e desconheço a minha propria voz.
É que a morte regula a vida. Está sempre ao
nosso lado, exerce uma influencia oculta em todas
as nossas acções. Entranha-se de tal maneira
na existencia, que é metade do nosso sêr. Incerteza,
duvida, remorso... Nunca se cerra de todo a
porta do sepulchro, sentimos-lhe sempre o frio.
Agora não, a vida pertence-nos. A morte não
existe, desapareceu a morte...
Ali a um canto um sêr desata a rir, a rir, a
rir como nunca ninguem se riu.
E, atravez da pedra d'estas physionomias,
transparecem já outras physionomias: as velhas,
como uma roda de aranhas de penante na cabeça,
apertam o circulo em volta da magestosa Theodora.
São annos de paciencia, d'inveja e de fél—são
annos de tragedia. Sobresaltam-se as futilidades
que estavam para durar seculos, mas ninguem
arrisca ainda um gesto que o comprometa.
Teem-lhe obedecido de rastros. O tempo passa,
e com o tempo esta lucta entre o inferno e o sonho
revestiu-se de cimento e de grandeza.
Obedece e sorri a Eleutheria. Moe, tem moido
a vida inteira. Moe-se a si e aos outros.—E o
tempo passa...—Obedece e sorri a Adelia, que
esperou, tem esperado a vida inteira. A miseria
conserva: tem os cabelos pretos. Seis, doze vintens
desiquilibram-lhe o orçamento: perde-os todas
as noites com um sorriso d'angustia. Obedece
e sorri a Porphiria, que é a peor de todas; é feita
de destroços e de restos. A aquiescencia tambem
está presente com a D. Restituta, de guardachuva
na mão, acenando sempre que sim á vida:—Pois
sim... pois sim.—Faz-se um pouco surda
para só ouvir o que lhe convem. Nunca diz mal
dos outros, nunca repete n'uma casa o que ouviu
cá fóra. Ás vezes, de noite, vira-se revira-se na
cama, mas nem sósinha se explica: suspira. É na
aparencia um pouco trôpega, um pouco adoentada
e surda: tem uma saude de ferro e um filho
escondido. E ao passo que a D. Restituta, tendo
dito a tudo que sim, tendo dito a tudo e a todos
que sim, já não pode dizer, com o mesmo esgare,
senão que sim:—Pois sim... pois sim...—a Adelia
é rispida: um vestido, um chale, um chapeu
de plumas, e o desejo exasperado de toda a
sua vida (tem sessenta annos) de ter uma sala de
visitas com dois castiçaes de prata e um album.
O album lá está, na sala que cheira a bafio, e há
vinte e dois annos que dois paninhos redondos
de crochet esperam os castiçaes de prata. Obedecem
as figuras secundarias, atentas e imoveis sobre
o jogo, dependentes umas das outras, ligadas
pelo mesmo interesse. A alma d'esta velhas chegou
assim a ser prodigiosa. Façam o favor de entrar...
Algumas flôres murchas n'um cantinho
com môfo. Depois paciencia, avareza, depois um
vasto campo funerario, onde passa o vento da desolação
como na retirada da Russia. E dominando
a paisagem dois ou tres marcos geodesicos. Lá
no fundo uma pégada de vida empoçada e que
reflecte o céo: alli se miram e remiram na sua
mocidade. Notem: nenhuma disse uma palavra
mais alto. Tudo isto se fez pelo lado de dentro—tudo
isto cresceu pelo lado de dentro, de tal forma
que se fosse material não cabia no mundo, com
colunatas, porticos, destroços e subterraneos, como
uma cathedral gotica. Aqui nesta cripta está o
relento, branco e molle, creado na escuridão e no
silencio, branco e molle, branco e sem olhos. Varias
sepulturas com estatuas jacentes e, mais adiante,
sobre sarcophagos, a Tradição e a Formula, que
durante os annos que durou a bisca, defenderam
a magestosa Theodora d'um envenenamento. Aqui
agora—cuidado!—a escuridão é viva, a escuridão
é sonho, é sonho requentado, como um acrescento
de todos os dias, sonho com que não podem
mais ao lado da vida quotidiana. Como sempre
as velhas deitam-se cedo, rezam o terço, e antes
de dormir juntam um pormenor ao sonho inutil,
uma figura aos nichos, um portico aos porticos,
um terraço aos terraços—até que adormecem com
um sorriso candido e um cheiro pela bocca que
tresanda... Aqui com o tempo acrescentou-se um
alto relevo esquecido; aqui as figuras são figuras
de delirio; aqui a nave atinge alturas desconexas
sustentada n'um unico pilar; aqui abre-se uma
ogiva com vitrais, que esclarece a uma luz funerea
um quadro indistincto, e que é talvez a
recordação d'um amôr já morto—porque ellas
tambem amaram—aqui o misterio envolve-se em
sombras condensadas, onde agoniza um Christo
exanime que mete medo. Adiante n'um friso incompleto
com uma cidade phantastica, campeia
o diabo; depois um remate enfumado, cachorros
sustentando uma arcatura, onde se admira a delicadeza
e a abundancia de ornamentação (é a
paciencia); e, n'este canto, mais sonho, entre negrume
acumulado, treva viva num buraco de treva,
que a si propria se enovela num desespero, até
que não cabe na cathedral, irrompe para o lado
de fóra e chega n'um jacto ao céo... Isto não é
a cathedral de Burgos—é a cathedral do fél e vinagre.
