11 de janeiro
Ponho-me a olhar para ti consciencia, e exijo
que me fites nos olhos e que me fales claro. Não
entarameles a lingua. Em primeiro logar diz-me
o que és e o que significas: medo, receio, uma
vóz que se cala se a miseria aperta ou a luxuria
levanta a cabeça. Um nada, uma voz tão timida e
tão prompta a sumir-se... Incommodas-me é
certo, mas não impedes nada. Falas quando devias
estar calada, não sabes o teu papel e nunca entras
a tempo. Herdei-te: és convenção e egoismo alheio
entranhado no meu egoismo, synthetisado em duas
ou tres regras para commodidade dos outros. Fazes
de mim uma prêsa facil para quem a não tem.
És escrupulo, e o escrupulo é, pelo menos, inutil.
Estás em perpetua contradição. Inutilisas-me
metade da vida e nunca me pude desfazer de ti.
N'esta lucta de todos os dias, quando me julgo
livre, é quando te sinto todo o pezo.
Isto é decerto a vida. Mas a vida é tambem o
instincto que me diz:—Aproveita, não deixes fugir
o unico minuto. Se a vida é um momento entre
o nada e o nada, o que vale a pena é aproveital-o.
A questão suprema é esta e só esta: Deus
existe ou Deus não existe. Se não há Deus, a vida,
producto do acaso, é uma mistificação. Aproveitemol-a
para satisfazer instinctos e paixões. Se Deus
não existe, não há força que me detenha. Não há
palavras, nem regras, nem leis. Tudo é permitido.
Questão logica: pois eu hei-de ir para a cóva, para
todo o sempre, para toda a eternidade, sem ter
extrahido da vida tudo que ella me possa dar,
preso a palavras ou a meras questões de forma?
Oh! ponhamos a questão, consciencia: se Deus
não existe tu não és senão um estôrvo, meia duzia
de regras aprendidas ou herdadas. Ponhamos
emfim a questão com toda a clareza, porque este
é o unico problema que me importa e que te importa
resolver.
Escusas de encher a bocca com o dever. O dever
não me interessa nada. A questão fundamental,
a questão que eu debato com todo o meu sêr,
e de que me não consigo desligar, é a da morte
eterna e a da vida eterna.
Se Deus existe eu sou um homem,—se Deus
não existe eu sou outro homem completamente
diferente.
Não existindo tu consciencia, o que tu te intrometes
na minha vida! E tanto faz analisar-te,
discutir-te, negar-te, incomodas-me sempre. Estás
morta—estás viva. Na cóva hei-de chorar inutilmente
por te ter obedecido. Hei-de revolver-me
com desespero, por teres conseguido amolgar-me
e amesquinhar-me. Por mais que queira desfazer-me
de ti, tu impões-te-me. Quando te julgo
aniquilada, ahi começas a falar outra vez.
Vens de muito fundo!
Ás vezes protesto e imponho-me. Decido passar
sem ti: humilhas-te. Humilhas-te para logo
levantares a cabeça e revolveres o punhal na ferida.
Pesas-me como chumbo. És de ferro. Bem
tento explicar-te: são os escrupulos que me não
deixam trahir, mentir, subir. O que é eficaz não
é ter escrupulos, é fingir tel-os. É tudo o que os
outros nos pedem.—Mas tu não transiges. Se te
abaixas, é para te ergueres de novo, para de novo
me atormentares. Não me largas. Acompanhas-me
por toda a parte.
Se me livrasse de ti! se me livrasse de ti!
18 de janeiro
O que eu tinha era medo. Medo da morte,
medo da sombra. Só isto existia? Quando tudo
em mim me prégava que aproveitasse este momento,
que deste unico momento extrahisse tudo
que elle me podia dar—alguma coisa me detinha.
Eras tu consciencia. E tu não existias!
Fale a logica, fale a razão, fale tambem o instincto...
A consciencia é sempre religiosa. Mal
posso dar um passo no mundo sem tremer. O
mundo é Deus, Deus rodeia-me. Tudo para mim
é uma causa de espanto—e atravez d'este espanto
presinto ainda um espanto maior. Sinto-me como
balouçado n'um sonho immenso. Ando nas pontas
dos pés. Mal ouso respirar no cantinho onde contemplo.
E a minha consciencia era um reflexo
deste universo. Mas se tudo isto se converte em
forças, se arredo de vez a sombra temerosa, se
tudo é acaso no acaso, se nada existe, se é indiferente
o que eu penso e o que tu pensas, se só
eu sou ao mesmo tempo o bem e o mal, a consciencia
já não é a mesma consciencia e a sentimentos
novos corresponde uma consciencia nova.
Bem te procuro encontrar no fundo do meu sêr.
Rebusco-te. Ás vezes, nos momentos tragicos, já
não é comtigo que eu deparo—é com outro sêr
que assiste sempre, como um espectador, a todos
os meus exageros. Deitavas-te comigo, levantavas-te
comigo, ferrada como um punhal—e não
existias. Neguei-te. Expliquei-te. Reduzi-te ás tuas
verdadeiras proporções—e tu não existias! Atormentaste-me
e fizeste-me sofrer mesmo quando
já comprehendera que não existias. E agora mesmo,
quando o universo é outro universo, ainda te
encarniças sobre mim como um phantasma.
Escusas de te rir—tu não existes. Dependias
da morte, e o que eu tinha na realidade era medo.
Talvez medo para depois da morte—medo da minha
alma em frente da minha alma, medo de aparecer
nu e com pustulas diante do que é eterno.
