21 de fevereiro
Aqui está a villa toda—mas as figuras mudaram.
São disformes. O proprio Santo cheirou
as velhas, sacudiu as velhas e atirou com as velhas
á rua. Do alto dos montes vomita coleras
sobre a villa passada de terrôr. O silencio redobra,
a dôr redobra. E com isto uma alegria a que
falta o resaibo de tristeza que se misturava a
todos os nossos sentimentos. Falta-lhe equilibrio
e harmonia. Tem a maior ferocidade. E produz o
mesmo efeito que este scenario d'assombro, que o
vento e a chuva esfarelam, e onde sobrenadam
restos. E com isto a voz que não nos dá tregoas
e que atinge o desespero:—Não grites, D. Leocadia,
não grites. Reconheço que és feita d'uma
peça só. Foste sempre inteiriça.—Tirei-o á bocca
para a manter...—Tiraste-o. Tomaste a vida a
serio. Entendeste sempre que pobres se educam
como pobre, passaste a vida a azedar a vida, e o
dever, que fizeste amargar aos outros, começou
por te amargar a ti. E a esta luz intoleravel as
coisas tomam a teus olhos aspectos ignorados...—Mas
então não há dever nenhum e eu não sou
a D. Leocadia, 29-3.º-D.?—Outro passo, D. Leocadia,
mais outro passo ainda...—Que exiges tu
de mim então, que não comprehendo? Que exiges
tu de mim contra a minha vontade? Que me aniquile?
Que me dispa para te vestir?—Não grites...—Que
exiges tu de mim de absurdo com
que não posso arcar? Um esforço sobrehumano?
Ou exiges apenas que eu faça o bem que posso,
uma parte do bem? Ou é o mal que tu exiges de
mim e o bem é um pecado? Melhor será deixar
a cada um a sua parte de desgraça e de colera?...
Eu posso talvez despir-me, posso cumprir o meu
dever, mas que mais exiges tu de mim com que,
ainda que queira, não posso! Que exiges tu de
mim?!—Mas, D. Leocadia, eu não exijo nada
de ti, cada um se aguenta conforme pode n'este
balanço...
—Mas então não há dever nenhum? não há
bem nenhum? Que fiz eu d'este sêr apagado e
inerte com um filho do meu filho na barriga?—Oh
D. Leocadia como tu educada sempre com
as mesmas palavras e no mesmo dever, um dia
de dever, outro dia de dever, e erguendo, no
silencio e no tedio, uma construcção de trapos e
de palavras que chegou ao céo e substituiu o céo—como
tu tapas os olhos com desespero para não
vêr! Hás-de aguentar com este pezo, que não
podemos suportar... Talvez fiquemos cegos, talvez
saiamos d'aqui aos gritos, os maniacos sem a
sua mania, os bons sem a sua bondade, e os pobres
só fél e vinagre, mas temos de ver o que não
nos estava destinado. Para largar a pelle, D. Leocadia,
até a cobra adoece. Tanto importa que
resolvas como que não resolvas o problema—todos
temos de dar o passo. A villa é a mesma villa,
as pedras as mesmas pedras. Nós mesmos não
mudamos. A nova vida obriga-nos apenas a discutir
o que estava ao nosso lado. Tudo existia
no mundo, até este desespero; tudo estava vivo,
até este grotesco. Nós é que estavamos mortos.
Passou no mundo a extranha ventania, e a
morte de tal maneira se entranhou na vida que
custa a separal-as. Mas já lá vão as formulas, os
alicerces e os usos... No alto, sobre este absurdo,
entre o borralho remexido, com a cinza e as faulhas
atiradas indiferentemente para a escuridão,
só a Via Lactea mudou de côr e alastra de lez
a lez na aboboda recurva uma nodoa viva de sangue.
25 de fevereiro
Dormi n'um taboado, cingiu-me uma cadeia.
Vesti-me com um sacco. Todos os dias arranquei
de mim proprio um farrapo e um grito. Arredei
tudo para ficar só comtigo no mundo. Sacrifiquei-te
tudo. Fiquei nu e Deus, nu e a vida
eterna. Tinha o horrôr da lepra, vivi com os leprosos.
Calquei todas as afeições inuteis, e se uma
andorinha me fizesse ninho na banca, como ao
frade d'Assis, torcia-lhe o pescoço. Encheste-me
a vida toda.
E agora a morte não existe, Deus não existe,
a vida eterna não existe. Uma luzinha e depois
a escuridão!
Tenho diante de mim esta força cega, este
absurdo a escorrer ternura e lepra, como uma primavéra
escorre morte, a irromper contra tudo e
apezar de tudo, d'uma profundidade cada vez
mais sofrega e cada vez maior. Não quero vêr
e hei-de por força vêr!
Este inferno, a que dei vida e a melhor
parte do meu sêr, não existe! Tinha conseguido
só te vêr a ti no mundo. Com uma palavra enchi
o vacuo. E este Deus por quem sacrifiquei toda
uma vida e a melhor parte da vida, não existe!
Foi tudo inutil. Dilacerei-me. Dei-me a mim proprio
em espectaculo. Assisti a esta tortura, e tu
não existias! Vivi fóra de mim mesmo e de repente
tive de me aceitar a mim mesmo. Toda a
minha vida foi inutil! tudo o que fiz foi inutil!
Foi grotesco e inutil!
Sacrifiquei tudo a quê? Sacrifiquei o melhor
da minha vida ao vacuo. Ofereci-lhe em espectaculo
a minha dôr. Mas então que existe? Qual
a directriz da minha vida? Qual a ilusão com que
hei-de encher isto? E para que hei-de viver? Qual
o sonho immenso capaz de substituir este sonho?
