30 de abril
Donde emerge esta figura encharcada de lama,
menos a sombrinha, que, apezar da dôr, conseguiu
atravessar incolume todos os solavancos?
A que se atreve depois de ver o filho? Cheguei
a ter a visão nitida da montanha de pó acumulada
sobre ella, e do desespero immenso para a
romper.
Sabe tudo, vae dizer tudo. Tem alli as cautellas
do prego e a malinha de mão onde levava
escondidos, a enterrar, os fetos da D. Engracia;
só ella pode desvendar os vicios occultos e o
sitio onde a D. Bibliotheca tinha a sua fistula.
Conhece as miserias e os segredos das familias
correctas. Vae emfim dizer tudo, quando lhe surge
o filho que não via há annos. Eil-o creado de
orgulho e de codeas. Submete-se logo, mais coçada
e mais gasta, diante d'aquella obra prima real e
tangivel.—Pois sim, pois sim...—Ahi tens tu o
teu sonho alimentado de codeas e transformado
em realidade. Ahi está patente o sonho que sonhaste
com inveja, o sonho que sonhaste com fél,
aos ais, com a bocca tapada, o sonho feito de farrapos,
que ocultaste de toda a gente para poder
viver. Ahi está patente, á luz do sol, como os
sonhos dos outros, de ambição e de imperio, o
sonho que ninguem viu sonhar, e que sustentaste
á custa da tua propria alma—ó Restituta
da Piedade Sardinha!
...—Sejamos logicos mãe—diz elle—na vida
é preciso ser logico. A mãe creou-me escondido,
eu, por meu lado, disse sempre que não tinha
mãe. Não hei-de agora que vou casar apresental-a:—«Aqui
está a minha mãe que me creou de esmolas,
que me creou escondido».
—Tens razão, filho.
—O que é preciso é que a mãe desapareça.
O que é preciso é que a mãe, que tem sido logica
deixando-me fazer carreira, não estrague agora
tudo. Quem soube sacrificar-se para me engrandecer,
deve continuar a sacrificar-se. Não lhe
peço mais nada: desapareça.
—Desapareço.
Ella propria tem por aquella obra monumental
de egoismo, o respeito que teve sempre por
as pessoas consideraveis. Está alli na sua frente
de chapeu lustroso e luvas esticadas. Acrescentem
a isto amor. Levou annos a creal-o escondido, e
revê-se embevecida nos cartões em que elle assigna
Monfalcão dos Monfalcões (Sardinha). De
resto não lhe custa nada desaparecer. Não lhe
custa mesmo nada. É mais uma ordem a cumprir.
Obedece. Obedece, como obedeceu sempre a
D. Hermengarda, á D. Theodora, á D. Herminia,
como obedeceu a todas as pessoas ricas e de consideração,
como obedeceu á vida que fez d'ella
um trapo. Apenas um minuto e esse minuto
chega. Um minuto e mais nada. Nesse minuto a
figura contrahida reconhece a figura de trapos e
de restos. Nesse unico minuto de duvida a D.
Restituta vive mil annos e um dia e concentra-se
em horror e desespero. É o minuto supremo em
que a velha Pois Sim se sente arrastada ao céo
e ao inferno, ouve vozes que falam ao mesmo
tempo, e ella mesmo pronuncia palavras que
nunca ousou pronunciar, nem no recanto mais
obscuro da sua alma.—Vi-o! vi-o! vi-o! Que é
isto? que é isto que se me péga e se me entranhou
na obediencia e na mentira? O que é isto que
não comprehendo e que me doe? Desespero e
pois sim, sofreguidão e pois sim, doirado e pois
sim! Eu não posso com isto amargo e doirado!
Eu só posso mentir, só posso obedecer, só posso
com restos, com os restos dos restos. Tenho vivido
desde o principio do mundo a escorrer fél e pois
sim. Tenho sido sempre Pois Sim, só Pois Sim,
e agora sou Pois Sim e desespero!
Desespero, e n'este desespero uma primavéra
de restos, uma primavéra abortada, que só chega
a deitar uma flôr miudinha como a flôr do escalheiro.—Mente!
mente! mentir não custa nada!—Mas
a D. Restituta já não pode mentir ainda
que queira. Quer dizer que não, e com ella todos os
mortos, todos os mortos que não se atreveram
a sonhar, que não abranjeram o sonho, dizem á
uma que sim, dizem com desespero que sim. Sonho
e pois sim não cabem no mesmo sacco.
Não cabem no mesmo sacco primavéra e pois
sim. A sofreguidão atingiu o auge e tu viste-o!
viste-o!...
Salta laré, perirone perirote!... A sacudidela
de revolta extingue-se, sae da lucta exhausta,
com todo o pezo da montanha em cima, diminuida,
reduzida outra vez a pois sim... Esses
minutos que passou só e contemplando a ruina
de toda a sua vida foram amargos como fél.—Mete
o diabo no sacco!—Tão cansada e tão gasta
que nem as feições lhe reconheço; tão amarga
e tão ridicula, tão pois sim, que da D. Restituta
só resta uma expressão de dôr, de dôr mutilada
a dizer que sim, sempre que sim—a dizer
a tudo que sim.
—Mete tudo no sacco, mete-o com lagrimas
requentadas e o fél da submissão. Mete a tua
alma e a minha alma, gastas de
dizerem a tudo
que sim. Mete o diabo no sacco! mete tudo p'ra
o sacco, desespero e doirado, sofreguidão e pois
sim!
Balouça ao vento, a uma restea de luar, pendurado
n'uma corda, o cadaver da D. Restituta,
que parece dizer pela ultima vez que sim—para
que o filho possa casar com a filha do conselheiro
Barata. Balouça ao vento n'um sexto andar—esquerdo.