Todas aceitavam, a morte e a vida quotidiana.
Resignavam-se. Mas o que esta palavra representa
de sonho desfeito em fumo, de coleras inuteis,
de inveja inutil, de bolôr e de despeito, tradul-o
a paciente D. Herminia por este grito feroz:
—Estou farta senhor padre Ananias! Estou
farta de o aturar a si, de aturar os outros, e de me
aturar principalmente a mim mesma!
Toda a gente dá a mesma ferocidade, odio e
instincto. Espremidos deitam as mesmas paixões.
Uns ignoravam-se. Outros usavam a vida em manias.
Outros gastavam-na em grotesco. Outros habituavam-se.
A paciencia era pegajosa. A paciencia
tinha uma côr especial, verde desbotado,
que mal feria a vista, e um filho, a cobiça, tal qual
como a D. Restituta, que encrespa o pello e se põe
de pé com o guarda-chuva em riste.
Cada sêr me perturba como se contivesse em
si o céo e o inferno. Bem sei que a formula não
é inutil: ao contrario a mascara é indispensavel
e é por ella que nos julgam. Mas, apezar de crearmos
o mesmo
bolôr e e nos sepultarmos ao mesmo
tempo com certa comodidade sob alguns palmos
de terra, há qualquer coisa que remexe e
que faz parte integrante da vida. Até o escuro se
eriça—até a grande sombra se deforma.—Muita
gente na vida só conta com a morte. A D. Desideria
desata aos ais. E é com secreta satisfação
que vejo esfarelar-se este edificio tão bem construido
sobre bases, que pareciam inabalaveis, do
interesse, da hipocrisia e das conveniencias...
Impelidos por uma mola dão todos um passo em
frente, e há tres dias que os padres se descompõem
na colegiada sem se chegarem a entender:—Lá
vae o inferno! lá vae o inferno!—E, efectivamente,
d'um instante para o outro, lá vae o inferno
que tanto custou a fazer, e outras sombras temerosas
reduzidas a cisco. Lá vae o scenário admiravel
e monstruoso, todas as regras, todos os papeis
pintados, que atravancavam o mundo, e eram pelo
menos metade da nossa existencia. O que tinha
uma importancia extrema passou a não ter importancia
nenhuma; o que parecia indispensavel á
vida, e sem o que se não dava um passo na vida,
reduziu-se n'um minuto a zero. E outras coisas
insignificantes assumiram proporções enormes...
Os padres clamam n'um côro desesperado:—Acabou
o inferno acabou tudo!—Descompõem-se
na sala da colegiada que deita para o passado—o
claustro com um pé de oliveira, e dois tumulos
encravados na parede, scenographia para o Hamlet,—sêr
ou não sêr eis a questão... Cheiram
a ourina e a ranço.—A religião sem inferno está
perdida.—Mas lá por o homem ter suprimido
a morte, não deixa de haver inferno—observa
o estupido conego Fazenda.—Isso está claro que
não deixa, obrigado pela observação, mas é um
inferno tão distante que não mete medo a ninguem.—Protesto!—Lá
vae o inferno! acabou o
inferno!
Lá vae tambem o céo, mas o céo não faz falta
nenhuma.
Já não há esforços que contenham o mundo
subterraneo que se pôz a caminho. Aos mortos
cheira-lhes a vida, a saque, a infamia. A poeira
remexe. Por mais que queiram conter a vida
dentro de certos limites, ella extravasa, e vem
á supuração; por mais que a queiram comprimir
estala por todas as costuras. É inutil. Alem da vida
aparente, há outra vida de odio, de sonho, de interesses
occultos. É a vida, é o que eu scismo de
noite e me sustenta de dia. É o desejo de exterminio,
é o sonho que arredo e que me pega fuligem:
são os restos de sonho de toda a gente. Em
todas as almas, como em todas as casas, além da
fachada, há um interior escondido. Saem dos antros
entontecidos e respiram, olham o céo e respiram.