Que é Deus agora? Deus é tudo e nada. É uma
força. Deus é uma lei inexhoravel. Mas então tu
que podes tudo—tu não podes nada. És uma lei—e
hás-de cumprir essa lei. És um destino e
não podes dar um passo fóra d'esse destino. Não
vês, não ouves, não sentes. Eu sou uma insignificancia,
e valho mais do que tu. Porque eu grito,
eu sofro, eu atrevo-me. Amanhã quebro o meu
destino. Tenho uma consciencia. Sou ilogico e
absurdo. Debato-me. E tu, Deus, não passas d'uma
força cega e estupida. Não me serves de nada.
Preciso d'um Deus que me atenda, que me
escute, que saiba que sofro e que me veja sofrer.
Preciso d'um Deus que me salve ou que me condemne.
Preciso d'um Deus que me ampare. Preciso
d'uma inteligencia superior á minha e em
comunicação com a minha.
Um Deus-força, um Deus que não se comove
com os meus gritos nem com as minhas suplicas,
não me interessa. Um Deus que caminha para
um fim que não atinjo, é um Deus absurdo. De
que me serve este Deus? Não ouve os gritos—destróe;
não sente a dôr—destróe. Destróe e caminha.
É inalteravel. Ilude-nos. Deixa-nos um
segundo deante d'este espectaculo, para nos mergulhar
no nada. A nossa aspiração não cabe aqui:
entrevêmos, sonhamos, e, a meio do caminho,
talvez no inicio de sonho maior, destróe-nos.
Peor: tem uma necessidade de sofrimento cada
vez maior, de sofrimento inocente ou culpado.
Revê-se na dôr. Deus é cego.
Debalde grito—não há quem me ouça. Debalde
sofro—ninguem o detem. Tanto faz viver
como morrer. Deus, tu és monstruoso! Destróes—caminhas.
Destróes e não sentes. Vens do infinito,
e atraz de ti fica um infinito de dôres, uma
massa de gritos e de sêres espesinhados. Segues
e destróes. Constróes não sei o quê de portentoso
com que não posso arcar. D'essa pata monstruosa
escorre sempre ternura. Não é indiferente que
calques e recalques. Quanto mais espesinhas, mais
gritos, mais ternura nas arvores, mais estrellas
nos céus. Parece que a dôr é inseparavel da ternura,
como a morte é inseparavel da vida.—Até
aqui eu tinha uma taboa a que deitar a mão.
Até agora tinha um nome—agora não sei como
me chamo. Agora tenho medo de mim mesmo,
agora sinto-me isolado n'este cahos infinito, n'este
repelão desabalado, que me leva sem sentido e
sem fim. Eu e a noite—eu e o doido! Até agora
supunha-me tudo, eu e Deus, eu e a mão enorme
que me conduzia e amparava.—Sofras ou não sofras,
vaes para a mesma cóva, para o mesmo
nada, para o mesmo silencio. Antes o inferno!
antes o inferno! Tu que foste desgraçado, ou tu
que foste feliz, tu que te descarnaste até á medula
e tu que passaste indiferente pela desgraça—vaes
para a mesma cóva profunda, inutil, absurda
e muda. Antes o inferno, antes a dôr
pelos seculos dos seculos a vir, do que a mudez
e o horrivel silencio atroz!—Tudo foi indiferente
tudo é indiferente ao monstro que passa e esmaga,
que não ouve e esmaga, que não vê e esmaga.
Indiferentes os teus gritos e as tuas suplicas;
indiferentes a tua renuncia, a tua dôr, as tuas
lagrimas. Foi indiferente que fosses bom ou mau,
que tentasses subir ao topo do calvario. Não existe
na realidade nem vida nem morte—não há na
realidade senão chimera e dôr—não há na realidade
senão este monstro que passa e esmaga, que
caminha e esmaga.
Deus é cego! Deus é cego!
Emquanto te importaste comigo no mundo,
foste o meu unico pensamento e só tu me importavas
no mundo. Agora não posso, agora não
dou comtigo. Agora não te encontro. Agora sou
mais pequeno, e maior. Agora meto-me mêdo. Que
voz pode echoar e sobresaltar esta solidão infinita,
este mundo infinito, onde os gritos se não
ouvem a cem passos, e tudo que chamamos amargura,
dôr, grandeza, se apaga logo e se reduz a
zero? O meu dever já não é o mesmo dever, a
minha consciencia já não é a mesma
consciencia.
Só os meus instinctos se conservam de pé.
Acuso-te de teres comprometido a minha situação
no universo. Acuso-te de não me deixares
ser infame. Acuso-te de me dares o remorso. Acuso-te
de impedires o instincto. Acuso-te de teres
transformado a vida e criado a consciencia. Acuso-te
de me deixares sósinho com este peso em
cima, com a ideia da vida e com a ideia da morte.
Acuso-te de me levares para um calvario como
o teu, para me tornares grotesco, e de me colocares
em frente de ideias com que não posso
arcar. Acuso-te de não poder mais, e de me
instigares a mais ainda. De me obrigares a olhar
cara a cara o assombro que não existe; a morte
que não existe; a consciencia que não existe.
Subverteste o mundo. Forçaste-me a criar outro
mundo, a olhar para cima e a clamar no vacuo.
Acuso-te de não me deixares atascar á minha
vontade em lôdo, de não me deixares mentir,
matar, chafurdar. Acuso-te de me impelires
para cima, quando a minha vontade era ir para
o fundo. Acuso-te de não me deixares ser bicho.
Estou prompto para tudo. Desde que não há
Deus tudo são palavras. Desde que não há outra
vida, só há esta vida. Só há este minuto, esta
hora presente. Sinto-me capaz de tudo. Estive
annos a rezar a uma comoda, a falar a uma comoda,
a sofrer deante de uma comoda. Fui grotesco!
fui grotesco e tu não vias! fui grotesco e
tu não ouvias! fui grotesco e tu não existias!
Doe-me tudo, doe-me principalmente sentir-me
grotesco! sentir que perdi a vida e sou
grotesco! sentir que me deti e fiquei descarnado,
impotente e grotesco!