Morre ignorada e desconhecida quem
toda a vida viveu de codeas, para lhe assegurar
o futuro e a assignatura com brazão e elmo,
Monfalcão dos Monfalcões (Sardinha). Da mão
crispada ninguem lhe arranca a photographia de
quando elle era pequeno, com o fardamento da
Escola Academica, como um guarda-portão em
miniatura.
A sombrinha lá está aberta ao lado da
cama, por causa da humidade, e pela janela, aberta
sobre o luar, veem-se os montes onde o Santo
colerico não cessa de latir injurias sobre a villa
agachada de terror.
6 de maio
Chegou. Abriu a mais bella, a mais fecunda,
a mais doirada de todas as primavéras—a primavéra
eterna. Revolveu a terra e cobriu os sêres
e as coisas de flôres, por camadas ininterruptas
e successivas, com todas as côres e todos os entontecimentos,
todas as infamias e todas as tintas—com
todos os desesperos. Está aqui tambem
presente a floresta apodrecida... As arvores
não se veem, mas estão tambem aqui... Está
aqui a floresta apodrecida, e com ella as fórmas
de sonho e as fórmas de dôr mutilada que vagueiam
na profundidade das profundidades, os contactos
viscosos, as mãos geladas ainda em esboço,
os sêres cegos e com gritos, porque não sabem
ainda viver, as fórmas hesitantes do pezadelo...
É aqui que corre e escorre o verde, o roxo e
o lilaz—os tons violentos e os tons apagados.
Até as arvores são sonhos. Atravessaram o inverno
com sonho contido, com o sonho humilde
com que carregam há seculos. E até esses sonhos
se transformaram em realidade. Realisou-se emfim
o milagre: as arvores chegam ao céo.
10 de maio
O que eu sinto é o desespero de não haver
dôr eterna. A dôr pela eternidade das eternidades
era ainda viver. Sofrêr sempre, com a consciencia
do sofrimento, é viver sempre. Antes o
inferno! antes o inferno! o inferno em logar do
nada.
O inferno era ainda o céo.
Alguma coisa nos conduz e nos leva até á
morte. Rodeia-nos. Impele-nos. Não a vêmos e
está ao nosso lado. Só ella existe no mundo. Estou
nas suas mãos com desespero. Extasia-nos.
Aturde-nos. Escarnece-nos.
Tu não existes! tu não existes! E não há
mãos mais crueis que as tuas. És abjecta. És
cega e phrenetica. Levas-nos enrodilhados e envolvidos.
E queira ou não queira estou nas tuas
mãos. Só tu existes no mundo.
Nem a vida nem a morte, nem o tempo nem
Deus. A unica realidade és tu—fétida e immensa,
sofrega e horrivel. Gritas? hás-de gritar pela
eternidade das eternidades. Fazes parte para todo
o sempre d'esta força que vem do principio da
vida e se projecta nos confins da vida, com bocca
ou sem bocca, capaz de todo o sonho e de toda
a belleza—para nada! para nada!... Na minha
alma reflecte-se o dialogo do universo como a
claridade na agua para me entontecer.
Cheguei ao ponto em que tenho medo. Fecho
as janellas, fecho tudo. Outra vêz a primavéra!
outra vêz o escarneo! O que tu queres é iludir-me.
A um dia de nevoa sucede um dia doirado. E
extasias-me. Se abro a porta, a noite está cheia
de estrellas e de vozes. No fim da tarde, quando
a agua tem um som mais lindo, a neblina dá encanto
á minha vida e aos grandes montes compactos.
Alheias-me, fazes-me sonhar, levas-me escarnecido
até á morte. Atraz de ti só há dôr
e o desconhecido. Mascaras-te para me iludires.
Mais uma vez tentas inebriar-me com o teu arôma;
mais uma vez os pinheiros sacodem no ar o
seu polen sulfuroso... Não quero vêr! não posso
vêr! Não te posso vêr! A vida é amarga, a
primavéra é secca e inutil. Fecho tudo para não
te vêr. Fecho tudo para não vêr a primavéra e
sinto-a atravez dos muros.
Oh o grande oceano, a torrente impetuosa—sempre!
sempre—o mar de mãos fluidas que me
envolvem—o mar do silencio, o grande mar
inexgotavel que deslisa no silencio—como tudo
isto me mete medo!
Reconheço-te força, mas não me importas nada.
Este deus faz o que elle quer e não o que eu
quero. Este deus desordenado e imenso, não é
feito á minha imagem e semilhança. Não me
ouve nem me atende. Não o posso desviar da
sua marcha á custa de suplicas e de gritos. Não
se apieda. Não sei se tem o sentimento da justiça.
Talvez tenha outro sentimento de justiça—outro
maior—outro que não abranjo. Este deus não
me é nada. Para elle é vão tudo o que se grita
no mundo, tudo o que se sofre no mundo é vão.
Todos os santos são grotescos. Todos, os que te
chamaram e suplicaram, todos os que te ofereceram
a renuncia e a dôr, o fizeram no vacuo.
Pai, tu não existias! E não existindo impeles-me,
entonteces-me e esmagas-me. Estou nas tuas mãos
e não as vejo. Crias-me e não existes.
Eu sei, eu sinto que estás ahi desconforme,
vivo, e obstinado—mas não és o meu deus. Tanto
faz esfacelar-me contra este muro compacto, como
conservar-me quieto, indiferente e calado. Tu estás
ahi patente, vivo como a vida, mas não me
conheces nem eu te conheço a ti. Não nos chegamos
a entender. Não tens nome. E estou nas
tuas mãos.
Estou nas tuas mãos e não me interessas.