Saem dos buracos e põem-se a rir, ou falam
só, o que é a primeira vez que succede na
villa. Emergem da noite e vão deixando cahir os
farrapos. Respiram com sofreguidão, os gadanhos
afiam-se-lhes, e o mesmo desejo os domina: a
vida! a vida! a vida!
Só esta velha parou de remexer nas cinzas
frias. Petrificou-se mais, petrificou-se mais ainda,
e a figura curva exprime, na imobilidade tragica,
sonho e desespero, dôr e desespero, noite e desespero...
É um erro supôr que o homem ocupa um espaço
limitado no universo: cada homem vae até
ao interior da terra e até ao amago do céo. A
parte de cima foi cortada, mas o que resta da
alma é um poço sem fundo. Uma obscuridade.
Por vezes fala a lei e o habito. Intrometem-se
coisas abjectas a que não sei o nome. Agora é a
vez de impulso—agora é a vez do interesse. A
mania tambem tem os seus direitos. De mais baixo
ascendem ordens que se não chegam a formular.
Desço mais fundo no poço e encontro restos sordidos
e candura. Por baixo sonho—por baixo
fragmentos e gritos... As velhas, por exemplo,
não são más, mas teem atraz de si seculos de
ruina e de destroços. Há-as que acordam sempre
com a bocca amarga. Já tiveram vinte annos, e
cada uma d'ellas suporta uma cauda de desespero,
de ilusões desfeitas, de ilusões intactas, de desejos
irrealisados, que lhes peza como chumbo. Cada
velha arrasta comsigo uma porção de cadaveres...
De mais fundo vem outro impulso... Começo
a ouvir vozes que supunha de todo extinctas.
Acordam e de tal forma se impõem, que a D.
Procopia desata a falar sem tom nem som. Nessa
vaga, n'esse lôdo adormecido, jaziam sêres ignorados
que veem á superficie: sente-se no silencio
as mãos agarrando-se ás paredes. Um a um todos
deitam raizes tremendas. E a nodoa immensa alastra,
a nodoa desordenada, que satura d'oiro a insignificancia
e o genio, a nuvem que envolve a D.
Inocencia, encrespa os cabellos á D. Leocadia,
fez esquecer a dispepsia ao D. Prior, arreganha
os dentes a D. Restituta. Pega-se. Torna uns mais
ridiculos, concentra outros. Vae remexer no que
estava sepultado há dois mil annos, no bolôr e no
bafio, nas paredes compactas da Sé, nos santos
immoveis nos seus nichos, na inutilidade e no
habito. E doira, doira, doira, doira o Telles e o
Reles, doira a hipocrisia e o medo, o egoismo e o
interesse. E ao mesmo tempo que os transforma,
põe-nos frente a frente a uma coisa estranha que
não admite subterfugios—á realidade.
Desaparecendo a convenção e as palavras, que
vae sahir d'aqui de temeroso e de ridiculo? Transformado
o mundo, com que olhos vamos vêr o
mundo? Tudo isto eram phrases e só existem
instinctos? A honra era uma phrase, o dever uma
phrase e a vida um scenário? Cada sêr é capaz
de todas as perguntas e de todas as respostas.
Escorre todas as tintas e possue todas as côres,
e só por habito adquirido há seculos é que conseguimos
olharmo-nos cara a cara, quanto mais
alma a alma.
Há dialogos na obscuridade em que se empregam
palavras que nunca se usaram, e figuras que
já não são as mesmas figuras. Todos nós somos
disformes.—Deixem-me! deixem-me!—Agora
quando falam já não é para dizer coisas convencionaes.—Estou
á espera, tenho estado aqui á
espera toda a minha vida.—Á espera de quê?—Á
espera deste hora suprema, á tua espera...—Mas
fala...—Não posso, só com gritos é que
posso falar...—A outra coisa temerosa sacode-os...—Tu
ouves?—Não te quero ouvir. Se
consegues ficar comigo sós a sós, sinto que estou
perdido. Tudo que me deu tanto trabalho a construir,
alue-se n'um unico minuto. Teimo em me
defender—teima em se fazer escutar...—Tu ouves?