Carreguei-te como um fardo inutil. Põe-me a questão,
põe-me todas as questões que quizeres. Tenho
diante de mim este mundo e a voragem, este
mundo e o nada. Não te metas de permeio, que já
não tens razão de ser. Seria mistificação sobre
mistificação. Não me atrever agora é absurdo.
Porque, consciencia, o que importa é a parte interior—é
a verdade sós a sós comigo, fechado a
sete chaves, e essa é temerosa. Não tentes iludir-me.
Não podes mentir a ti mesmo. Vê que
passaste a vida a conter o mal—e o mal fez
parte, queiras ou não queiras, da tua vida. O mal
é pelo menos metade do teu sêr. Agora sim—agora
estou livre e atrevo-me. Para sempre livre
da morte e livre do tempo, calco-te aos pés. Nenhuma
sujeição. Nenhum temor, nenhum phantasma.
Sem escrupulos! sem escrupulos! Uma força
entre forças e mais nada. O mundo pertence-me.
Pertence-me e olho-o cara a cara sem desviar
o olhar. Sou a unica força consciente, sem palavras
que me diminuam, nem escrupulos que me
contenham...
Agora fala! Aproveita o minuto unico, a infamia,
o enxurro, o sabor a fél e a lagrimas da
vida, ou enfileira-te, se podes, no estupido rebanho,
e reentra na vida quotidiana, feita de pequeninas
regras e interesses. Vem-me um vomito: tenho
vontade do fugir de mim e dos outros: só o
que é selvatico me interessa e acorda em mim sonho,
perfume e ferocidade... Quero saber o que
me impede agora de matar, quero saber o que me
impede de olhar nos olhos o inferno, de seguir
o instincto e de obedecer ao impulso...
20 de janeiro
Eu sou um desconhecido para mim mesmo.
Ia para a cóva sem me têr encontrado um momento
sós a sós comigo. E é com dôr, é com espanto e
dôr, que me reconheço; é com olhos de pasmo
e dôr...
Tudo mudou. A sofreguidão que todos os dias
da vida—sempre! sempre!—nos empurra e leva;
o sentimento da vida ephemera e o horrôr da
morte—mais perto! cada vez mais perto!—; esta
coisa imponderavel que debalde tento deter—sem
nome e a que se chama o tempo—que nos usa, a
que não ouço os passos e que caminha inalteravel—tudo
desapareceu de vêz. Respiro. E, modificada
a ideia do tempo, todas as outras se alteraram
profundamente. Os sentimentos não são os mesmos.
A vida assenta n'outras bases, a vida fica amarga.
Resta-nos a logica e a consciencia. Mas a
consciencia admito-a, comtanto que não me embarace.
A consciencia que quizeres, comtanto que
não me amesquinhe, ou não me iluda. O unico
juiz sou eu. O fim da minha vida não é dominar-me,
é dominar-te.
Todos temos de matar, todos temos de destruir,
todos temos de deitar abaixo.
A paciencia acabou, a resignação acabou—e
acabou a morte. Suprimida esta ideia, suprimido
tambem o tempo e o espaço, as velhas não existem;
o que está vivo é a ferocidade, a paciencia
e a mentira—e tudo espera a ocasião. Espera
e desespera. A parte de dentro é que está viva
e reclama de pé e de ferro a sua vêz. Notem:
nenhuma arriscou um gesto mais brusco. Por mais
fél
que lhes venha á bocca estão habituadas a
engulil-o. Nem com a cabeça tapada se atreveram
a olhar a verdade. P'ra dentro! sempre p'ra dentro!
E assim succede que não se construiu nunca
cathedral com alicerces mais fundos. Está viva.
Uma sustentou-se de côdeas, outra sustentou-se
de fome. A inveja tambem sustenta, o fél tambem
sustenta. Á Araujo só a paciencia e o calculo
lhe permitiram viver. Ás vezes tem fome—nunca
disse a ninguem que tinha fome. Sabe logo quando
entra n'uma casa as palavras que agradam á
velha rancorosa e á filha cheia de pretenções a
quem ensina as escalas; de quem há-de dizer
mal esta semana e bem para a que entra. Esperou
como a aranha espera com o estomago vasio.
Nunca pediu esmola. Melhor: conseguiu dar-se ao
respeito. E calcula, calcula, cheia de fome, o tempo
que a magestosa Theodora pode durar. A D. Penaricia
é abjecta, mas só a abjecção lhe tem
permitido viver. A mentira tem razão de ser—sem
abjecção a sociedade repele-nos. Admitimos
alguma abjecção, não completa e total, que repugna,
mas a precisa para servir de realce e moldura
ao nosso quadro. Acresce a isto que teve
de viver com despreocupação, de sorrir com despreocupação,
de mentir com despreocupação—com
a miseria atraz de si.
Com fél constróe-se uma vida—o fél dá certa
solidez. O peor é meter logo para dentro toda a inveja
que lhe vem á bocca. Peor ainda: na velhice
misturou-se tristeza ao fél. Não só a D. Penaricia
tem inveja, não só a D. Penaricia odeia, mas a D.
Penaricia chega ao ponto em que percebe a inutilidade
do fél. A Theodora pode aniquilal-a de
um gesto. Fél e vinagre—mais fél e tristeza.