O que me interessava eras tu. Tu, que não existes,
entranhaste-te-me na carne e no osso, de
tal forma que não me livro de ti. Não existes e
dominas-me. Não existes e torturas-me. Não existes
e só tu és a razão da minha vida, dos meus
actos, e do meu sêr. Não existes e só tu existes.
Tenho mil annos e um dia para prégar deante
do vacuo que não existes. Para te chamar
sabendo que não ouves. Disponho de mil annos
e um dia de desespero, de mil annos e um dia deante
da mudez, a clamar, a prégar, a mentir.
O resto são phrases e mais nada. Só a vida
futura, só a vida presente sob o teu olhar tinha
finalidade e razão de sêr. O resto são phrases
com que me procuras iludir e com que te procuro
iludir. Porque se um dia, sós a sós
com a tua alma, te detiveste deante d'estas palavras—a
vida eterna e a morte eterna, não
como palavras mas como realidades, nunca mais
podeste desviar o olhar.
O que me interessava eras tu porque para,
que tu existas é preciso que eu exista tambem.
Eu não posso passar sem ti, mas tu não podes
passar sem mim.
Se tu não existes, estou nas mãos da força
obstinada e cega. O que me interessava era o espectaculo
da minha propria alma, o dialogo dos
dias e das noites entre mim e ti, a immensidade
temerosa mas viva, de que eu fazia parte.
E agora, reconheço-o, toda a dôr resulta de
eu criar um universo que não existe. De tu me
creares a mim e de eu te crear a ti. O resto do
universo ignora a vida e a morte. Toda a dôr
resulta d'este esforço para a mentira. De eu não
não me submeter á força desabalada e cega. De
eu têr inventado um Mundo maior que o teu e
diferente do teu, para o sobrepor ao mundo cahotico,
ao mundo atroz. De mentirmos com obstinação
até á cova, ao céo e ás estrellas. D'estas
duas creações antagonicas resulta a maior dôr
humana. Se eu não tivesse criado outra vida imaginaria,
tu passavas e calcavas-me, tu passavas e
esmagavas-me, mas não me cabia em lote a morte
e a consciencia da morte, a vida e a consciencia
da vida. Mas creando a mentira tragica sou maior
do que tu.
Resta-me o bem. Mas fazer o bem para quê
se tudo acaba alli, se não ha outra vida consciente,
se não tenho de responder perante ti pelos
meus actos? E mesmo diante do escantilhão
sofrego, o que é o bem e o mal? A que eu tenho
de obedecer é ao instincto e mais nada. Se não
estás ahi para me julgar e para me ouvir, que
importa fazer isto ou fazer exactamente o contrario?
Só uma coisa resta: iludir os desgraçados,
leval-os para uma mentira cada vez maior, para
que possam suportar a vida. Não se trata do bem
ou do mal, do justo ou do injusto—trata-se de
mentir, de mentir sempre—de mentir cada vez
mais.
Estou nas tuas mãos... Esta noite limpida
como um diamante polido não existe. O que existe
é atroz... Nem a primavéra existe, e tudo se
entreabre em entontecimento azul. Nem esta harmonia
dos mundos, que eu criei, existe. O que
existe é atroz. Nem este sonho em que ando envolvido
e iludido. Só tu existes no mundo e me
trazes estonteado no mundo. Fecho-me para te
não vêr e estou nas tuas mãos. Se eu pudesse
ouvir-te, ouvia todos os gritos que se soltaram
no mundo, se eu pudesse encarar-te em toda a
tua plenitude—via o negrume monstruoso e cahotico
avançando para mim, o repelão doirado
levando tudo diante de si, no desespero, na vida
e na morte, esmagando sempre e renovando sempre,
para crear mais dôr. Não te fartas. Isto é
desconhecido, é absurdo, é eterno—mas a belleza
tragica da vida ephemera consiste em te resistir,
todo o nosso afan em crear uma mentira para
opor a tua verdade—de que resulte dôr. Tu podes
tudo como verdade. Estou nas tuas mãos. Eu
posso tudo como mentira, e só assim saio das
tuas mãos. A verdade é a dissolução e a morte,
és tu; a mentira é a vida. Resisto-te para poder
viver; para poder viver crio a mentira tragica.
Se cedo ao teu impulso, se escuto as tuas vozes,
levas-me para uma vida inferior; se te oponho a
mentira, caminho por uma via dolorosa: engrandeço-me.
Estou nas tuas mãos—e nego-te. E o
homem é tanto maior quanto mais alto afirma
que existes. Crispa-se-lhe a bocca, dilacera-se até
ás ultimas fibras, lucta, grita e sae em farrapos
das tuas mãos.
Todos os heróes são martyres, todos os santos
foram iludidos até á morte.
20 de maio
Toda a villa, a villa toda, a que a luz artificial
dava relevo, desata a gritar como se lhe arrancassem
a pelle. Gritam as velhas, grita o Santo
em frente da sombra que se lhe introduziu na vida.
Grita a paciencia e a mentira, grita a hipocrisia.
Desapareceram as figuras e só ficam gritos na
noite. Outro passo—outro grito. É a custo que me
separo d'este sêr com quem cohabitei sempre. O
escarneo está aqui; está aqui o escarneo e o rancor.
Gritam no mundo subvertido. Mais gritos.
Que dever? O dever de te matar? O dever de te
cuspir? Matal-a, mas matal-a é até um caso de
consciencia, para que a minha vida seja a minha
vida.—E os gritos augmentam—gritos de dôr,
gritos d'espanto, gritos sufocados de colera, mais
gritos de sêres que se não querem separar da
antiga carcassa.
Tudo isto caminhava para um fim, tudo foi
desviado ao mesmo tempo d'esse fim; tudo isto
se alimentava de certas regras, tudo avança desesperado,
aos gritos, ancioso e doloroso:—Pois
és tu! és tu! E o interesse és tu! e o amor
és tu!—O desespero augmenta, os gritos redobram.