tu ouves?...—Mas tu não existes... Ou
tu não existes ou só tu existes no mundo...—Estremecem
até á base da vida, e, n'este cataclismo,
ainda se lhes pégam coisas vulgares e
coisas inuteis—o que se faz e o que se não faz, o
que se usa e o que se não usa, as conveniencias
e os habitos rançosos. Há dialogos formidaveis na
obscuridade. Há almas extacticas, há-as reduzidas
ao espanto.—Ouves?—tu ouves?—Não tenho a
que me apegue, mal ouso pôr os pés. Até agora
sabia quem era, ou fingia sabel-o, agora pergunto
se sou a D. Leocadia, a D. Procopia e a
D. Penaricia? Só posso viver ligado a certas palavras,
a certos factos, a certas bases que julgava
indestructiveis, e um nada destruiu tudo isto, transformou
de todo a vida. O sonho tem outra côr,
e a nodoa de oiro alastra, corroe, mistura-se a
nodoas mais escuras e mais fundas, penetra, dissolve,
produz logo manchas corrosivas como ulceras.—Phrases
ainda elles as teem, mas o peor
é que cada um sente com espanto que já não
subverte a verdade. Pergunto a mim mesmo se a
deixo morrer, ou se a deixo viver mais duzentos,
mais trezentos, mais quatrocentos annos? Agora
que a sua vida só depende de mim, pergunto
a mim mesmo se a deixo viver—contra os meus
interesses? Eram tremendas as questões de dinheiro
que a morte resolvia. Quem as resolve
agora? Debatem-se em cada consciencia problemas
que só teem uma solução—a morte. Excusas
de desviar o olhar: só teem uma solução—a
morte. E de mais fundo ascendem outras vozes
e falam cada vez com maior desespero.—Não
desvies o olhar. Tu ouves?...
Assim como esta clamam as vozes interiores,
mais alto, sempre mais alto, imperiosas, as vozes
da multidão que constitue a tua alma. Isto coincide
com o grotesco dos homens de calva e ventre
gorduroso, meios nus em plena praça, sem se
atreverem a vestir-se ou a largar de vez os trapos
convencionaes; isto coincide com uma primavera
antecipada, em que as arvores, sentindo talvez
que vão ser a nossos olhos apenas coisas utilitarias,
se apressam a dar flôr, em que os céos nocturnos
e sem macula parecem ter gelado em
azul com fundos d'oiro revolvido...
Alguns põem-se a caminho e marcham com
olhos inquietos. Passa essa sombra tragica, a mulher
do Anacleto. Estes dois que foram sempre
pessoas consideradas, com assento na existencia,
e que usam a cabeça como quem usa um resplendôr,
o Elias de Mello e o Melias de Mello, sentem
um baque que os amolga. Porquê? Elles teem
tudo em dia, as contas, os livros, os escrupulos.
A praça considera-os, Deus considera-os.—A nossa
mãe morre...—E não tiram o lenço dos olhos.—Veneram-na.
Mas o respeito pelos paes só resiste
emquanto os paes respeitam o interesse dos
filhos. Há decerto uma lei moral, mas há
sempre por traz uma bocca a prégar. Uivos,
gritos, exasperos. É a transformação do
grotesco em ferocidade, é a camada de hipocrisia
que custa a romper. Imaginem isto:
imaginem o lojista em debate com a vida subterranea,
o lojista deparando pela primeira vez com
uma alma esplendida, e a D. Adelia, de chinó
postiço, fechada n'uma gaiola com a verdade, e
aos saltos uma á outra.
Foi grotesco, começou por ser grotesco. Mas
escuta-te: é um mundo que lá tens dentro, é
uma multidão que se prepara para o assalto. Estava
adormecida, acordou. Mete medo. E prégam,
açulam-se, avançam direitos aos seus apetites, ao
saque, á guerra,
á luxuria. Continham-na arames
enferrujados, o medo da morte, o habito de
crêr em Deus (sabendo bem que Deus já não
existia) phantasmas, cacos d'armadura que derruiram
d'um dia para o outro. Descobrir que não
há Deus que alegria! Põe a gente á vontade. Respira-se
d'outra maneira. Descobrir que a morte
não é inevitavel endurece. O mundo muda d'aspecto.
Agora é que eu contemplo a vida—e me
perco na vida. Começo a ter medo de mim mesmo
e não me posso olhar sem terror. Que é isto, este
sonho, esta dôr, esta insignificancia entre forças
desabaladas? Onde hei-de pôr os pés? Eu sou a
arvore e o céo, faço parte do espanto, vivo e morro
ligado a isto. Sou temeroso e ridiculo. Não me
desligo do turbilhão azul, sem nome, que me leva
arrastado, estonteado, iludido, e ao mesmo tempo
discuto, nego e afirmo. Sou ridiculo e construi o
mundo. Sonho e acabo reduzido a pó. Sou capaz
de tudo e um nada me abate. Sou sordido e futil
e não tenho limites—vou de mundo a mundo e
de espirito a espirito. Dei alma ás coisas inertes,
significação ao universo, vida ao que não existe,
luz ás estrellas—e no fim acabo grotesco. Sou
nada entre o pelago e sem mim tudo se afunda
no pelago. O que olhava com indiferença mete-me
agora medo. Não posso com o mundo transformado,
com outros sêres, e onde não me desligo
d'uma força cada vez maior e mais desabalada.