É um vasto campo de destroços de que desvia
o olhar. Foi-lhe então inutil o fél? Se não fosse o
fél já tinha morrido. Quando passou fome, quando
deu dinheiro ao homem para o jogo, quando perdeu
na bisca para a Theodora ganhar e sorrir,
o que a sustentou foi o fél. Quando vestiu a filha
e a passeou no jardim, com trapos como os outros
trapos, o que a sustentou foi o fél. Juntem a isto
coisas inverosimeis que se lhes pegam e as reclamam,
velhas coisas esquecidas, velhos sapatos d'ourelo,
desaparecidos para sempre nas profundidades
do nada; velhos habitos, costumes aferrados,
miserias chronicas, adquiridas pela vida fóra e
que erguem a voz, cabelos postiços, sentimentos
postiços, gritos, e o exaspero de quem não pode
berrar:—O que eu quero é gosar! o que eu quero
é encher-me!—o que representa ainda mais fél
e tristeza, mais fél e vinagre. Alli estão frente
a frente, e pergunto se estas velhas que passaram
a vida á espera d'uma herança não teem direitos.
Pergunto se é possivel que a magestosa Theodora
continue a viver mil annos e a impôr-se,
a mandar, de quico na cabeça e com o cofre atraz
de si, e as outras agarradas á meza do jogo e á
espera da morte. Pergunto se ter inveja não é
sofrer, se ter paciencia não é sofrer. Há que
tempos que cada uma d'ellas só pensa em matal-a
e arreda a ideia com medo ao inferno. A teia aperta-se.
Mais um momento e a teia torna-se visivel.
A magestosa Theodora não pode escapar. Todos
os dias se tecem fios que a envolvem, todos os
dias aquellas vontades actuam, todos os dias o
sonho constróe. Sufoca. Formou-se um sêr que
tem vida propria, uma atmosphera, uma alma
commum, de que fazem parte todas aquellas almas.
A magestosa Theodora pertence-lhes. Hoje a Adelia
cravou de repente a agulha sobre a meza,
e a magestosa Theodora desatou de subito, aos
ais, aos ais, como se visse alli lavrada a sua sentença
de morte. Todas as phisionomias mudaram
alteradas e profundas, subindo á tona das profundidades
do universo ou de poços mais profundos
ainda. Agora o sonho não é um segundo, o
sonho vae ser a vida.
—Está certo o senhor? Está certo o senhor
padre Ananias, que depois d'esta vida há ainda
outra vida de que nos têem falado? Ou há só esta
vida? só esta?! E isto é uma
comidela?
O que ellas estavam era sepultadas n'um vasto
cemiterio do tamanho da villa. Sobre cada velha
havia pó, sobre cada interesse pó, sobre cada phisionomia
outra phisionomia. Efectivamente a
Theodora é uma insignificancia. Só dá leis. O melhor
é matal-a. E todos os olhos se cravam nos
olhos do padre, todas as velhas mastigam em
secco, todas as velhas dão de repente um salto
brusco no vacuo.
Ó paciencia que já não és paciencia e trazes
veneno na algibeira, com que despeito olhas para
traz, para o Hymalaia de inutilidades. Debalde a
paciencia tenta dizer ao sonho:—Amanhã—;
tenta iludil-o:—Espera...—e a mentira propor-lhe
uma transação. O sonho toca na paciencia
como quem toca n'um nervo, e quando a Restituta
vae mais uma vez dizer-lhe á pressa:—Pois
sim...—aperta-lhe o gasganete e pela primeira
vez na vida a deixa desorientada... Comediante,
vê se aproveitas o excesso da tua dôr para praticares
uma nova infamia!
21 de janeiro
A mesma interrogação se formula em todas
as almas: quer então dizer que só vivi uma vida
ficticia ao lado da vida e que perdi o melhor da
existencia com aparencias? Quer então dizer que
tudo para que vivi não existe? Ponhamos a questão!
ponhamos a questão! A maior conquista do
homem, Deus, desapareceu para sempre—desapareceu
tambem a morte. Ponhamos a questão: façamos
taboa raza. Está tudo em terra, o dever, a
honra, as formulas e as regras. Ponhamos a questão
por uma vêz, nitida, clara e sem subterfugios.
Ponhamos a questão e todas as questões...
Avançam e recuam logo. Do sonho grotesco
ou explendido, ridiculo ou feroz, á realidade vae
um passo desmedido. Interpõe-se um muro...
Todos passamos os dias a resignarmo-nos. Muitos
nem dão pela vida. Há sêres que tanto faz estarem
vivos como mortos. Outros nunca repararam
sequer na sua verdadeira phisionomia (porque até
a nossa phisionomia é mais verdadeira que real).
Em alguns o murmurio das vozes é tão afastado
que não chegam a interpretal-o... Há-os que sahem
da lucta esfarrapados, há-os cheios de reticencias
e que mal visionam o mar morto indiscriptivel.
O que os farrapos custam a largar! o que o muro
custa a deitar abaixo! Pesa-lhas a vida anterior,
o habito reclama-os. Adhere-lhes o infinito e as
colicas, a usura e o fél. E sobre tudo isto há a
contar tambem com a imbecilidade e a apagada,
inepcia. Há a contar com a langonha que tambem
tem o seu sonho. Há a contar com o que se arrasta
no escuro, com olhos brancos, com olhos vagos
para a lua e para o sonho. Há a contar com as velhas
encardidas de habitos e de fistulas. Em sêres
amorphos e aguados, quasi inertes, no fundo remexe
ainda um resquicio de sonho, que se traduz
no mesmo gesto pautado, na mesma mimica, e no
olhar, onde, até na imbecilidade cerrada, se distingue
não sei que de temeroso. Por isso a questão
não é facil de resolver. Por isso o Anacleto
ainda não a matou. Ainda não conseguiu deitar o
muro abaixo. Não é o que se pode dizer na praça,
porque a praça venera-o. Não é tambem que a
ideia de a matar o assuste. A villa conhece o seu
escrupulo e honra-o. Nunca deixou de pagar uma
lettra. Mas há não sei quê que o contraria e se
opõe. Tambem as velhas se deteem, tambem o Santo
se detem. Mas a maré que ahi vem sobe sempre.