As creaturas com que deparo são temerosas.
Uns desatam a rir com rancor e sarcasmos
sobre sarcasmos. Há-os que se reduzem a baba e
a pó.—O quê, tudo isto era tão pequeno! Pois
passei metade da existencia, annos atraz do annos,
ao lado d'esta coisa feroz e esplendida, absorto
em ninharia! E nunca dei pelo assombro, pela
vertigem! Atrevo-me a matar, atrevo-me a odiar,
atrevo-me a escarnecer-te...—Mas então—pergunto—eu
fui o homem escrupuloso, eu fui o homem
honesto que luctei toda a vida com os maus
instinctos, n'um combate perpetuo—para isto?
Pergunto—para isto? Alli aquella desata aos berros
e sêres caminham transfigurados; sêres que
nunca sonharam, materia impenetravel, deparam
pela primeira vez com o sonho, o que os deixa
atonitos. Ninguem pode encarar-se até ao fundo.
A tua meticulosidade é de ferro, está de tal maneira
entranhada no teu sêr que sem ella não existes.
Pois até a tua meticulosidade se há-de dissolver.
E tu sem o habito não existes, nem tu sem o dever,
nem tu sem a consciencia. A D. Ursula que passou
a vida a esfregar, a polir, a limpar os moveis
reluzentes, deita-os todos a esmo do terceiro andar
á rua.—Adoro-a mas não posso separar o
interesse do amôr—não posso separal-os. Está
dito e redito. No fundo do meu pensamento, bem
no fundo de meu horrivel pensamento, uma outra
ideia lucta, avança e não a posso arredar. Estraga-me
a vida toda.—O mundo moral está com escriptos
e reduz-se a uma loja escura, com teias
de aranha no tecto.
Vemo-nos! vemo-nos que é o peor! Porque
na verdade eu nunca me tinha visto n'esta horrivel
nudez sem arrepanhar á pressa os vestidos.
Eu metia-me medo. E agora vemo-nos! vemo-nos!
Todos os sêres são temerosos. Mesmo grotescos
são tragicos. Há n'este trapo que creaste, n'esta
corôa de lata que foi a tua vida, não sei o quê
que sua espanto. E dôr! e dôr na tua duvida ridicula,
no vislumbre, no minuto de sonho que entrevi
nos teus olhos. Este momento tragico, esta
pausa, este horror em que cada um se vê na sua
essencia, em que cada sêr se encontra sós a sós
com a sua propria alma, reduzido sem artificios
á sua propria alma, só tem outro a que se compare,
aquelle em que cada um vê a alma dos outros.
Porque, por melhor ou peor que tenhamos
julgado os outros, vimol-os sempre atravez de nós
mesmos.
O que ahi está é temeroso, sêres estranhos;
sêres que, se dão mais um passo, nem eu nem
tu podemos encarar com elles. Andam aqui interesses—e
outra coisa. Com mil palavras diversas
e ignobeis, mil boccas que te empurram para
a infamia—outra coisa. Tens de confessal-o. Não
é a consciencia—não é o remorso—não é o medo.
É uma coisa inexplicavel e immensa, profunda e
immensa, que assiste a este espectaculo sem dizer
palavra—e espera... És immundo, és a vida.
Não te sei definir, não te comprehendo. Se te levo
até ao ultimo extremo perco o pé... Não sei
até onde vae o meu horrivel pensamento. Até
aqui tinha limites, agora nem o meu pensamento
nem o teu encontram limites. Matar ou deixar
de matar é tudo a mesma coisa. É tudo inutil.
Agora não! agora não me quero ver nem te quero
ver! Estamos no céo; e no inferno, D. Idalina e a
langonha. Estamos no céo e no inferno, Anacleto,
e tu ainda te enroscas na tua inalteravel correcção.
Não te desmanches! Estamos emfim todos no céo
e no inferno, e todos á uma percebemos que a
vida foi inutil. É com gritos que a D. Leocadia
reconhece que o escrupulo não existe; é com espanto
que ella percebe que o bem que fez foi inutil;
é com horror que a D. Leocadia comprehende
que só lhe resta o vacuo. A inteiriça D. Leocadia
berra no infinito, depois de se desfazer de todos
os sentimentos falsos:—Mas eu cumpri sempre
o meu dever!—Há-de-te servir de muito!—E
aqui te encontras diante desta coisa que não foi
feita para ti, aqui estás tu atirada de repente para
uma acção sem limites, com os cabelos em pé,—tu
D. Leocadia e o infinito; tu D. Leocadia que
moravas entre quatro paredes a rever salitre, e
agora tens de morar no céo e no inferno. O drama
é tu, D. Leocadia, não te poderes desfazer da
outra D. Leocadia; o drama supremo é tu seres ao
mesmo tempo, D. Leocadia 29-3.º-D e D. Leocadia
Infinito.—Reduzi-me a isto e reduzi-a a isto!
Cheguei ao ponto! cheguei ao ponto! Cheguei ao
ponto em que te vejo cara a cara e percebo que
tudo é absurdo e inutil! Talvez o meu dever fosse
fazer o mal. Atraz de mim, atraz de ti, andavam
duas figuras, que, por mais esforços que fizessem,
nunca se chegaram a entender!—A tua vida,
a minha vida, foi um perpetuo inferno. Tiveste
um filho e apegaste-te mais ao teu dever que ao
teu filho. Dedicaste-lhe as tuas economias. Por o
dever esqueceste interesses e paixões, e na tua
alma solitaria só coube o exaspero e o dever.