Preciso de olhar para mim, sou forçado a
olhar para dentro de mim mesmo, a encarar comigo
mesmo, e ou desato a rir ou fujo transido
de pavôr. Não me posso comprehender no universo,
não entendo esta luz insignificante no negrume
gelado, nem esta discussão interminavel
no silencio absoluto, nem este ridiculo, nem esta
figura mesquinha que representa o mundo. Com
que destino rio ou choro entre o enxurro de oiro
e os impulsos tremendos que veem não sei d'onde
e caminham desabaladamente para um fim que
não distingo? Tenho medo de mim mesmo! tenho
medo de mim mesmo! Nunca o acaso pariu
nada tão monstruoso e tão grotesco como isto a
que se chama a vida. Tenho medo de mim mesmo!
Cada vez me sinto mais abjecto e mais transido—cada
vez me sinto maior e mais capaz de tudo.
Não me posso olhar nos olhos, com medo de vêr
o que nunca vi, em todo o seu horror e em toda
a sua nudez. Grito.
Gritos—gritos—gritos ainda sufocados. Ouço-os
na noite imperturbavel, na harmonia esplendida,
na arvore e na pedra. Mais gritos no
turbilhão dos mundos, e atraz desse turbilhão outro
maior—e mais gritos ainda. A ternura sou
eu que a presto ao absurdo e á dôr. O que fica na
realidade são gritos. A harmonia parece immensa
porque as coisas não teem bocca para prégar—ou
não as sabemos ouvir. Tudo isto se reduz a
dôr muda, a dôr intoleravel n'um escantilhão de
desespero—de desespero sem significação—de
desespero cada vez maior. E sempre outras boccas
prégam mais alto na noite que não tem limites,
outras boccas que nem sequer existem. Levanta-se
a poeira tragica, a poeira que anda espalhada
há milhares de annos, a poeira dos mortos
e a poeira dos vivos. Mais poeira ainda, que vem
dos confins, toda a poeira dispersa, que já foi ternura
e desgraça, poeira desaparecida que foi sonho,
poeira inutil que foi dôr.
Os maiores dramas passam-se porém no silencio.
23 de dezembro
«Se ella morresse...» Esta ideia ao menor
obstaculo, esta ideia a que eu fujo e a que tu foges,
e que ambos arredamos, mas que se obstina
até a proposito dos que mais amamos—esta ideia
transforma-se logo em acção:—Vou matal-a.
Desapareceu a morte e eis-me aqui preso a
esta creatura de olhos tristes fitos em mim. Para
sempre! Até as coisas mais bellas se transformam
em absurdo e me pesam como
chumbo.
Peza-me a
tua amizade, peza-me o teu amôr—para sempre.
A pobreza e a humildade não se toleram para
sempre.
A ninharia a poder d'annos e de persistencia
impõe-me respeito. A ninharia um seculo, outro
seculo, transforma-se em grandeza.
Quanto menos sinto a morte necessaria para
mim, mais a julgo necessaria para o outros. É
um muro que é forçoso deitar abaixo. Para respirar
é preciso deital-o abaixo.
Muitas vozes, a d'este, a d'aquelle, a de tantos
mortos, a imporem-me a sua lei... Agora só eu
falo e com a minha propria voz.
Agora só eu mando. A vida vou julgal-a com
os meus proprios olhos. Vou tomar folego, vou
tomar peso á vida. Sei-a de côr e salteado. Sei o
que valem os preconceitos, as ilusões e as palavras—sei
o que vale o dinheiro. Não torno a ser iludido.
A vida é um combate, que só se vence pela
bajulação, pela manha ou pela audacia—todos
os meios são bons. Os escrupulos não servem
para nada, a convenção tolhe-nos os braços. Meia
duzia de regras afiadas bastam. Honestidade a
precisa para que confiem em nós—piedade a bastante
para que não nos assaltem os cofres. Fóra
d'isto logro.
Se tenho forças uso-as.
A vida n'estas bases é talvez monstruosa, mas
não posso modifical-as. Aproveito-as. Tiro da vida
o que ella me pode dar. Com ilusões podia-se ser
pobre—sem ilusões só se pode ser rico.
25 de dezembro
O peor é que se passa no silencio. É a outra
coisa que acorda, é a outra coisa desconhecida
que começa a empurrar o tabique. Deitamos-lhe
todos as mãos para o segurar, mas, no escuro e no
silencio, a pressão redobra... Está outra coisa
por traz do tabique, outra coisa que eu não quiz
vêr, e que o sacode com desespero. Bem sei, bem
sei que existes! Bem sei que estiveste sempre
ao pé de mim. Nunca te deixei discutir comigo.
Senti sempre que estava perdido se te deixasse
abrir a bocca. Há tragedias de que desviava o
olhar, fingindo não as vêr. Agora hei-de vel-as
por força. Há misterios que não queria debater
e agora se me impõem. Há vozes que não queria
escutar e que falam mais alto que a minha voz.