Ao mesmo tempo entontece-os e ao mesmo tempo
perturba-os.—Eu não quero vêr! eu não posso
vêr!—e tenho de me olhar cara a cara, tenho por
força de te admitir, tu que és o meu verdadeiro
sêr, immenso e profundo, com raizes em toda a
lama e braços que chegam ao céo.—Eu não sei
d'onde vem isto, e isto aturde-me. Olha como sorrio
para ti, como finjo que sorrio de mim e de ti que
te pões a falar. O gesto que eu faço, não me pertence,
perturba-me o som da minha voz. E a
noite é cada vez mais cerrada...—Ninguem quer
achar-se frente a frente com o seu proprio phantasma.
Nem tu, nem eu. Fugimos-lhe sempre. E,
se succede encontrarmo-nos, quedamo-nos com um
sabor que nunca mais se esquece. Um passo está
dado, falta dar outro passo. Custa...—Ao que quasi
todos se apegam não é a grandes acções, é a
simples peripecias. As existencias que se nos afiguram
dramaticas são cheias de ninharias, de ideias
fixas e de paciencia. O Torres engrandece a mania
de copiar inutilidades: d'aqui a dois dias ou d'aqui
a dois seculos, ainda o encontras curvado sobre o
mesmo manuscripto, onde traslada o folhetim do
Seculo. Á Araujo que dá lições de piano é desespero
inteiriço. O honrado Elias de Mello vê o tratante
Elias de Mello pôr-se a caminho e não o pode
deter.—Ahi começas tu tambem a perceber que
a tua vida foi um mero simulacro, que, a tua bondade
for sempre um simulacro, que a tua felicidade
não passou d'um simulacro...—A D. Fufia,
que há muitos annos está morta por dizer mal,
que nunca se atreveu a dizer mal, e que, quando
ia a dizer mal, dizia logo bem de toda a gente,
rompe agora a abocanhar todos os ridiculos, todos
os orgulhos, todas as vaidades:—O que isto
consola!...—Divagam, falam queiram ou não
queiram com os proprios phantasmas, monologam,
discutem, gritam. A cada passo uma interrogação
exige resposta, a cada passo um abysmo aberto...—D.
Leocadia, o meticuloso dever foi a tua
vida e agora descobres que o dever não existe,
descobres que tudo aquillo para que viveste não
existe, e que existe outro dever maior e mais
vivo. Descobres que as palavras não te servem
de nada. Descobres que tens d'ir de encontro ás
questões e não as podes desviar do caminho. Descobres
que por tuas proprias mãos criaste uma
creatura disforme, que alimentaste de mentira. E,
a esta luz que te dá de chapa, descobres que a tua
caridade e os teus escrupulos eram uma lucta de
vaidade e de medo, de palavras e de instincto,
onde não entrava uma unica verdade. Descobres
que criaste um sêr falso que abominas e te abomina,
e que não te podes separar d'esse horrôr. Descubro
tambem que errei a vida, e não sei recomeçar a
a vida, e que tudo que fiz não fui eu quem o fiz,
mas o outro que me mete medo, e que tanto vale
a minha vida que perdi a arcar com Deus, como
a da Telles de Meirelles que a gastou com um
trapo. Com um trapo e palavras, ambos subvertemos
o mundo—um dia, uma semana, um seculo.—Examinando
bem a questão, meticuloso Anacleto,
uma palavra bastou para te deter... Examinando
bem a questão reconheces que foram as conveniencias...
Has-de arrepender-te até a consumação
dos seculos. O mundo vesgo que em mim descubro
no outro compartimento, é o mesmo que em
ti descobres. Faz esgares como certos rictos indecisos
que se formam á tona dos pantanos. Todos
sentimos atraz de nós um mundo, outro mundo,
outro mundo de ninharias, de palavras sem nexo,
de coisas que perderam a expressão, de apetites
que nunca se realisaram—todos cobrimos isto de
aparencias. Passamos a vida a conter outro sêr—outra
coisa—outro espanto. Há um fio invisivel
que ninguem se atrevia a ultrapassar. Uma
ordem que ninguem rompia. Até a colera e o desespero
mantinham certo verniz. E agora descobrimos
todos ao mesmo tempo, ó meticuloso Elias,
ó impoluto Melias—com risca e vinco, com vinco
e risca—que resolver matal-a é facil, mas para
a matar temos de deitar abaixo legoas de espessura.
Deixamol-a morrer ou não a deixamos morrer?
E nem sequer podemos iludir a resposta.
A mesma coisa desconforme entra pelo nariz e
pela bocca do Santo. Entupe-o. Esvasia-o e endireita-o
depois de amolgado. Outro sêr, n'um estonteamento,
bate com a cabeça pelas paredes.—Mas
então?... pergunta atonito.—Mas então
posso, atrevo-me?... Tudo isto era uma mistificação?
Mas então tudo é possivel e posso realisal-o
ámanhã, hoje, logo? E estas teias de ferro
eram teias d'aranha?... Mas então o medo, a
morte, o inferno...—Aqui estou eu com esta mulher
a meu lado, e sem querer pergunto a mim
mesmo...—Mas então?...—Sim, resta-me certa
pena e saudade, mas o interesse levanta a cabeça
e deita as suas contas tão baixinho que mal lhe
ouço fazel-as...—Teçamos, teçamos todos a nossa
teia esplendida, vulgar ou grotesca..:—Mas então...—E
encaro com um mundo novo, a que por
ora nem eu, nem tu, nem nenhum de nós se afoita.