Por uma palavra fui absurdo. Por uma palavra
tenho atraz de mim uma architectura desconforme
e destroços que enchem o mundo—por
uma palavra e mais nada. Tu não existias!
Mas então—pergunta esta voz colerica—todo
o esforço é inutil? todo o sacrificio é inutil?
Creaste estas ideias falsas de dôr, de renuncia—e
não existes! Um santo viveu sobre uma columna:
«Desde que se punha o sol até que amanhecia
o dia seguinte, estava de pé na columna com as
mãos levantadas ao céo». Oitenta annos de grotesco.
Outro amaldiçoou-te: «Ai de ti cidade sensual
onde os demonios fizeram sua habitação!»—Grotesco!
grotesco! grotesco! Tu não existias!
Que se levantem todos do sepulchro, uns atraz
dos outros, que se erga o pó e te grite:—Tu
não existias! Chamaram-te. Imploraram-te. Carregaram
com a tua cruz. Andaram de rastros,
reduziram-se a osso e a lepra. Foram indiferentes
ao sofrimento e ao sarcasmo. Renunciaram
á vida, deram-te o espectaculo da sua dôr, a ti
que não existias! Das profundas do mundo vem
sempre a mesma ancia, das profundas da dôr
ergue-se sempre o mesmo grito. Isto tem alicerces
como nunca se cavaram alicerces. Cimentaram-n'os
os vivos e os mortos. E por mais esforços
que empregue—tu na realidade não existes.
Há outra coisa peor que está viva, outra coisa
monstruosa que avança dentro de nós e direita
a nós e que ninguem pode deter. Tu não existes
e eu tenho de caminhar por força, não sei para
que estupido destino. Tu não existes e obrigas-me
a avançar para um fim grotesco—desmedido e
grotesco—que não comprehendo nem abranjo. Tu
não existes—e estou nas tuas mãos. Tu não existes
e n'este mundo absurdo, onde não encontro
quem me condemne e quem me salve, há ainda
quem me empurre, quem me arraste e me faça
sofrer, uma força cega que trago comigo, que
me rodeia e me não larga!—Tens de existir por
força. Tens de existir pelo que sofremos e pelo
que creamos. És a unica luz n'esta escuridão cerrada,
a unica razão como verdade ou como mentira.
Existe aquillo que eu quero que exista, é verdade
aquilo que eu quero que seja verdade, aquilo
que eu e os meus mortos transformamos em verdade.
A fé é maior que todas as forças desabaladas,
mais viva que todas as vidas. Comprehendo a inutilidade
de todos os esforços e faço pela mentira,
o esforço que fazia pela verdade. Tenho de te manter
á custa de desespero.
Se não existes é forçoso que exista um dictador
moral, que extirpe sem piedade o pecado da terra.
Que não ouça os gritos e condemne, que realise o
pensamento de Saint-Just e obrigue os ricos a trabalhar
nas estradas, e cujo poder ignorado e oculto
submeta a humanidade a uma lei de ferro, e a salve
pela mentira, já que a não pôde salvar pela verdade.
Cinja-me a mesma cadeia, durma no mesmo
taboado, e empregue o mesmo esforço, por um sentimento
de desespero contra ti que me iludiste. Por
mim proprio, para fugir de mim e de ti que não
existes! Resisto, teimo. Só vejo treva e teimo.
Levo-me todos os dias ao mesmo espectaculo. Rasgo-me
com gritos. Ó desgraçado, aquillo em que
tu crês é mais negro que o negrume!
A mesma força cega nos impele. Queira ou
não queira sou levado para um fim que não comprehendo...
Cahi nas suas mãos! Outra coisa
me envolve a que não sei o nome, outra coisa que
espera de mim uma acção que ignoro, outra coisa
a quem eu me quero manifestar e que talvez se
queira manifestar, sem nos chegarmos a entender.
Rodeia-me. Sinto-a. Há occasiões em que me
toca. Ouço-lhe os passos. Debato-me. Constrange-me.
Há momentos em que me iludo, para fingir
que estou sósinho. Há momentos em que me
escarnece. Sufoca-me: vou ouvir-lhe os gritos—tenho
medo que me fale! Só ella vive no mundo,
só ella anda á tôa no mundo! Debalde apélo para
mil manhas, debalde tento mil explicações. Estou
nas suas mãos! estou nas suas mãos! Outra coisa
inexplicavel e immensa, temerosa e immensa, anda
por traz de mim, dentro de mim, outro abysmo
maior, outra coisa que sua e me escalda até á medula.
Procuro esquecer-me—ella aqui está ao pé
de mim. Na vida e na morte estou nas suas mãos
monstruosas. Sou a consciencia—tu és o impulso.
Sou a razão—e não sou nada. Lucto até á
morte, finjo até á morte, vou até ao fim dilacerado,
escarnecido e iludido.
Estou nas tuas mãos! estou nas tuas mãos!
1 de março
D. Leocadia o dever é um contrato. Um contrato
com um ente superior ou um contrato com
os outros. Há deveres para com Deus e deveres
para com os homens. O contrato com Deus falhou,
porque Deus não existe; o contrato com
os homens não o cumpro, porque, se me sujeito
a respeitar-lhe as clausulas sósinho, expoliam-me.
Restam os deveres para comtigo, os deveres perante
a tua propria consciencia. Oh D. Leocadia,
eis o fundamento da questão!... Tu tens passado
a vida com uma personagem importante, que te
julga, te aplaude ou te condemna, e para ella, e
só para ella, deste as tuas melhores representações.