Há sêres que não queria conhecer e que discutem
agora tu cá, tu lá comigo. Tenho de os aceitar.
Romperam pelos sepulchros fóra—despedaçaram
todas as tampas. E esta intrusão na vida modificou
de todo a vida.
Cada um vê doirado. Tem de pôr o problema
alli na frente e de o resolver. Tem de ir até ao
mais profundo do inferno e até á vacuidade do
céo. Cada um tem de se olhar a si mesmo, nu e
ridiculo, nu e esplendido. Cada um vê por uma
fresta a força desabalada, e põe-se a scismar como
Dante com a mão ferrada no queixo. Temos todos
de resolver o problema.
Debalde amontoamos
inutilidades ou palavras, ahi está na nossa frente
o mundo real, o mundo da verdade, o mundo
sem subterfugios. Traz flôres como uma primavera,
traz enxurro. Arrastou-se pelas folhas apodrecidas
e pela lama. É doirado—é feroz. Tem
todas as tintas e todas as côres, e sobre isto
phrenesi. É humilde, leva comsigo no mesmo impeto
ternura, dôr e desespero. Está dorido e vae
tão fundo como a propria desgraça. Impele-nos.
É a vida e o sonho, é a tragedia—não existe.
Não tem nome. Chama-se a vida e a morte. É
uma coisa absurda. Mete-me medo e extasia-me.
As velhas já não dizem:—Jogo!—Houve
uma coisa que se meteu de permeio. Os passos
aproximam-se e o esforço augmenta. Sinto-lhe o
bafo monstruoso, sinto-o mais perto de mim e
encostado ao meu sêr.
As velhas ouviram passos apressados dentro
das proprias almas, o sonho veio á tona, e ficam
absortas com as mãos agarradas aos queixos e
as boccas espremidas a remoer em secco...
O medo acabou, e o escrupulo, a hipocrisia da
gente que vive á roda d'uma ideia sem atrever
a encaral-a.—É preciso matal-a!—São annos e
annos, são seculos de inveja paciente, que sobem
á superficie: até as figuras de pedra ressumam
dôr e desespero. Agora metem-me medo. As velhas
somem-se, e ficam gritos, fica o espanto, ficam
phantasmas.
O que se passa em cada casa, dentro de cada
sêr, no fundo de cada poço? Ouve-se as almas,
como se fossem facas, afiarem no escuro. Estão
promptas. Bem sei, falam ainda enteramelado, não
dizem o que sentem, mas já caminham segundo
o interesse, o odio e o sonho. As resmas de
papeladas são inuteis, a lei todos os dias se reduz
a zero. A nodoa alastra. E agora é que se vê bem
o que cada um trazia dentro de si. Nesta primavera
há duas primaveras. Agora é que eu comprehendo
que as palavras que se pronunciavam
eram rituaes, que os gestos, com seculos de existencia,
eram necessarios e significativos. As phrases
rançosas das velhas nos dias de enterro, as
phrases banaes, eram as unicas capazes de amortecer
a dôr; este habito ridiculo de jogar o gamão
um opio, como esta historia que a Bacellar conta
a si mesmo, com um ar idiota, um principio de
sonho. Tanto vale uma tragedia. É preciso fugir
á realidade. Comprehendo tudo. O que ellas odeiam
no Gabiru é a sua immensa capacidade de sonho;
o que a villa escarnece é o que a villa inveja.
Bem se importa esta roda de velhas, em volta
d'uma meza de jogo e o candieiro ao centro, com
a bisca lambida: durante algumas horas esqueceram
a mediocridade da vida—esqueceram tambem
a morte. O chale velho a que a D. Leocadia
se achega todas as tardes mesmo no
pino do
verão, pego n'elle e, quanto mais no fio, mais
peso tem: está encharcado de sonho...
26 de dezembro
O que me impede de vêr a tragedia da vida, é
a ninharia da vida.
A alegria é a luz. A luz suprema é Deus.
Se elle não existe—nós creamol-o.
Cheguei a um ponto da vida em que nem os
outros me interessam, nem eu interesso os outros.
Não falamos a mesma lingua. Só entendo
alguns desgraçados.
Tudo na natureza são fórmas da minha alma.
Minha alma passa como uma luz em frente da
escuridão. Extincta só resta a treva.
Se não fosse o habito uma arvore matava-me.
Não posso olhar o céo sem terror, e tenho de fechar
todas as portas para voltar á vida comesinha.
Para o outro mundo é preciso uma iniciação.
Sinto que cada passo que dou é irremediavel.