Só as interrogações são cada vez maiores em
todas as almas. Todos os bonecos arreganham
os dentes e a Porphiria sua inveja. Efectivamente
não se comprehende para que vivem certos sêres
inuteis, que atravancam a nossa existencia e um
pequeno incidente podia suprimir. Efectivamente
não se explica que bastem alguns fios imateriaes
para nos conterem, e que um vidro de vidraça
seja suficiente para nos separar da vida.
Até a D. Restituta que era um poço sem fundo,
desata a repetir os segredos de toda a gente,
fazendo gestos na obscuridade com o guardasol
de panninho.
—Acuso! acuso! acuso!
Tocou-lhe tambem a vez. Usou-se a obedecer, a
dizer a toda a gente que sim. Hoje uma gota de fél,
ámanhã outro resto amargo. Já não sabe dizer
senão que sim, já não consegue apagar as dedadas
que lhe imprimiram. Coçada, coçada, coçada.
Fez as vontades á D. Procopia, á D. Felizarda,
á D. Herminia. Sujeitou-se ás vontades do conselheiro
Pimenta, quando por desfastio lhe fez um
filho. Orgulho? Ninguem tolera, ninguem concebe,
que a Restituta tenha orgulho; ninguem tolera,
ninguem concebe que a Restituta tenha vontade.
Habituou-se, apelintrou-se. A Restituta é um
reflexo. Diz-se tudo deante d'ella. Há familias separadas
por odios seculares: só ella entra e sae
n'essas casas quando precisam communicar. Naquella
alma incutiu-se até profundidades desconhecidas
o respeito ás pessoas ricas, a consideração
ás pessoas importantes. Que tem a Restituta
que desata aos gritos:
—Acuso! acuso! acuso!
Debalde lhe tapam a bocca. É um vomito, um
chorrilho de palavras precipitadas—a vida de
toda a gente—são os despejos entornados. Em
vão dez, vinte mãos anciosas se lhe agarram ás
guellas abertas: aquillo sae n'um jôrro impetuoso—tudo
quanto estava recalcado, todos os segredos
que ouviu, todas as miserias que lhe deitaram
para dentro, e, se pára um momento, é para
tresvariar n'um riso feito de todos os risos postiços,
n'um esgare feito de todos os mil e um esgares
que acumulou durante a vida:—Eu tambem tenho
um filho! eu tambem tenho um filho como
voces!—Impurram-na, escorraçam-na, e ella agarrada
ao guarda-chuva ainda brada:
—Acuso!
A vida irrompe, o sonho irrompe como hastes
de cactus, nascidas d'um dia para o outro, com
escorrencias nas extremidades ridiculas e pueris.
Arredei sempre isto—isto que estava ao lado da
vida. Nunca quiz vêr isto, fingi sempre que isto
não existia. Tambem tu o arredaste... E isto existe.
E isto é enorme. O que ahi está fede. Tresanda.
Sua viscosidades. Apega-se. É uma marcha furiosa
e desordenada. É a Vida. São todas as ancias
soterradas que se não chegaram a exprimir.
É um inferno de gritos e de impulsos, sonhos impossiveis
de sonhar, aquecidos a bafo e ternura,
sem forma nem côr, ou admiraveis sonhos de
tragedia. Mais um passo e tudo que estava recalcado,
tudo que estava morto e sepultado, toda
a podridão, todo o desejo encarniçado e oculto,
toda a mistella que lucta ás cegas na escuridão
para vir á superficie, desata a falar á tôa. Mais
um passo e o sonho é realidade. Fala a infamia
e o grotesco, fala a candura ao mesmo tempo.
23 de janeiro
Ao Santo só lhe resta orgulho. O sonho descarna-o
e deixa-lhe o orgulho intacto. Debalde
préga, debalde lucta comsigo mesmo.—Eu já não
creio no inferno.—E detem-se com espanto deante
dos destroços, das formulas, da insignificancia,
dos simulacros que foram a razão da sua vida.
Tudo que lhe enchia o mundo não existe, tudo que
não existia lhe parece maior:—Eu quero crêr!
eu quero crêr e não posso crêr!—Debalde insiste
comsigo mesmo:—Nossa vida aqui é nada, nossa
vida eterna é tudo. Nosso destino é a morte.
Só assim posso explicar o universo, só assim
posso comprehender o universo.—Tudo o que se
tinha apoderado do seu sêr até ás mais intimas
raizes, tudo o despedaça até ás mais reconditas
raizes. Dilacera-o.—Não me atrevo sequer a olhar
a vida, a olhar para mim, a olhar o pelago desordenado.
Eu quero vêr e não ouso! Eu quero crêr
e sinto-me pequeno e grotesco ao lado d'isto!
D'esta coisa monstruosa que não posso arredar.
Não posso arredal-a.—Para ti tambem o problema
é insoluvel, D. Leocadia, que resurges com o vestido
coçado, mais secca e mais verde. Estaes ambos
encalacrados.—Tu viveste sempre para Deus
e para o inferno e nem sequer o inferno existe.
E tu procedeste sempre segundo a tua consciencia,
regulaste tudo conforme a tua consciencia—e tu
e tu—e ahi estaes ambos atonitos e verdes, resequidos
e verdes, desesperados e verdes, sós a
sós em frente d'uma figura que vos não larga.
—Trouxe-a para casa, sustentei-a, mas nunca
a pude vêr, diz ella—Deste-lhe codeas mas não
podeste amal-a. Sustentaste-a por caridade, sustentaste-a
de restos para calares uma voz tremenda.