Para a enganares, enganaste-te, mentiste
para lhe mentires. E reduzida a trapo, só desespero
e orgulho, atiraste-te aos pés d'essa avantesma
que não existe, D. Leocadia—que afinal
não existe! Como se consegue edificar uma vida
sobre um broche com um sujeito de suissas e uma
redoma de vidro com a imagem d'um santo, e
intercalar-lhe um drama baseado na ideia do devêr,
até ao ponto de se apoderar de ti até ao amago,
é que eu não comprehendo e admiro, ó sordida
antrópopiteca com uma cuia de retroz! O devêr
era frio e amargo e tu cumpriste-o; o devêr era
coçado e hirto e tu cumpriste-o. Foi a razão da
tua vida. Azedou-te e sustentou-te. Quando te vencias,
vencias-te com orgulho. Deu realidade á tua
existencia ephemera. Fôste ao mesmo tempo actor,
tablado e publico. Sem esse dialogo entre
ti e ti, entre uma D. Leocadia de cuia de retroz e
outra D. Leocadia de cuia de retroz, desesperado
e pertinaz, articulado ou mudo, que te fez de fél
e vinagre, a tua vida não tinha tido directriz.
Nas noites solitarias, em que não conseguias aquecer
os pés com dois pares de coturnos, aqueceu-te.
Deante do frio da pobreza teimaste:—Cumpri
sempre o meu devêr.—Deante da sordida velhice,
avançaste com autoridade:—Cumpri o meu
devêr.—E até deante da imagem pavorosa da
morte, exclamaste sem receio:—Cumpri sempre
o meu devêr!—E só tu sabes o que é cumprir o
devêr dos devêres, o que é tiral-o á bocca para o
meter na bocca que se detesta, entre quatro paredes
d'um terceiro andar (29-3.º-D), desde o principio
da vida até ao isolamento da cóva. Cumprir
o devêr minucioso e exigir o devêr minucioso.
Com elle dominaste-te e dominaste-a, gastaste-te
e gastaste-a, esqueceste a vida e a ti propria te
esqueceste. Com uma palavra e mais nada. Arreganha
os dentes se queres ao teu proprio phantasma...
Com uma palavra e mais nada. Subordinaste
a tua vida ao devêr, e o devêr não existe:
é um mundo d'orgulho e de escrupulos. Custa
a entrar na cachimonia que a côdea que tiraste
á bocca para a mantêres, o vestido que cortaste ao
teu proprio vestido para a vestires, as noites de
discussão interminavel, tu e o devêr—tudo fôsse
irrisorio e inutil. Mas foi. O devêr não existe,
o mundo construido com alicerces por
omnia seculo
seculorumnão existe D. Leocadia. Perdeste a vida
e transtornaste a vida atraz d'uma sombra. Restam-te
mil annos e um dia, para cumprires, se
queres, o teu devêr inutil, o teu devêr atroz, para
obedeceres a um
phantasma absurdo, a quem
dás
o ultimo leite d'um peito exhausto. Repara bem,
atende bem... Chegou o momento em que vaes
aparecer deante do universo com as tuas ideias
fundamentaes e sem o teu vestido de lemistre,
e, se te obstinas, mesmo no fundo da cóva e
com a bocca cheia de pó, hás-de gritar de desespero,
quando te compenetrares de que o devêr
postiço, o estupido devêr, fede que tresanda. Queiras
ou não queiras chegou a ocasião de me rir de
mim e de ti com dôr e lagrimas, e de te expôr tal
qual és, nua e reles, nua e grotesca... Despe-te
D. Leocadia!
Mas a figura verde não cede: traça o chale
como quem se fecha com os sete sêlos do Apocalipse
e exclama do alto do seu pedestal:—Eu
sou de muito bôa familia!
(O peor foi d'ella, o peor foi d'esta figura
secca e coçada, desagradavel e sêcca,
que eu conheço desde que me conheço, sempre
a prégar contrariada o seu devêr, sem um
dia de descanço e na eterna duvida:—Cumpriria
eu afinal o meu devêr?—Vai para a cóva farta
de cumprir o seu devêr e ignorando se na realidade
cumpriu o seu dever nem para que serve
cumpril-o. Ninguem a pode aturar. Odeia o devêr
que cumpre, e cumpre-o sem desviar um passo
como quem cumpre um destino. Até te digo mais:
o que lhe custa a abandonar na hora extrema não
é a tua, mas a sua companhia. Olha-o com desvanecimento.
Faz-lhe falta. Mais falta do que Deus,
essa avantesma de cuia de retroz com quem passou
os melhores dias d'uma existencia incerta.
É talvez o seu verdadeiro Christo, que continua,
mesmo sem existencia real, a reclamar que cumpra
as clausulas d'um contrato já rôto. Tem de
cumprir o seu devêr não acreditando no seu devêr.
A D. Leocadia é uma figura secca e coçada, enorme
e secca, vêrde e grotesca, que desvia o olhar
da vida, para cumprir, seja como fôr, o devêr estupido,
o devêr atroz. Tenho vontade de chorar)...
Foi buscal-a ao asylo e trouxe-a para casa,
com o cabelo cortado como um recruta. Deitou-lhe
a mão e fechou-se com ella por dentro. As
paredes tomadas de frio salitroso, transiram de
frio sepulchral. Quando se atreveu a rir, cortou-lhe
logo o riso cerce—para não se tornar a rir,
ao primeiro assômo de vontade, cortou-lhe logo
a vontade rente—para não tornar a ter vontade;
e, quando cahiu de cama, postou-se dia e noite
á sua cabeceira, hirta e solemne como o devêr. Um
pobre não tem vontade, um pobre não tem orgulho.
Nem pode tel-o; veio ao mundo para cumprir o seu
devêr. Veio ao mundo para sêr obediente. Pobres
educam-se como pobres e ricos educam-se como
ricos.