Mais nada. E á medida que a vida te inutilisou
as ambições e te gastou os sonhos, mais te apegaste
a essa palavra, que foi a unica razão da
tua existencia. Tambem eu! tambem eu! Fechaste-te
com ella no silencio gelido da villa, onde,
nas noites sem fim, se chegava a ouvir o contacto
das aranhas devorando-se com volupia no
fundo dos saguões. Todos os dias pezaste o pão
que lhe déste, mas déste-lho. E, tendo perdido
tudo, só o dever te restou no mundo—e a orfã,
a quem já não consegues reconhecer as feições.
A mesma coisa nos dilacerou a ambos, a mesma
coisa dolorosa nos encheu de colera, á medida que
caminhavamos para a velhice e para a morte.
E aqui chegaste, aqui cheguei, ambos ridiculos
e amargos, sahindo d'uma lucta desesperada com
outra coisa que nunca quizemos vêr. Ambos grotescos
e de pé, tu e eu, eu e tu, com o teu
broche, onde o mesmo sujeito de suissas—lembrança
do primeiro matrimonio!—não tira de
mim os olhos aguados de peixe. Ambos tendo
atravessado n'uma taboa o mais tragico de todos
os mares, e no fundo a mesma dôr, no fundo o
mesmo fél, no fundo o mesmo esforço para sustentarmos
sobre a cabeça esta abobada que não
existe. O que não queriamos vêr era a noite...—Vontade
tinha eu de fazer o mal, o que me
não atrevia era a fazel-o.—Oh D. Leocadia dá
um passo, outro passo ainda e mergulhas na beatitude
como quem cumpre um destino.—Cessou
o debate.—Não fales mais, D. Leocadia. Está
tudo dito...
A figura que ahi vem mastiga em secco,
com uma camada de verde e outra camada de
sonho. A figura que ahi vem, d'um egoismo concentrado,
e a que adherem ainda os mil e um nadas
da sua existencia
anterior de molusco, avança
hirta para mim, inteiriça como uma barra de
ferro. Ainda cheira a môfo, mas os olhos entranham-se-lhe
n'um vasto panorama inexplorado.
Vê para dentro, cada vez mais sofrega e o seu
sonho não tem limites. O mal não tem limites.
Tem diante de si mil annos e um dia para essa
absorpção dolorosa e tragica. Abarca o mundo.
Ó D. Leocadia agora é que tu chegaste ao amago!
É um conflicto entre ti e os outros mortos,
uma lucta num tablado que abrange o universo.
D'ahi o seu prestigio—d'ahi o immenso scenario
que se desdobra deante da D. Leocadia absorta
n'esse panorama sem limites...
Só há no céo e no inferno outro espectro peor.
É este sêr sem nome, pedra e desespero, noite e
desespero, que se imobilisa na inutilidade de todos
os esforços.
Todos gritam de desespero no céo e no inferno.
Confundem-se mil boccas, as coisas mais
altas e as coisas mais reles. Aqui está a villa
toda, virada do avesso, os ridiculos sem vergonha
do ridiculo e os infames lambendo a infamia.
Aqui está a ilusão—e aqui está em pello
a D. Possidonia, que ainda conserva na cabeça
o chapeu de plumas. Aqui está a ordem e aqui
está a desordem, as palavras inuteis e a inutil
burandanga, toda a formula, todo o calvario da
vida para subir até a morte—e aqui nos vemos
uns aos outros tal qual somos, admiraveis, obscenos,
reles, todos da mesma lama e com as mesmas
chagas.—Eras tu força estupida e cega que me
enchias de ilusão para poder suportar a vida?
Eras tu o interesse, eras tu o amôr?... Aqui estão
d'uma banda as formulas (e só agora comprehendo
a sua necessidade) aqui está do outro lado a vida;
aqui está o que se chamava a honra, e o que
se chamava o dever. Ó amigos eis aqui todo
o nosso grotesco, todas as nossas ambições, todas
as nossas vaidades—e com ellas o absurdo e a
logica. E eis aqui o meu drama e o teu drama.
Os grandes desmoronamentos, a colera duns e
o terror dos outros. Eis aqui o céo e o inferno,
o maximo de ilusões e a ausencia completa de ilusões.
Aqui as vaias, o sarcasmo, os apupos, os grandes
insultos e a suprema mixordia. Desmoronou-se
tudo, todas as fachadas e todos os artificios.
Gritos, mais gritos, mais sarcasmos e insultos.—Como
eu te reconheço! e a ti! e a ti!—E a
ti que és a figura silenciosa que há tanto tempo
me persegues, calada e triste, o que eras a peor.
Tu que curvas a cabeça, sem nunca te pronunciares,
tu que sofres quando eu sofro, que te envolves
em silencio quando persisto n'este caminho doloroso—como
te reconheço!—Dá gritos! podes gritar
á tua vontade!
Agora estou nu e toda a mentira me é impossivel;
agora estou nu e todas as palavras são inuteis;
agora estou nu deante da immensidade e não
posso ao mesmo tempo com o céo e o inferno.
Agora é peor, agora tanto faz resistir um dia
como um seculo. Agora é peor: não nos podemos
ver. Como dois amigos que se encontram passados
muitos annos, perdemos todos os pontos de
contacto. Estamos aqui a representar: a verdade
é que não nos podemos ver. Eis-nos bichos em
frente de bichos.
25 de maio
Eis emfim a villa sonho, a villa phantasma.
Reparem nas pedras e no que ellas exprimem,
na alvenaria e castanho assentes com outro destino...
Ruas lageadas, recantos onde nunca entrou
o sol. Paredes mestras. Silencio e humidade até
á medula, gestos lentos, habitos regrados. Uma
rua desce até á egreja de cantaria lavrada. Um
predio enorme avança sobre a ruella onde os passos
echoam. Cresce aqui uma vegetação especial de sepulchro,
e a sombra absorvida pelas muralhas da Sé
exhala-se em bafo passado um seculo. Os alicerces
são temerosos, as traves d'uma casa davam para
a construcção d'um bairro. E tudo isto se entranhou
de salitre, de interesse e de odio. Em tudo
isto há uma mescla de inutilidade, de fé e de sonho.