Ella foi peor que uma creada, foi uma creada
que se não pode despedir, presa pela gratidão—observa
a outra D. Leocadia—Fala claro, fala
alto. Atreve-te.—Atrevo-me. Toda a minha vida
fiz o sacrificio de a manter, toda a minha vida
por caridade a tive junto de mim, calada e subalterna,
amachucada e sem vontade, para cumprir
perante Deus o meu dever. E agora a consciencia
exige de mim?...—Exige.—Exige de mim, porque
o meu filho lhe fez um filho, que o case com
a orphã, sustentada de esmolas, calada e viscosa?—Exige.—Por
quem eu só sinto repulsão?—Exige,
e o peor de tudo é que lhe deste restos, mas
não podeste amal-a.
Torce-te, torce-te mais ainda. A cada camada
de verde pega-se-te logo outra camada de sonho.
A D. Leocadia coçada e secca sacode em vão e
arreda outra D. Leocadia inteiriça e coçada. Tambem
o Santo está aqui, só e o pecado, só e Deus,
só e o desespero: «Deus existe—ou Deus não
existe. Se Deus existe, se tenho a certeza que
Deus existe e se interessa pela minha dôr, esta
vida transitoria é um unico minuto com a eternidade
á minha espera. Tudo me parece facil. Que
exige o meu Deus? Que me reduza a pó e despreze
a aparencia? Tudo é vão deante da eternidade que
me espera. O meu Deus enche o mundo. Só o
meu Deus exista, e todo o resto no universo é tão
pequeno e tão futil, que reclamo mais dôr, mais
sofrimento, mais fome. Que a desgraça caia sobre
mim com todo o peso da desgraça; que a dôr me
descarne até á medula. Despreso a dôr. Exijo-a
deante da eternidade. Sou capaz do andar de
rastro com a bocca no pó, sou capaz de sofrer todos
os tormentos, com a certeza de que me livro
d'uma eternidade d'angustias para vêr Deus. Venham
todos os escarneos, todos os gritos, todos
os suores da agonia—venha meu Deus a cruz!
Até á morte hei-de crêr no que creio. Sem crêr
não sou nada—sem crêr não existo—sem crêr
não comprehendo a vida. Preciso de caminhar
para um destino. Crêr é uma necessidade absoluta,
um sentimento primario, a propria vida, sua
razão e seu fim. Tenho necessidade de Deus, como
do ar que respiro. Sem elle a vida é desconexa
e atroz; peor, é monstruosa. Creio porque
creio. Se a vida se reduzisse só a isto, a vida seria
abjecta. Dentro em mim tudo me fala n'uma
lei, n'uma logica, n'uma razão de ser, n'um sentido.
Eu vejo Deus, eu sinto Deus.
Mas se Deus não existe—se Deus não existe
que me fica no mundo? Sou nada no infinito.
Fui tudo—e sou nada. Leva-me a força bruta.
Sou o acaso na mistificação. Sou menos que nada
no monstruoso impulso. Se Deus não existe tanto
faz gritar como não gritar. Não tenho destino
a cumprir: saio do nada para o nada. Nas mãos
da força bruta que sou eu no mundo que grito,
que discuto, que clamo?... Atraz deste infinito
vivo, há outro infinito vivo. Atraz d'esta
impenetrabilidade, há outra camada de impenetrabilidade,
outra vida ainda, outro desespero sofrego.
Não encontro aqui logar para Deus que
me ouça, que me atenda, ou que saiba sequer
que existo.
Os gritos são inuteis, tu não me ouves. Estou
só n'este absurdo que me impele e esmaga...
Que não houvesse o céo, que existisse o inferno
só o inferno! E nem o inferno existe!...
Se Deus não existe... O peor de tudo é que
eu digo e afirmo,—Deus não existe!—mas na
realidade não sei se Deus existe ou não. Não há
nada que o prove—ou que prove o contrario.
O peor de tudo é que eu sinto uma sombra por
traz de mim e não sei por que nome lhe hei-de
chamar. O peor que podia acontecer no mundo
foi alguem pôr esta idéa a caminho. Mas mesmo
que Deus não exista, tenho medo de mim mesmo,
tenho medo da minha alma, tenho medo de me
encontrar sós a sós com a minha alma, que é
nada, o fim e o principio da vida e a razão do
meu sêr. Mesmo que Deus não exista e a consciencia
seja uma palavra, há ainda outra coisa
indefinida e immensa diante de mim, ao pé de
mim, dentro de mim. Vem a noite e com a noite
interrogo-me:—Existe?—O que existe é monstruoso.
Não ouve os nossos gritos. O que existe
é o espanto. O que existe reclama dôr. Sustenta-se
de dôr e não dá por ella.
O que existe então é isto—é um ulular de
dôr na noite—no turbilhão, no escuro. O que
existe são gritos, e eu sou levado, arrastado n'esta
mistificação. Por traz de mim há uma coisa que
me apavora, por traz de mim há uma coisa cada
vêz mais sofrega, cada vêz mais phrenetica—e
que de cada vêz exige mais dôr. Espera: a
harmonia não existe—existe a dôr; a belleza não
existe—existe a dôr; Deus não existe—existe a
dôr. E há um momento apenas para realisar a vida.
Nesse momento de paixão todas as forças se concentram
e ponho o pé no mysterio. Tenho de aproveital-o.
Tudo o que exista na noite immensa, na noite
ignobil, é peor que Deus. Tudo o que existe me faz
horrôr, tudo o que existe entre as forças desordenadas
me causa espanto... E por mais que
grite, por mais que proteste, estou aqui diante
do incomprehensivel, vivo no nada, de pé na voragem.