Se me perguntassem o que queria ser—queria
ser isto mesmo. Assim na eternidade te queria,
minha alma, com o mesmo sonho, a mesma vida
e os mesmos erros. Não te troco por outra alma.
Não há belleza completa sem uma pontinha de
saudade.
A pobreza, a desgraça e a dôr metem-me medo.
Mas que prestigio! Ser alimentado pela desgraça
dá outra fibra, que só á desgraça pertence.
Faz-se parte d'uma legião esplendida.
Há uma porção melhor do nosso sêr, não há
negal-o. Luz entre residuos, gritos e instinctos.
Se não existe outra vida, pergunto para quê?
Se fosse possivel suprimir a ilusão—morriamos
todos á uma. Vivo entre quatro paredes, e
entre quatro paredes analizo e commento e construo
o universo. Fora d'esse casulo nada existe
para mim. Succede, porém, que da parte de fóra
é que está o resto...
Se me perguntam o que é a vida—não sei o
que é a vida. Sei que me devora—sei que tenho
ao pé de mim a morte.
Que faz de nós a vida? A vida gasta-nos, reduz-nos
a linhas essenciaes. Habitua-nos a viver,
e, quando estamos habituados a viver, suprime-nos.
Sei que tudo são aparencias, com uma unica
realidade, a morte. Para morrer não valia a pena
viver, para me encher de saudade não valia a
pena viver. Só para ser mistificado não valia a
pena viver.
A melhor parte da vida—é a saudade da vida.
A que se reduz afinal a tua vida? Algumas
ideias mesquinhas—e a uma coisa que não cabe
cá dentro.
Sim a vida tem minutos bellos, quando a
gente a esquece. E acima de tudo o sonho. O
sonho vale a vida.
É nada e menos que nada. Impulso, desconcerto
e logica, e no fundo do teu sêr uma ancia
superior a tudo, que é a melhor parte do teu sêr.
Melhor, que te faz desgraçado. Melhor que teima
em querer um universo a seu modo, e que pouco
e pouco, apezar de tudo, contra tudo, tem construido
o mundo a seu modo. Foi ella que fez
Jesus. É ella que te impele para cima, cada vez
mais para cima.
Ouço-me viver com terror—e caminho nas
pontas dos pés para a morte.
Se a vida futura é um absurdo, esta vida é
um absurdo maior. É tudo uma questão de habito.
Tanto sonhei comtigo que te construi.
Sou aqui tão necessario como as estrellas do
céo. Aqui estou, creatura mesquinha, com a dôr
a meu lado, com sonho a meu lado. Hei-de acabar
por te dominar. Não há morte que te valha!
Isto é abjecto, ás vezes é grotesco—mas se
isto desaparecesse, desaparecia Deus, e, com o
maior dos sonhos, todos os outros sonhos.
30 de dezembro
A vida é tecida como o linho: um fio de dôr,
um fio de ternura. Eu intrometo-lhe sempre um
fio de sonho. Foi o que me perdeu.
Só dei por ella depois de morta. As horas
mais bellas perdi-as a sonhar, quando a vida estava
a meu lado. Eu não vivi! eu não vivi!
Agora é que me lembro della, como d'uma
tarde que viesse devagarinho na ponta dos pés, e
se fixasse n'um minuto, no silencio, nas coisas
suspensas na luz—nos botões quasi a abrir.
Estraguei tudo, estraguei a minha vida e a
sua vida.
O dia d'hoje não existe para mim: só penso
com sofreguidão no dia d'amanhã. Ora amanhã é
a morte. E succede tambem que só dou pelas coisas
bellas da vida, depois que passaram por mim,
e que as não posso ressuscitar.
Há na vida um unico momento. Um momento
que sorri. Que concentra em si todos os momentos.
Troquei-o pelo absurdo. Troquei a vida pela
morte.
Só agora seus olhos verdes d'espanto me chamam,
seus olhos que exprimem o irreal e o mundo
todo, seus olhos cheios de dôr represa e de sonho
coado por lagrimas...
Agora é que ella está viva! agora é que ella
está viva! E tão viva que a confundo com a morte.
10 de janeiro
O tabique cahiu, e contemplo a vida. Mas entre
mim e mim interpõe-se um muro. O drama não
tem personagens nem gestos, nem regras, nem
leis. Não tem acção. Passa-se no silencio, despercebido,
entre mim e mim. É um debate perpetuo.
Que duvidas? Pois se a minha vida é esta e
não há outra vida; se o minuto é este e não há
outro minuto, que força me póde deter para que
eu não realise o meu destino contra ti e contra
todos?
Há um sêr que ocupa o meu sêr e me domina
quer eu queira ou não queira. Quem há ahi capaz
de dizer que a mesma ideia o não persegue?—Se
ella morresse...—Arreda-a. Tambem eu. Mas
saio d'isto aos gritos. Esfacelado. Tenho por força
de o admitir na minha companhia. Subjuga-me.