Só tu D. Leocadia te deste ao goso superior
de têres uma alma á tua descripção. E isto sem
gritos, com um ou outro soluço logo represado,
noite e dia, dia e noite, e um olhar d'espanto,
uma luz que se extingue até á impassibilidade,
n'um terceiro andar de rua da Bitesga. Levou
tempo a morrer essa ternura dorida, que teimou
em vir á superficie, até que a D. Leocadia a conseguiu
esmagar sob o calcanhar de ferro—para
sempre, para todo o sempre. Por fim uma curvou
a cabeça submissa, e a outra ergueu a cabeça
triumphante.—Para a livrar da fome, para a subtrahir
á desgraça. Se não fosse eu ia parar a uma
viella. Cumpri o meu devêr.—Sim, e para a
crear, para que não fosse parar a uma viella,
o vestido que lhe durava uma eternidade, teve
de lhe durar outra eternidade ainda; a côdea,
que mal chegava para lhe matar a fome, repartiu-a
com a orphã, guardando para si o bocado
mais pequeno. Cumpriu o seu devêr de ferro, o
devêr que pesa toneladas, e cumpriu-o sem desviar
uma polegada da linha do devêr. Obrigou-a
a levantar-se de noite, mas levantou-se primeiro
do que ella. Pobres querem-se como pobres, sempre
na regra e no devêr e sem levantarem a cabeça.
Quando a orphã a olhou transida de dôr e a D.
Leocadia lhe bradou:—Cumpre sempre o teu devêr!—já
ella tinha cumprido o seu devêr até
final. Passaram-se annos ou seculos, morreram
as aranhas de velhice no fundo dos saguões deshabitados;
nas paredes mestras de granito a camada
de frio salitroso juntou-se camada de frio sepulchral,
e a camada do frio sepulchral sobrepoz-se
camada de frio deshumano. E sempre tu
cumpriste o teu devêr e ella cumpriu o seu devêr
d'hora a hora como um pendulo. Incutiste-lh-o
tão fundo que ahi a tens na tua frente, palida e
inerte, com um filho do teu filho na barriga...
Não te queixes D. Leocadia, porque afinal foste
buscal-a ao asylo para te sentires maior no teu
orgulho. A desgraça dos outros não comove, a
desgraça alheia consola. Mas tinhas de cumprir
o teu devêr: ao magestoso edificio que architectavas,
faltava-lhe ainda o remate. A côdea que tiraste
á bocca manteve-te melhor que se a comesses,
e o vestido que lhe deste, agasalhou-te melhor
que se o vestisses. Engrandeceste. Amargaste e
doiraste. É verdade que tambem resequiste. Espera,
espera... Resequiste, mas como o mundo
é extraordinario, como a vida é prodiga e teimosa
e irrompe até das pedras, extrahiste não
sei que ternura azêda do mais duro de todos os
peitos—ó contraditoria D. Leocadia, 29-3.º-D., que
eu não chego a decifrar. Não podes com isto, não
explicas isto, não aturas isto! Não comprehendes.
Nem eu.—Tambem eu D. Leocadia! Lé com cré. Tambem
eu, se me liberto d'isto que não tem significação,
não encontro nada que tenha significação.
Chegamos ambos ao ponto e estamos ambos estarrecidos.
Moeste-te e moeste-me por uma palavra
apenas... Olha bem para ti! olha bem para dentro
de ti! Moras na rua da Bitesga, entre duas ou
tres curiosidades seculares. Usas um vestido de
lemistre, luvas d'algodão no fio e um broche pendurado
ao pescoço. Não sei por que bamburrio
se te encasquetou no toutiço a ideia de Deus e do
devêr, e de que o infinito tem de dar importancia
ao teu problema, aos teus flatos e ao teu broche,
onde um retrato de suissas não tira de mim os
olhos de peixe... Não mastigues. Bem sei que só
nós, tu e eu, eu e tu, com o teu vestido de lemistre,
é que somos capazes de contrahir noções,
talvez erroneas mas profundas, do bem e do mal.
Os outros bichos teem mais que fazer. Mas é por
isso mesmo D. Leocadia que te cahiram os dentes
postiços e que começas, n'esta nova situação,
a comprehender que o bem e o mal é tudo a mesma
coisa. Talvez a gente não possa fazer o bem senão
a si mesmo...—Mas então—e crispa a mão sobre
o broche—talvez o bem seja uma monstruosidade,
talvez todos tenhamos de destruir. O mal é que
eu sinto. Para o mal é que eu fui creada!—E sua
d'aflição toda a tinta que lá tem dentro, quando
outra D. Leocadia irrompe da carcassa da D. Leocadia:—Pergunto-te
se o que tu não consegues
é prolongar o mal. Pergunto-te se esse orgulho
humano, se esse orgulho sobrehumano, não é um
mal maior, e essa piedade que sentes não é por ti
que a sentes.—E eu, e eu pergunto-te se a minha
verdade falsa não me serviu melhor que a tua
verdade amarga.—Pergunto-te a ti—e sacode-a—se
não é isto que eu sinto cá de dentro, do fundo
dos fundos. Pergunto-te de que te serve a mentira
com que cohabitavas. Nunca conseguiste bem
nenhum, nunca cumpriste o teu devêr. Logo que
te puz a ti e a ella na mesma situação de egualdade
já não pudeste cumprir o teu devêr.
D. Leocadia, quem recebe o bem fica sempre
humilhado. O bem constrange. O que tu chamas
a piedade, e o bem põe quem o recebe na situação
de te morder as mãos. E continuar a fazer o
bem é elevar-te pelo bem que fazes e rebaixar-me
pelo bem que recebo. Acabas por gastar o que
em mim há de melhor. Oh D. Leocadia, se eu podesse—eu
é que te fazia o bem, para tu veres
o que é o bem recebido, o bem agradecido e o bem
amargurado. Antes tu me fizesses mal, D. Leocadia,
porque o mal põe-me ao teu nivel, e o bem
acostuma o desgraçado a ser mais desgraçado
ainda. Degrada-o. Põe-no na tua dependencia e na
dependencia da desgraça. Cria uma
superioridade,
a tua, e um azedume, o meu. Classifica
para todo o sempre. Estou perdido se não reajo
em odio.—Mas então...—e a D. Leocadia atira-se
com desespero á outra D. Leocadia, e interrompe-a,
primeiro com mudez, depois com gritos:—Ia
parar a uma viella!—Avança e repete
mais alto:—Ir parar a uma viella é o que há
de peor no mundo!—E a outra torna com escarneo
e diz-lhe ao ouvido não sei que segredo temeroso—e
a D. Leocadia torce-se com pavor
mas sustenta:—É o que há de peor no mundo!