Tudo isto está cimentado para seculos. Cada
barrote foi pregado com um destino, cada bloco
metido na terra para se lhe erguer em cima não
uma parede, mas uma ideia, uma vida, uma alma—tudo
isto tem uma camada de bolor e se impregnou
de desespero. Até os sepulchros foram
construidos para a eternidade. A pedra depois de
talhada, é uma expressão. Entro na cathedral. Silencio
e um cheirinho a floresta apodrecida. As
lages estão gastas d'um lado pelos passos dos vivos,
do outro pelo contacto dos mortos. Tudo
aqui gira em torno da mesma ideia... A pedra
esboroa-se, mas eu contemplo-a viva, com um
povo de estatuas em cima, com um povo de mortos
em baixo. Nos alicerces uma geração, outra
geração, todos apodrecendo juntos na mesma terra
misturada e revolvida. A parte exterior é maravilhosa,
a parte subterranea é mais maravilhosa
ainda. É a unica raiz que se conserva intacta.
Aqui não andam só os vivos—andam tambem
os mortos. A villa é povoada pelos que se agitam
n'uma existencia transitoria e baça, e pelos
outros que se impõem como se estivessem vivos.
Tudo está ligado e confundido. Sobre as casas há
outra edificação, e uma trave ideal que o caruncho
roe une todas as construcções vulgares. Sob
um grito outro grito, sob uma pedra outra pedra.
Debalde todos os dias repelimos os mortos—todos
os dias os mortos se misturam á nossa vida.
E não nos largam.
Eis a villa abjecta, a villa banal onde se praticam
todos os dias as mesmas acções e se repetem
todos os dias os mesmos gestos... Aqui só
há um pensamento fundamental: fugir á morte,
protestar contra a morte, que é a mais viva de
de todas as realidades, que é talvez a unica realidade.
Protestar, contra as forças desabaladas,
pelo sonho, em espirito ou em pedra, que se erga
deante do Destino e desafie o Destino. Atravez da
paciencia e da mentira, todo o esforço do homem
tende para outro homem, para o homem ideal,
para a figura de sonho, que há-de sêr um dia a
creação dos vivos e dos mortos—o sonho realisado—o
universo realisado. A vida ideal, a vida artificial,
como a do granito, representa a mesma
tentativa da mentira contra a verdade e a obstinação
sobrehumana dos mortos para suprimirem a
morte.
A vida em si é o mais profundo de todos os
horrores, é o esforço inconsciente da larva repetindo
as mesmas acções instinctivas, que o destino
nos impõe. Tudo que nos rodeia é monstruoso;
o que nos rodeia de negrume vae desabar sobre
nós, reclamando dôr, reclamando gritos e sustentando-se
de gritos. Separa-nos um fio. Só com a
condição de não vermos a realidade é que podemos
viver. Para a esconder erguemos a cathedral immensa,
reconstruimos o universo todos os dias
pelo esforço dos vivos e das gerações passadas.
E toda esta mentira tragica a levantamos até ao
céo a poder de palavras e com a força magnetica
das palavras.
Não só os sentimentos criam palavras, tambem
as palavras criam sentimentos. As palavras formam
uma architectura de ferro. São a vida e quasi
toda a nossa vida—a razão e a essencia d'esta barafunda.
É com palavras que construimos o mundo.
É com palavras que os mortos se nos impõem.
É com palavras, que são apenas sons, que tudo edificamos
na vida. Mas agora que os valores mudaram,
de que nos servem estas palavras? É preciso
crear outras, empregar outras, obscuras, terriveis,
em carne viva, que traduzam a colera, o instincto
e o espanto.
Mas se tudo são palavras e de palavras nos
sustentamos, o que nos resta afinal? Gritos em
frente de gritos, instinctos em frente de instinctos.
Fica a morte á solta e o instincto á solta.
Ficam os mortos de pé—a cohorte que não queriamos
vêr, erguida, como o vento ergue a poeira,
até aos confins da vida.
A D. Adelia não existe, o que aqui está vem de
muito longe. Está aqui a paciencia com um chale,
a mentira com uma cuia de retroz—estão
aqui espectros. O que aqui está, com o infinito
em cima e o
infinito em baixo, são phantasmas.
Todos praticam as mesmas acções banaes entre a
vida e a morte, mas eu vejo o riso sem boca e
ouço o grito de dôr, emquanto as mascaras se
transformam e a materia se decompõe. Eu vejo
o que ha dentro deste sêr, que não tem limites, o
que ha dentro deste sêr de real e verdadeiro. Cada
um assume proporções temerosas. Cahem lá dentro
palavras, sentimentos, sonho—é um poço sem fundo,
que vae até á raiz da vida. Á superficie todos
nós nos conhecemos. Depois ha outra camada,
outra depois. Depois um bafo. Ninguem sabe do
que é capaz, ninguem se conhece a si proprio, quanto
mais aos outros, e só á superficie ou lá para
muito fundo, é que nos tocamos todos, como as arvores
duma floresta—no céo e no interior da
terra. Do mais baixo ainda veem terrores, ancias,
desespero...
Agora o homem existe em toda a sua plenitude.
Anda hoje no universo como andou sempre
no universo. Para elle não há passado nem futuro
porque elle é o passado e o futuro. A villa tomou
outras proporções e sente-se n'outras mãos.
Quem lhe dera ser insignificante e grotesca! quem
lhe dera não vêr! Para não te aturar vida sôfrega
e doirada, tive de me revestir de casca como as arvores,
porque no principio todos fomos phantasmas.