Peor: faz-me falta quando o não tenho ao pé
de mim.
Talvez eu seja um sêr complexo, talvez os outros
sejam tão complexos como eu. Tudo me faz
sofrer—mas metade do meu sofrimento é representado.
Tenho é certo duvidas—mas metade das
minhas duvidas são postiças. Hei de acabar por
não crer em mim como não creio nos outros.
Eterna contradição de todo o teu sêr. Não
sabes o que queres nem como o queres. Não sabes
no que crês nem no que não crês. És um
impulso. Vaes até á cóva levado por todos os
ventos, sempre a barafustar sem sentido. Explicas
tudo, ignoras tudo, adivinhas tudo. És um mar
d'inverno n'um dia de verão.
Está tudo decidido—dizes—está tudo prompto.
Só uma coisa me falta: pôr isto em acção.
E essa coisa, que é um nada, tem o infinito de
comprido.
Desde que este phantasma se pôz a caminho
nunca mais consegui detel-o.
Começa por uma idéa que afugento. Começa
por um pensamento tenue, por uma simples palavra
que afasto.
Insiste. Há ainda dias em que discuto. E por
fim domina-me, tem mais vida que a minha vida,
tem mais realidade, mais sonho e dôr, do que eu.
Assisto á sua acção e não o posso conter.
Acaba por acampar entre os destroços do meu
sêr como um dominador.
Mas eu não o criei! não fui eu que o criei!
Não só o não tolero como lhe tenho horror. Mas
para ser sincero devo dizer que há occasiões em
que me submeto com alegria. Para ser sincero
até ao amago, devo dizer que n'esta dôr, n'este
desespero, é que me sinto inteiramente viver. Com
elle é que eu grito. Decerto eu não sou isto—não
quero ser isto. Tenho-te medo e pertenço-te. És a
melhor e a peor parte do meu sêr.
Felizmente não vemos senão detalhes. Se alguem
podesse encarar uma alma até ás maiores
profundidades, e vêr ao mesmo tempo de que ternura,
de que ancia, de que desespero e de que
tempestades essa alma é capaz, nunca mais podia
desviar os olhos d'esse espectaculo. Fosse ella a
minha alma ou a tua alma. Era o mundo todo,
era o universo. Era Deus.
Que posso eu contra a vida? E se me recuso,
se lucto, que me espera? A renuncia? A estupida
renuncia, e cada minuto que passa me aproxima
do nada, me leva, queira ou não queira, para o
nada? Na cóva, na podridão, desfeito em pó, arrastado
por todos os ventos, d'aqui a um seculo,
d'aqui a milhares de seculos, ainda todas as particulas
do teu sêr, que não soubeste impregnar
de vida e alimentaste de simulacros, te hão de
prégar:—Estupido! estupido!
Remorsos? Eu não tenho remorsos. Duvidas?
Eu não tenho duvidas. Desde que te vi—vi o
universo. Comprehendi tudo. Comprehendi que não
tinha vivido, e que toda a minha existencia tinha
sido ficticia—que mais valia um minuto na vida,
que cem annos de vida. Que só há uma hora
na existencia e que é preciso aproveital-a. Que
tudo é simulacro e só tu és a verdade. E apercebi
o universo como força e destino a tal profundidade,
que n'esse rapido segundo passou por
mim n'uma rajada todo o turbilhão da vida, com
as suas vozes, os seus misterios e toda a sua grandeza
feroz. Vi tudo. Senti tudo. Bastou vêr-te.
Portanto não tenho duvidas nem remorsos. Ao
contrario estou calmo, ao contrario estou decidido.
Mas há uma coisa temerosa, uma coisa inexplicavel
e immensa—um fio que não posso cortar.
Tenho a sensação de que, cortando-o, aniquilaria
a vida. Não a minha vida, que não importa—mas
o que há de mais extraordinario e de mais
tenue na vida. Se houvesse Deus, diria que aniquilaria
Deus.
Há uma atmosphera de mentira que ninguem
deve ultrapassar—há uma atmosphera viva que
todos nós respeitamos.
Mergulho. Mergulho mais fundo ainda e não
encontro nada. E no entanto tu existes. És muda
e existes. Quando me imagino livre de ti, é que
tu tens mais força. Procuro explicar-te por palavras,
por convenções, por regras aprendidas, por
habilidades... És muito maior do que eu.
Ponho o ouvido á escuta d'encontro ao mundo,
ouço-me para dentro, para surprehender as
coisas fundamentaes que elle me ordena e são
duas ou tres simples, d'instincto e ferocidade. E
além d'isso outra coisa immensa—que não existe.
Como te chamas tu? E tu, dôr, como te chamas?