é o que há de peor no mundo!—E com dôr, com
angustia, com desespero, pergunta a si propria
(a outra teima e não a larga):—É o que há
de peor no mundo!?—Eu não sei se é o que
há de peor no mundo, não sei se reduzir uma creatura,
a trapo é o que há de peor no mundo. A tua
piedade amesquinha-me. O que eu reclamo é o
meu logar na vida e o meu quinhão de desgraça.
Não m'o tires! Mas ella é d'aço. Não transige e
protesta:
—Matei-lhe a fome.
—Mataste-lhe a fome mas não podeste amal-a.
—Nem posso! nem posso! nem posso!
E encara-se mais atonita e mais verde, mais
resoluta e mais verde, sem desviar o olhar.
3 de março
Sombras. Tres cabeças monstruosas projectadas
n'um muro, que se aproximam e afastam
depois de confundidas. A velha a um canto agacha-se
aos pés da filha. E ao lado as tres sombras
fundem-se n'uma unica sombra disforme. Duas,
tres horas talvez... A sombra da velha reduz-se
a nada, a menos que nada, á sombra da dôr.
Por fim erguem-se, mergulham e dissolvem-se na
caligem da noite, as tres sombras dos ladrões
e as sombras das mulheres, a quem não distingo
as feições... Eu já vi isto algures, em
outro mundo onde me custa a entrar. Metem-me
medo. E não é só medo, é dôr. Vivi com estas
sombras n'um pesadelo, de que sahi atonito e
exhausto, n'um sonho em que tudo isto fazia parte
integrante da minha propria alma, e que sonhei
lavado em lagrimas. As tres grandes sombras
levam, não sei para que destino, as outras
enrodilhadas.
Duas, tres horas da madrugada talvez...
Caminham sem se lhes ouvir os passos á beira do
rio que corre para o mar desde o principio do
mundo.
E o silencio é cada vez maior. Só a agua fala
nos buracos poidos das pedras, em dialogos que
nunca cessam, n'um côro de vozes ininterruptas
e indistintas—ameaças, suplicas e gemidos. A
Joanna cala-se: só se lhe ouve um anh... anh...
de cançasso, como se arrastasse na escuridão uma
cruz do tamanho da escuridão. A seu lado o
côro inutil da agua corre sempre para o mar,
com gritos, risos, vaias e apupos.
Uma voz, a do velho ladrão compadecido,
diz-lhe baixinho:
—A tua filha... Se teimas levantas a desgraça
a teus pés.
E lá deslisam no escuro, e o rio sempre a
correr e a prégar o mesmo presagio de dôr no
chape que chape onde se percebem échos de todas
as desgraças que sucederam no mundo, levando
para o mar todas as lagrimas que se choraram
no mundo.
Outra vóz no escuro:
—Ou tens de sofrer mil mortes na tua filha,
ou tens de me fazer a entrega. Agora escolhe.
Uma ou outra. Agora ouve: ella é nada n'estas
mãos.—E pergunta-lhe:—Tu és ou não uma coisa
que me pertence? Posso matar-te?—Podes—E
essa voz rouca, essa voz implacavel torna:—E
ou... Tu ouves velha? A mim ninguem me engana...
Tu riste? (Ella faz anh... anh...—cançasso
ou dôr)—Aqui tens... Ouve mais... Tu
ouves ou finges? Tu que dizes? A velha é rica
tambem te cabe uma codea. Ninguem te pede
mais nada. Eu cá é que executo.
E lança a dois metros um jacto de saliva.
A Joanna recua: avançam logo e não a largam
as sombras que a envolvem.
—Tu hás-de abrir-nos por força a porta!
—Estafermo! estafermo!
—Tu abres-nos a porta. Á velha deito-lhe a
mão ao gasganete e não dá pio. Aperto no escuro—eeeh...—e
sinto no escuro um estremeção e
mais nada...
—Jesus!...
—Ó pandorca! És um trapo! és peor que um
trapo!...
—Deixem a velhota sósinha comigo, que nós
dois entendemo-nos—intervem o ladrão mais velho.
E leva-a suspensa pelo braço como quem
leva uma pluma.
Cobre-os o céo profundo, onde palpita uma
vida intensa. Arqueia-se sobre a velha e o ladrão
de lez a lez a abobada recurva. Ao longe seguem-n'os
sempre as outras sombras temerosas.
—Estupida! estupida! Passaste a vida a servil-os.
Aproveitaram-te e deitam-te fóra. Só te
deram restos e enchiam-se até aos gorgomilos.
E tu apegaste e tu defendel-os!... Ouve tu abres-nos
devagarinho a porta...
—Jesus Christo veio ao mundo para nos salvar!...