E agora não sou eu quem falo—são elles
que falam! O que as figuras representam vem do
fundo dos fundos—o que ellas teem de transitorio
e o que ellas teem de temeroso, desde o homem
que não bole junto das fazendas petrificadas, até á
impenetravel D. Ursula, que remoe entre dentes
o pavôr. O que me parecia gelatinoso é uma fôrça
immensa, este habito ridiculo um principio de sonho.
A paciencia e a mentira são aspectos da dôr,
e a bisca joga-se entre o pelago e o pelago. Os
penantes usados, as ceremonias grotescas, passam-se
entre phantasmas e phantasmas, n'um ciclone
de desespero e gritos. Cada boca fala por outras
bocas, e a D. Penaricia, columna de Israel do fel
e vinagre, é uma figura tremenda. Todos os dramas
teem a mesma assignatura—Shakespeare. As acções
veem dos confins dos seculos e o proprio mal
não é um acto individual. O crime é sempre a acção
impulsiva ou premeditada dos mortos. Para praticar
um crime é preciso revolver camadas de
phantasmas. Desperta echos adormecidos até não
sei que profundidades. Põe em debate este mundo
e o outro mundo, e d'ahi a fascinação que exerce
em todas as almas. A vasa não na jogam só figuras
somiticas: de cada sêr paciente e sordido arranca-se
outro sêr ilimitado. Vejo no escuro as outras
figuras atentas sobre o jogo... Estão aqui as velhas
amarradas por quinhentos annos á mesma
mesa da bisca. Está a inveja, e a inveja esverdeada
torce-se sob o olhar da magestosa Theodora.
Está a paciencia, e a paciencia sorri deante da
magestosa Theodora. Está aqui a mesa de jogo
projectada no infinito, com sêres que se não podem
vêr, e que hão-de cohabitar acorrentados por quinhentos
annos. Ha ocasiões em que vomitam as
peores injurias; ás vezes torcem-se e soltam ais
sobre ais represos.—Jogo!—E a bisca segue pela
eternidade fora.—Corto!—Tambem eu atravessei
o inferno e tenho saudades do inferno!—E a
magestosa Theodora parece calcinada pelo fogo do
inferno. É o momento decisivo, quando, de pé, em
roda da mesa, onde fôram insignificantes, se vêem
umas ás outras. Peor momento é quando a si proprias
se vêem, quando se chocam como ferros,
e seus olhos adquirem tal percepção que não são
só ellas que olham, quando ao espanto se junta espanto
e não são só ellas que falam, mas muitas
outras vozes, e não só as suas figuras gesticulam
mas muitas outras figuras. Um momento, um seculo,
e eil-as até aos confins. Todas as bôccas
prégam de cada vez mais fundo...
Cada bocca se abre no escuro como se fosse
o abismo; as boccas falam por muitas boccas que
não tem nada de humanas e que moem e remoem
com escarneo e baba; por boccas franzidas só
pelle e espuma; por boccas sem dentes; por boccas
ascorosas que tentam ser boccas e que escorrem
veneno; por boccas que se desesperam de
ser boccas, para se fazerem ouvir.
E o candieiro escorre o mesmo petroleo sobre
ellas e sobre as figuras invisiveis que arfam de
desespero até á raiz da vida...
N'esse instante vêmos todos os sêres extraordinarios
que não tinham entrada no mundo;
n'esse instante toda a villa está de pé, a villa
tragica, com os vivos e os mortos e o drama
profundo das almas que toca no céo e no inferno.
Eis a villa como não torna a aparecer outra na terra,
e que dura um minuto e um seculo. Cada figura
escorre dôr, não só a dôr propria, mas a do
tumulo, cada figura é um sêr d'espanto. Até tu,
no relampago antes de te curvares sobre a meia
que já tem vinte metros de comprido, ó prima
Angelica, ó figura tremenda de inepcia, que
tambem achaste sabôr á vida e logo te fechaste
com elle na escuridão cerrada da idiotia—até
tu, pela maneira como apertaste a mandibula,
pelo olhar que se fitou no meu olhar e veio da
espessura dos seculos, descobriste não sei que mar
nunca d'antes navegado, não sei que dôr transida
e doirada, não sei que mysterio que não fala, que
não pode falar, mas que está, real e patente,
aqui ao lado e na nossa companhia...
Há—sentimol-o! vêmol-o!—forças que tacteiam
para lá e augmentam o nosso desespero.
É talvez Deus que nos quer falar e que não
pode, ou que fala e não o entendemos.
Não são só os grandes fluidos que se entrechocam
sobre a villa, há outra coisa que a todos
os momentos nos reclama... E é um milagre
que toda esta architectura—que não
existe! que não existe!—se sustente de pé e
no vacuo, baseada em palavras e sons, e que
joguemos a bisca de tres na encrusilhada da vida
e da morte. Mais: é um milagre muito maior ainda
que consigamos cerrar os ouvidos á força que
bate estonteada á nossa volta e que faz esforços
desesperados para communicar comnosco. Não tem
bocca para falar, mas tenta, n'uma dôr muda,
fazer-nos comprehender algumas noções que transformariam
o universo. Ás vezes estamos por um
fio...—perdemo-nos logo n'uma escuridão que
tem leguas de distancia. Bom é cerrarmos os
ouvidos. Se chegassemos a entendel-a tudo isto
desaparecia no ar...
Chegamos ao ponto! chegamos ao ponto em
que não nos distinguimos na floresta apodrecida!
A vila é immensa, as figuras são immensas, só
dôr e sonho—jacto que vae de polo a polo e
onde não existe nem vida nem morte. Na floresta
putrefacta o tempo e o espaço desapareceram:
só existem sêres estranhos e arvores estranhas.