E para lá há uma coisa infinita, um negrume
infinito, uma vida infinita. É immenso—é
inutil. Sou menos que nada. Só deparo na minha
frente com infinito sobre infinito, com o negrume
sufocado, com o negrume impassivel, com
o negrume vivo e immenso, desesperado e immenso.
Só contei comtigo meu Deus—e agora
quero crêr e não posso crêr. Estou aqui defronte
do espanto e sinto-me perdido na vastidão infinita.
Tudo o que disse—disse-o deante do vacuo,
tudo o que sofri—sofri-o deante do vacuo. Todo
o meu desespero, a minha dôr, a renuncia, os esforços,
o calvario deante do vacuo!»
O maior drama é o das consciencias. O maior
drama é arredar todos os trapos da vida, para
poder olhar a vida cara a cara. O maior drama
é ficar só com o vacuo e em frente do espanto,
É dizer: nada disto existe. Só dou no meio d'este
assombro com uma coisa desconexa e abjecta, a
discutir comigo mesmo, levada por impulsos. O
maior drama é não encontrar razão para isto que
vive de gritos e se sustenta de gritos—e ter de
arcar com isto. Perceber a inutilidade de todos
os esforços e fazer todos os dias o mesmo esforço.
E isto não nos larga. Sacode-nos e abala-nos até
á raiz, n'uma discussão que nunca cessa. Nem
em mim, nem em ti, D. Leocadia. Essa figura
tremenda insiste cada vez mais alto, cada vez
mais sofrega, cada vez mais desesperada. Ouvel-a
diante de ti, ao pé de ti, dentro de ti, mais coçada
e mais verde, com outra camada de sonho
e outra camada de verde?
—O dever? que dever? Antes a deixasses
morrer de fome.
—Mantive-a para cumprir o meu dever.
Aqui tens tu a minha consciencia, aqui tens
tu a tua consciencia, e aqui está a consciencia da
D. Penaricia. E tanto vale para o caso o genio
em frente da consciencia, como o ridiculo em frente
da consciencia.—Valeu a pena não
matar?—pergunto—perguntas—perguntam.
Aqui estou em
frente d'isto, com um segundo e todo o seu esplendôr
e todo o seu espanto e todo o seu desespero,
e pergunto, perguntas, perguntam, se o
que se chama a honra e o que se chama a consciencia
e o que se chama o dever, teem forças
para se me impôr. Oh palavras não! A pergunta
não é como as outras para ser iludida com subterfugios.
É a unica que carece de resposta imediata
como um punhal que vae direito ao coração.
Vê tu que, apezar de tremulo, estou calmo...
O problema é capital. Pergunto se toda a lucta
foi inutil, se todo o fogo do inferno que recalquei,
foi inutil? Pergunto, perguntas, perguntam se as
horas para nos contermos foram uma estupida
mistificação. E as boccas remoem em secco no
escuro, e as mãos sofregas palpam os vestidos
de ceremonia. Estão decididas a tudo. Vem-lhes
á supuração o antigo fél e vinagre, os pequenos
desesperos, e os grandes desesperos. Tudo está
vivo. Cada sêr formula uma interrogação. Segue-se
que se os paes teimam em viver, transtornam
todos os planos, todas as regras e todos os preconceitos
estabelecidos. Segue-se que acima de teu
direito está o meu direito. Segue-se que a construcção
antiga desabou, e a um mundo novo correspondem
creaturas novas. Segue-se que todos
os problemas se reduzem a um só problema—o
dos mortos. Segue-se que o muro é uma insignificancia.
Tapa o céo e a terra, não existe montanha
de tanta espessura—é uma teia d'aranha.
Sôa a hora da outra coisa disforme o aluir para
sempre. Por traz do muro é que está a paixão,
o crime, o desespero e a vida esplendida e feroz.
É preciso deital-o abaixo. Os tumulos estão
gastos d'um lado pelos passos dos vivos e do
outro pelo esforço dos mortos.
1 de fevereiro
Chega fevereiro. Primavera. Dá logo rebate
o tojo bravio. A aspereza é a primeira a sentil-a.
O tempo está funebre. Ouço o ruido calamitoso
das aguas. Só os botões dos salgueiros estalaram.
Nos galhos despidos entreabrem-se flocos
friorentos e pelludos.
Corre um vento glacial e as arvores encolheram-se
transidas. Mas n'esta frialdade sinto já
ternura.
O ar de fevereiro é outro: é morno. As rãs,
de barriga no lôdo, coaxam de satisfação, pegajosas
e molles como a herva verde e humida.
E, d'um dia para o outro, crescem á tona da poça
azul, encastoada na terra negra, fios d'herva a
reluzir. Tinta entornada.
O ar sabe bem: sabe a bravio.
Ao longe o sol trespassa os montes. Manhã
de nevoa e oiro gelado. Uma arvore nova cobre-se
entontecida da primeira flôr. Apressou-se,
enganou-se... É uma haste de pele luzidia, tres
raminhos abertos no azul. E isto envolto em ternura,
tanto faz que se trate d'uma arvore como
d'uma rapariga.
Sente-se n'esta atmosphera humida a seiva
inchar os botões tumidos das arvores. Volta a
chuva gelada: a primavera tenta, vem com hesitações.
Muda o scenario. Acinzentam-se os montes por
onde sobem arrasto pelas pedras rôlos de fumarada.
Acastelam-se no céo as grandes nuvens esponjosas.
Chove. A voz é outra. D'onde a onde
descerra-se a cortina vaporosa e emergem os montes
brutos e compactos.
Nos abrunheiros bravos estalam os primeiros
botões. E quanto mais bravos, mais flôr deitam.
É uma prodigalidade.
Noite. A escuridão, o silencio, o esplendido
céo todo d'oiro sobre a massa negra dos montes.