—Isso! Até me metes nojo! Isso! Até me
fazes rir! Só tu, calhordas, eras capaz de me
fazer rir n'esta hora aziaga. Pilhasse-te eu no
meu tempo!...—E aperta-lhe o braço contra o
peito, leva no ar aquelle molho de ossos e ri-se
com escarneo.—Tu lavas, tu esfregas, tu comes
os restos, tu até cheiras mal! Tu metes nojo. E
hesitas... Que se te pede? Que nos abras a porta
e mais nada. Só há uma ocasião na vida, toca
a aproveital-a.... Se nos abres a porta, ficamos
ricos.—Abraça-a. Vomita uma risada. Peor que
matal-a, enlameia-a. Aquillo vem do fundo da
terra, vem do boqueirão da noite e traz escarneo
pegado. Sobre isto chove: parece que toda a
lama fetida da rua subiu ao céo para tornar a
cahir. A Joanna geme. Uma risada e um gemido
que se amalgamam, gemido que se extingue para
depois subir mais alto, para se confundir com a
risada, sempre o mesmo gemido, sempre a mesma
risada. E a noite é pó de desgraça, cada vez mais
moído e mais negro.
—Não te cabe n'esse caco que ninguem tem
pena de ti. Escuta o que te digo. Rouba-a, estupida!
rouba-a! Na cadeia tambem se come pão.
Ao menos lá enches essa barriga. Abres-nos devagarinho
a porta...
—O que havia de dizer a minha senhora!
—Ninguem no sabe. E ouve: se não nos abres
a porta, a tua filha nunca mais a vês.
O silencio e a noite com outras noites em
cima, as sombras que caminham, e aquella sombra
humilde cada vêz mais pequena, reduzida á
sombra da sombra e do escarneo. E teima, e teima
contra a desgraça, contra as injurias e as vozes
do rio. Há milhares d'annos que o dialogo nas
pedras dura, sempre nas mesmas ameaças, que
vem do fundo da agua e a Joanna não ouve. Devagar
palpa a algibeira e tira do bolso e entranha
na pele um pedaço de ferro gasto e poido.
Outra vóz na noite:
—Mãe!
A vida d'essa mão de rachar lenha,
d'essa mão de arvore e dôr! Como ella se
contrae, emquanto a Joanna caminha absorta.
Talvez uma hesitação instantanea, e depois, sem
que ninguem repare, a mão abre-se e deixa cahir
a chave nas profundas da agua, que continua
a correr e a prégar, a correr e a falar ás pedras
e ás estrellas nas mesmas palavras inuteis, ao
lado da vida sem destino.
Chegam emfim á muralha do predio, e outra
vêz as sombras se juntam n'uma unica sombra,
outra vêz se ouve aquella vóz sahir da noite:
—Mãe, olhe p'ra mim! olhe bem p'ra mim!
E a velha sente na cara tres bafos monstruosos,
ao mesmo tempo que as vozes roucas reclamam:
—A porta... Depressa! depressa!
—A chave
perdi-a.
Um repelão e um grito, um grito que se afasta
e sae da noite, cada vez mais longe e cada vêz
mais alto...
Sobre este sêr humilde encarniça-se mais o
sonho. Lá vae a mulher da esfrega empurrando
o farrapo monstruoso que se agita na noite.
A sombra e a mulher da esfrega, o espanto e a
mulher da esfrega, o sonho doirado de grandes
azas esfarrapadas no negrume e as mãos encortiçadas
de lavar a louça, a vida phrenetica e a
vida humilde. Uma bocca enorme d'um lado, a
voz da Joanna do outro, sentimentos cahoticos
impossiveis de traduzir em palavras, o que exprime
a natureza impulsiva, o que responde uma
creatura agarrada á ideia do sacrificio.—Anda
para deante.—Estupida! estupida!—A bondade entranhou-se-lhe
até ao amago. Tudo está nos seus
logares: as coisas simples e as coisas eternas,
e há outra coisa que ella não sabe exprimir,
que a alma d'esta mulher não abrange: a intrusão
do sonho na sua vida
humilde. Bronco e
sonho. Até agora só com a desgraça arca, agora
o doirado tinge-a. Sacode-se como um cão molhado.
Debalde tenta desfazer-se do sonho immenso
que se lhe pega: irrompe em palavras
baixinhas, hesitantes, que voltam atraz. Uma pausa
e o monologo recomeça logo. Há não sei que de
monstruoso no mundo, que bebe todas as lagrimas
e leva todos os gritos. E não se farta. Há
não sei quê que reclama dôr. Toda a noite se
desespera. A desgraça sua, a desgraça trôpega e
ridicula. A desgraça enche a noite de esgares.
Depois o sonho desgrenha-se. Depois sacode-a
uma rajada, e lá torna, sem uma palavra, sem
um grito, a grande sombra que se envolve em
si mesmo e a si mesmo se estorcega. A desgraça
sua de aflição sem poder exprimir-se. E quando
a dôr se concentra, quando a dôr se torce como
quem torce um farrapo e a velha não pode—a
velha irrompe n'uma toada estupida. Mais doirado,
mais fundo...
Caminha e depara com a D. Restituta, que
atravessou a vida com o guarda-chuva incolume
e que faz gestos desordenados no escuro:
—Acuso! acuso! acuso!
—Senhora D. Restituta...
A senhora D. Restituta está cheia de lama.
Tem a penna do quico partida: é uma figura feita
com tres traços de tinta e algumas manchas de
desespero. O sonho doira-a, esfarrapa-a tambem.
A penna em frangalhos agita-se como um pendão
de revolta, esgarçado e chamuscado. Todas as
vontades a compeliram e a esmagaram—quer retomar
a forma primitiva. Dir-se-hia que cresce
na noite, e que a sua bocca é uma bocarra cada
vez maior, para prégar, para açular, para vomitar
injurias. Sómente não emite outro som senão
este:—Acuso!—a velha gasta, a velha inutil,
a D. Restituta da Piedade Sardinha.
—Senhora D. Restituta...
A outra não vê, não ouve, não mexe.
—Minha senhora...
—Acuso!
—...para o que se vive n'este mundo não
paga a pena ruindades.
Debalde a Joanna lhe fala. Resta deante do
sonho com a mandibula despegada e o velho
guarda-chuva que conserva intacto desde a primeira
virgindade—teve duas—metido debaixo
do braço. Nem uma nem outra entendem aquillo.