O que nós viamos eram sombras projectadas
n'um muro. Mais um passo e todos sahimos
doirados d'este mergulho no sonho—outro
passo ainda e só existe uma fôrça frenetica e
immensa, desesperada e immensa...
Agora é que ella anda á solta! agora é que
ella anda á solta!
15 de setembro
Preciso aqui duma arvore... Uma arvore que
dê sombra e ternura—uma velha arvore carcomida.
Nunca pude passar sem essa sombra inocente.
Meio morto de cansaço e de mentira deito-me
ao pé d'ella e renasço. Todos a aproveitam—para
o lume—para traves—para o caixão.
É filha de cavadores e neta de pedreiros:
obstina-se e por fim afaz-se.
A dôr afeiçoa-a. Aceita tudo: a vida e a
morte com a mesma resignação. E depois desta
vida acceita ainda outra com o purgatorio e o
inferno.
Pouco e pouco a ternura torna á supuração.
A filha desapareceu. Sabe que a D. Hermengarda,
pobre e cachetica, pára n'um hospicio, e vae lá
buscal-a. Caso extraordinario: vê mais naturalmente
a desgraça da filha do que a pobreza da
D. Hermengarda. É a sua senhora. Limpa-lhe a
baba e cata-lhe o piolho; bezunta-a de pomada,
e nos seus olhos de cão há uma inexprimivel serenidade.
A D. Hermengarda ainda tem exigencias.
Manda e a Joanna obedece. Melhor: trabalha
para lhe dar de comer. Está afeita. Faz
mais: a Joanna agora rouba. Ella, que sacrificou a
filha, rouba seis vintens, doze vintens... De dia
carrega bahus, á noite o quadro é este: a veneravel
D. Hermengarda n'uma cadeira de rodas,
com um resto de quico na cabeça, e a Joanna
extactica a satisfazer-lhe as impertinencias.
Não ouve, creio mesmo que não pensa. Os
seus gestos são conduzidos por outras mãos, atraz
d'ella há outras figuras até á raiz da vida, que
embalaram berços, choraram sobre a desgraça e
tomaram para si o quinhão mais pesado. Até já
nem é Joanna que fala, mesmo para contar a
sua historia. Ou só, ou quando encontra alguem,
a Joanna divaga:
—E vae eu disse-lhe... Fui ter com a filha
e vae eu disse-lhe:—Deita-me ahi pão quente
n'uma malga com meio quartilho de vinho.—E
vae ella disse-me:—Tenho ahi pão velho, não
enxerto o outro.—E vae eu disse-lhe:—As bagadas
que tenho chorado caiam sobre ti.
Não sabe mais que dizer. Aquella fastidiosa
perlenga ouviu-a a outras velhas e vem do
principio do mundo: aplica-a para exprimir a
sua dôr. Se lhe falam dos ladrões finge que
não entende. Se insistem, a Joanna responde com
olhos de pasmo:
—Os ladrões davam-me uma tigela de caldo.
Não soube nada na vida, não foi nada na
vida, não percebeu nada da vida. Oh vida denegrida,
monotona e sem sabor, de louça para lavar,
de carretos para fazer, afundaste-a, esfarrapaste-a,
amarfanhaste-a, engrandeceste-a!...
Deante do universo é menos que um caco, é
um pobre coração usado pela dôr. O ultimo gesto
que a Joanna faz, é o seu primeiro gesto, mas
esboçado apenas, como quem segue um fio já
muito tenue de sonho que não tem força para
levar até ao fim, o de aconchegar uma creança ao
peito—gesto que vem de seculos em seculos, desde
o inicio do mundo, repetido pelas successivas
imagens de mulheres já desfeitas em pó, repetido
no futuro por milhares de sêres incriados.
O trabalho da vida é persistente e occulto.
Gasta, desgasta, como uma pedra sobre outra pedra
Não é só por fóra que creamos rugas: por
dentro a usura é immensa. Só a Joanna conserva
a ternura intacta. O que havia a dizer era como
se formou esta alma e eu não sei dizel-o. Por fóra
farrapos, por dentro vida. O tojo mais bravio
deita mais flôr. Um fio d'agua que reluz prende-me
horas e transforma as pedras. A ternura da
Joanna modifica-lhe a fealdade, pega-se-lhe ás
mãos e aos trapos que a vestem. O que eu não
dou é a expressão, o que eu não dou é a luz.
Afundo-a, amolgo-a. E no entanto a figura impõe-se-me
pela expressão maxima da dôr. A Joanna
debruça-se sobre uma grandeza com que não posso
arcar. Resiste, lucta e atreve-se. Augmenta. E
tambem só ella no mundo não se importa de
morrer.
Talvez a morte seja para ella a vida.
Esta luzinha viaja há muitos milhares d'annos.
É como a faúlha d'uma estrella, perdida na
immensidão, que lhe custa a chegar á terra. E
caminha sempre, humilde e obstinada, atravez do
infinito—sempre. Por isso ella teimava:—O menino
está vivo!...—Por vezes parece que se
apaga. Reaparece atravez da obscuridade espessa
acumulada há seculos. Talvez toda a grandeza
d'esta mulher esteja n'isto: é que ella é conduzida
por uma mão enorme. A sua ternura é instinctiva,
a sua humildade é instinctiva... Pare.
Pare a desgraça. Cria. É a velha que tira a
codea á bocca para a dar aos netos. É a velha
que encontraste há bocado no caminho, do olhos
aguados. Cada vez maior; traz este carreto á
cabeça desde o principio do mundo, e ainda o não
poude pousar. Embala os berços. Pega nas creanças
ao collo. Desde o principio do mundo que
estas mãos asperas amparam. Não é uma figura—é
uma serie de figuras...