É isto e os gritos da moichela aos ais d'aflição.
Eis torna o silencio, e a alma sufoca de espanto...
O pio triste dos sapos irrompe de profundidades
ignotas. E outra vez o silencio, a noite imutavel
cheiinha de estrellas—e sempre o mesmo
fio d'agua, misturando ternura a este espectaculo
d'assombro. É só isto, e a muralha disforme
ao fundo, ainda palida de luz.
A primavera é um phenomeno electrico.
Na primeira tentativa da flôr há fealdade
e ao mesmo tempo candura; depois, da noite para
o dia uma gôta de tinta como uma gôta de leite.
Basta que á nevoa se mistura o sol, para entreabrir,
ainda informe. Todos os sêres, antes de se
vestir, são abôrtos: teem medo de nascer bellos.
Ás vezes basta um dia. D'um instante para
o outro, poeira azul, entontecimento, sonho...
E isto não é só material. N'este mysterio
há certa dôr, certa tontura, há até espanto. É um
olhar que se abre para o mundo. Pela emoção a
arvore comunica com o universo e manifesta uma
vontade que triumpha sobre a dôr inconsciente.
Entre a arvore, o céo e a terra há um compromisso
de ternura.
5 de fevereiro
O que isto custou na obscuridade do mundo
cahotico!... Houve decerto uma primeira primavera,
mas as flôres, que hoje são ternura eram
então espanto—tentativas frustradas de sonho.
Os gritos da floresta primitiva, não os ouço mas
estão aqui contidos. E ainda hoje a terra se perturba,
porque vae assistir ao mesmo drama.
Todo o universo se concentrou para gerar a
vida, todo o universo se concentra para a destruir.
A villa estremece ao sentir a primavera estranha.
Noiva. Noiva a D. Ursula, pergaminho
e escrupulo, que fez da vida um pecado, e ao réz
de cuja alma liquida se espalmam flôres venenosas.
Não há sêr que fique indemne. Até que
chegou a vêz á macieira anainha, que um bafo
humido-lilaz turba e perturba. Há aqui um encolhido,
que nunca sahiu do saguão, que nunca olhou
para o céo nem sabe que o céo existe: sente
tambem a primavera. Assim me succedeu com um
tronco decepado que no inverno meti no fundo
d'uma loja: na primavera seguinte tinham-lhe crescido
ramos: sentiu-a atravez dos muros, e, com
gritos represados, botou um simulacro de flôr.
Fevereiro. Primeira noite de luar e de loucura.
A primavera toca mais fundo, mais fundo ainda—esta
primavera que revolve os vivos e os mortos.
Todos deitam flôr. Acordam na profundidade
dos sepulchros, com o sonho que levaram para
a cóva, com todos os sonhos desfeitos em pó.
Há-os que nunca se atreveram a declaral-o. Há-os
que o sumiram com receio de sonhar. Há-os
estonteados...
Ouvel-os falar baixinho, surprehendidos, como
se soltassem todos o mesmo ah—de espanto, e
se puzessem a falar baixinho uns com os outros?...
Fala a poeira, fala a sombra desconforme,
fala o pó desaparecido.
Na frente uma aparencia—a vida está na
multidão que nos impele, a vida está nos mortos.
Massa atráz de massa, os mortos empurram os
vivos. Sente-se o esforço doloroso. Atraz d'estas
mãos, outras mãos de desespero; atraz d'estes olhos
sem orbitas outros se esforçam para a luz. O peor
era o silencio. O esquecimento é que é a morte
definitiva, e por isso o esforço augmenta. Formam
uma cadeia infinita, a caminho para a vida
e para a dôr; a todo o momento nos falam e nos
guiam, e toda a sua ancia é viverem depois que
estão no sepulchro. A velha que sahiu da existencia
mirrada, continua a trazer o menino ao
collo. Outros caminham tropegos, sacudindo a
terra que se lhes pegou aos ossos. Eil-os dispostos
a sofrer por uma nova ilusão. A vida foi um
nada, impregnou-os para toda a eternidade: um
instante de luz bastou para lhes dar gosto á dôr.
O que elles tentam misturar as suas lagrimas ás
nossas lagrimas! o que elles arfam para que o
mesmo fluido que nos prende aos sepulchros—onde
estremecem—se não desligue da vida que
ainda se não tornou visivel! É que não só os
mortos mandam nos vivos, tambem os vivos mandam
nos mortos. E avançam, empurram-nos...
Conservam no fundo do tumulo as manias da outra
existencia. Esta velha aperta um trapo ao peito
como um filho, com medo de o perder. A moça,
mesmo na cóva, dá um geitinho tão lindo
ao lençól! Este conserva na concha da mão uma
moeda de cobre, e áquella, Maria Antonieta, René
reconhece-a mais uma vez por a têr visto
sorrir nas Tulherias... Estendem as mãos mirradas
para se aquecerem ao nosso lume; guardam
nos ouvidos pela eternidade os ruidos vulgares—os
mais bellos—o das folhas cahindo uma a
uma, o da fonte que corre e que nunca mais tornará
a correr, o da voz que lhes falou na hora
extrema; guardam nas mãos o ultimo contacto
das mãos, e a restea doirada d'este sol doirado
ainda lhes reluz nos buracos das orbitas...
Deitam-se ao mesmo tempo a caminho do
fundo dos fundos e de mais fundo ainda. Mesmo
morto o que eu não quero é morrer... Primeiro
rebate, da primavera doirada e phrenetica, primeiro
impulso que estonteia e deslumbra...
Os mortos é que estam vivos! os mortos é
que estam vivos!