Uma empurra, afasta de si o sonho com as mãos
de lavar a loiça, a outra com as mãos pacientes,
as mãos diaphanas da mentira. Tem feito sempre
todas as vontades, e se a figura um momento se
engrandece, amarfanha-se logo, como um trapo
suspenso que se deixa cahir ao chão.
—Acuso! acuso! acuso! De repelão—mete
para dentro! uma vergonha mete p'r'o sacco!
desprezo, escrupulo, fome—mete tudo p'r'o sacco!
Para um sacco sem fundo. Passei tudo, passei
mortes para o poder crear e nunca pude dizer
que tinha um filho. Para o crear, para o poder
crear nunca pude vêr o meu filho. Meti tudo p'r'o
sacco, sem poder abrir bico, senão matavam-me á
fome... E nunca pude vêr o meu filho, senão
matavam-me á fome. Criei-o longe para o poder
crear, criei-o como pude, de vergonha, de restos,
de codeas, de dizer a tudo que sim. E este
filho! este filho que nunca pude vêr, vi-o agora!
Este filho que criei de mentira, este filho que criei
d'abjecção, sem nunca o poder vêr, vi-o agora!
Este filho que tinha sonhado ás escondidas, com a
bocca tapada para não gritar: Tenho um filho, tambem
tenho um filho!—vi-o! vi-o! vi-o!
Meti tudo
p'r'o sacco! meti o diabo no sacco! Só a noite me
ficava livre para
sonhar com elle, para o vêr
rico, para o vêr como os filhos das outras... Aqui
está a Restituta que é idiota, aqui está a Restituta
que é um poço sem fundo. Deante d'ella
pode dizer-se tudo, a Restituta serve para tudo,
a Restituta mete tudo para o saco. Cala-se que é
o que lhe vale—mete a viola no saco. Só a Restituta
sabe o que se passa, o que está no prégo
e o que está no fundo das almas. Calei tudo,
disse a tudo que sim para o poder crear. Mete
p'r'o saco! mete tudo p'r'o saco! mete a viola no
saco!—E n'um crescendo de desespero:—Acuso!
acuso! acuso!
Debate-se a Joanna n'uma cogitação a que não
suporta o pezo. É como se pela primeira vez
désse com a vida e quizesse atalhar a vida. Tudo
para ella mudou de expressão: a desgraça muda
de expressão, a filha muda de expressão. E o
sonho envolve-a, deforma-a, besunta-a. Sente-se-lhe
o ranger dos gorgomilos.
A dôr descarna-a e redul-a ás linhas principaes,
á secca realidade. Um ulular de tempestade,
e tudo quieto. Nunca o concavo se concentrou
em
mais serenidade. Gritos, um desabar
monstruoso, e este sêr abjecto, que, como uma coisa
que andou a rasto por todos os sitios suspeitos,
não tem fórma nem côr: tem cheiro, e dois olhos
de tanto pasmo que fazem aflição. Desapareceu
tudo: ficou a velha, ficou a desgraça aos tropeções
pela vida fóra.
É como se tivessem metido a dôr dentro de
um saco e déssem com elle pelas paredes.
Aqui está a mulher da esfrega e a desgraça
que tem os seus direitos e não os perde nem
transige. Não a larga tambem o sonho. Agora
é que ella destinge todo o doirado e toda a agua
de lavar a louça. Agora é que ella ouve uma bocca
enorme falar no escuro, e queda-se atonita e confusa
feita trapo e horrôr.
—Para que é que vocemecê me creou?
Um soluço, um ranger d'arvore que se deita
abaixo, um estalido de cruz que não suporta o pezo.
—Antes vocemecê me tivesse esganado ao
parir. O que eu tenho chorado!
—Anh!...
—Olhe p'ra mim! olhe p'ra mim!
É um sêr diferente, um sêr aparte, que a
Joanna vê pela primeira vez. Como pôde creal-o
aos seus peitos? Crear vida é crear um grito que
não se extingue? que nunca mais se cala? Sempre
o mesmo grito:—Para o que tu me creaste!
para o que tu me creaste!—Juntem a isto o
escarneo e todas as vózes que lhe prégam:—Estupida!
estupida! Toda a gente se ri de ti!—Andou
nas mãos dos ladrões.—Rouba! rouba!...—E
sente ainda nas mãos um pedaço de ferro
gasto e poido como o aço, que entranha na pelle.
Um gemido lucta com uma risada e tenta subir
mais alto, cada vez mais alto... Juntem a isto
que a Joanna quer ser má e não pode, e misturem
a isto humildade. Aqueceu a vida a bafo.
Incutiram-lhe para sempre a subordinação, só lá
tem dentro ternura. Faz o gesto de quem tenta
abrir uma porta; quer levantar a cabeça, mas
tanto tem obedecido que curva logo a cabeça. Ridiculo
sobre ridiculo.
Agora vejo a figura, vejo-a agora completa.
Pouco e pouco tomou relevo, tornou-se humana.
Sumiu-se a velha tonta, caldeou-a a desgraça. Á
força de gritos represados obsidia-me. Engrandece-a
a mentira e a dôr. E aquillo persegue-a, encarniça-se
sobre a velha tropega, n'um espectaculo
ao mesmo tempo desmedido e reles. A velha
d'um lado, do outro a grande sombra tragica que
subverteu o mundo; o escantilhão sôfrego, e o
gesto que a mulher da esfrega faz para o afastar
de si. Ao mesmo tempo a alma dorida, a ternura
que a não larga, e o contacto feroz que não explica
e a que sente o pezo.—Para o que tu me
creaste! para o que tu me creaste!—Atormenta-a,
sufoca-a, e como não pode mais, como não comprehende—não
consegue—e como aquillo se encarniça,
a Joanna mostra-lhe as mãos enormes,
as mãos roídas, as mãos só dôr...
Tem as mãos como cepos.